Manchester à beira-mar (2016)

Por André Dick

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Poucos filmes conseguem transformar uma narrativa simples em algo mais elaborado. Lançado em 2011, Margaret, de Kenneth Lonergan, tinha essa qualidade. A nova obra do diretor, Manchester à beira-mar, também a possui: Lonergan é um cineasta para o qual importam pequenos gestos, algumas reações repentinas e nem sempre explicadas e possui a grande qualidade de extrair atuações interessantes de seu elenco. Em Margaret, tínhamos grandes atuações de Anna Paquin e Mark Ruffalo, além de trazer Matt Damon e Allison Janney, numa história que mesclava a necessidade de responder por um momento importante para a vida de várias pessoas, assim como o despontar de uma jovem para a vida adulta de maneira irremediável.
Já em Manchester, a narrativa se concentra na trajetória de Lee Chandler (Casey Affleck), que trabalha, muito a contragosto, como zelador em Quincy, Massachusetts. Lidando com certa antipatia com clientes, ele, depois do trabalho, costuma ir ao bar e esquecer das questões que o envolvem. Num determinado dia, ele recebe a notícia, por meio de George (CJ Wilson), de que seu irmão Joe (Kyle Chandler), dono de um navio pesqueiro em Manchester, na costa de Massachusetts, sofreu um ataque cardíaco. O reconhecimento do corpo é o início para se reconhecer o que Lee enfrentou na vida pessoal para que chegasse até ali. Isso o faz voltar para a cidade de onde veio, a fim de encontrar o filho de Joe, Patrick (Lucas Hedges). Nesse lugar, por meio de lembranças, ficamos sabendo que Lee constituía uma família com Randi (Michelle Williams).

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Lonergan utiliza a estrutura de um filme de Atom Egoyan, com inúmeros flashbacks, para construir um panorama ao redor da existência de Lee e sua relação problemática com a família. Affleck entrega uma atuação competente, embora não à altura de todas as premiações, e Michelle é uma coadjuvante de luxo. Por sua vez, Hedges faz o adolescente com problemas de maneira interessante, embora se sinta que sua relação com duas meninas, Sandy (Anna Baryshnikov), que toca com ele numa banda indie, e Silvie McGann (Kara Hayward, de Moonrise Kingdom), soa em demasia um complemento forçado à narrativa, em que Lee é o destaque, assim como sua relação com a mãe, Elise (Gretchen Mol), que não participa de seu dia a dia e teve problemas com álcool. A ligação com o sobrinho é essencial não tanto para descobrirmos as motivações de Lee, mas para Lonergan trabalhar com o interesse pelo tema da adolescência já exibido em Margaret na relação entre os personagens de Paquin e Kieran Culkin.
Lee, especificamente, é o personagem que todo ator pede: difícil, complexo e com questões a resolver. Casey Affleck funciona mais quando ele se mostra indefinido entre ser ou não sociável, mais ao início, revelando um ar entediado, não tanto quanto está disponível para o discurso de relação familiar que Lonergan pretende expor, através, por exemplo, de um objeto como o sofá, no entanto é difícil imaginar que Matt Damon, um dos produtores e cogitado antes para o papel principal, seria adequado, mesmo talentoso (já que fez esse papel algumas vezes em sua carreira).

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Ainda assim, Affleck tem certas nuances que não funcionam num drama tão trágico (ele se mostrava melhor em O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford), nem exatamente há uma química com Hedges, seu sobrinho, a ponto de tornar mais complexa a relação.
Tudo, porém, é mostrado com beleza intensa por Lonergan, em cenários nos quais a frieza é contrária ao que cada um sente, embora não venha, muitas vezes, à superfície. Como nos filmes de Egoyan, o cenário frio é um contraste em relação ao que os personagens escondem – e uma situação interessante é quando Patrick abre a geladeira e tem uma crise emocional ao lembrar do pai. Em outro momento, eles pensam se devem deixar o corpo guardado até que possam enterrá-lo na primavera, quando o gelo já teria derretido. Falta ao contexto, a partir daí, uma emoção maior, sendo tudo calculado como se resultasse das medidas de um artesão, o que Lonergan, por sua tentativa recorrente de estabilizar os personagens por meio das lembranças. Pode-se remeter, nesse sentido, principalmente à sequência em que Lee é avisado de um desejo do irmão e cada vez que ele tenta se desvencilhar é levado para todos os registros que podem explicar seu passado, mesmo sem poder defini-lo, envolvendo Patrick (interpretado quando criança por Ben O’Brien). Esta é a sequência mais baseada na filmografia de Egoyan.

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Depois de estrear no Festival de Sundance e obter grandes críticas, e agora várias indicações ao Oscar, Manchester à beira-mar se sente muitas vezes complexo como Margaret, mas, depois da sessão, talvez ele não seja tão múltiplo, tão discreto quanto gostaria de ser. Isso se manifesta não apenas pela atuação de Affeck e sim por alguns personagens que não se desenvolvem, ficando num plano a que estamos acostumados em outras narrativas. A presença de Chandler, mesmo curta, é sensível – e ele é um ator capaz de surpreender. É seu personagem que, de certo modo, enlaça passado, presente e futuro, e Lonergan indica que algumas vezes o que se torna um exemplo de pedido de confiança não necessariamente obriga o outro a atendê-la, justamente porque a busca particular pela explicação de tudo continua, agraciada pela fotografia tocante de Jody Lee Lipes. É um filme, antes de tudo, sobre como a humanidade é ligada por gerações diferentes, por momentos abrangentes que podem definir essa ligação e como se isso toca cada um.

Manchester by the sea, EUA, 2016 Diretor: Kenneth Lonergan Elenco: Casey Affleck, Lucas Hedges, Kyle Chandler, Michelle Williams, Gretchen Mol, Tate Donovan, Matthew Broderick Roteiro: Kenneth Lonergan Fotografia: Jody Lee Lipes Trilha Sonora: Lesley Barber Produção: Chris Moore, Kevin J. Walsh, Kimberly Steward, Lauren Beck, Matt Damon Duração: 135 min. Distribuidora: Sony Estúdio: B Story / Big Indie Pictures / CMP / K Period Media / Pearl Street Films / The Affleck/Middleton Project

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Interestelar (2014)

Por André Dick

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O gênero de ficção científica costuma ter como parâmetro, quando se trata sobretudo de uma equipe de astronautas viajando ao espaço, dois filmes: 2001 – Uma odisseia no espaço e Solaris. No entanto, se considerássemos o que Tarkovsky achava do filme de Kubrick, certamente só haveria Solaris como exemplar do gênero e se fôssemos considerar a opinião geral não teria existido outros filmes depois, tão interessantes, a exemplo do recente Gravidade e da esquecida obra-prima Os eleitos. Quando Tarantino afirma que não esperava, com o recente Interestelar, de Christopher Nolan, o aprofundamento de obras como 2001 e Solaris, já sabemos que o filme de Nolan terá como ponto de comparação esses dois, pelo menos para quem calcula as probabilidades do filme para as categorias do Oscar. Para Nolan, o ponto de comparação parece um privilégio, à medida que ele é considerado um cineasta de grande estúdio, talhado para fazer blockbusters conceituais, pelo menos desde Batman – O cavaleiro das trevas e A origem.
Interestelar, em termos visuais, pode não superar o antológico 2001, mas colocá-lo em ponto de comparação com Solaris, mesmo considerando a época em que este foi feito, é uma injustiça com Nolan, o cineasta de blockbusters certamente com mais requinte visual. Se não há uma correspondência efetiva entre experiência e história em Amnésia e  A origem se sustenta mais em suas imagens inesquecíveis do que numa qualidade narrativa, assim como O grande truque se baseia numa ideia de montagem enigmática, ele conseguiu transformar Batman, no primeiro filme e em seu último, num herói bastante interessante, com o auxílio da fotografia notável de Wally Pfister.

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Tarkovsky era um excelente cineasta de imagens naturais, como em O espelho e Nostalgia – obras belíssimas –, mas sua visão do universo científico não tinha interessante o suficiente para desenvolver discussões sobre a influência do planeta Solaris na mente de alguns integrantes de uma estação espacial. O elemento teatral de Tarkovsky não é correspondido por uma montagem e por atuações vigorosas. Cada cena de Solaris traz um manancial de questões – quando, na verdade, estamos diante de algo mecânico e remoto, ou seja, Tarkovsky avaliava que 2001 era “frio”, mas é exatamente seu filme que possui essa característica. Perto dele, qualquer filme, e com Interestelar não seria diferente, parece envolver melodramas fáceis.
Em termos de roteiro, Interestelar mistura Os eleitos, Campo dos sonhos e Contato, mas sem diluí-los. Cooper (Matthew McConaughey) trabalhou como piloto de avião, mas depois de um acidente, passou a se dedicar à sua fazenda, onde vive com os dois filhos, Murphy (Mackenzie Foy) e Tom (Timothée Chalamet), e o avô, Donald (John Lithgow). Numa época em que as expedições espaciais caíram em descrédito e uma praga tem atormentado a vida na fazenda, destruindo as plantações e trazendo correntes de poeira, Cooper espera por um milagre. A filha se inclina a seguir seu interesse pela ciência, enquanto o filho deseja continuar com sua trajetória na fazenda. Ambos são complementares, e daí a Cooper ter contato com um antigo professor, Brand (Michael Caine), Amelia (Anne Hathaway), Romilly (David Gyasi) e Doyle (Wes Bentley), é um passo para o roteiro ir estabelecendo seus caminhos que se destinam ao espaço e às estrelas, numa narrativa capaz de mesclar a estrutura de um sucesso comercial com a física e a filosofia, o que rende diálogos bastante incomuns, alguns com o peso da exposição científica, auxiliada pela presença do físico Kip Thorne e suas teorias. De algum modo, o filme lida de maneira interessante sobre as percepções, pois trata também do conhecimento capaz de transformar, ao contrário do que aponta uma auxiliar da escola de Murphy. Depois de conseguir compor uma unidade visual em torno do mundo dos sonhos em seu A origem, Interestelar estabelece uma ligação entre o espaço e as plantações da fazenda de Cooper. O homem só pode se salvar e se manter como indivíduo quando visualiza algo que está além do seu horizonte e dos planos imediatos. Tudo é simbolizado por meio de uma biblioteca, como se o sentimento da humanidade fosse eternizado nela e nada pudesse escapar ao seu redor. Escapa – mas neste imprevisível Interestelar isso significa adentrar no espaço.

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Chama a atenção como o cineasta, sempre mais ocupado com a arquitetura do que está acontecendo (desde seu interessante filme de estreia Following, que acompanhava uma dupla de assaltantes imprevista), consegue introduzir as questões científicas levantadas numa espécie de emoção em sintonia com uma trilha absolutamente memorável de Hans Zimmer, cujo trabalho consegue recuperar tanto os melhores momentos das sinfonias selecionadas por Kubrick para 2001 quanto várias notas do trabalho de Angelo Badalamenti para David Lynch, fazendo o filme de Nolan adquirir uma intensidade emocional quase ausente em A origem, mas já existente no final espetacular de Batman – O cavaleiro das trevas ressurge, no qual há talvez os melhores momentos isolados da trajetória de Nolan. Há diversos momentos filmados por Nolan com uma capacidade visual e emocional de um grande cineasta, com uma escala épica, fazendo o espectador esquecer possíveis grãos espaciais não tão necessários. Para essa característica, é de vital presença a fotografia de Hoyte Van Hoyteman, que iluminou o universo futurista singular de Ela, de Spike Jonze, além dos efeitos especiais e da direção de arte espetaculares.
Embora Nolan continue um cineasta dividido entre o trabalho que se considera artístico – mais silencioso, voltado às imagens – e o blockbuster – e pelo menos ele não nega essa característica de sua obra –, numa busca pelo vilão de uma história, por exemplo, certamente o ponto mais falho de Interestelar, talvez ele nunca tenha se mostrado também tão ressonante. Pela primeira vez de fato, ele consegue, por meio das interpretações, sintetizar suas ideias a respeito da composição não apenas do universo no sentido cósmico, como também no plano familiar e individual. Para o sucesso efetivo de Nolan, a interpretação de Matthew McConaughey, um pouco marcada no início por seu sotaque característico, é absolutamente verdadeira e menos voltada à emoção registrada pelo físico vista em Clube de compras Dallas; trata-se de uma das grandes atuações do ano, em seu ato derradeiro ao mesmo tempo sentimental e consciente. Menos presente, mas do mesmo modo efetiva, é Anne Hathaway, enquanto Jessica Chastain surge como uma das personagens com mais idade e Michael Caine consegue, com poucos diálogos, traduzir uma ligação com sua filha, em mais uma parceria com o diretor depois da série Batman e de A origem. Além de Mackenzie Foy ser uma boa revelação. Esse elenco consegue, de algum modo aparentemente disperso, traduzir a base do roteiro de Nolan com seu irmão: há mais do que uma visão sobre como o amor une as pessoas no sentido material. Em Interestelar, e poucos filmes conseguem isso com a mesma ênfase e sem reduzir os personagens a símbolos, o amor se revela no plano da memória, mas uma memória sem tempo definido. Filhos encontram pais e vice-versa, mas não sabemos quais são aqueles capazes de demonstrar melhor a memória da humanidade. Podem existir outros planetas, mas quem fornece sentido a eles é a ligação entre seres diferentes. Mesmo que haja uma parcela espetacular nas ações de Interestelar, Nolan está mais interessado na afetividade e no resultado que ela proporciona às pessoas: naves, planetas e buracos de minhoca significam, além da viagem, uma permanência intransferível a cada um de nós.

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Trata-se de um argumento aparentemente simples, mas Nolan, de algum modo, consegue torná-lo sólido apresentando um agrupamento constante de imagens e personagens em situações diferentes, mas interligados por uma constante sensação de procura no espaço e no tempo. A vida e a morte se reproduzem ao mesmo tempo, assim como o gelo de um determinado planeta e o fogo nas plantações. E, mais do que tudo: assim como se tenta salvar a humanidade, pode ser, ao mesmo tempo, que tente se salvar apenas uma família perdida no campo. As tentativas parecem destoar em grandeza, mas, para Nolan, colocando-as lado a lado, são iguais, épicas e históricas, cada um a seu modo. Todas as ações repercutem entre si: aquelas do passado e as do futuro, e Interstelar busca uni-las numa mesma visão.
São várias as passagens de Interestelar em que os pontos de humanidade se mostram interessantes: desde aqueles nos quais os personagens se introduzem num ambiente desconhecido e visualmente fantástico até aqueles nos quais estão divididos entre a permanência com os familiares e a passagem no tempo. Nolan, no que talvez supere toda a sua obra, mostra a base de uma tradição familiar de maneira estranhamente original, ainda baseado em certa iconografia dos Estados Unidos, mas conseguindo desenhar as tentativas de sobrevivência e de manter a figura humanas em lugares diferentes no espaço e no tempo. Trata-se de um caminho próprio: enquanto Kubrick estava interessado no mistério que compreende as estrelas, em nossa origem, Nolan fixa o ponto no fato de que as estrelas podem trazer nossas próprias lembranças, já vividas. Interestelar é justamente sobre a passagem do tempo e a memória reservada às pessoas próximas, de como o sentimento se constrói, na verdade, independente de lugares e da distância. É isso que o torna uma obra tão fascinante.

Interstellar, EUA, 2014 Diretor: Christopher Nolan Elenco: Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Michael Caine, Jessica Chastain, Wes Bentley, John Lithgow, Casey Affleck, David Gyasi, Bill Irwin, Mackenzie Foy, David Oyelowo, Topher Grace, Ellen Burstyn Roteiro: Christopher Nolan, Jonathan Nolan Fotografia: Hoyte Van Hoytema Trilha Sonora: Hans Zimmer Produção: Christopher Nolan, Emma Thomas, Linda Obst Duração: 169 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Lynda Obst Productions / Paramount Pictures / Syncopy / Warner Bros. Pictures

Cotação 5 estrelas