Liga da Justiça (2017)

Por André Dick

Com a recepção crítica de Batman vs Superman, logo antes de iniciarem as filmagens de Liga da Justiça as expectativas estavam voltadas para o fato de Zack Snyder continuar como diretor ou não. Ele realizou o filme, no entanto, antes da finalização, precisou se ausentar devido a uma tragédia pessoal: o suicídio de uma filha sua. Para refilmar cenas e escrever e dirigir outras, foi chamado Joss Whedon, responsável pelos dois Vingadores. Ele assina o roteiro ao lado de Chris Terrio (Argo), um dos roteiristas de Batman vs Superman. Ocorreram outras mudanças, como na trilha sonora – Danny Elfman substituiu Junkie XL –, e a discussão passou a ser, antes do lançamento: este seria um filme realmente de Snyder?
Liga da Justiça surge cinco anos depois do primeiro Os vingadores e nesse meio-tempo se acirrou a disputa entre a DC e a Marvel nas telas de cinema, cada uma com suas características. Este ano, porém, Mulher-Maravilha teria investido num otimismo a princípio ausente nas obras de Zack Snyder. O filme de Jenkins, junto com Batman vs Superman, serve como bom prenúncio da primeira reunião da Liga. Se no início a humanidade sente a morte do Superman – e a trilha, com “Everybody knows”, de Leonard Cohen na voz da cantora Sigrid, e a referência a David Bowie dialogam diretamente com Watchmen –, não há tempo para mais explicações.

Os novos personagens são apresentados com agilidade: Victor Stone, ou Ciborgue (Ray Fischer), ainda abalado por sua mudança física; Barry Allen, que tem os poderes de The Flash (Ezra Miller); e Arthur Curry, o Aquaman (Jason Momoa), herdeiro de Atlântida, são procurados por Bruce Wayne/Batman (Ben Affleck) e Diana Prince/Mulher-Maravilha (Gal Gadot) a fim de formar uma liga para combater a ameaça espacial de Lobo da Estepe (Ciarán Hinds), atrás de três caixas maternas que podem lhe emprestar um poder inigualável. Ele surge na Terra acompanhado pelos terríveis parademônios, atraídos pelo medo alheio e vêm a ser as criaturas da necessária passagem “Knightmare” de Batman vs Superman, no qual usavam o símbolo de Superman, representando uma ameaça para Wayne. Lamentando a morte de Clark/Superman, uma conversa entre Martha Kent (Diane Lane) e Lois Lane (Amy Adams) no Daily Planet é tão cotidiana que faz lembrar algo que havia se perdido com Donner nos anos 80. Em meio a isso, Silas Stone (Joe Morton) tenta ajudar seu filho Victor, por ter se tornado metade homem, metade ciborgue, e Barry visita seu pai, Henry (Bill Crudrup), na cadeia. Também vemos rapidamente Mera (Amber Heard) em Atlântida e Hippolyta (Connie Nielsen) na ilha de Themyscira.

A interação entre esses personagens é bem conduzida desde o primeiro encontro entre Bruce Wayne e Curry, mediada a distância por Alfred (Jeremy Irons, novamente ótimo). No entanto, a narrativa realmente se fortalece quando Barry Allen entra em cena, e Ezra Miller tem a oportunidade de entregar uma interpretação cômica realmente bem dosada. Apenas uma determinada cena em que Snyder filma o olhar assustado de Flash em slow motion, com a habilidade de atuação de Miller, garante o movimento para o desenrolar da narrativa. Os demais crescem com esse ingresso: Affleck e Gadot pontuam boas cenas juntas – a melhor é aquela em que Diana, vendo uma nova criação de Wayne, lembra do amado Steve Trevor (Chris Pine), remetendo a seu filme solo – e Momoa e Fischer (este especialmente, pela inexperiência) são belos acréscimos. Quase em participação especial, J.K. Simmons também se mostra o novo Jim Gordon, com um bat-sinal no topo da delegacia esfumaçado, lembrando o Batman de Burton, e aqui a trilha sonora de Danny Elfman, num trabalho interessante, embora não brilhante, como poderia, tem sua melhor participação (spoiler até o fim do próximo parágrafo).
Por sua vez, a volta do Superman resulta numa das melhores sequências, quando, não lembrando de quem é, enfrenta os outros da Liga. Cavill está bem, numa mudança já aguardada de comportamento também em relação a Batman vs Superman, e o CGI usado nele chama mais a atenção de quem possui a informação (quando foi preciso regravar cenas, ele já filmava Missão impossível 6 e não podia tirar o bigode que usava com o personagem desse filme). Sua atuação é reforçada por uma sempre competente Amy Adams. Interessante também como o duelo que ele tem com os demais companheiros se dá em frente à sua estátua desmontada em Metrópolis, dialogando com a profissão de Diana. É como se, entre a vida e a morte, esses personagens estivessem sempre em reconstrução.

Em termos de estilo, ficam claras algumas diferenças entre o que foi rodado por Snyder e o que foi finalizado por Whedon. Snyder tem um senso estético quanto a design de produção e fotografia, por exemplo, que Whedon não possui, mas o filme nunca se sente dividido ou com a tentativa de romper a paleta do diretor oficial e de Fabian Wagner (Game of thrones), levando em conta que apenas 20% das cenas teriam sido feitas ou refeitas por Whedon. As cores se sobrepõem das mais diversas formas e mesmo assim se mantém uma unidade. Elas são mais vivas do que nas obras anteriores de Snyder, no entanto trazem uma tonalidade ainda melancólica, buscando um tom alaranjado. Mesmo os figurinos de cada super-herói se sentem ainda melhores do que vimos anteriormente em quadrinhos, filmes ou séries de TV. Com melhor ouvido para certo diálogo descompromissado, Liga da Justiça parece se fortalecer com a presença de Whedon, mas certamente perdeu em certos momentos a perícia de Snyder com certa antilinearidade (os pesadelos de Bruce Wayne em Batman vs Superman mostram bem isso) e um tom épico que é prejudicado pela curta duração, o que é sentido nos primeiros 15 minutos e nos 10 finais.

Ainda assim, Liga da Justiça, de modo geral, apresenta o estilo delirante de Snyder, capaz de transitar por batalhas gregas com uma atmosfera de Olimpo (300), mostrar um Superman com questionamentos existenciais (O homem de aço), encadear uma sequência de imaginações de uma menina num hospício (Sucker Punch) e apresentar uma animação em que duas corujas irmãs entram em conflito (A lenda dos guardiões), além de um épico sobre um grupo de super-heróis perseguido (Watchmen). Este é um filme visualmente fantástico, com efeitos especiais impressionantes, prejudicados apenas pelo CGI excessivo do duelo final, o que já acontecia em Batman vs Superman e Mulher-Maravilha (curiosamente não tão presente nos primeiros trailers). Os mais destacados são aqueles que envolvem a velocidade do Flash, que poderiam ser carregados, mas estão no tom certo. E, por mais que os cenários mudem abruptamente, há tons e cores que os unem, oferecendo uma real unidade.
Nota-se o cuidado de Snyder em enquadramentos, como a primeira sequência de Batman, que evoca o de Burton e tem um sentido físico real, homenageando, também, com as pombas no alto do prédio, o clássico Blade Runner. Mais: mesmo que de forma menos intensa do que certamente sua versão original (e fica evidente que Liga da Justiça tinha a metragem lançada nos cinemas de Batman vs Superman, pelo menos), a Liga não conserva muito de certo desencantamento de Snyder visto em obras como Watchmen. O vilão também não permite o que Snyder conseguiu com Zod e Lex Luthor: essa é uma ameaça para a humanidade com o objetivo de unir esses heróis em torno de uma determinada ação, não havendo grande elaboração dos seus motivos. Trata-se de uma ameaça secular (em certa narração sobre a sua história, há ecos de O senhor dos anéis, de Peter Jackson), envolvendo as amazonas e o povo de Atlântida, mas é preciso dizer, com ou sem o laço de Mulher-Maravilha, não totalmente elaborada. Em certo momento, é retomada uma referência às lendas do Rei Arthur, já devidamente lembradas tanto por meio do filme anunciado no cinema no início de Batman vs Superman (Excalibur) quanto pela arma usada pelo Superman na luta derradeira.

Liga da Justiça, por outro lado, continua investindo na emoção familiar de O homem de aço, na cena que se passa num milharal, em referência ao clássico Superman de 78 e a Campo dos sonhos, não por acaso com Kevin Costner, que faz o pai terráqueo do homem de aço e no filme de 89 era visitado por fantasmas em sua fazenda. É ressonante também o encontro dos Allen na prisão e uma discussão dos Stone. Também há mais bom humor. Contudo, pelos trailers iniciais, essa diferença já era evidente, então não se tem certeza do tom que Whedon empregou seja tão diferente do resultado inicial. Do mesmo modo, o estabelecimento de conexão com os filmes anteriores (pela nave de Zod, sobretudo, e pela Ilha de Themyscira), é muito bem desenhado, de modo discreto, assim como com os próximos (em duas boas cenas pós-créditos, a segunda especialmente reveladora do que virá).
Isso é beneficiado pelo verdadeiro sentimento de heroísmo vindo de cada personagem, assim como a compreensão em relação a cada um, especialmente de Mulher-Maravilha em relação ao Ciborgue e a amizade deste com o Flash, sendo dois deslocados, presos a um passado que ainda não conseguiram resolver. Esse heroísmo é colocado em avaliação sobre a idade pessoal por Bruce Wayne e uma brincadeira com uma fala do confronto anterior entre ele e Superman, que certamente é um toque refinado do roteiro de Terrio e Whedon. Todos esses personagens carregam alguma culpa (a de Batman em ter matado Superman, a de Mulher-Maravilha em não ter aparecido como uma heroína ao longo de décadas) e tentam usar seu vigor com o intuito de ajudar a humanidade. Apesar de não ter complementado seu trabalho, e de esta versão ser certamente mais curta do que eu gostaria – e o público, possivelmente, também –, Snyder firma, com Liga da Justiça, seu nome como o melhor diretor de fantasias provindas dos quadrinhos. Ele realmente torna emocionante ver esses personagens em ação.

Justice league, EUA, 2017 Diretor: Zack Snyder Elenco: Ben Affleck, Henry Cavill, Amy Adams, Gal Gadot, Ezra Miller, Jason Momoa, Ray Fisher, Jeremy Irons, Diane Lane, Connie Nielsen, J. K. Simmons, Bill Crudup, Amber Heard Roteiro: Chris Terrio, Joss Whedon Fotografia: Fabian Wagner Trilha Sonora: Danny Elfman Produção: Charles Roven, Deborah Snyder, Jon Berg, Geoff Johns Duração: 121 min. Estúdio: DC Films, RatPac Entertainment, Atlas Entertainment, Cruel and Unusual Films Distribuidora: Warner Bros. Pictures

Mulher-Maravilha (2017)

Por André Dick

O universo compartilhado da DC Comics no cinema teve início há quatro anos com O homem de aço, de Zack Snyder, seguido por Batman vs Superman, do mesmo diretor, e Esquadrão suicida, ambos lançados no ano passado. Em um ambiente no qual a disputa da companhia com a Marvel cresce a cada filme, Mulher-Maravilha, o primeiro blockbuster dirigido por uma cineasta, Patty Jenkins, parece trazer uma certa nostalgia em seu início principalmente.
Na ilha de Themyscira, Diana Prince (na infância Lilly Aspel e na adolescência Emily Carey) é educada e treinada para ser uma amazona guerreira pela tia Antiope (Robin Wright), com todo o conhecimento e preparo físico possíveis, mesmo contra a vontade de sua mãe, Hippolyta (Connie Nielsen). Essa premissa familiar já seria suficiente para ver no filme de Jenkins, diretora de Monster, pelo qual Charlize Theron ganhou o Oscar de melhor atriz, um dos fundamentos desse gênero: o respeito às HQs, e o roteiro aposta nisso, apropriadamente interessante. Há uma preocupação em contar a origem das amazonas, com uma volta à mitologia de Zeus, e fica clara a influência do Zack Snyder, que ajudou a escrever a história com Scott Heinberg (responsável pelo roteiro final) e Jason Fuchs, principalmente nas imagens e na tonalidade das figuras gregas, remetendo a 300.

Quando Diana já adulta (Gal Gadot) presencia a queda do avião do norte-americano Steve Trevor (Chris Pine), e imediatamente se depara com a Primeira Guerra Mundial, temos um exemplo de como abordar a história com elementos de fantasia. Ele é um espião que está atrás de informações relativas a alemães. Poucas vezes isso foi feito, mais exatamente naquela obra que serve de comparativo com este, Capitão América – O primeiro vingador, com elementos também de Rocketeer, em que o herói enfrentava nazistas na Hollywood dos anos 40. Se o filme de Johnston insistia em certa narrativa fragmentada, Mulher-Maravilha tenta ser mais completo: é visível que não há os saltos propostos na narrativa de Johnston, nem uma excessiva vontade de converter cada imagem num frame de HQ.
Para um filme que inicia com belíssimo visual da ilha, em trabalho de fotografia magistral de Matthew Jensen (Game of Thrones), repleto de cores, é de se imaginar que há um novo tom adotado para a DC. No entanto, esse novo tom não percorre toda a narrativa: na maior parte das tomadas de guerra, muito realistas e bem feitas por Jenkins, com uma aura de cinema antigo, a atmosfera é soturna. O design de produção de Aline Bonetto, colaboradora de Jean-Pierre Jeunet, em O fabuloso destino de Amélie Poulain e Estranho amor – que possui cenários de guerra parecidos com as de Mulher-Maravilha – e o figurino de Lindy Hemming, que recebeu um Oscar por Topsy-Turvy e participou da trilogia Batman de Nolan, são notáveis.

Ambos os trabalhos acrescentam ao universo da DC, porém não destoam, ou seja, nada aqui é tão claro que deixe de lado uma ambientação atmosférica densa. Não parece haver humor excessivo, de qualquer modo, a não ser quando Mulher-Maravilha entra em contato com Etta Candy (a simpática Lucy Davis, subaproveitada) e a Londres de 1918, que remete à Nova York de Animais fantásticos e onde habitam, com seus detalhes inumeráveis, ou quando procura “guerreiros” para acompanhá-la no front de batalha – momentos em que o filme tenta agradar excessivamente ao público. Os personagens do general alemão Ludendorff (Danny Huston, na atuação problemática do elenco) e uma colega (Elena Anaya) dialogam mais com o universo de Harry Potter e Animais fantásticos e se sentem um pouco deslocados aqui. Nesse contexto, a figura da Mulher-Maravilha se dá com certa desenvoltura, principalmente quando em Londres se mostra intelectualmente já à frente de seu tempo. Há um subtexto claro aqui de temas voltados ao feminismo, com a determinação de Jenkins em lidar com eles de forma interessante e não pretensiosa.
Além disso, o século de distância que afasta essa Diana de Batman vs Superman, tendo Bruce Wayne em seu encalço, é exatamente aquele em que a heroína fica mais experiente e a mitologia se transforma em fantasia: a Primeira Guerra é o verdadeiro apocalipse que se materializa em Gotham City no filme de Snyder. A ilha Themyscira representa o oposto do mundo masculino, que seria exatamente o da guerra sem nenhuma razão: a oposição se dá não apenas pelo uso das cores na primeira parte em oposição aos momentos em que Diana sai do lugar onde nasceu. A Ilha Paraíso, como também é conhecido o lugar, presencia a queda da humanidade com a chegada do homem. E este, segundo Diana Prince, precisa ser salvo. Mas, no momento em que ela realmente conhece os horrores da guerra, talvez ele não queira exatamente isso. Jenkins procura fazer quase uma análise da guerra à parte de seu filme – que tem o foco evidente na fantasia. Isso por vezes engrandece a temática e por outras desvia o foco do que apresenta em cenas-chave. Já o discurso sobre deuses e humanos e a tentativa de Jenkins em representá-los como pinturas em movimento – quando Snyder expunha o tema por meio da pintura na sala de Lex Luthor em Batman vs Superman – é um tema que vem desde O homem de aço no universo compartilhado da DC.

Com um personagem fundamental criado em 1941 por William Moulton Marston, mesmo com essa parcela de mostrar o primeiro filme grande com uma super-heroína, Mulher-Maravilha não parece carregar o risco de Batman vs Superman e mesmo O homem de aço. Trata-se de uma aventura com elementos clássicos, apresentando um um otimismo mais evidente, na construção que ele faz da relação entre os super-heróis mostrados e suas famílias e na esperança de um mundo melhor, mesmo que de maneira conflituosa – o que é base desses personagens nas HQs e animações contemporâneas. Em Mulher-Maravilha, essa relação se dá desde o início, na ilha de Themyscira e forma a personalidade de Diana, mas, ao contrário de Batman e Superman, ela se sente um tanto desprendida do seu passado, e daí a principal diferença de enfoque. Além de tudo, situado durante os anos 1910, não seria possível Jenkins aplicar em sua personagem o mesmo nervosismo da modernidade em que Batman e Superman estão inseridos, com suas guerras a serem enfrentadas a partir de invasões alienígenas ou psicopatas com acesso à mais recente tecnologia para manipular o governo.

Há méritos evidentes para Jenkins em extrair uma boa atuação de Gal Gadot, que se sentia com uma participação tímida em Batman vs Superman e aqui realmente se encaixa no papel, fazendo uma boa parceria com um Chris Pine à vontade, como se estivesse a bordo da Enterprise, assim como na construção de algumas cenas de ação, em que os efeitos visuais são balanceados entre elementos de realismo e fantasia (o laço da Mulher-Maravilha é especialmente bem feito e confere impacto às cenas em que surge). Lamenta-se que Pine não seja suficientemente aproveitado da metade para o final, o que prejudica bastante a fluidez até então da narrativa, e é justamente ele que provoca uma cena antes do final emocionante.
Mais conhecida antes por participar da série Velozes e furiosos, Gadot apresenta um crescimento dramático, mesmo que não completo, principalmente no terceiro ato, que reduz de forma significativa as qualidades do filme (e a metragem se excede em pelo menos 15 minutos). Ela já havia se mostrado uma boa comediante em Vizinhos nada secretos, ao lado de Zach Galifianakis, e aqui novamente seu timing para humor é muito bom. No entanto, o discurso que ela apresenta sente-se didático demais, mesmo expositivo, pois Jenkins naturalmente está aproveitando a figura da Mulher-Maravilha mais para simbolizar um discurso bem dosado à guerra do que para inseri-la numa trama distribuída em camadas. No entanto, para quem está desconfiado de quem forma a opinião de alguns espectadores, não se engane: é tudo o que eles querem. Nada decisivamente melhorou ou piorou: tudo voa ao sabor das circunstâncias, assim como a Mulher-Maravilha em muitas sequências, desta vez sendo recebida em geral não com uma dose tendenciosa de ver apenas falhas onde há verdadeiros méritos.

Wonder woman, EUA, 2017 Direção: Patty Jenkins Elenco: Gal Gadot, Chris Pine, Robin Wright, Danny Huston, David Thewlis, Connie Nielsen, Elena Anaya, Lucy Davis, Saïd Taghmaoui, Ewen Bremmer, Eugene Brave Rock Roteiro: Allan Heinberg Fotografia: Matthew Jensen Trilha Sonora: Rupert Gregson-Williams Produção: Charles Roven, Deborah Snyder, Zack Snyder, Richard Suckle Duração: 140 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Atlas Entertainment / Cruel & Unusual Films / DC Entertainment

 

Batman vs Superman – A origem da justiça – Edição definitiva (2016)

Por André Dick

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Este texto apresenta descrições de algumas cenas incluídas

Passados alguns meses depois do lançamento no cinema, a versão estendida, anunciada desde antes da estreia, de Batman vs Superman – A origem da justiça começa a ganhar os primeiros espectadores. A Warner Bros sofreu críticas de quem queria assisti-la na tela grande, mesmo porque a versão original desagradou a muitos fãs e críticos. A metragem agora é de 182 minutos, enquanto a versão dos cinemas é de 151 minutos (Snyder já havia feito duas versões estendidas para Watchmen, sendo que a segunda tem 215 minutos). Batman vs Superman poderia ser um filme polarizador se não tivesse sido lançado numa época estranhamente desigual também no cinema, em que alguns filmes sem tanta qualidade adquirem status de clássicos instantâneos, enquanto outros, como ele, são considerados fracassos de realização.

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De fato, não criou uma polarização: enquanto há admiradores do filme, grande parte do público (pelo menos a maior parte de quem se manifesta) o rejeitou, embora a média do IMBb seja razoável: 7/10. Em termos de crítica, no Rotten Tomatoes, ele recebeu 27% de aprovação. Esta marca é um pouco superior à de Batman e Robin e Superman IV – dois filmes bastante fracos com esses super-heróis. No Letterboxd, impressiona a quantidade de cotações de meia estrela até duas estrelas, como se fosse um dos piores do ano, até antes da estreia da versão definitiva – e, desde então, a média passou para três a quatro estrelas. Antes mesmo de o filme não chegar à marca respeitável – embora inferior às expectativas – de 900 milhões de dólares nas bilheterias, houve pedidos pela saída de Zack Snyder dos projetos da DC Comics. A Warner subentende que, nos bastidores, haverá mudanças para A Liga da Justiça.
Mas Batman vs Superman é merecedor desse status de filme problemático? Merece que elogios a ele se tornem raros e quase proibitivos? Minha crítica feita à época do lançamento está aqui. Continuo, desde lá, achando que depende do ponto de vista – que, para mim, é claro e talvez não agrade. Se o espectador não está disposto a ver mudanças da linguagem dos quadrinhos para o cinema e escolhas artísticas de Snyder, ele passa a ser incômodo. Se ele não aceita o roteiro menos linear do filme, também. E, se não concordar que o universo de Snyder para esses personagens é realmente mais soturno, não haverá uma boa recepção. E é muito difícil imaginar se um espectador que desgostou do original irá aproveitar mais este. A questão é que Batman vs Superman não precisaria de uma versão estendida para ser de fato um grande filme, um dos melhores do ano. Mas, se esta versão já estava anunciada, o correto é realmente lançá-la e vê-la como a ultimate edition (no Brasil, edição definitiva).

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Muitos reclamaram de lacunas na trama de Batman vs Superman e que a versão estendida tenta resolvê-las. Não acredito que haja tantas lacunas, nem que houvesse a montagem caótica. Tenho em mente uma dúzia de filmes com montagem realmente confusa que foram ganhadores de prêmios importantes e elogiados por espectadores e público. Mas qualquer acréscimo a um grande filme é bem-vindo. Batman vs Superman dá destaque, principalmente, à narrativa de Lois Lane (Amy Adams) no país africano de Nairomi, que agora passa com mais agilidade – e estabelece uma relação clara com Lex Luthor (Jesse Eisenberg), além de enfocar um cenário de guerra que remete a A hora mais escura, com a presença destacada de um personagem chamado Jimmy Olsen (Michael Cassidy) e cenas de destruição de drones. São passagens que ajudam a aprofundar detalhes que desembocam na política, um dos temas da obra. Do mesmo modo, temos mais cenas de momentos de reflexão do Superman. Esta é uma reclamação comum: que o Superman (Henry Cavill) de Snyder não possui muitas falas. Pelo filme, percebe-se que não se sente nem humano nem alienígena; sente-se, de fato, deslocado. Há uma cena muito bem feita nesta versão estendida, quando ele sai do Capitólio com uma das vítimas da explosão e observa os feridos à sua volta. Ela revela o quanto Snyder não possui visão apenas para cenas de fantasia, como trabalha com o choque diante de uma realidade incontornável. Também vemos um prólogo ao encontro de Clark Kent com seu pai no alto de uma montanha.

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O vilão, Lex Luthor, recebe algumas cenas a mais, inclusive ao final, quando tem um encontro um pouco mais prolongado com Batman, e uma de suas subtramas se sente mais resolvida, embora no original não seja especialmente necessária, envolvendo a figura de uma mulher, Kahina Ziri (Wumni Mosaku), que recorre à senadora Finch (Holly Hunter). E também temos breves detalhes interessantes, como Alfred (Jeremy Irons) cortando lenha do lado de fora da mansão, numa contradição com o universo de tecnologia que habita.
De maneira geral, a versão estendida de Batman vs Superman se concentra mais na investigação inicial de Lois sobre o que aconteceu em Nairomi e também a de Clark Kent atrás de informações de Batman (Ben Affleck) – quando encontra um homem que lhe mostra uma raspadinha com o contorno do símbolo do morcego –, investigando um prisioneiro, Cesar Santos (Sebastian Sozzi), que foi marcado pelo símbolo do justiceiro de Gotham City na pele e isso significa morrer na prisão. Esses dois acréscimos tornam o filme mais interessante no sentido de que há uma explicação mais bem conduzida para Superman se contrapor a Batman, principalmente. Também há um acréscimo nas consequências da explosão do Capitólio, com a técnica de laboratório Jenet Klyburn (Jena Malone) trazendo uma explicação-chave. A versão estendida possui, como se previa, mais cenas de violência, alguns detalhes, como no assassinato dos pais de Wayne ou no confronto entre os super-heróis – nada, no entanto, que lembre a violência, por exemplo, de Watchmen. Snyder, ao final, reserva algumas cenas do luto público pela morte de Superman, assim como de seu funeral, criando uma atmosfera ainda mais melancólica, e assinalada com beleza.

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Esta versão se mostra ainda mais soturna e com temas raros para algo que as pessoas desejariam que fossem apenas de super-heróis. É ainda menos infantil, certamente desagradando a um público dessa idade. E, ao contrário da trilogia de Nolan, este Batman vs Superman se sente ainda mais num universo em que os super-heróis parecem não ter certeza para onde devem se dirigir. Isso parece o principal incômodo para certo público: Snyder realmente arriscou fazer um filme em que duas figuras que representam a salvação não parecem saber indicar um caminho. Bastante revelador quando, depois da morte de Superman, aparece uma capa de jornal sobre o assassinato de Kennedy, como se ele representasse um sinal de esperança. As ruas de Metrópolis estão vazias: todos lamentam a morte daquele que trazia segurança. É complexo e humano, muitas vezes, além de denso. A versão estendida, diga-se, melhora ainda mais um filme que já era excelente. Não é simplesmente para um público mais adulto, como já foi a trilogia de Nolan. Ao mesmo tempo que ele homenageia alguns quadrinhos, ele apresenta um traço novo. Poucas vezes se tem certeza de que uma obra foi injustiçada, e Batman vs Superman é um desses casos.

Batman v Superman – Dawn of justice – Ultimate Edition, EUA, 2016 Diretor: Zack Snyder Elenco: Ben Affleck, Henry Cavill, Amy Adams, Jesse Eisenberg, Diane Lane, Laurence Fishburne, Jeremy Irons, Holly Hunter, Gal Gadot, Scoot McNairy, Jena Malone, Michael Cassidy, Wumni Mosaku, Sebastian Sozzi Roteiro: Chris Terrio e David S. Goyer Fotografia: Larry Fong Trilha Sonora: Hans Zimmer, Junkie XL Produção: Charles Roven, Deborah Snyder Duração: 182 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: DC Entertainment / Dune Entertainment / Syncopy  

Cotação 5 estrelas

 

Batman vs Superman – A origem da justiça (2016)

Por André Dick

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Se as lições no que diz respeito à ação foram aprendidas com a versão de Bryan Singer em 2006, e atores melhores foram colocados nos papéis principais, O homem de aço tentava contrabalançar toda sua expectativa com doses maciças de movimento, ao mesmo tempo com uma tentativa de humanizar o personagem que remete a filmes mais contidos. A primeira impressão visual indicava que a paleta de cores frias foi um risco – independente de os primeiros filmes serem dos anos 70 e 80, uma época considerada mais ingênua, e o atual existir em meio a acontecimentos deste século. O primeiro Superman teve a fotografia de Geoffrey Unsworth (2001), e O homem de aço possuía o trabalho de Amir Mokri, que criou uma amplitude especial para os cenários, destacando as cores cinza e azul, com um tempo quase sempre chuvoso, úmido, sobretudo quando mostra a infância de Superman, com imagens que lembram A árvore da vida, mas que não chegam a contrastar com o restante, além de luzes em ambientes escuros.
Havia por trás dessa nova visão do super-herói um diretor autoral. Ter sido escolhido para realizar O homem de aço trouxe a Zack Snyder a responsabilidade de renovar uma franquia que iniciou com uma das melhores obras já feitas a partir de quadrinhos, exatamente o original de Richard Donner.

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Anos antes ele já havia realizado Watchmen – O filme, uma espécie de prévia de seus projetos atuais, um passo à frente de 300. Snyder certamente não contém o mesmo trejeito para a mistura entre ação e comicidade de Donner, não o impedindo de ser, por outro lado, um cineasta com um toque autoral delirante, principalmente quando tem liberdade. Essa característica voltaria no menosprezado Sucker Punch, no sentido de este também mostrar os efeitos da guerra sobre personagens delimitados, embora pareça mais uma mistura de filmes de heróis com Cabaret de Bob Fosse. E regressa novamente neste Batman vs Superman – A origem da justiça.
Como na obra de 2013 e Watchmen, Snyder poderia ter realizado algo mais próximo ao estilizado, como Sin City, mas escolhe um tom mais próximo da fantasia, auxiliado pelo design de produção irretocável e pela fotografia de Larry Fong, novamente com uma paleta de cores soturna, fazendo uma boa combinação com o primeiro filme, além de oferecer o tom granulado já existente em Super 8. Este Batman vs Superman é uma espécie de extensão dos toques sombrios de Watchmen com uma ação de incalculável poderio, tentando trazer o melhor de dois super-heróis que se tornam referência para contar o início da Liga da Justiça. São personagens de destaque que Frank Miller colocou em campos opostos num dos quadrinhos mais memoráveis já feitos. É costume se falar que este tipo de filme é para um público específico, assim como O senhor dos anéis e O hobbit são para admiradores das obras de J.R.R. Tolkien, mas, sob esse ponto de vista, pode-se perder algo que independe de se conhecer ou não os seus personagens.
Com um início bastante interessante, estabelecendo ligação com o primeiro O homem de aço, Snyder coloca Bruce Wayne correndo de caminhonete em meio à destruição nas ruas de Metrópolis. Ele logo se torna um potencial adversário para deter o que entende como ameaça de Superman de trazer uma batalha que não é da Terra para o planeta, ameaçando destruí-lo.

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Enquanto combate o crime em Gotham com requintes ainda não vistos nos filmes de Burton e Nolan, tornando-o tranquilo em se considerar um fora da lei, Superman é visto como um potencial risco para o governo, na figura da senadora Fich (Holly Hunter, muito bem), assim como instiga o jovem Lex Luthor (Jesse Eisenberg, melhor do que possa aparentar e construindo um vilão interessante) a querer combatê-lo. Snyder, no início, apresenta uma montagem muito rápida das cenas, conduzindo o espectador ao centro da ação, trazendo ainda o personagem Wallace Keefe (Scoot McNairy, ótimo), um ex-funcionário de Wayne.
Se, por um lado, Clark Kent tenta se manter no Daily Planet, sob a direção de Perry White (Laurence Fishburne), e namorar a colega de trabalho Lois Lane (Amy Adams), não sabe mais o que pode fazer para não ser visto como um chamado à destruição de Metrópolis. No que corresponde às relações, Wayne prefere as efêmeras, a não ser, ao que parece, quando se depara com uma misteriosa mulher, Diana Prince (Gal Gadot) – e Snyder coloca o encontro dos dois ao som da “Waltz nº 2”, de Dmitri Shostakovich, a mesma utilizada por Stanley Kubrick em De olhos bem fechados. Como no filme de Kubrick, os personagens se disfarçam por trás das máscaras, e mesmo quando estão sem elas não se mostram como verdadeiramente são. Interessante também como Snyder consegue mesclar os sonhos de Bruce Wayne a seu comportamento: ele em nenhum momento se mostra como alguém com certeza do que pretende construir em Gotham City. São visões perturbadas, manifestando como o próprio personagem se sente, e a casa que dá para um lago cercado de sereno parece ser o contrário dele: não se pode enxergá-lo de fato. Trata-se de um dos acertos do roteiro de Goyer e Terrio (este o mesmo de Argo, mostrando a influência de Affleck sobre o projeto).

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A primeira hora de Batman vs Superman remete muito a Watchmen, em que havia a investigação de Rorschach, com relatos num diário que remetem aos narradores de filmes antigos policiais, e sua ida para a cadeia. O tom empregado é mais soturno do que na trilogia de Nolan, e dá espaço para Bruce Wayne ser um interessante contraste para a imagem de Batman. O mordomo Alfred (um ótimo Jeremy Irons) ajuda o patrão a desenvolver equipamentos de combate – conduzindo também à cena as características o personagem de Morgan Freeman na trilogia de Nolan – e lamenta a sua inclinação para a bebida. Ben Affleck, nesse sentido, compõe um super-herói menos esperançoso do que o de Bale, além de mais introspectivo. Nunca ficam muito claras suas intenções, e isso contribui para a sua dualidade. Surpreendentemente, Affleck consegue se apossar do personagem, oferecendo uma de suas melhores atuações. Além disso, a caverna onde esconde seus equipamentos dialoga com a de Nite Owl, de Watchmen, e mostra a capacidade de Snyder de lidar com um imaginário enriquecedor de adaptação dos quadrinhos.  No lado oposto, Cavill novamente entrega um Superman mais humano e suscetível ao que se espera dele.
É, aliás, surpreendente como Snyder coloca Batman como um personagem mais aliado ao fantástico do que o próprio Superman, que gostaria de ter uma vida sem incidentes e sem a consciência de ser um estrangeiro, como Clark Kent, mas precisa sempre retomar sua imagem de justiceiro da humanidade. Ambos, de qualquer modo, estão intrinsecamente ligados aos pais: Bruce teve a fatalidade de ter seus pais mortos na saída de um cinema (cena já mostrada no de Burton), e aqui o filme se chama Excalibur, como se Wayne se transformasse numa espécie de Rei Arthur, enquanto se visualiza um cartaz de A máscara do Zorro. Clark Kent, por sua vez, tem Jonathan Kent (Kevin Costner), em seus sonhos, e Martha (Diane Lane), desde o primeiro, sob ameaça de Zod, a sua fuga da realidade de Metrópolis para o Kansas. As armaduras escondem apenas a infância: a de Bruce numa mansão solitária e a de Clark numa fazenda que anoitece em meio às estrelas (numa das belas imagens que Snyder oferece aqui).

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Snyder desenha essa aproximação dos heróis de seus pais de maneira discreta e ainda assim enfática: estamos diante de dois heróis que lutam contra si mesmos para tentarem ser normais diante da incapacidade de atingir isso. E, embora esta obra pareça mais uma continuação de O homem de aço, sua narrativa pertence mais à figura do homem-morcego.
Não apenas por essa faceta simbólica, e sim por encadear uma sequência de cenas muito bem pensadas e arquitetadas, principalmente em sua meia hora final, Snyder se mostra mais uma vez um diretor capaz de mesclar ação e emoção. Seus personagens, apesar de parecerem indestrutíveis, não são robóticos ou unidimensionais e, mesmo com cenas de ação que parecem sempre sobressair aos caracteres, Snyder dá uma razão ao movimento ininterrupto por meio de simbologias, principalmente aquelas familiares, a fim de que cada ação pareça ter um sentido, com uma trilha sonora destacada de Hans Zimmer e Junkie XL. Este é um dos filmes do gênero melhor montados, com pouco mais de 2 horas e meia que passam sem que se perceba, com uma coleção de imagens realmente significativas. Ele consegue mesclar os melhores elementos do Batman de Nolan e do primeiro O homem de aço, sem diluir nenhum dos dois, e ainda apresentar novos personagens sem perder o fio da meada. Ao contrário do que diz quase a maioria esmagadora da crítica, Batman vs Superman não é uma possível falha de ignição: é um dos melhores filmes de super-heróis já realizados.

Batman vs Superman – Dawn of justice, EUA, 2016 Diretor: Zack Snyder Elenco: Ben Affleck, Henry Cavill, Amy Adams, Jesse Eisenberg, Diane Lane, Laurence Fishburne, Jeremy Irons, Holly Hunter, Gal Gadot, Scoot McNairy Roteiro: Chris Terrio e David S. Goyer Fotografia: Larry Fong Trilha Sonora: Hans Zimmer, Junkie XL Produção: Charles Roven, Deborah Snyder Duração: 153 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: DC Entertainment / Dune Entertainment / Syncopy  

Cotação 5 estrelas