Capitã Marvel (2019)

Por André Dick

O mais recente filme do universo MCU, Capitã Marvel, foi lançado sob o manto da polêmica, desde as declarações de Brie Larson, vistas com desconfiança por alguns, até grupos mobilizados para baixar sua nota em sites de média agregadas – comportamento cada vez mais presente numa batalha entre companhias que veem seus super-heróis sustentarem praticamente toda realização cinematográfica que não se alimente de histórias em quadrinhos. Desde o lançamento de Mulher-Maravilha, o grande condutor no cinema da Marvel, Kevin Feige, queria levar a primeira super-heroína do seu grupo já conhecido às telas, sendo que talvez a primeira que suscitasse isso seria a Viúva Negra, de Scarlett Johansson, nunca tendo, porém, seu merecido filme solo.

Quem encarna a Capitã Marvel é Brie Larson, conhecida por projetos de origem indie, como O maravilhoso agora e, principalmente, Temporário 12, mas verdadeiramente reconhecida pelo primeiro Anjos da lei. Depois do Oscar de melhor atriz, merecido, por O quarto de Jack, ela se aventurou em Kong – A Ilha da Caveira, no belo drama O castelo de vidro e agora neste blockbuster, no qual faz Vers, que mora no planeta Kree e tem como mentor Yon-Rogg (Jude Law), enquanto surge em seus sonhos uma misteriosa mulher (Annette Benning). O seu planeta vive em guerra com os Skrulls, uma raça que passa por planetas tentando dizimá-los e determinado dia, numa das batalhas, Vers acaba parando na Terra, onde imediatamente chama a atenção de dois agentes da SHIELD, Nick Fury (Samuel L. Jacjkson) e Phil Coulson (Clark Gregg). A partir daí, ela passa a ter lembranças de quando era uma piloto da Força Aérea desaparecida anos antes, em 1989, num projeto da Dra. Wendy Lawson (novamente Bening). Vers obviamente se junta principalmente a Fury (e a um gato excêntrico), descobrindo ser, na realidade, Carol Danvers. Fury e ela acabam se deparando com Keller (Ben Mendelsohn, cada vez mais repetitivo), também integrante da SHIELD.

Talvez os melhores momentos do filme de Anna Boden e Ryan Fleck, parceiros de direção também em Se enlouquecer, não se apaixone, se concentrem na amizade que Danvers reencontra em Maria Rambeau (Lashana Lynch), uma companheira sua no tempo em que era piloto na Terra. São momentos nos quais Capitã Marvel se sente mais próxima de uma homenagem declarada ao filme Top Gun, dos anos 80, em cenas calcadas para dialogar com o filme estrelado por Tom Cruise, assim como em determinados instantes, por causa de um determinado personagem, lembra Inimigo meu. Ao lado do carisma de Lynch, e também o de Jackson, rejuvenescido digitalmente de forma muito competente (certamente o efeito visual mais interessante do projeto, quase levando-o à época de Pulp Fiction, de 1994, enquanto a narrativa de Capitã Marvel se movimenta em 1995), o filme se sustenta mais em suas tentativas do que numa possível efetividade. A atuação de Larson é muito limitada, assim como já se mostrava em Kong – A Ilha da Caveira, prejudicando a maior parte das sequências. No entanto, isso não se deve apenas a ela, e sim também ao roteiro concentrado em flashbacks, cenas de ação excessivamente apressadas e um elenco de vilões pouco proveitoso. Boden e Fleck haviam demonstrado especial talento em diálogos em Half Nelson – Encurralados, sobre um professor interpretado por Ryan Gosling, e visivelmente não se sentem confortáveis com este universo mais fantástico.

Capitã Marvel tenta se equilibrar entre um universo que remete mais a Guardiões da galáxia, porém não deixa de emular o design de produção de Mudo principalmente na primeira parte, assim como tenta manter um contato com o universo estendido de maneira menos direta, e cenas campestres, como naquele em que Danvers está na casa de Rambeau e vemos um clima quase indie, típico dos diretores. É esta tentativa de trazer elementos novos, mas sem de fato conseguir, que caracteriza em grande parte a produção, com sua trilha sonora curiosa (incluindo até Nirvana, com “Smells like teen spirit”, No Doubt, com “Just a Girl”, e Garbage, com “Special”, cujo videoclipe tem a vocalista numa espaçonave parecida com as desse filme). Mesmo em seus momentos de humor, que remetem a outros personagens da companhia, Capitã Marvel não deixa nunca de carregar um peso, o de não ter exatamente uma linha muito clara do que realmente deseja: como filme de origem, e referências a um objeto que vemos ser seguido desde Os vingadores, ele até funciona em parte, porém, quando precisa atrair o espectador para novos pontos, se compromete quase totalmente. De certo modo, isso se deve a uma narrativa incerta pela pouca afeição de seus diretores a este tipo de material, como também por uma qualificação pouco natural dada aos personagens centrais. É um tanto surpreendente, porém, este filme ser tão mal recebido de certo modo tendo os mesmos problemas de obras recentes do MCU vistas como obras-primas, principalmente ao se apontar seu uso realmente excessivo de CGI, mas que não foge à média do gênero. Trata-se de um universo que precisa se reinventar com diretores mais autorais e não controlados pelo mesmo produtor, que torna cada filme muito parecido um com o outro.

Captain Marvel, EUA, 2019 Diretores: Anna Boden e Ryan Fleck Elenco: Brie Larson, Samuel L. Jackson, Ben Mendelsohn, Djimon Hounsou, Lee Pace, Lashana Lynch, Gemma Chan, Annette Bening, Clark Gregg, Jude Law Roteiro: Anna Boden, Ryan Fleck, Geneva Robertson-Dworet Fotografia: Ben Davis Trilha Sonora: Pinar Toprak Produção: Kevin Feige Duração: 124 min. Estúdio: Marvel Studios Distribuidora: Walt Disney Studios Motion Pictures

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2 Comentários

  1. Hierofante1970

     /  23 de junho de 2019

    Uma crítica de verdade e imparcial coisa difícil de ser hoje em dia, pois vejo muitos canais que se dizem entendidos em cinema, que estão mais do que vendidos em sua “críticas” e acabam deixando muito claro sua preferência por um certo estúdio. Já não chega os fanboys que só faltam tocar fogo via internet em que não se derrete em elogios, mesmo quando o filme deixa muito a desejar. Parabéns pelo excelente texto.

    Responder
    • André Dick

       /  24 de junho de 2019

      Prezado(a),

      Agradeço por seu comentário generoso sobre a crítica! Realmente, pela expectativa, eu considerava que este seria um dos grandes lançamentos do ano, sobretudo pela presença de Brie Larson, atriz que admiro. No entanto, ela está consideravelmente deslocada e apoiada num roteiro fraco. Em termos de filmes de super-heróis, é melhor ficar longe do hype para tentar analisar o filme por si só. Não é muito fácil. Entendo que você faz o mesmo e é preciso manter isso para que companhias, seja a Marvel ou a DC, não guiem o debate sobre cinema.

      Volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder

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