Superman – O filme (1978)

Por André Dick

O cineasta Richard Donner foi, por algum tempo, um artesão capaz de fazer filmes divertidos e com viés comercial, mas sem menosprezar a inteligência do espectador. O primeiro Superman é  superior às sequências, capaz de, ao mesmo tempo, mostrar a origem do herói e sua transformação em algo maior sem perder parte da ingenuidade saudável que necessitamos numa história do gênero, baseada nos quadrinhos de Joe Shuster e Jerry Siegel. Para o papel principal, foi escolhido Christopher Reeve (que faria ainda, em seguida, o belo Em algum lugar do passado), e, para seu pai, Jor-El, Marlon Brando, em interpretação marcante, apesar de curta.
(Daqui em diante, spoilers.) O filme mostra o herói ainda bebê sendo mandado por Jor-El e sua mulher Lara (Susannah York)  para a Terra porque seu planeta de origem, Krypton, está sendo destruído. Ele embarca numa espécie de cápsula que lembra o cesto de Moisés, e depois de anos chega à Terra. A cápsula cai à beira de uma estrada no interior do Kansas, como se fosse um meteoro, e abre um buraco enorme, e o Superman já criança é encontrado por aqueles que se transformam em seus pais adotivos, Jonathan e Martha Kent (Glenn Ford e Phyllis Thaxter), da pequena cidade de Smalville.

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A relação do Superman com seu pai terráqueo, assim como com sua mãe, é memorável, e as paisagens tristes do interior se projetam na própria vida daquele que esconde no celeiro parte da solução do mistério. “Sempre soubemos que ia partir”, diz Martha, e Donner consegue realmente desenhar uma relação humana sem recorrer à excessiva dramaticidade, o que rende a sequência mais melancólica da série, com a despedida dele ao universo que também lhe trouxe uma admiração especial por Lana Lang (Diane Sherry), que regressaria em Superman III. Clark segue para o Ártico, onde irá fundar uma espécie de extensão de Krypton, tentando descobrir as origens de sua genética e o rosto familiar que até então não conhecia, e o ator que faz o herói nesta etapa, Jeff East, empresta um caminho de afastamento de tudo e de todos, oferecendo um sentido de solidão que seria reproduzido por Zack Snyder em O homem de aço.
Clark Kent cresce (quando é interpretado por Reeve) e se transforma num jornalista do Daily Planet, sob a chefia de Perry White (Jackie Cooper) e com a companhia do fotógrafo Jimmy Olsen (Mark McClure) e da jornalista Lois Lane (Margot Kidder), por quem é apaixonado (interessante o clima do escritório, em diálogo direto com Todos os homens do presidente). Ainda indefinido entre a persona humana e a de herói, logo ele precisa tomar como rumo o enfrentamento com uma série de criminosos. À frente deles, está Lex Luthor (Gene Hackman, excepcional), acompanhado de Otis (Ned Beatty) e Eva Teschmacher (Valerie Perrine), que ameaça a Terra com uma ogiva nuclear. É Luthor que consegue desenhar, nos subterrâneos de Metrópolis, um vilão perverso (sobretudo quando o herói se depara com uma kryptonita), e, para isso, Hackman tem uma grande contribuição.

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Se os efeitos especiais estão um tanto ultrapassados (mas em nenhum momento decepcionantes, e receberam o Oscar), a direção de arte (de Krypton, sobretudo) é fascinante e a trilha de John Williams continua memorável, a melhor dos filmes de super-heróis. Além disso, Metrópolis é uma espécie de Nova York, captada de forma nostálgica pela ótima fotografia de Geoffrey Unsworth (2001), com grandes letreiros de jornal (evocando os anos 40 ou 50) e muitos bandidos sem tanto tato para o crime, além de abrigar várias cenas de ação do herói, que inspirariam, sobretudo, as adaptações de Homem-Aranha (na franquia de Sam Raimi). As transformações do Superman (em cabines giratórias) guardam um resquício do humor bem dosado por Donner, sem cair numa espécie de pastelão cômico efetuado por Richard Lester depois, sobretudo no terceiro. E os encadeamentos da história de Mario Puzo, autor de O poderoso chefão, são sempre interessantes, mesmo às vezes previsíveis, com o roteiro desenvolvido, entre outros, por Robert Benton (que dirigiu o vencedor do Oscar em 1979, Kramer vs Kramer).

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Especialmente porque Donner é uma diretor especialista em cenas de ação que misturam drama e comédia, o que pode ser constatado em obras como Os Goonies, Máquina mortífera, Ladyhwake e no faroeste dos anos 90 Maverick, ele não desaponta nunca em Superman; pelo contrário, ele estabelece um padrão para o que viria na década seguinte, com o Batman de Tim Burton, e com o bom humor recente e vertiginoso tanto de Homem-Formiga quanto de Thor e Os vingadores, de Joss Whedon. O Superman de Reeve, e isso se deve sobretudo à visão de Donner, é, sobretudo, alguém indefinido entre tempos diferentes: ao mesmo tempo que conserva um ar dos anos 40, ele consegue efetuar uma transição para os momentos em que precisa enfrentar Luthor de maneira plausível. Em igual escala, Kidder é adorável na persona de Lois Lane.
Aqui, o super-herói é humano e por vezes trágico, não com rompantes para o humor exagerado. Não que Richard Lester não perceba a essência dele nas sequências, mas Donner certamente a desenha da maneira mais adequada, assim como sua relação conflituosa com o pai que não conheceu e com a dualidade entre alguém de outro planeta e o humano. É exatamente isto que falta na versão de 2006, feita por Bryan Singer, e sobra na versão de Zack Snyder para o personagem em O homem de aço, Batman vs Superman e Liga da Justiça, na qual se trata de todos os elementos familiares e de apego a um passado já inexistente, mas ainda forte. Por isso e outros detalhes, mesmo depois de vários anos, é esse Superman aquele filme que ainda serve de referência maior para o seu gênero. Uma verdadeira obra-prima.

Superman, ING/EUA, 1978 Diretor: Richard Donner Elenco: Marlon Brando, Gene Hackman, Christopher Reeve, Ned Beatty, Jackie Cooper, Glenn Ford, Trevor Howard, Margot Kidder, Susannah York, Jack O’Halloran, Terence Stamp, Sarah Douglas Roteiro: Mario Puzo, Robert Benton, David Newman, Leslie Newman Fotografia: Geoffrey Unsworth Trilha Sonora: John Williams Produção: Pierre Spengler Duração: 144 min. Estúdio: Alexander Salkind / Dovermead Film / Film Export A.G. / International Film Production Distribuidora: Warner Bros.

 

O homem de aço (2013)

Por André Dick

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A desilusão com o Superman de Bryan Singer em 2006 foi tão grande que a franquia acabou sendo deixada de lado pela Warner, até se encontrar uma possibilidade de retomá-la (imagina-se se teria sido melhor a versão planejada por Tim Burton, com Nicolas Cage, antes daquela de Singer). O grande problema parecia ser a comparação com a primeira série, cujos dois episódios, de Richard Donner e Richard Lester, eram referenciais para os filmes de super-heróis feitos a partir de então. Mas também porque Singer não conseguiu delinear um Superman para o público, preferindo situá-lo apenas como um indivíduo em busca da explicação para sua existência. Se a parte técnica do filme era respeitável, o mesmo não se podia dizer de sua falta de ação, a ponto de se desconfiar se era um filme de super-herói. Além disso, Kevin Spacey destoava como Lex Luthor, pelo menos quando comparado a Gene Hackman, e tanto Brandon Routh (Superman) quanto Kate Bosworth (Lois Lane) tinham dificuldade em trabalhar o roteiro. No início desta década, a Warner decidiu retomar a franquia, apagando o nome Superman e intitulando O homem de aço, desta vez a cargo de outro diretor, com novos roteiristas e atores.
Se as lições no que diz respeito à ação foram aprendidas com a versão desanimada de Singer, e atores melhores foram colocados nos papéis principais, O homem de aço tenta contrabalançar toda sua expectativa com doses maciças de movimento, ao mesmo tempo com uma tentativa de humanizar o personagem que remete a filmes mais contidos.
A primeira impressão é a visual, e parece que a paleta de cores frias foi um risco – independente de os primeiros filmes serem dos anos 70 e 80, uma época considerada mais ingênua, e o atual existir em meio a acontecimentos deste século. O primeiro Superman teve a fotografia de Geoffrey Unsworth (2001), e este possui o trabalho de Amir Mokri, mais conhecido por parcerias com o diretor Michael Bay, tornando a textura de algumas imagens parecida com a dos filmes Transformers. Quando acerta, e cria uma amplitude especial para os cenários, destacam-se as cores cinza e azul, com um tempo quase sempre chuvoso, úmido, sobretudo quando mostra a infância de Superman, trazendo imagens que lembram A árvore da vida, mas que não chegam a contrastar com o restante, além de luzes em ambientes escuros.

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Com essa escolha, ainda temos o design do filme. Desta vez, Krypton é uma mistura entre os ambientes de Matrix e, sobretudo, de H. R. Giger (da série Alien), e ainda da Terra média, o que acaba prejudicando a desvinculação do filme dessas referências claras e tirando do filme seu impacto inicial, a não ser em imagens excepcionais na água (remetendo novamente a A árvore da vida). Não se trata, nesse caso, de reproduzir os dois primeiros filmes do Superman, mas dar um visual menos denso e derivado ao filme (as cores do Superman, afinal, também são icônicas para uma certa pop art). De qualquer modo, pode-se imaginar essa escolha para que se deixasse o filme parecido com um ambiente da Roma Antiga, inclusive nos cortes de cabelo e do figurino, e no fato de que, aqui, o herói surge como um Messias que pode ameaçar os rumos de um ditador.
O filme (alguns spoilers a partir daqui) inicia da mesma maneira que o original, de 1978, com Jor-El (Russell Crowe, lembrando Gladiador) e sua mulher Lara (Ayelet Zurer), colocando Karl-El num berço em formato de espaçonave, antes da destruição de Krypton, e o envio para o espaço do General Zod (Michael Shannon). À medida que o berço espacial cai na Terra, já se mostra o personagem, chamado Clark Kent, adulto, viajando pelo país, trabalhando nos lugares mais inóspitos, enquanto cada ação recorda um momento da infância, com seus pais, Jonathan Kent (Kevin Costner) e Martha (Diane Lane) – certamente, os atores mais humanos do elenco, ao lado daqueles que fazem Clark quando criança, Cooper Timberline e Dylan Sprayberry (ambos ótimos). Numa estação do Ártico, ele vai conhecer Lois Lane (Amy Adams). Embora Znyder conte com a excelente montagem de David Brenner – e ela torna orgânica essa transição do presente para o passado, inovando em relação às versões anteriores –, ele não estabelece uma ligação mais clara entre os personagens. Num primeiro momento, torna-se difícil entender por que a aproximação de Clark e Lois não acontece de modo mais lento, pois era este detalhe que tornava o espectador suficientemente próximo deles do filme de 1978 – depois, percebe-se que o objetivo era centralizar especificamente na ação.

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Para um filme de 143 minutos, no entanto, falta uma transição entre as passagens: tudo soa um tanto abrupto (imagina-se, certamente, uma pilha de material na sala de edição). Também não há proximidade na apresentação dos componentes do Daily Planet, como o chefe de Lois, Perry White (o competente Laurence Fishburne); parece que Snyder tinha receio de repetir a lentidão de Singer e tentasse acelerar mesmo o que acaba não sendo, de fato, mostrado. E torna-se difícil aceitar por que o personagem central simplesmente parece reduzir sua primeira participação ao fato de querer ajudar o exército dos Estados Unidos, com um tom triunfalista, que, se o uniforme não esconde, pelo menos na série universal era atenuado por humor (em determinado momento, o Coronel Nathan Hardy (Cristopher Meloni), depois de ver o herói destruir quase toda Smalville durante um combate, lamenta por não ter visto que ele na verdade é um amigo, não um inimigo).
Não é uma característica de Snyder, responsável pelo cansativo 300 e pelo visualmente interessante Sucker Punch, além de ter adaptado Watchmen, o humor, assim como não é um elemento que o roteirista David S. Goyer e o coargumentista Cristopher Nolan (responsável pela trilogia Batman), também produtores, têm em mente ao criarem seus filmes. Nolan, especialmente, costuma apresentar diálogos em muitos momentos expositivos – mas aqui, especialmente, se percebe a falta do seu irmão, que ajudou a fazer os roteiros da trilogia de Batman. Apenas nos momentos em que Jonathan e Clark Kent estão em cena, ele consegue traduzir uma espécie de humanidade do personagem de Clark, assim como em certa mitologia do ser perseguido por reunir em si a genética de seus descendentes. Há algumas escolhas estruturais que lembram especialmente Batman begins. O personagem de Clark Kent, não por acaso, viaja pelo país, sofrendo, assim como Bruce Wayne em Batman begins, e não por acaso a mocinha parece deslocada – nunca foi o forte de Nolan a concepção de um idealismo romântico. Do mesmo modo, enquanto o Batman realista de Nolan agia sempre com a polícia e o Inspetor Gordon, aqui o Superman parece integrar o exército mesmo antes de revelar todos os seus poderes. O tom contra a destruição de Gotham City era o mote em Batman; aqui o tom é contra a destruição da Terra, de aceitar que os humanos merecem sobreviver. Mas fica faltando o elemento humano: a Terra é ameaçada, mas parece que a população não se refere ao herói, criando um afastamento decisivo. Assim como Star Trek e outras produções recentes, há uma cota de referências ao 11 de setembro, lembrando em outras partes (não foi, diga-se, uma boa lembrança) Independence day e Godzilla, de Roland Emmerich, em algumas cenas-chave, e, em seus melhores momentos, Guerra dos mundos. O melhor, nesse diálogo entre filmes, é que há uma série de referências a Contatos imediatos do terceiro grau, como a origem do Superman escondida embaixo de uma montanha do Ártico, quando ele volta à noite para ver sua mãe e entra pela porta a fim de ver a TV (como a do menino de Contatos imediatos), a aproximação da nave de Zod em meio a árvores, um retrato de Clark quando menino ao lado do pai e de uma montanha como aquela em que as espaçonaves descem no filme de Spielberg para encontrar o personagem de Richard Dreyfuss.

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Nesta ação ininterrupta – e aqui o tratamento é exatamente de Snyder, já que Nolan não segue uma linha frenética –, a atuação de Henry Cavill é interessante, sobretudo porque tenta outro caminho que não o de Reeve (seguido por Brandon Routh, de Superman – O retorno), e se Amy Adams não recebeu alguns diálogos a mais para justificar a ligação com o herói mostra-se novamente boa atriz. Na verdade, os dois têm um vínculo mais claro do que o casal de Superman – O retorno, mas Snyder tira a sutileza que poderia haver na sua proximidade, tornando a faceta mais romântica deste filme quase ausente.
Por outro lado, existe, pela primeira vez, uma visão mais física dos poderes do herói, como o voo, assim como a ligação com os quatro elementos da natureza. Da água, passando pelo fogo, até a terra e o ar, sobretudo numa sequência-chave, considerada por alguns absurda, mas adequada ao contexto do filme, de que o herói, mais do que de aço, é uma composição da força da natureza, O homem de aço apresenta uma simbologia. Os efeitos especiais são extraordinários, ainda que a maneira como alguns deles são apresentados traga a lembrança de atos terroristas, assim como em Homem de ferro 3 (não em Star Trek, cuja abordagem é mais discreta): parece que dentro da fantasia se quer tornar o ambiente pesado, extraindo a energia necessária para o envolvimento decisivo entre os personagens e, quando o herói fala em esperança para um grupo de militares, temos a impressão que ele está falando também como presidente dos Estados Unidos, o que soa irremediavelmente deslocado.
Há, com essa temática de fundo realista (o terrorismo), a presença de referências religiosas, e Snyder não é exatamente sutil ao abordá-las. Superman em vários momentos é comparado à figura de Jesus Cristo, inclusive no momento em que ele está na água com os braços abertos e de barba, ou quando diz que pode curar Lois Lane de um determinado ferimento, ou quando vai até uma igreja e um vitral da figura de Jesus é visto ao fundo, projetando-se ao lado dele. Mas nada, nesse sentido, se compara ao fato de que algumas vezes é referida sua idade: 33 anos. Isso acaba trazendo uma analogia ostensiva, que parece ser encaixada para tentar oferecer uma certa profundidade temática ao personagem de Jerry Siegel e Joe Schuster. Ela consegue ser melhor encaixada quando se visualiza seu nascimento, com a perseguição em seguida de uma espécie de cúpula rebelde que pretende tomar Krypton como a Roma Antiga, e sua infância, quando, num momento aterrorizante, se vê como Clark foi descobrindo, aos poucos, seus poderes.
Por toda a expectativa que criou, embora O homem do aço fique afastado das possibilidades que apresentava, como filme de ação funciona e diverte (mesmo com suas lacunas de roteiro), e nunca é entendiante (como alguns momentos de Homem de ferro 3), mantendo a ação pelas idas e vindas do tempo, trazendo alguns acréscimos à mitologia do Superman (destaque-se a trilha sonora de Hans Zimmer). A questão é que depois de toda a grandiosidade buscada aqui torna-se complicado trazer a série para um movimento não apenas de blockbuster com ação frenética, mas como estudo de um personagem de quadrinhos que fascina desde sua criação. Parece que realmente, depois das experiências com Singer e Snyder, que Superman, ao contrário da série Batman, que teve Tim Burton à frente de uma franquia e Nolan à frente de outra, não tem conseguido diretores autorais, com, entre qualidades e defeitos, uma visão mais sensível. Quando está em movimento, O homem de aço impressiona, mas quando precisa lidar com os personagens o fato é que deixa o espectador nostálgico.

Man of steel, EUA, 2013 Direção: Zack Snyder Elenco: Henry Cavill, Amy Adams, Russell Crowe, Michael Shannon, Kevin Costner, Diane Lane, Antje Traue, Ayelet Zurer, Cristopher Meloni, Laurence Fishburne, Cooper Timberline, Dylan Sprayberry Produção: Charles Roven, Christopher Nolan, Deborah Snyder, Emma Thomas Roteiro: David S. Goyer, Cristopher Nolan Fotografia: Amir Mokri Trilha Sonora: Hans Zimmer Duração: 143 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Atlas Entertainment / Legendary Pictures / Warner Bros. Pictures

Cotação 3 estrelas e meia

Superman I (1978) e Superman II (1980)

Por André Dick

Superman.O filme 9

O cineasta Richard Donner foi, por algum tempo, um artesão capaz de fazer filmes divertidos e com viés comercial, mas sem menosprezar a inteligência do espectador. O primeiro Superman é  superior às sequências (em séries e na versão de 2006), capaz de, ao mesmo tempo, mostrar a origem do herói e sua transformação em algo maior sem perder parte da ingenuidade saudável que necessitamos numa história do gênero, baseada nos quadrinhos de Joe Schuster e Jerry Siegel. Para o papel principal, foi escolhido Cristopher Reeve (que faria ainda, em seguida, o belo Em algum lugar do passado), e para seu pai, Jor-El, Marlon Brando (em bela interpretação, apesar de curta).
(Daqui em diante, spoilers.) O filme mostra o herói ainda bebê sendo mandado por Jor-El e sua mulher Lara (Susannah York)  para a Terra porque seu planeta de origem, Krypton, está sendo destruído. Ele embarca numa espécie de cápsula que lembra o cesto de Moisés, e depois de anos chega à Terra. A cápsula cai à beira de uma estrada no interior do Kansas, como se fosse um meteoro, e abre um buraco enorme, e o Superman já criança é encontrado por aqueles que se transformam em seus pais adotivos, Jonathan e Martha Kent (Glenn Ford e Phyllis Thaxter), da pequena cidade de Smalville. A relação do Superman com seu pai terráqueo, assim como com sua mãe, é memorável, e as paisagens tristes do interior se projetam na própria vida daquele que esconde no celeiro parte da solução do mistério. “Sempre soubemos que ia partir”, diz sua mãe, e Donner consegue realmente desenhar uma relação humana sem recorrer à pieguice, o que rende a sequência mais melancólica da série, com a despedida dele ao universo que também lhe trouxe uma admiração especial por Lana Lang (de volta em Superman III). Clark segue para o Ártico, onde irá fundar uma espécie de extensão de Krypton, tentando descobrir as origens de sua genética e o rosto familiar que até então não conhecia, e o ator que faz o herói nesta etapa, Jeff East, empresta um sentido de afastamento de tudo e de todos, oferecendo um sentido de solidão.

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Superman.O filme 2

Superman.O filme 6

Clark Kent cresce (Reeve) e se transforma num jornalista do Daily Planet, sob a chefia de Perry White (Jackie Cooper) e com a companhia do fotógrafo Jimmy Olsen (Mark McClure) e da jornalista Lois Lane (Margot Kidder), por quem é apaixonado (interessante o clima do escritório, em diálogo direto com Todos os homens do presidente). Ainda indefinido entre a persona humana e a de herói, logo ele precisa tomar como rumo o enfrentamento com uma série de criminosos. À frente deles, está Lex Luthor (Gene Hackman, superior a Kevin Spacey), acompanhado de Otis (Ned Beatty) e Eva Teschmacher (Valerie Perrine), que ameaça a terra com uma ogiva nuclear. É Luthor que consegue desenhar, nos subterrâneos de Metrópolis, um vilão perverso (sobretudo quando o herói se depara com uma kryptonita), e, para isso, Hackman tem uma grande contribuição.
Se os efeitos especiais estão um tanto ultrapassados (mas em nenhum momento decepcionantes, e receberam o Oscar), a direção de arte (de Krypton, sobretudo) é fascinante  e a trilha de John Williams continua memorável, a melhor dos filmes de super-heróis. Além disso, Metrópolis é uma espécie de Nova York, captada de forma nostálgica pela ótima fotografia de Geoffrey Unsworth (2001), com grandes letreiros de jornal (evocando os anos 40 ou 50) e muitos bandidos sem tanto tato para o crime, além de abrigar várias cenas de ação do herói, que inspirariam, sobretudo, as adaptações de Homem-Aranha (na franquia de Sam Raimi). As transformações do Superman (em cabines giratórias) guardam um resquício do humor bem dosado por Donner, sem cair numa espécie de pastelão cômico efetuado por Lester depois, sobretudo no terceiro.

Superman II.2

 

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Especialmente porque Donner é uma diretor especialista em cenas de ação que misturam drama e comédia, o que pode ser constatado em filmes como Os Goonies, Máquina mortífera, Ladyhwake e no faroeste dos anos 90 Maverick e não desaponta nunca em Superman; pelo contrário, ele estabelece um padrão para o que viria na década seguinte, com o Batman, de Tim Burton, e com o bom humor recente e vertiginoso tanto de Homem de ferro quanto de Thor e Os vingadores, de Joss Whedon. O Superman de Reeve, e isso se deve sobretudo à visão de Donner, é, sobretudo, alguém indefinido entre tempos diferentes: ao mesmo tempo em que conserva um ar dos anos 40, ele consegue efetuar uma transição para os momentos em que precisa enfrentar Luthor de maneira plausível.
Em Superman II, Donner deixou a direção depois de ter rodado praticamente todo o filme, dando espaço a Richard Lester, que regravou várias vezes para poder assiná-lo (há uma versão do corte de Donner em DVD, sem o estilo de Lester, que abusaria da comicidade também no terceiro filme), para continuar, basicamente, a mesma história. Kent está cada vez mais próximo de Lois Lane e ambos, inclusive, vão viajar juntos para as cataratas do Niágara. Ele está cansado de ser herói, deseja ser humano, e, para isso, volta às suas origens, à Fortaleza da Solidão, em que está a explicação do seu passado, para tentar ser igual. No entanto, chegam três criminosos à Terra, coronel Zod (Terence Stamp), Non (Jack O’Halloran) e Ursa (Sarah Douglas), mandados embora de Krypton no início do primeiro filme, condenados por Jor-El, e eles vão querer perturbar a população, sobretudo o filho de quem os mandou embora, tendo como aliado Lex Luthor (que já inicia o filme numa situação complicada). Luthor tenta chegar às origens do herói, a fim de tentar encobri-lo com sua tentativa de romper o mundo. Mas sua relação com Superman é estranha: ao mesmo tempo em que proporciona doses de violência, sobretudo moral, ele não consegue se posicionar como um vilão todo o tempo, e tenta disfarçar com uma ironia seca seu objetivo (chama a atenção como Hackman estava mais à vontade no primeiro filme, pois ele não quis continuar a filmagem com Lester).

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A questão é como o herói voltará a ser como era antes. Como observa Pauline Kael, “as transições de Clark Kent para Super-Homem e vice-versa agora são números cômicos bem acabados”. Nesse sentido, como o primeiro filme, Donner e Lester – cada qual em sua versão; a de Donner mais séria, com a presença de Marlon Brando e sequências mais impressionantes (como a inicial), a de Lester mais descontraída – conseguem dosar a humanidade de Clark sem torná-la superficial ou maniqueísta (na interpretação talentosa de Reeve). É interessante como os vilões também conseguem ficar no limite do bom humor aceitável, principalmente em sequências com duelos militares e na famosa invasão da Casa Branca. Há muitas cenas de ação de destaque, efeitos especiais melhores do que o primeiro, e no todo trata-se de uma continuação divertida, apoiado novamente num roteiro de Mario Puzo (criador de O poderoso chefão). Mas não existe, na versão de Lester, a melancolia impregnada por Donner nas bordas de suas versões: o seu Superman é, ao mesmo tempo, um herói e alguém realmente trágico, não com rompantes para o humor exagerado. Não que Lester não perceba a essência dele, mas é certo que Donner consegue desenhá-la de maneira mais adequada, assim como sua relação conflituosa com o pai que não conheceu e com a dualidade entre alguém de outro planeta e o humano. É exatamente isto que falta na versão de 2006, feita por Bryan Singer. Por isso e outros detalhes, mesmo depois de vários anos, são esses dois Superman aqueles filmes que ainda servem de referência.

Superman, ING/EUA, 1978 Diretor: Richard Donner Elenco: Marlon Brando, Gene Hackman, Christopher Reeve, Ned Beatty, Jackie Cooper, Glenn Ford, Trevor Howard, Margot Kidder, Susannah York, Jack O’Halloran, Terence Stamp, Sarah Douglas Produção: Pierre Spengler, Michael Thau Roteiro: Mario Puzo, Robert Benton, David Newman, Leslie Newman Fotografia: Geoffrey Unsworth Trilha Sonora: John Williams Duração: 144 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Alexander Salkind / Dovermead Film / Film Export A.G. / International Film Production

Cotação 5 estrelas

Superman II, ING/EUA, 1980 Diretor: Richard Lester Elenco: Cristopher Reeve, Gene Hackman, Ned Beatty, Jackie Cooper, Sarah Douglas, Margot Kidder, Valerie Perrine, Susannah York, Terence Stamp, Jack O’Halloran, Marlon Brando (na versão de Richard Donner) Produção: Ilya Salkind Roteiro: Mario Puzo Fotografia: Robert Paynter, Geoffrey Unsworth Trilha Sonora: Ken Thorne Duração: 127 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Warner Bros.

Cotação 4 estrelas

Os Goonies (1985)

Por André Dick

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Durante a década de 1980 – mais especificamente entre 1984 e 1985 –, Steven Spielberg, além de ter realizado filmes antológicos, produziu peças únicas. São filmes que remetem aos recentes Super 8 e Cowboys e aliens, mas com um fôlego mais remanescente. Apesar de ter produzido outros sucessos naquela década, como Poltergeist (1982), Fievel (1986), Uma cilada para Roger Rabbit (1988) e Querida, encolhi as crianças (1989), foi nesses anos que Spielberg compôs, e que faria acréscimo a E.T., uma espécie de imaginário da infância e da adolescência, referenciado em cidadezinhas dos Estados Unidos ou em microcosmos de um detetive antológico.
Em 1984, ele produziu Gremlins, por exemplo, em que se mostra uma cidadezinha do interior sendo invadida por monstrinhos. Em 1985, por sua vez, em O enigma da pirâmide, o diretor Barry Levinson (Rain man), juntou-se com Spielberg para fazer uma adaptação juvenil das histórias de Sherlock Holmes e seu fiel companheiros das histórias de Conan Doyle, Watson, na qual se revela como eles se conheceram num colégio de Londres e como se deu seu primeiro caso, envolvendo casos estranhos, relacionados com um dardo venenoso que leva as vítimas a terem alucinações, e reunidos numa diversão que, à época, não teve grande público, mas acabou se tornando cultuada, também em razão de sua qualidade visual e de trama bem construída.
Entre a cidadezinha escondida de Gremlins (mas não devemos esquecer aquela em que mora Marty McFly em De volta para o futuro) e o lado detetivesco de Sherlock Holmes (mas também das histórias de capa e espada de Errol Flynn), tivemos finalmente Os Goonies, com roteiro do mesmo Chris Columbus de Gremlins e O enigma da pirâmide, pode ser vista a marca do produtor Steven Spielberg: elenco, roteiro e fotografia. Ainda tem como diretor Richard Dooner, capaz de fazer quase sempre diversões inteligentes (como Superman, Ladyhawke e a série Máquina mortífera). Com muita ação, elenco de crianças, canção marcante dos anos 80 (a cargo de Cindy Lauper) e uma história de mapa do tesouro, remetendo à infância, Os Goonies pode ser facilmente confundido como uma espécie de montanha russa, que hoje poderia vender muitos bonecos. No entanto, a nostalgia dele é mais intrínseca.

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Depois de uma abertura dinâmica, em que os personagens são apresentados ao mesmo tempo em que acontece a perseguição da polícia a um mafioso que está fugindo da cadeia com a ajuda da mãe e do irmão, chegamos à casa de Mikey (Sean Astin), um garoto asmático, irmão de Brandon (Josh Brolin), que não conseguiu tirar sua carteira de motorista. No sótão de sua casa, Mikey encontra um mapa de tesouro, com inscrições em espanhol, do pirata Willy Caolho, junto com sua turma: há um minigênio, Dado (Quan), um gordinho, Bolão (Cohen), e um mentiroso compulsivo, Bocão (Feldman). Eles vivem nas Docas Goon, de Astoria, e, como suas famílias serão em breve despejadas de casa por não pagarem os impostos, eles resolvem procurar o tesouro. Em sua jornada, eles encontram duas meninas, Andy (Kerri Green) e Stef (Martha Plimpton), que entram sem querer na busca e enfrentam uma família de criminosos, justamente aquela que estava sendo perseguida nos primeiros minutos, os Fratelli (tendo a excelente Anne Ramsey como mãe e líder e os filhos interpretados por Robert Davi e Joe Pantoliano). Eles escondem, no porão de uma restaurante abandonado à beira da praia, além de uma máquina para falsificação de dinheiro, um irmão que tentam ignorar, Sloth (John Matuszak), alimentado com pratos de comida indesejáveis. Para essa casa, o grupo de jovens se dirige, sem saber, claro, que ela esconde também uma passagem para o tesouro que procuram, com catacumbas cheias de morcegos e passagens imprevisíveis. Os Fratelli acabam aprisionando Bolão e, depois de um interrogatório, conseguem obter a informação de que é procurado um tesouro.
No entanto, essa jornada também reúne outros componentes: um é, claramente, a despedida da infância, no interesse de Mike por Andy, pretendida pelo irmão, e de Bocão por Stef (este mais subentendido), e as confusões entre os personagens no que dizem respeito a abandonar o local de origem e à despedida da bomba de ar. Não há dúvida de que Donner sucumbe, em muitos momentos, a uma espécie de Indiana Jones e o templo da perdição mais infantojuvenil (mesmo pela presença de Dado, o Short Round) e com picos de 007, pela bugiganga de invenções que carrega. Ainda assim, onde inicia o exagero, ele consegue logo encadear uma diversão, como naquele momento em que eles passam por baixo de um banheiro do clube pertencente às famílias ricas da cidade – as quais também querem despejá-los –, representadas por Troy (Steve Antin), e seu pai, Elgin Perkins (Curtin Hanson), ou embaixo de uma fonte dos desejos, em que as moedas são vistas como moeda de troca para que as casas dos pais não sejam vendidas e, irremediavelmente, ninguém se mude e a infância possa ganhar mais um tempo adiante. Os Fratelli, em determinado momento, passam a se encarregar da parte ao mesmo tempo assustadora. É evidente que em muitos momentos a vilania deles é exagerada, parecendo uma condescendência com o universo infantojuvenil, e que alguns personagens soam um tanto esquemáticos em algumas situações.

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De qualquer modo, Os Goonies consegue estabelecer um padrão de qualidade principalmente porque nenhum dos personagens chega a ser estereótipo. Donner sabe delinear cada um com determinada personalidade e sempre estamos diante de crianças, e não de miniadultos repetitivos, mesmo que cercados de pais um tanto desligados, e a peregrinação de Bocão com a mãe de Mikey (Mary Ellen Trainor) no início do filme, com a empregada que fala apenas espanhol (Lupe Ontiveros), é um exemplo, como caberia bem igualmente num filme de John Hughes.
Também por causa do elenco. Destaque-se que, além de atores conhecidos nos anos 80, como Feldman e Ke Quan, Os Goonies apresentou nomes que acabaram se mantendo, como os de Sean Astin (que faria Sam, em O senhor dos anéis), Brolin (de inúmeros filmes, a exemplo de Onde os fracos não têm vez e Wall Street – O dinheiro nunca dorme) e Plimpton (que estrela a série de TV Raising Hope).
Nesse sentido, como poucos filmes, Os Goonies tem o intuito de retratar uma determinada geração, como Spielberg tinha a sua. Lá estão as nostalgias dos filmes de piratas, monstros e a ação como em uma parque assustador, com catacumbas se abrindo e as crianças fugindo para um lugar onde os pais não representam a referência imediata, e sim a fantasia. É difícil negar o interesse que Os Goonies desperta sobretudo a partir dessas nostalgias, com sua vista para o mar num dia de inverno, árvores se agitando, bicicletas em curvas sinuosas de uma estrada à beira de uma baía, o acolhimento num esconderijo que pode causar também outros direcionamentos para a jornada, os sustos e os enfrentamentos com quem deseja, de algum modo, interromper a infância em curso. Há algo nele que é substancialmente ingênuo e essencial para a compreensão das próprias histórias, reais ou inventadas.
Daí, para Spielberg, e esses filmes esclarecem bem, as aventuras maiores estão concentradas em personagens que moram em cidades distantes ou para as quais ainda não há espaço – como as descobertas detetivescas de Sherlock Holmes. Depois delas, é certo que se abriu um nicho para novas produções, mas dificilmente com a mesma autencidade.

The Goonies, EUA, 1985 Diretor: Richard Donner Elenco: Sean Astin, Josh Brolin, Jeff Cohen, Corey Feldman, Kerri Green, Martha Plimpton, Jonathan Ke Quan, John Matuszak, Robert Davi, Joe Pantoliano, Anne Ramsey, Mary Ellen Trainor, Lupe Ontiveros Produção: Harvey Bernhard, Richard Donner Roteiro: Chris Columbus Fotografia: Nick McLean Trilha Sonora: Dave Grusin Duração: 115 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Warner Bros. / Amblin Entertainment

Cotação 5 estrelas