Brightburn – Filho das trevas (2019)

Por André Dick

Com produção do diretor dos dois Guardiões da galáxia e de Super, James Gunn, e roteiro assinado por seu irmão Brian e primo Mark, Brightburn – Filho das trevas é dirigido por David Yarovesky, O filme inicia com um casal, Tori (Elizabeth Banks), e Kyle (David Denman), que mora na área rural do Kansas, numa grande fazenda, pensando em ter um filho. Nesse momento, a obra dá um salto no tempo, e os vemos criando um menino, Brandon (Jackson A. Dunn).
Se Brighturn tem algo não é exatamente a originalidade. Brandon caiu do céu dentro de uma espécie de cápsula que lembra imediatamente aquela de Superman, de Richard Donner, e de O homem de aço, de Zack Snyder (lembrando que James Gunn escreveu o primeiro filme desse diretor, Madrugada dos mortos). A semelhança é tão grande que se pode avaliar como os dois Gunn autores do roteiro devem ter feito uma pesquisa detalhada sobre aquele que se esconderia por trás da persona de Clark Kent.

No entanto, Brandon não é exatamente como Clark. A princípio, um filho educado, prestativo com os pais, começa, na chegada da adolescência, ater acessos de raiva e descobre uma força incomum, sobretudo depois de tentar ligar um cortador de grama. Esses momentos lembram principalmente O homem de aço, de Snyder, até mesmo nos enquadramentos, no entanto sob o ponto de vista de uma ameaça maligna. Aqui não existe kryptonita: ela está encarnada na própria figura do personagem central. E os símbolos das abelhas e das flores interagem para mostrar como o personagem do menino está situado entre o possível ataque e uma tentativa de sensibilidade, oferecendo um bom resultado.
Obviamente, Brightburn vai se sucedendo em blocos, com uma narrativa a princípio previsível, no entanto, além da atuação de Banks, muito bem, e da presença de Denman, o jovem ator Dunnan, o qual fez uma rápida participação em Vingadores – Ultimato como o jovem Scott Lang, traz uma plausibilidade ao roteiro. Os momentos em que ele contracena com o pai e a mãe são verdadeiros e, quando começa a mudar seu comportamento, em diálogo com a sua idade, há um interesse genuíno de avaliá-lo psicologicamente. O próprio interesse nele por sua colega de aula Caitlyn (Emmie Hunter), filha de Erica (Becky Wahlstrom), que trabalha na lanchonete da cidadezinha, mostra isso.

E, embora seja muito rápida sua transformação, a edição colabora para que o espectador aceite isso. Tendo apenas curtas e um longa-metragem, A colmeia, antes desse filme (aliás, imagem utilizada aqui em momentos-chave), o diretor David Yarovesky escolhe alguns elementos de obras de super-heróis: o menino, em determinado momento, começa a desenhar um uniforme em seu caderno. A atmosfera rural é decisivamente importante para que a narrativa se sinta real, com a presença de um bosque onde Brandon e seu pai vão treinar tiros a alvo.
Há, nisso, não apenas a influência de Superman, como também da série A profecia, que iniciou com uma peça em 1976 do mesmo diretor Richard Donner. No entanto, mais recentemente tivemos Destino especial, um menino do interior que descobria super-poderes. Brightburn tem muito desse filme, com a diferença de que acentua seu horror em suas bordas. É um grande quadro de como pode brotar o pavor de um cenário idílico, inofensivo, e adianta em sua narrativa uma espécie de diálogo com Hereditário.

É clara, em alguns momentos, a influência dessa obra de Aster, principalmente aproveitando a noite como uma oposição ao dia – os momentos mais assustadores se passam nesse período, aproveitando a imagem de bosques. O trabalho de fotografia de Michael Dallatorre, desse modo, é muito bom, e sempre deixa o fundo das cenas como espaço para a imaginação do espectador, temendo o que pode acontecer. Com isso, apesar de muitas sequências serem possivelmente previsíveis, há nelas um conjunto que consegue aparentar uma construção interessante e mesmo elegante, apesar de adotar o caminho mais brusco em alguns momentos. Mas, acima de tudo, o roteiro consegue desenvolver um elo de ligação dos pais com o filho de modo que, quando as coisas começam a ficar agitadas, o espectador fica receoso de haver um elo quebrado. Para isso, é vital a atuação principalmente de Banks, atriz subestimada. Ela consegue dar credibilidade à pressa do ato final, com momentos realmente emocionais, seja para assustar ou não.

Brightburn, EUA, 2019 Diretor: David Yarovesky Elenco: Elizabeth Banks, David Denman, Jackson A. Dunn, Matt Jones, Meredith Hagner, Emmie Hunter, Becky Wahlstrom Roteiro: Mark Gunn e Brian Gunn Fotografia: Michael Dallatorre Trilha Sonora: Timothy Williams Produção: James Gunn e Kenneth Huang Duração: 90 min. Estúdio: Screen Gems, Stage 6 Films, Troll Court Entertainment, The H Collective Distribuidora: Sony Pictures Releasing

Power Rangers (2017)

Por André Dick

Não acompanhei o fenômeno pop infantojuvenil dos Power Rangers, criados por Haim Saban, portanto cheguei a este filme sem as informações básicas que um fã certamente possui. Depois de fazer muito sucesso nos anos 90, ele tem novamente as atenções com essa produção que tenta engatilhar uma nova franquia. A história mostra cinco estudantes na pequena cidade de Angel Grove: Jason Scott (Dacre Montgomery, vilão da segunda temporada de Stranger things), um jogador de futebol promissor, mas que sofre um acidente; Kimberly Hart (Naomi Scott), uma rebelde do colégio, que acaba por se desentender com antigas colegas; Trini (Becky G.), a mais inteligente de todos, recém-chegada à cidade; William “Billy” Cranston (RJ Cyler), um tanto tímido e sempre perseguido, sendo protegido por Jason; e Zack Taylor (Ludi Lin), o mais descompromissado.
O roteiro assinado por John Gatins, de Gigantes de aço, O voo e do recente Kong – A Ilha da Caveira, tenta costurar os inter-relacionamentos de maneira muito rápida, mas não sem uma dose interessante de mistério. Ainda: apesar de lidar com temas previsíveis, sobre a maneira com que cada um é tratado no colégio, nada parece excessivamente disperso ou mal feito, como costuma acontecer numa produção do gênero. Há uma atmosfera bem construída de Angel Grove, com seus bosque, e mesmo o salto de uma personagem num lago remete ao filme A lenda, de Ridley Scott, com uma construção fotográfica dedicada.

Certo dia, quando estão andando, não exatamente juntos, por uma pedreira, eles entram em contato com um artefato alienígena. Nessa noite, cada um leva para casa um medalhão com cor diferente, que passa a conceder poderes especiais. No dia seguinte, quando voltam ao lugar para investigarem melhor o que pode ter acontecido, eles descobrem uma nave espacial, onde conhecem Zordon (Bryan Cranston) e seu ajudante robô, Alpha 5 (Bill Hader), sendo avisados de que formarão o grupo Power Rangers para combater uma ameaça alienígena, Rita Repulsa (Elizabeth Banks). Jason será o Ranger vermelho; Billy o Ranger azul; Kimberly a Ranger rosa; Zack o Ranger preto; e Trini, o Ranger amarelo. O interior dessa nave e a iluminação de luzes remete imediatamente ao nostálgico Invasores de Marte, refilmagem de Tobe Hopper para o clássico dos anos 50, realizado nos anos 80. E o visual de Zordon funciona muito bem, dando uma profundidade no cenário que torna o estilo realmente com senso estético personalizado. A ligação entre os jovens se sente estabelecida mais diretamente às vezes, outras vezes mais subescrita, alternando altos e baixos, mas os personagens, de modo geral, são interessantes.

Toda essa premissa do filme de Dean Israelite parece totalmente previsível e o é muitas vezes. Ainda assim, há a diversão e o colorido do design de produção, auxiliado pela fotografia competente de Matthew J. Lloyd, além de efeitos visuais e CGI acima da média, com um elenco de jovens não exatamente talentoso, mas eficaz (com destaque para RJ Cyler, numa atuação bem-humorada capaz de torná-lo o destaque da equipe), e Power Rangers consegue ser interessante na maior parte do tempo. Ele tem um direcionamento juvenil evidente, com várias referências a Super 8, Alguém muito especial e O clube dos cinco, e um humor despretensioso que faz valer várias sequências, principalmente até a primeira metade. Depois, sabe-se que é preciso mostrar batalhas, e Banks (boa atriz na série Jogos vorazes e Love & Mercy, por exemplo) se mostra uma vilã no mínimo curiosa, e a sua primeira aparição para uma das integrantes da equipe é claramente influenciada por Freddy Krueger em A hora do pesadelo, enquanto Hader rouba a cena fazendo a voz do robô Alpha 5. Lamenta-se que o personagem central, Jason, acabe ficando com o passar da narrativa um tanto subaproveitado, sem que sua relação com Kimberly seja suficientemente desenvolvida como o início subentende.

De forma surpreendente, o uniforme da equipe (cada um possui uma cor) não aparenta ser kitsch e os monstros poderiam servir de exemplo para alguns filmes de super-heróis bem mais estimados. Ao final do terceiro ato, falta, porém, para Israelite o mesmo empuxe divertido que guia o filme nas duas primeiras partes, de maneira descompromissada e suficientemente inteligente para o espectador se satisfazer. É como se um guia de referências precisasse ser atendido e ele não consegue estabelecer uma passagem dos personagens do seu início para uma roupagem de heróis. Num ano em que já tivemos filmes do gênero bastante elogiados (Logan, Mulher-Maravilha, Guardiões da galáxia Vol. 2) e filmes baseados em games e mangás (Assassin’s creed e A vigilante do amanhã), Power Rangers é, claramente, o menos pretensioso e mais deslocado. É isso que faz dele, no entanto, uma realização individual e mesmo com características excêntricas. Realizado com 100 milhões de dólares, não fez grande bilheteria, o que possivelmente compromete a franquia projetada, mas se sustenta por suas próprias qualidades.

Power Rangers, EUA, 2017 Diretor: Dean Israelite Elenco: Dacre Montgomery, Naomi Scott, RJ Cyler, Ludi Lin, Becky G., Elizabeth Banks, Bryan Cranston, Bill Hader Roteiro: Ashley Miller, Burk Sharpless, Haim Saban, John Gatins, Matt Sazama, Max Landis, Shuki Levy, Zack Stentz Fotografia: Matthew J. Lloyd Trilha Sonora: Brian Tyler Produção: Brian Casentini, Haim Saban, Marty Bowen, Wyck Godfrey Duração: 124 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Lionsgate Films / Saban Brands / Saban Entertainment Inc

 

Jogos vorazes: A esperança – O final (2015)

Por André Dick

Jogos vorazes 2.9

Os que reclamam que um livro é dividido em filmes de duas partes costumam ser críticos à indústria de querer lucrar várias vezes com a mesma história. O diretor que mais enfrentou esse percalço nos últimos anos foi Peter Jackson, com seu bastante criticado (pelo menos em sua primeira e terceira partes imerecidamente) O hobbit. Embora Jogos vorazes tenha tido apenas seu último livro dividido em duas partes, pode-se dizer que a opção rendeu uma primeira parte muito boa. Quem a viu em Blu-ray, mesmo sem ser fã da série, é capaz de reconhecer a sua qualidade: muito bem montado (os dois primeiros eram excessivos) e se serve apenas para anunciar uma segunda parte que então a série começasse nela.
Embora não seja fã da série, apesar de reconhecer qualidades nos dois primeiros filmes, não foi sem tempo:  Jogos vorazes: A esperança – Parte 1 parecia ser o melhor dos três primeiros, e  não parecia apenas motivo para antecipar a segunda parte do último capítulo. Falavam o mesmo de Harry Potter e as relíquias da morte, cuja primeira parte ainda me parece a melhor de toda a série.

Jogos vorazes 2.14

Jogos vorazes 2.8

Jogos vorazes 2.15

Agora em Jogos vorazes: A esperança – O final, o mesmo diretor Francis Lawrence traz de volta a personagem de Katniss Everdeen, escolhida para enfrentar o vilão Coriolanus Snow (Donald Sutherland) e trazer a paz, sob a liderança de Alma Coin (Julianne Moore), assessorada por Plutarch Heavensbee (Philip Seymour Hoffman). Ela embarca numa missão com seus amigos Gale (Liam Hemsworth), Finnick (Sam Claflin), Cressida (Natalie Dormer), Pollux (Elden Henson) e a companhia de um instável Peeta (Josh Hutcherson) – que no episódio anterior (e isso passa a ser um spoiler para quem não viu) já havia se tornado numa espécie de ameaça para a segurança – sob a liderança de Boggs (Marhersala Ali) e a tenente Jackson (Michelle Forbes). Esse grupo parte para tentar salvar os cidadãos de Panem. A história de Jogos vorazes, baseada nos romances de Suzanne Collins, parece à primeira vista apenas uma composição de ideias que mesclam a dúvida diante de uma promessa de liberdade em um novo sistema política por meio de um grupo de jovens que idealizam um futuro diferente. No entanto, é apenas uma impressão ligeira, uma vez que Jogos vorazes é realmente uma série que, com virtudes e falhas, ainda diz algo que foge ao que poderia ser mais raso, diferente de outras séries que iniciam agora com promessa de longa duração, a exemplo de Maze Runner.

Jogos vorazes 2.4

Jogos vorazes 2.6

Jogos vorazes 2.3

Mais uma vez, Jennifer Lawrence entrega um grande desempenho como Katniss, assim como Julianne Moore e Philip Seymour Hoffman. Woody Harrelson é o toque divertido, e continua assim, apesar de aparecer pouco. E Donald Sutherland, como o presidente Snow, é terrível: ele sabe como lançar um vilão. O filme, além disso, tem uma qualidade acima de média de design de produção: visualmente é muito atraente. Com uma dose de ação e apelo emocional em medidas iguais, a série justifica sua existência por esses dois filmes finais, especialmente esta quarta parte, sem sobrecarregar a parte expositiva (um problema do segundo, por exemplo, talvez uma réplica do primeiro). Nada parece forçado como costumam ser os blockbusters, há um tom sombrio e assustador em algumas passagens (que cercam um hospital, no segundo, ou a segunda parte toda deste, por exemplo). Em razão de uma quase ausência de Stanley Tucci, a série passa a ter muito menos um foco no divertimento do que na tensão. Se a primeira parte parecia fazer, em alguns momentos, uma homenagem a A hora mais escura, nesta segunda são claras novamente as referências: Batman – O cavaleiro das trevas ressurge, principalmente nos cenários urbanos, quando a equipe precisa atravessar uma cidade com centenas de armadilhas, na composição das naves e nos cenários invernais, e Aliens – O resgate, de James Cameron, com sua colocação de personagens em túneis. É especialmente bem feita a composição de cenários e a fotografia de Jo Willems para que os personagens se cruzem em cenas de ação muito bem filmadas e com alta vibração sonora e interativa.

Jogos vorazes 2.10

Jogos vorazes 2.12

Jogos vorazes 2.5

Por meio de uma direção eficiente de Francis Lawrence, os  núcleos dramáticos funcionam devido à presença de Lawrence e até a Josh Hutcherson. Embora os personagens não sejam tão desenvolvidos – e as presenças de Haymitch Abernathy (Woody Harrelson) e Effie Trinket (Elizabeth Banks) sejam menores, além daquela, infelizmente pelo pior motivo, de Seymour Hoffman –, Jogos vorazes se sustenta como poucas séries de ação, muito por causa do roteiro bem estruturado de Peter Craig e Danny Strong. Apesar de sua indefinição inicial, quando os personagens parecem se ajustar ainda ao que aconteceu na primeira parte, quase fazendo uma recapitulação dos acontecimentos, trata-se de um roteiro bastante efetivo no momento em que encadeia sua ação. Não há exageros dramáticos nem um torneio de vozes para que cada personagem chame atenção para si, e sim tudo é disposto de maneira a ser um desenrolar efetivo.
E há o que mais instiga na série: seus conflitos políticos. Os personagens são bons ou manipuladores? Há uma real vontade de liberdade ou apenas de escolher outro modo de dominação? A líder feita por Julianne Moore é boa ou está interessada apenas em se aproveitar da imagem de Katniss? Será que todas as histórias servem apenas para ser sintetizadas, imediatamente, pelo primeiro programa de notícias a ir para o ar? A última cena do primeiro filme deste capítulo final já parecia dizer muito: no reflexo pode estar o inesperado de cada indivíduo.

Jogos vorazes 2.16

Jogos vorazes 2.17

Jogos vorazes 2.7

Impressiona como esta segunda parte do capítulo final de Jogos vorazes ainda flerta com passagens temporais mais do que os outros da série e do que outros filmes ditos mais complexos e profundos. Se a sua primeira parte mostra uma obscuridade capaz de remeter à Revolução Industrial, com fumaça, tempo cinza e cenários apresentados como espaços de fábricas, sua segunda parte é acometida por uma urbanidade opressiva, enquanto o palácio de Snow lembra mais o século XVIII e um casamento apresenta uma trilha sonora que remete a O portal do paraíso, assim como a sua dança. Não à toa, a personagem de Katniss, a partir de determinado momento (e já transparecia no primeiro filme), parece habitar uma arena romana, para delírio do público, e avance mais tarde para espaços bucólicos capazes de dialogar com Barry Lindon, de Kubrick, na composição de imagens antigas, contra qualquer presença de um ambiente futurista e opressivo. Em determinado momento, é preciso dar luz ao que antes era nublado e escuro, mas Lawrence não vê isso de maneira idealizada: há sempre uma espécie de ameaça e melancolia nas imagens desses personagens buscando a sua mudança pessoal. Isso torna esse desfecho da série uma realização no mínimo original e de grande impacto.

The hunger games: Mockingjay – Part 2, EUA, 2015 Diretor: Francis Lawrence Elenco: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Liam Hemsworth, Woody Harrelson, Elizabeth Banks, Julianne Moore, Donald Sutherland, Philip Seymour Hoffman, Jeffrey Wright, Jena Malone, Sam Claflin, Stanley Tucci Roteiro: Danny Strong, Peter Craig Fotografia: Jo Willems Trilha Sonora: James Newton Howard Produção: Jon Kilik, Nina Jacobson Duração: 137 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Color Force / Lionsgate

Cotação 4 estrelas

Uma aventura LEGO (2014)

Por André Dick

Uma aventura LEGO 7

Nos últimos anos, Wes Anderson está acostumado a tomar como base o universo de Roald Dahl para suas histórias, principalmente no reino do stop-motion em que figura O fantástico Sr. Raposo, ao mesmo tempo em que a série Toy Story definiu a cultura dos brinquedos em movimento. Em meio a isso, mesmo o personagem de um jogo, Ralph, se revolta contra sua sina de figurar sempre como vilão, e tenta fugir ao lugar-comum. Brinquedos ou aquilo que os suscita nunca estiveram distantes das cifras e da imaginação infantil, e se vierem em 3D poderão garantir ainda mais entretenimento. Não demoraria, diante deste panorama, que se tivesse a ideia para uma própria marca de brinquedos tivesse o seu filme e, com o auxílio fundamental da Warner Bros, ela se materializou com Uma aventura LEGO, que no início deste ano superou nas bilheterias o favorito Caçadores de obras-primas, de George Clooney, e coloca o stop-motion como o seu principal trunfo, assim como em Sr. Raposo, de Anderson, constituindo-se num exemplo para futuras incursões na área. O intuito do filme, depois de sua primeira meia hora, é homenagear a cultura pop, sobretudo aquela que surge dos quadrinhos e do cinema. Mas, até certo ponto, é essa cultura que acaba criando força sobretudo junto às crianças, conseguindo fazer com que elas consigam estabelecer um diálogo entre a tecnologia em que já são inseridas desde cedo e as peças nostálgicas que lembram mais a imaginação colocada em verdadeira prova.
O início de Uma aventura LEGO parece uma homenagem a O senhor dos anéis e Star Wars, mas depois que o roteiro se fixa na figura de Emmett, o filme parece destinado mais a ser uma homenagem, em diversos tempos, à série Matrix. Emmet Brickowoski (Chris Pratt) é recebido como uma espécie de predestinado a salvar o universo ameaçado por Lord Business (com a voz de Will Ferrell), que pretende neutralizar a liberdade da criação com a descoberta de um certo Kragle.

Uma aventura LEGO

Uma aventura LEGO 9

Uma aventura LEGO 5

Depois de uma passagem por seu local de emprego – e brinquedos podem não parar de cantar por 5 horas, sobretudo se for a canção “Tudo é possível” –, ele acaba caindo numa rede de aventuras, quando Emmett conhece a Wildsyle (Elizabeth Banks), e um mago, Vitruivius (com toda a carga de sabedoria para um nome de origem latina, embora com conhecimento suficiente na área em que Emmett deve atuar), que lembra Gandalf e Obi Wan-Kenobi, com algumas mensagens que poderiam soar como as deYoda, não fosse a voz de Morgan Freeman. Atrás deles, vem o policial Good Cop/Bad Cop, ou seja, com duas faces (a boa e a ruim), uma espécie de Gollum com distintivo e com voz de Liam Neeson. Ao trio se junta Batman (Will Arnett), namorado de Wildstyle. Depois de Burton e Nolan, não surpreende que o Batman aqui só queira trabalhar com peças de montagem escuras ou cinzas e em determinado momento pode até mesmo conhecer Han Solo, Lando Calrissian e Chewbacca (num anúncio prévio para o novo filme da franquia de J.J. Abrams), reproduzindo, inclusive, uma imagem icônica de O império contra-ataca que envolve a Millenium Falcon.
Todo o filme é desenhado num fluxo de visitação a alguma fábrica da Lego ou de estúdios alternando cenários para que os personagens passem em movimento contínuo, e não estaria dizendo a verdade se não admitisse que os bonecos lembraram de quando a infância reservava sempre um tempo para a imaginação – principalmente na passagem de Uma aventura LEGO pelo velho oeste, influenciada pelo gênero do faroeste, tão em voga entre os anos 50 e 70, com um certo clima do Rango de Verbinski, mas sem esquecer por sua evolução em meio aos piratas da Middle Zealand, em que se evoca a franquia também da parceria Johnny Depp e Verbinski, Piratas do Caribe. Essas mudanças repentinas de lugar podem dialogar não apenas com o universo Lego, mas com A história do mundo (de Mel Brooks) e O sentido da vida (do grupo Monty Phyton), com a diferença de que aqui a história da humanidade se desenha com um fluxo de homenagens de vertente pop, com a colaboração das vozes dos atores para oferecer mais humanidade a todo o cenário, que em alguns momentos pode lembrar também os espaços de Tron, sobretudo na alternância entre mundos, ainda mais clara ao final. Tudo é acelerado, como se fosse parte de uma mente que, cansada de um lugar, se transporta imediatamente para outro, e o aspecto frenético pode ser uma influência clara de Edgar Wright, que fez Chumbo grosso e Scott Pilgrim contra o mundo, principalmente no modo que é feito a transição de uma cena para outra – quando, se a gag visual ou verbal não funciona, logo é coberta por outra, capaz de fazer esquecer a anterior, que não teria dado certo (também poderia se imaginar o personagem de Emett com a voz de Michael Cera).

Uma aventura LEGO 11

Uma aventura LEGO 10

Uma aventura LEGO 3

Com uma agilidade grande na composição de peças, o filme não interrompe sua sucessão de imagens e efeitos plásticos, com uma sobreposição constante de cores fortes, não se permitindo a intervalos, e há referências a muitos filmes, mas também porque surgem, em diferentes momentos, Lanterna Verde (Jonah Hill) e Superman (Channing Tattum) – numa homenagem aos heróis da DC Comics, da Warner Bros. Parte do imaginário infantil está retratado no filme, e o herói faz parte das unidades que seguem todas as regras, com uma desenvoltura incomum para a sua construção diária de prédios. No entanto, o que Uma aventura LEGO propõe é que a imaginação terá de ser mais forte para compensar a existência deste universo, e o personagem Emmet acaba sendo o ponto-chave para o êxito: os criadores do filme conseguiram torná-lo num brinquedo com sensações críveis ligadas tanto à sua insegurança quanto ao romantismo que reserva pela rebelde Wildstyle (nisso, a voz de Chris Pratt colabora para que isso aconteça). Neste sentido, ele dialoga diretamente com um dos clássicos infantis da década de 80, A história sem fim, em que o personagem, trancado num sótão de colégio, se permitia viajar com sua imaginação pela Terra de Fantasia, com as figuras mais interessantes. É certamente o poder da imaginação que faz com que Uma aventura LEGO não se torne um encaixe desvariado de peças, mas de fato um filme que questiona até que ponto essa mesma cultura pop permite uma criação de seu próprio mundo, individual. Embora ele não consiga atingir o grau de emoção que envolve os personagens de A história sem fim, não é por falta de tentativa, de forma mais destacada em seu final, quando o humor é atenuado em prol até de uma mensagem. Possivelmente, a sua crítica corrosiva ao imaginário pré-concebido seja dirigido aos próprios criadores do brinquedo Lego – mas sem a mesma contundência, pois se trata, claro, também de uma homenagem à empresa. No entanto, é por meio desse imaginário pré-concebido que pode surgir exatamente o possível caminho de Emett, que é construir suas peças distante do manual que antecipa o que deve ser feito. Uma aventura LEGO tenta fazer o mesmo com o espectador, e este pode estar disposto ou não a aceitar a diversão oferecida.

The Lego movie, EUA, 2014 Diretores: Christopher Miller, Phil Lord Elenco: Chris Pratt, Will Ferrell, Elizabeth Banks, Will Arnett, Nick Offerman, Alison Brie, Morgan Freeman, Charlie Day, Liam Neeson Roteiro: Christopher Miller, Dan Hageman, Kevin Hageman, Phil Lord Trilha Sonora: Mark Mothersbaugh Produção: Dan Lin, Roy Lee, Stephen Gilchrist Duração: 104 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Animal Logic / LEGO / Lin Pictures / Warner Bros. Pictures  

Cotação 3 estrelas