Vingadores – Guerra infinita (2018)

Por André Dick

Se  há uma qualidade que já havia ficado clara nos dois Os vingadores anteriores é que Joss Whedon tinha uma disposição de desenvolver esses super-heróis em dois planos: o da mitologia e o da humanidade. No segundo, havia imagens estranhas do passado ou possível futuro de cada um, o que remetia a Linha mortal, em que jovens faziam experiências com a morte e eram atormentados por visões estranhas e que poderiam, inclusive, defini-los. Embora este recurso se fundamente em desvios da trama, esses serviam como impulso para uma das melhores sequências, ligada a um ambiente campestre e no qual podíamos ter uma divisão da trama antes de uma grande contribuição de Whedon para o cinema de ação.

Nesse sentido, Vingadores – Era de Ultron não ficava a dever para seu antecessor: enquanto seu primeiro ato preparava a história para algo maior, como o primeiro, as duas partes finais eram tão boas ou ainda melhores do que as do original, não apenas pelo fluxo oferecido por Whedon – em alternar explosões e perseguições com um verdadeiro sentimento de perigo e humanidade empregada nas situações –, como em igual intensidade pelo visual magnífico, com o auxílio da fotografia de Ben Davis (o mesmo de Guardiões da galáxia), e pela atuação do elenco.
Em Vingadores – Guerra infinita, os irmãos Anthony e Joe Russo, responsáveis por Capitão América – O soldado invernal e Capitão América – Guerra Civil, assumiram o lugar de Whedon. A história começa com Thor (Chris Hemsworth) e Loki (Tom Hiddleston) enfrentando o temível Thanos (Josh Brolin), desde sempre atrás das Joias do Infinito. Localizados no espaço, não por acaso logo teremos a presença dos guardiões da galáxia: Peter Quill/Starlord (Chris Pratt), Gamora (Zoe Saldana), Drax (Dave Bautista), Rocket (Bradley Cooper) e Baby Groot (Vin Diesel), acompanhados de Mantis (Pom Klementieff).

Em meio a tudo, aparecem Tony Stark/Homem de Ferro (Robert Downey Jr.), Stephen Strange/Dr. Estranho (Benedict Cumberbatch) e Peter Parker/Homem-Aranha (Tom Holland), com a companhia de T’Challa/Pantera Negra (Chadwick Boseman). Muitos outros personagens adentram em cena: Wanda Maximoff/Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen) e Visão (Paul Bettany) estão de volta, assim como Bruce Banner/Hulk (Mark Ruffalo) e Natasha Romanoff, a “Viúva Negra” (Scarlett Johansson), além de James Rhodes (Don Cheadle), Sam Wilson/Falcão (Anthony Mackie) e Pepper Potts (Gwyneth Paltrow).
Em seus Vingadores, Whedon os desenvolve como seres mitológicos e trabalhava com emoções básicas, sobretudo o medo da morte e de realmente transformar o mundo. É interessante como todos ganham em seus filmes linhas de roteiro apontando esse sentimento, sobretudo Romanoff, Banner, Rogers e Stark, sempre, de certo modo, ligados ao passado. Se Banner e Stark parecem sempre estar com o pensamento no que podem criar de novo no laboratório, Rogers se encontra encapsulado nos anos 40, dos quais é obrigado a se distanciar, assim como os gêmeos não conseguem esquecer a imagem gravada na infância do nome Stark, e Romanoff tem receio do que as visões podem lhe mostrar sobre ser uma assassina letal. No caso dela, acalmar Banner não é apenas uma ironia do destino quando ela, de fato, não atinge nenhuma tranquilidade.

Não há nenhuma discussão no plano conceitual em Vingadores – Guerra infinita. Trata-se apenas do embate de um vilão literalmente sem traços próprios – com a colaboração de um CGI perturbador – contra os vingadores, que parecem unidos apenas na campanha de marketing. Há pelo menos dois anos o universo MCU vem tendo dificuldades de unir seus traços de humor e drama em filmes irregulares como Doutor Estranho, Thor: Ragnarok, Capitão América – Guerra Civil e Pantera Negra. Todos parecem parte de uma linha de produção sem nenhuma tentativa de inovar, sob a liderança de Kevin Feige, o produtor que planifica histórias para encaixar sua visão de cinema.
Desde a saída de Whedon, o MCU só contou com três momentos muito bons: Homem-Formiga, Guardiões da galáxia 2 e Homem-Aranha – De volta ao lar. Até certo ponto, como Guerra Civil não era um filme do Capitão América, este novo Vingadores parece um Guardiões da galáxia 3. Os irmãos Russo, no entanto, não têm o olho para o visual dinâmico de James Gunn e desde Arrested development, a série de humor que ajudaram a solidificar com êxito, não sabem identificar interação entre personagens. Todos em Guerra infinita aparecem e desaparecem sem criar o devido impacto. Há lacunas consideráveis entre as aparições de uns e outros, nunca formando uma unidade, e mesmo durante as batalhas os encontros se dão sem nenhuma sensação de vínculo ou proximidade. Não há uma ligação clara entre os diferentes grupos enfocados, embora um dos méritos desse universo compartilhado seja exatamente sabermos em que ponto da história desses personagens nos encontramos, o que, por outro lado, não acrescenta qualidade especial. Filmes devem se manter por si só e construir relações entre os personagens, mesmo que já hajam outros a apresentá-los, mesmo porque a reunião deles é inédita.

O mais afetado pela história apressada, mesmo com os 149 minutos de duração, é Banner, numa participação não apenas distinta daquela de Thor: Ragnarok, basicamente humorística, cuja relação com a Viúva Negra não se estabelece sequer com uma conversa, apenas um olhar distanciado (isso desde o afastamento da obra de Whedon há três anos). Talvez Quill se destaque, junto com Thor e o Rocket; de resto, nem o carisma de Downey Jr. consegue dar sentido ao fato de o Homem de Ferro estar aqui, e Holland, que demonstrou ser um bom Homem-Aranha, é subutilizado de maneira inegavelmente injusta. Os diretores não têm tempo a perder: Guerra infinita é uma sucessão de sequências de ação vazias, sem nenhum senso de perigo ou realização, pouco se importando com personagens ou as consequências do que fazem.
Os Russo acreditam oferecer um ar dramático ao vilão Thanos, mas se trata de uma figura tão carregada digitalmente (e que nem as expressões de Brolin conseguem realçar, ao contrário de Serkis ao interpretar Cesar em Planeta dos macacos) que soa, a cada instante em que aparece, artificial como a história que o cerca. Existem os conflitos físicos, no entanto os embates de ideias existentes nos melhores filmes do MCU desaparecem, em virtude do roteiro limitado de Christopher Markus e Stephen McFeely, que tenta passar do trágico para o cômico de forma tragicômica.

Uma caminhada no parque de Stark e Pepper, lembrando a comicidade saudável dos dois primeiros Homem de Ferro, é interrompida por um inesperadamente denso Doutor Estranho, sem mais tempo para piadas com os livros da biblioteca. Os Russo não possuem a menor ideia de constituir um ambiente fantasioso, apegando-se a interiores escuros de naves e um CGI de qualidade discutível, que extrai qualquer atrativo pela fotografia. Excluindo a parte final e algumas cenas numa metrópole, tudo parece ter sido filmado em estúdios e à frente de um chroma key. Mesmo nos seus filmes com o Capitão América, a dupla de diretores, usando um estilo de thriller, enveredavam por um caminho que tentava interligar seus personagens. Neste filme, eles parecem interessados exclusivamente em focar o caos. Acabam por fazer a obra menos interessante de todo o universo MCU, uma falha de ignição notável, que nenhuma bilheteria conseguirá sobrepujar. Talvez a quarta parte, já em realização, com um pré-aviso: os Russo são novamente os diretores.

Avengers – Infinity war, EUA, 2018 Diretor: Anthony Russo e Joe Russo Elenco: Robert Downey Jr., Chris Hemsworth, Mark Ruffalo, Chris Evans, Scarlett Johansson, Benedict Cumberbatch, Don Cheadle, Tom Holland, Chadwick Boseman, Paul Bettany, Elizabeth Olsen, Anthony Mackie, Sebastian Stan, Danai Gurira, Letitia Wright, Dave Bautista, Gwyneth Palthrow, Zoe Saldana, Idris Elba, Josh Brolin, Chris Pratt, Vin Diesel, Bradley Cooper Roteiro: Christopher Markus e Stephen McFeely Fotografia: Trent Opaloch Trilha Sonora: Alan Silvestri Produção: Kevin Feige Duração: 149 min. Estúdio: Marvel Studios Distribuidora: Walt Disney Studios

 

Terra selvagem (2017)

Por André Dick

Responsável pelo roteiro de dois filmes aclamados nos últimos anos, Sicario – Terra de ninguém e A qualquer custo (indicado ao Oscar de melhor filme), Taylor Sheridan faz sua segunda obra como diretor, depois do terror Vile, neste Terra selvagem. Pode-se perceber um estilo que une os dois filmes que escreveu: ambos tratam de figuras à margem da lei enfrentando policiais ou agentes, seja no México, seja no interior do Texas. Se Sicario tem uma visão familiar quase ausente, em A qualquer custo ela forma a condição dos personagens, mesmo que a certa distância. São dois trabalhos certamente interessantes e, mesmo com algumas facilitações (não tanto aquele dirigido por Villeneuve), importantes para o cinema norte-americano nos últimos anos por transcender a fronteira previsível do gênero policial.

Em Terra selvagem, durante o inverno, na reserva indígena Wind River, localizada no Wyoming, o corpo da jovem Natalie Hanson (Kelsey Chow) é descoberto no gelo por Cory Lambert (Jeremy Renner). A primeira sequência oferece uma grande vitalidade para essa atmosfera, com o luar iluminando uma planície gelada com montanhas ao fundo. Mistério desenhado, para investigar o crime, chega à reserva uma nova agente do FBI, Jane Banner (Elizabeth Olsen). Ela precisa determinar se foi um assassinato para que o governo seja responsável pela investigação e conhece o xerife Ben (Graham Greene), à frente de um departamento que precisa de ajuda.
Martin (Gil Birmingham), o pai da vítima, é amigo de Cory e ambos têm em comum o olhar distante para as montanhas. Nas investigações, descobre-se que um irmão de Natalie, Chip (Martin Sensmeier), está envolvido com drogas. Escolhido como um ajudante na procura ao culpado, Lambert foi casado com uma mulher de origem indígena, Wilma (Julia Jones), com quem teve um filho, Casey (Teo Briones) e o acontecimento o faz recordar de um momento definitivo de sua vida, capaz de acentuar ainda mais a tragédia acontecida na reserva. E, com o chapéu de cowboy num ambiente gelado, ele faz lembrar por que Sheridan escreveu A qualquer custo, com sua retomada de um gênero capaz de voltar em algumas obras com brilho disperso. No início, quando Cory aparece com seu filho andando a cavalo é possível lembrar de antigas obras.

Tudo em Terra selvagem converge para o fato de que os personagens estão inseridos num ambiente sem saída, em que, segundo um dos personagens, não há nada para fazer. Mais ainda: estão à espera de uma união familiar. A maneira como lidam com os fantasmas pessoais não foge a esse cenário, e a trama tradicional de investigação fica em segundo plano para exatamente configurar o cenário de modo intenso. Sheridan utiliza a câmera trêmula em muitos momentos para dar uma vitalidade especial à narrativa e, se lhe falta a simetria de Villeneuve, em Sicario, ele consegue extrair atuações raras de Renner e Olsen, mesmo com poucos diálogos. Particularmente, Renner é muito convincente, entregando sua melhor atuação desde Guerra ao terror e não tão discreto quanto em A chegada (no qual aparecia bem). O cenário do Wyoming remete a O portal do paraíso, o clássico de Michael Cimino, em que se tratava da disputa por territórios e perseguição a estrangeiros. Embora Sheridan não se centralize na questão de territórios indígenas, existe aqui um sentido de perseguição secular e de uma injustiça nunca possível de ser resolvida.
Em Terra selvagem, os personagens de origem indígena são muito bem desenhados e interpretados, por Greene (de Dança com lobos) e Birmingham, que já aparecia em A qualquer custo, no qual a amizade entre o personagem que esse ator fazia e o investigador feito por Jeff Bridges remete a alguns momentos deste. Há também uma influência nítida de À procura, de Atom Egoyan, principalmente na maneira como o cenário desolado, com a colaboração da fotografia de Ben Richardson (que já fez um trabalho ótimo em Indomável sonhadora e Castelo de areia), se mostra como uma extensão dos personagens. Sheridan usa panorâmicas para mostrar o isolamento dessa vida inóspita, porém com o objetivo final e acertado de nunca se aproximar demais dessas figuras. Elas se mantêm afastadas umas das outras e o que as aproxima não fica exatamente claro.Talvez o momento mais íntimo de Cory seja justamente aquele em que relata o passado e isso ajuda a explicar muitas de suas reações.

Sheridan recebeu o prêmio de melhor diretor na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes deste ano e certamente seu trabalho se expõe de maneira talentosa. Um dos melhores elementos para mostrar se estamos diante de um talento na direção é a maneira como ele insere o espectador na atmosfera do que mostra. Terra selvagem tem um certo impasse no início, mas, à medida que surge a agente do FBI, e ela dialoga com a personagem de Blunt em Sicario, um tanto desajeitada, embora não tão séria, sabemos que a narrativa segue um padrão mais original. E a maneira como Sheridan filma os tiroteios tem uma força inegável, trazendo impacto às sequências, com a colaboração da trilha sonora de Nick Cave e Warren Ellis. Apenas se lamenta que o arco dos personagens pareça um pouco incompleto, mas esta já era uma sensação dos outros filmes que Sheridan roteirizou. O  importante não seria exatamente o que veio fazer a agente no FBI na reserva indígena, e sim os temas por trás dessa vinda: a união familiar, o passado, a solidão, a angústia de conhecer um crime cometido de forma terrivelmente cruel. É uma sensação de incompletude que acaba dando uma ideia apenas de uma certa etapa na vida dessas figuras e não tira, de qualquer maneira, a beleza de um thriller filmado num lugar incomum e que lida com questões vitais de cada indivíduo.

Wind river, EUA, 2017 Diretor: Taylor Sheridan Elenco: Jeremy Renner, Elizabeth Olsen, Gil Birmingham, Jon Bernthal, Julia Jones, Kelsey Chow, Graham Greene, Martin Sensmeier, Teo Briones Roteiro: Taylor Sheridan Fotografia: Ben Richardson Trilha Sonora: Nick Cave, Warren Ellis Produção: Matthew George, Basil Iwanyk, Peter Berg, Wayne L. Rogers Duração: 111 min. Estúdio: Acacia Entertainment, Savvy Media Holdings, Thunder Road Pictures, Film 44 Distribuidora: The Weinstein Company

Capitão América – Guerra Civil (2016)

Por André Dick

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Se o primeiro filme da nova fase de Capitão América era dirigido pelo competente Joe Johnston, um especialista em obras de fantasia, com uma ótima ambientação e uma atuação excelente de Stanley Tucci, a sua continuação, Capitão América 2 – O soldado invernal, parecia indicar realmente uma narrativa diferenciada, com toques de thriller de espionagem e uma cena de luta coreografada num elevador. Chris Evans se tornou uma boa referência para o personagem depois do primeiro filme de Joe Johnston – em que o destaque era o início, mostrando o surgimento do personagem – e Scarlett Johansson novamente tinha boa presença.
Apesar de ótimas cenas de ação, há uma sensação incômoda de que o visual da segunda parte de Capitão América tende a lembrar mais a de um telefilme do que a imaginação do primeiro, claramente causado pela mudança de cenário; no entanto, ela é brusca e o design de produção não é atraente para os olhos, assim como a fotografia. Ao final, os efeitos especiais e as cenas de ação lembravam Os vingadores de forma demasiada para dar a sensação de que havia realmente algo original a ser visto nele – embora tivéssemos a atuação de Robert Redford e Samuel L. Jackson cumprindo bem o seu papel.

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No entanto, o que realmente decepciona no segundo filme é a direção dos irmãos Joe e Anthony Russo, mais interessada em seguir o roteiro da Marvel do que investir naquele caminho que apresentam na primeira hora – quando há até um pouco de elementos autorais. Nesta terceira parte, Capitão América – Guerra Civil, novamente dirigida por eles, temos já desenhado o duelo – demarcado principalmente por certa cota da crítica – entre o que seria o estilo da Marvel e o da DC Comics. Mesmo com os três Homem de Ferro, os dois Hulk e Thor, é este o momento em que Batman enfrenta Superman no cinema e as comparações passam a ser do filme de Snyder com a obra dos irmãos Russo. E um fato notável: cada peça lançada de super-heróis da Marvel passa a ser a maior já feita no gênero, parecendo ignorar o que já fizeram cineastas como Tim Burton, Richard Donner, Richard Lester, Ang Lee, Edgar Wright, Jon Favreau, Kenneth Branagh, Sam Raimi, Cristopher Nolan e aquele ao qual foi entregue, inadvertidamente, a placa de prepotência desse universo: Zack Snyder. Não passa a ser desconhecimento, e sim uma consciente e infeliz falta de memória.
Nos dois primeiros Capitão América, faltava uma ligação mais interessante do personagem com os outros; ele se sentia sempre isolado, em conflito, mesmo como Steve Rogers, afora seu interessante contato com o criador feito por Stanley Tucci – e a série passa de uma quase fantasia do primeiro para um thriller no segundo. É um personagem sem o carisma dos outros, principalmente Stark, embora Evans faça o possível para tornar seus diálogos ágeis e seja, digamos, a parte mais melancólica do grupo, devido a ser alguém do passado vivendo numa época turbulenta.

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Aqui os irmãos Russo colocam o personagem numa situação delicada: ele quer defender seu amigo de longa data, Bucky Barnes (Sebastian Stan), o soldado invernal, capturado e transformado pela Hydra em assassino, do que ele imagina ser uma conspiração. Para complicar, houve um problema num país no Quênia, África do Sul, provocado tanto pelo Capitão América quanto pelo Falcão (Anthony Mackie), Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen) e a Viúva Negra (Scarlett Johansson).  Causam um certo alvoroço e o governo dos Estados Unidos, pela figura do secretário de Estado Thaddeus Ross (William Hurt), ex-general e inimigo de Hulk, deseja enquadrar os vingadores. A partir daí, o mote é a lembrança do que eles já fizeram nos filmes anteriores – sobretudo em Nova York e em Sarkovia. Stark se encontra num momento particularmente difícil e parece longe seu desafio às autoridades sobretudo de Homem do ferro 2, quando ele pretende privatizar a paz mundial. Aqui, ele parece mais preocupado em acertar um determinado acordo com a ONU e convencer o Capitão América – com quem se desentende desde o primeiro Os vingadores – que surge principalmente nas figuras de T’Chaka (John Kani) e seu filho T’Challa (Chadwick Boseman). Em meio a tudo, surge uma figura chamada Helmut Zemo (o talentoso Daniel Brühl, inevitavelmente desperdiçado).
Os irmãos Russo, como no segundo filme, apresentam uma primeira hora de grande qualidade, com uma colocação acertada dos personagens e uma trama misteriosa que está no nível dos bons thrillers. Eles sabem fazer cenas de contato físico aproximado, o que não é uma especialidade de Joss Whedon, mais interessado na grandiosidade dos cenários, principalmente nas batalhas finais dos dois Os vingadores. Os irmãos Russo também possuem um bom ouvido para o diálogo; ele não soa forçado, mesmo que as situações pareçam excessivamente implausíveis. Porém, eles não apresentam o que seria um diferencial no gênero da fantasia: a ambientação.

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Tudo neste Capitão América, como no anterior, se passa em cenários duramente reais, sem um design de produção atraente. Por isso, a comparação deste estilo com o de Zack Snyder – o diretor que, junto a Nolan, projetou o visual dos filmes da DC Comics –, um criador com toque visual delirante, é improvável e deslocada. O que eles mostram aqui é uma deliberada ponte entre o humor e a ação, a especialidade de Joss Whedon, ou seja, não há evolução aqui como deseja parte da crítica e do público, aceitem ou não seus críticos, e um interesse em tratar da política e do modo como a segurança é vista – ou deve ser vista – em relação ao ser humano, embora esse tema não chegue a ser original.
Por estarem incumbidos de apresentar um filme com uma quantidade insuspeita de heróis – e talvez falar neles possa remeter a spoilers –, eles tentam facilitar as coisas assumindo tudo numa única sequência que surpreende pela coreografia impecável das lutas e por um efeito visual específico, mesmo que sem nenhum tom de ameaça (pelo contrário, os personagens parecem apenas se apresentar para o próximo episódio) e cujo cenário é absolutamente comum, sem nenhuma criatividade. Se é isso que certa crítica aponta como sendo o problema de Snyder (o CGI), pode-se dizer que estamos falando de outra coisa: a decisão da Marvel de fazer uma ambientação seca, sem, inclusive, o que víamos nos dois Thor, torna suas produções visualmente muito limitadas. Tanto que, quando em determinado momento (spoiler), surge uma prisão marítima espetacular, parece que o espectador adentra em outro filme (se fosse em Snyder, certamente a concepção da prisão seria excessivamente dark).

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Em termos de simbologia, também não há qualquer semelhança dos irmãos Russo com Snyder. Capitão América é um personagem envolvido com corporações, mas sua dedicação à amizade coloca em xeque sua amizade exatamente com alguns companheiros de batalha. No entanto, enquanto Snyder aprofunda o fato de que os heróis não são assim porque querem, a alegria dos heróis da Marvel é justamente serem o que são. Não ver essas diferenças é uma desonestidade consciente, quando Capitão América, em seus melhores momentos, entrega um ritmo não no nível de Whedon ou mesmo do Homem-formiga – particularmente o maior acerto da companhia –, mas de um filme de ação muito bem feito. Ainda assim, faltam motivações claras por parte do vilão, além de ele se distanciar da narrativa com um tempo considerável para quase ser esquecido, e nenhum até agora conseguiu se equivaler ou superar o Loki de Tom Hiddleston – e William Hurt, com sua habitual competência, acaba assumindo às vezes o posto de forma involuntária. Isso é contrabalançado por Chris Evans e por um ótimo Robert Downey Jr., em participação superior às que apresenta no terceiro Homem de Ferro e no segundo Os vingadores – e o ator aparece no início do filme em versão jovem revolucionária, como se estivesse em De volta às aulas ou Mulher nota mil.
Embora Capitão América – Guerra Civil sobreviva muito bem às duas primeiras partes, sendo o melhor por diferença considerável, há alguns elementos que poderiam ser melhor trabalhados no sentido, principalmente, psicológico. A maneira como Stark se aprofunda em sua memória poderia ser melhor trabalhada, em relação como a maneira que o Capitão América tenta proteger um amigo por ser, na verdade, seu único elo vivo com o passado. Stark é o homem da modernidade e o Capitão América se conserva com certo classicismo. A Viúva Negra fica procurando por uma conciliação, mas é difícil quando os comportamentos são opostos. Isso não fica empregado do melhor modo pelos irmãos Russo, pela necessidade de incluir tantos super-heróis, embora eles consigam delinear as relações entre os personagens com desenvoltura, tudo acaba parecendo disperso, mesmo que em ritmo adequado (poucas vezes se repara na excessiva metragem) e com um final realmente surpreendente e que costura algumas tramas paralelas do melhor modo. No entanto, o que é um filme divertido não significa ser de fato superior aos outros, mesmo aos da Marvel, apenas para os que não viram (realmente) os de Whedon, Branagh, Ang Lee: como a presença de Stan Lee, as cartas estão sempre marcadas.

Captain America: War civil, EUA, 2016 Diretores: Anthony Russo, Joe Russo Elenco: Chris Evans, Robert Downey Jr., Scarlett Johansson, Sebastian Stan, Anthony Mackie, Don Cheadle, Jeremy Renner, Chadwick Boseman, Elizabeth Olsen, Paul Bettany, Daniel Brühl, Paul Rudd, William Hurt  Roteiro: Christopher Markus, Jack Kirby, Joe Simon, Stephen McFeely Fotografia: Trent Opaloch Trilha Sonora: Henry Jackman Produção: Kevin Feige Duração: 146 min. Distribuidora: Walt Disney Pictures Estúdio: Marvel Entertainment / Marvel Studios

Cotação 3 estrelas

 

Vingadores – Era de Ultron (2015)

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Desde o grande sucesso do primeiro Os vingadores, a mobilização dos estúdios Disney e da Marvel para os filmes dos super-heróis ligados a esta franquia tem sido mais assídua. Logo após os acontecimentos que colocaram Nova York em estado de alerta para possíveis invasões vindas do espaço, foi lançado Homem de ferro 3, seguido por Thor – O mundo sombrio e, no ano passado, Capitão América 2 – O soldado invernal, com a presença também da Viúva Negra. Além desta e do Gavião Arqueiro, Hulk também continua ainda sem o filme próprio com Mark Ruffalo, levando em conta que tem as versões com Eric Bana e Edward Norton. Se Os vingadores continua ainda sendo confundido com uma marca, mais do que uma obra ou adaptação de história em quadrinhos de Stan Lee, e se queira às vezes considerá-lo como mais um blockbuster, deve-se dizer que Vingadores – Era de Ultron traz Joss Whedon ainda tentando lidar com suas primeiras impressões como diretor, mesmo que nesse intervalo tenha feito Muito barulho por nada, uma adaptação moderna de Shakespeare e em preto e branco. Whedon, antes de ganhar esta oportunidade, era mais conhecido como o criador da série Buffy – A caça-vampiros e roteirista de Toy Story, e, de certo modo, tem um manancial de escolhas depois de realizar a primeira parte, entre elas a de lidar com atores que possuem uma carreira própria e mesmo em filmes ditos de público mais restrito, como Scarlett Johansson em Ela e Sob a pele; Ruffalo em Margaret e Mesmo se nada der certo; e Hemsworth em Rush e Hacker. Isso oferece a ele um caminho interessante, de colocar atores não normalmente vistos neste gênero – apesar de também terem suas trajetórias ligadas a ele, como Hemsworth – no centro da ação.

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Na primeira parte de Vingadores, Whedon revela uma determinada tentativa de já colocar todos os personagens em ação, literalmente invadindo a tela num salto em conjunto, numa missão a Sokovia, país fictício do leste europeu, em combate ao Barão Wolfhang von Strucker (Thomas Kretschmann). Ao invés de coordenar um grupo de experiência com outro intuito – político –, o barão Strucker está à frente de uma equipe que tem usado o cetro usado por Loki e como resultado de sua experiência com humanos, ligada à Hydra, os gêmeos Pietro (Aaron Taylor-Johnson) e Wanda Maximoff (Elizabeth Olsen) adquirem super-poderes. Esta passagem por Sokovia antecede uma série de experiências que o próprio Stark tentará fazer, com a ajuda do Dr. Banner, o que pode colocar em risco não apenas o seu grupo, como a própria humanidade – e aqui Whedon desliza para uma discussão que vem desde o primeiro filme de Homem de ferro: até onde pode ir a ciência para que não se coloque em risco a humanidade, envolvendo Jarvis (Paul Bettany), o sistema com inteligência artificial de Stark.
No entanto, os vingadores estão dispostos a fazer uma pausa, e compartilham uma festa na mansão de Stark; nesta longa sequência, desenham-se alguns caminhos tanto para a narrativa presente quanto para os próximos, que incluem não apenas Steve Rogers, o Capitão América, com seu amigo Sam Wilson (Anthony Mackie), que aparece em O soldado invernal, como também a relação entre Bruce Banner e Natasha Romanoff, a “Viúva Negra” (Scarlett Johansson), e a amizade de Stark por James Rhodes (Don Cheadle). Há uma tentativa clara de Whedon, também, em esclarecer o paradeiro de outros personagens que não aparecem aqui, como Pepper Potts (Gwyneth Paltrow) e Jane (Natalie Portman) e, nessa preocupação, se esvaem alguns minutos que certamente não compreenderiam a história, pois se trata de uma explicação estranha, à medida que, por um lado, pode não ter havido espaço no roteiro ou simplesmente as duas atrizes não puderam interpretá-las.

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Essas explicações, ao mesmo tempo que soam necessárias para quem acompanha todos os filmes de Marvel, fazem com que o roteiro se desvie em alguns momentos de seu foco principal. Mas, se há uma qualidade que já havia ficado clara com o primeiro Os vingadores é que Whedon tem uma disposição de desenvolver esses personagens em dois planos: o da mitologia e o da humanidade. Desta vez, ele coloca os heróis não apenas diante de uma ameaça enigmática, que pode colocar a ciência em xeque, como também em contrapor e unir todos em relação aos gêmeos. Nisso, há imagens estranhas do passado ou possível futuro de cada um, o que remete a Linha mortal, em que jovens faziam experiências com a morte e eram atormentados por visões estranhas e que poderiam, inclusive, defini-los, o que era incentivado no primeiro filme por Philip Coulson (Clark Gregg). Embora este recurso se fundamente em desvios da trama, esses acabam servindo como impulso para uma das melhores sequências, que se liga a um ambiente campestre e no qual podemos ter uma divisão da trama antes de uma grande contribuição de Whedon para o cinema de ação (além de criar um diálogo com a ficção científica Interestelar, em que um aviador se escondia na pele de um fazendeiro e poderia ajudar a humanidade a se salvar de um desastre). Se as cenas de ação dos filmes dos heróis isolados parecem interessantes, nenhuma soa tão grandiosa quanto aquelas que víamos em Os vingadores.
Nesse sentido, Vingadores – Era de Ultron não fica a dever para seu antecessor: enquanto seu primeiro ato parece preparar a história para algo maior, como o primeiro, as duas partes finais soam tão boas ou ainda melhores do que as da primeira parte, não apenas pelo fluxo oferecido por Whedon – em alternar explosões e perseguições com um verdadeiro sentimento de perigo e humanidade empregada nas sitações –, como em igual intensidade pelo visual magnífico, que soa original e espetacular, com o auxílio da fotografia de Ben Davis (o mesmo de Guardiões da galáxia), e pela atuação do elenco,

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Em meio às sequências de ação, há uma sucessão contínua de traços de humor, no entanto, pendendo mais para a série Thor do que para o terceiro Homem de ferro, eles conseguem dar uma solidez para a narrativa. Whedon tem uma agilidade grande em captar essas cenas sem que elas pareçam exageradas ou desprovidas de algum elemento humano, e neste ponto o que poderia ser apontado como desconexão entre algumas linhas de roteiro se transforma naquilo que é essência: esses heróis, para Whedon, são mitológicos e trabalham com as mesmas emoções básicas, sobretudo o medo da morte e de realmente transformar o mundo. É interessante como, aqui, todos ganham linhas de roteiro apontando esse sentimento, sobretudo Romanoff, Banner, Rogers e Stark: eles estão, de certo modo, sempre ligados ao passado – e a única maneira apontada para uma condição de satisfação humana é aquela do Arqueiro. Este, inclusive, ressoa uma fala de Coulson do primeiro Os vingadores quando trata do uniforme feito para Steve Rogers. Mas, se Banner e Stark parecem sempre estar com o pensamento no que podem criar de novo no laboratório, Rogers se encontra encapsulado nos anos 40, dos quais foi obrigado a se distanciar, assim como os gêmeos não conseguem esquecer a imagem gravada na infância do nome Stark, e Romanoff tem receio do que as visões podem lhe mostrar sobre ser uma assassina letal. No caso dela, acalmar Banner não é apenas uma ironia do destino quando ela, de fato, não atinge nenhuma tranquilidade.
Todos os super-heróis conseguiram desenvolver também, com a ajuda dos filmes próprios, uma personalidade características, e são auxiliados pelas atuações de Johansson, Hemsworth e Evans, além de Ruffalo e Renner (que no anterior passava quase toda a metragem sob domínio de Loki). Downey Jr. não desaponta no papel, entretanto é cada vez mais visível seu desconforto, assim como no terceiro Homem de ferro. Não apenas pelo roteiro, é exatamente o personagem de Banner que mais se destaca, muito pela presença de Ruffalo, cuja atuação mais interessante é aquele empregada em Zodíaco, mas que consegue, aqui, seguir na linha de Bill Bixby, da série de TV.

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Embora faça falta exatamente Loki (em razão do ótimo ator Tom Hiddleston), o vilão deste filme, por causa da voz de James Spader, soa com um fundo ameaçador, ainda que não totalmente desenvolvido por causa da quantidade de perspectivas que a narrativa adota, com ações ocorrendo ao mesmo tempo e em lugares diferentes, com vários personagens. Ainda assim, mesmo os coadjuvantes, como o próprio Aaron Taylor-Johnson, Olsen, Claudia Kim (como a cientista Helen Cho), Andy Serkis (como o traficante de armas Ulysses Klaw) e Cobie Smulers (como Maria Hill) estão bem em seus respectivos papéis, além de uma inesperada Linda Cardellini (da saudosa série Freaks and geeks) num papel discreto, mas eficiente. Este conjunto muitas vezes consegue levar o roteiro de Whedon para um estágio em que os vínculos entre as pessoas podem ser o único motivo, como no primeiro Os vingadores, de a humanidade ter, realmente, a sua sobrevivência. E, como o primeiro, o fato de este ter quase duas horas e meia não registra o tempo transcorrido: se o espectador está disposto a se entregar a um universo desta espécie, verá um grande encontro, já desde a primeira sequência.

Avengers: age of Ultron, EUA, 2015 Diretor: Joss Whedon Elenco: Robert Downey Jr.,  Scarlett Johansson, Jeremy Renner, Mark Ruffalo, Chris Evans, Chris Hemsworth, Aaron Taylor-Johnson, Andy Serkis, Anthony Mackie, Claudia Kim, Cobie Smulders, Don Cheadle, Elizabeth Olsen, Samuel L. Jackson, Idris Elba, James Spader,  Linda Cardellini, Paul Bettany, Stan Lee, Stellan Skarsgård Roteiro: Joss Whedon Fotografia: Ben Davis Trilha Sonora: Danny Elfman e Brian Tyler Produção: Kevin Feige Duração: 141 min. Distribuidora: Walt Disney Pictures Estúdio: Marvel Studios

Cotação 4 estrelas

Godzilla (2014)

Por André Dick

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Desde o trailer, esperava-se que este novo Godzilla trouxesse uma mistura entre ação e narrativa envolvente, sobretudo para quem apreciou Círculo de fogo, em 2013. Com isso, o diretor Gareth Edwards tenta buscar elementos em J.J. Abrams – que se especializou em monstros na produção de Cloverfield e na direção de Super 8 – e Guillermo del Toro. No entanto, ele se depara pelo caminho com outros cineastas ainda mais interessados na destruição de uma cidade, em colocar militares a cada perímetro e em fazer de dutos do subsolo a única passagem para os cidadãos: Michael Bay e Roland Emmerich. Dificilmente se vê um filme com uma campanha de marketing tão assídua como o novo Godzilla, que surge para tentar apagar a visão que deixou com a versão de Emmerich, do final dos anos 90.
Exatamente no final dessa década, os cientistas Dr. Ichiro Serizawa (Ken Watanabe) e Vivienne Graham (Sally Hawkins) vão a uma mina nas Filipinas a fim de investigar a descoberta de um esqueleto gigante naquela parte do filme que mais lembra o início de Prometheus. Enquanto isso, no Japão, Joe Brody (Bryan Cranston) e Sandra (Julieta Binoche), sua esposa, estão às voltas com transtornos sísmicos na usina nuclear onde trabalham. Quinze anos depois desse acontecimento, o filho de Joe e Sandra, Ford Brody, está na América, mais especificamente em San Francisco casado com Elle (Elizabeth Olsen) e pai de um menino, Sam (Carson Bolde). Ele trabalha na Marinha, tendo como superior o Almirante Stenz (David Strathairn). No entanto, seu pai requer cuidados, vivendo ainda no Japão e visto como alguém no mínimo problemático. Os arcos estão desenhados: um filho afastado do pai; o pai afastado do mundo; e uma dupla de cientistas que sabe de algo misterioso.

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As presenças de Bryan Cranston e Juliette Binoche, ambos de talento insuspeito, tentam acrescentar um elemento dramático – e sobretudo a segunda consegue um momento de humanidade numa obra que parecia pronta para agradar ao grande público –, no entanto são coadjuvantes. Isso significa que Ford Brody, com o mesmo script de Gerry Lane (Guerra Mundial Z), interpretado por Aaron Taylor-Johnson, o “herói”, terá mais tempo de tela na narrativa. A ameaça se cumpre: embora com menos presença do que Godzilla e o inimigo que ele combate (a figura imponente desta vez não é o vilão), temos a presença permanente de Brody. Não apenas seu nome aliterativo chama a atenção, como também tem ao menos uma frase antológica: diante de imagens de Godzilla, ele constata, um tanto preocupado: “É um monstro”. Taylor-Johnson é conhecido pela série Kick-Ass, mas foi em Anna Karenina que mais suscitou críticas, quando, paradoxalmente, faz um papel dentro do que se impõe o personagem. Não se trata de um mau ator, e às vezes tem-se a impressão de que ele tem vontade de rir das próprias linhas de diálogo que escapam dele; em Godzilla ele certamente tenta passar para o campo dos atores que abandonam qualquer gênero para se dedicar à ação. Trata-se, certamente, de uma imperícia dos roteiristas em não conseguir uma linha de diálogos plausível – mas, se houver tranquilidade, o espectador pode definir se tudo não passa de algo pensado por Jim Abrahams, Jerry e David Zucker, embora sem a mesma graça.
O mais curioso é perceber que, mesmo com o desastre cinematográfico literal que certamente marca sua passagem, há quem perceba o filme, sobretudo nos Estados Unidos, como superior a blockbusters do passado, como Além da escuridão – Star Trek, e mesmo este ano a RoboCop, de Padilha, com elogios a um dos diretores menos talentosos a surgirem em Hollywood em muitos anos, com dificuldade de trabalhar com a câmera ou de desenvolver um diálogo saboroso. Ou seja, há análises procurando o que certamente o filme não oferece: uma história minimamente interessante. Mas é ainda mais, pois Godzilla é uma reunião de partes de filmes diferentes, sem um momento preciso de envolvimento com os personagens. Cada movimento parece feito num laboratório de montagem de blockbusters e, nesse sentido, o roteiro é recortado a ponto de ser possível descobrir onde efetuaram um corte para que fosse incluída uma frase expositiva, a fim de tentar resumir o conceito de alguns personagens.

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Godzilla acaba ganhando, assim, um apanhado genérico, desde a movimentação de câmera (também querendo dialogar com Paul Greengrass) até o próprio surgimento dos monstros – e o gráfico das imagens vai de O dia depois de amanhã, passando por 2012, até Cloverfield, O homem de aço, Batman – O cavaleiro das trevas ressurge e mesmo A hora mais escura (nos vinte minutos finais), e recuando para o próprio filme de Emmerich – aqui sem a insistência da chuva. É neste ponto que se percebe a diferença em relação a um filme que tem um autor por trás. Em Círculo de fogo, pode-se até falar dos personagens levemente superficiais, mas tudo nele caminha junto, pois é pensado por um cineasta criativo, Guillermo del Toro, além de sua capacidade de fazer um visual fantástico, com um design de produção notável, principalmente nas batalhas dos robôs contra os Kaiju. E um filme de monstros não significa necessariamente que só deve ter destruição e os monstros em cena – em Godzilla, por outro lado, os monstros pouco aparecem, praticamente apenas na terceira parte, quando, diante das atuações inexpressivas, do roteiro, do CGI e das maquetes, o espectador precisa demonstrar uma resistência hercúlea, parecida com a dos monstros.
Em termos de mitologia do Godzilla, nada parece recuperar a nostalgia dos anos 50 ou 60 e, a meu ver, não faz jus a nada que veio antes, com mais nostalgia e capacidade visual. E ao menos no filme de 1998 tínhamos Ferris Bueller tentando salvar Nova York, com um francês cômico (Jean Reno) e um prefeito pensando apenas na sua eleição (Michael Lerner). Além disso, tinha algumas pérolas em sua trilha sonora (uma regravação de David Bowie, por exemplo) e rendeu um videoclipe icônico de Jamiroquai dançando dentro de um cinema com as cadeiras embaixo d’água depois da passagem do monstro. Aqui, temos algumas referências com viés reflexivo à Bomba de Hiroshima e ao tsunami do Oceano Índico (em momentos que lembram O impossível), mas Gareth Edwards não propicia um instante de real emoção e coloca o elenco como parte de uma engrenagem inexistente (difícil não poder se referir às atuações de Ken Watanabe e Sally Hawkins, esquecidos a partir de determinado instante). A parte final, com um festival de efeitos especiais, com todos os seus decibéis, não passa de uma coda silenciosa e, com cuidado e elaboração, Godzilla adentra numa espécie de metalinguagem: dificilmente um filme como o de Edwards consegue se tornar uma calamidade pública tanto dentro quanto fora da tela, redefinindo, em larga escala, o conceito de “disaster film”.

Godzilla, EUA, 2014 Diretor: Gareth Edwards Elenco: Aaron Taylor-Johnson, Ken Watanabe, Elizabeth Olsen, Juliette Binoche, Bryan Cranston, Sally Hawkins, David Strathairn, Richard T. Jones Roteiro: David Callaham, David S. Goyer, Max Borenstein Fotografia: Seamus McGarvey Trilha Sonora: Alexandre Desplat Produção: Brian Rogers, Dan Lin, Jon Jashni, Roy Lee, Thomas Tull Duração: 123 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Legendary Pictures / Lin Pictures / Toho Company / Vertigo Entertainment / Warner Bros. Pictures

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