Perdido em Marte (2015)

Por André Dick

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A qualidade do trabalho de Ridley Scott parece ainda apenas associada aos seus primeiros filmes, como Alien e Blade Runner, como se depois disso não tivesse realizado outros grandes filmes. Apenas nos anos 2000, ele fez Gladiador, Falcão negro em perigo, Os vigaristas, Cruzada, Um bom ano e O gângster, obras que revelam uma variação muito grande de dicção, e há três anos apresentou Prometheus, colocado de forma surpreendente como uma de suas decepções. Quando um cineasta como Scott, certamente um dos maiores artesãos já surgidos em Hollywood e que continua, quase octogenário, produzindo filmes, faz uma superprodução como Êxodo: deuses e reis, parece apenas para passar o tempo e um mero blockbuster, mas junto consigo sempre traz uma concepção visual extraordinária. A partir daí, adaptar o livro de ficção científica The martian, para o cinema se transformou no seu grande projeto antes da continuação de Prometheus.
Escrito por Andy Weir, Perdido em Marte teve a adaptação de Drew Goddard, que fez em parceria com Joss Whedon o roteiro da sátira aos filmes de terror O segredo da cabana e do pouco recomendado Guerra Mundial Z. A narrativa começa com uma expedição precisando sair de Marte às pressas. Liderada por Melissa Lewis (Jessica Chastain), tem em seu grupo Rick Martinez (Michael Peña), Beth Johanssen (Kate Mara), Chris Beck (Sebastian Stan) e Axel Vogel (Aksel Hennie), além de Mark Watney (Matt Damon), que acaba sofrendo um contratempo e fica isolado no planeta vermelho.

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Que Marte é um planeta dos mais propícios a mistérios e pesquisas, isso está provado em vários filmes, e mesmo já foi colonizado em O vingador do futuro, antes de se descobrir recentemente a presença de água em sua superfície. Scott tem uma ideia muito clara da imensidão do universo, como já provou em Alien e Prometheus. Ele joga esses mistérios na narração de Watney, quase sempre falando para a câmera em que deseja deixar gravada a sua experiência. Como sobreviver em Marte? De que modo fazer a comida durar o tempo suficiente para que possa ser resgatado pela Nasa? Entre os integrantes da Nasa, temos o diretor Teddy Sanders (Jeff Daniels), Annie Montrose (Kristen Wiig), Mitch Henderson (Sean Bean) e o responsável pela expedição, Vincent Kapoor (Chiwetel Ejiofor), além de seu auxiliar Bruce Ng (Benedict Wong), enquanto Mindy Park (Mackenzie Davis) é quem acompanha os movimentos de Watney.
Perdido em Marte possui um cuidado muito grande em retratar o planeta vermelho, principalmente em sua superfície arenosa e entrega a Watney alguns momentos de quem precisa descobrir o fogo (neste caso, o oxigênio) para poder sobreviver mais do que os mantimentos indicam. Ele também precisa fazer o reconhecimento da área e lembrar de possíveis referências no planeta que possam fazer com que estabeleça um contato com a Terra. A diferença do personagem de Watney para outros recentes, especificamente da doutora interpretada por Sandra Bullock em Gravidade e do fazendeiro astronauta feito por Matthew McConaughey em Interestelar, é especificamente o seu descompromisso com alguma angústia que possa evocar o espaço sideral e o isolamento em Marte.

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É visível que Scott quis fazer um filme diferente dessas duas referências recentes e, mesmo que Perdido em Marte tenha um lado espetacular visual próximo desses dois (principalmente nos momentos em que se concentra no espaço), não chega próximo da densidade dos projetos de Cuarón e Nolan. Isso, por um lado, torna o filme mais bem-humorado, inclusive por sua trilha sonora, e mais centrado em discussões da Nasa, principalmente de Sanders, Montrose e Kapoor. Ejiofor, principalmente, está ótimo como o coordenador do projeto de viagens a Marte e consegue dar o toque mais humano do filme de Scott, mesmo que Watney seja o homem em missão e a ser resgatado. Embora seus diálogos com Sanders e Montrose não rendam como seria de se esperar, deixando Wiig lamentavelmente subaproveitada, Kapoor é o elo de ligação entre Watney e a Nasa. Quando em determinado momento surge o personagem de Rich Purnell, interpretado por Donald Glover, há também mais agilidade em cena.
Em alguns momentos, Perdido em Marte também se ressente claramente de um núcleo mais emocional, que Scott trabalhou tão bem em filmes como Gladiador, Um bom ano e Thelma & Louise. O personagem de Watney se apresenta sempre por meio da descrição do que está ocorrendo com ele, no entanto não se tem uma noção mais exata de seu passado e de sua relação com o restante da equipe. Como o filme inicia rapidamente, com uma tempestade que remete claramente a Prometheus, e Scott se aprimora ao lançar os personagens num cenário ameaçador, não há tempo o suficiente para que conheçamos os personagens. E, depois disso, o roteiro de Goddard e a montagem de Pietro Scalia – habitual colaborador de Scott e responsável pelo filme mais bem montado que já vi, particularmente, JFK – deixam a equipe desparecer do filme por um tempo longo demais, a fim de que haja uma conexão emocional mais sustentada com Watney, o companheiro deixado em Marte por se achar que estava morto, além de não estabelecer rapidamente uma conexão com a Nasa.

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É como se a equipe do projeto fosse alijada do roteiro – não apenas ela, como também coadjuvantes como Chastain, Peña e Mara, que poderiam contribuir muito –, e isso sinaliza, em parte, para certo afastamento das emoções guardadas por Watney: como não se tem ligação dele com pessoas que o cercavam e mesmo com pessoas da Terra, é como se ele não estivesse mais do que já costumeiramente está: só (o que tornava Náufrago, com Tom Hanks, tão surpreendente, na sua indefinição de que se iria ou não reencontrar o seu amor). Nesse sentido, parece se perder em parte a essência de um filme como este: de que ele está num ambiente desconhecido e solitário. Ao reagir com bom humor à situação, dá espaço a alguns momentos realmente engraçados, no entanto extrai do personagem a sua preocupação principal, que, de fato, é sobreviver. Matt Damon é um ótimo ator, e ainda assim não temos uma interpretação propriamente dita em sua essência: o roteiro simplesmente não o ajuda, e sua curiosidade pelas coisas se revela apenas autoafirmação. Neste sentido, Perdido em Marte elabora sua trama mais em cima do que Watney pode fazer a partir de seus conhecimentos científicos para lidar com as adversidades – e o que ele faz não é pouco, e pode também dialogar com outras peças conhecidas de homem sobrevivendo em ambiente inóspito. Quando, por um vislumbre de Scott e de atuação de Damon, a emoção surge, no seu ideal de sobrevivência, é muito claro que Perdido em Marte sobe de patamar (como, por exemplo, (spoiler), a troca de mensagens pública entre Watney e a Nasa).
Há alguns filmes de Scott em que a conexão dos personagens não é bem solucionada – o próprio Êxodo –, e com Perdido em Marte não é diferente, principalmente pela quantidade que apresenta deles (em torno de vinte), porém a grandiosidade costuma ser uma de suas saídas. Em Cruzada, havia algumas irregularidades no tratamento histórico, por exemplo, mas os cenários fantásticos e a atmosfera faziam a estrutura do filme se movimentar por todos os lados, especialmente em sua versão estendida. O mesmo vale para Prometheus, com uma meia hora final não menos do que fantástica para os admiradores de boa ficção científica, e no caso de outros filmes de Scott menos estimados, a exemplo de A lenda (dos anos 80) e 1492 (com uma fotografia esplendorosa e trilha sonora de Vangelis). Em Perdido em Marte, por sua vez, Scott pretende dar mais espaço a como o ser humano pode ver a ciência e se utilizar dela como própria fonte de vida, com seus conhecimentos de gerações longínquas. Por isso, em sua meia hora final, Scott parece conduzir seu filme ao que há de melhor nele: uma espécie de sublimação da tentativa de enfrentar as estrelas como quem está disposto a sobreviver e retomar seu contato com o que ainda está prestes a brotar do solo como se fosse a primeira vez.

The martian, EUA, 2015 Diretor: Ridley Scott Elenco: Matt Damon, Jessica Chastain, Chiwetel Ejiofor, Jeff Daniels, Kate Mara, Sean Bean, Michael Peña, Mackenzie Davis, Kristen Wiig, Donald Glover, Sebastian Stan, Sam Spruell Roteiro: Drew Goddard Fotografia: Dariusz Wolski Trilha Sonora: Harry Gregson-Williams Produção: Mark Huffam, Michael Schaefer, Ridley Scott, Simon Kinberg Duração: 141 min. Distribuidora: Fox Film do Brasil Estúdio: Genre Films / International Traders / Mid Atlantic Films / Scott Free Productions / Twentieth Century Fox Film Corporation

Cotação 3 estrelas

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8 Comentários

  1. André,

    Com todo respeito a sua crítica, que pareceu-me bem embasada, tenho que discordar de você. Com a finalidade de não alongar-me vou pontuar, pois não pretendo produzir uma crítica do filme, apesar de vez ou outra escrever sobre filmes.

    1) Gravidade e Interestelar ser mais denso? Não concordo. A solidão (temos isso em gravidade) já é por si só de uma densidade dramática gigantesca e que compadece a todos (a cena nas ruas indica tanto a midiatização do problema, bem como a torcida pelo astronauta perdido). Sem contar que Perdido em Marte não subestima o espectador com explicações desnecessárias, diferentemente de Nolan em seu Interestelar (que é um bom filme).

    2) O filme é mais do que sobre um resgate. O filme sobre a ciência. O filme é sobre humanidade. O filme é sobre esperança nos humanos. A escolha por retornar para salvar o astronauta é o altruísmo que desejamos que todos tenham pelo próximo. Ver Mark usar a ciência é a reafirmação que a ciência é o caminho. Daí que, reagir com bom humor significa acreditar. Muito diferente do astronauta fazendeiro tristonho de Nolan que, de maneira maniqueísta, inventou até um anti-herói no filme.

    3) Sim. É um filme belo visualmente. E a referência a 2001 no plano que fecha é evidente.

    Responder
    • André Dick

       /  8 de outubro de 2015

      Prezado,

      Gravidade e Interestelar possuem um elemento de densidade que Perdido em Marte, pela própria concepção e proposta, não possui. Os dois são muito mais imersivos e conceituais porque há neles um sentido de solidão que inexiste no filme de Scott. O espectador não sente que de fato Mark Watney tem sua sobrevivência ameaçada, o que dilui a tensão. Como ficar compadecido com alguém que está sempre de bom humor?

      Sobre não subestimar o espectador com explicações desnecessárias, difícil concordar: o roteiro traz muitas explicações didáticas e reiterativas. Mark fala o tempo todo para a câmera o que já vemos ele fazer; não há quase nada que o espectador precisa elaborar. E não comento que o filme trata apenas de um resgate, tampouco que ele não trata da ciência ou ignora a humanidade. Avalio que falta emoção, falta ligação entre os personagens. Por exemplo, se existe algum altruísmo (e ele existe no filme), é mais frio do que a noite em Marte (pobres Chastain e Peña com o roteiro que receberam).

      Um ser humano reagir com angústia não significa que ele não acredite em algo. Mas indicaria que de fato possui sentimentos com as quais a ciência e a técnica não sabem lidar com certeza. Em nenhum movimento duvidei de Mark. Este homem faria de uma cama elástica sua plataforma para ir direto para a Discovery. Será que em nenhum momento ele quis saber se haveria vida neste planeta? Será que a única coisa que o incomodou foi a trilha setentista? A Nasa não se interessaria que ele conseguisse trazer à Terra novas amostras de pesquisa? Ou a ciência compreendeu Marte a partir de onde Mark ficou? A impressão é que Marte é um país da Terra.

      Bem, o fazendeiro feito por McConaughey em Interestelar não seria exatamente tristonho: ele apenas não acha que tudo pode ser visto com alegria e bom humor, mesmo porque a Terra está ameaçada caso falhe em sua missão. E também porque ele sente a angústia do espaço e do afastamento de seus filhos. Ele tem elos de ligação reais na Terra e, apesar de acreditar na ciência, também não duvida do imponderável. É um personagem com nuances; Mark me parece unidimensional. E, se a ciência é o caminho, Perdido em Marte, como filme, infelizmente, está longe de ser.

      Responder
  2. André,

    Vou comentar sobre baseado exclusivamente em teus comentários.

    1) “Os dois são muito mais imersivos e conceituais porque há neles um sentido de solidão”.

    Meu caro, a solidão não é o tema mote de Perdido em Marte, como já lhe falei, Perdido em Marte é sobre a ciência e suas reais possibilidades de não apenas levar o homem a Marte, mas de trazê-lo em segurança. É sobre um homem que é preparado para criar condições de sobreviver as adversidades (não por acaso o clichê do botânico-biólogo).

    Daí que, o personagem mantém o bom humor, pois a questão não é se ele será salvo (já sabemos disso desde do início), a questão é como ele será salvo? Como a tecnologia científica pode nos ajudar a resgatar alguém em uma missão?

    Dito isso, fica lógico que o bom humor, que você trata como superficialidade, trata-se de acreditar nas reais possibilidades da ciência em modificar nossa história.

    Em outras palavras, Perdido em Marte é uma ode a ciência.

    2) “Sobre não subestimar o espectador com explicações desnecessárias, difícil concordar: o roteiro traz muitas explicações didáticas e reiterativas. Mark fala o tempo todo para a câmera o que já vemos ele fazer; não há quase nada que o espectador precisa elaborar”.

    Meu caro, ele estava colonizando Marte. Estava plantando em Marte. Não sei se você produz pesquisa científica, eu já tive várias oportunidades como biólogo, e sei que, como homem da ciência, o registro produzido pelo astronauta é histórico (primeiro homem a plantar batatas em Marte) e ao mesmo tempo ele é metodológico, para que outros possam se utilizar das mesmas técnicas.

    No cinema isto funcionou sabiamente para explicar conceitos e técnicas sem pedantismo, como vemos em Interestelar (vide explicação do buraco minhoca para o astronauta de McConaughey, aquilo foi um absurdo e extremamente pedante da parte de Nolan, que é um excelente diretor, apesar dos problemas para compor misancene em seus filmes).

    3) “Mark me parece unidimensional. E, se a ciência é o caminho, Perdido em Marte, como filme, infelizmente, está longe de ser.”

    Dizer Watney é unidimensional é difícil. Pelo contrário, ele é indivíduo otimista, perseverante e com humor que atravessa a tela do cinema ao ponto de alegrar o espectador. Daí que somos tocados quando Watney muda o tom de sua voz ou se mostra, a partir de uma câmera objetiva, solitário em uma colina contemplando o nada (as imagens aqui dizem mais do que palavras aqui). São nestes momentos que percebemos o desespero crescente da situação, até por que conhecemos o comportamento de Watney.

    Para finalizar, digo que em mundo cada vez mais obscuro e que tende a ver a ciência como o mal que assola a sociedade, Perdido em Marte mostra que ainda há luz no conhecimento científico e o cinema precisa e deve mostrar isso para as pessoas.

    Carlos Lira

    Responder
    • André Dick

       /  9 de outubro de 2015

      O fato de a história não colocar em dúvida se o personagem irá ou não voltar é o que exclui a tensão a maior parte do tempo. Este paradoxo está revelado em seu primeiro comentário, em que se diz que o espectador se compadece dele e há uma solidão gigantesca, e neste em que, afinal, ele está de bom humor pois, ao que parece, ele sabe que será salvo, mas quer mostrar ao espectador como se fará isso. Onde estaria o compadecimento e a solidão gigantesca? Não há, e você, querendo ignorar o paradoxo, contorna a própria análise que fez. Ou seja, agradeçamos ao personagem por mostrar que meses em Marte podem ser incômodos apenas por causa de uma trilha setentista. Além disso, o filme querer revelar como se vai a Marte e se volta de Marte em segurança não pode ser sério, e nisso se localiza também a ficção da narrativa, assim como a explicação com o grampeador contornando a cabeça de Jeff Daniels. Se a Nasa planeja viagens ou resgates no espaço dessa maneira, serão séculos depois da descoberta da água para algum humano pousar no planeta vermelho. Nisso, não importa que o filme seja uma ode à ciência; importa que ele seja falho como proposta, principalmente de relação entre personagens e montagem, e na sua reiteração explicativa.

      Neste ponto, concordo com você, independente de o que acontece no filme poder existir ou não na realidade, de que ele “é metodológico, para que outros possam se utilizar das mesmas técnicas”; é aí, também, que se pode falar desse filme como algo apela ao didatismo e menospreza o espectador.

      Bem, não é preciso produzir pesquisas científicas nem ser biólogo para entender que Perdido em Marte, por querer ser, vamos lá, uma ode à ciência, não indica que conseguiria ser de fato correspondente a uma suprema lógica. Não ignoro o que o filme mostra ele fazendo em Marte; comento claramente o que lhe falta em curiosidade científica sobre Marte. Não entendo de física e nem por isso deixei de ficar intrigado o tempo todo em Interestelar, porque lá os personagens sabiam estar diante do imponderável.

      Ao se ler seus comentários, é de que Perdido em Marte possui uma precisão científica que outros filmes, especificamente Interestelar, não teriam. Neste ponto, eu certamente prefiro o pedantismo do fazendeiro tristonho de Nolan e o fato de ele explicar sobre os buracos de minhoca do espaço sideral à sua tentativa de justificar as falhas de Perdido em Marte como ode à ciência. E não se trata de ver esta como mal que assola a sociedade, o que só existiria num olhar afastado da realidade. Não falo disso, e sim de que os enigmas da humanidade e a angústia dela diante de uma situação-limite não podem ser todos solucionados pela ciência e pelo simples bom humor.

      Eu não tenho dúvidas de que Mark é otimista e perseverante, mas que ele tenha humor que atravessa a tela, bem… não. Esses momentos a que se refere de contemplação são bem curtos diante do restante, apenas para tentar criar uma emoção ao final (em parte, consegue) e sabemos que não pode haver desespero crescente da situação se ele não demonstra isso na prática. Você mesmo observa que o filme é sobre como ir e voltar de Marte em segurança e mostra técnicas para isso (perguntemos, então, por que a Nasa ainda não o fez). E, sim, se conhecemos um lado de Mark Watney (o bom humor) e não suas histórias, relações, dramas pessoais, angústia, sim, ele me parece (não estou dizendo que de fato é) unidimensional.

      Finalmente, não é preciso de Perdido de Marte para saber que há luz no conhecimento científico. Vários filmes mostram isso às pessoas. Perdido em Marte tenta trabalhar com elementos interessantes de ficção científica, mas falha na condução. Não deixo de considerá-lo um filme interessante, mas ele tinha o potencial de ser grande. Não é, principalmente em relação a Interestelar.

      Responder
  3. André,

    Meu primeiro comentário dizia que o filme mostra um compadecimento das pessoas (filme). Não referia-me aos espectadores, como foi colocado por mim no segundo comentário. Dito isso, creio que o paradoxo, colocado por você, se esvai.

    1) “Gravidade e Interestelar ser mais denso? Não concordo. A solidão (temos isso em gravidade) já é por si só de uma densidade dramática gigantesca e que compadece a todos (a cena nas ruas indica tanto a midiatização do problema, bem como a torcida pelo astronauta perdido)”.

    Sobre sua colocação,

    2) “Não falo disso, e sim de que os enigmas da humanidade e a angústia dela diante de uma situação-limite não podem ser todos solucionados pela ciência e pelo simples bom humor”.

    Apesar de eu não ter a ciência na mais alta estima (mesmo hoje fazendo pesquisa na epistemologia), devo dizer que ela é para muitas pessoas a solução ou pelo menos a busca por soluções para todas as situações, seja limite ou não.

    Sobre seu último comentário,

    3) “Finalmente, não é preciso de Perdido de Marte para saber que há luz no conhecimento científico. Vários filmes mostram isso às pessoas. Perdido em Marte tenta trabalhar com elementos interessantes de ficção científica, mas falha na condução. Não deixo de considerá-lo um filme interessante, mas ele tinha o potencial de ser grande. Não é, principalmente em relação a Interestelar”.

    Na verdade poucos filmes mostram a ciência de forma tão otimista como Perdido em Marte. Invariavelmente as películas hoje apresentam a ciência como causa de sociedade totalitárias, ambientes destruídos por experimentos biológicos ou fim da terra.

    André, também gostei de Interestelar, muito por sinal.

    Abraços e até a próxima.

    PS.: Valeu pelo feedback.

    Responder
    • André Dick

       /  9 de outubro de 2015

      Carlos,

      Quando fala que as pessoas se compadecem com o personagem de Mark, entende-se que também o espectador. Se apenas as pessoas dentro do filme se compadecem com a situação dele, há algo errado, ou seja, o filme, ao que parece, não está se comunicando o suficiente com a plateia. Uma cena nas ruas mostrando a torcida pelo astronauta não me parece conferir a emoção que ele necessitava. E isso é lamentável, pois Scott é o diretor que entregou filmes como Blade Runner e Gladiador.

      Quanto à ciência, você observa em seu primeiro comentário que ela é o caminho e você avalia que Perdido em Marte seria uma ode a ela. Eu não duvido da importância da ciência para todos e para o progresso da humanidade, mas ela não é tudo (em alguns casos, muito infelizmente, pois diminuiria o sofrimento e a angústia humanas). Além disso, o filme não poderia apenas se concentrar em tornar sua importância clara; ele, a meu ver, deveria ter tornado a sua importância em algo mais emocionante.

      Eu acho que há outras obras que mostram o lado otimista da ciência. Recentemente, o menosprezado Tomorrowland é um exemplo, independente de se gostar ou não; Interestelar é outro. Vejamos Cloud Atlas, que acredita na ciência como algo que se passa em forma de histórias às gerações seguintes. Gosto muito da ciência fantasiosa de Tron – O legado. Ainda, para lembrar filmes dos anos 80, a mal falada continuação de 2001, 2010, é outro exemplo de otimismo da ciência; Viagem ao mundo dos sonhos, de Joe Dante; Os eleitos, um clássico, ainda mais otimista do que todos esses, além de toda a trilogia de De volta para o futuro também. O segredo do abismo, a série Jornada nas estrelas. Isso tomando como exemplo a ciência apenas em filmes com toques de ficção científica e de uma época demarcada. Talvez não haja outra área tão enaltecida pelo cinema quanto a área da ciência. Ela está no imaginário de toda a humanidade, em parte também pela contribuição do cinema.

      E, claro, que ela pode também produzir visões de que pode ser uma ameaça à humanidade, mas quase nunca é sobre o perigo da ciência e sim de determinados homens que se aproveitam dela: no recente Ex-Machina, por exemplo, o perigo pode não estar na máquina criada exatamente. E realmente espero que as pessoas gostem mais de Perdido em Marte do que eu gostei. E, sim, apesar de decepcionado com o resultado, espero que façam mais filmes com este tema.

      Um abraço,
      André

      Responder
  4. André, conheci seu site há pouco e desde então virei fã e leitor assíduo das críticas, recentemente comentei o filme “Her”…

    Eu gostei bastante do filme “Perdido em Marte” eu daria 4 estrelas, o filme aborda muito a questão da ciência e o necessário conhecimento dela (assim como o personagem de Damon ser amplo conhecedor de Botânica/Biologia) como meio de sobrevivência num lugar “inóspito”, as consequências políticas/econômicas da corrida espacial, as repercussões dela nos EUA e no mundo e me parece que o diretor quer nos passar uma idéia (oportuna, porém improvável) de que a união entre as nações (China + EUA por exemplo) poderia ser um marco de paz e de cooperação, um mundo melhor pra ser vivido…isso que eu entendi nas entrelinhas nesse plano secundário do filme, apesar de achar forçado para os dias de hoje imaginar uma cooperação da China aos EUA, sem algum tipo de interesse (no filme os chineses simplesmente se sentem “comovidos” com a falha da Nasa na tentativa de enviar os suprimentos para Marte e decidem ajudar, ah tá!!!)

    Voltando ao personagem principal, concordo em grande parte com sua crítica de que Watney foi pouco desenvolvido em suas emoções em termos de família, algum possível relacionamento amoroso ou mesmo em relação aos “amigos” companheiros de expedição…me pareceu que o foco era nos passar a imagem de que Watney era um sujeito mais solitário talvez, auto suficiente, otimista ao extremo, persistente e perseverante, muito inteligente (de certa forma isso condiz com o perfil esperado de um astronauta da Nasa, imagina-se que um astronauta deve possuir muito dessas características), como li em outra crítica, ele se torna no filme um herói da ciência, transformando uma situação absurdamente tensa e problemática, onde qualquer ser humano normal se consideraria condenado e muito provavelmente entregaria os pontos e estaria fadado a morte, numa corrida contra o tempo e contra as grandes probabilidades de fracasso, óbvio que o filme tem seus problemas de roteiro e edição (como por exemplo, de fato, os companheiros astronautas ficarem muito tempo sem aparecer no filme), mas de modo geral é um filme que não foi cansativo de ver, belo visualmente, bom ritmo e pra mim os 141 minutos passaram muito rapidamente, me fazendo sair satisfeito com o resultado final do filme. Gostei bastante da atuação de Jeff Daniels e de Chiwetel Ejiofor, e Matt Damon deu conta do recado, é um excelente ator…

    Em suma, pra mim o filme passa a mensagem de que quando estamos na “merda”, devemos ser otimistas, teremos percalços que podem ser fatais, mas não devemos desistir de lutar e ao lutar, perseverar e tentar, mesmo que por tentativa e erro, ah! e o conhecimento também ajuda e muito nessa tarefa….

    Parabéns pela crítica, você escreve com excelência!!!

    Grande Abraço!!!

    Responder
    • André Dick

       /  20 de outubro de 2015

      Prezado Gilson,

      Agradeço por seu comentário sobre o filme e pelas palavras generosas sobre as críticas!

      Realmente, eu gostaria de ter gostado mais de Perdido em Marte, sobretudo por admirar a filmografia de Ridley Scott e sempre aguardar um grande trabalho dele. De modo geral, acredito que você tenha gostado mais do filme justamente por ter apreciado sua opção em mostrar o personagem principal de um modo, digamos, menos angustiado. O que pesou foi realmente o modo como essa característica acabou diminuindo, a meu ver, o peso dramático, com exceção de algumas sequências (a minicirurgia que ele faz, por exemplo), justamente por seu afastamento de familiares (apenas com uma breve menção) ou de relacionamentos a distância. Eu não consegui admirar essa ideia não por não entender que um astronauta pode ser solitário e autossuficiente, e sim porque ele não poderia ser apenas aquilo durante tanto tempo em Marte e com risco real de sobreviver. Pelo menos a meu ver, isso prejudica o impacto dessa corrida contra o tempo e contra possibilidades de falhas, pois tive sempre a impressão que o roteiro apenas encadeava fatos que já sabemos desde o início. Um problema bastante claro, e vejo que notou o mesmo, é o afastamento dos personagens da nave. Vejamos (spoiler) quando é dada a notícia que Mark está vivo. Não há real emoção, pelo menos para mim, de nenhum passageiro. E isso é frustrante para mostrar que eles tinham uma relação com Mark além do fato de que fazem parte da Nasa. Parecem apenas aceitar o que já esperavam, e os ótimos Chastain e Peña são desperdiçados.

      Sobre a questão de o filme abordar a ciência, eu gostaria que ele tivesse apontado também os riscos que a ciência não preenche. Achei interessante e creio que poderia ser mais elaborada essa questão da corrida espacial e da união entre nações, lembrando que na época da Guerra Fria, em 2010, os americanos se juntavam com os russos para resgatar a Discovery, com a diferença de que o filme de Hyams foi destruído pela crítica também por causa disso. Também considero, como você, que essa perspectiva soa forçada e muito condescendente para ambas as partes, e acho que isso é prejudicado pela escolha de Scott em atenuar a parte dramática.

      Não considero que Scott tenha querido fazer uma comédia com toques de ficção científica, como alguns apontam a fim de diminuir a possível pretensão filosófica de Interestelar, mas creio que ele quis tornar seu filme bastante leve e terminou por ser fiel demais ao material de origem. Um filme sobre astronautas com bons toques de humor (sem ser comédia), por exemplo, é Os eleitos, que Scott deveria ter pego como referência. Para mim, a duração pesou em alguns momentos (teria tirado certo material expositivo, embora não seja algo que incomode, caso haja mais ação, a exemplo de Interestelar), mas Scott fez uma versão de diretor de Cruzada com 50 minutos a mais (muito melhor que o filme original), e não duvido que uma versão estendida de Perdido em Marte preencha algumas lacunas. Do elenco, a grande atuação foi particularmente de Chiwetel Ejiofor, com quem Scott já havia trabalhado no ótimo O gângster. Acho Damon excelente, sobretudo em Gênio indomável, O desinformante e Bravura indômita, mas aqui eu esperava que tivessem lhe entregado mais roteiro, ao menos com mais variações.

      Agradeço novamente pela visita e volte sempre!

      Grande abraço,
      André

      Responder

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