Entre facas e segredos (2019)

Por André Dick

O diretor Rian Johnson, antes de se tornar mais conhecido por Star Wars – Os últimos Jedi, foi sempre um admirador de histórias de investigação. Sua obra A ponta de um crime era uma espécie de noir adolescente, com Joseph Gordon-Levitt no papel de um jovem tentando desvendar um assassinato ligado a estudantes num colégio. Em 2012, ele fez Looper, desta vez brincando com a passagem do tempo, em que Levitt se tornava Bruce Willis, numa ficção científica também com elementos de mistério.
Agora, entre Facas e segredos, Johnson volta aos tempos de A ponta de um crime, com uma história sinuosa de enigmas. Tudo começa com a investigação feita pelo detetive Benoit Blanc (Daniel Craig) em relação ao suicídio de um romancista de livros de crime, Harlan Thrombey (Christopher Plummer). Ele apareceu morto na manhã seguinte de sua festa de 85 anos, encontrado pela empregada Fran (Edi Paterson). Blanc passa a investigar os componentes da família do escritor, todos hospedados em sua mansão: seu genro Richard (Don Johnson), casado com a filha Linda (Jamie Lee Curtis), pais de Megan (Katherine Langford), a ex-nora Joni (Toni Collette), além de Walt (Michael Shannon), com quem Harlan trabalhava na editora, casado com Donna (Riki Lindhome ) e pai de Jacob (Jaeden Martell). E há ainda Hugh (Chris Evans), também filho de Richard e Linda, e a enfermeira que cuidava do milionário, Marta Cabrera (Ana de Armas). Quase todos eles, de certa maneira, um pouco antes da morte, acabaram sendo desmascarados pelo escritor e, desse modo, podem ter culpa no cartório.

Ajudando o detetive Blanc estão o tenente Elliot (Lakeith Stanfield) e o policial Wagner (Noah Segan) – e os primeiros interrogatórios são cercados por uma aura de Agatha Christie, a referência principal de Johnson. Blanc é uma espécie de inspetor Hercule Poirot (vivido mais recentemente por Kenneth Branagh na versão de Assassinato no Expresso Oriente). Blanc não sabe por quem foi contratado para o caso. Isso acaba criando uma expectativa de que algo muito errado está acontecendo na mansão onde ocorreu a morte.
Johnson, de modo geral, tem um conhecimento respeitável do cinema. Seus filmes possuem um jogo de luzes e sombras, auxiliado pela fotografia de Steve Yedlin, e um design de produção interessante. Em certos momentos, a mansão lembra de Mistério em Gosford Park, de Robert Altman, e Os sete suspeitos, dos anos 80, um experimento também nos moldes de Agatha Christie, além de Vocês ainda não viram nada!, de Alain Resnais. Ele também sabe usar as digressões, estabelecendo pequenas pistas, quase invisíveis, para o espectador destrinchar o mistério.

No entanto, sua maior qualidade continua sendo a direção de atores. Todos no filme estão bem, desde o sempre ótimo Plummer – reprisando o seu papel de Todo o dinheiro do mundo, com um ar mais simpático, se isso pode ser dito diante do que ele acaba travando com a família –, passando por Johnson e Curtis, até Collette e Shannon, embora nem todos sejam exatamente desenvolvidos ou recebam muitos diálogos. Ainda assim, são Ana de Armas e Daniel Craig os destaques. Armas teve um papel de relevo em Blade Runner 2049 como a companhia virtual do personagem principal e aqui, como a enfermeira que toda a família gostaria de adotar, se mostra na medida exata, entre o conflito de ter ocasionado uma tragédia e sua condição quase de heroína. Já Craig que nos últimos anos praticamente se dedicou ao papel de James Bond se mostra muito à vontade, mesclando o papel que fazia em Millennium com seu humor britânico às vezes deslocado das situações.

A ligação de seu detetive com Marta é o que leva Entre facas e segredos à frente, junto com a sucessão de diálogos rápidos. Todas as figuras parecem ter torcido para o desaparecimento do escritor patriarca da família, porém é Blanc quem tentará desvendar por que eles se comportam desse modo. A maneira como o espectador vai conhecendo um a um é o grande atrativo para o estabelecimento dessa trama. Talvez, nisso, o único porém seja que Entre facas e segredos seja um grande parque de mistério metalinguístico, com os personagens agindo a todo momento como partes de um grande esquema, sem espaço para uma certa humanização. Johnson, como em A ponta de um crime, em nenhum momento deixa essa família suspirar, digamos, vida real: ela está a serviço de um tabuleiro. Talvez por isso o acréscimo de Chris Evans, ator normalmente associado ao Capitão América, seja tão relevante: ele consegue estabelecer uma dinâmica vibrante junto com Armas e Craig. Se os dois primeiros atos vão preparando a tensão para estabelecer a trama, o terceiro vai amarrando as pontas soltas de maneira verossímil, sem cair em elementos de farsa. Misturando elementos de humor, surpresa e tensão, Entre facas e segredos se mostra uma das diversões mais consistentes do ano,.

Knives out, EUA, 2019 Diretor Rian Johnson Elenco: Daniel Craig, Chris Evans, Ana de Armas, Jamie Lee Curtis, Michael Shannon, Don Johnson, Toni Collette, Lakeith Stanfield, Katherine Langford, Jaeden Martell, Christopher Plummer Roteiro: Rian Johnson Fotografia: Steve Yedlin Trilha Sonora: Nathan Johnson Produção: Ram Bergman, Rian Johnson Duração: 130 min, Estúdio: Media Rights Capital, T-Street Distribuidora: Lionsgate

Star Wars – Os últimos Jedi (2017)

Por André Dick

Responsável por um excelente filme de adolescentes em homenagem ao noir, A ponta de um crime, e por uma ficção científica que soava como um quebra-cabeça, Looper, Rian Johnson foi convidado a dirigir e escrever o roteiro de Star Wars – Os últimos Jedi, a continuação de O despertar da força, o reinício da série criada por George Lucas desta vez por meio dos estúdios Disney, que comprou os direitos da franquia. No episódio anterior, dirigido por J.J. Abrams, havia uma necessidade clara de retomar a nostalgia do filme dos anos 70, mas com novos personagens reencontrando alguns dos antigos, Han Solo e Princesa Leia.
Os últimos Jedi mostra a perseguição da Primeira Ordem aos rebeldes liderados pela princesa Leia (Carrie Fischer), entre eles Poe Dameron (Oscar Isaac). O Supremo líder Snoke (Andy Serkis) está raivoso com o general Hux (Domhnall Glesson) por não conseguir impedir a escapada deles do planeta onde foram localizados. Sabe-se o quanto o anterior repetia referenciais de Uma nova esperança, o episódio de 77. Desta vez, as referências são O império contra-ataca e O retorno de Jedi. E não se trata de coibir a nostalgia.

O episódio derivado da série, Rogue One, do ano passado, se fazia em cima disso também, com talento insuspeito por Gareth Edwards. A questão é que aqui Rey (Daisy Ridley) está numa ilha do planeta aquático Ahch-To, onde se esconde Luke Skywalker (Mark Hamill), querendo ser treinada por ele. A aproximação com Yoda em O império contra-ataca não se dá apenas pela argumentação, como por meio de imagens e simbologias: as conversas sobre a individualidade se dão em cavernas e a heroína tem conversas psíquicas com Kylo Ren (Adam Driver), uma interessante opção, enquanto Chewbacca tenta cuidar a Millennium Falcon em meio a uma invasão de determinadas criaturas voadoras.
Entre os rebeldes, Poe (Oscar Isaac), Finn (John Boyega), BB-8 e a mecânica Rose Tico (Kelly Marie Tran) estão envolvidos numa missão para chegar a um rastreador da Primeira Ordem. Rian Johnson divide a ação entre Rey e seus companheiros e isso torna Os últimos Jedi num dos filmes com montagem mais estranha dos últimos anos, tentando, com isso, empregar um ritmo incessante, como Kershner fez em O império contra-ataca.

Enquanto Luke é tratado como um ícone perturbado pelo que lhe aconteceu, e Hamill entrega a melhor atuação do filme com um tom de eremita consciente, ao lado daquelas de Ridley e Fisher (ambas tentando transcender o material que receberam, a segunda em sua despedida), os demais se sentem com conflitos leves demais e com atitudes pouco reflexivas. Não há uma exploração do que torna cada um com identidade própria, como havia mesmo no anterior de maneira superficial. E a impressão é que Johnson, como Abrams, não sabe direito como encaixar os antigos personagens, com novas motivações. Mesmo Chewbacca (Joonas Suotamo), R2-D2 (Jimmy Vee) e C-3PO (Anthony Daniels) não chegam a ser valorizados, cabendo a BB-8 o espaço bem-humorado, que funciona ora sim, ora não. No início, tudo é mais calibrado e coeso, mas no meio do caminho a trama vai dando espaço a excessos.
Johnson tenta retomar elementos de O retorno de Jedi por meio de um cassino no planeta Canto Bight, mas de forma um pouco desajustada e com um tom predominantemente infantojuvenil, mesmo com sua crítica às armas e aos maus tratos a animais (temas que soam deslocados, como muitos outros). Se há algo claro nesta reinicialização de Star Wars é uma obsessão em conversar com o público mais jovem, mais do que os antigos. Johnson está sempre tentando inserir crianças em meio à ação. Edwards conseguiu bom resultado em Rogue One porque era um derivado, com mais liberdade, uma interessante narrativa sobre uma rebelde que quer reencontrar o pai e integra um grupo capaz de arriscar sua vida, mas Os últimos Jedi é uma coleção de frases já ouvidas em outros filmes da saga, com comportamentos e situações idênticas. Por isso, não é frutífera a ideia de que, havendo queixas, é porque se tenta deixar o passado de lado nesses novos Star Wars: o passado está presente o tempo inteiro, só por meio mais de outros personagens. Nem assim a diversão é menor em vários momentos.

O visual tenta um jogo interessante de cores. As batalhas são espetaculares, mesmo sem originalidade, e aqui se insere um slow motion poético com a personagem de Leia. O design de produção é arenoso e ainda assim atrativo, principalmente o da ilha onde está Luke e de uma sala vermelha que remete a Ran e Kagemusha, de Akira Kurosawa. E Adam Driver, apesar de um pouco de dificuldade de desenvolver seu vilão porque seus dilemas apenas repetem os de Darth Vader, tem boa atuação, enquanto Snoke (num CGI desanimador, quando cresceria com uma verdadeira maquiagem) é apenas outro Palpatine, contudo sem nenhum lado verdadeiramente ameaçador (spoiler: o encontro entre Rey, Snoke e Kylo possui diálogos semelhantes aos que vemos em O retorno de Jedi, com Palpatine, Luke e Darth Vader).
Johnson tenta oferecer a seus personagens uma base dramática intensa, principalmente ao focar a relação entre Rey e Luke, que fornece bons momentos, contudo suas tentativas se deparam com uma certa limitação e apresentado como uma coleção de imagens já pertencentes a um imaginário, mas não interessantes como eram. Assim, ele tenta closes e enquadramentos diferentes (aquele em que Rey usa um sabre de luz e Johnson o filma de um determinado ângulo para que se misture à cor do céu é muito belo), zooms inusuais na saga, além de um humor mais acessível, sustentados por uma boa trilha sonora de John Williams. O estranho é que ele deseja ir para a frente, mas retrocede constantemente, em comportamentos já vistos e flashbacks (e não lembro de flashbacks na saga Star Wars, a não ser um rapidamente na obra de Abrams). Isso, no entanto, acaba rendendo a volta de um personagem icônico, depois de uma batalha de sabres na escuridão da ilha, momento mais soturno da saga ao lado do embate entre Vader e Luke em O império contra-ataca e de Anakin e Obi-Wan em A vingança dos Sith.

Os conflitos existentes aqui entre a almirante Amilyn Holdo (Laura Dern, certamente com saudade da peruca que usa em Twin Peaks – O retorno) e Poe Dameron, por exemplo, soam um tanto distantes, e desperdiçam grandes nomes, como Dern e Isaac, este num personagem que era animado no anterior e aqui se aproxima perigosamente de uma falta de empatia. Por sua vez, John Boyega é um ótimo ator (vejamos ele em Detroit em rebelião, de Kathryn Bigelow), mas é bastante subaproveitado. Para compensar, no ato final, nos últimos 30 minutos, Johnson filma uma sequência irretocável. Embora seu estilo visual não tenha o mesmo refinamento mesmo do de Edwards em Rogue One ou de Luc Besson, este ano, em Valerian e a cidade dos mil planetas, a execução dos efeitos visuais é excelente.
Se o episódio de Abrams era uma espécie de serviço para os fãs, pelo menos ele tinha um senso de espaço e movimentação, o que falta a Johnson em algumas passagens como aquela do cassino, embora ele apresente densidade em algumas cenas, sendo muito mais nebuloso, indefinido, o que faltava na peça de Abrams. Tratar as prequels de Lucas como um desserviço ao cinema e este filme como o melhor da saga, segundo alguns, é, por outro lado, no mínimo questionável. Há uma evidente desproporção no que se refere a como os novos Star Wars são recebidos: sem se basear na nostalgia, mas nenhuma dessas obras recentes tem o peso e a intensidade da trilogia original. Havia um nome que conduzia tudo, mesmo sem dirigir algumas vezes: George Lucas, aquele que para alguns teria arruinado a série com a segunda trilogia, mas pelo menos não tentava reviver a trilogia original tentando fazê-la passar por uma nova, mesmo tendo em vista a qualidade. Basta comparar A vingança dos Sith, por exemplo, com esta obra para notar que muitas coisas devem ser revistas e reconsideradas. O que permanece em Os últimos Jedi tem qualidades verdadeiras e, ao final, atrai uma terceira parte, mas se espera que com elementos mais originais.

Star Wars – The last jedi, EUA, 2017 Diretor: Rian Johnson Elenco: Mark Hamill, Carrie Fisher, Adam Driver, Daisy Ridley, John Boyega, Oscar Isaac, Andy Serkis, Lupita Nyong’o, Domhnall Gleeson, Anthony Daniels, Kelly Marie Tran, Laura Dern, Benicio del Toro, Joonas Suotamo, Jimmy Vee Roteiro: Rian Johnson Fotografia: Steve Yedlin Trilha Sonora: John Williams Produção: Kathleen Kennedy, Ram Bergman Duração: 152 min. Estúdio: Lucasfilm Ltd. Distribuidora: Walt Disney Studios