Ford vs Ferrari (2019)

Por André Dick

De forma inesperada, há poucos filmes de corrida no cinema, pelo menos marcantes. Nos anos 1960, tivemos o maior clássico do gênero, Grand Prix, vencedor de três Oscars, uma notável obra sobre uma temporada de F-1. Ainda nesta década, três peças com humor também usavam elementos de corrida: A corrida do século, obra-prima de Blake Edwards, Deu a louca no mundo e Se meu fusca falasse. Nos anos 90, a peça exemplar do gênero, embora não tão interessante, foi Dias de trovão, na primeira parceria de Tom Cruise e Nicole Kidman, além da presença de Robert Duvall. Em 2013, Ron Howard lançou seu Rush, que tratava da amizade dos pilotos Niki Lauda e Ethan Hunt. E não se pode esquecer da animada série Carros, principalmente do seu terceiro e subestimado episódio, o que melhor se enquadra nesse universo automobilístico, e de Speed Racer, das irmãs Wachowski, capturando um universo fantástico.

Em 1963, a Ford, sob o comando de a a Henry Ford II (Tracy Letts), incomodado com o fato de não ter conseguido comprar a Ferrari do experiente Enzo (Remo Girone), depois de ser aconselhado por Lea Iacocca (Jon Bernthal), deseja um carro capaz de disputar corridas com a companhia e por isso ele contrata Carroll Shelby (Matt Damon), um ex-piloto. Este, por sua vez, chama Ken Miles (Christian Bale), casado com Mollie (Caitriona Balfe)  e pai de Peter (Noah Jupe), um piloto e mecânico inglês para aperfeiçoar o modelo de carro para a Ford. Ambos testam o Ford GT40 Mk no Aeroporto Internacional de Los Angeles, rendendo algumas das sequências mais emocionantes. No entanto, evitando a figura de Miles, a Ford convoca outros pilotos para competirem no Le Mans de 1964. Em 1966, Leo Beebe (Josh Lucas) se torna o responsável pelo departamento de corrida e pretende seguir o programa novamente sem Miles. Porém, Shelby leva Heny II para um teste no carro que está sendo preparado.
Este é o mote principal para um filme em que Mangold explora suas habilidades dramáticas já evidenciadas no excelente Johnny & June e de cenas de ação, como na segunda parte de Wolverine e Encontro explosivo, peça subestimada com Tom Cruise e Cameron Diaz, assim como no seu faroeste realmente declarado, Os indomáveis. Mangold tem características no seu estimado Logan que ele busca em Mad Max, com sua crueza na abordagem nas cenas de carro, que ele reapresenta aqui, com mais talento ainda. Ford vs Ferrari, como Rush e Grand Prix, apresenta sequências de corrida absolutamente fantásticas, com uma transição impecável e edição de Michael McCusker e Andrew Buckland no seu estado máximo de competência.

De qualquer modo, o padrão técnico não sera o mesmo não fosse uma conjunção da fotografia luminosa de Phedon Papamichael, colaborador habitual tanto de Mangold quanto de Alexander Payne – fazendo o filme todo parecer rodado durante uma manhã, exceção feita a algumas cenas – e da parceria entre os personagens de Bale e Damon. Se o segundo usa seu estilo habitual, Bale novamente consegue extrair emoção de um personagem a princípio previsível. Com uma boa interação com os personagens da mulher (Caitriona Balfe faz a voz de Tavra na ótima série O cristal encantado) e do filho (Jupe já mostrou talento em Suburbicon e Um lugar silencioso), ele explora um espaço capaz de tornar Ford vs Ferrari não numa obra sobre a indústria e sobre a competição e sim sobre o otimismo de superar o limite, sem que isso determina o caráter do indivíduo ou seus ganhos pessoais e sim a imaginação que pode determinar vitórias no futuro.
Mangold mostra mais uma vez seu talento incontestável para extrair ótimas atuações de seu elenco: Sylvester Stallone e Robert De Niro se destacaram especialmente em Cop Land – A cidade dos tiras; Angelina Jolie recebeu o Oscar de atriz coadjuvante por Garota, interrompida; Joaquin Phoenix e Resee Whiterspoon brilharam em Johnny & June (Reese recebeu o Oscar de melhor atriz por ele); Tom Cruise e Cameron Diaz estabeleceram ótima parceria em Encontro explosivo; e Hugh Jackman talvez tenha tido sua melhor atuação em Logan.

Bale é mais rápido do que todo o elenco e consegue extrair mais do que o bom roteiro de Jez Butterworth, John-Henry Butterworth e Jason Keller oferece, por sua agilidade em acrescentar camadas ao seu personagem onde elas, se o espectador prestar atenção, não existem. Ainda, recuperando a atmosfera do final dos anos 60, Mangold parece fazer uma espécie de Era uma vez em… Hollywood no universo das corridas de automóveis. Alguns momentos lembram o filme de Tarantino, talvez por se basearem em obras parecidas daquela época e são bastante nostálgicas, imprimindo certa ingenuidade no comportamento de alguns personagens. A diferença talvez seja que Ford vs Ferrari, muito por causa do vilão feito por Lucas (que reprisa seu papel em Hulk) se aproxima mais do conceito de blockbuster, usando alguns lugares-comuns para comover o espectador, o que não o afasta, de nenhum modo, do seu objetivo. Sua melhor qualidade é também o lugar-comum: os 152 minutos de filme passam voando.

Ford v Ferrari, EUA, 2019 Diretor: James Mangold Elenco: Matt Damon, Christian Bale, Caitriona Balfe, Noah Jupe, Josh Lucas, Tracy Letts, Remo Girone, Jon Bernthal Roteiro: Jez Butterworth, John-Henry Butterworth, Jason Keller Fotografia: Phedon Papamichael Trilha Sonora: Marco Beltrami e Buck Sanders Produção: Peter Chernin, Jenno Topping, James Mangold Duração: 152 min. Estúdio: Chernin Entertainment, TSG Entertainment, Turnpike Films Distribuidora: 20th Century Fox

Em ritmo de fuga (2017)

Por André Dick

Depois de dois sucessos de crítica, Todo mundo quase morto e Chumbo grosso, com um bom humor corrosivo e tramas ágeis, o inglês Edgar Wright passou a ser uma referência do cinema contemporâneo, uma figura de apelo pop. Ele veio a confirmar seu talento em Scott Pilgrim contra o mundo, uma adaptação das HQs com Michael Cera em grande momento e uma profusão visual inovadora para o cinema, sem definir gênero, mas misturando vários (fantasia, drama, comédia, romance). Depois de colaborar no roteiro de As aventuras de Tintim e de uma volta às suas origens em Heróis de ressaca, talvez sua obra com humor mais inglês, Wright quase dirigiu a adaptação Homem-Formiga (do qual foi um dos roteiristas), assim como Star Trek – Sem fronteiras, sendo talvez impedido pelo seu excesso, digamos assim, de estilo próprio.

É esse estilo que ele confirma no seu filme mais recente, Em ritmo de fuga. A história se passa em Atlanta, Geórgia, onde Baby (Ansel Elgort) é o motorista chamado para assaltos de alto risco. Ele trabalha para Doc (Kevin Spacey), que parece ter uma espécie de trato com ele a respeito de número de vezes determinado para prestar o serviço, e cuida do seu pai adotivo, Joseph (CJ Jones), que é surdo-mudo. Certo dia, esperando por café conhece uma garçonete, Debora (Lily James), por quem se apaixona.
Trabalhar para Doc, no entanto, parece ser como trabalhar para a máfia: Baby é chamado de volta para ajudar novamente num assalto, do qual vão participar Buddy/Jason (John Hamm), Darling/Monica (Eiza González) e Bats/Leon (Jamie Foxx), enquanto Griff (Jon Bernthal) é outro componente da primeira ação mostrada. O problema é que Baby quer constituir uma nova vida com Debora, ficando numa situação delicada. “Seu nome é Baby? Você está em todas as músicas”, diz ela.

A figura de Baby é uma das mais originais de um filme do gênero, muito por causa da excelente atuação de Elgort, que já havia mostrado talento em A culpa é das estrelas e Homens, mulheres e filhos, prejudicado, no entanto, pela série Divergente. Elgort oferece um timing excepcional a seu personagem. Como sempre está escutando música, para ajudar a aliviar um zumbido crônico, ele alterna momentos de leveza, em seu convívio com o padrasto, de tensão, nas reuniões para fazer os assaltos, e de bom humor, quando passa a se interessar por Debora ou quando tenta mixar alguns sons gravados, numa espécie de desejo de ser DJ. Ele também usa óculos para esconder as cicatrizes do acidente que sofreu quando criança e lhe proporcionou o incômodo problema. No entanto, Elgort sempre fica um pouco distante, como é de praxe em suas atuações, para tornar seu personagem mais denso. O espectador consegue ver sua transformação de cena para cena, e poucos atores conseguem isso: Elgort é um. Desde o início, ao som de “Bellbottoms”, da Jon Spencer Blues Explosion, seu personagem preenche a tela, assim como o motorista de Drive feito por Ryan Gosling.

Wright também sempre foi especialista em cenas de ação elaboradas, como mostrou principalmente em Chumbo grosso, mas aqui ele consegue ainda mais. Inspirado claramente pelo referido Drive, Atração perigosa, de Ben Affleck, e Caçadores de emoções (na máscara de Mike Myers, não Michael Myers; ainda com uma participação de Flea, baixista do Red Hot Chili Peppers, que também aparecia na obra de Bigelow), Wright torna o arsenal de cores dos cenários num pacote de amplo apelo popular, sem facilitar a narrativa. O roteiro, sem grandes reviravoltas, é atraente o suficiente e os diálogos ágeis. Ainda temos ótimas atuações especialmente de Lily James – que lembra a Shelley de Twin Peaks, assim como a lanchonete em que trabalha recorda o Double R, principalmente em sua fachada – e Foxx, bastante ameaçador, numa versão séria daquela que faz bem-humorada em Quero matar meu chefe, embora Hamm particularmente cresça na etapa final.

Pode-se avaliar que aqui não há o estilo mais excêntrico de montagem dos filmes anteriores de Wright, embora mantenha sua agilidade. Isso dá ao filme um estilo mais americano, mas não menos eficiente para o espectador. Com isso, há trechos mais vagarosos em relação ao restante da filmografia do diretor. Uma cena é inspirada particularmente em Amor pleno, de Malick, quando Baby e Debora se encontram numa lavanderia – Wright torna o ambiente iluminado como o momento em que se encontram realmente. Não se pode deixar de mencionar a extraordinária trilha sonora do filme, pontuando a vida de Baby e as situações que vão se configurando: num determinado momento, em meio a uma música romântica, temos uma cena de alta tensão, criando um contraste que faz lembrar os melhores momentos de Scott Pilgrim. É como se a música representasse não apenas o afastamento do personagem de seu maior problema, como também do universo de bandidos a seu redor. Não por acaso, o personagem de Bats/Leon parece tão avesso ao fato de Baby ouvir música durante as reuniões. Wright utiliza esse apoio de maneira eficiente em várias sequências, fazendo um repertório capaz de desenhar ainda melhor seu personagem central e inserir o espectador no ritmo da narrativa, basicamente sobre o sonho de um jovem em adentrar na vida adulta. Como em Scott Pilgrim, não há gênero definido aqui, apenas diversão inteligente garantida.

Baby Driver, EUA, 2017 Diretor: Edgar Wright Elenco: Ansel Elgort, Kevin Spacey, Lily James, Jon Hamm, Jamie Foxx, Eiza González, Jon Bernthal, Sky Ferreira, CJ Jones Roteiro: Edgar Wright Fotografia: Bill Pope Trilha Sonora: Steven Price Produção: Eric Fellner, Nira Park, Tim Bevan Duração: 113 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: Big Talk Productions

Terra selvagem (2017)

Por André Dick

Responsável pelo roteiro de dois filmes aclamados nos últimos anos, Sicario – Terra de ninguém e A qualquer custo (indicado ao Oscar de melhor filme), Taylor Sheridan faz sua segunda obra como diretor, depois do terror Vile, neste Terra selvagem. Pode-se perceber um estilo que une os dois filmes que escreveu: ambos tratam de figuras à margem da lei enfrentando policiais ou agentes, seja no México, seja no interior do Texas. Se Sicario tem uma visão familiar quase ausente, em A qualquer custo ela forma a condição dos personagens, mesmo que a certa distância. São dois trabalhos certamente interessantes e, mesmo com algumas facilitações (não tanto aquele dirigido por Villeneuve), importantes para o cinema norte-americano nos últimos anos por transcender a fronteira previsível do gênero policial.

Em Terra selvagem, durante o inverno, na reserva indígena Wind River, localizada no Wyoming, o corpo da jovem Natalie Hanson (Kelsey Chow) é descoberto no gelo por Cory Lambert (Jeremy Renner). A primeira sequência oferece uma grande vitalidade para essa atmosfera, com o luar iluminando uma planície gelada com montanhas ao fundo. Mistério desenhado, para investigar o crime, chega à reserva uma nova agente do FBI, Jane Banner (Elizabeth Olsen). Ela precisa determinar se foi um assassinato para que o governo seja responsável pela investigação e conhece o xerife Ben (Graham Greene), à frente de um departamento que precisa de ajuda.
Martin (Gil Birmingham), o pai da vítima, é amigo de Cory e ambos têm em comum o olhar distante para as montanhas. Nas investigações, descobre-se que um irmão de Natalie, Chip (Martin Sensmeier), está envolvido com drogas. Escolhido como um ajudante na procura ao culpado, Lambert foi casado com uma mulher de origem indígena, Wilma (Julia Jones), com quem teve um filho, Casey (Teo Briones) e o acontecimento o faz recordar de um momento definitivo de sua vida, capaz de acentuar ainda mais a tragédia acontecida na reserva. E, com o chapéu de cowboy num ambiente gelado, ele faz lembrar por que Sheridan escreveu A qualquer custo, com sua retomada de um gênero capaz de voltar em algumas obras com brilho disperso. No início, quando Cory aparece com seu filho andando a cavalo é possível lembrar de antigas obras.

Tudo em Terra selvagem converge para o fato de que os personagens estão inseridos num ambiente sem saída, em que, segundo um dos personagens, não há nada para fazer. Mais ainda: estão à espera de uma união familiar. A maneira como lidam com os fantasmas pessoais não foge a esse cenário, e a trama tradicional de investigação fica em segundo plano para exatamente configurar o cenário de modo intenso. Sheridan utiliza a câmera trêmula em muitos momentos para dar uma vitalidade especial à narrativa e, se lhe falta a simetria de Villeneuve, em Sicario, ele consegue extrair atuações raras de Renner e Olsen, mesmo com poucos diálogos. Particularmente, Renner é muito convincente, entregando sua melhor atuação desde Guerra ao terror e não tão discreto quanto em A chegada (no qual aparecia bem). O cenário do Wyoming remete a O portal do paraíso, o clássico de Michael Cimino, em que se tratava da disputa por territórios e perseguição a estrangeiros. Embora Sheridan não se centralize na questão de territórios indígenas, existe aqui um sentido de perseguição secular e de uma injustiça nunca possível de ser resolvida.
Em Terra selvagem, os personagens de origem indígena são muito bem desenhados e interpretados, por Greene (de Dança com lobos) e Birmingham, que já aparecia em A qualquer custo, no qual a amizade entre o personagem que esse ator fazia e o investigador feito por Jeff Bridges remete a alguns momentos deste. Há também uma influência nítida de À procura, de Atom Egoyan, principalmente na maneira como o cenário desolado, com a colaboração da fotografia de Ben Richardson (que já fez um trabalho ótimo em Indomável sonhadora e Castelo de areia), se mostra como uma extensão dos personagens. Sheridan usa panorâmicas para mostrar o isolamento dessa vida inóspita, porém com o objetivo final e acertado de nunca se aproximar demais dessas figuras. Elas se mantêm afastadas umas das outras e o que as aproxima não fica exatamente claro.Talvez o momento mais íntimo de Cory seja justamente aquele em que relata o passado e isso ajuda a explicar muitas de suas reações.

Sheridan recebeu o prêmio de melhor diretor na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes deste ano e certamente seu trabalho se expõe de maneira talentosa. Um dos melhores elementos para mostrar se estamos diante de um talento na direção é a maneira como ele insere o espectador na atmosfera do que mostra. Terra selvagem tem um certo impasse no início, mas, à medida que surge a agente do FBI, e ela dialoga com a personagem de Blunt em Sicario, um tanto desajeitada, embora não tão séria, sabemos que a narrativa segue um padrão mais original. E a maneira como Sheridan filma os tiroteios tem uma força inegável, trazendo impacto às sequências, com a colaboração da trilha sonora de Nick Cave e Warren Ellis. Apenas se lamenta que o arco dos personagens pareça um pouco incompleto, mas esta já era uma sensação dos outros filmes que Sheridan roteirizou. O  importante não seria exatamente o que veio fazer a agente no FBI na reserva indígena, e sim os temas por trás dessa vinda: a união familiar, o passado, a solidão, a angústia de conhecer um crime cometido de forma terrivelmente cruel. É uma sensação de incompletude que acaba dando uma ideia apenas de uma certa etapa na vida dessas figuras e não tira, de qualquer maneira, a beleza de um thriller filmado num lugar incomum e que lida com questões vitais de cada indivíduo.

Wind river, EUA, 2017 Diretor: Taylor Sheridan Elenco: Jeremy Renner, Elizabeth Olsen, Gil Birmingham, Jon Bernthal, Julia Jones, Kelsey Chow, Graham Greene, Martin Sensmeier, Teo Briones Roteiro: Taylor Sheridan Fotografia: Ben Richardson Trilha Sonora: Nick Cave, Warren Ellis Produção: Matthew George, Basil Iwanyk, Peter Berg, Wayne L. Rogers Duração: 111 min. Estúdio: Acacia Entertainment, Savvy Media Holdings, Thunder Road Pictures, Film 44 Distribuidora: The Weinstein Company

O contador (2016)

Por André Dick

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Há poucos thrillers que merecem ser chamados assim, ou seja, a maioria deles têm características de um gênero que sobrevive quase dos mesmos lugares-comuns. Nos últimos anos, todos possuem como referência a série de Jason Bourne e como diretor Paul Greengrass (e não estou levando em conta como outra referência John Wick, com Keanu Reeves). Em O contador, Ben Affleck atua como Christian Wolff, que tem uma espécie de autismo que o permite ter talento com cálculos como se fosse o menino de Mentes que brilham. Ele trabalha num escritório em Plainfield, Illinois, alternando os jantares em casa, com a comida hermeticamente colocada no prato, e tiros a alvo pela vizinhança, que assustam os moradores mais próximos. Deve-se dizer que em sua infância ele viveu um tempo no Instituto de Neurociência Harbor em New Hampshire.
Ele recebe orientação pelo telefone sobre novas missões, pois seu escritório pode ser apenas um motivo para não explicitar quem realmente é. Trata-se de uma vida dupla, com toda clareza e sem spoilers. Há algo estranho: ele mexe com números e atende clientes normalmente, mas parece estar preparado para a guerra. Para completar, seu pai (Robert C. Treveiler) era um militar que pode ter lhe ensinado artes marciais e outras técnicas desconhecidas de grande parte das pessoas, sem querer que seu filho (quando criança interpretado por Seth Lee) tivesse uma vida sob tratamento específico, como havia recomendado um neurologista (Jason Davis). Agora Wolff é perseguido por Raymond King (JK Simmons), o diretor de crimes financeiros para o Departamento do Tesouro, que chantageia uma candidata, Marybeth Medina (Cynthia Addai-Robinson), a descobrir informações sobre ele.

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Enquanto isso, ele vai fazer uma auditoria numa companhia de investigação na área de robótica e próteses, com o auxílio da contadora Dana Cummings (Anna Kendrick), que encontrou finanças suspeitas. Lamar Blackburn (John Lithgow) e sua irmã e associada Rita Blackburn (Jean Smart) cooperam com a investigação de Wolff, mas surgem novos problemas pelo caminho, envolvendo um homem chamado Braxton (Jon Bernthal) e outro chamado Francis Silverberg (Jeffrey Tambor). Será que ele está sozinho?
O contador possui um roteiro instigante de Bill Dubuque, baseado num material da DC, com algumas nuances não encontradas em filmes do gênero e algumas subnarrativas sinuosas e que acabam muitas vezes escapando ao controle do espectador. A fotografia elaborada de Seamus McGarvey, habitual colaborador de Joe Wright (Desejo e reparação, Anna Karenina, Peter Pan), acompanha cenas de ação coreografadas com raro talento pelo diretor Gavin O’Connor, e se destaca aqui a mescla com elementos de humor involuntários que não tornam a trama excessivamente pretensiosa, como indicaria no seu início. Affleck está em seu segundo momento de ação do ano, depois de Batman vs Superman, enquanto se aguarda A lei da noite, o próximo dirigido por ele. Esta obra, assim como o personagem de Affleck, possui uma dupla camada: por um lado, trata-se de um thriller, por outro de um drama focado na infância e nos enigmas de um passado que não se resolve – e isso fica claro por meio da figura de King. Os flashbacks da história são pontuais e não cansam, e o diretor consegue minimizar o drama familiar ao contrário do que acontecia no seu filme mais conhecido até então, Guerreiro, sobre o universo do MMA.

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As relações do personagem central se estabelecem por meio da distância e do seu afastamento do que seria mais comum, e Affleck consegue desenhar essas facetas de modo inteligente. Os momentos em que ele fica solitário são genuinamente perturbadores, incomodando o espectador a ponto de as imagens adquirirem uma força que talvez não possuíssem. Não concordo com o fato de que o autismo, por exemplo, estaria sendo desrespeitado pela narrativa: trata-se de uma visão sobre ele, assim como o foi nos anos 80 Rain Man. Não há uma discussão exatamente sobre as características do autismo, porém Affleck tenta por meio do gestual, acima de tudo, incorporar elementos que possam traduzir a sensação do personagem central.
E as referências à pintura de Pollock, mestre do expressionismo abstrato, são essenciais para a compreensão de Wolff. Do mesmo modo, temos uma pintura de Jean Renoir (de uma mãe, figura ausente de sua vida, com seu filho ao fundo), um mestre em reproduzir imagens da infância, à qual Wolff está ligado de maneira decisiva, tanto para explicar seu passado quanto seu presente. Mais interessante é a tranquilidade que surge dessas pinturas em oposição ao que ele vivencia. Em alguns momentos, a narrativa lembra Três dias do condor, dos anos 70, em que um agente do governo feito por Robert Redford se via em meio a uma perseguição sanguinária.

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É permitido dizer que a própria trama incursiona por alguns elementos de abstração, não revelando ao certo os personagens, mantendo-os a certa distância, como o do próprio King. Com os personagens, parece existir uma crítica à cultura norte-americana: o prato feito por Wolff, por exemplo, ou a música que ele escuta, como se estivesse numa área de guerra. O’Connor segue essa linha com certa discrição que diferencia seu thriller dos mais habituais: as sequências de ação se mostram quase parte de um policial arthouse, não fossem os acréscimos pop trazidos à trilha sonora e à relação de Wolff com sua parceira de contabilidade. A fotografia traz imagens que alternam o inverno e o outono, pelos tons, esclarecidos pelas mudanças dos personagens. Apenas se lamenta que não sejam dadas a Kendrick as cenas necessárias para que seu personagem seja mais do que coadjuvante, assim como a JK Simmons, com um papel misterioso na medida certa, e John Lithgow, excelente ator, aqui subaproveitado. Para uma produção de 44 milhões, o filme já obteve retorno de 144 milhões e, a partir disso, pode-se até esperar uma franquia: seria uma maneira de explorar melhor esses personagens que não tiveram seu potencial desenvolvido plenamente aqui.

The accountant, EUA, 2016 Diretor: Gavin O’Connor Elenco: Ben Affleck, Anna Kendrick, JK Simmons, Jon Bernthal, Jean Smart, Cynthia Addai-Robinson, Jeffrey Tambor, John Lithgow Roteiro: Bill Dubuque Fotografia: Seamus McGarvey Trilha Sonora: Mark Isham Produção: Lynette Howell, Mark Williams Duração: 128 min. Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: Electric City Entertainment / Zero Gravity Management 

cotacao-4-estrelas

 

Sicario – Terra de ninguém (2015)

Por André Dick

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Foi a partir de Os suspeitos, em 2013, que o diretor Denis Villeneuve, nascido no Canadá, se firmou, pelo menos junto ao público, como um dos cineastas a serem acompanhados no cinema moderno. Particularmente, O homem duplicado, baseado no romance de José Saramago, seu filme seguinte, parece uma obra ainda melhor realizada tecnicamente, com uma temática de busca pela personalidade, ou antipersonalidade. Mas é em Polytecnique, já filmado com uma excelência técnica apesar do baixo orçamento, qualidade que se repetia em Incêndios, mas neste sem o mesmo impacto, que Villeneuve vai buscar um diálogo para a personagem central de Sicario – Terra de ninguém, a agente do FBI Kate Macer, que trabalha no combate às drogas.
Depois de uma operação no Arizona em que ela é exposta a uma realidade mais chocante do que imaginava, ela é recomendada por seu chefe, Dave Jennings (Victor Garber), a se apresentar a Matt Graver (Josh Brolin), de uma divisão especial da CIA sob comando do governo, a fim de fazer parte de um grupo que irá combater o cartel de drogas no México, junto com o amigo Reggie Wayne (Daniel Kaluuya), com a ajuda também de Alejandro Gillick (Benicio Del Toro). Como a personagem central de Polytecnique, Kate não consegue se encaixar com tranquilidade num universo predominantemente masculino e ameaçador.

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Ela é convocada para a missão de encontrar traficantes, sem ao certo nunca saber o que de fato está realizando, mesmo que a pressuposta figura a ser combatida seja a do chefe de cartel Manuel Díaz (Bernardo P. Saracino). Seu ingresso na missão se deve a uma crença de que indo à origem do tráfico de drogas para os Estados Unidos pode estar modificando não apenas o direcionamento das vítimas que ele causa, como também pode estabilizar a vida como agente.
Auxiliado por uma fotografia habitualmente notável de Roger Deakins, seu habitual colaborador, Villeneuve tenta fazer uma mistura de Heli, Traffic, Onde os fracos não têm vezes e A hora mais escura. Principalmente o menosprezado (e ótimo) Heli serve de inspiração para muitos momentos de Sicario, inclusive na fotografia febril de Deakins, como se escolhesse sempre a luz natural do sol, sem intermediações, simbolizando o mormaço. Quando Villeneuve mostra a chegada em caminhonetes da equipe de Matt, Alejandro e Kate ao México, mais especificamente na cidade de Juárez, essa influência é perceptível, não apenas pelas imagens que lembram um documentário, como também por uma exposição assustadora de vítimas do tráfico de drogas. Se Escalante, no entanto, foi criticado em Heli pela violência mais crua, Villeneuve prefere atenuar as imagens com uma espécie de estilo que evoca um thriller. Ou seja, é como se Kate estivesse chegando a uma base militar de A hora mais escura – e há uma profusão de imagens que recorrem ao filme de Bigelow, principalmente aquelas que mostram prisioneiros por trás das grades. Não que já não houvesse elementos que poderiam dialogar com Bigelow em Incêndios, mas a pressão de Villeneuve tem forte influência do cinema daquela diretora.

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Em igual escala, a personagem Kate tem um diálogo com a detetive interpretada por Jessica Chastain no sentido de que não é possível saber da sua vida pessoal; ela é uma personagem que tem como limite a própria situação em que está inserida. Mesmo que os personagens sejam misteriosos, ainda melhores são as atuações de Blunt, Brolin e Del Toro, todos igualmente muito bem, assim comol Kaluuya, na persona de Reggie, amigo de Kate. Del Toro, de todos, é o mais atento ao que se pode chamar de configuração real de um personagem, com uma presença hipnótica em cena – como em 21 gramas e O lobisomem, ele atua muitas vezes apenas com o olhar –, embora Blunt consiga extrair muito de um papel bastante reduzido em termos de diálogo, entregando a melhor atuação desde Meu amor de verão, há mais de uma década atrás, quando ainda filmava mais na Europa. Brolin, por sua vez, mostra mais uma vez que se trata de um dos coadjuvantes mais centrais dos últimos anos, principalmente neste e em Vício inerente.
Impressiona como Villenuve tem uma variação no estilo, pois Sicario se sente completamente diferente de seus outros filmes no tom visual e em seu roteiro, além do uso de uma música atmosférica de Johan Jóhannsson, dialogando com o peso das imagens, principalmente aquelas em que as locações são vistas do alto (num diálogo com Amor sem escalas). Villeneuve tenta sempre contrapor os personagens isolados a cenários semi-habitados ou que parecem (apenas parecem) abandonados, a exemplo de uma rodoviária noturna, quando também dialoga com Traffic, de Soderbergh.
O roteirista Taylor Sheridan tem certa dificuldade de explorar os caracteres dos personagens, por outro lado o que seu roteiro não entrega Villeneuve e Deakins transformam em sugestão visual – e muito forte, a começar por uma passagem pela fronteira dos Estados Unidos com o México, cercada por uma tensão desenfreada. E mantém-se a essência: este é um dos melhores filmes sobre o tema de combate às drogas.

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Há uma dualidade nunca resolvida por Villeneuve e os personagens não sabem exatamente se são bons, ou se apenas sua finalidade – a eliminação do tráfico – é boa, com métodos falhos. Sicario se fixa sempre nos procedimentos a serem adotados, e eles podem reservar uma indefinição quanto à finalidade, o que fica subentendido pelo próprio título, que pode tanto remeter ao uso de armas escondidas quanto, etimologicamente, ao estado em que os personagens estão mergulhados desde o início e à finalidade com que alguns deles podem atuar neste cenário desolador. Habitualmente, os personagens principais dos filmes de Villeneuve são solitários, e Kate é um exemplo bastante propício para estender esse argumento – como também a mãe de Incêndios.
Para ela, qualquer fuga às tarefas de agente podem representar um perigo, como se ela não estivesse preparada para a realidade. O relacionamento de amizade que estabelece com Alejandro parece mais ligado a uma insegurança familiar e Villeneuve é muito efetivo ao despertá-la na narrativa de Sheridan. Ainda assim, é notável como o cineasta consegue criar uma cena de tensão num determinado local capaz de evocar a transição e a pulsação nervosa de James Cameron com a câmera em Aliens. Villeneuve utiliza o cenário para mostrar como a personagem não pode se libertar da verdadeira natureza própria. Ora, o filme não trata de uma mulher oprimida ou não – trata-se de alguém que quer seguir as leis num universo onde não há leis. Na visão de Villeneuve, a guerra a ser mostrada e combatida em Sicario está mais próximo do que se imagina, evidentemente mais ainda para a diplomacia dos Estados Unidos que parece despreocupada com o que acontece a seu lado. Sicario se concentra em determinadas ações e, ao mesmo tempo que mostra uma possível realidade, lança o espectador numa tentativa de refletir longe do cenário apresentado sem, no entanto, oferecer qualquer alívio completo. Mesmo com percalços no roteiro, é cinema de alta qualidade.

Sicario, EUA, 2015 Diretor: Denis Villeneuve Elenco: Emily Blunt, Benicio Del Toro, Josh Brolin, Jon Bernthal, Jeffrey Donovan, Victor Garber, Raoul Trujillo, Maximiliano Hernández, Daniel Kaluuya Roteiro: Taylor Sheridan Fotografia: Roger Deakins Trilha Sonora: Jóhann Jóhannsson Produção: Basil Iwanyk, Edward McDonnell, Molly Smith, Thad Luckinbill, Trent Luckinbill Duração: 121 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Black Label Media / Thunder Road Pictures

Cotação 4 estrelas