Segredos de sangue (2013)

Por André Dick

Segredos de sangue.Filme.Imagem 5

Logo no início de Segredos de sangue, a jovem India Stoker (Mia Wasikowska) perde seu pai num acidente misterioso e, durante o velório, surge um tio até então desconhecido, Charlie (Matthew Goode). Com a permissão de sua mãe, Evelyn (Nicole Kidman), ele ficará hospedado alguns dias com as duas. Vivendo num ambiente no mínimo diferente – o seu pátio tem um balanço que mais parece uma cabana, os pratos da cozinha são colocados na parede de forma destacada –, a jovem atrai aranhas para suas pernas, como se fossem uma analogia com o perigo sexual que ronda o lugar. Em seus aniversários, ela sempre ganhou uma caixa de sapatos iguais, e a tia, Gwendolyn (Jackie Weaver), quando vai à sua casa, foge como se estivesse ameaçada por um vampiro. Em determinado momento, India vai arriscar a mitologia dos óculos escuros, mas perfeitamente adequado para uma família que tem Stoker no sobrenome.
Segredos de sangue é a estreia nos Estados Unidos do sul-coreano Chan-wook Park, autor de, entre outros, Oldboy. Com sua câmera nervosa, deslizando às vezes em travellings, e uma montagem que pretende encenar um filme de terror, com uma bela direção de arte, sobretudo no início, influenciada por outro filme de Burton, o subestimado Sombras da noite, o diretor pretende envolver o espectador. Para isso, utiliza seguidamente analogias: os movimentos dos personagens dialogam com outros ambientes, principalmente numa sequência noturna excelente, os olhos de India se fundem com o de um ovo, quando se deita na cama ela faz os movimentos de um relógio, e seus sapatos a cercam como se  estivesse dentro de um túmulo. Seu tio Charlie, no entanto, além de surgir de forma repentina, parece não deixar clara a sua intenção, sobretudo em relação a Evelyn. Isso confunde ainda mais India, que não se sente feliz no colégio em que estuda, vista como uma estranha. Durante os 20 minutos iniciais, Segredos de sangue é um autêntico estudo sobre o luto e a presença da morte dentro da casa: não vemos a motivação dos personagens, mas sabemos que eles estão tentando enfrentar o que desconhecem. A figura de Charlie, querendo tocar piano com India, acentua uma espécie de perigo, que nela se manifesta por meio da influência paterna e Segredos de sangue tenta atingir, por meio de correspondências visuais, um estado de tensão que só é correspondido pelo visual, num primeiro momento, ainda mais atrativo.

Segredos de sangue.Filme.Imagem 2

Segredos de sangue.Filme.Imagem

É difícil encontrar num filme a equivalência entre estilo e pretensão. Nesse sentido, Segredos de sangue confere um novo estágio neste estudo. Mais do que os personagens, o cineasta Chan-wook Park está em busca de uma forma de contar a narrativa. Se a história se torna cada vez mais implausível, não conservando a tensão inicial, e destacando o visual, em detrimento do roteiro, parece não haver dúvida: a narrativa de Segredos de sangue retrata, com o passar dos minutos,  um exercício de estilo e fantasmagoria em forma humana, mostrando o sexo como uma espécie de desvirtuamento rumo à morte. Há (spoilers aqui) mesmo o sangue jorrando sobre flores brancas, no melhor estilo do recente Django livre, de Tarantino, mas também uma espécie de esclarecimento de onde podem surgir os jovens que incorporam a tradição dos vampiros. Mas, creio, e aqui se funda seu problema: não há nenhuma relação autêntica entre os personagens: o fato de India se manter afastada da mãe se mostra difusa, apenas acentuando o fato de que ela era próxima do pai, e o fato de ter de haver uma figura masculina para o momento de enfrentar o luto da perda é corrompido em minúcias pouco sutis de Park Chan-wook.
Em Terra de ninguém, uma influência clara para o roteiro de Wentworth Mille, Malick conserva mais o silêncio do que as falas, mas a ligação entre os personagens consegue atingir um envolvimento (mesmo em seu quase filme de cinema mudo, o recente To the wonder). Os personagens de Segredos de sangue, embora inseridos num clima misterioso pensado para impressionar – e até determinado momento impressiona –, não conseguem desenvolver a sua importância, e as analogias buscadas para cada um, seja por meio de contrastes visuais, por cortes de câmera, seja por meio de flashbacks que servem de atalho para não tentar ser apenas um filme normal (nos moldes de Terapia de risco), não se traduzem de forma eficiente no clima de suspense que poderia partir da narrativa. O peso psicológico acaba se manifestando naquelas peças que seriam essenciais para a mecânica do filme, assim como suas analogias com o relógio, se estabelecer de modo mais ágil. Com isso, o uso de cores insistente não é nada discreto: o espectador cansa da analogia entre o branco da pureza, o sangue da violência (retratado nos cenários) e o verde da natureza.

Segredos de sangue.Filme.Imagem 4

Segredos de sangue.Filme.Imagem 3Lamenta-se, com isso, que Matthew Goode demonstre apenas o mesmo comportamento, numa ausência evidente da direção de Chan-wook, enquanto Mia Wasikowska, saída diretamente de Alice no país das maravilhas para um cenário avesso – embora o filme de Burton também tivesse sua atmosfera particular de pesadelo, com Johnny Depp excessivamente maquiado e figuras mais tortuosas do que simpáticas –, se esforce para dar consistência a um personagem que brinca com o estereótipo caindo nele (em certos momentos, ela parece saída de O chamado). Já Nicole Kidman se mostra uma atriz novamente à parte de roteiros fracos; ela consegue convencer com os poucos minutos que lhe são dados, trazendo o que de melhor existe em Segredos de sangue. É interessante como (spoiler) Segredos de sangue acabe por terminar do mesmo jeito que começa: em busca de uma atmosfera, a personagem, ao falar de flores, de óculos escuros, com a pose do casal jovem de Terra de ninguém, só busca aquilo que o filme possui desde o início – uma identidade desvirtuada.

Stoker, EUA/Reino Unido, 2103 Direção: Chan-wook Park Elenco: Matthew Goode, Mia Wasikowska, Nicole Kidman, Dermot Mulroney, Jackie Weaver, Rachel Woods Produção: Michael Costigan Roteiro: Wentworth Mille Fotografia: Chung-hoon Chung Trilha Sonora: Clint Mansell Duração: 99 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Fox Searchlight Pictures / Indian Paintbrush / Scott Free Productions

1 estrela e  meia

Anúncios
Post anterior
Deixe um comentário

4 Comentários

  1. Felipe Ferraz

     /  5 de agosto de 2013

    Meu comentário contém SPOILERS:

    Ótimo post e concordo com o que foi dito. Embora a atmosfera sombria e misteriosa comece a cansar a partir da metade do filme, é ela que dá a tônica do filme. Mas até aí tudo bem.

    A protagonista (Mia Wasikowska) é um pouco insossa, mas ficou bem na personagem, que é um tanto freak ao meu ver. Até a cena em que a gente descobre a idade dela eu não sabia se ela tinha 13, 14 ou 15. As roupas – e principalmente os sapatos – dela não deixavam claro em que época a história se passava, dúvida que só ficou respondida quando aparece a escola.

    Só lamentei mesmo que o talento da ótima (e linda como sempre) Nicole Kidman tenha sido tão pouco utilizado; ficou ali como uma coadjuvante de luxo.

    Mas é um bom filme que cumpre bem a sua proposta, prende a atenção por 100 minutos sem deixar a peteca cair.

    Responder
    • Prezado Felipe,

      Agradeço por seu comentário generoso. Eu fiquei um tanto decepcionado com o filme, em razão do diretor e do elenco. Nicole Kidman me parece ter uma atuação, de qualquer modo, convincente, diante do roteiro. Acredito que o filme não aproveita como poderia Mia Wasikowska e Goode está num momento delicado. A relação que o diretor quis estabelecer entre a adolescência e a entrada num mundo soturno poderia ser interessante, a meu ver, se ele não quisesse o final com o objetivo de surpreender e deixasse rapidamente de explorar os personagens. De um filme com elementos até artísticos (a direção de arte bem elaborada), somos levados a apenas uma reviravolta e à rebeldia programada.
      Obrigado pela visita e volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder
  2. Aline

     /  25 de outubro de 2013

    Ótima crítica seguida por um pertinente. Só pude assistir a esse filme ontem e fiquei bastante incomodada com a ausência de ligação entre os fatos no roteiro que não deixam a história progredir conforme o iniciado.

    E mais uma prova para mim, que os filmes precisam de diretor de atores, para que só assim, eles sejam realmente aproveitados.

    Responder
    • Prezada Aline,

      Agradeço por seu comentário! Realmente, Segredos de sangue desaponta no sentido de não criar uma ligação entre os personagens, principalmente depois do início interessante. Havia possibilidades, mas não são aproveitadas. Com exceção do visual, a estreia de Chan-wook Park nos Estados Unidos, nesse sentido, acaba sendo uma decepção, pela falta de controle da história e dos atores (Goode, apesar de não ser grande ator, nunca esteve tão mal dirigido). Espero que ele se recupere nos próximos projetos.
      Obrigado pela visita e volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: