Baseado em fatos reais (2018)

Por André Dick

O mais recente filme de Roman Polanski, Baseado em fatos reais, foi lançado no Festival de Cannes de 2017 e passou quase despercebido. Algo estranho, em se tratando de ser a primeira parceria do diretor no roteiro com o cineasta Olivier Assayas, baseado no romance de Delphine de Vigan. A narrativa se concentra na vida da escritora Delphine (Emmanuelle Seigner), que publica seu primeiro grande sucesso, dedicado à mãe. Durante uma noite cansativa de autógrafos, ela conhece uma admiradora enigmática, chamada Elle (Eva Green), que depois reencontra numa festa para intelectuais. O interessante é que Baseado em fatos reais parece lembrar justamente a atmosfera de Elle, com Isabelle Huppert, não apenas pelo clima parisiense, como pela dualidade das personagens centrais. É de se perguntar o quanto a obra de Verhoeven também sofreu uma influência desse romance em que Baseado em fatos reais se baseia, lançado em 2015.

Delphine tem como principal interlocutor o ex-marido François (Vincent Perez), apresentador de um programa cultural de TV, e se sente constantemente solitária. Elle como que surge para oferecer mais vida à sua existência. Seu comportamento é estranho, no entanto possui certas características que parecem levar a escritora a reavaliar sua vida de compromissos com o lançamento da sua obra. Dizer o que acontece a partir de então seria incorrer em spoilers, por isso pode-se dizer que esta obra é tipicamente de Polanski. Cada vez mais envolvido em polêmicas no que se refere à sua vida pessoal suspeitíssima e que tem um périplo por tribunais (isso desde os anos 60), além de ser proibido de ir aos Estados Unidos (foi banido este ano da Academia de Hollywood, que lhe concedeu, no entanto, um Oscar de direção em 2003 por O pianista), o diretor parece não ter mais a mesma receptividade crítica que teve com A pele de Vênus, seu filme anterior, muito inferior, mas recebido como obra-prima. Não se fica muito à vontade quando se tenta tratar de seus filmes, pelos casos já conhecidos na imprensa, porém Polanski tem importância no plano cinematográfico, em função principalmente de Tess e Chinatown. Aqui ele utiliza uma fotografia sempre sugestiva de Pawel Edelman e uma bela trilha sonora do excelente Alexandre Desplat, além de ser mais objetivo que em obras clássicas, a exemplo de Repulsa ao sexo.

Embora as duas personagens pareçam ter um interesse mútuo, Polanski não chega a desenvolvê-lo, preferindo se concentrar mais na visão psicológica que elas proporcionam – e a figura da mulher desconhecida é como se fosse a extensão dos sentimentos de culpa da escritora. Ela também recebe cartas anônimas sempre ameaçadoras (inspirado claramente em Caché, de Haneke), o que dá ao filme uma sensação de thriller. Nunca fica muito claro quem é ela, uma característica fundamental nesse gênero no qual Baseado em fatos reais ingressa. Todos os caminhos são um pouco distorcidos, e a noite filmada por Polanski tem muito daquela de Holy Motors, de Leos Carax. Seigner, no papel central, tem uma bela atuação – e é mais uma na parceria que mantém com o diretor, com quem é casada, desde Busca frenética e que tem em Lua de fel seu melhor momento. Ela concede um nervosismo, acentuado pela presença da quase sempre eficiente Green, a qual tende a atuar em overacting quando tem mais liberdade (por exemplo, em Sombras da noite, de Tim Burton) e se revelou para o mundo no transgressor Os sonhadores, uma tentativa de Bertolucci reviver O último tango em Paris em ritmo juvenil. São atrizes representando personagens escondidas atrás de máscaras, de comportamentos não totalmente verdadeiros.

Aqui Seigner brilha em momentos tensos e utiliza sua plasticidade para se contrapor ao cansaço que se sente em Delphine. Esta se sente quase ao longo de toda a narrativa cansada, envelhecida, enquanto a parceira está sempre reluzente. Tais detalhes são bem trabalhados por Polanski, como já fizera, dentro desse mesmo contexto, em O escritor fantasma. Também há um dos seus primeiros filmes que desenvolve a tensão existente neste novo: A faca na água. E funciona: durante toda a história, mesmo quando surgem os lugares-comuns e uma influência notável de De Palma (que também emulou muito o Polanski dos anos 60 e 70), o espectador fica interessado no que irá acontecer. Seu potencial fica um tanto incompleto, também pela pressa narrativa. Tudo é excessivamente polido, estranho para um roteiro que tem Assayas entre seus autores e que busca em suas obras mais recentes, como Personal shopper, maior estranheza e indefinição. Por outro lado, sua atmosfera é rara em filmes contemporâneos, ao mesmo tempo que conta com duas atrizes de notável talento para justificar o andamento.

D’après une histoire vraie, FRA/ITA/POL, 2018 Diretor: Roman Polanski Elenco: Eva Green, Emmanuelle Seigner, Vincent Perez Roteiro: Olivier Assayas e Roman Polanski Fotografia: Paweł Edelman Trilha Sonora: Alexandre Desplat Produção: Wassim Béji Duração: 110 min.

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Hereditário (2018)

Por André Dick

A distribuidora A24 vem se tornando o maior exemplo de cinema independente nos Estados Unidos, principalmente depois de Lady Bird e Projeto Flórida, lançados no final do ano passado e com êxito incomum junto à crítica e nas premiações. No início deste ano, estreou seu filme de terror mais conhecido até agora, Hereditário, no Festival de Sundance, sob a direção do estreante Ari Aster, feita dentro dos moldes que vêm repercutindo mais no gênero de terror e suspense: com uma mistura dramática, ligada à família. Isso aconteceu em A bruxa e Ao cair da noite, que normalmente levam o espectador a gostar muito deles ou simplesmente deixá-los em segundo plano.
Annie Graham (Toni Collette) é uma artista que trabalha com miniaturas – em Hereditário, com uma casa de bonecas que parece representar a sua própria habitação. Ela é casada com Steve (Gabriel Byrne) e tem um casal de filhos: o adolescente Peter (Alex Wolff, muito parecido com seu irmão também ator Nat, de Cidades de papel) e a menina de 13 anos Charlie (Milly Shapiro). Já se inicia a história com o funeral de sua mãe, com a qual tinha vários problemas desde a infância.

Sua filha Charlie, com problemas mentais, havia se tornado muito apegada à avó, no pouco tempo em que elas conviveram juntos. Annie passa por dias especialmente difíceis e procura ajuda numa reunião de pessoas que perderam entes queridos. Enquanto isso, Charlie se comporta estranhamente, principalmente quando um pombo bate na janela de sua sala de aula. Interessante como Aster faz uma analogia entre a menina e a figura de um pássaro. Assim como o filme inicia com uma tomada de uma maquete que se transforma na passagem para seus atores, como se eles estivessem dentro dela, em outro momento, durante um funeral, a câmera faz um movimento que lembra um ingênuo stop motion na linha de O fantástico Sr. Raposo.
Peter, por sua vez, quer ir até uma festa e precisa levar sua irmã. Se não se soubesse o que aconteceria, o espectador poderia dizer o que faria uma menina tão nova numa festa de adolescentes, porém Aster mantém o clima de tensão. Essa vai desaguar na amizade entre Annie e uma colega do grupo de apoio, Joan (Ann Dowd). Daí em diante, parece que a narrativa se situa entre a realidade dos personagens e o onirismo das passagens, algumas certamente assustadoras. Annie não sabe mais se vê uma realidade paralela ou se tudo é resultado de seu sonambulismo, tornando-se cada vez mais confusa e entrando em constante rota de discussão com o marido.

Como outros exemplares mais conhecidos do seu gênero, Hereditário vem sendo recebido com entusiasmo, e é possível avaliá-lo sob esse ponto de vista: se ele cumpre o hype. Particularmente, sua narrativa arrisca enveredar por um caminho imprevisto, não apenas porque não segue habitualmente os passos do gênero em seu início, como toda a atmosfera, com a colaboração decisiva da fotografia de Pawel Pogorzelski, é extremamente pesada e angustiante. Nesse sentido, ele lembra muito o alemão Boa noite, mamãe, em que um par de gêmeos morava numa casa de campo junto à figura materna e a relação era, no mínimo, tumultuada. Como aquele filme, Hereditário oferece a sensação de que esses personagens estão isolados em relação ao mundo. Há um clima permanente de luto, de um passado não resolvido. O distanciamento entre os personagens confere um sentimento de que nenhum é verdadeiramente trabalhado, quando esta decisão parece estar ligada justamente ao fato de Aster não querer revelar nenhum traço definitivo. Isso fornece duas camadas. Uma delas é representada pelo fato de nenhum se atrever a mudar o que está acontecendo; a outra é que, quando se tenta fazer algo, pode ser que o caminho seria não fazê-lo. Nisso, se Collette tem uma ótima atuação – exceto com alguns momentos nos quais Aster deseja exagerar determinadas expressões –, Byrne, recentemente em outra família disfuncional, em Mais forte que bombas, e Wolff não comprometem. Já Shapiro é uma revelação, trazendo uma atuação assustadora, e Dowd explora bem sua participação em momentos definidos, presente talvez na sequência mais impactante da história.

Aster tenta explorar a divisão entre o universo do filho adolescente (escola, festas com amigos) e dos pais, depois de um determinado acontecimento. A maneira como ele trabalha com influências da psicologia e da religião podem ser questionáveis, mas funcionam dentro do contexto trabalhado, ou seja, não é interessante compreender o filme literalmente, e sim por meio de seus símbolos. Chama a atenção como Aster tem uma leve influência de um diretor que nunca trabalhou no gênero de terror, Wes Anderson. As maquetes que Annie faz remetem ao universo de Anderson (também ao subestimado Annabelle 2 – A criação do mal), e do mesmo modo tem-se a impressão de que os personagens estão vagando em ambientes mínimos, cada vez mais congestionados. Também parece que a miniatura da casa representa a própria tentativa de a mãe observar tudo o que está acontecendo e prever possíveis situações, como o personagem Jack Torrance observa o labirinto do Overlook em O iluminado. Visualmente, em sua parte final, a obra dialoga diretamente com A fúria, um dos grandes momentos de Brian De Palma nos anos 70.
Pode-se apontar vários filmes das últimas quatro décadas como referência em temas (não atmosfera e construção narrativa) de Hereditário, sobretudo em sua parte final, mas seria incorrer em spoilers. A resolução é certamente seu momento mais surpreendente e, ao mesmo tempo, talvez desaponte, pois remete especialmente a uma determinada obra clássica já lembrada por diversos cineastas. Ainda assim, é difícil não dizer que o diretor consegue sobrepor várias camadas sem necessariamente tornar a história didática ou simplista, para que o espectador simplesmente entenda o que está acontecendo, sem nenhum interesse a mais do que isso. E a trilha sonora do saxofonista Colin Stetson é uma das melhores do gênero. Cada vez que ela surge, transforma Hereditário realmente num grande filme, capaz de levar o espectador a um universo no mínimo incômodo.

Hereditary, EUA, 2018 Diretor: Ari Aster Elenco: Toni Collette, Alex Wolff, Milly Shapiro, Ann Dowd, Gabriel Byrne Roteiro: Ari Aster Fotografia: Pawel Pogorzelski Trilha Sonora: Colin Stetson Produção: Kevin Frakes, Lars Knudsen, Buddy Patrick Duração: 127 min. Estúdio: PalmStar Media, Finch Entertainment, Windy Hill Pictures Distribuidora: A24

Rampage – Destruição total (2018)

Por André Dick

Há alguns anos, principalmente desde Terromoto – A falha de Santa Andreas, Dwayne Johnson, mais conhecido como The Rock, vem tendo uma ascendência sobre projetos de ação e bem-humorados na Warner Bros. O seu feito mais recente é Rampage – Destruição total, filme que se aquece com várias referências a King Kong, Godzilla e Jurassic Park, adaptado de um jogo de arcade muito popular nos anos 80. Com um orçamento respeitável de 120 milhões de dólares, ele arrecadou 420, constituindo-se num sucesso imprevisível, principalmente perto de franquias irregulares da companhia, como aquela que abriga os filmes da DC Comics. Afinal, o último filme com grande orçamento que apostou nessa ligação entre selva e cidade foi o financeiramente prejudicado A lenda de Tarzan. E deve-se ressaltar que Johnson está em outro grande sucesso nesse molde de filme situado entre o jogo e a realidade, que é a continuação de Jumanji.

Tudo inicia quando uma estação espacial, Athena-1, sofre problemas e tem como única sobrevivente a Dra. Kerry Atkins (Marley Shelton). Ela faz pesquisas de patógenos no espaço, a mando de Claire Wyden (Malin Akerman, de Watchmen – O filme), da empresa Energyne, assessorada pelo irmão Brett (Jake Lacy, forçando um overacting constrangedor). Os restos da estação acabam caindo nos Estados Unidos, atingindo especificamente San Diego Wildlife Sanctuary, onde mora um gorila albino, George (com movimentos impecáveis de Jason Liles), que é cuidado pelo primatologista David Okoye (Johnson), ex-integrante do exército norte-americano e um sujeito solitário, mesmo que o roteiro não desenvolva isso. Com os efeitos desse patógene atingindo seu amigo primata, David recebe a ajuda de Dra. Kate Caldwell (Naomie Harris). Esse vírus provoca raiva e crescimento no animal que sofre seus efeitos. Também surge um agente, Russell (Jeffrey Dean Morgan), que pode ou não prejudicar suas ações.

A partir daí, começa uma caçada das autoridades a George, mas também a outras criaturas que surgem pelo caminho. É inevitável avaliar que Rampage – Destruição total tem uma narrativa muito simples, sem nenhuma elaboração especial. No entanto, mesmo que a atuação de Johnson destoe, por exemplo, daquelas de Naomie Harris (Moonlight), com sua empatia habitual, e Dean Morgan (The Walking Dead), pode-se dizer que se trata de uma obra despretensiosa capaz de alcançar seu efeito.
Não há nenhuma novidade no caminho mostrado pelo diretor Brad Peyton, especializado em dirigir filmes de Johnson (o já mencionado Santa Andreas e Viagem 2 – A ilha misteriosa), porém o encadeamento das cenas não permite ao espectador um momento de desinteresse. Não se trata de uma ação puramente caótica, e sim o entrelaçamento dessa narrativa blockbuster com efeitos especiais realmente extraordinários, incorrendo por vezes num chroma key desnecessário em certos momentos, por outro lado revelando uma intensa vibração e um tom de aventura e busca de amizade. O roteiro escrito a oito mãos por Ryan Engle, Carlton Cuse, Ryan J. Condal e Adam Sztykiel é ostensivamente previsível, e ainda assim o espectador quer acompanhar seu desenvolvimento. Em razão de os vilões principalmente serem caricatos e Harris não ter química com Johnson, Rampage não atinge o potencial que deveria, porém é mais do que se esperaria de um projeto com suas características.

Os “diálogos” entre David e George, a criatura sendo observada, têm alguns bons momentos, embora mais ao final se mostrem excessivamente focados na comédia, o gênero preferido de Johnson nos últimos anos. George, curiosamente, é o melhor personagem do filme, e sua movimentação não deixa a desejar aos trabalhos de César, de Planeta dos macacos, e do King Kong de Peter Jackson (ambos os trabalhos de Andy Serkis). Há um real drama quando o diretor Peyton foca o olhar do gorila que vai, a seu contragosto, se agigantando por causa do patógene espacial. Seu traço cômico não se assemelha a George – O rei da floresta, filme irregular com Brendan Fraser, e sim com o personagem central de Detona Ralph. Literalmente, ele carrega o filme nas costas, junto com os efeitos especiais, responsáveis por transformar os vinte minutos finais em algo grandioso, além de relativamente violento (inclusive nas mortes). E Johnson, mesmo com sua limitação conhecida, é um ator funcional nesses projetos. Seus filmes que satirizam a polícia são cada vez mais presentes, assim como sua presença em Velozes e furiosos. No entanto, é em peças menos chamativas como Sem dor, sem ganho, Southland Tales e este Rampage que ele se mostra mais à vontade.

Rampage, EUA, 2018 Diretor: Brad Peyton Elenco: Dwayne Johnson, Naomie Harris, Malin Akerman, Jake Lacy, Jeffrey Dean Morgan Roteiro: Ryan Engle, Carlton Cuse, Ryan J. Condal, Adam Sztykiel Fotografia: Jaron Presant Trilha Sonora: Andrew Lockington Produção: Brad Peyton, Beau Flynn, John Rickard Hiram Garcia Duração: 107 min. Estúdio: New Line Cinema, Flynn Picture Company, Wrigley Pictures, ASAP Entertainment, Seven Bucks Productions Distribuidora: Warner Bros. Pictures

 

Desobediência (2018)

Por André Dick

O diretor chileno Sebastián Lelio já havia lançado Uma mulher fantástica, vencedor do Oscar de filme estrangeiro e que estreou no Festival de Berlim, quando também estava finalizando a produção de Desobediência, seu ingresso em Hollywood, com Rachel McAdams e Rachel Weisz. É interessante como Lelio constrói as cenas iniciais do seu filme premiado, aliando drama, romantismo e suspense, principalmente porque nunca indica o que irá acontecer depois que o personagem namorado de uma mulher transexual se sente combalido, rompendo a tradição.
Em Desobediência, que também estreou no ano passado no Festival Internacional de Toronto ele se baseia de outro modo na tradição. Com roteiro escrito em parceria com Rebecca Lenkiewicz a partir de um romance de Naomi Alderman, ele mostra uma mulher, Ronit Krushka (Rachel Weisz), que regressa à sua comunidade judaica londrina depois da morte de seu pai Rav (Anton Lesser), um rabino, e encontra Esti Kuperman (Rachel McAdams), casada com Dovid (Alessandro Nivola), o seu amigo de infância e sucessor do seu pai como rabino. Esti também manteve um triângulo amoroso com a amiga e o agora marido.

Para os olhos alheios, eles seguem as normas dessa comunidade, da qual Ronit não quer mais fazer parte, tendo se tornado uma respeitável fotógrafa em Nova York. Os tios de Romit, Fruma (Bernice Stegers) e Moshe (Allan Corduner), a recebem com solicitude, no entanto com certa desconfiança e temor de revisitar o passado. Há um acontecimento específico que tentará justamente fugir às regras impostas, não apenas pela comunidade, como também, por habitual, pela sociedade. O casamento se transforma no símbolo dessa permanência de sentimentos, e Lelio filma a relação entre Esti e Dovid de maneira simétrica, com enquadramentos minuciosos.
Uma mulher fantástica é uma espécie de thriller disfarçado a partir de um acontecimento central que desencadeia todos os fatos. Há uma espécie de fantasma que ronda o tempo todo a personagem central sem que ela possa se defender à altura do comportamento que recebe das pessoas em torno. Já Desobediência parece bem menos tenso, mantendo quase uma frieza do espectador em relação ao trio principal, nunca se decidindo exatamente por um caminho. Talvez esta ambiguidade seja exatamente seu atrativo, ao lado das belas atuações de Weisz e McAdams, esta uma atriz múltipla, capaz de passar do malickiano Amor pleno para A noite do jogo sem que se note a diferença, pois seu talento transita de gênero para gênero.

Enquanto em Uma mulher fantástica, Lelio utilizava imagens por vezes reais, por vezes líricas, com um bom aproveitamento da fotografia, e nunca se torna condescendente com a situação, tentando mostrá-la da maneira mais incisa o possível, em Desobediência ele se fixa na realidade de modo preponderante. O diretor não joga os sentimentos de acordo com intenções meramente sociais e sim sentimentais, equivalendo, da melhor maneira, o objetivo de representar um drama autêntico e a tentativa de colocá-lo como um símbolo de um discurso à margem. A amizade que transcende a época entre Ronit e Estit se consolida em todos os aspectos por meio de imagens poéticas, com um jogo de luzes da fotografia bem acentuado, além de uma sequência ousada para as duas atrizes, revelando uma intensidade poucas vezes vista. Lelio se mostra um grande condutor de elenco, extraindo, desse dueto, ainda uma atuação à margem de Nivola, ator que vem se tornando referência em papéis indecisos, como aquele professor universitário que se envolve com uma aluna em Almas secas, e se parecendo, nesse sentido (não apenas fisicamente), com Michael Fassbender.

Há uma atmosfera interessante de tradição seguida à risca em todo o filme, no que se corresponde com o recente Noviciado e o já clássico Dúvida, que trata do catolicismo, principalmente pela figura de Nivola, mas sobretudo por aquela de McAdams, que trabalha como professora e parece temer qualquer passo que desvie do caminho que foi estabelecido para sua vida. Nesse sentido, Romit é como se fosse o símbolo da libertação desse universo, daquilo que ela gostaria de ter sido, fugindo ao que foi imposto. De certo modo, é este mote que oferece a transição de todo o ato final, com um paralelismo notável entre o que deve permanecer para esses personagens e, ao mesmo tempo, se transformar com a passagem do tempo. Não parece descompromissado o fato de Romit ser uma fotógrafa. Cada instante desta narrativa lembra um postal tentando encontrar o olhar do outro, com um sentimento, a começar pelo desencadeamento da história, de luto e sobrevivência ao que se foi e se tenta ser. As velas sendo acesas em diferentes sequências representam essa tentativa de cada um se autoiluminar. Vários filmes tratam de uma tradição mais vigorosa e centrada nos papéis de seus integrantes, porém Desobediência possivelmente seja o exemplo mais claro dos últimos anos, desempenhando esse esforço com uma competência narrativa que não foge a pontos já previstos, ainda que sempre com o intuito de apresentar ao espectador uma visão interessante.

Disobedience, EUA/ING/IRL, 2018 Diretor: Sebastián Lelio Elenco: Rachel Weisz, Rachel McAdams, Alessandro Nivola, Anton Lesser, Bernice Stegers, Allan Corduner Roteiro: Sebastián Lelio e Rebecca Lenkiewicz Fotografia: Danny Cohen Trilha Sonora: Matthew Herbert Produção: Frida Torresblanco, Rachel Weisz, Ed Guiney Duração: 114 min. Estúdio: LC6 Productions, Braven Films, Element Pictures, Film4 Productions, FilmNation Entertainment Distribuidora: Curzon Artificial Eye, Bleecker Street

O amante duplo (2017)

Por André Dick

Exibido pela primeira vez no Festival de Cannes de 2017, O amante duplo é o filme mais recente de François Ozon, o diretor francês com mais lançamentos nos últimos anos. Ele vem fazer companhia a Frantz, obra mais clássica do diretor lançado no primeiro semestre do ano passado, fotografado em um preto e branco excepcional. Mais clássica também porque O amante duplo recupera as características do cineasta exibidas principalmente no fascinante Swimming Pool – À beira da piscina, de 2003, com Charlotte Rampling no papel de uma escritora que vai para uma casa de campo tentar escrever uma obra quando se vê cercada por um mistério em torno da filha de seu editor (Ludivine Sagnier). Nessa peça que já completou 15 anos, vemos o estilo de um novo diretor se sustentar pela originalidade.
Chloé Fortin (Marine Vacth) é uma jovem com características depressivas que passa a se tratar com o psicanalista Paul Meyer (Jérémie Renier, um dos atores favoritos dos irmãos Dardenne). Ela é uma ex-modelo de 25 anos que deseja fazer com que desapareça uma determinada dor em seu corpo. Isso é o início de um relacionamento nebuloso, em que Ozon utiliza uma simbologia entre a psicanálise e a figura do gato. Ele desenha analogias interessantes, quando Chloé vai trabalhar num museu – e este representa, algumas vezes, sua própria personalidade, ligada a um sexo instintivo.

Poucas vezes o cenário de um museu é tão bem utilizado aqui: além do cuidado cenográfico, com uma composição de obras que tratam não apenas do lugar enfocado, como também da personagem, Ozon ingressa num labirinto humano, no qual a personalidade de uma mulher vai sendo desenhada tanto pela criação artística quanto pela criação que surge de sua faceta psicanalítica. Certamente há muito de Freud e Lacan nas imagens colecionadas pelo diretor, numa história que coloca o sexo como ponto de partida para solucionar questões existenciais persistentes.
Ozon faz uma espécie de drama mesclado com thriller de voltagem erótica, lembrando em alguns pontos Gêmeos, de Cronenberg, e Elle, de Verhoeven, mas com uma sensação ainda maior de vazio, como é de praxe em sua obra. Vacth (estrela de Jovem e bela, outro filme de Ozon) tem uma atuação surpreendente e se entrega ao papel com vulnerabilidade, protagonizando cenas difíceis e nas quais Ozon chega a comparar o olhar com o sexo feminino, com um requinte visual de fazer inveja aos melhores diretores de cinema de arte. Uma fotografia decisivamente bela de Manu Dacosse entrega não apenas ao museu uma representação da duplicidade que persegue esses personagens. Veja-se a cena em que Chloé adentra um espaço em que sua imagem é multiplicada por vários espelhos, ou como a Ozon enquadra seu rosto para se assemelhar a uma figura felina (e outras vezes andrógina).

O mais interessante é como Ozon deixa em suspenso qualquer tipo de explicação mais definida, a exemplo de algumas personagens femininas que vão surgindo para preencher lacunas. O passado, nesse meio campo, se torna uma referência para que possamos descobrir o que está acontecendo (ou não) aos personagens. Nunca se tem certeza sobre o que está ocorrendo; a cada momento em que a trama avança, parece que o espectador precisa retomar passos que já pareciam deixados para trás.
Chloé lembra muito as personagens de um filme de De Palma, embora muito mais complexa em determinados pontos também porque o roteiro navega por um jogo menos intenso com a metalinguagem e mais com a perturbação emocional capaz de conduzir a lugares diferentes. Se em obras como Dublê de corpo De Palma presta uma clara homenagem a Hitchcock, Ozon deixa seus caminhos mais nublados, fazendo uma contraposição entre o dia claríssimo no museu e a noite na qual as relações se mostram estranhamente confusas. Há muito, nisso, claro, de um estilo que pode ser interpretado como apenas palatável para as plateias, sem o intuito exatamente de chocar.

No entanto, há algo sempre onírico rondando essa trama, independente do que leva Chloé a se locomover em busca de uma explicação para o que está de fato sentindo, o que leva ao encontro de De olhos bem fechados, obra derradeira de Kubrick que estabelecia a ligação da noite com o dia de maneira única, mais do que toda a história mostrada de maneira irretocável. Desse modo, ele dialoga abertamente, ao mesmo tempo, com o estilo de Olivier Assayas, outro cineasta francês da nova geração, com muito talento. Embora recebido com certa insatisfação, O amante duplo é um belíssimo filme que vem sendo subestimado de maneira geral desde sua exibição em Cannes. Ele é tudo o que gostaria de ter sido a trilogia baseada nos romances de E. L. James, sobre o comportamento da mulher diante de uma relação notadamente arriscada. E não fala apenas dela: trata dos sentimentos do espectador de maneira enviesada, trazendo uma interpretação para a busca de uma identidade nem sempre capaz de libertá-la.

L’amant double, FRA/BEL, 2017 Diretor: François Ozon Elenco: Marine Vacth, Jérémie Renier, Jacqueline Bisset, Myriam Boyer, Dominique Reymond Roteiro: François Ozon Fotografia: Manuel Dacosse Trilha Sonora: Philippe Rombi Produção: Éric Altmayer e Nicolas Altmayer Duração: 110 min. Distribuidora: California Filmes

Jurassic World – Reino ameaçado (2018)

Por André Dick

Em 1993, no mesmo ano em que lançou A lista de Schindler, pelo qual recebeu os Oscars de melhor filme e direção, Spielberg voltou ao antigo ingrediente que o consagrou na série Indiana Jones num dos maiores blockbusters já feitos, Jurassic Park. Baseada num excelente romance de Michael Crichton (também autor do roteiro, com David Koepp), a narrativa se concentra na jornada de um paleontólogo (Sam Neill) e sua mulher, uma paleobotânica (Laura Dern), até a Ilha Nublar, próxima à Costa Rica, onde se localiza um recém-criado parque dos dinossauros administrado por um magnata (o também diretor Richard Attenborough). As criaturas pré-históricas voltaram a existir por causa de um experimento genético e mosquitos congelados em rochas, assustando tanto a dupla de doutores quanto um matemático (Jeff Goldblum), que estão na ilha para inspecionar o parque. As cenas a partir daí são um marco para o cinema de ação.

Apesar da lição de moral previsível, Jurassic Park tem uma qualidade inegável: empolga o espectador, que acaba gostando, diante de um roteiro bem solucionado e um elenco talentoso. Além disso, o capricho na parte técnica (sobretudo nos efeitos especiais espetaculares, que continuam os melhores nessa área) tornam o filme uma obra única na história, capaz de suscitar imitações e manter a originalidade.
Também deu origem a duas continuações, a primeira novamente dirigida por Steven Spielberg (com Julianne Moore à frente do elenco) e a segunda, de Joe Johnston, embora a maior peça com dinossauros depois do primeiro Jurassic Park possivelmente seja King Kong, de Peter Jackson. E, se a primeira continuação, O mundo perdido, ainda consegue render uma boa sessão, Johnston não consegue trazer inovação. Quando as criaturas pré-históricas retornaram em Jurassic World, o diretor Colin Trevorrow não conseguiu elaborar do melhor modo a história, fazendo quase uma refilmagem do primeiro, sem o mesmo vigor.

Três anos depois estamos de volta à Ilha Nublar, em Jurassic World – Reino ameaçado, desta vez com Trevorrow como um dos roteiristas. O filme inicia com  o casal do filme anterior, formado por Owen Grady (Chris Pratt) e Claire Dearing (Bryce Dallas Howard), se reencontrando depois de algum tempo. Ela não é mais uma executiva responsável pelo funcionamento do parque, mas sim alguém que tenta ajudar na preservação dos dinossauros, com a ajuda de Franklin (Justice Smith) e da veterinária Zia Rodriguez (Daniella Pineda), enquanto ele mora afastado, no campo. O problema é que há mercenários querendo o DNA de um dos híbridos das criaturas existentes no parque abandonado. Ao mesmo tempo, o Senado norte-americano interroga o Dr. Ian Malcolm (novamente Goldblum) sobre se os dinossauros devem ser tirados da ilha, que sofrerá uma erupção vulcânica capaz de dizimá-los. Claire é contratada por Benjamin Lockwood (James Cromwell), ex-parceiro de John Hammond (Attenborough, no filme de 1993) na clonagem de dinossauros. Ela conhece seu assessor Eli Mills (Rafe Spalls) e a neta de Benjamin, Maisie (Isabella Sermon), esta sob os cuidados da governanta, Iris (Geraldine Chaplin). O maior interesse é pelo velociraptor Blue, que tem uma ligação com Owen, pois foi criado por ele.

A volta do grupo à ilha lembra muito Jurassic Park III, com a presença do chefe dos mercenários Ken Wheatley (Ted Levine). Trata-se de um início pouco original. No entanto, depois de uma sequência fantástica de ação, que sobrepuja a decepção de Jurassic World de Trevorrow, o diretor espanhol J.A. Bayona emprega seu maior talento: a junção entre espetáculo, com efeitos especiais de ponta (e os dinossauros aqui lembram mais aqueles dos filmes de Spielberg, sem tanta computação gráfica), o que já mostrara em O impossível e Sete minutos depois da meia-noite, com um toque por vezes poético. Se há momentos que remetem a O segredo do abismo e mesmo um especificamente aos momentos sobre a criação do mundo na obra de Terrence Malick, Bayona deixa de lado a ligação entre o casal e foca no desejo do ser humano se aproveitar dos dinossauros para romper a barreira do limite. Trata-se de um tema já subentendido no final de O mundo perdido, de Spielberg, sob certo ponto de vista subvalorizado (que conta com uma ótima Julianne Moore), e que aqui recebe o espaço acertado. Além disso, Bayona faz um núcleo interessante do casal com a atriz Sermon, esta especialmente ótima.

As figuras adversárias, representadas por leiloeiro Gunnar Eversol (Toby Jones), ganham um momento à parte que dialoga com o original de Spielberg do melhor modo, numa sucessão de perseguições e um sentimento de claustrofobia. Bayona revela a admiração da criança pelo universo de criaturas ameaçadoras, o que já fizera em seu experimento anterior, Sete minutos depois da meia-noite, mas avança em relação a um prazer de elaborar imagens que ficam na mente do espectador, como aquele em que a sombra de um dinossauro se projeta na parede dentro de um quarto infantil, lembrando os contos de fada ameaçadores. Mais do que isso, em certos instantes este Jurassic World é um filme de terror, com uma referência insuspeita, por exemplo, a O silêncio dos inocentes. Se ele não consegue se elevar como poderia a mais do que um filme de ação bastante eficiente, existe aqui um diretor e uma visão.

Jurassic World – Fallen kingdom, EUA, 2018 Diretor: J.A. Bayona Elenco: Chris Pratt, Bryce Dallas Howard, Rafe Spall, Justice Smith, Daniella Pineda, James Cromwell, Toby Jones, Ted Levine, B.D. Wong, Isabella Sermon, Geraldine Chaplin, Jeff Goldblum Roteiro: Colin Trevorrow e Derek Connolly Fotografia: Óscar Faura Trilha Sonora: Michael Giacchino Produção: Frank Marshall, Patrick Crowley, Belén Atienza Duração: 128 min. Estúdio: Universal Picture, Amblin Entertainment, The Kennedy/Marshall Company, Legendary Pictures Distribuidora: Universal Pictures

Suspiria (1977)

Por André Dick

Suspiria 24

O cinema de Dario Argento, desde O pássaro das plumas de cristal, se caracterizou por uma mescla evidente entre substância narrativa e uma parte visual orgânica, que parece dizer tanto quanto a primeira. Que alguns vejam seus filmes apenas com predomínio do estilo sobre a substância é bastante comum, devido a este destaque que ele oferece ao trabalho de fotografia. Na sua estreia, ele contava com Vittorio Storaro, vencedor do Oscar por Apocalypse now e Dick Tracy, com seu trabalho impressionante de cores. Em Suspiria, seu terror de 1977, ano de Guerra nas estrelas e Contatos imediatos do terceiro grau, a fotografia – desta vez de Luciano Tovoli – desempenha um papel mais uma vez importante, sendo quase o personagem central. É possível perceber o quanto ela é importante quando, de fato, a trama se guia por ela.
Na história, baseada vagamente em Suspiria de Profundis, coleção de ensaios escritos por Thomas De Quince, Suzy Bannion (Jessica Harper), uma estudante de balé, desembarca em Munique, Alemanha, a fim de se dirigir para a Academia de Dança Tanz, em Freiburg, como se esclarece na breve narração do próprio diretor, não creditada. Já chega em meio a uma tempestade e, quando o taxista se dirige para o lugar, ela vê uma menina caminhando (ou flutuando?) no bosque. Na entrada da Academia, percebe uma estudante, Pat Hingle (Eva Axen), fugindo desesperada.

Suspiria 9

Suspiria 18

Suspiria 16

Não conseguindo ficar no lugar, ela descobre, no dia seguinte, que aconteceu algo a Pat. Ela conhece também Madame Blanc (Joan Bennett), a vice-diretora, e Miss Tanner (Alida Valli), uma das instrutoras. É apresentada, ao mesmo tempo, a duas colegas, Sarah (Stefania Casini) e Olga (Barbara Magnolfi). A partir daí, entre desmaios e larvas no pente de cabelo e no teto, o lugar se torna cada vez mais estranho para Suzy, guiada sempre para um quarto onde receberá um atendimento médico especial. Há também um pianista cego, Daniel (Flavio Bucci), com seu cão-guia, e Sarah, especialmente, revela a Susy que ela era amiga de Pat e que esta agia de modo estranho há muito tempo.
Argento transforma simples cenas em peças de tensão muito bem construídas, principalmente quando Suzy conhece um psicólogo, Frank Mandel (Udo Kier), que relata sobre o passado da Academia, e o Professor Milius (Rudolf Schündler), colega dele. São momentos que parecem apenas expositivos, entretanto revelam a atração de Argento pelo jogo de espelhos como um reflexo das coisas. O trabalho de cores, do rosa passando pelo vermelho e azul, realça a atração de Argento em moldar os personagens por meio delas. O uso do vermelho, por exemplo, remete tanto à pintura da Academia quanto ao pesadelo em forma viva dos personagens em situações desesperadoras e às unhas da dançarina sendo pintadas em um momento de tranquilidade. Por sua vez, o azul parece intermediar uma passagem para um mundo de sonho – na piscina e na cortina –, e o rosa atua como um meio-termo com o vermelho, aparecendo sobretudo nos corredores. O laranja é utilizado no quarto da personagem central, como se ela fosse mais pura do que outros personagens. No momento em que as jovens dançarinas precisam dormir numa mesma sala, há uma companhia estranha, que, pela sombra, parece um Nosferatu.

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Argento faz uma espécie de diálogo multicolor com o expressionismo alemão: enquanto lá contava o jogo de sombras no preto e branco, em Argento o arsenal de cores trabalha para não identificar seu cenário com o que existe de mais aparentemente assustador, tal como Jodorowsky fazia em A montanha sagrada, quatro antes, para mostrar uma certa psicodelia visual dos anos 1970. Esta trajetória vivida pela personagem central é típica de um personagem ingênuo de conto de fadas: não por acaso, ela sempre está à mercê das pessoas a seu redor, fragilizada e assustada. Suzy é uma reprodução de várias mocinhas dos estúdios Disney e o espectador pode perceber que em algum momento está vendo uma espécie de Alice no país das maravilhas em formato de terror e sustos. Também pode estar em meio a O mágico de Oz, uma influência declarada para a captação de cores da iluminada fotografia de Tovoli, em que os movimentos das pernas embaixo d’água na piscina adquirem uma sobreposição com a cena do bosque que abre o filme e uma ameaça externa, vinda de uma figura ligada à magia.
Com auxílio também da trilha sonora composta por Goblin, Argento compõe um painel de luzes e sensações que conseguiriam influenciar diversos cineastas, de David Lynch – os corredores escuros ou não que remetem a Twin Peaks e A estrada perdida, o onirismo de Cidade dos sonhos e Império dos sonhos, a cortina de Veludo azul –, passando por Refn – em seus filmes Drive e Apenas Deus perdoa –, Stanley Kubrick – especialmente O iluminado –, Wes Anderson – a arquitetura da academia remete a O grande Hotel Budapeste e a trilha a Moonrise Kingdom, embora mais sinistra –, Brian De Palma – em A fúria, Vestida para matar e Dublê de corpo, por exemplo –, Francis Ford Coppola – aquele de Drácula de Bram Stoker –, Darren Aronofsky – mais exatamente Cisne negro –, até a estreia de Gosling em Rio perdido, principalmente na fachada da Academia de dança.

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Não sem utilizar uma simetria de movimentos de câmera já encontrada antes por Stanley Kubrick, principalmente quando mostra Suzy andando pelos corredores da academia. Todo esse cuidado eleva o gênero do terror a que Suspiria se dedica a um patamar de mais determinação e reconhecimento. Já em O pássaro das plumas de cristal e Prelúdio para matar, Dario Argento misturava o terror com a arte. No seu filme de estreia, mais exatamente, o primeiro crime acontecia numa galeria, e o jogo de espelhos e pintura é vital para compreender o seu desfecho. Não apenas espelhos, mas vitrais: todos eles, ao longo de Suspiria, parecem olhos espreitando a personagem e o espectador, e a janela que poderia oferecer o que há fora da Academia pode esconder figuras estranhas ou a continuação de um pesadelo. Há uma atmosfera constante de perseguição e estranheza em meio a um ambiente que seria naturalmente previsível. Em Suspiria, a arte se encontra exatamente em considerar que tudo não passa de um jogo de terror: é mais, é implacável e realmente amedrontador.

Suspiria, ITA, 1977 Diretor: Dario Argento Elenco: Jessica Harper, Stefania Casini, Flavio Bucci, Miguel Bosé, Barbara Magnolfi, Udo Kier, Joan Bennett, Aida Vallli, Eva Axen Roteiro: Dario Argento e Daria Nicolodi, baseados em Suspiria de Profundis, de Thomas De Quincey Fotografia: Luciano Tovoli Trilha Sonora: Dario Argento, Goblin Produção: Claudio Argento, Salvatore Argento Duração: 98 min. Distribuidora: Produzioni Atlas Consorziate

Cotação 5 estrelas