Síndromes e um século (2006)

Por André Dick

Síndromes e um século

O diretor de origem tailandesa Apichatpong Weerasethakul, que permitiu ao público que o chamasse de “Joe”, tornou-se uma referência cinematográfica a partir do início da década de 2000, com Objeto misterioso ao meio-dia, uma mescla entre documentário e ficção. A ele seguiram-se Eternamente sua e Mal dos trópicos, filmes extremamente voltados a uma tentativa de renovar a linguagem, entregando narrativas compassadas e lentas. Não apenas Eternamente sua possui uma história enigmática, como Mal dos trópicos é dividido em duas partes. São filmes considerados primorosos – e despertaram um culto de certo público e crítica. No entanto, apesar de suas qualidades, ambos são evidentemente difíceis, não apenas pela tentativa de renovação de linguagem (o que não significa qualidade) como também pelo elenco estranhamente amador. Essas são características que Weerasethakul, de certo modo, exibe em Síndromes e um século, cuja estreia se deu no Festival de Veneza, no entanto com um grande atrativo a mais: desta vez, ele consegue utilizar a simetria de imagens como recompensa para não um mero estranhamento e sim uma viagem por ambientes reconhecíveis e notavelmente perturbadores.

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Se em Eternamente sua tudo se iniciava em uma consulta médica, aqui acontece o mesmo, com Dra. Toey (Nantarat Sawadikkul) entrevistando militares para trabalhar numa ala hospitalar, a começar por Dr. Nohng (Jaruchai Iamaram). A doutora, ao mesmo tempo, tem flashbacks de um caso que teve com um especialista em orquídeas, Noom (Sophon Pukanok). Ela também recebe proposta de casamento e recomenda que um monge não coma muito frango para que não acumule líquido. Em suma, são diálogos semelhantes aos que vemos no início de Eternamente sua. Temos ainda o dentista Ple (Arkanae Cherkam), que trabalha nas horas vagas como cantor e tem amizade com o monge (Sakda Kaewbuadee), um de seus pacientes, para o qual canta algumas canções.
Essa primeira parte, passada no interior da Tailândia, cujo início abre espaço para um campo esverdeado com a sensação de infinito, é uma contraposição à segunda parte, que se parte em Bangcock, e na qual temos o Dr. Nohng com uma noiva. Enquanto na primeira parte o hospital é cercado por vegetação, principalmente palmeiras, e não parece haver grande separação entre os humanos e esse cenário natural, na segunda o hospital lembra mais os corredores da nave Discovery, de 2001, com um branco asséptico.

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Do lado de fora, estátuas de Buda contrastam com os pacientes que estão se tratando nesse hospital, em meio a evidentes rastros de nanotecnologias, com próteses para doentes. O diretor Weerasethakul é filho de médicos e essa experiência se mostra em todos os seus filmes, mas principalmente neste e no seu filme seguinte, Tio Boonmee, que pode recordar de suas vidas passadas, vencedor no Festival de Cannes de 2010. É um artista no conceito mais exato da palavra e isso por um lado o torna especial e, por outro, por suas obsessões, um pouco limitador: não por acaso, Weerasethakul parece filmar às vezes as mesmas sequências, ou mostrar a amplitude de uma volta no bairro que pertence apenas a grandes cineastas e compreendem o melhor momento, por exemplo, de Eternamente sua.
Em contrapartida, é um cinema altamente intelectual e aberto aos sentidos do espectador que não consegue, em parte, compreender os personagens de modo que se possa expandi-los: nos filmes de Weerasethakul, os personagens estão sempre à solta, ofuscados por uma inebriante luz solar realista que os tornam sempre parte da paisagem, que não tem falas. De qualquer modo, este ainda é um filme especial, mesmo com suas falhas e obsessões de criar paralelismos dentro de sua obra, em razão, principalmente, da maneira como essas imagens apresentadas por Weerasethakul são hipnóticas, graças ao trabalho de fotografia de Sayombhu Mukdeeprom.
É revelador como o tema da medicina se mostra complexo pela abordagem e pelas imagens selecionadas: há um vínculo entre o que se considera parte do passado (o uso de uma medicina caseira, de um chá medicinal) e mais tecnológica e profissional (em corredores sem nenhuma abertura para o sol e para o vento das palmeiras). Há uma ênfase entre a distância do verde do campo e os edifícios da cidade grande, entre crianças brincando num parque e centenas de pessoas fazendo ginástica numa praça aberta. Nisso, o relacionamento entre as pessoas se mostra tanto distante quanto próximo, em busca de uma razão de ser.

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Este é um dos filmes, também pelo paralelismo que adota em sua divisão, que melhor trabalha analogias dentro de um discurso cinematográfico, e isso se esclarece tanto pelo eclipse solar em determinado momento, contrapondo-se a uma espécie de tubo pendurado no teto, para o qual a câmera se dirige como se ele fosse um eclipse de um ambiente interno, quanto pelas magníficas sequências em que os pacientes esperam atendimento no hospital, primeiro num espaço natural e íntimo, e outro num ambiente mais opressivo, em razão da tecnologia avançada, deixando pouco espaço para a emoção humana (e neste quesito o filme influenciou o subestimado Transcendence).
E ainda assim há humor, um humor delicado e afetivo como vemos no início de Eternamente sua. Enquanto nesse o humor vai se ausentando, em Síndromes e um século ele cresce, seja no monge que gostaria de ter sido um DJ, seja nos médicos que se entregam aos prazeres etílicos para esquecer os corredores claros e as nanotecnologias. É interessante como todo o cinema de Weerasethakul parece baseado numa claridade próxima de nossa rotina, sem abdicar de sua porção enigmática. Os personagens estão em busca de um autoconhecimento necessário, no entanto parecem não entender que fazem parte do mesmo enigma da natureza em que estão inseridos e que os move.

S̄æng ṣ̄atawǎat, Tailândia, 2006 Diretor: Apichatpong Weerasethakul Elenco: Nantarat Sawaddikul, Jaruchai Iamaram, Nu Nimsomboon, Sophon Pukanok, Jenjira Pongpas, Arkanae Cherkam, Sakda Kaewbuadee, Sin Kaewpakpin, Apirak Mitrpracha, Manasanant Porndispong, Wanna Wattanajinda, Nitipong Tintupthai, Putthithorn Kammak, Jarunee Saengtupthim Roteiro: Apichatpong Weerasethakul Fotografia: Sayombhu Mukdeeprom Trilha Sonora: Kantee Anantagant Produção: Wouter Barendrecht, Simon Field, Michael J. Werner, Keith Griffiths, Charles de Meaux, Pantham Thongsangl, Apichatpong Weerasethakul Duração: 105 min. Distribuidora: Fortissimo Films e Strand Releasing

Cotação 5 estrelas

 

Chamada.Filmes dos anos 2000

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Zodíaco (2007)

Por André Dick

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O cineasta David Fincher, depois de realizar o subestimado Alien 3, regressou com Seven, que traz Brad Pitt e Morgan Freeman, como investigadores de um serial killer. Em Seven, os diálogos não se mostram tão importantes quanto o clima mórbido, com reviravoltas e uma experiência sensorial, cercada por uma galeria de mortes inspirada nos sete pecados capitais. Fincher pinta um retrato cruel da sociedade, sobretudo impactante. Depois de Clube da luta e Vidas em jogo, ele realizou O quarto do pânico, ainda tateando, indefinido, como nesses anteriores, entre a estética e a história bem contada, mostrando uma mãe (Jodie Foster) e sua filha (Kristen Stewart), com problema de asma, presas num quarto do pânico, por causa de um assalto que acontece em sua casa. Se há problemas narrativas, Fincher trabalha de forma notável o elemento claustrofóbico.
Em Zodíaco (daqui em diante, possíveis spoilers), Fincher volta ao clima de perseguição a um psicopata de Seven com todas as doses de suspense de que é capaz e consegue solucionar o clima de O quarto do pânico de forma efetiva. Mostra isso ao começar contando a história do assassino que se autonomeia Zodíaco (ele mandava cartas para jornais, incitando a polícia e novas vítimas), mas nunca consegue ser descoberto, ao longo de anos, mesmo investigado por um policial, David Toschi (Mark Ruffalo), acompanhado de William Armstrong (Anthony Edwards), sob o comando do Capitão Marty Lee (Dermot Mulroney).

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Esses investigadores ganham a parceria de Jack Mulanax (Elias Koteas), em Vallejo, e Narlow Ken (Donal Logue), em Napa. Todos os seus crimes são cometidos sem deixar pistas: inicia-se no dia 4 de julho de 1969, em meio a festividades dos Estados Unidos, com fogos de artifício riscando o escuro da noite e a quebra com a inocência dos anos 50 e 60 – depois de os personagens pararem numa lanchonete à la American graffiti –, e o mais impactante é um à beira de um lago, quando um casal é abordado pelo criminoso que surge por trás das árvores (com o Zodíaco desenhado em sua roupa), e sua tentativa mais assustadora aquela em que aborda uma mulher na estrada.
Fincher mostra a repercussão dos assassinatos do Zodíaco no San Francisco Chronicle, com a cobertura de um jornalista alcoólatra, Paul Avery (Robert Downey Jr., excelente). Todas as tramas ganham o interesse de um cartunista do jornal, Robert Graysmith (Jack Glylenhaal, no melhor papel de sua carreira, escolhido por Fincher depois de assistir a Donnie Darko), obcecado pelo caso e pela criptografia enviada pelo Zodíaco para provocar os leitores do jornal. Trata-se de um caso quase impossível e coloca até sua mulher, Melanie (Chloë Sevigny), e seus filhos em perigo para conseguir obter novas pistas, sobretudo quando a polícia se mostra cansada com a procura sem resolução.
Graysmith se torna amigo de Avery, tentando fazer parte da investigação, e são especialmente divertidos os momentos em que o jornalista diz a seu chefe que está sendo ameaçado. Além disso, Fincher, com seus ambientes amarelados, por meio do auxílio da excelente fotografia de Harris Savides, dialoga abertamente com Todos os homens do presidente, de Alan J. Pakula, sobretudo nos debates da redação sobre como os crimes do Zodíaco devem ser abordados. Também provoca suspense a procura para desvendar a caligrafia do assassino, com um especialista, Sherwood Morrill (Phillip Baker Hall), além de haver as tentativas de um apresentador de TV, Melvin Belli (Brian Cox), em estabelecer uma ligação com o assassino pretendendo antecipar suas ações.

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Ao contrário de Seven, não temos, aqui, crimes a serem solucionados da noite para o dia, mas uma indagação que percorre anos, décadas, desde os anos 1960, entrelaçando diferentes personagens interessados ou não pelo crime. Fincher não entrega qualquer resposta, pois no fim das contas quer relatar como uma história hedionda pode perpassar a própria atemporalidade das pessoas envolvidas, que vão do ápice ao desaparecimento, ou ao contrário, em segundos. Nesse sentido, sua aproximação de Memórias de um assassino, de Joon-Ho Bong, se destaca, com a obsessão da polícia em capturar um criminoso imprevisível durante anos (o filme de Fincher apenas tem menos humor). Quando surge Arthur Leigh Allen (John Carroll Lynch), essa sensação se mostra ainda mais presente. Aos poucos, cada policial começa a imaginar que as demais investigações só podem andar se o Zodíaco for preso; é como se ele fosse um impecilho em suas vidas. Do mesmo modo, Graysmith passa a se desentender com a mulher, à medida que, mesmo com filhos, concentra seu olhar numa possível investigação pessoal, trazendo para casa telefonemas anônimos. O tempo corre para todos, mas o espectador não o vê passar na Golden Gate Bridge, apenas na construção de edifícios e na passagem de datas assinalada pelo diretor, além de na clara construção psicológica dos personagens.
A cada pista não correspondida, Fincher não mostra nenhum mistério solucionado e cenas de perseguição gratuitas, mantendo-se mais no plano da investigação em cima de materiais enviado pelo Zodíaco ao jornal de San Francisco e nos documentos de delegacias e depoimentos. Ele parece interessado, muito mais, em cada personagem do que em Seven ou qualquer outro filme – talvez pela admiração que tem com os personagens reais, pois trata-se de uma história que habitou sua infância. Está lá também sua homenagem ao cinema, quando Graysmsith encontra Toschi na sala em que é exibido Dirty Harry – com Clint Eastwood –, cuja história tem ecos de Zodíaco. Toschi sai do cinema perturbado por exatamente não conseguir solucionar o crime que lembra o do filme.

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Numa metalinguagem sensível à obra de Fincher, mais bem solucionada do que normalmente, o diretor ainda mostra um encontro entre Graysmith e alguém que teria trabalhado com o assassino num cinema. Nele, pode-se dizer que Fincher brinca claramente com a obra de Hitchcock, quase sendo uma homenagem à parte. Mais interessante é que surge uma amizade também entre Graysmith e Toschi, e a habitual competência de Ruffalo para compor papéis cotidianos com sensibilidade cria um grande vínculo com a insistência cercada de ingenuidade de Glyllenhall.
Como em O curioso caso de Benjamin Button, A rede social e Millennium, Fincher está interessado na progressão que cada um desses personagens tem para a história e na história, deslocando-se de uma década para a outra sem nenhum sobressalto, mas como se tudo fosse atemporal. Isso ganha a colaboração da excelente trilha sonora e da fotografia de Savides. Se em seu início a estética crescia sobre o roteiro e os personagens, em Zodíaco Fincher começa a atingir o equilíbrio. Com isso, revela-se, em toda sua abrangência, a obsessão pelos detalhes e pelos personagens complexos. E ainda revela mais: um dos artesãos mais sensíveis que o cinema ofereceu nos últimos 20 anos, pelo menos.

Zodiac, EUA, 2007 Diretor: David Fincher Elenco: Jake Gyllenhaal, Mark Ruffalo, Anthony Edwards, Robert Downey Jr., Brian Cox, John Carroll Lynch, Richmond Arquette, Bob Stephenson, John Lacy, Chloë Sevigny, Elias Koteas, Dermot Mulroney, Philip Baker Hall, David Lee Smith, J. Patrick McCormack, Adam Goldberg, James LeGros Roteiro: James Vanderbilt Fotografia: Harris Savides Trilha Sonora: David Shire Produção: Ceán Chaffin, Brad Fischer, Mike Medavoy, Arnold Messer, James Vanderbilt Duração: 158 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Paramount Pictures / Warner Bros. Pictures / Phoenix Pictures

Cotação 5 estrelas

 

Chamada.Filmes dos anos 2000

O gosto do chá (2004)

Por André Dick

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Pouco conhecido no cenário, Katsuhito Ishii é um dos cineasta mais interessantes dos anos 2000. Não apenas porque fez o roteiro de Redline, uma das animações principais dessa década, inspirada também em Speed Racer, como fez em 2000 Party 7, que certamente influenciou Tarantino a chamá-lo para ajudar na seção animada de Kill Bill – Vol. I,  e em 2004 este O gosto do chá. Se no ano seguinte ele faria um filme estranhíssimo, chamado Funky Forest – The first contact, composto por várias sketches, uma espécie de Creepshow em cenário oriental, alimentado pelo surrealismo, em O gosto do chá ele apresenta suas principais características como diretor. Desde As coisas simples da vida, nos anos 2000, o cinema oriental compôs uma nova visão sobre as relações familiares. Não se trata de uma refilmagem das obras de Yasujiro Ozu, mas uma visão contemporânea.
O gosto do chá mostra a família Haruno, que vive na zona rural de Tochigui, ao norte de Tóquio, numa casa em meio à floresta. O pai, Nobuo (Tomokazu Miura), trabalha como hipnotizador e utiliza a própria família como experimento, principalmente diante da televisão. A esposa, Yoshiko (Satomi Tezuka), trabalha com desenhos animados. O filho, Hajime (Takahiro Sato), está no colégio e enfrenta os primeiros momentos de paixão por uma jovem (Anna Tsuchiya), enquanto tem amizade com o avô, Akira (Tatsuya Gashuin), que é um ex-animador.

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E ainda há Sachiko (Maya Banno), a filha de 8 anos de idade, que enxerga continuamente sua imagem em tamanho gigante. Ayano (Tadanobu Asano) é o tio da família, que trabalha como um engenheiro de som e vem visitar a família. Ele também tem a parcela mais ligada à fantasia, com memórias de sua infância, e participa de dois momentos centrais: o encontro com uma ex-namorada e a vista, de cima de uma ponte, de um homem estranho ao longe. E ainda há outro tio, Ikki Todoroki (ele próprio), artista de mangá que faz parceria com Ayano.
O que mais impressiona em Ishii é sua facilidade de compor situações que parecem reais, mas sem o traço mais sóbrio do cinema oriental, que às vezes mantém um certo distanciamento do espectador. Os seus personagens costumam interagir com situações engraçadas e passam por certo constrangimento comum a todas as pessoas, ou seja, enfrentam momentos embaraçosos com certa sabedoria. O gosto do chá em nenhum momento pretende ser um panorama abrangente de vida, no entanto ele é. Há, em sua composição, elementos não apenas de dramas de Akira Kurosawa e Ozu como influência decisiva da cultura pop japonesa.
Em alguns momentos, é como se tivéssemos um retrato dessa cultura agitada de um ponto de vista equilibrado, quase zen. Vejamos, por exemplo, os homens vestidos de robôs dentro de um metrô em direção à zona rural. A conturbada visão de Hajime de seu primeiro amor e a tentativa de se aproximar dela num grupo que pratica Go no colégio, depois das aulas, é, igualmente, de uma sensibilidade rara no cinema.

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Seus passeios de bicicleta se desenham em meio a outras vinhetas, como uma passagem por uma loja de conveniência onde presencia um diálogo estranho e, quando vemos um trem saindo de sua testa quando ele o perde, logo no início, dá o anúncio do que vem a ser O gosto do chá: uma visão extraordinária de coisas que, de outra maneira, não possuem nenhuma importância e não recebem nenhuma dimensão oficial.
De maneira geral, O gosto do chá não segue uma história linear, permitindo-se a algumas soluções de extrato surreal, no entanto sempre ligado a uma realidade cotidiana. O comportamento do avô da família é exemplar, neste sentido, assim como a ligação cultural de todos com a música, os jogos e as animações. Ishii compõe, por meio da imagem da mãe, essa aproximação da cultura de animes japoneses, fazendo com que a família seja, de certo modo, uma composição para quadrinhos – e não podemos menosprezar que essa sensibilidade se aproxima daquela que Ishii utiliza na sequência animada de Kill Bill – Vol. I, quando Tarantino pretende reunir atores de carne e osso com quadrinhos representando determinado momento de Beatrix Kiddo. O comportamento excêntrico do avô e as visões da menina Sashiko tornam essa ligação ainda mais acentuada. Ishii com certeza busca certa influência do cinema italiano e de Fellini, em Amarcord, desenhando as situações com a necessidade de uma aproximação com a natureza, o que não o impede de tornar a cultura japonesa representativa em todos os pontos em que seus personagens surgem.

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No início, há um certo incômodo episódico e desse extrato mais diferenciado de surrealismo cotidiano, porém o espectador, aos poucos, vai se acostumando aos personagens e isso provoca uma sensação de sentimento em expansão em relação a figuras que podem ser vistas como vagas se não fossem símbolos de uma sensibilidade maior e irrestrita. Ishii provoca, na moldura de suas imagens, um tipo de textura específica em que seus personagens parecem ganhar mais vida. Impressiona não apenas a utilização da casa de campo como também das estradas inóspitas e do colégio sempre ameaçado pela chuva, pela mudança de estações, que representa exatamente esses personagens. Belíssima a sequência em que Hajime imagina estar apaixonado e precisa empreender uma velocidade em seu passeio de bicicleta ou quando está no trem e uma lua atrás é aquilo que ilumina o que sente ao longo de seus jogos de Go. Ishii abre um espaço onde a impressão é que não existe nada de substancioso e mesmo sólido, como se voltasse o espectador para um período da infância em que todas as coisas são descobertas surpreendentes, assim como seu notável filme.

Cha no aji/The taste of tea, Japão, 2004 Diretor: Katsuhito Ishii Elenco: Maya Banno, Takahiro Sato, Tadanobu Asano, Satomi Tezuka, Tatsuya Gashuin, Tomoko Nakajima, Ikki Todoroki, Tomokazu Miura, Anna Tsuchiya, Kirin Kin, Shinji Takeda, Susumu Terajima, Yoshinori Okada, Hideaki Anno, Emi Wakui Roteiro: Katsuhito Ishii Fotografia: Kosuke Matushima Trilha Sonora: Little Tempo Produção: Kazuto Takida, Kazutoshi Wadakura Duração: 143 min. Distribuição: Grasshoppa, Viz Pictures

Cotação 5 estrelas

Chamada.Filmes dos anos 2000

Dália negra (2006)

Por André Dick

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O cineasta Brian De Palma sempre teve um atrativo pela adaptação de obras literárias, principalmente a partir de Carrie, a estranha, baseado em livro Stephen King, nos anos 70, e Pecados da guerra, baseado em romance de Daniel Lang. O melhor filme já feito sobre a estrutura socioeconômica dos Estados Unidos, A fogueira das vaidades, baseou-se, por sua vez, em Tom Wolfe. Nele, Quando Sherman McCoy (Tom Hanks) vai buscar sua amante Maria Ruskin (Melanie Griffith) no aeroporto, não desconfia que, na volta para casa, atropelará um homem, no Bronx, causado pela amante. O problema é que a notícia invade os jornais, colocando McCoy numa situação difícil. Ele não pode dizer que a culpada foi sua amante, caindo numa situação ainda mais grave. Procurado pela polícia, que desconfia dele, McCoy se rende à pressão da sociedade e dos jornais, confessando estar envolvido com o atropelamento, não revelando nada à esposa (Kim Catrall). Quem se aproveita do fato é o repórter Peter Fallow (Bruce Willis), com problemas etílicos, que enxerga nisso uma possibilidade de fama. Na história, ainda se envolve um candidato à prefeitura (F. Murray Abraham, divertido) e uma série de traidores, levando McCoy à desgraça e ruína, tanto na Bolsa de Valores, onde trabalha, quanto em casa. Só lhe resta uma saída: mentir. Este é o caminho que Brian De Palma toma para tornar verossímil e divertida uma história complicada, baseada no romance de Wolfe: um universo de traição. Para isso, compara a situação de McCoy a óperas burlescas, presente nas cenas que vai a julgamento. A fogueira é um dos grandes trabalhos de De Palma.

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Levaram 16 anos, no entanto, para que De Palma filmasse sua principal adaptação, desta vez de um livro de James Elroy, cujo Los Angeles – Cidade proibida foi resultado de outro filme seu, uma década antes. Trata-se de um tema diferente daquele visto em A fogueira das vaidades, mas visualizando a fundo a sociedade norte-americana. Alguns filmes têm uma recepção oposta à sua qualidade: difícil uma obra como Dália negra ter sido recebida do modo como foi no mesmo ano em que Scorsese recebeu o Oscar por um de seus filmes menos interessantes, Os infiltrados. O seu parceiro de direção de arte Dante Ferretti é responsável pela reconstituição de época desta obra-prima esquecida de Brian De Palma, talvez um de seus filmes com menos maneirismos na movimentação de câmera, certamente pela presença de Vilmos Zsigmond, responsável pela única indicação ao Oscar do filme e pela fotografia de O portal do paraíso: seu trabalho em Dália negra não se mostra menos excepcional.
A sensação é de que o espectador é transportado para a época e lugar em que se passa a história: a Los Angeles de 1947. Com transições de cena que lembram exatamente as de filmes desse período, De Palma, no entanto, não é sobrepujado pela tentativa de fazer metalinguagem, apesar de suas referências ao cinema de todos os modos, na investigação que empreendem dois detetives, Dwight “Bucky” Bleichert (Josh Hartnett), um ex-boxeador, e Lee Blanchard (Aaron Eckhart), para o assassinato da atriz Elizabeth Short (Mia Kirshner), a quem a imprensa atribui o apelido que nomeia o filme, a “dália negra”. Nessa investigação, Bucky terá de lidar com Madeleine Linscott (Hilary Swank) e Kay Lake (Scarlett Johansson), mulher de Lee.

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A trama é sinuosa, adotando uma carga de influência noir, e dialoga muito com Hammett, de Wim Wenders; De Palma, em meio a essas influências, não interrompe o fluxo da narrativa, conhecido inesperadamente por ser estático. Um cineasta que entregou nos anos 80 obras como Vestida para matar, Os intocáveis e Scarface, e nos anos 90 Síndrome de Caim e O pagamento final deve ser reconhecido como um daqueles que melhor sabe costurar a narrativa com a atmosfera. Em Dália negra, é principalmente esta combinação que leva o filme para frente.
Vejamos, por exemplo, a sequência em que Bucky, interessado em Madeleine, encontra os pais dela, Emmett (John Kavanagh) e Ramona (Fiona Shaw), para um jantar. E a investigação dele possui todos os elementos de um filme de De Palma: Elizabeth Short possuía uma vida secreta, inclusive relacionada ao cinema de Hollywood não tão reconhecido. Em termos de De Palma, possuir esses elementos similares também é perceber que Dália negra apresenta vários momentos de metalinguagem, embora, em relação ao restante de sua obra, relativamente contida. O principal diálogo parece ser com a obra daquele que o cineasta escolheu como principal precursor: Hitchcock. Mas aqui já é distante o tempo em que De Palma escolhe até os mesmos temas. Em Dália negra, é surpreendente como o diretor incorpora sua influência e joga, ao mesmo tempo, com todo o cinema dos anos 40 e 50, sem diluir, e sim entregando uma obra nova.
Seria compreensível que a parte mais sensível do filme fosse a atuação de Josh Hartnett, mas ele tem um desempenho muito convincente, assim como Eckhart. Ainda assim, as atuações femininas de Kirshner, Swank e, principalmente, Johansson (possivelmente em sua melhor atuação depois de Ela) transportam a obra ainda mais para a época considerada áurea de Hollywood. Há comentários satirizando a presença de Swank como femme fatale – ela aparece com o habitual talento no filme, e De Palma sempre foi conhecido por extrair grandes atuações de atrizes.

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De resto, há algo estranho quando um filme como Dália negra ser recebido da maneira como foi, enquanto Sin City faz sucesso a ponto de virar uma série – embora tenham propostas diferentes, há uma condescendência com este universo quando tratado sob uma ótica mais pop quando De Palma adapta Elroy da melhor maneira: entregando uma atmosfera excepcional e uma narrativa intrincada, em que não se sabe ao certo o que ocorre.
Pelo seu resultado junto à crítica e nas bilheterias, Dália negra parece ter custado a De Palma um afastamento de Hollywood, pois depois dele o cineasta só fez Guerra sem cortes e Paixão. É um filme que merece ser descoberto, pois talvez tenha, depois de O pagamento final, o melhor momento do cineasta desde os notáveis anos 80. Mas, mesmo em relação a seu conhecido Os intocáveis, Dália negra se sente ainda mais deslocado, um cinema assumidamente nostálgico, por outro lado apresentando uma carga moderna e uma atmosfera noturna fascinante. E ele definitivamente não é o que falam.

Black dahlia, EUA, 2006 Diretor: Brian De Palma Elenco: Josh Hartnett, Scarlett Johansson, Aaron Eckhart, Hilary Swank, Mia Kirshner, Mike Starr, Fiona Shaw, Patrick Fischler, James Otis, John Kavanagh, Troy Evans, Anthony Russell, Pepe Serna, Angus MacInnes, Rachel Miner, Victor McGuire, Gregg Henry, Jemima Rooper, Rose McGowan, Richard Brake, William Finley Roteiro: Josh Friedman Fotografia: Vilmos Zsigmond Trilha Sonora: Mark Isham Produção: Art Linson, Moshe Diamant, Rudy Cohen Duração: 119 min. Distribuidora: Universal Pictures

Cotação 5 estrelas

Chamada.Filmes dos anos 2000

 

Especial Anos 2000 – 10 grandes filmes, 10 grandes cineastas

Chamada.Blog.Filmes dos anos 2000

A partir de amanhã, o Cinematographe inicia um novo especial, trazendo 10 filmes de 10 grandes cineastas dos anos 2000. Teremos filmes de Brian De Palma, Katsuhito Ishii, David Fincher e Edward Yang, entre outros.

Corrente do mal (2014)

Por André Dick

Filme.Terror 17O gênero de terror tem passado por um período cada vez maior de afastamento daqueles personagens que fizeram os anos 70 e 80 tão conhecidos, com Michael Myers, Jason Voorhees e Freddy Krueger, em três séries ainda referenciais para o que se convencionou chamar de franquias com serial killers, se não uma grande repetição de mesmos maneirismos – e não por acaso há tantas versões novas tanto para Halloween e A hora do pesadelo. Se a última grande série foi Pânico, com quatro exemplares, do recentemente falecido Wes Craven, acompanhada por atividades paranormais e outros jogos mortais, pode-se dizer que o gênero de terror não tem a elegância que teve até os anos 80, principalmente por causa de John Carpenter, o criador de Halloween, e justamente Craven.  Isso até a estreia de Corrente do mal no Festival de Sundance deste ano, recebido com grande entusiasmo. Filmes do gênero podem encontrar o maior sucesso quando se tornam franquias – e se o mesmo acontecer no caso de Corrente do mal certamente extrairá bastante de sua surpresa e independência como obra.
A atriz Maika Monroe, de The guest, também é decisiva no papel central, uma menina chamada Jay Height, que tem relações sexuais com Hugh (Jack Weary) e começa a ser perseguida por pessoas as mais diversas, que surgem como alucinações. Ele lhe explica que passou uma espécie de maldição. É interessante que o primeiro encontro deles se dá no cinema e Hugh tenta brincar com Jay querendo apontar pessoas na plateia.

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E se quem é apontado não existe? Mitchell parte desta cena dentro do cinema para um manancial de surpresas que inclui a óbvia perturbação psicológica da personagem central. Ela tem a ajuda da irmã, Kelly (Lili Sepe), de um rapaz interessado nela, Paul (Keir Gilchrist), e de uma amiga, Yara (Olivia Luccardi), mas sua vida se sente vazia como se não tivesse realmente nenhuma ligação com o mundo exterior, e passa a ter menos ainda quando acometida por essas alucinações. Elas vêm acompanhada por aquilo que se esconde atrás do comportamento de Jay: um sentimento de culpa por ter divido seu corpo com outro que já havia dividido seu corpo com outra pessoa.
Não parece se tratar de um receio de passar doenças sexualmente transmissíveis, entretanto algo mais sugestivo: cada um parece conservar uma espécie de obsessão paranoica em relação a nunca conhecer a origem de cada um, sendo esta inconsciente. Ou seja, quando Jay acredita ter encontrado um amor ela parece ter encontrado apenas a certeza de que é preciso lidar com o receio de que não é possível tornar alguém apenas seu. Trata-se de uma ideia por um lado óbvia, por outro carregada de um poder de sugestão por imagens, que torna Corrente do mal num filme sobre a tentativa de o ser humano em obter a sua origem, sendo perseguido por uma culpa em formato de pesadelo. Daí a necessidade de Jay se manter distante de Paul, aquele que pode estar mais ligado à sua origem. Para Jay, é essa origem que se torna incômoda; ela pretende ter relacionamentos com pessoas que possam não aproximá-la de si mesma. A entidade que persegue Jay assume as mais variadas formas, entre elas as figuras paternas, como se ela guardasse sempre uma proximidade com sua psicologia. E esse retrato da psicologia de Jay é acentuado pelo cenário em que se passa Corrente do mal: a Detroit de Lost river, de Ryan Gosling, quase em ruínas e em parte abandonada.

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Cada vez mais se tem propensão a dizer que o terror moderno não cria sustos, apenas os anuncia de antemão para que o espectador pouco sinta. Talvez não esteja vendo terror em demasia, mas diante de Corrente do mal é difícil imaginar um espectador frio diante de espectros terríveis, os mais assustadores desde O inquilino, Poltergeist, Os outros e O sexto sentido, capazes realmente de assustar. Há também algumas sequências claramente inspiradas naquela do banheiro do quarto 237 de O iluminado, e se mostram filmadas com um cuidado notável – apagando a ideia de restringir esta obra a uma vertente indie do terror. Acompanhe-se, por exemplo, a sequência na casa de praia, que rende alguns dos momentos mais impressionantes da obra, prendendo o espectador à poltrona.
O diretor e roteirista David Robert Mitchell, responsável por um filme singelo sobre a adolescência em The Myth of the American Sleepover, possivelmente sem pretensão, realiza uma pequena obra-prima de suspense crescente, baseado principalmente numa estética exata, de movimentação de câmera ou de filmar o pano de fundo, a distância, com a ajuda da ótima fotografia de Mike Gioulakis. Por isso, apesar da presença estilística tanto de Craven quanto de Carpenter, principalmente de Halloween, acrescido de um cuidado maior com a ambientação, Corrente do mal chega, inclusive, a homenagear David Lynch na cena do cinema com cortinas vermelhas. Mitchell tem uma noção muito distinta de como filmar espaços vazios, assim como Lynch em Cidade dos sonhos e Império dos sonhos, os dois maiores filmes de terror já feitos que não querem de fato ser de terror. E, em relação à primeira fase de De Palma (Sisters, Carrie), Mitchell parece superá-lo.

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Enquanto tudo é o mais assustador possível, Mitchell emprega suspense até quando um inseto caminha num dos braços de Jay. Como este inseto, tudo é muito reduzido (os cenários, a trama) em prol de um tom crescente de medo. E arrepia muito, incontáveis vezes, embora isso dependa do espectador, e nem sempre este se encontre à vontade para admitir o quanto o terror das cenas o perturbou. Talvez uma das melhores soluções de Mitchell seja nunca explicar, de fato, o que está ocorrendo, o que se, por um lado, soa uma fuga do roteiro, acaba tendo uma grande contrapartida do espectador e da trilha sonora realmente elaborada e efetiva. Acompanha a discrição de seu ótimo roteiro a simbologia da água: Jay se banha no início do filme numa piscina, sob o olhar de garotos vizinhos, tenta reencontrar uma saída já no mar e terá a água como peça-chave num momento decisivo da narrativa. Para Mitchell, a água não apaga as lembranças do corpo. Corrente do mal, neste sentido, nunca sossega ou deixa o espectador confiante do que está vendo: ele mostra que a realidade pode ser dispersa e incômoda quando não se encontra um ponto de encontro. É interessante como ele pode apontar um desejo de dialogar com a necessidade de se ter um afeto e o que ele pode trazer em termos de compartilhamento entre pessoas. Em Corrente do mal, os jovens estão a um passo da vida adulta, e eles precisam estar preparados para carregar o que desconhecem e não têm explicação. Isso, para Mitchell, cria a mesma sensação de medo e pavor de seu filme.

It follows, EUA, 2014 Direção: David Robert Mitchell Elenco: Maika Monroe, Keir Gilchrist, Jake Weary, Lili Sepe, Daniel Zovatto, Leisa Pulido, Olivia Luccardi, Bailey Spry, Loren Bass Roteiro: David Robert Mitchell Fotografia: Mike Gioulakis Trilha Sonora: Rich Vreeland Produção: David Kaplan, Erik Rommesmo, Laura D. Smith, Rebecca Green Duração: 100 min. Distribuidora: Califórnia Filmes Estúdio: Animal Kingdom / Northern Lights Films

Cotação 4 estrelas e meia