Luta por justiça (2019)

Por André Dick

Os filmes sobre prisão se tornaram muito populares para o público contemporâneo com Frank Darabont, por meio de Um sonho de liberdade e À espera de um milagre. No segundo, especificamente, era mostrado um homem afrodescendente com alguns poderes capazes de trazer alívio às dores da humanidade de modo muito sensível. A situação de encarcerados pode ser vista em alguns muitos outros filmes feitos desde então, mas poucos com a relação entre prisioneiro e o seu advogado. É o que Luta por justiça traz.
Em nova obra de Destin Daniel Cretton, autor de O castelo de vidro e Temporário 12, o advogado Bryan Stevenson (Michael B. Jordan) é um jovem formado em Harvard que se desloca para Monroeville, no Alabama, a fim de defender os injustamente condenados, tendo a seu lado, entre outros, Eva Ansley (Brie Larson). Um deles é Walter McMillian (Jamie Foxx), ou “Johnny D.”, preso injustamente pela morte de uma mulher e colocado no corredor de morte sem obter um julgamento capaz de analisar as provas. Outro é Herb Richardson (Rob Morgan)., um veterano do Vietnã. Com uma participação menor, está Anthony (O’Shea Jackson Jr).  A narrativa de Cretton se baseia mais no caso de McMillan.

Ele teria cometido um assassinato, no entanto, segundo testemunhas, não estaria sequer perto do local onde ele ocorreu.  Foi em Monroeville que Harper Lee escreveu O sol é para todos, que deu origem ao filme homônimo, no qual um advogado interpretado por Gregory Peck, Atticus Finch, fazia a defesa de um afrodescendente. E este filme é referenciado em alguns momentos desta obra de Cretton.
A história inicia com McMillan sendo preso na estrada por policiais. Depois, ao encadear a história mostrando o jovem advogado, ele já coloca a importância dessa função para que um erro possa ser revisto, não antes sem ele passar também por uma situação de preconceito por meio de um guarda da prisão (Hayes Mercure). McMillan não tem esperanças em seu caso, mas Bryan Stevenson vai até sua família, conhecendo sua esposa, Minnie (Karan Kendrick), e seus amigos, criando uma aproximação.  Sua figura cria polêmica, pois as famílias envolvidas nos casos não querem que eles sejam reabertos – e para isso o advogado precisa enfrentar o promotor público Tommy Chapman (Rafe Spall) e o xerife xerife Tate (Michael Harding).

Tanto Jordan quanto Foxx fazem um grande trabalho nesse sentido: a obra constrói uma expectativa. Cretton é um diretor interessado em figuras à margem, o que já mostrava com os jovens abandonados pela família em Temporário 12 e a família de O castelo de vidro, que viajava sem nunca conseguir se inserir direito na sociedade. Nos três filmes, ele conta com a presença de Brie Larson, que aqui tem uma presença rápida, mas efetiva. O roteirista Andrew Lanham, em parceria com Cretton, desenha bem os personagens, adaptando o livro de Bryan Stevenson, o advogado retratado aqui.
Entre as principais testemunhas do caso McMillan está Ralph Myers (Tim Blake Nelson) – e Cretton sabe utilizar esse ator, num momento fantástico, que dialoga com os melhores interrogatórios de Mindhunter. No entanto, cresce a emoção quando surge a atuação de Rob Morgan, como um homem preso depois de ter preparado uma bomba. A maneira como o ator distribui a culpa em camadas de fala mostra por que Mudbound, do qual ele fazia parte, era um filme tão denso. Sua participação, incluindo uma conversa com o advogado feito por Jordan, é extraordinária na sua contenção.

Cretton não tem até agora sido lembrado pela Academia de Hollywood, no entanto costuma apresentar excelente trabalho de direção de atores e histórias profundamente humanas. Luta por justiça é em boa parte uma história tanto sobre prisioneiros quanto a função jurídica e a investigação. Apenas se lamenta a fotografia de Brett Pawlak ser tão realista, parecendo às vezes um documentário, sem uma atmosfera mais trabalhada, porém isso é uma característica que Cretton apresentava anteriormente em Temporário 12, reproduzida aqui e, dentro do seu objetivo, funcional. Se dois primeiros atos mostram como é o Alabama no final dos anos 80, o racismo contra figuras presas injustamente, o ato final expande seu diálogo para a situação contemporânea. Embora suas soluções não sejam complexas, o tratamento dado ao tema, por causa da profundidade de seus atores, principalmente Foxx, Jordan, Morgan e Nelson, é notável.

Just mercy, EUA, 2019  Diretor:  Destin Daniel Cretton Elenco: Michael B. Jordan, Jamie Foxx, Rob Morgan, Tim Blake Nelson, Rafe Spall, Brie Larson Roteiro: Destin Daniel Cretton e Andrew Lanham Fotografia: Brett Pawlak Trilha Sonora:  Joel P. West Produção: Gil Netter, Asher Goldstein, Michael B. Jordan Duração: 136 min. Estúdio: Endeavor Content, One Community, Participant Media, Macro Media, Gil Netter Productions, Outlier Society Distribuidora:  Warner Bros. Pictures

Creed II (2018)

Por André Dick

A primeira parte da série Rocky, de 1976, recebeu os Oscars de melhor filme e direção e o segundo veio na esteira, tendo praticamente o mesmo estilo. Já Rocky III e Rocky IV foram feitos sob o influxo da estética do videoclipe dos anos 80, com belas canções, montagem acelerada, mas com o intuito da diversão. No quarto, especificamente, o lutador enfrentava Ivan Drago (Dolph Lundgren), boxeador russo treinado em laboratórios, depois de ele matar seu amigo Apollo Creed numa luta-evento. É justamente com este quarto filme da série que Creed II estabelece mais contato.
Michael B. Jordan regressa como Adonis, filho de um relacionamento extraconjugal de Apollo, que passou um bom tempo no reformatório até ser buscado pela esposa dele, Mary Anne (Phylicia Rashad), com quem possui um relacionamento baseado na confiança.

Depois de derrotar Danny “Stuntman” Wheeler (Andre Ward) e se tornar campeão mundial, ele é procurado por um agente, Buddy Marcelle (Russell Horsnby) para lutar com Viktor Drago (Florian Munteanu), filho de Ivan (mais uma vez  Lundgren), que matou seu pai em Rocky IV. Sem o apoio de Rocky para a nova empreitada, ele se muda para Los Angeles, onde vai treinar sob o comando de Tony “Little Duke” Evers (Wood Harris), filho do treinador de seu pai. No entanto, não apenas esses personagens atuam em sintonia, como também Tessa Thompson, na persona de Bianca Taylor, namorada de Creed. O romance entre os dois remete ao de Rocky e Adrian – e a personagem de Bianca é sensível na medida em que atinge notas conseguidas antes na série justamente apenas por Talia Shire, principalmente em Rocky II, com o qual este filme tem muitas semelhanças também. Aqui o casal em início de vida conjunta precisa estabelecer uma nova estrutura para que cada um possa se realizar em sua área: Bianca é uma música, com problemas auditivos.
Stallone está mais uma vez excepcional como um personagem que não tem mais a esposa e os amigos à sua volta e se volta à tentativa colocar Adonis como uma espécie de substituto para a paternidade falha que teve com Robert.

As nuances que Stallone entrega para seu personagem diferem daquelas exibidas em Rocky Balboa, no qual era mais bem-humorado e com uma ironia cáustica; a partir do primeiro Creed ele parece conduzir seu limite pessoal a um enfrentamento com o destino, e não é diferente aqui. Neste, a família Drago chega à Filadélfia com o objetivo de modificar a mitologia de turistas indo visitar a estátua de Rocky. Há um ressentimento de Ivan ao relação ao boxeador que o derrotou três décadas atrás, e uma tentativa de usar o filho de Creed para uma vingança pessoal. Os personagens são interdependentes. Deve-se dizer que o quinto filme, que tinha novamente John G. Avildsen na direção (como o primeiro) já apresentava um estilo que está sendo trabalhado na série Creed: embora com resultado irregular, era soturno, mais denso, mostrando a interrupção da carreira de Rocky (em razão da quantidade de socos que recebeu na cabeça), a volta para a Filadélfia (em razão de um contador desonesto) e o início de treino de um jovem com talento.
Mais do que sobre lutas, Creed, como Rocky, fala da passagem de tempo, de como os personagens submergem de seus conflitos pessoais e de como as histórias podem criar vínculos a distância, desenhando vínculos familiares. Neste sentido, apesar das devidas diferenças, o jovem diretor Steven Caple Jr. consegue realmente dar sequência à história iniciada pela figura de Rocky Balboa. Como John G. Avildsen no original, Stallone em Rocky II e Rocky Balboa e Coogler em Creed, o cineasta está interessado sobretudo nos personagens e a carga dramática que ele imprime ao filme está longe de ser superficial. Mesmo que não consiga atingir o punch de Coogler do primeiro, por contar com um roteiro mais didático e expositivo (Juel Taylor, que o assina com Stallone, é um estreante), ele extrai novamente ótimas atuações de todos (B. Jordan está novamente num dos melhores momentos de sua carreira) e encadeia a narrativa de maneira ágil do início ao fim. A sequência está no seu melhor quando mostra situações familiares de Creed, principalmente quando se vê diante de uma situação-chave em sua vida. E algumas sequências são, além de bem filmadas, simbólicas, como aquela em que o personagem central, sentindo-se destruído, tenta buscar um novo horizonte embaixo d’água, com imagens que remetem a cruzes no fundo de uma piscina, indicando vida e morte.

É uma pena que Stallone não tenha se dedicado mais em sua trajetória a obras como esta, em que encobre suas limitações com uma composição bem feita. Caple Jr. não coloca em nenhum momento a estética de videoclipe, mas mostra uma rotina de boxeador mais contida. Creed passa a viver com a namorada num apartamento vazio em Los Angeles, a academia onde treina tem uma imagem de seu pai Apollo que parece pesar sobre seus ombros; as ruas da Filadélfia e o restaurante de Rocky parecem desolados. A própria vida do filho e do pai Drago, na Ucrânia, embora não explorada como iria sugerir um roteiro superior, se dá num ambiente desolador, quase pós-guerra, com uma fotografia mais propensa a uma obra como Foxtrot, o que não deixa de ser curioso, pois Rocky IV era basicamente um documento cinematográfico da Guerra Fria nos anos 80. No entanto, o lutador pode trazer essa vida de volta – e ele traz, mas sem a alegria desenfreada da montagem fragmentada e sim sob o aspecto da fotografia e da trilha sonora casadas de maneira efetiva. A analogia que Caple Jr. faz entre os Balboa, os Creed e os Drago mostram, mais do que uma vida dedicada à luta, uma superação diária de traumas insolucionáveis, que devem ser enfrentados mesmo assim. Para esses personagens, apesar de existirem o medo e o ressentimento, não pode haver meio-termo; é preciso enfrentá-los.

Creed II, EUA, 2018 Diretor: Steven Caple Jr. Elenco: Michael B. Jordan, Sylvester Stallone, Tessa Thompson, Wood Harris, Phylicia Rashad, Dolph Lundgren, Russell Horsnby, Florian Munteanu Roteiro: Juel Taylor e Sylvester Stallone Fotografia: Kramer Morgenthau Trilha Sonora: Ludwig Göransson Produção: Sylvester Stallone, Kevin King-Templeton, Charles Winkler, William Chartoff, David Winkler, Irwin Winkler Duração: 130 min. Estúdio: Metro-Goldwyn-Mayer, New Line Cinema, Warner Bros. Pictures, Chartoff-Winkler Distribuidora: Metro-Goldwyn-Mayer (Estados Unidos), Warner Bros. Pictures (Internacional)

Pantera Negra (2018)

Por André Dick

No Festival de Sundance de 2013, Fruitvale Station, estreia de Ryan Coogler na direção e produzido por Forest Whitaker, foi escolhido como melhor filme pelo júri e pelo público. O diretor obtinha grandes atuações de todo o elenco e não havia um excesso narrativo, mas a composição de quadros que iam compondo a figura do personagem central. No seu filme seguinte, Creed, Coogler convocou novamente Michael B. Jordan, astro de Fruitvale Station, para interpretar Adonis, filho de Apollo Creed treinado por Rocky Balboa, e voltou a mostrar um trabalho exímio.
Diante desses dois filmes, era de se esperar que Pantera Negra fosse um significativo avanço no universo compartilhado da Marvel. O filme mostra o herói que já havia estreado em Capitão América – Guerra Civil, quando seu pai, o rei T’Chaka (John Kani), acabava deixando o trono de Wakanda, nação fictícia da África, para T’Challa (Chadwick Boseman). Este é o Pantera Negra, que tem uma força sobrenatural por causa de um metal raro, o vibranium, e é acompanhado por Nakia (Lupita Nyong’o), W’Kabi (Daniel Kaluuya, logo depois de Corra!) e pela irmã Shuri (Letitia Wright).

A história tem como referência inicial o ano de 1992, em Oakland, Califórnia, mas logo se desloca para Wakanda, uma nação altamente tecnológica, onde T’Challa precisa enfrentar o líder da tribo Jabari, M’Baku (Winston Duke), para se tornar finalmente o líder, sob o olhar de Zuri (Forest Whitaker) e sua mãe Ramonda (Angela Bassett). Enquanto isso, Erik Killmonger (Michael B. Jordan) está atrás de relíquias de Wakanda num museu, com a ajuda de Ulysses Klaue (Andy Serkis, mostrando sua fraqueza como ator quando não está interpretando personagens digitais). No meio do caminho, o Pantera Negra com seus amigos verão seu caminho cruzar com o agente Everet K. Ross (Martin Freeman).
Pantera Negra tem um aspecto de filme de espionagem, lembrando em alguns momentos Capitão América – O soldado invernal, principalmente na passagem por um cassino da Coreia do Sul, que também remete a 007 – Operação Skyfall. Ele tem o objetivo de mesclar realidade e fantasia, com belos figurinos que evocam as cores de Rainha de Katwe, sobre uma menina que joga xadrez em Uganda, e O jardineiro fiel, de Fernando Meirelles. Há boas cenas de ação, algumas em slow motion, e um senso de grandeza em algumas delas. No entanto, para além de seus objetivos, Pantera Negra tem uma estrutura muito clara em sua bela concepção, com a fotografia de Rachel Morrison (Mudbound). E esta estrutura tem a finalidade de se enquadrar no universo compartilhado da Marvel: lá estão rápidas referências a Guerra Civil e a inclusão de Ross, que participava do filme dos irmãos Russo, para dar uma impressão de continuidade.

Também se apaga quase totalmente o estilo de Ryan Coogler, exceto pela inclusão de uma trilha sonora com alguns raps. Dizem que ele teria exigido concessões ao produtor Kevin Feige e que de fato as obteve, mas isso não fica claro na narrativa. Não há uma movimentação de câmera que tenha seu estilo, nem o elenco, mesmo muito bom, tem grandes chances, em razão do roteiro previsível. É preciso dizer que, tanto quanto Doutor Estranho e Thor: Ragnarok, a impressão que se tem é que algumas obras da Marvel são recebidas com um entusiasmo acima da qualidade que possuem. Nos filmes da companhia, falhas visíveis – como o CGI de má qualidade – não são assinaladas, e atos definidos com a previsibilidade de uma narrativa comum como os que mostram Pantera negra se sentem aliviados pela crítica em geral, além do humor forçado (neste, M’Baku é uma espécie de Grão-Mestre, personagem de Jeff Goldblum em Thor: Ragnarok). O design de produção se sente sem imaginação, com interiores que remetem a Os vingadores de Joss Whedon e, mais ao final, a Tron – O legado, sem o mesmo trabalho de cores. Para uma produção de 200 milhões de dólares, falta em parte atestar o investimento na tela (basta comparar o uso de espaçonaves aqui e em Star Wars – O último Jedi). As sequências com rinocerontes digitais parecem mais antigas que as criaturas de O senhor dos anéis – O retorno do rei.
Coogler certamente se esforça em dar seu estilo ao filme: há um certo poder em cenas nas quais Pantera Negra se vê como um líder a ser seguido, como em Creed. No entanto, ele não possui espaço para jogar com seu estilo de narrativa. Se determinadas cenas poderiam lembrar o mistério de A marca da pantera, de Paul Schrader, no recuo a um passado ainda mais tribal, tudo é revertido em CGI que desveste as cenas de solidez. Alguns diálogos se encadeiam como passes para a montagem progredir, e não para se envolver com os personagens. Lupita Nyong’o e Michael B. Jordan, principalmente, são convincentes em seus personagens, e Freeman é um alívio cômico, porém não têm muito o que fazer com um roteiro tão limitado.

É interessante observar que um filme tão em linha reta quanto Pantera Negra seja recebido como uma novidade no gênero. De certo modo, o universo partilhado da Marvel planifica uma ideia de cinema que se repete apenas para registrar um certo poder de indústria. O impacto de cada lançamento não vem dele e sim do que ele pode suscitar em termos de notícia. Há uma específica frieza no tratamento de temas relacionados aos afrodescendentes, como se fossem implicados para o filme se inserir em discussões e não pela importância vital que naturalmente teriam (sugere-se, nesse sentido, o recente representante do Senegal ao Oscar de filme estrangeiro, Félicité). Seria válido, não soasse tão pouco autêntico e sem emoção dosada, ainda mais vindo de Coogler, que revitalizou o debate sobre a comunidade afrodescendente em Creed e Fruitvale Station. Algumas vezes, os personagens são utilizados não como peças narrativas. Talvez quem tenha produzido Pantera Negra ache que reunir um diretor e um elenco extraordinários reverteria exatamente numa obra épica, apostando principalmente no discurso que traria por meio de seu roteiro. Se houvesse real espaço para as ideias que Coogler aplicaria num blockbuster mais independente de uma linha a ser seguida, Pantera Negra possivelmente seria um filme diferenciado. Da maneira como foi montado e pensado, parece seguir o que já mostra certo desgaste.

Black Panther, EUA, 2017 Diretor: Ryan Coogler Elenco: Chadwick Boseman, Michael B. Jordan, Lupita Nyong’o, Danai Gurira, Martin Freeman, Daniel Kaluuya, Letitia Wright, Winston Duke, Angela Bassett, Forest Whitaker, Andy Serkis Roteiro: Ryan Coogler e Joe Robert Cole Fotografia: Rachel Morrison Trilha Sonora: Ludwig Göransson Produção: Kevin Feige Duração: 134 min. Estúdio: Marvel Studios Distribuidora: Walt Disney Studios

Creed – Nascido para lutar (2015)

Por André Dick

Creed.Filme 1

Sequências e refilmagens têm se proliferado em Hollywood há décadas, e nos últimos anos não é diferente. Enquanto há obras que conseguem trazer acréscimos ou mesmo renovar a versão antiga, há aquelas que se mostram mais pendentes a ter como objetivo uma homenagem ao elenco e ao diretor da franquia. Diante disso, nem toda a expectativa diante do filme poderia indicar o resultado emocional que Creed – Nascido para lutar proporciona, mas, sobretudo, para quem é admirador da série Rocky (mesmo daqueles filmes considerados mais pop, embora o quinto tenha deixado especialmente a desejar). Para esta continuação indireta da série, pois muda o protagonista, Stallone convocou Ryan Coogler, o diretor do belo Fruitvale Station, sobre um acontecimento trágico num metrô de Nova York. Já naquele filme, a competência de Coogler na condução de uma narrativa curta se mostrava com grande relevância, assim como a empatia do seu protagonista, interpretado por Michael B. Jordan, que regressa aqui como Adonis, um rapaz que passou um bom tempo no reformatório até ser buscado pela esposa de seu pai, Mary Anne (Phylicia Rashad), já que ele é filho de um caso extraconjugal.

Creed.Filme 11

Creed.Filme 7

Creed.Filme 4

É uma semelhança importante com Fruitvale Station, no sentido de que o personagem inicia numa situação difícil; porém, a partir da adoção, a vida de Adonis se transforma. Trabalhando já adulto numa empresa, seu maior desejo é ter uma carreira de pugilista, tendo lutas escondidas em Tijuana, México. Também não quer ser associado à figura do pai, a fim de não receber favores indesejados. Ele decide se mudar de Los Angeles para a Filadélfia, atrás da figura de Rocky Balboa.
Se lhe dissessem que uma continuação para a história de Rocky mostraria o filho de Apollo Creed, talvez você imaginasse apenas um motivo para caça-níqueis, mas não com Jordan e Coogler, e um Stallone no auge de sua trajetória. Difícil imaginar que Stallone não tenha seu momento dramático mais intenso, mesmo em comparação com seus filmes anteriores da série, principalmente o primeiro, Rocky II e o ótimo Rocky Balboa. Ele está realmente excepcional como um personagem que não tem mais a esposa e os amigos à sua volta e se volta à tentativa de treinar o filho de seu melhor amigo e que o recuperou para a carreira depois da morte de Mickey em Rocky III. As nuances que Stallone entrega para seu personagem contrastam, por exemplo, de Rocky Balboa, em que ele se mostrava mais bem-humorado e com uma ironia cáustica; aqui ele parece conduzir seu limite pessoal a um enfrentamento com o destino – e também Stallone se dissocia, pelo menos no título, de uma de suas séries favoritas, ao lado de Rambo. Vejamos apenas as cenas mais discretas do personagem, como aquelas em que ele divide o espelho da academia com Creed para ensinar os golpes ou quando ele, numa situação delicada, precisa apoiar o jovem treinado a continuar na sua trajetória. Stallone parece, por meio do filme, ter consciência do legado desse personagem não apenas para sua trajetória (independente de se gostar ou não dele, de respeito) como da própria história do cinema.

Creed.Filme 6

Creed.Filme 9

Creed.Filme 10

No entanto, não apenas esses personagens atuam em sintonia, como também Tessa Thompson, na persona de Bianca, que é conquistada por Creed. Há uma humanidade em ambos os personagens que poucas vezes vimos nesse tipo de história, tanto pela presença de Jordan como de Thompson. É certo que o romance entre eles remete ao de Rocky e Adrian – e a personagem de Bianca, embora numa participação talvez não tão merecedora do que deveria ganhar, é sensível na medida em que atinge notas conseguidas antes na série justamente apenas por Talia Shire. Em termos de roteiro, ambos conseguem traduzir as falas de maneira fluente, sendo o primeiro filme da série não roteirizado por Stallone, e sim por Coogler e Aaron Covington.
Se há uma queda na narrativa, ela acontece um pouco entre o segundo e o terceiro atos, mas Coogler traz uma hora final emotiva, com um poder muito grande de estabelecer a ligação emocional entre os personagens, e Stallone mais uma vez se destaca: a sua figura envelhecida e sábia é como se fosse o retrato de Mickey mais uma vez à tona. Contudo, em se tratando de uma visão de sabedoria, é Coogler que estabelece uma relação entre a Filadélfia dos anos 70 e dos anos 2010, não apenas pela atmosfera, como também pela trilha sonora. Coogler consegue captar um movimento de transformação do bairro, já antecipado por Stallone em seu belo Rocky Balboa de 2006.

Creed.Filme 5

Creed 11

Creed.Filme 2

Mais do que sobre lutas, Creed, como Rocky, fala da passagem de tempo, de como os personagens submergem de seus conflitos pessoais e de como as histórias podem criar vínculos a distância. Neste sentido, apesar das devidas diferenças, Coogler consegue realmente dar uma sequência à história iniciada pela figura de Rocky Balboa, ao contrário da pressa de Abrams no último Star Wars em estabelecer vínculos com os fãs, apesar ainda ser muito interessante. Mas Coogler é mais exato ao criar um compasso original para as cenas de luta, uma delas sem um corte sequer, muito em razão da competência da fotografia de Maryse Alberti, além de empregar uma emoção especial no ato final, que eleva Creed a outro patamar, apesar de sua temática não original em relação aos filmes anteriores. Também não há nenhum material que deseje se aproximar de um Touro indomável, no tom ou maneira de se filmar (levando em conta que Scorsese inovou na maneira de captação das lutas). A referência, no universo do boxe, é realmente a série Rocky, da qual o diretor se teria dito fã a Stallone antes de colocar o projeto em prática. E, sem dúvida, há um contato direto com a obra original de Stallone, vencedor merecido do Globo de Ouro de coadjuvante (e, espera-se, também do Oscar). Quando a figura de Adonis se mescla com a de Apollo e com a de Rocky, sabemos que Coogler acerta em cheio no drama e na preferência de quem sempre gostou desses personagens. Creed se sente, desse modo, como uma continuidade de algo importante, mas também como algo independente, com seus próprios contornos e motivos. B. Jordan, nos minutos finais, assim como o filme de Coogler, é digno de premiações.

Creed, EUA, 2015 Diretor: Ryan Coogler Elenco: Michael B. Jordan, Sylvester Stallone, Tessa Thompson, Phylicia Rashad, Tony Bellew, Graham McTavish, Madeira Harris, Andre Ward, Gabe Rosado Roteiro: Aaron Covington, Ryan Coogler Fotografia: Maryse Alberti Trilha Sonora: Ludwig Goransson Produção: David Winkler, Irwin Winkler, Kevin King Templeton, Robert Chartoff, Sylvester Stallone, William Chartoff Duração: 133 min. Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) / Warner Bros. Pictures

Cotação 5 estrelas

Quarteto fantástico (2015)

Por André Dick

quarteto fantástico 27

Se este ano a Marvel já lançou dois filmes de heróis muito interessantes, Vingadores – Era de Ultron e Homem-Formiga, talvez aquele que mais despertasse curiosidade seria a nova tentativa de trabalhar com Quarteto fantástico. Não deixa de ser uma grande dificuldade o filme ter estreado no mesmo ano de duas das melhores produções já efetuadas pela Marvel, principalmente aquela que revela o Homem-Formiga. Já havia sido feita uma adaptação com esses personagens em 2005, com Jessica Biel e Chris Evans, e em 2007 uma sequência, no entanto ambas redundaram numa grande decepção. Este novo Quarteto fantástico ainda conta com alguns nomes em ascensão, como os de Miles Teller, de Whiplash e O maravilhoso agora, Michael B. Jordan, de Fruitvale Station, acompanhados de Jamie Bell, já conhecido desde Billy Elliott, e Kate Mara.
A história se inicia com Reed Richards (Owen Judge) e Ben Grimm (Evan Hannemann) ainda crianças, quando se conhecem no colégio. Eles passam a fazer uma experiência no porão da casa de Ben, onde funciona um ferro-velho, com um teletransportador. O resultado é um estouro e as luzes da cidade se apagando. Isto, no entanto, é o ponto de surgimento de uma parceria que chegará à feira de ciências do colégio, quando os amigos, já crescidos (e interpretados por Miles Teller e Jamie Bell, respectivamente), são visitados por Franklin Storm (Reg E. Cathey), da Fundação Baxter, que cuida de jovens gênios, e sua filha adotiva Sue (Kate Mara). A eles se juntam Victor von Doom (Toby Kebbell), um técnico brilhante de computação, e Johnny Storm (Michael B. Jordan), filho de Franklin – todos agora em busca da passagem para outra dimensão.

Quarteto fantástico 32

Quarteto fantástico 19

Quarteto fantástico 17

O experimento, segundo Dr. Allen (Tim Blake Nelson), será usado para enviar um grupo da Nasa para a dimensão paralela, a que se dá o nome de Planeta Zero – sem a presença dos jovens que a desenvolveram, o que cria um desapontamento. A partir daí, o grupo procura um meio de superar este afastamento da possibilidade de fazer a jornada – o que poderá resultar em algo que definirá suas vidas e suas formas humanas para sempre, e para quem acompanha o Quarteto Fantástico sabe que essas formas podem tanto remeter ao fogo e à terra quanto à elasticidade e à invisibilidade.
Todos os elementos de Quarteto fantástico indicariam uma narrativa apegada aos filmes de herói, e isso naturalmente acontece com a tentativa de aproximação dos personagens. Porém, e já anunciavam as declarações do diretor Josh Trank, a Fox não se interessou por sua versão original e decidiu fazer uma montagem sem sua autorização. Além disso, Trank teria tido dificuldades em finalizar o filme, ou seja, é difícil lidar com uma obra que poderia ser muito melhor e se mostra com dificuldades por claros problemas de filmagem.
O que o espectador vê parece apenas parte de um roteiro maior: as histórias algumas vezes não se estendem o necessário, prejudicando o inter-relacionamento entre os personagens, e a agilidade da montagem lembra mais a de um trailer. Ainda assim, Quarteto fantástico não é tão decepcionante quanto o foi Godzilla no ano passado ou Jurassic World este ano. Alguns efeitos de Quarteto fantástico parecem inacabados, não tendo passado suficientemente pela pós-produção, no entanto há a preservação de um design de produção por vezes notável e uma trilha sonora muito boa de Beltrami e Phillip Glass.

Quarteto fantástico 14

Quarteto fantástico 25

Quarteto fantástico 26

E Josh Trank tem uma visão bastante inspirada em outros filmes, principalmente Super 8 (a amizade de Reed e Ben no colégio), A mosca, de David Cronenberg (a concepção da máquina que transporta os personagens), assim como Hulk (a solidão de Grimm a partir de determinado momento), O homem sem sombra, de Paul Verhoeven (quando mostra os personagens presos à cama depois de se transformarem), Fogo no céu (o desespero de Reed diante de sua condição, observado por cientistas ameaçadores), com lembranças ainda de Prometheus e O planeta dos macacos. Trata-se de um diretor com conhecimento da história dos filmes de ficção científica. Ele consegue oferecer a esses personagens um lado mais soturno, principalmente quando Grimm passa a ser explorado pelo exército em áreas de guerra. Não há diversão em ser herói a princípio, e nisso reside o principal afastamento de Quarteto fantástico do seu público-alvo. Particularmente, apesar das versões anteriores, é a primeira vez que olhei com curiosidade para a história do quarteto.
Trank sintetiza a narrativa por meio de uma escuridão em que os personagens pouco se revelam – para todos eles, ingressar na Fundação Baxter pode ter tirado a juventude que pareciam percorrer por meio de certa ingenuidade. Em termos de elenco, é interessante como Teller consegue dar uma boa caracterização a seu personagem, enquanto Mara opta pela gravidade e B. Jordan por certa desconcentração. Rejuvenescer o elenco é uma boa saída para ligar esses jovens a um ambiente de computação desenfreada e a pesquisas científicas que misturam melhorias para o planeta ou administração de um poderio militar.

Quarteto fantástico

Quarteto fantástico 29

Quarteto fantástico 12

Pelo potencial de direção, roteiro e elenco em Quarteto fantástico haveria mais história a ser explorada, como a de Reed, que a partir de determinado momento precisa ver seu amigo transformado num monstro de pedras e a cobrança por tê-lo abandonado quando havia prometido salvá-lo – e há em algumas tomadas do filme de Trank um clima de pesadelo inabitual para este tipo de produção. Mas essa sequência já faz parte de um momento em que a trama é, em parte, desmantelada por uma explicação de passagem no tempo, talvez necessária para impedir novas indagações, sem impedir, ainda assim, que o espectador acompanhe a história até o final. E, ao mesmo tempo que o drama da família Storm também poderia ser melhor desenvolvido, parece que este primeiro episódio da nova franquia ainda tem espaço para um clímax que lembra outros filmes da Marvel. Quarteto fantástico parece estar muito longe de ser um grande filme, mas, dentro de suas limitações, consegue apontar um reinício para esses personagens com propriedades realmente interessantes.

Fantastic Four, EUA, 2015 Direção: Josh Trank Elenco: Miles Teller, Michael B. Jordan, Kate Mara, Jamie Bell, Toby Kebbell, Reg E. Cathey, Tim Blake Nelson, Joshua Montes, Dan Castellaneta, Owen Judge, Kylen Davis, Evan Hannemann, Chet Hanks, Mary-Pat Green, Tim Heidecker, Mary Rachel Dudley  Roteiro: Simon Kinberg, Jeremy Slater, Josh Trank Fotografia: Matthew Jensen Trilha Sonora: Marco Beltrami, Philip Glass Produção: Gregory Goodman, Hutch Parker, Matthew Vaughn, Simon Kinberg Duração: 106 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Genre Films / Twentieth Century Fox Film Corporation

Cotação 3 estrelas

Fruitvale Station – A última parada (2013)

Por André Dick

Fruitvale Station 3

Um filme baseado em fatos reais às vezes fica comprometido de modo excessivo com a história da qual surge, resultando numa narrativa mecânica quando não encontra seu realizador mais adequado. Quando assistimos os minutos iniciais de Fruitvale Station – A última parada, é esta a sensação que temos. O diretor estreante Ryan Coogler mostra uma sequência gravada do acontecimento em que o seu filme se baseia e parece sintetizar tudo a partir dele. Para o espectador menos informado sobre o acontecimento, o filme pode ter um crescimento diferente, pois não se sabe o desfecho; para quem conhece a história, talvez não haja o mesmo impacto, no entanto é interessante, pelo tratamento dado à narração e ao elenco, acompanhá-lo.
A partir desse momento captado numa câmera de vídeo, Coogler passa a mostrar um dia na vida de Oscar Grant (Michael B. Jordan), 22 anos, que foi dispensado do trabalho e está à procura de uma ocupação. O que ele teria a fazer, a princípio, seria andar de carro e vender drogas, como fez antes de ir para a prisão, mas este dia enfocado não é apenas de véspera do ano novo, como também do aniversário de sua mãe, Wanda Johnson (Octavia Spencer), e o dia em que ele precisa fazer escolhas, diante da namorada, Sophina (Melonie Diaz), e da filha, Tatiana (Ariana Neal). Ele não consegue contar a ela que não trabalha mais no supermercado de onde foi dispensado, e essa preocupação o persegue ao longo de todo o filme, destacado pelo diretor por meio de cenários quase isolados, como o do posto de gasolina e uma sequência em seguida filmada com extrema perícia, e nada tem de calculadamente emotiva, mas essencialmente diz respeito à situação do personagem, a como ele se sente.

Fruitvale Station

Fruitvale Station 2

Esses momentos diante da família, ou de uma conversa com a avó ao telefone, são verdadeiramente humanos e a peça central para fazê-lo funcionar é justamente seu ator principal, Jordan. Ele consegue aliviar os momentos em que o roteiro carrega nas tintas dramáticas, assim como Octavia Spencer, mesmo com poucas linhas de diálogo, desenha uma mãe essencialmente de vigor. Em Fruitvale Station, é a figura da mãe o que acaba servindo de guia para a compreensão do personagem central, aquela que acaba alimentando a narrativa a partir de sua ausência, mesmo estando próxima. Em uma narrativa de pouco mais de 80 minutos, Coogler mostra os sonhos do personagem e a necessidade de concretizar a família na qual nunca se imagina inserido – e o momento em que ele conversa com um desconhecido, mais ao final do filme, basta para definir este entendimento. Tampouco parece que ele esconde algo para tornar o personagem numa referência intocada; pelo contrário, ele desenha apenas um momento determinado na vida de um jovem de pouco mais de 20 anos, diante da tentativa de abandonar o passado e seguir em frente ou se entregar ao impulso daquilo que o imobiliza de todo modo. A pergunta que pode ser feita é: se o jovem fosse mostrado como alguém sem solução o seu desfecho teria um motivo racional?
Os movimentos podem lembrar um filme de Gus Van Sant (a exemplo de Elefante e Paranoid Park), com uma espécie de sentimento bruto, em que o personagem tenta se desvencilhar do seu passado e acaba tendo de enfrentar a incompreensão. No entanto, Coogler filma com mais dispersão, deixando o personagem independente na maior parte do tempo, à frente da câmera acertadamente emocional instável de Rachel Morrison, sem cair no tom de um documentário, e captando a atmosfera solitária de Oakland, Califórnia, e de figuras dispersas. Apenas se lamenta que, com isso, algumas conversas não sejam tomadas de modo mais denso, e Coogler escolha por um certo distanciamento dos cenários em que elas acontecem. Por outro lado, ele esvazia o tom que poderia existir, mais teatral, dando espaço a coadjuvantes como Melonie Diaz se destacarem. Isso ocorre, ao mesmo tempo, pela presença, ao longo do filme, de celulares e câmeras digitais, localizando a tecnologia como um ponto de proximidade e separação entre os personagens – a julgar pelo início, peça central para esclarecer um acontecimento –, principalmente quando as palavras digitadas ficam em relevo, ocupando o espaço das falas.

Fruitvale Station 6

Fruitvale Station 5

A princípio um filme independente (depois foi distribuído por Harvey Weinstein), Fruitvale Station tem Forest Whitaker como um de seus produtores, e ele esteve justamente em O mordomo da Casa Branca, bastante prestigiado nos Estados Unidos e com bela reconstituição de época. O realismo que falta a O mordomo, no entanto, marca presença neste filme, em que Jordan tem a presença mais identificada com o público. Certamente por isso a sua acolhida no Festival de Sundance, em que foi escolhido como melhor filme pelo júri e pelo público, e seu prêmio na mostra “Um certo olhar”, do Festival de Cannes. As escolhas feitas pelo diretor neste sentido o tornam mais interessante. Acusado de contemporizar o que realmente aconteceu, Coogler não se ressente de uma direção hábil de atores. Com ele, todos têm um desempenho perto do imaginado para uma situação como a do filme, e é isso que realmente importa ao vê-lo. Não há um excesso narrativo, mas a composição de quadros que vão se unindo e compondo a figura do personagem central. E é interessante como ele consegue, por meio da montagem de Claudia Castello e Michael P. Shawver, se concentrar em circunstâncias essenciais para a motivação do personagem. Isso se deve à presença da atriz mirim Ariana Neal, que faz sua filha e protagoniza uma cena fantástica em que eles se encontram num colégio. Mas não apenas este momento: Coogler em vários momentos equilibra a sensação de liberdade de Oscar com a da prisão, como a de um momento em que ele observa o sol se pôr numa baía e tem um flashback definidor daquilo que o trouxe àquele momento e vai estabelecer uma ligação com seu desfecho, notável, por mais dolorosa e mesmo sentimental que seja. É Jordan quem acaba trazendo a ideia de que algo diferente poderá acontecer, desviando-se dos fatos, e é este fio de esperança que sustenta a narrativa. Pode-se assistir este filme com o pensamento de que se trata de uma história banal – sobretudo porque pode se confundir um ser humano com estatísticas –, mas Fruitvale Station nos faz lembrar de momentos que definem toda uma existência e a necessidade do afeto. Num momento em que o cinema perde dois referenciais, como Philip Seymour Hoffman e Eduardo Coutinho, é um filme, sob os moldes de uma pretensa inovação, até comedido, mas extremamente humano.

Fruitvale Station, EUA, 2013 Direção: Ryan Coogler  Elenco: Michael B. Jordan, Melonie Diaz, Octavia Spencer, Ariana Neal, Ahna O’Reilly, Kevin Durand Roteiro: Ryan Coogler Fotografia: Rachel Morrison Trilha Sonora: Ludwig Goransson Produção: Forest Whitaker, Nina Yang Bongiovi Duração: 85 min. Distribuidora: The Weinstein Company Estúdio: Forest Whitaker’s Significant Productions / OG Project

Cotação 4 estrelas