Animais fantásticos – Os crimes de Grindelwald (2018)

Por André Dick

Depois de dirigir os quatro últimos filmes da série Harry Potter, David Yates estabeleceu uma parceria com a autora J. K. Rowling. Em 2016, ambos se reuniram novamente em Animais fantásticos e onde habitam, baseado num roteiro dela, a partir de um livro nos moldes de um bestiário. Nele, tínhamos a volta a um universo que se convencionou chamar de mágico e aqui parece traçar paralelos com a realidade de modo mais abrangente. Animais fantásticos e onde habitam era o primeiro filme de uma anunciada franquia composta por cinco obras, que encontra sua segunda parte em Animais fantásticos – Os crimes de Grindelwald.
O sequência se passa em 1927 e inicia mostrando o bruxo Gellert Grindelwald (Johnny Depp) sendo levado de Nova York para França, prisioneiro da MACUSA (Congresso Mágico dos Estados Unidos), a fim de ser julgado, porém no caminho é libertado por um de seus seguidores. Na Inglaterra, o magizoologista Newt Scamander (Eddie Redmayne) solicita ao Ministério Britânico da Magia o direito novamente de viajar, depois da confusão que ocasionou em sua visita a Nova York no primeiro filme. Nesse local, ele encontra o irmão Theseus (Callum Turner), que está noivo de Leta Lestrange (Zoë Kravitz), uma antiga conhecida de Newt da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, fazendo de ambos os personagens acréscimos bem-vindos, restando saber se a referência à mitologia grega no nome do irmão de Newt ajudará a explicar suas motivações.

Há notícias vindas de Paris de que Credence Barebone (Ezra Miller) está vivo, e sua presença é desejada por Grindelwald, já que ele seria o único que pode enfrentar o Professor Albus Dumbledore (Jude Law) de Hogwarts, de quem Newt foi aluno e o qual reencontra em meio à névoa londrina. Quando Newt chega à sua casa, ele encontra o casal de amigos Queenie Goldstein (Alison Sudol) e Jacob Kowalski (Dan Fogler), este sob feitiço da companheira, acentuando o humor já demonstrado na primeira parte. Ambos vieram à Europa junto com Tina (Katherine Waterston), irmã de Queenie, que está atrás de Credence em Paris, encontrando-o num show no Circus Arcanus, em que o jovem vilão é apaixonado por Nagini (Claudia Kim), uma mulher que se transforma numa cobra gigante. Tina se depara com Yusuf Kama (William Nadylam), interessado em buscar as origens do jovem. Em meio a tudo, Newt cuida dos animais fantásticos, embora sua maleta não revele, como no primeiro, tantas surpresas.

Do mesmo modo que em Animais fantásticos e onde habitam, o roteiro de J.K. Rowling é ágil, principalmente ao apresentar os personagens de maneira a despertar simpatia. Redmayne faz outra vez uma boa composição, entre o tímido e o corajoso, como Newt, expandindo ainda mais sua personalidade em sua amizade com Dumbledore. Trata-se de um personagem menos desenvolvido do que Harry Potter, porém interessante em seu comedimento e nas nuances (uma aproximação dele com Credence ao alimentar uma pequena ave é um acerto do roteiro).
Enquanto Waterston, filmada como uma atriz dos anos 20 e 30, é subaproveitada, Fogler tem um tempo de humor notável, que combina com o de Sudol, fazendo esses personagens sempre atrativos, embora não presentes como deveriam, e Law se mostra surpreendentemente discreto. Ezra Miller não tem oportunidades como no primeiro de mostrar seu talento (o roteiro não colabora), contudo tem boa presença, sempre assustadora, de acordo com Credence. Com uma trilha sonora brilhante de James Newton Howard, um figurino irretocável de Colleen Atwood (o primeiro venceu o Oscar da categoria) e fotografia novamente impecável de Phillipe Rousselot, além dos efeitos visuais de qualidade, o novo Animais fantásticos é tudo o que se esperava: um grande blockbuster. Há um uso extremamente competente de cenários londrinos e parisienses, mesmo em estúdio, captando uma atmosfera de época com rara perspicácia.

A continuidade como roteirista de Rowling se mostra altamente competente ao dosar passagens de um lirismo natural – o flashback de Newt e Leta em Hogwarts que remete imediatamente à série Harry Potter – e de uma fábula com fundo histórico – quando se evoca o futuro da humanidade num determinado momento-chave. Como no original, não há o excesso de subtramas da série Harry Potter, que muitas vezes leva o espectador a perder o fio da meada e Rowling trabalha com referências oportunas à invasão alemã em Paris durante a Segunda Guerra, deslizando entre a Torre Eiffel e o submundo da magia, quando no primeiro havia referências ao 11 de setembro, representadas antes de tudo por uma águia, que remete, na narrativa, também ao Arizona, ao velho oeste utópico da cultura norte-americana, e aqui reaparece em forma de estátua numa das sequências derradeiras. Da Paris à Áustria, Grindelwald é um Adolf Hitler no meio dos bruxos. Yates desenha uma batalha fantástica no Cemitério Pere Lachaise, de Paris, em que as cruzes se manifestam contra a maldade. Visto como um vilão fora das telas, Depp domina o personagem de maneira inquestionável, substituindo Colin Farrell à altura.

Não há muita emoção no reencontro entre Newt e Tina, principalmente quando adentram o Ministério da Magia, sendo descobertos por Leta e Theseus, tendo de se esconder num maquinário gigante, mas Yates tem uma noção equilibrada de filme que precisa se situar entre a ação, o humor e a fantasia – e o faz em doses animadoras na maior parte do tempo. Impressiona seu ritmo de composição de cada ambiente, fazendo com que os personagens pareçam imersos num universo verdadeiramente à parte. Desde o início, quando há a libertação de Grindelwald nos céus soturnos e chuvosos de Nova York, em meio a uma sequência de relâmpagos, remetendo à saga cibernética das Wachowski, e dragões desenhados em meio às gotas de chuva, passando por uma criatura marítima gigante, até o momento em que, nas ruas de Paris, Newt parece domar uma criatura que parece saída de As sete faces do Dr. Lao, dos anos 60 (assim como quando surge o Circus Arcanus), Animais fantásticos possui uma vibração fantástica, capaz de dialogar com o primeiro e anuncia o que virá. Mesmo quando os diálogos não fluem do melhor modo, é mais uma conquista de Yates e Rowling, uma fantasia capaz de aliar nostalgia e expectativa por novas aventuras desses personagens.

Fantastic beasts – The crimes of Grindelwald, EUA/ING, 2018 Diretor: David Yates Elenco: Eddie Redmayne, Katherine Waterston, Dan Fogler, Alison Sudol, Ezra Miller, Zoë Kravitz, Callum Turner, Carmen Ejogo, Claudia Kim, William Nadylam, Kevin Guthrie, Jude Law, Johnny Depp Roteiro: J. K. Rowling Fotografia: Philippe Rousselot Trilha Sonora: James Newton Howard Produção: David Heyman, J. K. Rowling, Steve Kloves, Lionel Wigram Duração: 134 min. Estúdio: Warner Bros. Pictures, Heyday Films Distribuidora: Warner Bros. Pictures

Liga da Justiça (2017)

Por André Dick

Com a recepção crítica de Batman vs Superman, logo antes de iniciarem as filmagens de Liga da Justiça as expectativas estavam voltadas para o fato de Zack Snyder continuar como diretor ou não. Ele realizou o filme, no entanto, antes da finalização, precisou se ausentar devido a uma tragédia pessoal: o suicídio de uma filha sua. Para refilmar cenas e escrever e dirigir outras, foi chamado Joss Whedon, responsável pelos dois Vingadores. Ele assina o roteiro ao lado de Chris Terrio (Argo), um dos roteiristas de Batman vs Superman. Ocorreram outras mudanças, como na trilha sonora – Danny Elfman substituiu Junkie XL –, e a discussão passou a ser, antes do lançamento: este seria um filme realmente de Snyder?
Liga da Justiça surge cinco anos depois do primeiro Os vingadores e nesse meio-tempo se acirrou a disputa entre a DC e a Marvel nas telas de cinema, cada uma com suas características. Este ano, porém, Mulher-Maravilha teria investido num otimismo a princípio ausente nas obras de Zack Snyder. O filme de Jenkins, junto com Batman vs Superman, serve como bom prenúncio da primeira reunião da Liga. Se no início a humanidade sente a morte do Superman – e a trilha, com “Everybody knows”, de Leonard Cohen na voz da cantora Sigrid, e a referência a David Bowie dialogam diretamente com Watchmen –, não há tempo para mais explicações.

Os novos personagens são apresentados com agilidade: Victor Stone, ou Ciborgue (Ray Fischer), ainda abalado por sua mudança física; Barry Allen, que tem os poderes de The Flash (Ezra Miller); e Arthur Curry, o Aquaman (Jason Momoa), herdeiro de Atlântida, são procurados por Bruce Wayne/Batman (Ben Affleck) e Diana Prince/Mulher-Maravilha (Gal Gadot) a fim de formar uma liga para combater a ameaça espacial de Lobo da Estepe (Ciarán Hinds), atrás de três caixas maternas que podem lhe emprestar um poder inigualável. Ele surge na Terra acompanhado pelos terríveis parademônios, atraídos pelo medo alheio e vêm a ser as criaturas da necessária passagem “Knightmare” de Batman vs Superman, no qual usavam o símbolo de Superman, representando uma ameaça para Wayne. Lamentando a morte de Clark/Superman, uma conversa entre Martha Kent (Diane Lane) e Lois Lane (Amy Adams) no Daily Planet é tão cotidiana que faz lembrar algo que havia se perdido com Donner nos anos 80. Em meio a isso, Silas Stone (Joe Morton) tenta ajudar seu filho Victor, por ter se tornado metade homem, metade ciborgue, e Barry visita seu pai, Henry (Bill Crudrup), na cadeia. Também vemos rapidamente Mera (Amber Heard) em Atlântida e Hippolyta (Connie Nielsen) na ilha de Themyscira.

A interação entre esses personagens é bem conduzida desde o primeiro encontro entre Bruce Wayne e Curry, mediada a distância por Alfred (Jeremy Irons, novamente ótimo). No entanto, a narrativa realmente se fortalece quando Barry Allen entra em cena, e Ezra Miller tem a oportunidade de entregar uma interpretação cômica realmente bem dosada. Apenas uma determinada cena em que Snyder filma o olhar assustado de Flash em slow motion, com a habilidade de atuação de Miller, garante o movimento para o desenrolar da narrativa. Os demais crescem com esse ingresso: Affleck e Gadot pontuam boas cenas juntas – a melhor é aquela em que Diana, vendo uma nova criação de Wayne, lembra do amado Steve Trevor (Chris Pine), remetendo a seu filme solo – e Momoa e Fischer (este especialmente, pela inexperiência) são belos acréscimos. Quase em participação especial, J.K. Simmons também se mostra o novo Jim Gordon, com um bat-sinal no topo da delegacia esfumaçado, lembrando o Batman de Burton, e aqui a trilha sonora de Danny Elfman, num trabalho interessante, embora não brilhante, como poderia, tem sua melhor participação (spoiler até o fim do próximo parágrafo).
Por sua vez, a volta do Superman resulta numa das melhores sequências, quando, não lembrando de quem é, enfrenta os outros da Liga. Cavill está bem, numa mudança já aguardada de comportamento também em relação a Batman vs Superman, e o CGI usado nele chama mais a atenção de quem possui a informação (quando foi preciso regravar cenas, ele já filmava Missão impossível 6 e não podia tirar o bigode que usava com o personagem desse filme). Sua atuação é reforçada por uma sempre competente Amy Adams. Interessante também como o duelo que ele tem com os demais companheiros se dá em frente à sua estátua desmontada em Metrópolis, dialogando com a profissão de Diana. É como se, entre a vida e a morte, esses personagens estivessem sempre em reconstrução.

Em termos de estilo, ficam claras algumas diferenças entre o que foi rodado por Snyder e o que foi finalizado por Whedon. Snyder tem um senso estético quanto a design de produção e fotografia, por exemplo, que Whedon não possui, mas o filme nunca se sente dividido ou com a tentativa de romper a paleta do diretor oficial e de Fabian Wagner (Game of thrones), levando em conta que apenas 20% das cenas teriam sido feitas ou refeitas por Whedon. As cores se sobrepõem das mais diversas formas e mesmo assim se mantém uma unidade. Elas são mais vivas do que nas obras anteriores de Snyder, no entanto trazem uma tonalidade ainda melancólica, buscando um tom alaranjado. Mesmo os figurinos de cada super-herói se sentem ainda melhores do que vimos anteriormente em quadrinhos, filmes ou séries de TV. Com melhor ouvido para certo diálogo descompromissado, Liga da Justiça parece se fortalecer com a presença de Whedon, mas certamente perdeu em certos momentos a perícia de Snyder com certa antilinearidade (os pesadelos de Bruce Wayne em Batman vs Superman mostram bem isso) e um tom épico que é prejudicado pela curta duração, o que é sentido nos primeiros 15 minutos e nos 10 finais.

Ainda assim, Liga da Justiça, de modo geral, apresenta o estilo delirante de Snyder, capaz de transitar por batalhas gregas com uma atmosfera de Olimpo (300), mostrar um Superman com questionamentos existenciais (O homem de aço), encadear uma sequência de imaginações de uma menina num hospício (Sucker Punch) e apresentar uma animação em que duas corujas irmãs entram em conflito (A lenda dos guardiões), além de um épico sobre um grupo de super-heróis perseguido (Watchmen). Este é um filme visualmente fantástico, com efeitos especiais impressionantes, prejudicados apenas pelo CGI excessivo do duelo final, o que já acontecia em Batman vs Superman e Mulher-Maravilha (curiosamente não tão presente nos primeiros trailers). Os mais destacados são aqueles que envolvem a velocidade do Flash, que poderiam ser carregados, mas estão no tom certo. E, por mais que os cenários mudem abruptamente, há tons e cores que os unem, oferecendo uma real unidade.
Nota-se o cuidado de Snyder em enquadramentos, como a primeira sequência de Batman, que evoca o de Burton e tem um sentido físico real, homenageando, também, com as pombas no alto do prédio, o clássico Blade Runner. Mais: mesmo que de forma menos intensa do que certamente sua versão original (e fica evidente que Liga da Justiça tinha a metragem lançada nos cinemas de Batman vs Superman, pelo menos), a Liga não conserva muito de certo desencantamento de Snyder visto em obras como Watchmen. O vilão também não permite o que Snyder conseguiu com Zod e Lex Luthor: essa é uma ameaça para a humanidade com o objetivo de unir esses heróis em torno de uma determinada ação, não havendo grande elaboração dos seus motivos. Trata-se de uma ameaça secular (em certa narração sobre a sua história, há ecos de O senhor dos anéis, de Peter Jackson), envolvendo as amazonas e o povo de Atlântida, mas é preciso dizer, com ou sem o laço de Mulher-Maravilha, não totalmente elaborada. Em certo momento, é retomada uma referência às lendas do Rei Arthur, já devidamente lembradas tanto por meio do filme anunciado no cinema no início de Batman vs Superman (Excalibur) quanto pela arma usada pelo Superman na luta derradeira.

Liga da Justiça, por outro lado, continua investindo na emoção familiar de O homem de aço, na cena que se passa num milharal, em referência ao clássico Superman de 78 e a Campo dos sonhos, não por acaso com Kevin Costner, que faz o pai terráqueo do homem de aço e no filme de 89 era visitado por fantasmas em sua fazenda. É ressonante também o encontro dos Allen na prisão e uma discussão dos Stone. Também há mais bom humor. Contudo, pelos trailers iniciais, essa diferença já era evidente, então não se tem certeza do tom que Whedon empregou seja tão diferente do resultado inicial. Do mesmo modo, o estabelecimento de conexão com os filmes anteriores (pela nave de Zod, sobretudo, e pela Ilha de Themyscira), é muito bem desenhado, de modo discreto, assim como com os próximos (em duas boas cenas pós-créditos, a segunda especialmente reveladora do que virá).
Isso é beneficiado pelo verdadeiro sentimento de heroísmo vindo de cada personagem, assim como a compreensão em relação a cada um, especialmente de Mulher-Maravilha em relação ao Ciborgue e a amizade deste com o Flash, sendo dois deslocados, presos a um passado que ainda não conseguiram resolver. Esse heroísmo é colocado em avaliação sobre a idade pessoal por Bruce Wayne e uma brincadeira com uma fala do confronto anterior entre ele e Superman, que certamente é um toque refinado do roteiro de Terrio e Whedon. Todos esses personagens carregam alguma culpa (a de Batman em ter matado Superman, a de Mulher-Maravilha em não ter aparecido como uma heroína ao longo de décadas) e tentam usar seu vigor com o intuito de ajudar a humanidade. Apesar de não ter complementado seu trabalho, e de esta versão ser certamente mais curta do que eu gostaria – e o público, possivelmente, também –, Snyder firma, com Liga da Justiça, seu nome como o melhor diretor de fantasias provindas dos quadrinhos. Ele realmente torna emocionante ver esses personagens em ação.

Justice league, EUA, 2017 Diretor: Zack Snyder Elenco: Ben Affleck, Henry Cavill, Amy Adams, Gal Gadot, Ezra Miller, Jason Momoa, Ray Fisher, Jeremy Irons, Diane Lane, Connie Nielsen, J. K. Simmons, Bill Crudup, Amber Heard Roteiro: Chris Terrio, Joss Whedon Fotografia: Fabian Wagner Trilha Sonora: Danny Elfman Produção: Charles Roven, Deborah Snyder, Jon Berg, Geoff Johns Duração: 121 min. Estúdio: DC Films, RatPac Entertainment, Atlas Entertainment, Cruel and Unusual Films Distribuidora: Warner Bros. Pictures

Animais fantásticos e onde habitam (2016)

Por André Dick

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Depois de dirigir os quatro últimos filmes da série Harry Potter, David Yates estabeleceu uma parceria com a autora J.K. Rowling. Agora, baseando-se no roteiro dela, a partir de um livro nos moldes de um bestiário que ela também escreveu, temos a volta a um universo que se convencionou chamar de mágico e aqui parece traçar paralelos com a realidade de modo mais abrangente. Animais fantásticos e onde habitam é o primeiro filme de uma anunciada franquia composta por cinco obras.
Em 1926, o magiozoologista Newt Scamander (Eddie Redmayne) chega de viagem a Nova York. Este início poderia lembrar Era uma vez em Nova York, na chegada da personagem de Marion Cotillard a uma América prometida, e o cuidado visual não fica distante: tudo no filme é apresentado com uma riqueza de detalhes. Durante um discurso de Mary Lou Barebone (Samantha Morton), um dos animais que ele traz em sua mala escapa; é o Niffler, que tem atração por objetos reluzentes. Newt acaba se deparando com Jacob Kowalski (Dan Fogler), um “no-maj”, um trouxa (ou seja, os não magos), que deseja ter uma padaria, e leva os doces que faz para obter um negócio no banco. Ambos acabam trocando de mala. A investigadora Tina Goldstein (Katherine Waterston) leva Newt para MACUSA (Congresso Mágico dos Estados Unidos), mas a presidente Seraphina Picquery (Carmen Ejogo) e Percival Graves (Colin Farrell) não lhe dão a devida importância.

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No entanto, várias criaturas escapam da mala, agora sob alçada de Kowalsi, atraindo Tina e Newt. Juntos, eles conhecem a irmã de Tina, Queenie (Alison Sudol, agradável). Já Mary Lou Barebone dirige um orfanato, onde ela ensina as crianças a acreditar em bruxos, entre as quais Credence Barebone (Ezra Miller, excepcional), sempre sob proteção secreta de um dos integrantes do MACUSA.
O roteiro de J.K. Rowling é ágil, principalmente em sua primeira meia hora quando apresenta os personagens de maneira a despertar simpatia. Redmayne faz uma boa composição, entre o tímido e o corajoso, como Newt, conseguindo se desvencilhar não apenas da atuação marcante de A teoria de tudo como dos trejeitos um pouco forçados de A garota dinamarquesa e, principalmente, do vilão que apresentava em O destino de Júpiter, mas é Waterston, filmada como uma atriz dos anos 20 e 30, que se destaca com sua sensibilidade vista antes em Vício inerente. Por sua vez, o coadjuvante Fogler tem um tempo de humor notável, que combina com o de Sudol, fazendo esses personagens a princípio atrativos. Com uma fotografia primorosa de Phillipe Rousselot, uma trilha sonora brilhante de James Newton Howard (sem açucarar demais as notas e evocando a trilha de John Williams de Harry Potter, assim como de Alexandre Desplat) e um figurino irretocável, Animais fantásticos e onde habitam é uma das melhores surpresas entre os blockbusters deste ano.

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É o chamado filme que tem uma finalidade comercial bem clara e ainda assim consegue ter coração. Como um não fã exatamente da série Harry Potter, apesar de reconhecer as qualidades dela, especialmente dos três últimos capítulos, esta obra, que se passa setenta anos da saga do menino com poderes supremos, sugere temas envolvendo a magia sob um ponto de vista talvez mais soturno. Há menções, claro, a Hogwarts, mas o filme se sente outro universo, ou seja, o espectador não tem nenhuma obrigação de conhecer a outra franquia para poder entendê-lo. Além disso, ele evita ser o que parecia ser anunciado: uma espécie de Jumanji dos anos 20, com animais soltos por Nova York. Ele toca mais aquele ponto em que uma figura ameaçadora que pode estar causando estragos na cidade se volta contra figuras políticas, representadas pelo senador Henry Shaw (Josh Cowdery), filho de Henry (Jon Voight).
O filme trata de uma cidade não apenas ameaçada por criaturas e sim a ser reconstruída, e pode-se destacar a beleza das imagens que dialogam com King Kong, de Peter Jackson, principalmente em seus instantes de uma enorme criatura (não daremos spoilers) que corre pelo gelo atrás de Kowalski. As cenas de ação têm um vigor interessante, já empregado por Yates nos episódios que dirigiu da série Harry Potter, mesclando a elas um tom assustador.

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Existe uma certa desenvoltura na construção dessa narrativa, passada quase completamente à noite, com a sua figura mítica da águia, conhecida em diversas fábulas. A estreia como roteirista de Rowling se mostra altamente competente ao dosar passagens de um lirismo natural – a entrada no universo dos animais fantásticos – e de quase pesadelo – quando Scamander e Tina são colocados em ameaça. Não há o excesso de subtramas da série Harry Potter, que muitas vezes leva o espectador a perder o fio da meada e Rowling trabalha com referências oportunas à Nova York transformada depois de 11 de setembro, representadas antes de tudo por essa águia, que remete, na narrativa, também ao Arizona, ao velho oeste utópico da cultura norte-americana. Há um trânsito fluente entre o drama e o humor, na figura do padeiro, por exemplo, graças à atuação de Fogler, e uma atmosfera agradável que remete ao cinema clássico, principalmente quando os personagens visitam uma taverna. Newt não aprecia exatamente os seres humanos – tampouco as figuras importantes do filme parecem gostar – e as criaturas que carrega parecem ser ameaçadoras não apenas para a cidade, mas para quem vive no universo mágico. Por outro lado, são dele os gestos de generosidade ao longo da trama e a compreensão que ele lança sobre as ameaças a Nova York são a de quem exatamente entende o que acontece em seus subterrâneos mesmo que não aparente ou finja estar distraído.

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Neste ano, Yates já havia lançado A lenda de Tarzan, que trazia a ligação do homem com a natureza: aqui, ele mostra a ligação do homem com a natureza por meio de um universo mágico e extraordinário, e a visita que fazemos ao artefato que Newt carrega é impactante na resolução dos efeitos visuais – e, com CGI ou não, são magníficos. Esse artefato (a mala) contém não apenas criaturas fantásticas, como poderia também abrigar a cidade – e no momento-chave do final ela adquire uma imponência ainda maior. Se Harry Potter teve pelo menos dois capítulos iniciais como uma espécie de teste para o elenco, este filme começa a todo ritmo, tanto com o quarteto quanto com vilões ameaçadores. Ao mesmo tempo, por seu tom agridoce, Animais fantásticos se sente igualmente também como um grande universo ainda a ser explorado com esses personagens: ele realmente envolve o espectador a ponto de nos deixar com saudade deles depois que a sessão termina.

Fantastic beasts and where to find them, EUA/ING, 2016 Direção: David Yates Elenco: Eddie Redmayne, Katherine Waterston, Dan Fogler, Alison Sudol, Ezra Miller, Colin Farrell, Zoë Kravitz, Ron Perlman, Samantha Morton, Jon Voight, Carmen Ejogo Roteiro: J.K. Rowling Fotografia: Philippe Rousselot Trilha Sonora: James Newton Howard Produção: David Heyman, J.K. Rowling, Lionel Wigram, Neil Blair, Steve Kloves Duração: 133 min. Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: Warner Bros.

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Madame Bovary (2015)

Por André Dick

Madame Bovary

As adaptações para o cinema de clássicos literários costumam suscitar alguns críticos e espectadores que indicam as mesmas características: “não captou a prosa”; “longe da densidade literária”; “personagens vazios, sem o impacto do livro”. Ainda é muito indelicado considerar uma adaptação de um clássico superior ou equivalente ao material original; mais do que uma indelicadeza, passa a ser um ponto contestável de todos os modos. É também difícil exigir originalidade da cineasta Sophie Barthes: Madame Bovary, de Gustave Flaubert, publicado em 1856, é o ponto de partida da maioria das histórias em que uma mulher, infeliz no casamento, decide buscar um verdadeiro amor, seja por meio de promessas românticas ou simplesmente porque imaginava que sua vida seria de outro modo. Nesse sentido, Madame Bovary chega a ser previsível, e normalmente se confunde sua temática com o resultado, assim como outro referencial, Anna Karenina, cuja adaptação de Joe Wright foi acusada de desvirtuar o romance original quando na verdade o enriqueceu com uma teatralidade realmente de impacto. E, como Anna Karenina, Madame Bovary já teve outras adaptações conhecidas, como aquela com Isabelle Huppert em 1991, dirigida por Claude Chabrol. Talvez pela má recepção crítica que o filme de Barthes não tenha chegado aos cinemas brasileiros, saindo diretamente no mercado de vídeo – o que se lamenta especialmente pela peça dramática em que se constitui, em meio a uma paisagem de obras de comédia e terror sem correspondência com a qualidade.

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Nesta nova adaptação, temos a atuação central de Mia Wasikowska, atriz que cresceu muito em termos dramáticos depois do decepcionante Alice no país das maravilhas. Ela fez, nos últimos anos, personagens também baseados em romances, como Jane Eyre e O duplo, além de Segredos de sangue (apesar de falho, já mostra uma tentativa de ela mostrar outras características) e Mapas para as estrelas. Como Emma Bovary, que se casa com um médico de um vilarejo, Charles Bovary (Henry Lloyd-Hughes), ela definitivamente entrega um papel sutil. Devota ao mundo religioso num convento logo no início, ela vê no casamento uma maneira de escapar a uma vida no meio rural, onde se veria atrelada à família para sempre. Nesse movimento, ela capta o livro de Flaubert em sua essência: estamos diante de uma mulher que pretende se emancipar do convencionalismo que se espera dela à época em que vive. O marido, sendo um médico e morando em e Yonville, representaria um ponto fora da curva dentro de seu projeto de vida, alguém com quem pode dividir experiências novas. Aos poucos, ela vai percebendo que isso não se mostra tão certo. Em meio a um contato com a empregada, ela passa por dias olhando o vazio pela janela.

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Ela vai conhecendo a comunidade de Yonville: Rhys Ifans é Monsieur Lheureux, que tenta lhe vender vestidos e vai empilhado dívidas em sua conta; Ezra Miller é Leon Dupuis, que se apaixona por ela logo no início, depois de um jantar, mas cuja paixão parece um pouco indefinida; Paul Giamatti se destaca como Monsieur Homais, entre o satírico e o trágico, uma especialidade do ator; e um surpreendente Logan Marshall-Green (mais conhecido como o cientista pouco simpático de Prometheus) interpreta o Marquês d’Andervilliers, capaz de envolver Bovary numa atmosfera de conquista para onde ela deseja ir. O filme não é sem falhas: ele possui um ritmo acelerado (mesmo que dê a impressão de ser lento), deixando para trás a caracterização de alguns personagens e se concentrando na solidão de Bovary em quase todos os momentos. Essa pouca caracterização não tira a beleza do filme de Barthes, sobretudo porque o elenco retribui a falta de certa consistência em termos de diálogos. Trata-se de uma adaptação com algumas liberdades, por outro lado absolutamente fiel a um sentimento de época. Reduzir a narrativa a uma espécie de peça feminista também não soa de acordo: o que Flaubert mostrava, em sua época, é o quanto a expectativa feminina era colocada em segundo plano quando o homem via que ela poderia ser diferente. Bovary não busca algum ideal feminino: ela busca a liberdade de escolher, que pertence a mulheres e homens, às vezes com uma rebeldia autocentrada (que Wasikowska incorpora com consciência), e o quanto essa escolha resulta mais de um embate consigo próprio do que exatamente com a sociedade em torno, voltada sempre a restringir espaços. Talvez esteja enganado quem ache que esta Madame Bovary não consegue representar um dos personagens femininos mais importantes da literatura.

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Madame Bovary, em termos técnicos, apresenta uma ótima direção de arte e uma fotografia delicada de Andrij Parekh, que parece se basear em Os duelistas, Barry Lindon, Tess, A árvore dos tamancos e nos filmes do português Manoel de Oliveira (como O gebo e a sombra), mas especificamente em Sven Nykvist. O figurino de Christian Gasc e Valérie Ranchoux também é grande e desempenha um papel ainda mais importante: é por meio dele que Bovary imagina renovar sua vida, sempre igual. Sophie trata a personagem como alguém que busca sempre a paixão, no entanto, esta não faz parte de sua época: todos os homens agem friamente, como o Marquês numa caça rodeado por cães. Nesse sentido, a beleza que Bovary vê no espaço bucólico de Yonville parece encobrir o que realmente se passa e, quando passa por algumas senhoras que trabalham no campo e percebe que a olham de costas, sabe que suas escolhas dependem ainda do que é dito. Tudo é projeto e esquemático e, ao tentar romper esse padrão, Bovary se vê em meio a uma sensação de luto. O que permanece, em termos dramáticos, é realmente a presença de Wasikowska: sua Bovary tem toda a instabilidade imaginada por Flaubert e uma sensação permanente de deslocamento. Por algumas horas, ela é realmente Madame Bovary.

Madame Bovary, EUA/BEL/ALE, 2015 Diretora: Sophie Barthes Elenco: Mia Wasikowska, Henry Lloyd-Hughes, Paul Giamatti, Ezra Miller, Rhys Ifans, Logan Marshall-Green Roteiro: Rose Barreneche e Sophie Barthes Fotografia: Andrij Parekh Trilha Sonora: Evgueni Galperine e Sacha Galperine Producão: Sophie Barthes, Felipe Marino, Jaime Mateus-Tique, Joe Neurauter Duração: 118 min. Distribuidora: 20th Century Fox Company Russia, Warner Bros., Noori Pictures Estúdio: Aden Film / Aleph Motion Pictures / Left Field Ventures / Occupant Entertainment / Radiant Films International

Cotação 4 estrelas

 

As vantagens de ser invisível (2012)

Por André Dick

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Os filmes de universo adolescente com um acento dramático e cômico próprio tiveram uma queda muito grande de qualidade depois da ausência de John Hughes, conhecido por filmes como A garota de rosa shocking e O clube dos cinco. Independente ou não de seus atores terem feito carreira, são filmes que marcaram um período nos anos 1980, identificando o comportamento juvenil com a música. Por isso, é uma grata surpresa assistir As vantagens de ser invisível, desde já uma da obras mais interessantes dos últimos anos.
O diretor de As vantagens, Stephen Chbosky, também escreveu o romance em que o filme se baseia. Daí sua proximidade dos personagens e do clima da história. Charlie (Logan Lerman) acaba de iniciar o ensino médio em sua escola de Pittsburgh, por volta do início dos anos 90, tendo o intuito de fazer amizades, a fim de não voltarem problemas psicológicos relativos a um amigo que se suicidou e à morte de uma tia, ajudado pelos pais (Kate Walsh e Dylan McDermott), pela irmã, Candace (Nina Dobrev) e pelas músicas dos Smiths. Logo ele faz amizade com um professor de inglês, Sr. Anderson (Paul Rudd), que o incentiva a ler romances, e se aproxima de Patrick (Ezra Miller) e Sam (Emma Watson), meio-irmãos, num jogo de futebol americano, de uma turma mais adiantada. A sequência em que Chbosky filma Sam num túnel ouvindo “Heroes” e Charlie falando da infinitude é a síntese inicial deste filme, cercado de quase todos os clichês do gênero (festas, experimentos com drogas, fitas de música, pôsteres de ídolos no quarto) para realçar uma improvável solidão, dificilmente tão bem focada em outros filmes, daquilo que cerca a adolescência.

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As vantagens de ser invisível.Filme

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O principal elemento de As vantagens é justamente mostrar essa solidão do personagem em meio à multidão (em festas concentradas numa casa ou em festas e refeitórios da escola), assim como sua necessidade de dialogar por cartas com o amigo que se foi. Chbosky o filma contra a parede do salão de festas, enquanto Sam e Patrick aceleram ao ritmo de “Come on Eileen”, dos Dexys Midnight Runners. Ele também quer acelerar os mais de mil dias que precisa ficar na escola: deseja ser escritor e passa a gostar de Sam, protagonista, com Patrick, de uma adaptação de “The Rock Horror Picture Show”, além de esconder o segredo de seu novo amigo ser gay. A eles se juntam a budista e punk, com admiração por filmes estrangeiros, Mary Elizabeth (Mae Whitman), a cleptomaníaca Alice (Erin Wilhelmi), e Bob Stoner (Adam Hagenbuch). Não sabemos se Sam irá corresponder a ele, nem se a namorada que ele passa a ter em determinada altura criará uma reviravolta em sua vida. A sequência na qual Charlie acompanha os amigos à primeira festa, e pede à Sam para que ela prepare um milkshake, quando ele começa a caminhar pelos corredores vazios da casa, parece mostrar, ao mesmo tempo, não apenas a solidão do personagem principal, como Chbosky deseja, como também a do próprio grupo que ali se insere. Ali, parece acontecer apenas uma festa – no entanto, a diferença é justamente cada um dos que levantam o brinde.
O seu deslocamento e a necessidade ou não de ser invisível é o mote para que o diretor consiga dosar tanto elementos pop, na conformidade reconhecida, quanto alguns experimentos com a direção de arte: As vantagens de ser invisível lembra, às vezes, pela iluminação quase atemporal de Andrew Dunn, um filme clássico, dos anos 70. Talvez porque ele consiga falar realmente para todas as gerações. Há lotes e cargas de sensações aqui, mesmo em lugares-comuns a todos, mesmo se esperando justamente que um amigo defenderá o outro, seja qual for a circunstância, ou o ato de ser surpreendido pela pessoa de quem se gosta. Demarcando as sequências, existe uma trilha sonora quase sempre afeita ao gosto dos personagens, e as experiências que podem resultar de ouvi-la seguem de acordo com cada personagem. Há  previsíveis viagens psicodélicas (um rótulo adolescente), alguns personagens um tanto mal desenvolvidos, mas, ao mesmo tempo, há uma dolorosa passagem de tempo, seja quando se vai para as férias, seja quando se é preciso seguir o ritual da escola. Escolher entre um relógio acertado e outro nem tanto: eis as escolhas do diretor, evidenciadas pela impressão de estarmos vendo um panorama abrangente na pele de cada um desses personagens. Embora em alguns momentos a narrativa apresente repetições, é com olhar melancólico que acompanhamos a trajetória dos personagens, na contagem regressiva para a despedida ou reencontro do túnel da adolescência.

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As vantagens de ser invisível emprega para os adolescentes o que Na estrada insere em jovens que desejam transgredir. Mas há uma separação evidente aqui: enquanto os beats significavam um pedaço da América que queria fugir ao establishment (e certamente, no futuro, não fugiriam), os personagens de As vantagens de ser invisível desejam constituir o que eles chamam de plano de vida perfeito, sobretudo serem aceitos numa universidade. A personagem de Sam não é Marylou, porém existe uma antecipação nela dos períodos afetivos que a Charlie chegam de modo diferente. E é nisso que, ao final descobrimos, os aproxima tanto, também pelas falhas e feridas que cada um proporciona ao outro. Notável, também, quando Charlie e Patrick saem à noite, de carro, e se deparam com o tentativa de contornar uma separação por meio da amizade e do afeto incalculado. Daí, o diretor Chbosky conseguir reproduzir as reminiscências de forma tão dolorosa, sem, em nenhum momento, recorrer a alguma manipulação gratuita, capaz de afetar os personagens, nem mesmo com o acento psicológico da parte final.
Em sua segunda experiência na direção, Chbosky alcança isso em razão de um elenco escolhido minuciosamente: é difícil imaginar um ator tão exato para o papel principal quanto Logan Lerman, a despeito de, na maioria das vezes, ele ter a necessidade de se mostrar introspectivo, e Watson consegue demonstrar uma fragilidade emocional quase desconhecida em sua participação na série Harry Potter. Já Ezra Miller foi o ator principal de um dos filmes que menos apreciei no ano passado (Precisamos falar sobre o Kevin). Sua participação em As vantagens mostra, no entanto, que ele é um ator diferenciado, capaz de demonstrar nuances na sua interpretação, a meu ver ausentes no personagem de Kevin.
São atores e personagens em ponto de conversação constante, e o diretor consegue expandir cada um de modo inspirador. Em nenhum momento, e isto é especialmente destacável, As vantagens de ser invisível parece a adaptação de uma história, mas a história em si, ou seja, ela consegue, de modo natural, trazer as situações para perto, de modo que não conseguimos distinguir mais sua própria ambientação daquela que costumamos imaginar em alguma fita perdida com inúmeras músicas de bandas recém-descobertas ou mesmo da luminosidade de lâmpadas e estrelas quando se precisa sair de um ambiente coberto para finalmente tentar entender o que se passa do lado de fora.

The Perks of Being a Wallflower, EUA, 2012 Diretor: Stephen Chbosky Elenco: Logan Lerman, Ezra Miller, Emma Watson, Nina Dobrev, Paul Rudd, Mae Whitman, Melanie Lynskey, Kate Walsh, Dylan McDermott, Johnny Simmons, Nicholas Braun Produção: Lianne Halfon, John Malkovich, Russell Smith Roteiro: Stephen Chbosky Fotografia: Andrew Dunn Trilha Sonora: Michael Brook Duração: 103 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Summit Entertainment / Mr. Mudd

Cotação 5 estrelas