Blade Runner – O caçador de androides (1982)

Por André Dick

Os produtores da Warner Bros investiram 30 milhões de dólares nesta ficção científica visualmente brilhante, pensando em repetir o êxito de Alien (do mesmo Ridley Scott). Na primeira exibição, ficaram avessos ao filme, achando-o muito sério e complicado. Preferiram algo parecido com Guerra nas estrelas, ou seja, mais ação e menos reflexão, solicitando que se colocasse uma narração em off do personagem central (Harrison Ford). Resultado: um fracasso de público e recepção dividida da crítica, apesar de indicações ao Oscar e ao Bafta, mas é esta versão que conheci em VHS no final dos anos 80 (com suas imagens finais extraídas de O iluminado, de Kubrick). Porém, ao longo dos anos, o diretor conseguiu definir a sua versão, que não é a relançada em 1992 nos cinemas e sim um corte que veio a público em 2007 (com 117 minutos). Com sua continuação programada para este ano, Blade Runner 2049, dirigida por Denis Villeneuve e novamente com Ford, mas acréscimo de Ryan Gosling, a obra de Scott volta a ser cada vez mais debatida.

Harrison Ford interpreta Rick Deckard, escolhido para capturar um grupo de replicantes (androides com características humanas) que perambula pela Los Angeles de 2019, por seu ex-supervisor, Harry Bryant (M. Emmet Walsh), e recebe a companhia de Gaff (Edward James Olmos). Esses replicantes são proibidos de vir à Terra, pois só podem trabalhar em colônias espaciais.
Mesmo não gostando da tarefa, o policial acaba aceitando, mas se apaixona por uma replicante, Rachael (Sean Young, no filme que a revelou), que trabalha para o criador dos novos seres, Eldon Tyrell (Joe Turkel). O líder dos androides, Roy Batty (o espetacular Rutger Hauer), tenta obter informações sobre quem é: ele deseja, como seus companheiros, ter o tempo de vida de um ser humano e não de um androide (4 anos), e para isso tenta buscar seu criador a fim de que possa se perpetuar. Há uma que trabalha se apresentando com uma serpente, Zhora (Joanna Cassidy), numa boate, numa referência, inclusive literal, a Adão e Eva, e outro extremamente violento, Leon (Brion James). Por sua vez, a androide feita por Daryl Hannah, Pris, aliada a uma maquiagem diferente, é a mais assustadora, ao mesmo tempo que remete a uma imagem de contos de fadas ou de bonecas infantis, indo atrás de quem os confeccionou artesanalmente, J.F. Sebastian (William Sanderson), um homem de 25 anos, porém envelhecido devido a uma doença, que trabalha com Tyrell.

Baseada na novela “Do Androids Dream of Electric Sheep?”, de Philip K. Dick, com uma grande adaptação feita por David Webb Peoples (que faria o roteiro de Os imperdoáveis, de Clint Eastwood) e Hampton Fancher, a narrativa de Blade Runner por vezes é confusa, mesmo com seus atos dividindo bem esta situação mostrada, entretanto tentar entender seus detalhes sempre dá acesso a um lugar diferente. Deve-se destacar o figurino dos personagens (parecem estar nos anos 40) e a trilha sonora de Vangelis. E, claro, há o impressionante desenho de produção (de Lawrence J. Paull), indicado ao Oscar, mostrando uma Los Angeles futurista, com chuva ácida, mas ainda assim antiga e nos moldes dos anos 80 (com seus néons), com traços góticos e de pirâmides, apoiado na belíssima fotografia de Jordan S. Cronenweth, com luzes vazando pelas janelas e um aspecto soturno que certamente influenciou inúmeros filmes depois, a exemplo de Batman, de Tim Burton. E temos a canção nostálgica “One more kiss dear”. Mas não é para qualquer público ou espectador mais avesso a uma narrativa lenta, o que lhe rendeu o status de cult. Ele tem mais correspondência com um THX 1138 ou um O enigma de Andrômeda do que exatamente com peças mais comerciais, em que os personagens se transformam quase em réplicas de efeitos ou cenários. Aqui os cenários e objetos neles são também personagens: um enorme zepelim futurista anuncia visita a novos mundos e um enorme painel publicitário faz companhia às naves que passam. Os efeitos visuais de Douglas Trumbull (2001, A árvore da vida), também indicados ao Oscar, são notáveis.

Na versão considerada final, há o sonho de Deckard com um unicórnio, o que remete não apenas ao filme seguinte de Scott, A lenda, como também a uma surpresa de Scott que inexistia no original, e que leva a narrativa para um campo ainda mais complexo. Esta é uma legítima ficção científica que consegue amplificar seus conceitos e não pertencer exclusivamente a seu gênero: há um drama localizado em cada um desses personagens, mesclado com uma influência policial noir, que torna Blade Runner numa obra atemporal, baseada em significados culturais mais profundos. É interessante notar também como Scott dispõe a narrativa de modo bastante simples, focando praticamente apenas uma única situação, da qual ele extrai uma investigação realmente inovadora. Acima de tudo, porém, é o olhar poético que Scott tem em relação ao conflito entre humanos e replicantes – a começar pelo teste Voight-Kampff, que aproxima o avaliador do olho do ser investigado. Em outros momentos, Scott destaca os olhos, como os de uma coruja de Tyrell ou quando Batty usa dois de plástico para cobrir os seus, parecendo um desenho animado. Mesmo com a referência à serpente do paraíso por meio de Zhora, ainda mais referencial à religião é Batty e o encontro com o seu criador. Blade Runner não mostra igrejas do futuro, mas seu pano de fundo é sobre a ideia de um divino a ser alcançado. Isso não está longe do cineasta que viria a fazer A lenda, Gladiador, CruzadaPrometheus e Êxodo. De qualquer modo, é seu final (que tanto emocionava a minha mãe, que o tinha como um de seus filmes favoritos) o motivo para se colocar esta obra de Scott entre as maiores já feitas.

Blade Runner, EUA, 1982 Diretor: Ridley Scott Elenco: Harrison Ford, Rutger Hauer, Sean Young, Daryl Hannah, Edward James Olmos, M. Emmet Walsh, William Sanderson Roteiro: Hampton Fancher, David Webb Peoples Fotografia: Jordan S. Cronenweth Trilha Sonora: Vangelis Produção: Michael Deeley, Charles de Lauzirika (Versão Final) Duração: 117 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: The Ladd Company / Shaw Brothers / Warner Bros. Pictures / Michael Deeley Production / Ridley Scott Productions

Cotação 5 estrelas

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2 Comentários

  1. Assisti a esse filme quando tinha uns doze anos. O que me chamou mais atenção foi o visual peculiar para uma ficção futuristica já que minha referência maior era Star Wars e infelizmente não consegui absorver tudo da história. Passados vinte anos, assisti esses dias por conta do interesse pelo novo filme. Fiquei absolutamente deslumbrado pelo que vi. Eu não tinha maturidade o suficiente para entender o subtexto e a psicologia dos personagens. Foi preciso eu viver e ter visto mais coisas nessa vida para poder ser sugado pela atmosfera e o sentido do filme. Isso deu um significado profundo e devastador ao monólogo final de Roy.

    Desde as primeiras cenas, do dialogo de teste entre o replicante e o blade runner que termina em tragédia, o filme é um primor em termos de atmosfera e de situações que não são contadas e sim nos mostradas. A ausência da narração na versão final o deixou mais intrigante pelo fato de que não somos condicionados e orientados pelo Deckard. O próprio desenvolvimento da história nos condiciona a ruminar sobre a busca do caçador pelos replicantes e a busca destes últimos por mais tempo de vida. Se não me engano, na versão de cinema o Deckard nos conta o que a Pris irá fazer na casa do Sebastian. Na versão final, nós vamos descobrindo isso pouco a pouco. Isso confere à personagem um ar de mistério e malícia, já q ela finge q está perdida enquanto q a narração nos antecipava o que iria acontecer. O filme tem um ritmo lento, o q provavelmente contribuiu para seu fracasso comercial e o status de cult. Porém é um ritmo lento e não arrastado.

    Spoiler nesse parágrafo. A percepção de que o Roy finalmente se tornou humano após poupar o Deckard, minutos antes de morrer, algo que ele buscava intensivamente e descobrira que o que importa não é viver muito tempo e sim viver intensamente, e que o pouco q ele presenciou em vida já tornará sua existência substancial, além do processo de auto consciência vivida pela Rachel após a descoberta de que não era humana, o renascimento do Deckard no final, foram aspectos que me deixaram profundamente reflexivo após terminar de ver o filme. E finalmente, a nova cena final, com o elevador se fechando, deu continuidade positiva ao ar claustrofóbico da história. Foi interessante parar naquele ponto, porém ainda gosto do final feliz Hollywoodiano, que numa daquelas coincidências loucas da vida, fecha com as tomadas ensolaradas e vastas de cenas do Iluminado Kubric , o visionário que jamais pôde ver o Haley Joel Osment finalmente se tornar humano ao derramar lágrimas no final do subestimado Inteligência Artificial, mas que nos idos de 1982 provavelmente pôde ver o Roy chorar lágrimas de chuva e ver a Rachel fugir de carro ao lado do Deckard em busca de sua própria humanidade. É muito bom quando a nossa memória cinematográfica nos confere um sentido mais profundo ao final de um filme. Não tinha como eu sentir isso com doze anos nos anos 90. O final feliz nunca teria tanta força e jamais funcionaria para mim se eu não tivesse assistido todos esses três filmes citados.

    Responder
    • André Dick

       /  15 de julho de 2017

      Prezado (a),

      Agradeço por seu comentário trazendo sua visão sobre esta obra realmente clássica de Ridley Scott. Muito do que observa remete à minha experiência com o filme: também o assisti pela primeira vez com 12 anos e me marcou muito, na versão original, com as imagens finais extraídas de sobras de O iluminado, do Kubrick. Era um dos filmes preferidos também de minha mãe, a exemplo do que observo na crítica e principalmente o final dele, com as palavras na chuva de Batty, a emocionavam. Certamente também não o entendi muito bem na primeira sessão, embora o visual sempre tenha impressionado (e até hoje impressiona). Eu particularmente não tenho uma preferência por nenhuma das versões; ambas são complementares, embora a narração em off do original remeta mais aos filmes noir que a obra também pretende homenagear e o final da versão dos executivos da Warner seja mais palatável. Decidi revê-lo exatamente impulsionado pelo trailer de Blade Runner 2049 (que seja tão bom quanto) e notei o quanto ele permanece atual, com temas ainda oportunos e que ainda sinalizam referências para o gênero de ficção científica de modo geral.

      Volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder

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