Missão: impossível – Efeito Fallout (2018)

Por André Dick

O primeiro Missão: impossível, ainda dos anos 90, mostrou a volta, na época, do diretor Brian De Palma, estruturado em momentos de suspense, depois do desapontamento financeiro de A fogueira das vaidades e Síndrome de Caim. Nele, Ethan Hunt (Tom Cruise), um agente principal da IMF (Impossible Mission Force), é acusado de traição e precisa buscar uma lista oficial de espiões norte-americanos para a misteriosa Max (Vanessa Redgrave), a fim de provar sua inocência. Auxiliado por uma dupla (Ving Rhames e Jean Réno) e tendo em torno Claire (Emmanuelle Béart), o agente tenta chegar ao computador que contém a lista. Mesmo não apresentando muitos momentos de ação, a expectativa da história criada por De Palma vale a sessão, com uma passagem final memorável, em que a fotografia do colaborador habitual do diretor, Stephen H. Burum, era um trunfo. Se o segundo filme, dirigido por John Woo, tinha prevalência de estilo sobre substância, o terceiro, de J.J. Abrams elevou a série a um novo patamar, com o agente Hunt, dividido entre o trabalho e o casamento com Julia (Michelle Monagan). No entanto, ela não sabe de sua vida dupla, e ele parte em nova missão, para capturar Owen Davian (o ótimo Philip Seymour Hoffmann), que tem um objeto, o Pé de Coelho. O filme basicamente é sobre sua tentativa de reencontrar a namorada, mas Abrams concede ao personagem traços humanos.

No quarto filme, de Brad Bird, com o subtítulo Protocolo fantasma, além da curiosa presença de Léa Seydoux, as sequências de ação e a beleza das paisagens, na tempestade do deserto antológica, eram um acréscimo à competência narrativa, o que se repetiu na quinta parte, Nação secreta. O diretor desta, Christopher McQuarrie, volta em Missão: impossível – Efeito Fallout.
O filme dá prosseguimento ao que aconteceu no anterior. O que sobrou da organização de Solomon Lane (Sean Harris) se transformou num grupo terrorista. Ethan Hunt, em Belfast, precisa interromper a venda de plutônio para integrantes desse grupo, para outro cliente, John Lark. Ele recebe a ajuda novamente de Benjamin Dunn (Simon Pegg) e Luther Stickell (Ving Rhames). No entanto, acontece um imprevisto, que vai colocar Hunt em ação. Mesmo sob ordem de Alan Hunley (Alec Baldwin), ex-agente da CIA e secretário do IMF, para acompanhar Hunt, a agente Erica Sloane (Angela Bassett) escolhe o agente August Walker (Henry Cavill) e a primeira passagem é para a Cidade das Luzes, onde MvQuarrison filma cenas de ação antológicas, sob influência clara de John Wick 2 (a luta no banheiro entre os heróis e um personagem feito por Liang Yang) e do James Cameron de O exterminador do futuro 2, na perseguições de motos e carros. Lá, Hunt conhece a White Widow (Vanessa Kirby), enquanto tenta encontrar os integrantes ex-aliados de Lane, ao mesmo tempo que reencontra Ilsa Faust (Rebecca Ferguson), ex-agente do MI6, que aparecia em Nação secreta.

Efeito Fallout tem, primeiramente, excelentes locações (toda a sequência que se passa em Paris), assim como acontecia no terceiro, passado em grande quantidade no Japão (onde Ethan tinha uma passagem que inspiraria Batman em seu segundo filme de Nolan). As peripécias do agente são obviamente difíceis de acreditar, mas Quarrie filma com tanta veracidade e com uma fotografia alternando ângulos que sabemos estar diante de uma obra de aventura incomum. Tudo soa espetacular, com efeitos especiais de ponta e design de produção detalhista (o clube noturno, por exemplo), auxiliado por uma montagem trepidante.
McQuarrie concentra uma carga mais humana no personagem de Hunt, ou seja, coloca medo e reflexão na maneira como ele age diante do perigo. Isso fazia falta sobretudo no segundo da série. No primeiro, De Palma fazia um filme de ação quase orquestrado – num meio caminho entre os policiais que fez (Os intocáveis) com o aspecto cult de Femme fatale. Por sua vez, Abrams fazia uma espécie de peça de espionagem em que, à medida que acelera, consegue estabelecer cada um dos componentes de interesse entre cada personagem – ou seja, parecia que estávamos em meio à ação e o personagem de Hunt tentava encontrar a sua amada para se reconectar a uma vida ilusória. As conversas de Luther com a personagem de Rebecca Ferguson são as que melhor retomam essa tentativa de experimentar uma vida cotidiana.

Se o quarto e o quinto filmes foram interessantes, no entanto concentrados na parte visual, é neste sexto que McQuarrie estabelece melhor ainda a peregrinação de Hunt com o peso de escolher entre a humanidade e os amigos, de forma destacada no primeiro ato. E, mesmo que Pegg e Rhames continuem boas presenças, trazendo doses bem-vindas de humor, é, de forma surpreendente, que Cavill, um ator normalmente restrito apenas ao personagem de Superman e poucas variações (no ótimo O agente da U.N.C.L.E.), se destaque. Por isso, talvez, ele se ressinta, em alguns momentos, de reviravoltas no ato final, quando tudo se estabelece de maneira mais direta e Tom Cruise continue se afastando de um roteiro em que atue menos fisicamente. Surge uma personagem surpresa de um dos filmes passados e, ao contrário de explorar a sua presença, McQuarrie prefere se concentrar apenas na ação, o que diminui uma certa conexão do público. De qualquer modo, blockbuster de grande qualidade, Efeito Fallout acaba concedendo mais responsabilidade para as próximas obras de 007, a única franquia que possui a mesma quantidade de cenas de ação em intensidade, em que o espectador não apenas testemunha a ação, como se corresponde com a corrente emocional dos personagens. Existe aqui uma narrativa funcional, sem desenvolvimentos desnecessários, parecendo-se muito com Operação Skyfall nesse aspecto, abrindo os personagens para uma continuação possivelmente ainda mais grandiosa e capaz de reunir elementos do passado de Hunt e o futuro da humanidade contra grupos ameaçadores.

Mission: Impossible – Fallout, EUA, 2018 Diretor: Christopher McQuarrie Elenco: Tom Cruise, Henry Cavill, Ving Rhames, Simon Pegg, Rebecca Ferguson, Sean Harris, Angela Bassett, Alec Baldwin Roteiro: Christopher McQuarrie Fotografia: Rob Hardy Trilha Sonora: Lorne Balfe Produção: Tom Cruise, JJ Abrams, David Ellison, Dana Goldberg, Don Granger, Christopher McQuarrie, Jake Myers Duração: 147 min. Estúdio: Bad Robot, Skydance Media, Alibaba Pictures Distribuidora: Paramount Pictures

Liga da Justiça (2017)

Por André Dick

Com a recepção crítica de Batman vs Superman, logo antes de iniciarem as filmagens de Liga da Justiça as expectativas estavam voltadas para o fato de Zack Snyder continuar como diretor ou não. Ele realizou o filme, no entanto, antes da finalização, precisou se ausentar devido a uma tragédia pessoal: o suicídio de uma filha sua. Para refilmar cenas e escrever e dirigir outras, foi chamado Joss Whedon, responsável pelos dois Vingadores. Ele assina o roteiro ao lado de Chris Terrio (Argo), um dos roteiristas de Batman vs Superman. Ocorreram outras mudanças, como na trilha sonora – Danny Elfman substituiu Junkie XL –, e a discussão passou a ser, antes do lançamento: este seria um filme realmente de Snyder?
Liga da Justiça surge cinco anos depois do primeiro Os vingadores e nesse meio-tempo se acirrou a disputa entre a DC e a Marvel nas telas de cinema, cada uma com suas características. Este ano, porém, Mulher-Maravilha teria investido num otimismo a princípio ausente nas obras de Zack Snyder. O filme de Jenkins, junto com Batman vs Superman, serve como bom prenúncio da primeira reunião da Liga. Se no início a humanidade sente a morte do Superman – e a trilha, com “Everybody knows”, de Leonard Cohen na voz da cantora Sigrid, e a referência a David Bowie dialogam diretamente com Watchmen –, não há tempo para mais explicações.

Os novos personagens são apresentados com agilidade: Victor Stone, ou Ciborgue (Ray Fischer), ainda abalado por sua mudança física; Barry Allen, que tem os poderes de The Flash (Ezra Miller); e Arthur Curry, o Aquaman (Jason Momoa), herdeiro de Atlântida, são procurados por Bruce Wayne/Batman (Ben Affleck) e Diana Prince/Mulher-Maravilha (Gal Gadot) a fim de formar uma liga para combater a ameaça espacial de Lobo da Estepe (Ciarán Hinds), atrás de três caixas maternas que podem lhe emprestar um poder inigualável. Ele surge na Terra acompanhado pelos terríveis parademônios, atraídos pelo medo alheio e vêm a ser as criaturas da necessária passagem “Knightmare” de Batman vs Superman, no qual usavam o símbolo de Superman, representando uma ameaça para Wayne. Lamentando a morte de Clark/Superman, uma conversa entre Martha Kent (Diane Lane) e Lois Lane (Amy Adams) no Daily Planet é tão cotidiana que faz lembrar algo que havia se perdido com Donner nos anos 80. Em meio a isso, Silas Stone (Joe Morton) tenta ajudar seu filho Victor, por ter se tornado metade homem, metade ciborgue, e Barry visita seu pai, Henry (Bill Crudrup), na cadeia. Também vemos rapidamente Mera (Amber Heard) em Atlântida e Hippolyta (Connie Nielsen) na ilha de Themyscira.

A interação entre esses personagens é bem conduzida desde o primeiro encontro entre Bruce Wayne e Curry, mediada a distância por Alfred (Jeremy Irons, novamente ótimo). No entanto, a narrativa realmente se fortalece quando Barry Allen entra em cena, e Ezra Miller tem a oportunidade de entregar uma interpretação cômica realmente bem dosada. Apenas uma determinada cena em que Snyder filma o olhar assustado de Flash em slow motion, com a habilidade de atuação de Miller, garante o movimento para o desenrolar da narrativa. Os demais crescem com esse ingresso: Affleck e Gadot pontuam boas cenas juntas – a melhor é aquela em que Diana, vendo uma nova criação de Wayne, lembra do amado Steve Trevor (Chris Pine), remetendo a seu filme solo – e Momoa e Fischer (este especialmente, pela inexperiência) são belos acréscimos. Quase em participação especial, J.K. Simmons também se mostra o novo Jim Gordon, com um bat-sinal no topo da delegacia esfumaçado, lembrando o Batman de Burton, e aqui a trilha sonora de Danny Elfman, num trabalho interessante, embora não brilhante, como poderia, tem sua melhor participação (spoiler até o fim do próximo parágrafo).
Por sua vez, a volta do Superman resulta numa das melhores sequências, quando, não lembrando de quem é, enfrenta os outros da Liga. Cavill está bem, numa mudança já aguardada de comportamento também em relação a Batman vs Superman, e o CGI usado nele chama mais a atenção de quem possui a informação (quando foi preciso regravar cenas, ele já filmava Missão impossível 6 e não podia tirar o bigode que usava com o personagem desse filme). Sua atuação é reforçada por uma sempre competente Amy Adams. Interessante também como o duelo que ele tem com os demais companheiros se dá em frente à sua estátua desmontada em Metrópolis, dialogando com a profissão de Diana. É como se, entre a vida e a morte, esses personagens estivessem sempre em reconstrução.

Em termos de estilo, ficam claras algumas diferenças entre o que foi rodado por Snyder e o que foi finalizado por Whedon. Snyder tem um senso estético quanto a design de produção e fotografia, por exemplo, que Whedon não possui, mas o filme nunca se sente dividido ou com a tentativa de romper a paleta do diretor oficial e de Fabian Wagner (Game of thrones), levando em conta que apenas 20% das cenas teriam sido feitas ou refeitas por Whedon. As cores se sobrepõem das mais diversas formas e mesmo assim se mantém uma unidade. Elas são mais vivas do que nas obras anteriores de Snyder, no entanto trazem uma tonalidade ainda melancólica, buscando um tom alaranjado. Mesmo os figurinos de cada super-herói se sentem ainda melhores do que vimos anteriormente em quadrinhos, filmes ou séries de TV. Com melhor ouvido para certo diálogo descompromissado, Liga da Justiça parece se fortalecer com a presença de Whedon, mas certamente perdeu em certos momentos a perícia de Snyder com certa antilinearidade (os pesadelos de Bruce Wayne em Batman vs Superman mostram bem isso) e um tom épico que é prejudicado pela curta duração, o que é sentido nos primeiros 15 minutos e nos 10 finais.

Ainda assim, Liga da Justiça, de modo geral, apresenta o estilo delirante de Snyder, capaz de transitar por batalhas gregas com uma atmosfera de Olimpo (300), mostrar um Superman com questionamentos existenciais (O homem de aço), encadear uma sequência de imaginações de uma menina num hospício (Sucker Punch) e apresentar uma animação em que duas corujas irmãs entram em conflito (A lenda dos guardiões), além de um épico sobre um grupo de super-heróis perseguido (Watchmen). Este é um filme visualmente fantástico, com efeitos especiais impressionantes, prejudicados apenas pelo CGI excessivo do duelo final, o que já acontecia em Batman vs Superman e Mulher-Maravilha (curiosamente não tão presente nos primeiros trailers). Os mais destacados são aqueles que envolvem a velocidade do Flash, que poderiam ser carregados, mas estão no tom certo. E, por mais que os cenários mudem abruptamente, há tons e cores que os unem, oferecendo uma real unidade.
Nota-se o cuidado de Snyder em enquadramentos, como a primeira sequência de Batman, que evoca o de Burton e tem um sentido físico real, homenageando, também, com as pombas no alto do prédio, o clássico Blade Runner. Mais: mesmo que de forma menos intensa do que certamente sua versão original (e fica evidente que Liga da Justiça tinha a metragem lançada nos cinemas de Batman vs Superman, pelo menos), a Liga não conserva muito de certo desencantamento de Snyder visto em obras como Watchmen. O vilão também não permite o que Snyder conseguiu com Zod e Lex Luthor: essa é uma ameaça para a humanidade com o objetivo de unir esses heróis em torno de uma determinada ação, não havendo grande elaboração dos seus motivos. Trata-se de uma ameaça secular (em certa narração sobre a sua história, há ecos de O senhor dos anéis, de Peter Jackson), envolvendo as amazonas e o povo de Atlântida, mas é preciso dizer, com ou sem o laço de Mulher-Maravilha, não totalmente elaborada. Em certo momento, é retomada uma referência às lendas do Rei Arthur, já devidamente lembradas tanto por meio do filme anunciado no cinema no início de Batman vs Superman (Excalibur) quanto pela arma usada pelo Superman na luta derradeira.

Liga da Justiça, por outro lado, continua investindo na emoção familiar de O homem de aço, na cena que se passa num milharal, em referência ao clássico Superman de 78 e a Campo dos sonhos, não por acaso com Kevin Costner, que faz o pai terráqueo do homem de aço e no filme de 89 era visitado por fantasmas em sua fazenda. É ressonante também o encontro dos Allen na prisão e uma discussão dos Stone. Também há mais bom humor. Contudo, pelos trailers iniciais, essa diferença já era evidente, então não se tem certeza do tom que Whedon empregou seja tão diferente do resultado inicial. Do mesmo modo, o estabelecimento de conexão com os filmes anteriores (pela nave de Zod, sobretudo, e pela Ilha de Themyscira), é muito bem desenhado, de modo discreto, assim como com os próximos (em duas boas cenas pós-créditos, a segunda especialmente reveladora do que virá).
Isso é beneficiado pelo verdadeiro sentimento de heroísmo vindo de cada personagem, assim como a compreensão em relação a cada um, especialmente de Mulher-Maravilha em relação ao Ciborgue e a amizade deste com o Flash, sendo dois deslocados, presos a um passado que ainda não conseguiram resolver. Esse heroísmo é colocado em avaliação sobre a idade pessoal por Bruce Wayne e uma brincadeira com uma fala do confronto anterior entre ele e Superman, que certamente é um toque refinado do roteiro de Terrio e Whedon. Todos esses personagens carregam alguma culpa (a de Batman em ter matado Superman, a de Mulher-Maravilha em não ter aparecido como uma heroína ao longo de décadas) e tentam usar seu vigor com o intuito de ajudar a humanidade. Apesar de não ter complementado seu trabalho, e de esta versão ser certamente mais curta do que eu gostaria – e o público, possivelmente, também –, Snyder firma, com Liga da Justiça, seu nome como o melhor diretor de fantasias provindas dos quadrinhos. Ele realmente torna emocionante ver esses personagens em ação.

Justice league, EUA, 2017 Diretor: Zack Snyder Elenco: Ben Affleck, Henry Cavill, Amy Adams, Gal Gadot, Ezra Miller, Jason Momoa, Ray Fisher, Jeremy Irons, Diane Lane, Connie Nielsen, J. K. Simmons, Bill Crudup, Amber Heard Roteiro: Chris Terrio, Joss Whedon Fotografia: Fabian Wagner Trilha Sonora: Danny Elfman Produção: Charles Roven, Deborah Snyder, Jon Berg, Geoff Johns Duração: 121 min. Estúdio: DC Films, RatPac Entertainment, Atlas Entertainment, Cruel and Unusual Films Distribuidora: Warner Bros. Pictures

Castelo de areia (2017)

Por André Dick

Depois de Guerra ao terror (mesmo que ele seja antecedido por Soldado anônimo), de Kathryn Bigelow, os filmes sobre a guerra no Iraque se tornaram cada vez mais comuns. Em Zona verde, Paul Greengrass tentou emular o estilo de Bigelow, que atingiu uma bela variação no excepcional A hora mais escura, assim como Clint Eastwood em Sniper americano. Eis que este ano, no projeto Castelo de areia, de Fernando Coimbra, distribuído pela Netflix, a Guerra do Iraque passa a ser um tema repetitivo e a abordagem feita aqui, segundo parte da crítica, é genérica.
Há três anos, Coimbra estreou à frente da direção com o superestimado O lobo atrás da porta, um thriller urbano com problemas de estrutura e, apesar do bom elenco, um tanto repetitivo. Castelo de areia, em que o diretor parte para um gênero completamente diferente, mostra a trajetória do soldado, Matt Ocre (Nicholas Hoult), que vai para o Iraque a fim de custear a sua universidade.

Depois do 11 de setembro, as tropas invadem palácios do governo (algumas cenas lembram Três reis) e, mais adiante, sob o comando do sargento Baker (Logan Marshall-Green), ele e alguns companheiros vão parar numa aldeia perigosa, Baquba, onde se encontra o capitão Syverson (Henry Cavill) e onde é preciso ajudar a população a ter água novamente, depois da destruição imposta pela invasão norte-americana. De todos, Ocre é o que mais não gostaria de estar ali – ele mesmo machucou sua mão a fim de ser dispensado –, e Castelo de areia mostra justamente seu verdadeiro ingresso na falta de sentido que constitui uma guerra. Eles são enviados ao lugar pelo sargento MacGregor (Tommy Flanagan) e pelo tenente Anthony (Sam Spruell), mas é o sargento Baker que prepara Ocre e seus companheiros, Chutsky (Glen Powell, em mais uma ótima atuação depois de Jovens, loucos e mais rebeldes!!), Enzo (Neil Brown Jr.) e Burton (Beau Knapp).
É estranho que Castelo de areia esteja sendo visto como um genérico, quando, a partir da figura humana de Ocre, numa atuação excepcional de Hoult, retrata mais os bastidores da guerra do que dela em si, sem nenhuma pretensão de ser revolucionário, e ainda assim entregando momentos de alta tensão, com embates verdadeiramente ameaçadores, no melhor estilo quase inventado por Bigelow. A ameaça dele surge de situações aparentemente tranquilas.

A fotografia de Ben Richardson (que já realizou belos trabalhos em A culpa é das estrelas e Indomável sonhadora) capta a paisagem iraquiana de modo desolada, mas é Coimbra que consegue desenvolver, em meio a ela, uma relação interessante entre os personagens. Não há também a presença de uma visão patriótica sobre os Estados Unidos: eles ingressam no Iraque a fim de instituir uma liberdade, entretanto o filme mostra que ajudou a constituir também, como se sabe, várias milícias que não apenas confrontavam os soldados norte-americanos como tentavam impedir qualquer maneira de se reerguer o que foi destruído, numa confusão completa entre habitantes e estrangeiros. O próprio símbolo do caminhão transportando água por um deserto, a fim de manter viva uma comunidade, é incomum, se levarmos em conta que estamos em uma guerra na qual não há diálogos evidentes.
O que mais chama atenção é o crescimento em pouco tempo como diretor de Fernando Coimbra. Seu trabalho de estreia se mostrava dotado de estilo, mas pouca substância: desta vez, estilo e substância se encontram, além de uma discrição na abordagem de um jovem que não queria estar na guerra, porém, finalmente, vê nela ideais de companheirismo que procura, no que dialoga bastante com A longa caminhada de Billy Lynn, filme mais recente de Ang Lee. Lá, Billy Lynn estava em dúvida justamente sobre seu papel na guerra, se deveria voltar a ela depois de estar em casa sendo homenageado por um gesto de batalha. Ocre trabalha no mesmo plano de insegurança e, ao mesmo tempo, de desenvolvimento pessoal.

Há uma eficiência na transição de cenas e na parte técnica irretocável e, além da atuação de Hoult, Marshall-Green também tem outro desempenho ótimo, depois de encarnar um dos amantes de Madame Bovary, e Cavill, o atual Superman, se revela bem com certo bom humor. É uma pena que seu personagem não seja suficientemente desenvolvido. O roteiro de Chris Roessner, que participou da Guerra do Iraque, traz também uma boa ligação entre os personagens, sobretudo quando Ocre tem contato com o diretor de um colégio da região, Kadeer (Navid Negahban), mostrando menos maniqueísmo no tratamento de figuras iraquianas do que uma produção média de Hollywood, fazendo de Castelo de areia uma peça bastante especial do gênero. Ocre tem um comportamento autêntico de um jovem no campo de batalha: ele não quer ser Patton, um estrategista a fim de ganhar as batalhas mais improváveis, e sim sobreviver às ameaças que surgem, assim como proteger seus companheiros e permitir que se reconstrua uma parte do que foi destruído. Não se trata de enaltecer tropas norte-americanas e sim de reconhecer como a guerra apenas atrasa a verdadeira construção de qualquer país. Enxergar em Castelo de areia uma ode às tropas dos Estados Unidos contraria exatamente tudo o que o filme mostra ou deixa muitas vezes subentendido, reconhecendo a inteligência do espectador.

Sand castle, ING, 2017 Diretor: Fernando Coimbra Elenco: Nicholas Hoult, Henry Cavill, Logan Marshall-Green, Tommy Flanagan, Glen Powell, Beau Knapp, Neil Brown Jr. Roteiro: Chris Roessner Fotografia: Ben Richardson Trilha Sonora: Adam Peters Duração: 113 min. Produção: Mark Gordon, Justin Nappi, Ben Pugh Estúdio: 42, Treehouse Pictures Distribuidora: Netflix

Batman vs Superman – A origem da justiça – Edição definitiva (2016)

Por André Dick

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Este texto apresenta descrições de algumas cenas incluídas

Passados alguns meses depois do lançamento no cinema, a versão estendida, anunciada desde antes da estreia, de Batman vs Superman – A origem da justiça começa a ganhar os primeiros espectadores. A Warner Bros sofreu críticas de quem queria assisti-la na tela grande, mesmo porque a versão original desagradou a muitos fãs e críticos. A metragem agora é de 182 minutos, enquanto a versão dos cinemas é de 151 minutos (Snyder já havia feito duas versões estendidas para Watchmen, sendo que a segunda tem 215 minutos). Batman vs Superman poderia ser um filme polarizador se não tivesse sido lançado numa época estranhamente desigual também no cinema, em que alguns filmes sem tanta qualidade adquirem status de clássicos instantâneos, enquanto outros, como ele, são considerados fracassos de realização.

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De fato, não criou uma polarização: enquanto há admiradores do filme, grande parte do público (pelo menos a maior parte de quem se manifesta) o rejeitou, embora a média do IMBb seja razoável: 7/10. Em termos de crítica, no Rotten Tomatoes, ele recebeu 27% de aprovação. Esta marca é um pouco superior à de Batman e Robin e Superman IV – dois filmes bastante fracos com esses super-heróis. No Letterboxd, impressiona a quantidade de cotações de meia estrela até duas estrelas, como se fosse um dos piores do ano, até antes da estreia da versão definitiva – e, desde então, a média passou para três a quatro estrelas. Antes mesmo de o filme não chegar à marca respeitável – embora inferior às expectativas – de 900 milhões de dólares nas bilheterias, houve pedidos pela saída de Zack Snyder dos projetos da DC Comics. A Warner subentende que, nos bastidores, haverá mudanças para A Liga da Justiça.
Mas Batman vs Superman é merecedor desse status de filme problemático? Merece que elogios a ele se tornem raros e quase proibitivos? Minha crítica feita à época do lançamento está aqui. Continuo, desde lá, achando que depende do ponto de vista – que, para mim, é claro e talvez não agrade. Se o espectador não está disposto a ver mudanças da linguagem dos quadrinhos para o cinema e escolhas artísticas de Snyder, ele passa a ser incômodo. Se ele não aceita o roteiro menos linear do filme, também. E, se não concordar que o universo de Snyder para esses personagens é realmente mais soturno, não haverá uma boa recepção. E é muito difícil imaginar se um espectador que desgostou do original irá aproveitar mais este. A questão é que Batman vs Superman não precisaria de uma versão estendida para ser de fato um grande filme, um dos melhores do ano. Mas, se esta versão já estava anunciada, o correto é realmente lançá-la e vê-la como a ultimate edition (no Brasil, edição definitiva).

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Muitos reclamaram de lacunas na trama de Batman vs Superman e que a versão estendida tenta resolvê-las. Não acredito que haja tantas lacunas, nem que houvesse a montagem caótica. Tenho em mente uma dúzia de filmes com montagem realmente confusa que foram ganhadores de prêmios importantes e elogiados por espectadores e público. Mas qualquer acréscimo a um grande filme é bem-vindo. Batman vs Superman dá destaque, principalmente, à narrativa de Lois Lane (Amy Adams) no país africano de Nairomi, que agora passa com mais agilidade – e estabelece uma relação clara com Lex Luthor (Jesse Eisenberg), além de enfocar um cenário de guerra que remete a A hora mais escura, com a presença destacada de um personagem chamado Jimmy Olsen (Michael Cassidy) e cenas de destruição de drones. São passagens que ajudam a aprofundar detalhes que desembocam na política, um dos temas da obra. Do mesmo modo, temos mais cenas de momentos de reflexão do Superman. Esta é uma reclamação comum: que o Superman (Henry Cavill) de Snyder não possui muitas falas. Pelo filme, percebe-se que não se sente nem humano nem alienígena; sente-se, de fato, deslocado. Há uma cena muito bem feita nesta versão estendida, quando ele sai do Capitólio com uma das vítimas da explosão e observa os feridos à sua volta. Ela revela o quanto Snyder não possui visão apenas para cenas de fantasia, como trabalha com o choque diante de uma realidade incontornável. Também vemos um prólogo ao encontro de Clark Kent com seu pai no alto de uma montanha.

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O vilão, Lex Luthor, recebe algumas cenas a mais, inclusive ao final, quando tem um encontro um pouco mais prolongado com Batman, e uma de suas subtramas se sente mais resolvida, embora no original não seja especialmente necessária, envolvendo a figura de uma mulher, Kahina Ziri (Wumni Mosaku), que recorre à senadora Finch (Holly Hunter). E também temos breves detalhes interessantes, como Alfred (Jeremy Irons) cortando lenha do lado de fora da mansão, numa contradição com o universo de tecnologia que habita.
De maneira geral, a versão estendida de Batman vs Superman se concentra mais na investigação inicial de Lois sobre o que aconteceu em Nairomi e também a de Clark Kent atrás de informações de Batman (Ben Affleck) – quando encontra um homem que lhe mostra uma raspadinha com o contorno do símbolo do morcego –, investigando um prisioneiro, Cesar Santos (Sebastian Sozzi), que foi marcado pelo símbolo do justiceiro de Gotham City na pele e isso significa morrer na prisão. Esses dois acréscimos tornam o filme mais interessante no sentido de que há uma explicação mais bem conduzida para Superman se contrapor a Batman, principalmente. Também há um acréscimo nas consequências da explosão do Capitólio, com a técnica de laboratório Jenet Klyburn (Jena Malone) trazendo uma explicação-chave. A versão estendida possui, como se previa, mais cenas de violência, alguns detalhes, como no assassinato dos pais de Wayne ou no confronto entre os super-heróis – nada, no entanto, que lembre a violência, por exemplo, de Watchmen. Snyder, ao final, reserva algumas cenas do luto público pela morte de Superman, assim como de seu funeral, criando uma atmosfera ainda mais melancólica, e assinalada com beleza.

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Esta versão se mostra ainda mais soturna e com temas raros para algo que as pessoas desejariam que fossem apenas de super-heróis. É ainda menos infantil, certamente desagradando a um público dessa idade. E, ao contrário da trilogia de Nolan, este Batman vs Superman se sente ainda mais num universo em que os super-heróis parecem não ter certeza para onde devem se dirigir. Isso parece o principal incômodo para certo público: Snyder realmente arriscou fazer um filme em que duas figuras que representam a salvação não parecem saber indicar um caminho. Bastante revelador quando, depois da morte de Superman, aparece uma capa de jornal sobre o assassinato de Kennedy, como se ele representasse um sinal de esperança. As ruas de Metrópolis estão vazias: todos lamentam a morte daquele que trazia segurança. É complexo e humano, muitas vezes, além de denso. A versão estendida, diga-se, melhora ainda mais um filme que já era excelente. Não é simplesmente para um público mais adulto, como já foi a trilogia de Nolan. Ao mesmo tempo que ele homenageia alguns quadrinhos, ele apresenta um traço novo. Poucas vezes se tem certeza de que uma obra foi injustiçada, e Batman vs Superman é um desses casos.

Batman v Superman – Dawn of justice – Ultimate Edition, EUA, 2016 Diretor: Zack Snyder Elenco: Ben Affleck, Henry Cavill, Amy Adams, Jesse Eisenberg, Diane Lane, Laurence Fishburne, Jeremy Irons, Holly Hunter, Gal Gadot, Scoot McNairy, Jena Malone, Michael Cassidy, Wumni Mosaku, Sebastian Sozzi Roteiro: Chris Terrio e David S. Goyer Fotografia: Larry Fong Trilha Sonora: Hans Zimmer, Junkie XL Produção: Charles Roven, Deborah Snyder Duração: 182 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: DC Entertainment / Dune Entertainment / Syncopy  

Cotação 5 estrelas

 

Batman vs Superman – A origem da justiça (2016)

Por André Dick

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Se as lições no que diz respeito à ação foram aprendidas com a versão de Bryan Singer em 2006, e atores melhores foram colocados nos papéis principais, O homem de aço tentava contrabalançar toda sua expectativa com doses maciças de movimento, ao mesmo tempo com uma tentativa de humanizar o personagem que remete a filmes mais contidos. A primeira impressão visual indicava que a paleta de cores frias foi um risco – independente de os primeiros filmes serem dos anos 70 e 80, uma época considerada mais ingênua, e o atual existir em meio a acontecimentos deste século. O primeiro Superman teve a fotografia de Geoffrey Unsworth (2001), e O homem de aço possuía o trabalho de Amir Mokri, que criou uma amplitude especial para os cenários, destacando as cores cinza e azul, com um tempo quase sempre chuvoso, úmido, sobretudo quando mostra a infância de Superman, com imagens que lembram A árvore da vida, mas que não chegam a contrastar com o restante, além de luzes em ambientes escuros.
Havia por trás dessa nova visão do super-herói um diretor autoral. Ter sido escolhido para realizar O homem de aço trouxe a Zack Snyder a responsabilidade de renovar uma franquia que iniciou com uma das melhores obras já feitas a partir de quadrinhos, exatamente o original de Richard Donner.

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Anos antes ele já havia realizado Watchmen – O filme, uma espécie de prévia de seus projetos atuais, um passo à frente de 300. Snyder certamente não contém o mesmo trejeito para a mistura entre ação e comicidade de Donner, não o impedindo de ser, por outro lado, um cineasta com um toque autoral delirante, principalmente quando tem liberdade. Essa característica voltaria no menosprezado Sucker Punch, no sentido de este também mostrar os efeitos da guerra sobre personagens delimitados, embora pareça mais uma mistura de filmes de heróis com Cabaret de Bob Fosse. E regressa novamente neste Batman vs Superman – A origem da justiça.
Como na obra de 2013 e Watchmen, Snyder poderia ter realizado algo mais próximo ao estilizado, como Sin City, mas escolhe um tom mais próximo da fantasia, auxiliado pelo design de produção irretocável e pela fotografia de Larry Fong, novamente com uma paleta de cores soturna, fazendo uma boa combinação com o primeiro filme, além de oferecer o tom granulado já existente em Super 8. Este Batman vs Superman é uma espécie de extensão dos toques sombrios de Watchmen com uma ação de incalculável poderio, tentando trazer o melhor de dois super-heróis que se tornam referência para contar o início da Liga da Justiça. São personagens de destaque que Frank Miller colocou em campos opostos num dos quadrinhos mais memoráveis já feitos. É costume se falar que este tipo de filme é para um público específico, assim como O senhor dos anéis e O hobbit são para admiradores das obras de J.R.R. Tolkien, mas, sob esse ponto de vista, pode-se perder algo que independe de se conhecer ou não os seus personagens.
Com um início bastante interessante, estabelecendo ligação com o primeiro O homem de aço, Snyder coloca Bruce Wayne correndo de caminhonete em meio à destruição nas ruas de Metrópolis. Ele logo se torna um potencial adversário para deter o que entende como ameaça de Superman de trazer uma batalha que não é da Terra para o planeta, ameaçando destruí-lo.

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Enquanto combate o crime em Gotham com requintes ainda não vistos nos filmes de Burton e Nolan, tornando-o tranquilo em se considerar um fora da lei, Superman é visto como um potencial risco para o governo, na figura da senadora Fich (Holly Hunter, muito bem), assim como instiga o jovem Lex Luthor (Jesse Eisenberg, melhor do que possa aparentar e construindo um vilão interessante) a querer combatê-lo. Snyder, no início, apresenta uma montagem muito rápida das cenas, conduzindo o espectador ao centro da ação, trazendo ainda o personagem Wallace Keefe (Scoot McNairy, ótimo), um ex-funcionário de Wayne.
Se, por um lado, Clark Kent tenta se manter no Daily Planet, sob a direção de Perry White (Laurence Fishburne), e namorar a colega de trabalho Lois Lane (Amy Adams), não sabe mais o que pode fazer para não ser visto como um chamado à destruição de Metrópolis. No que corresponde às relações, Wayne prefere as efêmeras, a não ser, ao que parece, quando se depara com uma misteriosa mulher, Diana Prince (Gal Gadot) – e Snyder coloca o encontro dos dois ao som da “Waltz nº 2”, de Dmitri Shostakovich, a mesma utilizada por Stanley Kubrick em De olhos bem fechados. Como no filme de Kubrick, os personagens se disfarçam por trás das máscaras, e mesmo quando estão sem elas não se mostram como verdadeiramente são. Interessante também como Snyder consegue mesclar os sonhos de Bruce Wayne a seu comportamento: ele em nenhum momento se mostra como alguém com certeza do que pretende construir em Gotham City. São visões perturbadas, manifestando como o próprio personagem se sente, e a casa que dá para um lago cercado de sereno parece ser o contrário dele: não se pode enxergá-lo de fato. Trata-se de um dos acertos do roteiro de Goyer e Terrio (este o mesmo de Argo, mostrando a influência de Affleck sobre o projeto).

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A primeira hora de Batman vs Superman remete muito a Watchmen, em que havia a investigação de Rorschach, com relatos num diário que remetem aos narradores de filmes antigos policiais, e sua ida para a cadeia. O tom empregado é mais soturno do que na trilogia de Nolan, e dá espaço para Bruce Wayne ser um interessante contraste para a imagem de Batman. O mordomo Alfred (um ótimo Jeremy Irons) ajuda o patrão a desenvolver equipamentos de combate – conduzindo também à cena as características o personagem de Morgan Freeman na trilogia de Nolan – e lamenta a sua inclinação para a bebida. Ben Affleck, nesse sentido, compõe um super-herói menos esperançoso do que o de Bale, além de mais introspectivo. Nunca ficam muito claras suas intenções, e isso contribui para a sua dualidade. Surpreendentemente, Affleck consegue se apossar do personagem, oferecendo uma de suas melhores atuações. Além disso, a caverna onde esconde seus equipamentos dialoga com a de Nite Owl, de Watchmen, e mostra a capacidade de Snyder de lidar com um imaginário enriquecedor de adaptação dos quadrinhos.  No lado oposto, Cavill novamente entrega um Superman mais humano e suscetível ao que se espera dele.
É, aliás, surpreendente como Snyder coloca Batman como um personagem mais aliado ao fantástico do que o próprio Superman, que gostaria de ter uma vida sem incidentes e sem a consciência de ser um estrangeiro, como Clark Kent, mas precisa sempre retomar sua imagem de justiceiro da humanidade. Ambos, de qualquer modo, estão intrinsecamente ligados aos pais: Bruce teve a fatalidade de ter seus pais mortos na saída de um cinema (cena já mostrada no de Burton), e aqui o filme se chama Excalibur, como se Wayne se transformasse numa espécie de Rei Arthur, enquanto se visualiza um cartaz de A máscara do Zorro. Clark Kent, por sua vez, tem Jonathan Kent (Kevin Costner), em seus sonhos, e Martha (Diane Lane), desde o primeiro, sob ameaça de Zod, a sua fuga da realidade de Metrópolis para o Kansas. As armaduras escondem apenas a infância: a de Bruce numa mansão solitária e a de Clark numa fazenda que anoitece em meio às estrelas (numa das belas imagens que Snyder oferece aqui).

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Snyder desenha essa aproximação dos heróis de seus pais de maneira discreta e ainda assim enfática: estamos diante de dois heróis que lutam contra si mesmos para tentarem ser normais diante da incapacidade de atingir isso. E, embora esta obra pareça mais uma continuação de O homem de aço, sua narrativa pertence mais à figura do homem-morcego.
Não apenas por essa faceta simbólica, e sim por encadear uma sequência de cenas muito bem pensadas e arquitetadas, principalmente em sua meia hora final, Snyder se mostra mais uma vez um diretor capaz de mesclar ação e emoção. Seus personagens, apesar de parecerem indestrutíveis, não são robóticos ou unidimensionais e, mesmo com cenas de ação que parecem sempre sobressair aos caracteres, Snyder dá uma razão ao movimento ininterrupto por meio de simbologias, principalmente aquelas familiares, a fim de que cada ação pareça ter um sentido, com uma trilha sonora destacada de Hans Zimmer e Junkie XL. Este é um dos filmes do gênero melhor montados, com pouco mais de 2 horas e meia que passam sem que se perceba, com uma coleção de imagens realmente significativas. Ele consegue mesclar os melhores elementos do Batman de Nolan e do primeiro O homem de aço, sem diluir nenhum dos dois, e ainda apresentar novos personagens sem perder o fio da meada. Ao contrário do que diz quase a maioria esmagadora da crítica, Batman vs Superman não é uma possível falha de ignição: é um dos melhores filmes de super-heróis já realizados.

Batman vs Superman – Dawn of justice, EUA, 2016 Diretor: Zack Snyder Elenco: Ben Affleck, Henry Cavill, Amy Adams, Jesse Eisenberg, Diane Lane, Laurence Fishburne, Jeremy Irons, Holly Hunter, Gal Gadot, Scoot McNairy Roteiro: Chris Terrio e David S. Goyer Fotografia: Larry Fong Trilha Sonora: Hans Zimmer, Junkie XL Produção: Charles Roven, Deborah Snyder Duração: 153 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: DC Entertainment / Dune Entertainment / Syncopy  

Cotação 5 estrelas

O homem de aço (2013)

Por André Dick

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A desilusão com o Superman de Bryan Singer em 2006 foi tão grande que a franquia acabou sendo deixada de lado pela Warner, até se encontrar uma possibilidade de retomá-la (imagina-se se teria sido melhor a versão planejada por Tim Burton, com Nicolas Cage, antes daquela de Singer). O grande problema parecia ser a comparação com a primeira série, cujos dois episódios, de Richard Donner e Richard Lester, eram referenciais para os filmes de super-heróis feitos a partir de então. Mas também porque Singer não conseguiu delinear um Superman para o público, preferindo situá-lo apenas como um indivíduo em busca da explicação para sua existência. Se a parte técnica do filme era respeitável, o mesmo não se podia dizer de sua falta de ação, a ponto de se desconfiar se era um filme de super-herói. Além disso, Kevin Spacey destoava como Lex Luthor, pelo menos quando comparado a Gene Hackman, e tanto Brandon Routh (Superman) quanto Kate Bosworth (Lois Lane) tinham dificuldade em trabalhar o roteiro. No início desta década, a Warner decidiu retomar a franquia, apagando o nome Superman e intitulando O homem de aço, desta vez a cargo de outro diretor, com novos roteiristas e atores.
Se as lições no que diz respeito à ação foram aprendidas com a versão desanimada de Singer, e atores melhores foram colocados nos papéis principais, O homem de aço tenta contrabalançar toda sua expectativa com doses maciças de movimento, ao mesmo tempo com uma tentativa de humanizar o personagem que remete a filmes mais contidos.
A primeira impressão é a visual, e parece que a paleta de cores frias foi um risco – independente de os primeiros filmes serem dos anos 70 e 80, uma época considerada mais ingênua, e o atual existir em meio a acontecimentos deste século. O primeiro Superman teve a fotografia de Geoffrey Unsworth (2001), e este possui o trabalho de Amir Mokri, mais conhecido por parcerias com o diretor Michael Bay, tornando a textura de algumas imagens parecida com a dos filmes Transformers. Quando acerta, e cria uma amplitude especial para os cenários, destacam-se as cores cinza e azul, com um tempo quase sempre chuvoso, úmido, sobretudo quando mostra a infância de Superman, trazendo imagens que lembram A árvore da vida, mas que não chegam a contrastar com o restante, além de luzes em ambientes escuros.

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Com essa escolha, ainda temos o design do filme. Desta vez, Krypton é uma mistura entre os ambientes de Matrix e, sobretudo, de H. R. Giger (da série Alien), e ainda da Terra média, o que acaba prejudicando a desvinculação do filme dessas referências claras e tirando do filme seu impacto inicial, a não ser em imagens excepcionais na água (remetendo novamente a A árvore da vida). Não se trata, nesse caso, de reproduzir os dois primeiros filmes do Superman, mas dar um visual menos denso e derivado ao filme (as cores do Superman, afinal, também são icônicas para uma certa pop art). De qualquer modo, pode-se imaginar essa escolha para que se deixasse o filme parecido com um ambiente da Roma Antiga, inclusive nos cortes de cabelo e do figurino, e no fato de que, aqui, o herói surge como um Messias que pode ameaçar os rumos de um ditador.
O filme (alguns spoilers a partir daqui) inicia da mesma maneira que o original, de 1978, com Jor-El (Russell Crowe, lembrando Gladiador) e sua mulher Lara (Ayelet Zurer), colocando Karl-El num berço em formato de espaçonave, antes da destruição de Krypton, e o envio para o espaço do General Zod (Michael Shannon). À medida que o berço espacial cai na Terra, já se mostra o personagem, chamado Clark Kent, adulto, viajando pelo país, trabalhando nos lugares mais inóspitos, enquanto cada ação recorda um momento da infância, com seus pais, Jonathan Kent (Kevin Costner) e Martha (Diane Lane) – certamente, os atores mais humanos do elenco, ao lado daqueles que fazem Clark quando criança, Cooper Timberline e Dylan Sprayberry (ambos ótimos). Numa estação do Ártico, ele vai conhecer Lois Lane (Amy Adams). Embora Znyder conte com a excelente montagem de David Brenner – e ela torna orgânica essa transição do presente para o passado, inovando em relação às versões anteriores –, ele não estabelece uma ligação mais clara entre os personagens. Num primeiro momento, torna-se difícil entender por que a aproximação de Clark e Lois não acontece de modo mais lento, pois era este detalhe que tornava o espectador suficientemente próximo deles do filme de 1978 – depois, percebe-se que o objetivo era centralizar especificamente na ação.

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Para um filme de 143 minutos, no entanto, falta uma transição entre as passagens: tudo soa um tanto abrupto (imagina-se, certamente, uma pilha de material na sala de edição). Também não há proximidade na apresentação dos componentes do Daily Planet, como o chefe de Lois, Perry White (o competente Laurence Fishburne); parece que Snyder tinha receio de repetir a lentidão de Singer e tentasse acelerar mesmo o que acaba não sendo, de fato, mostrado. E torna-se difícil aceitar por que o personagem central simplesmente parece reduzir sua primeira participação ao fato de querer ajudar o exército dos Estados Unidos, com um tom triunfalista, que, se o uniforme não esconde, pelo menos na série universal era atenuado por humor (em determinado momento, o Coronel Nathan Hardy (Cristopher Meloni), depois de ver o herói destruir quase toda Smalville durante um combate, lamenta por não ter visto que ele na verdade é um amigo, não um inimigo).
Não é uma característica de Snyder, responsável pelo cansativo 300 e pelo visualmente interessante Sucker Punch, além de ter adaptado Watchmen, o humor, assim como não é um elemento que o roteirista David S. Goyer e o coargumentista Cristopher Nolan (responsável pela trilogia Batman), também produtores, têm em mente ao criarem seus filmes. Nolan, especialmente, costuma apresentar diálogos em muitos momentos expositivos – mas aqui, especialmente, se percebe a falta do seu irmão, que ajudou a fazer os roteiros da trilogia de Batman. Apenas nos momentos em que Jonathan e Clark Kent estão em cena, ele consegue traduzir uma espécie de humanidade do personagem de Clark, assim como em certa mitologia do ser perseguido por reunir em si a genética de seus descendentes. Há algumas escolhas estruturais que lembram especialmente Batman begins. O personagem de Clark Kent, não por acaso, viaja pelo país, sofrendo, assim como Bruce Wayne em Batman begins, e não por acaso a mocinha parece deslocada – nunca foi o forte de Nolan a concepção de um idealismo romântico. Do mesmo modo, enquanto o Batman realista de Nolan agia sempre com a polícia e o Inspetor Gordon, aqui o Superman parece integrar o exército mesmo antes de revelar todos os seus poderes. O tom contra a destruição de Gotham City era o mote em Batman; aqui o tom é contra a destruição da Terra, de aceitar que os humanos merecem sobreviver. Mas fica faltando o elemento humano: a Terra é ameaçada, mas parece que a população não se refere ao herói, criando um afastamento decisivo. Assim como Star Trek e outras produções recentes, há uma cota de referências ao 11 de setembro, lembrando em outras partes (não foi, diga-se, uma boa lembrança) Independence day e Godzilla, de Roland Emmerich, em algumas cenas-chave, e, em seus melhores momentos, Guerra dos mundos. O melhor, nesse diálogo entre filmes, é que há uma série de referências a Contatos imediatos do terceiro grau, como a origem do Superman escondida embaixo de uma montanha do Ártico, quando ele volta à noite para ver sua mãe e entra pela porta a fim de ver a TV (como a do menino de Contatos imediatos), a aproximação da nave de Zod em meio a árvores, um retrato de Clark quando menino ao lado do pai e de uma montanha como aquela em que as espaçonaves descem no filme de Spielberg para encontrar o personagem de Richard Dreyfuss.

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Nesta ação ininterrupta – e aqui o tratamento é exatamente de Snyder, já que Nolan não segue uma linha frenética –, a atuação de Henry Cavill é interessante, sobretudo porque tenta outro caminho que não o de Reeve (seguido por Brandon Routh, de Superman – O retorno), e se Amy Adams não recebeu alguns diálogos a mais para justificar a ligação com o herói mostra-se novamente boa atriz. Na verdade, os dois têm um vínculo mais claro do que o casal de Superman – O retorno, mas Snyder tira a sutileza que poderia haver na sua proximidade, tornando a faceta mais romântica deste filme quase ausente.
Por outro lado, existe, pela primeira vez, uma visão mais física dos poderes do herói, como o voo, assim como a ligação com os quatro elementos da natureza. Da água, passando pelo fogo, até a terra e o ar, sobretudo numa sequência-chave, considerada por alguns absurda, mas adequada ao contexto do filme, de que o herói, mais do que de aço, é uma composição da força da natureza, O homem de aço apresenta uma simbologia. Os efeitos especiais são extraordinários, ainda que a maneira como alguns deles são apresentados traga a lembrança de atos terroristas, assim como em Homem de ferro 3 (não em Star Trek, cuja abordagem é mais discreta): parece que dentro da fantasia se quer tornar o ambiente pesado, extraindo a energia necessária para o envolvimento decisivo entre os personagens e, quando o herói fala em esperança para um grupo de militares, temos a impressão que ele está falando também como presidente dos Estados Unidos, o que soa irremediavelmente deslocado.
Há, com essa temática de fundo realista (o terrorismo), a presença de referências religiosas, e Snyder não é exatamente sutil ao abordá-las. Superman em vários momentos é comparado à figura de Jesus Cristo, inclusive no momento em que ele está na água com os braços abertos e de barba, ou quando diz que pode curar Lois Lane de um determinado ferimento, ou quando vai até uma igreja e um vitral da figura de Jesus é visto ao fundo, projetando-se ao lado dele. Mas nada, nesse sentido, se compara ao fato de que algumas vezes é referida sua idade: 33 anos. Isso acaba trazendo uma analogia ostensiva, que parece ser encaixada para tentar oferecer uma certa profundidade temática ao personagem de Jerry Siegel e Joe Schuster. Ela consegue ser melhor encaixada quando se visualiza seu nascimento, com a perseguição em seguida de uma espécie de cúpula rebelde que pretende tomar Krypton como a Roma Antiga, e sua infância, quando, num momento aterrorizante, se vê como Clark foi descobrindo, aos poucos, seus poderes.
Por toda a expectativa que criou, embora O homem do aço fique afastado das possibilidades que apresentava, como filme de ação funciona e diverte (mesmo com suas lacunas de roteiro), e nunca é entendiante (como alguns momentos de Homem de ferro 3), mantendo a ação pelas idas e vindas do tempo, trazendo alguns acréscimos à mitologia do Superman (destaque-se a trilha sonora de Hans Zimmer). A questão é que depois de toda a grandiosidade buscada aqui torna-se complicado trazer a série para um movimento não apenas de blockbuster com ação frenética, mas como estudo de um personagem de quadrinhos que fascina desde sua criação. Parece que realmente, depois das experiências com Singer e Snyder, que Superman, ao contrário da série Batman, que teve Tim Burton à frente de uma franquia e Nolan à frente de outra, não tem conseguido diretores autorais, com, entre qualidades e defeitos, uma visão mais sensível. Quando está em movimento, O homem de aço impressiona, mas quando precisa lidar com os personagens o fato é que deixa o espectador nostálgico.

Man of steel, EUA, 2013 Direção: Zack Snyder Elenco: Henry Cavill, Amy Adams, Russell Crowe, Michael Shannon, Kevin Costner, Diane Lane, Antje Traue, Ayelet Zurer, Cristopher Meloni, Laurence Fishburne, Cooper Timberline, Dylan Sprayberry Produção: Charles Roven, Christopher Nolan, Deborah Snyder, Emma Thomas Roteiro: David S. Goyer, Cristopher Nolan Fotografia: Amir Mokri Trilha Sonora: Hans Zimmer Duração: 143 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Atlas Entertainment / Legendary Pictures / Warner Bros. Pictures

Cotação 3 estrelas e meia