Cruzada (2005)

Por André Dick

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Poucos são os cineastas que conseguem voltar a um tempo demarcado da história sem darem a impressão de que estão querendo apenas relatar fatos. Ridley Scott é um deles. Ele sempre fez filmes primorosos visualmente (como Os duelistas, Alien e Blade Runner). A partir do novo século, ele passou a focar mais em dramas cotidianos, mas sempre com cenários elaborados, alternando com peças de sentido histórico. Vencedor do Oscar em 2001, Gladiador é um feito moderno da narrativa mais simples e, ao mesmo tempo, épica, grandiosa. O personagem principal, interpretado por Russel Crowe, é traído e precisa recuperar sua dignidade voltando à Roma para salvá-la de um tirano (Joaquin Phoenix), o filho do antigo César. O argumento é mais do que previsível, contudo Ridley Scott consegue transformá-lo em imagens antológicas de lutas em arenas, com atuação eficiente de todo o elenco. A direção de arte e os efeitos especiais também são de muita consistência, sobretudo porque estamos diante de um filme de época, que nos faz crer que Roma está de volta.

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Também não há muitos filmes em que o corte do diretor realmente mude o significado da história e da narrativa. O portal do paraíso talvez seja o mais representativo, em razão da polêmica que cercou o corte imposto à metragem original da obra de Cimino. E há os cortes com os quais os diretores não concordam, como aquele de Duna, nunca aceito por David Lynch. Nos últimos anos, talvez não haja outro corte novo tão significativo quanto o de Cruzada, feito por Ridley Scott. A duração original tinha 144 minutos e a que saiu em Blu-ray tem 194 minutos, ou seja, quase uma hora de acréscimo. O filme com a metragem original tinha uma grande qualidade, no entanto era irregular; Scott, por meio dessas cenas novas, mostra realmente um épico. Talvez essa diferença não funcione com todos, talvez eu tenha visto a primeira versão em uma época em que esperava mais, e hoje esse gênero de filme parece mais raro; particularmente, a versão estendida de Cruzada é extraordinária, um dos melhores momentos na trajetória de Scott.
O filme inicia em 1184, mostrando um ferreiro, Balian (Orlando Bloom), na França, às voltas com a perda recente da esposa, que se suicidou depois de perder o bebê. Chega à sua cidade o Barão Godfrey de Belin (Liam Neeson), que pede a Balian para que o acompanhe em direção à Terra Santa. Godfrey lhe pede para que sirva ao Rei de Jerusalém, Rei Baldwin IV (Edward Norton, escondido atrás de uma máscara de ferro), assessorado por Tiberias (Jeremy Irons), o Marechal de Jerusalém. O rei é irmão da princesa Sibylla (Eva Green), que se interessa por Balian, enquanto seu marido Guy de Lusignan (Marton Csokas) investe contra os muçulmanos com a Ordem dos Templários. Abre-se uma guerra de Jerusalém contra Saladino (Ghassan Massoud).

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Dizer que Cruzada tem elementos de Gladiador, filme anterior de Ridley Scott, é bastante claro. Mas eis uma obra em que realmente a fotografia, de John Mathieson, faz uma diferença imprescindível, auxiliado pelo fabuloso desenho de produção. Se Orlando Bloom se entrega com certa dificuldade ao papel principal – e seus conflitos nunca são devidamente externados –, Scott selecionou um grande elenco coadjuvante, não apenas Norton, Irons e Massoud, mas Eva Green em um dos momentos de início de carreira mais exitosos. Sua personagem em Cruzada é possivelmente a mais elaborada do roteiro, adotando uma dualidade estranha, e, ao mesmo tempo que tenta ser sedutora, é abalada pela tragédia. É Green quem conduz com talento as cenas com Bloom. Trata-se de um personagem feminino típico da filmografia de Scott, que lançou a Ripley de Sigourney Weaver em 1979 e pouco mais de uma década depois fez Thelma & Louise. A personagem de Green se conecta com essas personagens na maneira de ver além de seu tempo, e Scott deseja visualizá-la com os encantos de Marion Cotillard de Um bom ano num cenário justificado de combate entre exércitos.

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Já Scott filma não apenas cenários do Oriente Médio com um talento impressionante, como faz uma batalha final (de em torno de 40 minutos) com a mesma persuasão de Kurosawa em Ran, como apontou certa crítica. Não estamos mais no meio da fantasia, mas de uma reprodução da história poucas vezes igualada na história do cinema. Se a atuação de Bloom não está à altura dessa grande condição alcançada pelo filme, não exatamente importa: a versão com mais de três horas concede a ele uma chance a mais, com sequências não quebradas de maneira abrupta como na versão que foi aos cinemas. Com este filme, também se conclui que os anos 2000 não ficam para trás dos anos 70-80 na qualidade da obra de Scott: Cruzada forma um número de fpeas muito interessantes, ao lado de Falcão negro em perigo, Os vigaristas e O gângster.

Kingdon of heaven, EUA, 2005 Diretor: Ridley Scott Elenco: Orlando Bloom, Eva Green, Jeremy Irons, David Thewli, Brendan Gleeson, Marton Csokas, Liam Neeson, Marton Csokas Roteiro: William Monahan Fotografia: John Mathieson Trilha Sonora: Harry Gregson-Williams Produção: Ridley Scott Duração: 144 min. (versão de cinema) 194 min. (versão estendida) Estúdio: Scott Free Productions,
Inside Track,Studio Babelsberg Motion Pictures GmbH Distribuidora: 20th Century Fox

 

 

A balada de Buster Scruggs (2018)

Por André Dick

Depois de realizarem Gosto de sangue e antes de revitalizarem o cinema de gângsteres com Ajuste final, os irmãos Coen realizaram Arizona nunca mais, que mostra a história de um ladrão arrependido (Nicolas Cage), que pede em casamento uma policial (Holly Hunter) – uma espécie de versão mais engraçada de Fargo.
Quando os dois decidem ter filhos, descobre-se que ela é estéril. Para buscar a felicidade, os dois resolvem roubar um dos cinco bebês de um casal cujo sobrenome é Arizona. Tudo ocorre bem no começo, mas surgem dois fugitivos da cadeia, amigos do personagem, e um motoqueiro selvagem, na linha de Mad Max, que pretende recuperar o bebê. Os irmãos Coen acertam no clima da história, nas gags visuais e entregam aqui um de seus melhores filmes, ainda o mais despretensioso deles.

Fazem mais: realizam uma espécie de faroeste moderno e cômico, no qual o homem interiorano precisa fugir das balas de um vendedor por ter roubado um saco de fraldas, antecipando, mais do que Onde os fracos não têm vez, cuja história transporta para os dias atuais o clima de faroeste, na guerra entre psicopatas atrás de maletas de dinheiro e o tráfico de drogas, o desejo de homenagear o clássico de John Wayne em Bravura indômita por meio de uma nova adaptação do romance de Charles Portis – à época do lançamento, os Coen, inclusive, negaram que sua versão seria um remake, e sim uma nova adaptação do mesmo livro que havia inspirado o filme de Henry Hathaway.
Com um gosto tão grande pelo gênero que marcou a história do cinema norte-americano e ainda continua produzindo peças interessantes (só neste ano tivemos também o ótimo Damsel, com Robert Pattinson e Mia Wasikowska), a dupla de irmãos regressa com A balada de Buster Scruggs (ou The ballad of Buster Scruggs), lançado no Festival de Veneza, no qual recebeu o prêmio de melhor roteiro, com o selo da Netflix. Colecionando seis histórias apresentadas diretamente das páginas de um livro antigo, que poderiam situar o filme como uma espécie de No limite da realidade do faroeste, A balada é uma síntese da trajetória dos irmãos, com um talento incomum para o humor corrosivo. Já inicia mostrando a história de Buster Scruggs (Tim Blake Nelson), um cowboy que vive entrando em duelos a cada cidadezinha ou bar perdido em meio às pradarias, esperando também ser reconhecido como cantor.

Na segunda história, um pistoleiro (James Franco) tenta assaltar um banco perdido em meio à poeira do Velho Oeste, quando se depara com um atendente muito bem preparado, Teller (Stephen Root). Na terceira, um homem (Liam Neeson) viaja com um jovem (Harry Melling) numa carruagem, que se converte em palco de teatro. O rapaz não tem braços nem pernas e faz longos discursos, que mesclam poesia e política. No quarto episódio, temos um prospector (Tom Waits) em busca de ouro numa paisagem intocada. Quando ele chega, a coruja que fica numa das árvores muda de lugar, os cervos e os peixes de um riacho se afastam: tudo simboliza a chegada ameaçadora da civilização. Uma jovem, Alice Longabaugh (Zoe Kazan), em busca de um marido é o mote do quinto episódio. Numa caravana para um lugar determinado (que lembra O atalho, também com Zoe, e Um sonho distante), ao lado de seu irmão Gilbert (Jefferson Mays), ela se ressente de perder o cão que atrapalha a todos latindo e faz amizade com Billy Knapp (Bill Heck), que trabalha ao lado de Arthur (Grainger Hines). E finalmente no sexto episódio temos uma espécie de diálogo com o ato inicial de Os oito odiados, quando uma mulher, Sra. Betjeman (Tyne Daly), e quatro homens, o irlandês Clarence (Brendan Gleeson), o inglês Thigpen (Jonjo O’Neill), o francês René (Saul Rubinek) e Trapper (Chelcie Ross), viajam numa carruagem por uma pradaria que lembra a de um filme de terror.

Os Coen abrem o filme com uma história curta e ágil, uma espécie de curta-metragem que talvez seja o que melhor corresponda à sua filmografia. Scruggs tem um físico franzino, mas enfrenta pistoleiros que tentam encontrá-lo e ainda com uma agilidade impecável para se sair bem num bar sem armamento. Neste episódio, já se deixa claro que a temática principal, que liga todas as histórias, é a morte. Esse registro não passa batido, contudo faz expandir a visão que os Coen lançam sobre o homem: por um lado, cômica, por outro negativa e mesmo pessimista. Eles conseguem sintetizar traços humanos por meio de pequenas fagulhas narrativas, a exemplo da terceira – e mais amarga – história, quando a barbárie humana ultrapassa qualquer discurso retórico. Em certos momentos, a fotografia primorosa de Bruno Delbonnel, habitual colaborador dos mais recentes filmes de Tim Burton, e o desenho de produção de Jess Gonchor (de Bravura indômita) fazem o Velho Oeste se sentir vivo como em A conquista do Oeste, épico dos anos 60, para ser exibido em Cinerama. Delbonnel é o diretor de fotografia que se tornou conhecido por seu trabalho irretocável em O fabuloso destino de Amélie Poulain, que leva as pradarias e as florestas a terem uma grande atmosfera. Isso não atenua numa tela menor.

Em certos momentos, pela influência de Dead man, seu trabalho dialoga com o de Oeste sem lei, com Michael Fassbender, filmado na Nova Zelândia e excêntrico por causa disso, na composição de cores, fazendo o episódio derradeiro lembrar exatamente uma fantasia no Velho Oeste. De qualquer maneira, a beleza das imagens parece esconder a imagem que os criadores de Fargo projetam: o de uma civilização que se antecipava a índios e violência em meio a lugares a se perder de vista. Todos os personagens de A balada guardam em comum a solidão, a falta de uma família estabelecida, e a carruagem representa essa transitoriedade. É um mundo em composição e, ao mesmo tempo, em decomposição, levando o espectador de volta a uma época em que a humanidade era colocada em xeque a cada vilarejo. As atuações do elenco nesse sentido (principalmente as de Blake Nelson, Waits e Kazan) colaboram de forma fundamental para o êxito. Os Coen não chegam a almejar uma pretensa filosofia por meio de seus contos, no entanto ela pode ser vista a cada passo dos personagens. Sob um verniz de despretensão, de contar histórias de um livro (que o filme usa como recurso), eles mostram mais uma vez sua interessante visão sobre a constituição dos Estados Unidos. Melhor: após o marcante Ave, César!, sobre a Hollywood dos anos 50, parecem voltar à melhor forma, aquela dos anos 90, quando encadearam várias obras excelentes e se mostraram autores de cinema fundamentais.

The ballad of Buster Scruggs, EUA, 2018 Diretores: Joel Coen e Ethan Coen Elenco: James Franco, Brendan Gleeson, Zoe Kazan, Liam Neeson, Tim Blake Nelson, Tom Waits, Stephen Root, Harry Melling, Jefferson Mays, Bill Heck, Grainger Hines, Tyne Daly, Jonjo O’Neill, Saul Rubinek, Chelcie Ross Roteiro: Joel Coen e Ethan Coen Fotografia: Bruno Delbonnel Trilha Sonora: Carter Burwell Produção: Joel Coen, Ethan Coen, Megan Ellison, Sue Naegle, Robert Graf Duração: 133 min. Estúdio: Annapurna Pictures Distribuidora: Netflix

A lei da noite (2017)

Por André Dick

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Pode-se sentir que em geral há uma preocupação grande com o que Ben Affleck possa ter sido ou vir ainda a ser. Em 2016, depois da polêmica em torno de Batman vs Superman, ele se transformou num dos atores mais visados, principalmente quando decidiu anunciar que iria dirigir The Batman. Este A lei da noite acabou atraindo um comportamento crítico em geral que parecia mais interessado no que ele estaria planejando do que de fato apresenta aqui, e, por problemas de divulgação, acabou se transformando numa falha significativa de ignição na bilheteria. Em seguida, foi anunciada sua saída da direção do novo filme do super-herói de Gotham, trazendo ainda mais indefinição sobre o seguinte fato: esta seria sua obra a ser esquecida?
A lei da noite possui uma das narrativas de gângster mais focadas num personagem, no caso Joe Coughlin (Ben Affleck), um veterano da I Guerra Mundial e filho de Thomas (Brendan Gleeson), capitão da polícia de Boston. Ele está apaixonado por Emma Gould (Sienna Miller), amante do gângster Albert White (Robert Glenister), e pratica atividades criminosas, para preocupação do pai. Pela narração, sabemos que ele não quer mais trabalhar para ninguém como fez durante a Guerra.

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O mafioso Maso Pescatore (Remo Girone) chantageia Joe justamente para matar o rival White. Depois de contratempos, Joe é levado a Ybor City, Tampa, Florida, com o parceiro Dion Bartolo (Chris Messina), onde conhece Graciela Corrales (Zoe Saldana), a irmã de um homem de negócios do local cubano. Ele se aproxima do xerife do local, Irving Figgis (Chris Cooper), pai de Loretta (Elle Fanning), e enfrenta um homem ligado à Ku Klux Khan, RD Pruitt (Matthew Maher).
Baseado num romance de Dennis Lehane, A lei da noite tem uma reconstituição de época notável e não por acaso era visto como um dos potenciais candidatos ao Oscar. Para isso, a colaboração do diretor de fotografia Robert Richardson, habitual colaborador de Tarantino e Oliver Stone, é fundamental. Trata-se de um recorte histórico em que a vida de mafiosos se encaixa com a história da América e, principalmente, do preconceito existente nela, contra latinos e negros, a presença da Ku Klux Khan e a vigência da Lei Seca. Joe é um personagem indefinido entre uma certa gentileza e uma violência extrema, e Affleck, um ator muitas vezes bastante limitado, consegue equilibrar essas duas facetas principalmente nas sequências em que empreende diálogos com amigos ou inimigos. O seu grande adversário tem sobrenome White, e os preconceitos destilados ao longo da metragem do filme se direcionam principalmente às escolhas pessoais que Coughlin vai realizando.

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Ele conduz o início da trama com uma agilidade que repercute principalmente na segunda metade, mais interessada em fazer analogias entre religião e cinema, violência e arte, culpa e constituição de uma família. Do elenco, não apenas Affleck está bem (o que acontecia raramente em sua carreira até iniciar sua trajetória como diretor), mas, principalmente, Gleeson, Cooper, Maher, Girone, Miller e Fanning, esta num diálogo comovente com Joe em determinado momento, mostrando seu talento. É destacada a maneira como Coughlin representa uma espécie de indefinição entre ser realmente mau ou adotar apenas uma persona, o mesmo acontecendo com a personagem de Loretta, que se transforma numa ameaça para seus negócios. Não apenas o fato de terem pais que também são policiais que os aproximam, nem o fato de Coughlin ter um primo trabalhando como roteirista em Hollywood, para onde ela deseja ir, e sim a insegurança de não saber se terão culpa pelo que cometeram ou irão cometer.
Vendo os filmes de Ben Affleck, pode-se perceber o seu interesse pelo universo do crime. Em Atração perigosa, ele interpreta um Doug MacRay, amigo de James Coughlin (interpretado por Jeremy Renner), sobrenome do seu criminoso de A lei da noite.

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Os dois são assaltantes de bancos e a partir daí se desenha uma série de subtramas sustentadas por grandes atuações tanto de Affleck quanto de Renner, Jon Hamm, Blake Lively e Rebecca Hall. Se em Medo da verdade, o detetive feito por Casey Affleck estava às voltas com os criminosos de um bairro pobre, seu Doug tenta uma nova chance com a mulher feita por Hall.
O tema sempre presente em sua filmografia é a crença na mudança: em Medo da verdade, visualizada na criança; em Atração perigosa, no amor por uma mulher. Em A lei da noite, o tema da criminalidade se mescla com linhagens familiares, e em Atração perigosa não era diferente, na figura de Chris Cooper, como Stephen, pai de Doug. Muito interessante como Affleck desenha os conflitos entre policiais e criminosos, como em Medo da verdade, como se fizessem parte realmente do mesmo universo, o que vai se intensificar em A lei da noite. Surpreende que logo após esses dois filmes iniciais ele tenha feito Argo, uma obra destinada a vencer o Oscar, como aconteceu, mas sem a qualidade deles e, principalmente, de A lei da noite.

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a-lei-da-noite-38Quase não há mais obras sobre gângsters e este especificamente traz uma mistura de Os intocáveis, Dália negra e Dick Tracy (os tiroteios são filmados com uma precisão irretocável), além de Inimigos públicos, de Michael Mann, principalmente na maneira como Affleck apresenta seus personagens. A reconstituição fina oferecida pelo filme não é menos atrativa do que sua narrativa desenhada com recursos mínimos a partir do romance de Dennis Lehane, autor também do livro que deu origem a Medo da verdade. Não há o mesmo nervosismo urbano de seus primeiros filmes, justamente pela atmosfera, e sim uma frieza impactante nas entrelinhas, acrescentada pela narração esporádica de Coughlin. Também não há nenhum humor aqui: esta é uma tentativa de empregar o mesmo clima das peças de gângsters dos anos 40 e 50. Talvez seja ainda mais: Affleck mostra como os gângsters estão presos a um momento histórico e a um comportamento que apenas pretende flertar com a violência, sem ter nenhuma ideia do que ela acarreta. É difícil determinar por que este filme foi recebido com tanta rejeição, mas talvez seja em razão de um certo distanciamento desse gênero. O roteiro se esclarece como poucas obras conseguem, ou seja, se não é uma das realizações do ano, difícil saber muitas outras que seriam. Intimista, feito à moda antiga, fascinante, com um olhar quase europeu por Affleck, A lei da noite é um acerto de qualidade que só o tempo irá reconhecer.

Live by night, EUA, 2017 Diretor: Ben Affleck Elenco: Ben Affleck, Elle Fanning, Brendan Gleeson, Chris Messina, Sienna Miller, Zoe Saldana, Chris Cooper, Robert Glenister, Matthew Maher, Anthony Michael Hall, Scott Eastwood Roteiro: Ben Affleck Fotografia: Robert Richardson Trilha Sonora: Harry Gregson-Williams Produção: Ben Affleck, Chat Carter, Jennifer Davisson Killoran, Leonardo DiCaprio Duração: 128 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Appian Way / Pearl Street Films

cotacao-5-estrelas

 

Assassin’s creed (2016)

Por André Dick

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Por ter como origem um game da Abisoft, Assassin’s creed tem sido comparado consequentemente a Warcraft, o filme menosprezado de Duncan Jones lançado no ano passado e cujo orçamento se pagou com sua trajetória nos cinemas fora dos Estados Unidos. Já a trajetória da nova adaptação tem tido mais riscos, com pouco faturamento nos Estados Unidos e no exterior até agora, mesmo com um elenco mais conhecido e uma produção que levantou bons recursos do estúdio. Particularmente, como Warcraft, nunca tive a experiência de jogar com esses personagens. Talvez para os fãs se intensifique a expectativa em torno da história.
Michael Fassbender atua como Callum Lynch, que teve sua mãe assassinada quando era criança, em 1986, e, nos dias atuais, no momento em que está para ser condenado à morte, é transportado para um centro de pesquisa em Madri, a Fundação Abstergo, onde conhece Sophia Rikkin (Marion Cotillard), cujo pai, Alan (Jeremy Irons), chefe do lugar, quer utilizá-lo em experimentos que o fazem revivenciar o que foi séculos antes, Aguilar de Nerha.

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Tratava-se do líder de uma sociedade de assassinos que pretende capturar a “Maçã do Éden” em oposição aos cavaleiros templários com o objetivo de manter o livre arbítrio, durante a inquisição espanhola, tendo como rival Torquemada (Javier Gutiérrez), mais exatamente em 1492, mesmo ano da descoberta de Cristóvão Colombo, como vemos no filme de Ridley Scott com a trilha de Vangelis. E Callum está em meio a uma sociedade composta por figuras enigmáticas, entre os quais se incluem ainda McGowen (Denis Menochet) e a experiente Ellen Kaye (Charlotte Rampling). A história parece estranha? O filme é ainda mais, no bom sentido.
Por meio desse experimento, o filme encarna uma espécie de Matrix, em que há o lugar em que Callum se encontra e os lugares históricos para onde se dirige por meio de um maquinário extremamente detalhado, chamado Animus (que lembra os tentáculos do vilão de Homem-Aranha 2 e do próprio Neon da saga dos Wachowski), sobretudo quando encarna seu antepassado Aguilar. Trata-se de viagens mentais, e que envolvem ainda Maria (Ariane Labed). Este lugar de experimentos, Abstergo, possui algumas paisagens que lembram um Éden esquecido e imagens de pássaros voam por cima de telhados de vidro. Visualmente, Assassin’s creed é atrativo. Ainda mais o elenco: Fassbender consegue lançar seu habitual drama ao encarnar o personagem, e Cotillard mostra sua angústia e mistério habituais para compor sua personagem.

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O roteiro de Michael Lesslie, em parceria com Adam Cooper e Bill Collage, compõe um embaralhamento de tempos que concede ao filme uma camada complexa e instigante de história. Alguns temas evocam Cruzada, de Ridley Scott, mas a questão do Éden se fecha mais com filmes sobre a influência bíblica e religiosa na vida de organizações (interessante ver a hora da morte calculada de Callum, na qual imaginei que tivesse alguma referência religiosa e, se visto de forma inversa, remete ao versículo 59:17). Alguns temas da obra se espalham ao longo da narrativa, e vão constituindo um elo. Há alguns elementos de Fonte da vida, de Aronofksy na maneira como o diretor mostra a relação entre Sophia e Callum, como se estivessem num universo realmente à parte e a volta ao passado representasse uma espécie de ingresso no cosmos.
O diretor Justin Kurzel, que já havia trabalhado com Fassbender e Cotillard na adaptação de uma peça de Shakespeare, Macbeth, aplica um punhado de sequências de ação que envolvem malabarismos e lutas cênicas capazes de atrair a atenção todo o tempo. Lamenta-se apenas que a história não desenvolva o potencial, principalmente do personagem central, depois de um início instigante, mesmo que apresente uma boa parte dramática, que envolve a figura paterna, Joseph (Brendan Gleeson), trazendo mais informações sobre o desaparecimento de sua mãe.

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O seu passado é o mote que Kurzel estabelece para tornar o filme mais do que uma adaptação de um game, conseguindo verter para a nova linguagem uma interessante fusão de personagens e situações para quem desconhece o jogo original. O personagem feito por Jeremy Irons é uma espécie de figura a distância, como se fosse um elemento não divino, mas que se situa acima de todos, um emblema de poder capaz de contrariar as escolhas de Callum ou mesmo ter de aceitá-las.
A fotografia de Adam Arkapaw, que fez a de outra obra recente de Fassbender, A luz entre oceanos, é bela na sua composição entre um filtro azul do lugar de experimentação e um bege retratando a época passada. Fica-se imaginando o que Ridley Scott teria feito com essa adaptação de game para o cinema, mas o que resulta ainda é um trabalho capaz de jogar com os temas que possui em mão da melhor forma possível. As motivações iniciais do personagem evocam um interesse e, aos poucos, não são suficientemente trabalhadas, possivelmente aguardando por uma sequência. É um filme sobre como o passado pode ser revitalizado por meio de novas sensações e da luta corporal que lhe dê um vigor e um sentido e ainda sobre desafiar a própria possibilidade de resolver seu passado e o futuro por meio de um traço fantástico.

Assassin’s creed, EUA, 2016 Direção: Justin Kurzel Elenco: Michael Fassbender, Marion Cotillard, Charlotte Rampling, Jeremy Irons, Khalid Abdalla, Carlos Bardem, Javier Gutiérrez, Brendan Gleeson, Ariane Labed Roteiro: Adam Cooper, Bill Collage, Michael Lesslie Fotografia: Adam Arkapaw Trilha Sonora: Jed Kurzel Produção: Arnon Milchan, Conor McCaughan, Frank Marshall, Jean-Julien Baronnet, Michael Fassbender, Patrick Crowley Duração: 115 min. Distribuidora: Fox Film do Brasil Estúdio: Regency Enterprises / Ubisoft Motion Pictures

cotacao-3-estrelas

 

No coração do mar (2015)

Por André Dick

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O diretor Ron Howard tem mantido uma sólida filmografia desde os anos 80, quando foi responsável por algumas referências de seus respectivos gêneros, a exemplo de Splash, Cocoon, Willow – Na terra da magia e O tiro que não saiu pela culatra. Nos anos 90, trouxe o melhor filme sobre bombeiros já feito (Cortina de fogo), além de uma história interessante sobre o universo jornalístico (O jornal), outra sobre os primeiros desbravadores nos Estados Unidos (Um sonho distante) e uma ficção indicada ao Oscar (Apollo 13). Nos anos 2000, ele recebeu seu primeiro Oscar com Uma mente brilhante e encadeou ótimos filmes (A luta pela esperança e Frost/Nixon) com outros de menos interesse (O Código Da Vinci, O Grinch). Em 2013, Howard inaugurou uma nova parceria com o astro Chris Hemsworth, por meio do belo filme sobre Fórmula 1, Rush, parceria que ele repete em No coração do mar, o filme sobre a origem do romance Moby Dick, de Herman Melville.
Também ator e cujo trabalho de direção recebeu apoio do mentor George Lucas, para quem trabalhou em American grafitti, Howard apresenta a história de Thomas Nickerson (Breendan Gleeson), casado com (Michelle Fairley) que recebe, num momento de depressão e financeiramente difícil, o escritor Herman Melville (Ben Wishaw, fazendo ecoar seu papel em Cloud Atlas) para contar a história do baleeiro Essex, que partiu em viagem nos anos 1850 da cidade de Nantucket. Ou seja, o filme não é uma adaptação direta de Moby Dick, livro de Melville que serviu de referência para outros inúmeros livros ou filmes sobre o confronto entre homens e animais (do mar ou da terra).

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Em torno de três décadas antes, Nickerson (agora Tom Holland) fazia parte desse baleeiro, sob o comando de George Pollard (Benjamin Walker, excelente), um capitão inexperiente que recebe o confronto direto de Owen Chase (Hemsworth), cujo melhor amigo, Matthew Joy (Cillian Murphy), se encontra a bordo, e muito mais tarimbado nas funções que precisa exercer em alto-mar. No entanto, eles precisam entrar em acordo para que o serviço seja bem feito e possam voltar com bastante especiaria de baleia para terra. Alguns meses mais tarde, eles percebem que quase não há baleias, indo parar no Equador, onde são alertados sobre uma determinada cachalote branca. Isso é o ponto de partida para a história de Melville, que já se tornou conhecida, por meio de seu capitão Ahab, que enfrenta a cachalote em alto-mar. Escusado será dizer que o barco Essex será perseguido como se houvesse um embate contra outro ser humano, plenamente consciente de que deve se vingar. Esse é o mote dessa grande história.
Por meio de uma fotografia excelente de Anthony Dod Mantle, já responsável pelas tomadas de corrida de Rush, que concede ao filme uma textura de filme antigo, mais propriamente dos anos 50. No coração do mar cresce ainda mais por causa de sua imponência na parte de efeitos especiais e efeitos sonoros. São notáveis as sequências de perseguição da baleia ao Essex, e este é construído de maneira verossímil. Há algumas alternativas previsíveis na narrativa de Howard, mas em nenhum momento o filme se apresenta como montado às pressas como costuma acontecer com grande parte dos blockbusters: ele tem uma grande proximidade com fatos que poderiam a princípio chocar não fossem símbolos exaustivos de como pode uma sobrevivência se antecipar à vida, assim como o referencial Invencível.

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Também é notável a reconstituição de época (junto com os figurinos), mesmo que em alguns momentos haja uma determinada aparência falsa no conjunto; no entanto, parece-me proposital, por Howard exatamente querer recuperar o clima de cinema antigo já constatado na fotografia de Dod Mantle. Não são raras as vezes em que imaginamos assistir a um filme clássico, cujo relevo lembra um álbum antigo. A obra de Howard se sente como um grande painel de época, variado e profuso – e determinadas sequências possuem uma beleza plástica poucas vezes vistas no cinema. Em alguns momentos, há diálogos com a maneira como Peter Jackson filmou as cenas em alto-mar no seu King Kong, em outros, como já apontado, Howard convoca elementos do documentário Leviathan, principalmente ao mostrar o voo de gaivotas, e há um eficiente uso das cores vermelhas (da violência contra a baleia) e verdes (do mar e dos olhos dos personagens e da própria cachalote). Howard sempre esteve muito interessado no tema da viagem e do confronto do homem com seus próprios limites, como em Apollo 13, Um sonho distante ou mesmo na fantasia Willow. Em Uma mente brilhante e A luta pela esperança, Russell Crowe representava homens lutando contra suas possibilidades e impossibilidades, e nesse sentido Owen Chase é um típico personagem de sua filmografia.

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Na verdade, se aqui Howard consegue extrair interpretações competentes do elenco, como de praxe, ele se esmera ainda mais em se aproximar de um lado mais grave: o ser humano em busca de uma temporada de caça acaba se voltando contra si próprio para sobrevivência. Howard consegue indicar esse desespero humano, sobretudo ao mostrar como os homens do baleeiro faziam para extrair as especiarias e depois o que devem fazer para se manterem vivos.
Hemsworth tem se mostrado um dos astros mais interessantes desde seu surgimento em Star Trek e Os vingadores. Em No coração do mar, mais uma vez ele revela uma emoção que consegue captar seu susto diante da situação de enfrentar um mistério da natureza querendo destruir a navegação da qual faz parte. Ele faz parte de um ótimo elenco de apoio, incluindo Whishaw, Gleeson e Cillian Murphy. Holland, o próximo Homem-Aranha, tem uma participação não exagerada e competente o suficiente para tornar seu personagem como a continuação de uma linhagem de baleeiros.

In the heart of the sea, EUA, 2015 Diretor: Ron Howard Elenco: Chris Hemsworth, Benjamin Walker, Ben Whishaw, Brendan Gleeson, Tom Holland, Cillian Murphy, Michelle Fairley Roteiro: Charles Leavitt Fotografia: Anthony Dod Mantle Trilha Sonora: Roque Baños Produção: Brian Grazer, Edward Zwick, Joe Roth, Paula Weinstein, Will Ward Duração: 121 min. Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: Cott Productions / Enelmar Productions, A.I.E. / Imagine Entertainment / Roth Films / Spring Creek Productions / Village Roadshow Pictures / Warner Bros

Cotação 4 estrelas