O quarto de Jack (2015)

Por André Dick

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O diretor irlandês Lenny Abrahamson vem construindo uma trajetória no cinema underground e fez especialmente dois grandes filmes, Garage e Frank. Numa época de filmes como isca para o Oscar, não se esperava que Abrahamson se tornasse uma espécie de Alexander Payne, ou seja, um diretor considerado do cinema dito indie recebido pela Academia de Hollywood com bastante entusiasmo. Com O quarto de Jack, ele apresenta uma história feita com uma certa agilidade narrativa cada vez mais rara diante de um tema nem um pouco leve. E talvez o melhor antes de assisti-lo seja ter menos informações possíveis, para que o impacto também seja diferente.
Joy Newsome (Brie Larson) e Jack (Jacob Tremblay) estão nas mãos de um sequestrador, Nick (Sean Bridgers), num pequeno quarto ao fundo de uma casa. Estão lá há 7 anos, sem nenhum contato com o mundo real. Joy e Jack tem uma determinada rotina, no entanto deve ser rompida, pelo desejo principalmente de a mãe poder ter seu filho inserido numa vida real. Tudo é desencadeado por mãe e filho fazendo um bolo de aniversário: seu desespero é não saber se o panorama irá mudar. A experiência do filho, para ela, não pode ser reduzida a olhar o céu por uma claraboia no alto do quarto, nem a dormir dentro do armário, tendo de se esconder quando chega Frank. Filmes sobre sequestradores costumam ter uma densidade complexa, o que leva o espectador a uma sensação de claustrofobia, e O quarto de Jack tem uma maneira muito impactante de lidar com o tema, mostrando a relação de uma mãe e de um filho confinados a um determinado espaço, sem poder reagir. Neste espaço, a supressão de liberdade constitui um universo em que eles precisam construir outra vida, o que se transforma numa realidade paralela à que transcorre do lado de fora.

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Abrahamson é um grande diretor de atores, como já mostrou em seus projetos anteriores, e aqui não é diferente. Larson, depois de ótimas participações em Anjos da lei, Temporário 12 e O maravilhoso agora, tem a grande oportunidade de sua carreira, trabalhando com nuances já reveladas nesses dois últimos filmes. Por sua vez, Tremblay é não menos do que excepcional com um roteiro bastante difícil, diante da situação. São raros os atores mirins que conseguem proporcionar uma emoção verdadeira como a dele. Num duo com Larson, no papel de uma mãe que teve sua vida desconstruída depois de ser enganada por um homem que tentava ajudar, Tremblay sustenta alguns dos grandes momentos de atuação (e DiCaprio deve ficar tranquilo ao não tê-lo como concorrente ao Oscar). O mais interessante é como Abrahamson adota o ponto de vista dele a fim de que o espectador tenha o seu sentimento pela mãe. Ele se indaga sobre o que acontece em sua vida, mas a rotina é tão forte que ele parece não perceber o que está passando ao seu redor. O quarto se torna, então, seu universo, no qual imagina cada circunstância do que vier a acontecer em sua vida (e as sequências iniciais, nesse sentido, sintetizam a narrativa). Sua distância do sequestrador é definidora para esta questão, e Abrahamson, como em Frank, deixa a critério do espectador identificar o modo como seu personagem vai evoluindo, principalmente num nível psicológico (e naquele filme o diretor contava com um ótimo Michael Fassbender escondido por baixo de uma máscara). Antes desse seu filme reconhecido, ele havia mostrado um homem solitário que trabalha num posto de gasolina em Garage, certamente um dos filmes mais incisivos sobre o isolamento de alguém em relação à sociedade e, ao mesmo tempo, muito comovente. Neste plano de análise sobre uma solidão (esta imposta por outra pessoa), O quarto de Frank dialoga de forma hábil tanto com Frank quanto com Garage, mostrando um estilo pessoal. Danny Cohen, colaborador habitual de Tom Hooper, apresenta um trabalho de imagens menos elaborado se compararmos com A garota dinamarquesa, mas deve-se destacar que ele pode trabalhar com diálogo entre cenário e figurino sempre com as mesmas cores, menos, digamos, pictórico. Ainda assim, sua presença por trás da câmera ajuda a captar de modo delicado o drama de mãe e filho, trabalhando com detalhes e enquadramentos.

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O roteiro, adaptado por Emma Donoghue do próprio romance, é bastante específico e nunca se distancia muito dos pontos-chave. Mesmo assim, o ponto principal de Abrahamson é a aproximação entre mãe e filho, a maneira como cada um ajuda ao outro a sustentar um momento perturbador de suas vidas. E os personagens são ao mesmo tempo bem desenhados e possuem um comportamento plausível, sem Abrahamson apelar a um exagerado drama que poderia conduzir a narrativa, inclusive usando uma trilha sonora discreta. Mesmo a ligação de Jack com o “mundo real” (como ele se refere) é feita por Abrahamson em momentos singelos (spoiler: quando ele é apresentado a um cão ou quando joga bola com uma vizinha). Interessante também a maneira como o cabelo comprido do menino é usado tanto como um símbolo (ele diz que representa sua força) quanto numa imagem à semelhança da mãe (pois é a única figura que realmente conhece e com que se identifica).
Abrahamson, do mesmo modo, lida bem com a oposição entre o escuro do quarto e a possível luminosidade do mundo. É como se tanto um novo mundo pudesse se descortinar como também os personagens precisassem enfrentar uma determinada verdade que os conduziu até ali. Neste ponto, Larson e Tremblay são cada vez melhores. O quarto de Jack passa a ser uma das obras de cinema independente com a indicação ao Oscar mais merecida nos últimos anos, pois não tenta emular uma determinada estética para agradar e sim mostrar um caso capaz de repercutir junto ao espectador, com um cuidado muito grande na maneira de expor suas ideias, além da sua clareza e notável sensibilidade.

Room, IRL/CAN, 2015 Diretor: Lenny Abrahamson Elenco: Brie Larson, Jacob Tremblay, Sean Bridgers, Joan Allen, William H. Macy Roteiro: Emma Donoghue Fotografia: Danny Cohen Trilha Sonora: Stephen Rennicks Produção: David Gross, Ed Guiney Duração: 118 min. Distribuidora: Universal Pictures Brasil Estúdio: A24 / Element Pictures / No Trace Camping / TG4 Films

Cotação 4 estrelas e meia

 

Lugares escuros (2015)

Por André Dick

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No ano passado, David Fincher adaptou com ótima recepção de público e crítica o suspense Garota exemplar, escrito por Gillian Flynn. Apesar de Flynn colaborar diretamente no roteiro, a partir de determinado momento é possível que seu estilo é substituído claramente pelo de Fincher, na maneira de conduzir a narrativa e os personagens, em parte resultando numa decepção, pois em seus projetos anteriores o diretor havia conseguido um notável equilíbrio. Pouco tempo depois (o romance original é de 2009), Flynn tem outro romance adaptado para as telas do cinema, Lugares escuros. Como em Garota exemplar, trata-se de uma trama de mistério e de indagações, relacionadas desta vez a um passado um pouco mais longínquo.
Libby Day (Chalize Theron) é sobrevivente de um massacre ocorrido em 1985, em Kinnakee, no Kansas, no qual parte de sua família terminou morta. Desde então, ela tem conseguido vários ganhos financeiros a partir desse acontecimento, seja por meio de livros, seja por meio de programas de TV, porém chega-se ao limite, e suas economias cessaram. Ela é procurada por Lyle Wirth (Nicholas Hoult), líder do Kill Club, formado por integrantes obcecados por assassinatos e crimes nunca solucionados devidamente. Lyle é dono de uma lavanderia, mas decide dar a Libby todo o custo financeiro cobrado para ela cobaborar com novas informações para saber se o que aconteceu ou não no Kansas corresponde às informações das autoridades. Segundo a mesma Libby declarou aos 8 anos de idade, tudo aconteceu da forma como relatado à época. A partir daí, Libby decide visitar o irmão acusado pelos assassinatos, condenado à prisão, Ben (Corey Stoll).

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Lugares escuros

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Ao mesmo tempo, a narrativa começa a lançar os flashbacks sobre sua vida familiar numa fazenda do interior. Nela, sua mãe, Patty (Christina Hendricks) convive com os problemas conflituosos de Ben (Tye Sheridan), aos 15 anos, e ainda Michelle (Natalie Precht) e Libby (Sterling Jerins). Esta tem um bom relacionamento com o irmão, que se vê envolvido com Diondra Wertzner (Chloë Grace Moretz) e Trey (Shanon Kook), integrantes de uma estranha seita. Decisivamente, Libby está interessada em remontar essa história como um quebra-cabeças, vendo inclusive onde entram seu pai, Runner (Sean Bridgers) e Krissi (Addy Miller), uma menina que, à época, teria acusado Ben de tê-la molestado – fazendo a notícia se espalhar por toda a escola. Há vários temas em Lugares escuros: hipotecas de fazendas, crianças ameaçadas e jovens desgovernados. E há o Kill Club, embora apenas no início, pouco explicado pela narrativa e com uma ideia severamente desperdiçada.
O diretor francês Gilles Paquet-Brenner faz uma sucessão de idas e vindas no tempo para entendermos a presença de Libby no dia do massacre, e para isso ele tem o auxílio da fotografia de Barry Ackroyd. Responsável por trabalhos de filmes com movimentação de câmera contínua, como Guerra ao terror e Capitão Phillips, Ackroyd tenta dar uma motivação a todos os momentos de Lugares escuros, com êxito em alguns momentos, e em outros nem tanto. Não há um grande alento nas imagens de Lugares escuros, mas, de algum modo, este clima oferecido pelo filme leva todos os personagens a uma espécie de afastamento da realidade.

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Tanto quanto o clube coordenado por Lyle – em mais uma boa atuação de Hoult, que também divide a cena de Mad Max com Theron –, essas figuras estão dominadas por uma faceta noturna. Libby se movimenta com dificuldade, sempre associada ao massacre, enquanto o irmão está na prisão. As lembranças da mãe não são menos pesadas, e Hendricks mais uma vez consegue atuar bem  num papel de determinado modo limitado. No entanto, é Sheridan e Moretz que conduzem o filme para o foco do mistério e se mostram mais uma vez bons atores, sobretudo Sheridan, depois de Amor bandido e Joe (uma grande falha com Nicolas Cage, quase salva por ele). Theron, por sua vez, tem uma boa presença de cena, embora seu personagem não seja muito diferente daqueles que já protagonizou: em muitos momentos, a gelidez de Libby impede o espectador de uma aproximação maior, como se ela fosse a responsável pela nave de Prometheus. Em parte, isso é necessário para o papel, contudo Theron exagera por vezes, repetindo alguns maneirismos de amargura já entrevistos em Jovens adultos; Hoult ao aparecer em cena, como em Mad Max, consegue recompor a narrativa, apesar de nunca usado como deveria.
Entende-se que Gillian Flynn teria feito um romance com acontecimentos improváveis, mas isso já transparecia em Garota exemplar, cuja parte final é próxima do desastroso. Se Paquet-Brenner não tem nem um traço do talento para o visual de Fincher, pode-se dizer que sua trama é mais árida e concentrada, ao contrário daquela apresentada em Garota exemplar.

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Esses personagens, a começar por Libby, não têm exatamente uma polidez: há um universo encoberto e mesmo sujo aqui, e Paquet-Brenner consegue retratá-lo com uma atmosfera por vezes assustadora, tendo como base a música de Gregory Tripi. Temos imagens da cidade grande e de clubes noturnos (inclusive o Kill Club) e elas não são diminuídas pelas imagens bucólicas do interior: nessas, pelo contrário, existe ainda uma ameaça maior, como se o lado campestre estivesse sempre em união com o urbano, nunca trazendo alívio aos personagens; a sua atmosfera é quase inabitável e habilmente incômoda. O espectador nunca se sente à vontade com sua variação de cenários, aparentemente sempre com o objetivo de cada um parecer preso à sua forma de agir. As improbabilidades do que acontece, reservadas a um suspense e a um thriller, não jogam o filme na vala comum; antes, fazem parte apenas do gênero, e o diretor consegue fazer uma sucessão contínua de novas informações se sobrepondo junto com a recuperação do passado. Uma pena o filme falhar em seus instantes finais, quando o diretor deixa as descobertas subentendidas e não recompõe a importância de cada personagem para o contexto. Ainda assim, Lugares escuros lança o espectador em meio a uma narrativa capaz de atrair a atenção e não aponta a necessidade de uma resolução definitiva para aquilo que aos poucos também se desmantelou na memória de Libby.

Dark places, FRA/EUA, 2015 Diretor: Gilles Paquet-Brenner Elenco: Charlize Theron, Nicholas Hoult, Chloë Grace Moretz, Christina Hendricks, Tye Sheridan, Corey Stoll, Drea de Matteo, Natalie Precht, Sean Bridgers, Shannon Kook, Sheri Davis, Sterling Jerins Roteiro: Gilles Paquet-Brenner Fotografia: Barry Ackroyd Trilha Sonora: Gregory Tripi Produção: Charlize Theron, Peter Safran, Stéphane Marsil Duração: 114 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Cuatro Plus Films / Da Vinci Media Ventures / Denver and Delilah Productions / Exclusive Media Group / Hugo Productions / Mandalay Vision

Cotação 3 estrelas e meia