O império contra-ataca (1980)

´Por André Dick

A história do primeiro Star Wars parece seguir uma premissa muito bem costurada: numa galáxia distante, o jovem Luke Skywalker (Mark Hamill), cujo maior sonho é tornar-se um piloto da Aliança Rebelde, vai embora do planeta desértico Tatooine, onde morava com os tios, para resgatar a princesa Leia (Carrie Fisher), capturada por Darth Vader (David Prowse, com a voz de James Earl Jones), o vilão do elmo soturno, que coordena o “império do mal” em sua Estrela da Morte, uma espécie de esfera de metal suspensa no espaço.
Ao lado de Luke, estão o sábio Obi-Wan Kenobi (Alec Guiness), Han Solo (Harrison Ford) e Chewbacca (Peter Mayhew), que possuem a Millennium Falcon, uma nave com problemas de ignição, e a dupla de robôs R2-D2 (Kenny Baker) e C-3PO (Anthony Daniels). A mensagem por trás das palavras de Obi-Wan podem, hoje, parece ingênua– e foi criticada à época principalmente por amigos próximos do diretor –, contudo George Lucas conseguiu sintetizar o panorama de uma geração por meio de suas batalhas estelares e criar um cinema de qualidade para a diversão massificada. Como continuar uma história que parece sintetizar a diversão de uma época muito distante?

Três anos depois, O império contra-ataca surge apontando novos caminhos e expandindo a saga com outros elementos. Com seu início passado no gélido planeta Hoth, onde os rebeldes se escondem no início do filme e que proporciona sequências memoráveis, que valeram o Oscar de efeitos especiais, Irvin Kershner, novo diretor, que havia feito dois anos antes o suspense Os olhos de Laura Mars, introduz Luke numa assustadora caverna onde precisa enfrentar um monstro. A visão é oposta à Tatooine do primeiro filme e a relação entre os personagens avança para uma frente em que Luke e Han Solo entram num embate discreto pela princesa Leia. Há, no entanto, a visão do passado: a imagem de Obi-Wan Kenobi surge num momento derradeiro. Luke, porém, precisa partir para Dagobah, a fim de ter ensinamentos jedi. É o pequeno sábio Yoda (criatura projetada por Lucas e Frank Oz, o mesmo dos Muppets, inspirada em Dersu Uzala, de Kurosawa) , com um direcionamento transcendente, que procura mostrar a ele o caminho da força e do bem, com o objetivo de transformá-lo num guerreiro Jedi. E, embora em Guerra nas estrelas Vader se mostrasse ameaçador, aqui, com a inserção discreta de seu líder Palpatine, ele parece ainda se mover na ameaça, inclusive quando coloca sua nave em perseguição a Millennium Falcon, onde Leia e Solo, graças a Ford e Fisher, revelam uma ótima parceria.

Trata-se de um argumento replicado em Os últimos Jedi, no qual uma caverna pode esconder o outro eu do personagem central, ou seu maior medo. Kershner, por meio de imagens captadas num pântano levantado nos estúdios Pinewood da Inglaterra, transforma Dagobah num lugar fantasmagórico, misterioso e, ao mesmo tempo, acolhedor, por causa da fotografia de Peter Suschitzky, que torna tudo próximo do tátil. São todas as perspectivas da própria série. Ao mesmo tempo, Solo, Leia, Chewbacca e os dos robôs precisam escapar de uma nave do Império, na qual se encontra Darth Vader, rumo à Cidade das Nuvens, onde encontram Lando Calrissian (Billy Dee Williams) – e reservam o design de produção mais próximo da trilogia que Lucas faria depois, a primeira em ordem cronológica.
Luke, após ensinamentos, parte para a Cidade das Nuvens para enfrentar Darth Vader e tem uma revelação surpreendente, essencial para a compreensão da trilogia. Nesse sentido, é como o personagem abandona seu eu antigo e encontra sua nova personalidade, e no mesmo movimento a sequência se estabelece: embora pareça em muitos momentos uma sequência, introduz nela movas ideias.

Talvez o episódio mais instigante da trilogia, O império contra-ataca não desperta a surpresa de Guerra nas estrelas, mas é inovador nos cenários que mostra. Divertido e, em alguns momentos, espetacular, com excelente direção de arte (apresentando detalhes oitentistas em sua concepção de luzes e painéis, mais ao final no duelo), foca a relação existencial entre Luke e Vader, que representa o embate entre o bem e o mal, revelando, por vezes, uma atmosfera sombria, até claustrofóbica em seu labirinto de túneis e passagens, na qual estão presentes razões psicológicas que movem o ser humano, enquanto traz uma vertente mais bem-humorada e, por fim, memorável, da Princesa Leia, de Han Solo, Chewbacca e os robôs. O roteiro de Leigh Brackett e Lawrence Kasdan, baseados numa história de Lucas, consegue delinear de maneira enfática cada personagem – e torna cada figura interessante. Há pelo menos um par de cenas depois de Vader confrontar Han Solo que remete a uma ideia de herói a ser punido para existir uma redenção.
Ao final, O império contra-ataca, ao mesmo tempo, investe numa verdadeira tragédia épica espacial. Nela, tanto o espectador quanto os personagens se defrontam com uma verdade incômoda – mas é o que torna a série mais mitológica e coerente com a sua proposta.. Muitos avaliam que há um acerto maior porque Lucas se manteve mais nos bastidores financeiros do que no espaço criativo, porém a obra diz muito de toda a sua carreira, inclusive antecipando elementos que empregaria com Spielberg em Os caçadores da arca perdida. Ha um misto entre psicologia, vontade de reescrever a história e certa crença numa religiosidade que escapa ao seu próprio universo, tornando-se mais amplo e levando o espectador a lugares inexplorados.

The empire strikes back, EUA, 1980 Diretor: Irvin Kershner Elenco: Mark Hamill, Harrison Ford, Carrie Fisher, David Prowse, Billy Dee Williams, Anthony Daniels, Frank Oz, James Earl Jones Roteiro: Leigh Brackett, Lawrence Kasdan Fotografia: Peter Suschitzky Trilha Sonora: John Williams Produção: Gary Kurtz Duração: 124 min. Estúdio: Lucasfilm Ltd. Distribuidora: 20th Century Fox

 

Star Wars – A ascensão Skywalker (2019)

Por André Dick

Quando a Disney efetuou a compra dos direitos de Star Wars de George Lucas por uma soma significativa de dinheiro, que retornou praticamente no primeiro filme da nova trilogia, certamente estava querendo, mais do que projetos, expandir um universo com inúmeros personagens. Ela deu a J.J. Abrams a responsabilidade de retomar esse universo em O despertar da força, exatamente 10 anos depois de Lucas ter encerrado a segunda trilogia com A vingança dos Sith – na ordem cronológica, a primeira. Abrams já havia retomado uma franquia estelar com grande êxito, no Star Trek de 2009, rejuvenescendo a tripulação da Enterprise. À frente dos personagens básicos criados por Lucas, mas inserindo novos, ele não parecia se sentir tão à vontade. O resultado ficou num meio-termo entre a refilmagem disfarçada do filme de 1977 e a tentativa de alcançar um novo público.

Rian Johnson assumiu a direção de Star Wars – Os últimos Jedi, a sequência de O despertar, tentando inserir novos elementos na história de Rey (Daisy Ridley), que passa a ser treinada por Luke Skywalker (Mark Hamill) para ser uma jedi e enfrentar Kylo Ren (Adam Driver). Com um visual mais soturno do que o de Abrams, Johnson teria desvirtuado um pouco, para alguns, esse universo. No entanto, isso não chegava se dar de maneira completa: havia muitas semelhanças com O império contra-ataca, com Rey enfrentando a si mesma em cavernas escuras, como Luke em O império contra-ataca, Luke não queria treiná-la (como Yoda em relação a ele) e naves da Aliança Rebelde sendo perseguidas como a Millennium Falcon no filme de 1980, além de um mercenário feito por Benicio del Toro lembrar Lando Calrissian. Escolhido para dirigir a terceira parte, Colin Trevorrow deu espaço a J,J. Abrams novamente, que coescreveu A ascensão Skywalker com Chris Terrio, vencedor do Oscar de roteiro adaptado por Argo e responsável pela escrita de dois trabalhos polêmicos da DC (Batman vs Superman e Liga da Justiça).

Fala-se que Abrams nega o que Johnson acrescentou à série, mas, desde o início, ele adota uma atmosfera mais soturna, chuvosa e mesmo dark, sem a necessidade de destacar as cores habituais e seus lens flare, tentando se adequar visualmente à proposta visual de Johnson. A ascensão Skywalker se afasta em partes definidas do colorido de O despertar da força para acompanhar Rey, Finn (John Boyega), Poe Dameron (Oscar Isaac), BB-8, Chewbacca (Joonas Suotamo) e C-3PO (Anthony Daniels) num encadeamento de cenas de ação, com mudança constante de planetas (trazendo uma sensação novamente de aventura no espaço sideral e um senso de distinção no trabalho de direção de arte). Isso fazia falta nos dois episódios anteriores e era uma característica das duas trilogias de Lucas. Abrams reaproveita o estilo de Johnson e o mescla com sua bateria de subtramas: desta vez Kylo Ren vai a um planeta distante tomar ordens de uma figura inesperada, e passa a rastrear, com a ajuda dos generais Hux (Domhnall Gleeson) e Pryde (Richard E. Grant), o trio da Aliança Rebelde, coordenado por Leia (Carrie Fisher), numa busca feita a um objeto já cobiçado por Skywalker.
De fato, este terceiro filme acaba negando pontos suscitados por Johnson, como no início apressado, porém ele confere um humor mais natural e próximo das histórias de Lucas. A chegada dos rebeldes a um planeta desértico lembra tanto Tatooine quanto Marte, de John Carter, com um grupo de criaturas estranhas. Há uma perseguição fantástica de stormtroopers, assim como uma sequência que envolve Rey e Kylo que adquire uma grandiosidade, com efeitos visuais extraordinários.

Abrams se sente à vontade desta vez, construindo uma narrativa menos ligada até determinado ponto aos filmes anteriores, aplicando uma história de investigação, capaz de remeter principalmente à série Indiana Jones (principalmente Indiana Jones e o reino da caveira de cristal), antes, claro, de oferecer vários serviços para fãs. No entanto, antes de chegar lá, ele proporciona uma das melhores cenas de toda a saga Star Wars, além de finalmente notar que o trio principal, Chewbacca e C-3PO funcionam muito bem juntos e mantê-los separados em Os últimos Jedi não foi exatamente o mais acertado, embora ela tenha se dado também como um diálogo novamente com O império contra-ataca, em que havia o núcleo de Skywalker e o outro de seus amigos fugindo do império. Também mostra que Abrams soube avaliar os méritos do spin-off Rogue One, cujo núcleo de rebeldes era um destaque.
Há um descompromisso aqui em certos diálogos, mais ação e menos tentativa de seguir exatamente à risca um plano, como O despertar da força. Há também uma busca de Abrams em retomar temas de linhagens familiares usados em sua retomada de 2015 e um pouco ignorados por Johnson em Os últimos Jedi para dar espaço a discussões sobre falta de combustível numa nave espacial. É visível que Abrams também ignora personagens incluídos pelo sucessor, a exemplo de Rose Tico (Kelly Marie Train) para aplicar suas ideias, o que pode constituir uma estranheza a princípio, mas se torna autoral. Se nos vinte minutos iniciais a edição é tortuosa, com excesso de acontecimentos, sem a necessária ponderação para cada personagem, aos poucos Abrams, mesmo desperdiçando a retomada de uma conhecida figura, sabe como costurar escala e grandiosidade como em seus dois Star Trek, lembrando também um determinado momento de Interestelar. Ele também deixa de lado o tom infantojuvenil de O despertar da força e se guia por algumas pistas deixadas por Johnson, principalmente na ligação entre Rey e Kylo Ren, muito bem explorada em Os últimos Jedi e que aqui toma um ponto de inflexão interessante.

Pode-se dizer que em nenhum momento esta nova trilogia conseguiu ser original a ponto de se ver como uma obra independente, e também não se pode avaliar que foi um simples exercício de nostalgia. Há pontos interessantes, principalmente quanto a ligações familiares (e nem mesmo uma mais forçada me soou incômoda). A figura de Kylo Ren cresceu muito do primeiro para este, também pelo amadurecimento de Driver, ator que foi se tornando um destaque. Ridley aqui se mostra também em seu melhor momento, afastando-se simplesmente da imagem de heroína juvenil e mostrando real conflito interior. Boyega e Isaac, cada um a seu tempo, se mostram também essenciais para a série se consolidar ao final. A morte de Carrie Fisher, por sua vez, fez com que imagens dela já filmadas fossem reaproveitadas em outro contexto, oferecendo uma certa dificuldade de imersão, porém, diante disso, até que suas cenas se encaixam bem.
O roteiro flui, com alguns problemas inevitáveis em certas transições, e, no terceiro ato, apesar de alguns exageros, é possível mesmo se emocionar em alguns pontos, graças à trilha sonora de John Williams.
Muitas pontas são costuradas e poucas ficam soltas, o que não deixa de ser um mérito para uma obra com o objetivo de concluir uma saga iniciada há mais de 40 anos. Considerado de modo geral um dos Star Wars mais fracos, além de menos arriscado do que o segundo (assim como O retorno de Jedi foi considerado em relação a O império contra-ataca nos anos 80), entendo o contrário: A ascensão Skywalker é um filme que pode ser reavaliado com o tempo. Prós ou contras, ele é o que mais se assemelha com a essência de Star Wars desde O retorno de Jedi, usando a nostalgia, no entanto acrescentando ideias. Em relação a esta saga cada espectador, admirador ou fã possui seus requisitos para avaliar a direção dada a cada filme, rendendo muitos debates. A impressão que se tem é que Abrams buscou unir os três filmes de maneira interessante e aberta a reflexões sobre esse universo fantástico.

Star Wars – The rise of Skywalker, EUA, 2019 Diretor: J.J. Abrams Elenco: Carrie Fisher, Mark Hamill, Adam Driver, Daisy Ridley, John Boyega, Oscar Isaac, Anthony Daniels, Naomi Ackie, Domhnall Gleeson, Richard E. Grant, Lupita Nyong’o, Keri Russell, Joonas Suotamo, Kelly Marie Tran, Ian McDiarmid, Billy Dee Williams Roteiro: J. J. Abrams e Chris Terrio Fotografia: Dan Mindel Trilha Sonora: John Williams Produção: Kathleen Kennedy, J. J. Abrams, Michelle Rejwan Duração: 142 min. Estúdio: Lucasfilm Ltd., Bad Robot Productions Distribuidora: Walt Disney Studios Motion Pictures

 

LEGO Batman – O filme (2017)

Por André Dick

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Depois do grande sucesso de Uma aventura LEGO, tendo na direção a mesma dupla de Anjos da lei, Cristopher Miller e Phil Lord, nada mais esperado que o regresso desses personagens em formato de peças em outro projeto. Desta vez, em LEGO Batman – O filme, o diretor Chris McKay, cocriador de Uma aventura LEGO, reúne vários personagens do universo do vigilante de Gotham City.
O filme já inicia em alto movimento, com Batman (Will Arnett) tendo de enfrentar o Coringa (Zach Galifianakis), que pretende novamente destruir Gotham, mas quer, sobretudo, ouvir do seu rival que ele é importante em sua vida. Claro que as brincadeiras com o personagem se sucedem em ritmo de fazer inveja ao primeiro longa com as peças do Lego, e aqui vai ganhando acréscimos, com os personagens de Dick Grayson (Michael Cera), que se transformará em Robin, Barbara Gordon (Rosario Dawson) e seu mordomo Alfred (Ralph Fiennes).
Barbara está assumindo a polícia de Gotham no lugar do pai Jim (Héctor Elizondo) e se prepara uma grande festa para sua posse, na qual se desenham algumas diretrizes para a polícia local (e uma é que Batman não poderá mais ser tão importante). Na festa, aparecem o Coringa, Arlequina (Jenny Slate), Duas Caras (Billy Dee Williams) e outros criminosos, surpreendentemente se entregando. Tudo isso parece um plano evidente para colocar Batman em uma situação complicada, não mais do que seu conflito permanente com Superman (Channing Tatum) e um tanto afastado da Liga da Justiça.

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McKay brinca com as principais características do herói: sua mania de resolver as questões por conta própria, a vida solitária na mansão Wayne (onde há um cinema no qual o personagem assiste a um clássico filme de Tom Cruise) e a saudade dos pais. É destacada, no entanto, a sua constante necessidade de estar afastado de todos, o que rende algumas cenas muito divertidas. De certa maneira, é uma maneira hiperbólica de ver o personagem, e Will Arnett faz um trabalho primoroso de voz. O Robin, em segundo plano, é a figura mais divertida, pois Cera sabe compô-lo por meio da voz, seguida pela do Coringa, com um trabalho notável de Galifianakis, sem parecer exagerado ou deslocado mesmo no tempo e espaço de piadas que recebe em seus diálogos, que é substancial.
De modo geral, como Uma aventura LEGO, este filme se sente como uma homenagem a muitas obras, não apenas aos de Batman, como também a King Kong, O senhor dos anéis e Harry Potter, ou seja, franquias que se consolidaram ou tentam se consolidar da Warner Bros. Há uma metalinguagem a cada instante, uma gag escondida em cada quadro, e muitas funcionam graças ao roteiro ágil. Apenas quando o filme se encaminha para a ação, e ela não deixa de homenagear a série do herói dos anos 60, há uma certa intensidade apressada que poderia ser atenuada, como fizeram Lord e Miller ao final de Uma aventura LEGO. Há muita ação e feita de maneira tecnicamente impecável, mas nisso vem embutido um certo sentido de caos, que os diretores do primeiro filme conseguiam de certo modo evitar na transição de tempos diferentes e entrada e saída de personagens diferentes, compondo um universo menos específico, mas que aqui chega a ser cansativo.
É interessante como, de modo geral, a crítica resolveu adotar um certo discurso de que aqui os personagens do universo da DC funcionariam. Mais ainda: porque mostraria um Batman menos soturno.

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Isso certamente decorre da má recepção em geral de Batman vs Superman, no ano passado, e alguns cogitaram até se não seria melhor trocar atores pelas pecinhas de Lego. Por mais que se entenda a sátira e mesmo a aversão a alguns ao universo que está iniciando da DC nos cinemas, parece exagerado focalizar neste filme como uma referência capaz de rivalizar com as visões, por exemplo, de Burton, Nolan e Snyder.
É uma diversão infantojuvenil capaz de agradar ao público adulto, feita com esmero inabitual, com uma explosão de cores fantástica, mas, acima de tudo, é uma sátira com este personagem. Tentar reduzi-lo, por outro lado, a essa sátira é evitar, naturalmente, a graça que se possa fazer em cima de suas qualidades mais soturnas. Ou seja, parece haver um encanto artificial da crítica e dos espectadores de que este seria o tom certo a ser adotado para os filmes considerados mais sérios. Enquanto LEGO Batman se sente uma obra que se sustenta por si só, é irremediavelmente composta por referências que os personagens adquiriram em sua versão dramática, e a trilha sonora de Lorne Balfe mescla os trabalhos de Danny Elfman e Hans Zimmer e Junkie XL para compor uma com tom que dá ritmo às sequências.

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É bem verdade que as cores aqui estão mais próximas da visão que Joel Schumacher tentou trazer a este universo, com Batman eternamente, indicado ao Oscar de fotografia justamente pela contribuição de cores diversas. No entanto, LEGO Batman se movimenta sobre sentimentos reais, que não existiam no filme de Schumacher, mas se encontram em suas demais versões, inclusive na série lembrada aqui dos anos 60, com Adam West.
O roteiro, escrito nada mais nada menos do que a dez mãos (Seth Grahame-Smith, Chris McKenna, Erik Sommers, Jared Stern e John Whittington), tenta reunir várias referências que são entendidas por todos ou apenas pelos fãs. Eles fizeram um bom trabalho, principalmente quando se entende que este é um universo realmente atrativo e conseguem, ainda, com outras referências, dialogar tanto com Esquadrão suicida quanto com o ainda a ser lançado Liga da Justiça, embora a longa-metragem evite o impacto que poderia ter, em razão do ato final que se estende além do tempo. Como os brinquedos da Lego, estamos lidando aqui com futuros lançamentos, independente de serem peças ou não do mesmo movimento. Divertido para alguns, para outros não, mas ainda com a tentativa de divertir.

The Lego Batman movie, EUA, 2017 Diretor: Chris McKay Elenco: Will Arnett, Zach Galifianakis, Michael Cera, Rosario Dawson, Ralph Fiennes, Mariah Carey, Jenny Slate, Billy Dee Williams, Héctor Elizondo, Conan O’Brien, Channing Tatum, Jonah Hill Roteiro: Seth Grahame-Smith, Chris McKenna, Erik Sommers, Jared Stern e John Whittington Trilha Sonora: Lorne Balfe Produção: Dan Lin, Phil Lord, Cristopher Miller, Roy Lee Duração: 104 min. Distribuidora: Warner Bros. Pictures

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Batman (1989)

Por André Dick

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Determinados filmes conseguem, por um motivo às vezes também secundário ao cinema, marcar uma determinada época. Em 1989, o trailer de Batman, de Tim Burton, tinha uma presença destacada em salas de cinema. A diferença do mês de estreia nos Estados Unidos para o do Brasil ainda era considerável (nos Estados Unidos, a estreia se deu em junho, aqui em outubro), auxiliando num dos mais bem feitos trabalhos de marketing da história. A expectativa se dava não apenas em razão dos fatores de produção e da presença de Jack Nicholson no elenco, mas por se tratar do primeiro grande filme de Tim Burton, que havia assinado um ano antes a comédia Os fantasmas se divertem e tinha estreado em 1985 com As grandes aventuras de Pee-wee, com um personagem mais familiar para os norte-americanos. E pelo menos desde 1978, de Richard Dooner, não era feito um filme baseado em herói dos quadrinhos tão esperado. Precedido ainda por críticas elogiosas da imprensa estrangeira, a estreia de Batman se deu num ambiente receptivo – e a questão seria se sua qualidade corresponderia ao marketing.
A primeira surpresa de Batman é que se tratava de um trabalho autoral: do início ao fim, estamos diante de uma obra de Tim Burton. E, no que também inspirou a série Batman assinada por Cristopher Nolan, o trabalho de Burton era baseado na adaptação do herói feita por Frank Miller, com um tom muito mais sombrio (embora no mesmo ano, 1989, tenha sido lançado a que me parece ser a peça em quadrinhos mais vital, Asilo Arkham, de Dave McKean e Grant Morrison). Este Batman possui elementos do dia a dia (gângsteres modernos que tentam movimentar o comércio de produtos químicos, em uma metrópole dominada pela criminalidade), mas o que predomina é a indefinição histórica – ou seja, não tem a concepção mais realista (em determinados termos) daquele de Nolan, o que é uma característica de Burton. Sua Gotham City tem um ambiente europeu entre o início do século XIX e o início do século XX: muita fumaça de fábricas, como na Revolução Industrial, e os ambientes enevoados, semelhante a um filme noir, preenchidos por um design que evoca não exatamente Blade Runner, ao qual foi comparado, mas o expressionismo alemão.

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Esta proximidade aumentaria, inclusive, na continuação de Batman, em que o vilão interpretado por Cristopher Walken se chamava Max Schreck, mesmo nome do antigo ator que fez Nosferatu, em 1922. Se o Batman de Nolan parece mais um policial moderno, o de Burton ainda lembra um detetive em meio a policiais de capote. A influência mais direta no visual de Batman é o trabalho de Hammett, feito também em 1982, por Wim Wenders, em que o escritor trabalhava como detetive e tentava descobrir uma quadrilha de mafiosos no bairro Chinatown. Nesse sentido, o diálogo entre figurinos e ambiente do filme de Burton, sintetizado na direção de arte (de Anton Furst) premiada com Oscar, com cenários montados no lendário estúdio Pinewood, estabelece uma atmosfera adequada para o desenvolvimento da narrativa. Combinado com uma trilha de Danny Elfman em seu início, ainda sem os maneirismos de sua trajetória, e os efeitos especiais de Derek Meddings (Superman e Duna), numa era ainda sem a tecnologia atual, mas com uma fusão orgânica em relação à narrativa, e temos um Batman certamente interessante.
A mitologia do herói criado por Bob Kane, que participou da construção do roteiro, também é mantida (daqui em diante, possíveis spoilers). Durante o dia, Bruce Wayne (Keaton) é um milionário, mas à noite enfrenta o crime de sua cidade, como Batman, sobretudo porque aconteceu um fato em sua infância que o conduziu a este caminho. O único a saber de sua dupla identidade é o mordomo de sua mansão, Alfred (Michael Gough). Já entre os gângsteres, Jack Napier (Nicholson) faz jogo duplo com seu chefe, Carl Grissom (o ótimo Jack Palance), obedecendo suas ordens, mas o traindo com sua esposa, Alicia (Jerry Haal). Para investigar as histórias de Batman, chega à cidade a jornalista Vicki Vale (Basinger), da Time, juntando-se ao repórter desajeitado, Knox (Wuhl), para extrair informações do comissário Gordon (Hingle), próximo a Harvey Dent (Billy Dee Williams). Enquanto o departamento de jornal de Gotham City se baseia novamente nesta concepção noir, não ficam para trás as reuniões da polícia e dos políticos: os ambientes suntuosos mesclam, ao mesmo tempo, um peso atmosférico, por trás de figurinos e maquiagens. Também não se deve esquecer que o primeiro encontro entre Wayne e Vicki Vale acontece num salão com armaduras medievais, cercado de espelhos: nesta sequência, filmada com grande talento por Burton, introduzindo cada diálogo de maneira ao mesmo tempo divertida e irônica, o personagem de Bruce Wayne revela sua dualidade e antecipa que o uso de armaduras não faz parte apenas de sua história, mas foge ao limite histórico.

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As coisas vão mudar em Gotham City. Durante um roubo à empresa de produtos químicos da cidade, Napier, depois de cair num tonel cheio de ácido, fica com o rosto deformado, com um sorriso permanente, voltando para acertar contas com seu chefe. Vicki conhece Bruce Wayne e se apaixona, e ele passa a enfrentar o maior rival, o Coringa, a nova personalidade de Napier. Então, acontece o choque: Batman criou o Coringa, e quem criou Batman? Este fio de narrativa administrado por Burton de maneira efetiva guarda mais do que estamos acostumados num filme de herói. Não existe apenas o duelo entre dois personagens, mas também a tentativa de entender a origem deles.
Outra característica de Burton é a maneira como lida com a dualidade dos personagens. Talvez Bruce Wayne seja o personagem melhor delineado por Burton ao lado de Ichabod Crane de A lenda do cavaleiro sem cabeça e de Ed Wood no filme homônimo, ambos protagonizados por Johnny Depp. E isto se dá com o auxílio direto de Michael Keaton, ator que não compromete depois da pressão dos fãs, que não o queriam no papel, mas no ano anterior havia feito não apenas Os fantasmas se divertem, com Burton, mas o dramático Marcas de um passado (e neste ano, depois de sua excelente participação em RoboCop, regressa com um filme que também brinca com sua atuação aqui, em Birdman). Keaton oferece uma discrição eficiente, ao mesmo tempo em que desenvolve bem seu traço familiar, perturbado por um acontecimento decisivo.
Por sua vez, o personagem do Coringa – e antes dele de Jack Napier – é solucionado de maneira adequada por Nicholson, com sua tendência a ser o primeiro artista homicida do mundo, apesar do exagero, perfilando-se ao lado daquelas que o ator emprega em Um estranho no ninho e O iluminado, e hoje infelizmente, algumas vezes, menosprezada em relação à de Heath Ledger. Suas atitudes colaboram na condução do personagem e sua entrada num restaurante com seu grupo transformando as obras de artes expostas nele num rascunho para Duchamp, e a solução de preservar uma obra de Francis Bacon, com a música de Prince ao fundo, parece uma síntese de um certo cinema dos anos 80 e a passagem para os anos 90, em que o colorido é borrado ou ganha um tom mais soturno. Apesar de o Coringa ser certamente perigoso, Burton concede uma veia mais cômica a ele, fazendo com que seu comportamento assustador seja atenuado em favor de uma visão mais voltada à série antiga de TV, não tanto aos quadrinhos, embora Nicholson realmente traga sua carga para o papel. E, mesmo que o Superman de Donner tenha desencadeado o universo de adaptação de super-heróis para o cinema, Batman é, sem dúvida, a confirmação de que se pode fazer um filme neste campo com um peso autoral, e, sem negar a influência dos quadrinhos, fazer referência ao próprio cinema: é a principal influência de, por exemplo, Dick Tracy, dirigido por Warren Beatty no ano seguinte, com suas homenagens aos filmes de máfia e musicais dos anos 40 e 50, com cenários equivalentes aos dos quadrinhos.

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A necessidade de diálogo entre os personagens e o cenário ganha o ponto máximo na sequência da catedral de Gotham City, uma construção gótica e que destaca, por seu abandono, o principal: a cidade desses personagens não tem nenhuma espécie de religião. Com seu habitual talento para imagens, Burton faz discretamente um filme em que os temas são suscitados por cenários. Temos um senso de design onipresente ao longo do Batman de Burton e não se anuncia nenhum elemento deslocado, mesmo em cenários que nos anos 80 talvez pudessem ser menos elaborados, como o da caverna em que ele guarda suas criações e armas para o combate ao crime organizado. Este senso se encaixa de maneira equilibrada com o comportamento dos personagens: enquanto Bruce Wayne é mais afeito ao cálculo e ao comedimento, mas também avesso ao tamanho de sua mansão, Jack Napier e sua porção extravasada, o Coringa, se comporta como um anunciante de produtos e mesmo de dinheiro jogado aos ares de Gotham City. Além do seu interesse por fotografias e obras plásticas, ele tem outro: recorta fotografias até que preencham o piso do chão. Em Burton, o Coringa é a própria infância (desvirtuada) que Bruce Wayne não teve. Mas o próprio Batman não deixa de ser, para o Coringa, uma personificação da infância: “Onde ele consegue esses brinquedos?”, pergunta o Coringa em determinado momento. Há uma provocação neste comportamento de cada um que não foge a Burton, com seu olhar atento para detalhes que poderiam escapar de um cineasta comum.
De algum modo, o duelo estabelecido (também nas atuações) entre Keaton e Nicholson, ao mesmo tempo, beneficia o elenco. A descompromissada Basinger está bem – no melhor momento da sua trajetória, junto com Los Angeles – Cidade Proibida –, e Wuhl tem uma participação divertida como Knox. Mesmo Jack Palance, com o pouco tempo em cena, é marcante (dois anos antes de receber um Oscar de ator coadjuvante por um caubói em Amigos, sempre amigos), além de Michael Gough (em papel que seria na nova franquia de Michael Caine). Trata-se de uma qualidade de Tim Burton, que ele tem em comum exatamente com Donner, do primeiro Superman: seus filmes, apesar de contarem com grande orçamento, valorizam não apenas as ideias, como as atuações, e tudo acaba soando como um conjunto estabelecido. E não se tem dúvida de que, assim como muitos, Nolan sentou-se muitas vezes em frente a este Batman de Burton para imaginar como seria o seu, principalmente o ótimo Batman begins. Apesar de um tanto esquecido em relação à trilogia mais recente, o filme de Burton continua a figurar entre as maiores adaptações de quadrinhos já feitas, um verdadeiro feito diante das expectativas que se tinha em relação a ele.

Batman, EUA/Reino Unido, 1989 Diretor: Tim Burton Elenco: Jack Nicholson, Michael Keaton, Kim Basinger, Pat Hingle, Billy Dee Williams, Jack Palance, Robert Wuhl, Michael Gough, Lee Wallace, Tracey Walter, Wayne Michaels, Bruce McGuire, Del Baker, Philip O’Brien, Rocky Taylor, Vincent Wong, Steve Plytas, Liz Ross, John Sterland Roteiro: Sam Hamm, Warren Skaaren Fotografia: Roger Pratt Trilha Sonora: Danny Elfman Produção: Peter Guber, Jon Peters Duração: 126 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Warner Bros. / The Guber-Peters Company / Polygram Filmed Entertainment

Cotação 5 estrelas

O retorno de Jedi (1983)

Por André Dick O retorno de Jedi 5 Uma das séries de ficção científica mais conhecidas do cinema, Guerra nas estrelas foi relançada no início de 1997, depois de ser revista pelo diretor, produtor, roteirista e mentor George Lucas. Era formada, até aquele momento, por Guerra nas estrelas (1977), O império contra-ataca (1980) e O retorno de Jedi (1983), respectivamente quarto, quinto e sexto capítulos de uma saga planejada por Lucas para ter três trilogias. Tal relançamento se devia, então, ao fato de Guerra nas estrelas estar comemorando vinte anos e, acima de tudo, pelo fato de Lucas estar planejando os novos capítulos da série (na verdade, o início de uma nova trilogia), intitulados A ameaça fantasma, O ataque dos clones e A vingança do Sith. No entanto, passados todos esses anos, parece que o episódio da primeira trilogia que mais ganha vitalidade é O retorno de Jedi (o famoso capítulo que seria dirigido por David Lynch, que o preteriu em favor de Duna), apesar de ser menos lembrado e muito criticado. 2001 havia cercado o gênero “ficção científica” com uma aura de complexidade. Ao contrário de Stanley Kubrick, George Lucas também queria diversão. Mas diversão inteligente, que soubesse atrair, em escalas iguais, plateias jovens e adultas. Para chegar ao seu objetivo, Lucas mesclou elementos medievais – o caráter heroico e guerreiro de seus personagens do bem – com elementos da de ficção científica – espaçonaves, espadas de luz, armas de raio laser, robôs –, de forma que acabou conquistando não só esses dois públicos como uma legião de fãs, apesar da surpresa inicial (em sessões-teste, Lucas teria visto o primeiro da série ser desaprovado por amigos, com exceção de Spielberg). Em O retorno de Jedi, Lucas apresenta a síntese dessas misturas, por meio da direção de Richard Marquand (O fio da suspeita), com personagens que não são unidimensionais, apesar de aparentarem, e ganham novo ânimo, num roteiro de Lawrence Kasdan (diretor de filmes como O reencontro e O turista acidental), que consegue equilibrar a mitologia de ficção com ensinamentos orientais. O retorno de Jedi 20 O retorno de Jedi 6 O retorno de Jedi 16 Trata-se de um segmento que prefere a diversão à psicologia (fundamental para a série) de O império contra-ataca, amarrando as pontas soltas deixadas por este, sobretudo no que se refere ao triângulo Luke-Leia-Han Solo, mostrando basicamente a mesma história dos anteriores: a Aliança de rebeldes e os companheiros de Luke Skywalker (Mark Hamill) pretendem destruir, de uma vez por todas, o “império do mal” e Darth Vader (David Prowse, com voz de James Earl Jones). Na jornada, Luke e companhia – Princesa Leia (Carrie Fisher) e Lando Calrissian (Billy Dee Williams) – enfrentam o monstruoso Jabba  the Hutt no deserto Tatooine, quando tentam salvar Han Solo (Harrison Ford, desta vez menos aproveitado) e Chewbacca (Peter Mayhew), aprisionados por ele. Esta sequência, impressionante pela grandiosidade dos cenários e da ambientação cavernosa, delineia o contato de George Lucas com o primeiro filme da série e cria uma ponte com o primeiro da segunda trilogia: Tatooine tem todos os perigos que podem se apresentar, e Jabba não é controlado pelos poderes do jedi Luke, nem abre espaço para os robôs R2-D2 (Kenny Baker) e C-3PO (Anthony Daniels). Pelo contrário, esses, como a princesa Leia, seminua, tornam-se escravos, servindo apenas à sua tirania, enquanto Han Solo, carbonizado, é apenas um enfeite na sala do trono, que lembra, pela coleção de bizarrices, uma espécie de cabaré espacial. Depois de uma passagem pelo deserto, onde Jabba pretende matar os adversários com requientes de crueldade, Luke vai até Dagobah, reencontrar-se com Yoda, a fim de completar o treinamento, quando se depara com o espírito de Obi Wan-Kenobi (Alec Guiness). Em seguida, na armada contra o império, Luke e seus companheiros se deparam com os ursinhos Ewoks na lua florestal de Endor e partem para atacar a nova Estrela da Morte, ainda sendo construída, desligando seu campo de energia, embora tudo possa ser apenas um plano para atrair Luke e a Millenium Falcon de Han Solo para a destruição. O retorno de Jedi 11 O retorno de Jedi 12 O retorno de Jedi 13 Considerado surpreendentemente o mais fraco da primeira trilogia – com uma “linha narrativa praticamente inexistente”, conforme Vincent Canby, e “exemplo de cinema impessoal”, com “personagens de quadrinhos vagando num pastiche piadístico das lendas arturianas”, para Pauline Kael –, O retorno de Jedi expande o universo de Lucas, lidando com centenas de figuras num espaço curto de tempo (pouco mais de duas horas) e oferece instantes de magia que me parecem ainda atuais, além de trazer uma direção de arte fascinante de Norman Reynolds (indicada ao Oscar), o mesmo de Os caçadores da arca perdida e Império do sol, assim como algumas das melhores trilhas sonoras de John Williams (também nomeada ao prêmio). Não me parece feito exclusivamente para agradar ao público infantojuvenil, mas material raro de ficção científica – desde a ida de Luke a Tatooine, tentando resgatar Han Solo, ao duelo de motos voadoras na floresta. As cenas revistas por George Lucas na edição especial são poucas, mas essenciais: um número musical no palácio de Jabba (brincando com os musicais de Hollywood dos anos 30), o monstro do deserto, mais detalhado. Elas acompanham a batalha derradeira entre a Aliança rebelde (com a presença dos Ewoks, como se fosse o primitivo contra a tecnologia) e o império, além do duelo definitivo entre Vader e Luke, diante do Imperador, naquele que apresenta um dos momentos mais impactantes da série. Os conflitos familiares de Luke, quando precisa enfrentar o pai e contar a verdade a Leia, são trabalhados num plano mais íntimo. No momento em que são capturados pelos ewoks, eles ficam nas árvores, como se concentrassem ali o mundo fabuloso dos outros dois, e a própria base que os forma. Quando C-3PO é confundido como uma espécie de xamã, de curandeiro, pelos ewoks, isso se comprova ainda mais, fazendo com que conte histórias a essas criaturas de Endor. As histórias, numa espécie de metalinguagem, são sobre as aventuras de Luke e companhia, e a recordação, aqui, é colocada como uma espécie de revitalização dos personagens antes do ato derradeiro. Ao mesmo tempo, há humor que não existia em igual quantidade nos demais, estabelecendo uma ligação direta com a série Indiana Jones, parceria entre Lucas e Spielberg do mesmo período, e os ewoks são fundamentais para isso – para alguns, certamente irritantes e uma desculpa para vender bonecos; dentro do filme, curiosamente primitivos. Eles são o vínculo  entre o passado de Luke – Tatooine – e o futuro – depois do império. Conservam as fábulas e os mitos da floresta, antes das espaçonaves, e anunciam uma derrota para o poderio da tecnologia e da força militar do império, com pedras e troncos de árvores, arcos e flechas, e pendurados em cipós ou galhos. O retorno de Jedi 4 O retorno de Jedi 8 O retorno de Jedi 9 Como os personagens da série, são figuras inseridas num mundo onde os valores humanos se misturam à mais avançada tecnologia de naves e novos universos. Por isso, os enfrentamentos entre o bem e o mal, os temores, os ensinamentos espirituais de luta, ganham, na trilogia de Lucas, e  definitivamente em O retorno de Jedi, contornos ao mesmo tempo passadistas e futuristas. A maioria dos cenários parece constituído in loco – e não frutos de tecnologias excessivas, que prejudicaram a segunda trilogia de Guerra nas estrelas. Mas Marquand e Lucas conseguem ainda mais: um clímax no qual três sequências de ação ocorrem ao mesmo tempo, o que confere à meia hora final substancialmente um grande momento. Nesse sentido, o conflito de Luke passa a ser enfrentar o seu passado, fazendo com que o filme não reprise Star Wars ou O império contra-ataca, e sim avance significativamente. A figura de Palpatine (Ian McDiarmid), o Imperador, que comanda Darth Vader, é este elo que liga Luke a uma tentativa de reinserir a família na personalidade do pai e com os três primeiros episódios de Star Wars. O passado e o futuro se interligam por meio de sua figura, e é preciso recorrer a Yoda e Obi-Wan para enfrentá-lo, pois Lucas está tratando, acima de tudo, de uma genealogia desses personagens. Isto está bem claro na luta final, quando Luke Skywalker parte realmente para o duelo quando Vader diz que tentará trazer sua irmã, Leia, para o lado negro da força. A câmera de Marquand se aproximando do rosto de Luke embaixo da escada, em meio às sombras, querendo evitar a destruição de Darth Vader, é antológica, assim como a sensação de proximidade e receio quando eles se encontram em Endor. Não há equilíbrio sem que haja o real fato que cerca tudo, explicado depois, embora de modo capenga, pela segunda trilogia. O retorno de Jedi, desse modo, consegue ao mesmo tempo trazer discussões apresentadas em O império contra-ataca, mas com uma leveza que o primeiro da série possuía, com uma linha de efeitos especiais espetaculares, os melhores da série, produzindo um universo que ainda hoje, vinte anos depois, continua a suscitar admiração pela competência com que foi criado. Para alguns, Star Wars pode ser uma mera antecipação da era dos video games e dos bonecos que acompanham fast-foods; para quem consegue ver na série o que ela traz, pode ser uma entrada num universo de grande criatividade.

Return of the Jedi, EUA, 1983 Diretor: Richard Marquand Elenco: Mark Hamill, Alec Guinness, Harrison Ford, Carrie Fisher, Billy Dee Williams, Anthony Daniels, Peter Mayhew, David Prowse, Ian McDiarmid Produção: Howard G. Kazanjian, Rick McCallum Roteiro: George Lucas, Lawrence Kasdan Fotografia: Alan Hume Trilha Sonora: John Williams Duração: 133 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Lucasfilm Ltd.

Cotação 5 estrelas