Mulheres do século 20 (2016)

Por André Dick

O diretor Mike Mills é conhecido por um drama respeitado, mas de difícil envolvimento, Toda forma de amor, que rendeu um Oscar de ator coadjuvante merecido para Cristopher Plummer. Lá, as relações humanas ou familiares eram trabalhadas sob um ponto de vista quase europeu, com uma certa lentidão que por vezes prejudicava a narrativa. Aqui, em Mulheres do século 20, ele concentra a história em 1979, em Santa Barbara, Califórnia. Mostra Dorothea Fields (Annette Bening), uma professora e fumante inveterada de 55 anos, que pede ajuda de Abbie (Greta Gerwig), sua inquilina, e Julie (Elle Fanning), a quem trata de forma materna, para criar seu filho, Jamie (Lucas Jade Zumann), de 15 anos, afeito a fazer algumas brincadeiras fora de hora e a andar de skate. Isso porque o mundo está numa acelerada mudança, e ela simplesmente não consegue entender exatamente o que ele pensa. Por meio de pequenos gestos, Mills desenha um ambiente familiar em que a conciliação e o entendimento está no olhar. A casa de Dorothea respira um ar de comunidade, de pessoas diferentes que se entendem e estão de passagem em busca de um mínimo de afeto.

Com uma bela trilha sonora de Roger Neill, é um filme que trata das mudanças pelas quais a mulher passou quase ao final do século 20, assim como sua insegurança em relação à criação de filhos. Bening faz muito bem o papel da mãe, e Zumann do filho, e são essenciais os momentos em que contracenam juntos, expondo suas inseguranças e projeções para uma época que ainda virá. Já havia um pouco esse elemento em Toda forma de amor, em que o personagem de Ewan McGregor tinha recordações de sua mãe. No entanto, as duas atrizes que brilham são Gerwig, fazendo uma fã de punk rock que deseja ser fotógrafa, mais afastada de seu estilo nova-iorquino, e Fanning, que tem relações com vários rapazes e não se define, preferindo apenas dormir e dividir inseguranças ao lado de Jamie, de quem se considera amiga. Especialmente Gerwig, com seu corte de cabelo, lembra da new wave que se consolidou no início dos anos 1980. Por sua vez, Billy Crudup (num de seus melhores momentos) faz William, um carpinteiro hospedado na casa de Dorothea para ajudar em reformas do ambiente, assim como Abbie, e que viveu a era de Aquarius como poucos. Esses personagens se interligam de maneira evidente, com destaque para a maneira como Mills mostra o passado de cada um deles, e a fotografia de Sean Porter desenha de maneira clara essa ambientação nos anos 70, sem apelar para um design de produção e figurinos facilmente rotuláveis. O período enfocado, de verão, revela essa mudança.

A montagem do filme é um pouco estranha, meio entrecortada, mas aos poucos o espectador se acostuma a ela, como a seus personagens. É uma obra bastante sensível, dedicada tanto a momentos de reflexão quanto a elementos bem-humorados (“O punk rock é divisor”), apanhando um certo tédio existencial de Jarmusch e Wes Anderson sem levá-lo a extremos. Basicamente, é sobre um jovem testemunhando a vida de três mulheres em idades diferentes e a maneira como elas transformam o mundo e o seu próprio pensamento acerca de todas as mudanças. Quando Abbie leva Jamie ao clube de punk rock no qual sempre vai e o apresenta às pessoas do lugar, num período em que ele está também saindo da adolescência, a obra se torna receptiva a uma amizade calcada nos mínimos detalhes. E quando vemos Jamie tentando se declarar a Jamie vemos ainda mais a passagem de fases como poucos filmes consegue mostrar de maneira tão imperceptível e intensa. Ao determinar o século 20 como limite, Mills enfoca, na verdade, gerações diferentes que se encontram em determinado momento e que antecipam os rumos do que se intensificaria no século 21. Principalmente no início dos anos 90, obras como Tomates verdes fritos e Thelma & Louise representaram essa força da imagem feminina, mas Mulheres do século 20 é mais original ao deixar sua temática subentendida por meio da força de cada personagem que enfoca, assim como as obras dos irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne.

Essas mulheres são precursoras sem terem necessariamente consciência disso, ou seja, Mills não as enquadra dentro de um movimento ou as enxerga como figuras que representariam uma certa independência com o objetivo de se inserir na história; o diretor as mostra como se compusessem um grande panorama de época, em que a sensibilidade ainda estava a favor da inter-relação procurada por cada um e não de um discurso ensaiado, no qual sempre se ausenta a autenticidade de querer algo por simplesmente considerar notável. A ambientação dos anos 1970 e a localização na Califórnia permitem uma grande proximidade do espectador com a faceta solar dessas histórias que se explicam em conjunto. Há alguns momentos que são inseridos em trechos da história (um pronunciamento de Jimmy Carter, fotografias icônicas de shows de rock), contudo nada que exclua o filme de uma visão universal, lembrando pela simplicidade (sem se confundir com o simplismo) de Paterson, com um roteiro belíssimo (infelizmente a sua única indicação ao Oscar). Também há algumas vinhetas em que Mills explora a trilha sonora de Neill como uma passagem de tempo notável, parecendo um pouco onírica e no qual as personagens se sentem ainda mais vivas, assim como utiliza imagens de Koyaanisqatsi, dirigido por Godfrey Reggio, uma ópera de imagens mostrando a modernidade do indivíduo descentralizado. Ao final, sem preparar o espectador para isso em nenhum momento, em razão de uma narrativa sem apelo dramático evidente, Mulheres do século 20 eclode numa emoção quase secular.

20th century women, EUA, 2016 Direção: Mike Mills Elenco: Annette Bening, Lucas Jade Zumann, Elle Fanning, Greta Gerwig, Billy Crudup Roteiro: Mike Mills Fotografia: Sean Porter Trilha Sonora: Roger Neill Produção: Anne Carey, Megan Ellison, Youree Henley Duração: 118 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: Annapurna Pictures / Archer Gray

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2 Comentários

  1. amei amei amei 💙

    Responder
    • André Dick

       /  4 de abril de 2017

      É um filme realmente notável.

      Obrigado pela visita e volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder

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