Aliados (2016)

Por André Dick

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Depois de apostar em animações na década passada, como Beowulf, O expresso polar e Os fantasmas de Scrooge, Robert Zemeckis vai aos poucos regressando aos filmes com atores: primeiro, foi O voo, com uma atuação notável de Denzel Washington, o segundo A travessia, apresentando Joseph Gordon-Levitt num papel curioso, e agora Aliados. Zemeckis foi uma das grandes descobertas de Steven Spielberg. Revelado no divertido Febre da juventude, sobre um grupo de jovens que tentava chegar aos Beatles antes de eles se apresentarem num programa dos Estados Unidos, Zemeckis coescreveu 1941 e realizou algumas pérolas dos anos 80, a exemplo de Tudo por uma esmeralda, De volta para o futuro e Uma cilada para Roger Rabbit, esses dois últimos produzidos por Spielberg. Nos anos 90, completou a trilogia de De volta para o futuro e dirigiu Forrest Gump, que lhe deu os Oscars de melhor filme e direção, além da já clássica ficção científica Contato, tendo Jodie Foster e Matthew McConaughey à frente do elenco. Ainda na virada do século ele realizou uma das melhores obras com Tom Hanks, Náufrago.
Baseado num roteiro de Steven Knight, Zemeckis mostra o encontro na Segunda Guerra Mundial de um oficial da inteligência canadense Max Vatan (Brad Pitt) e a integrante da Resistência Francesa Marianne Beausejour (Marion Cotillard). Eles viajam para Casablanca, no Marrocos, a fim de empreenderem uma missão contra nazistas. Isso porque Marianne tem contatos com os alemães e faz com que ambos possam ingressar num determinado local.

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Ambos se mostram interessados em serem verdadeiramente um casal, também para disfarce, principalmente por parte de Marianne. A aproximação surge aos poucos, embora a princípio Max queira se concentrar apenas nas suas tarefas como espião, e uma tempestade no deserto é vista como o ponto de conciliação entre duas pessoas solitárias. Já envolvido, ele passa a desconfiar que Marianne pode ser uma espiã da Alemanha. Os seus superiores, principalmente Frank Heslop (Jared Harris) e um oficial da SOE (Simon McBurney), passam a querer que ele faça testes a fim de provar isso, e o filme segue a linha de um thriller de espionagem com toques de romance.
Max entra em contato com alguns homens, Guy Sangster (Matthew Goode), e um piloto chamado George Kavanagh (Daniel Betts), a fim de descobrir se ela de fato pode não ser a pessoa que diz que é. Sua única familiar a dividir seus receios é a irmã Bridget (Lizzy Caplan, subaproveitada) e, a partir desse ponto, Aliados se mostra como a construção de um homem acuado por um futuro que terá de construir em desconfiança. Nesse sentido, Cotillard constrói uma Marianne de maneira interessante: se, por um lado, sabemos que ela tem um preparo para o combate, ela se mostra vulnerável na maioria das vezes. O espectador, porém, não tem certeza se ela é uma pessoa que pode prejudicar ou não Max e viver uma vida tranquila com ele.

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A narrativa simples trata, na verdade, do enigma de estar apaixonado por alguém que verdadeiramente não se conhece, o que rende, por parte do roteiro, sequências em que o personagem de Pitt se sente realmente conturbado. É interessante como ele em nenhum momento se sente disponibilizado às tarefas que precisa efetuar e, nesse sentido, a possível vida tranquila que poderia ter com Marianne representa o reencontro com suas próprias origens longe da carreira que empreendeu. Os símbolos que Zemeckis distribui ao longo da história remetem algumas vezes a outras obras, como Império do sol e Ponte dos espiões, ambos de Spielberg, principalmente na empatia melancólica que os personagens centrais despertam – longe de qualquer manifestação de êxito, esses são personagens que procuram apenas o sossego em meio ao eclipse humano de uma Guerra Mundial.
Até certo ponto, parece que Zemeckis deseja oferecer uma versão romântica da Segunda Guerra Mundial – e as batalhas aéreas que ele filma lembram sobretudo as de Esperança e glória, dos anos 80 – quando, na verdade, está mostrando como esta faceta pode ser colocada em dúvida ou mesmo corrompida quando não existe num ambiente capaz de mantê-la.

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A química entre Pitt e Cotillard só perde em destaque para a fotografia brilhante de Don Burgess e para a reconstituição de época detalhista. Existe aqui, no mote da história de Knight, autor de roteiros como o de Senhores do crime, de Cronenberg, não apenas uma clara homenagem ao clássico Casablanca, como referências a O céu que nos protege e Bastardos inglórios. Como nesses filmes – o de Bertolucci mostra especificamente um casal em crise numa viagem pelo Saara depois da Segunda Guerra Mundial –, os personagens são enigmáticos, e não se sabe muito bem qual o posicionamento de cada um. O clima é de uma peça europeia, bem mais lento do que normalmente um filme norte-americano costuma ser, com revelações sendo feitas aos poucos, sem nenhuma pressa. Possivelmente faltam alguns elementos: a narrativa não desenvolve os personagens centrais de maneira que o espectador possa se interessar mais por eles, e algumas soluções soam excessivamente fáceis. De qualquer modo, esta é uma história com reais atrativos e que Zemeckis entrega ao espectador com sua competência habitual de artesão.

Allied, EUA, 2016 Diretor: Robert Zemeckis Elenco: Brad Pitt, Marion Cotillard, Jared Harris, Matthew Goode, Lizzy Caplan,Simon McBurney Roteiro: Steven Knight Fotografia: Don Burgess Trilha Sonora: Alan Silvestri Produção: Graham King, Robert Zemeckis, Steve Starkey Duração: 124 min. Distribuidora: Paramount Pictures Brasil Estúdio: GK Films / Paramount Pictures

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Assassin’s creed (2016)

Por André Dick

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Por ter como origem um game da Abisoft, Assassin’s creed tem sido comparado consequentemente a Warcraft, o filme menosprezado de Duncan Jones lançado no ano passado e cujo orçamento se pagou com sua trajetória nos cinemas fora dos Estados Unidos. Já a trajetória da nova adaptação tem tido mais riscos, com pouco faturamento nos Estados Unidos e no exterior até agora, mesmo com um elenco mais conhecido e uma produção que levantou bons recursos do estúdio. Particularmente, como Warcraft, nunca tive a experiência de jogar com esses personagens. Talvez para os fãs se intensifique a expectativa em torno da história.
Michael Fassbender atua como Callum Lynch, que teve sua mãe assassinada quando era criança, em 1986, e, nos dias atuais, no momento em que está para ser condenado à morte, é transportado para um centro de pesquisa em Madri, a Fundação Abstergo, onde conhece Sophia Rikkin (Marion Cotillard), cujo pai, Alan (Jeremy Irons), chefe do lugar, quer utilizá-lo em experimentos que o fazem revivenciar o que foi séculos antes, Aguilar de Nerha.

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Tratava-se do líder de uma sociedade de assassinos que pretende capturar a “Maçã do Éden” em oposição aos cavaleiros templários com o objetivo de manter o livre arbítrio, durante a inquisição espanhola, tendo como rival Torquemada (Javier Gutiérrez), mais exatamente em 1492, mesmo ano da descoberta de Cristóvão Colombo, como vemos no filme de Ridley Scott com a trilha de Vangelis. E Callum está em meio a uma sociedade composta por figuras enigmáticas, entre os quais se incluem ainda McGowen (Denis Menochet) e a experiente Ellen Kaye (Charlotte Rampling). A história parece estranha? O filme é ainda mais, no bom sentido.
Por meio desse experimento, o filme encarna uma espécie de Matrix, em que há o lugar em que Callum se encontra e os lugares históricos para onde se dirige por meio de um maquinário extremamente detalhado, chamado Animus (que lembra os tentáculos do vilão de Homem-Aranha 2 e do próprio Neon da saga dos Wachowski), sobretudo quando encarna seu antepassado Aguilar. Trata-se de viagens mentais, e que envolvem ainda Maria (Ariane Labed). Este lugar de experimentos, Abstergo, possui algumas paisagens que lembram um Éden esquecido e imagens de pássaros voam por cima de telhados de vidro. Visualmente, Assassin’s creed é atrativo. Ainda mais o elenco: Fassbender consegue lançar seu habitual drama ao encarnar o personagem, e Cotillard mostra sua angústia e mistério habituais para compor sua personagem.

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O roteiro de Michael Lesslie, em parceria com Adam Cooper e Bill Collage, compõe um embaralhamento de tempos que concede ao filme uma camada complexa e instigante de história. Alguns temas evocam Cruzada, de Ridley Scott, mas a questão do Éden se fecha mais com filmes sobre a influência bíblica e religiosa na vida de organizações (interessante ver a hora da morte calculada de Callum, na qual imaginei que tivesse alguma referência religiosa e, se visto de forma inversa, remete ao versículo 59:17). Alguns temas da obra se espalham ao longo da narrativa, e vão constituindo um elo. Há alguns elementos de Fonte da vida, de Aronofksy na maneira como o diretor mostra a relação entre Sophia e Callum, como se estivessem num universo realmente à parte e a volta ao passado representasse uma espécie de ingresso no cosmos.
O diretor Justin Kurzel, que já havia trabalhado com Fassbender e Cotillard na adaptação de uma peça de Shakespeare, Macbeth, aplica um punhado de sequências de ação que envolvem malabarismos e lutas cênicas capazes de atrair a atenção todo o tempo. Lamenta-se apenas que a história não desenvolva o potencial, principalmente do personagem central, depois de um início instigante, mesmo que apresente uma boa parte dramática, que envolve a figura paterna, Joseph (Brendan Gleeson), trazendo mais informações sobre o desaparecimento de sua mãe.

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O seu passado é o mote que Kurzel estabelece para tornar o filme mais do que uma adaptação de um game, conseguindo verter para a nova linguagem uma interessante fusão de personagens e situações para quem desconhece o jogo original. O personagem feito por Jeremy Irons é uma espécie de figura a distância, como se fosse um elemento não divino, mas que se situa acima de todos, um emblema de poder capaz de contrariar as escolhas de Callum ou mesmo ter de aceitá-las.
A fotografia de Adam Arkapaw, que fez a de outra obra recente de Fassbender, A luz entre oceanos, é bela na sua composição entre um filtro azul do lugar de experimentação e um bege retratando a época passada. Fica-se imaginando o que Ridley Scott teria feito com essa adaptação de game para o cinema, mas o que resulta ainda é um trabalho capaz de jogar com os temas que possui em mão da melhor forma possível. As motivações iniciais do personagem evocam um interesse e, aos poucos, não são suficientemente trabalhadas, possivelmente aguardando por uma sequência. É um filme sobre como o passado pode ser revitalizado por meio de novas sensações e da luta corporal que lhe dê um vigor e um sentido e ainda sobre desafiar a própria possibilidade de resolver seu passado e o futuro por meio de um traço fantástico.

Assassin’s creed, EUA, 2016 Direção: Justin Kurzel Elenco: Michael Fassbender, Marion Cotillard, Charlotte Rampling, Jeremy Irons, Khalid Abdalla, Carlos Bardem, Javier Gutiérrez, Brendan Gleeson, Ariane Labed Roteiro: Adam Cooper, Bill Collage, Michael Lesslie Fotografia: Adam Arkapaw Trilha Sonora: Jed Kurzel Produção: Arnon Milchan, Conor McCaughan, Frank Marshall, Jean-Julien Baronnet, Michael Fassbender, Patrick Crowley Duração: 115 min. Distribuidora: Fox Film do Brasil Estúdio: Regency Enterprises / Ubisoft Motion Pictures

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Dois dias, uma noite (2014)

Por André Dick

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Os personagens dos irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne sempre aparecem em situações delicadas: em Rosetta,  uma jovem busca trabalho para sustentar a mãe; em A criança, um jovem, em troca de dinheiro, prefere se desfazer do filho recém-nascido, e em O garoto da bicicleta o menino Cyril se mostra sempre deslocado e precisa pedir para que possa participar de uma determinada convivência que poderia ser mesmo rotineira para alguns. Esses temas se proliferam, com algumas modulações, em outros filmes da dupla, como O silêncio de Lorna, uma das grandes peças de interpretação da década passada, e O filho.
Os personagens de Cyril e o de Rosetta de certo modo se refletem bastante naquele que Marion Cotillard interpreta em Dois dias, uma noite, novamente em grande momento como atriz, num tom semelhante àquele que adota em Era uma vez em Nova York. No entanto, Cotillard encontra aqui diretores e um roteiro mais interessantes, em uma espécie de narrativa na qual os Dardenne são especialistas. Ela é Sandra, que se encontra num momento especialmente delicado: moradora de Seraing, cidade industrial de Liège, na Bélgica, à medida que está afastada do trabalho, onde lida com painéis solares sob o comando de Jean-Marc (Olivier Gourmet), se mantém em casa, solitária, em seu quarto, tentando encontrar uma alternativa. Seja ao telefone ou no contato com os filhos, ela está visivelmente desesperada. Quando decide, de fato, ir à procura de uma solução, precisa falar com colegas de trabalho para recuperar seu emprego – e falar no sentido de buscar o encontro com a humanidade e a generosidade. Isso se torna, em certo ponto, imprevisto e até mesmo emocionante, como se um fato a princípio do cotidiano tivesse um impacto maior na vida de todos, mesmo que às vezes de forma implícita. É deste modo que Rosetta e O filho receberam a Palma de Ouro em Cannes, mesmo festival em que estreou Dois dias, uma noite.

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Nessa procura para que seus antigos colegas possam ouvi-la e pensar sobre um bônus que devem ou não receber para que ela consiga obter seu espaço de volta – e a justificativa que oferece, em relação ao tratamento dado para sua saída, nunca fica claro –, os diretores revelam seu estilo. Num momento, aqui, o ser humano mostra um lado mais amigável; logo em seguida, ele se volta apenas para si mesmo, porém os Dardenne não fazem nenhum tipo de julgamento, pois todos fazem parte do mesmo panorama, e este, como o filme retrata, de uma Europa atingida pela crise, pelas relações complicadas de direitos de trabalho, é conturbado. Alguns terão receio, outros irão partir para o enfrentamento; e terão aqueles dedicados sempre a ficar à margem da questão alheia. Os Dardenne registram tudo como se a personagem partisse para um confronto não apenas contra as suas limitações, e sim contra o que não será interrompido, independente do resultado. Sandra é uma espécie de símbolo, mas nunca deixa de atrair simpatia e afeto e, apesar do tom de voz baixo dado à personagem, Cotillard consegue encontrar fugas do roteiro para encontrar sua humanidade.
Novamente os Dardenne escolhem cores para caracterizar os personagens – como o vermelho da jaqueta do personagem central de O garoto da bicicleta. Aqui é o rosa da blusa que a personagem de Cotillard utiliza em boa parte do filme, combinando com a cor verde de vários ambientes ou objetos. Fabrizio Rongione, como seu marido Manu, tem uma grande atuação, como é requisito entre os coadjuvantes dos Dardenne, imprimindo um bom complemento à presença de Cotillard. Todas as cenas em que ambos aparecem são caracterizadas por tons diferentes, como aquela em que conversam num banco de praça, mas sobretudo numa sequência mais ao final, decisiva para o filme, demonstrando aqui uma conciliação entre pessoas diferentes.

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Com sua propriedade em abordar temas humanos, principalmente aqueles que envolvem um personagem diante de uma linha tênue entre o encontro e o afastamento, ao lado de alguma pressão financeira, como é o caso de Sandra, os filmes da dupla podem ser vistos, em determinados momentos, até mesmo como presos a algum ideal. No entanto, o roteiro não oferece a ideia de que o sistema denigre o ser humano, e sim aponta a possibilidade de que ele encontre um novo ânimo diante da sociedade e dos problemas que ela traz quando leva ao limite da condição existencial. Para os Dardenne, só pode haver um encontro entre duas pessoas por por uma decisão pessoal; não por acaso, seus personagens são quase sempre solitários, e o sentido que eles têm dessa união é sempre resultado de um afeto intransferível a qualquer outro. Se o cotidiano, em sua obra, não funciona como deveria ser, não deixa de ser também a justificativa para que os personagens prossigam, sem um tom de conciliação que inexiste quando cada qual se depara, obrigatoriamente, com seu rumo, que pode ser decidido por um diálogo ou um ombro. A sensibilidade, aqui, é sempre mostrar como o ser humano pode ser forte quando compartilha com o outro seus problemas, mas sem constituir um rótulo: temas sensíveis não pertencem a nenhuma corrente. Mesmo porque os personagens de Jean-Pierre e Luc Dardenne não conseguem delinear uma liberdade, apesar de, por exemplo, em O garoto da bicicleta, essa ser representada pela ideia de família.
Não deixa de haver uma certa manipulação em alguns olhares, mas a questão é que, no movimento em que o espectador é inserido, é difícil dizer que o filme não retrata de maneira fiel os acontecimentos mais próximos do cotidiano. No entanto, a dupla de diretores não adota um realismo teatral, ou seja, seus personagens parecem estar numa condição de silêncio real, e não se tornam falantes apenas para que transcorra a história. Há silêncios incômodos e amargurados e a personagem não passa por situações exatamente agradáveis. Talvez a melhor sequência esteja ligada à da personagem Anne (Christelle Cornil), que Sandra procura evidentemente para relatar sua questão e coloca a vida da amiga mais próxima de uma mudança, mesmo que a dela – Sandra – continue imprevisível. Tudo isso seria talvez ineficaz não fosse a presença de Cotillard, certamente a melhor atriz indicado ao Oscar deste ano, numa presença que lembra muito aquela de Ferrugem e osso, seu maior papel antes deste filme (apesar de ter recebido muitos elogios por Piaf, no qual também está bem). Ela mostra uma presença física e psicológica resistente e sólida durante toda a narrativa. E, para os Dardenne, contra a presença opressiva da situação humana, a saída pode ser a escolha de um rock no rádio do carro. Momentos que parecem efêmeros e dispensáveis são o que tornam, como parece sempre acontecer na obra dos irmãos belgas, Dois dias, uma noite em uma obra de grande sensibilidade.

Deux jours, une noit, BEL/FRA, 2014 Diretores: Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne Elenco: Marion Cotillard, Fabrizio Rongione, Pili Estacada, Simon Caudry, Catherine Salée, Baptiste Sornin, Alain Eloy, Myriem Akheddiou, Fabienne Sciascia, Timur Magomedgadzhiev, Hicham Slaoui, Olivier Gourmet Fotografia: Alain Marcoen Produção: Denis Freyd, Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne Duração: 95 min. Distribuidora: Imovision Estúdio: Les Films du Fleuve

Cotação 5 estrelas

Era uma vez em Nova York (2013)

Por André Dick

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Depois de ser lançado no Festival de Cannes em 2013, The immigrant passou por problemas até seu lançamento ser feito nos Estados Unidos, já neste ano. Os Weinstein, com problemas de encaixar o filme numa temporada, acabaram por lançá-lo antes de se cogitar que saísse diretamente em home video. As críticas favoráveis ao filme certamente viram em seu lugar um plano de soar como um novo Era uma vez na América, de Leone, em escopo mais reduzido e metragem reduzida. Isto talvez explique por que em outros países, como no Brasil, The immigrant se transformou em Era uma vez em Nova York.
Com uma reconstituição de época impressionante, uma fotografia de Darius Khondji, colaborador no início da trajetória de David Fincher, certamente irretocável (alguns quadros lembram diretamente dois dos maiores filmes de época dos anos 80, o referido Era uma vez na América e O portal do paraíso) e um elenco de respeito, a questão não seria exatamente o título nacional, mas o quanto realmente o filme revela de Gray, um cineasta de respeito, tem limitações no que se refere à abordagem narrativa (as mesmas de Os donos da noite), e, mesmo apresentando um filme com sua suntuosa beleza plástica, tem dificuldade de se diferenciar de outros que lhe foram precursores.
O início é quase uma réplica (diferente de ser uma homenagem) da vinda de Vito Corleone para a América em O poderoso chefão II, que possui uma fotografia de Gordon Willis, certamente precursora dos filmes referidos anteriormente. Joaquin Phoenix continua sendo um ator diferenciado, atuando como Bruno Weiss, que oferece ajuda para Ewa Cybulska, vivida por Marion Cotillard, uma imigrante que chega à América vinda da Polônia pós-guerra, em busca de oportunidades, com sua irmã adoentada, Magda (Angela Sarafyan). Esta acaba ficando na ala de quarentena na Ellis Island, enquanto Ewa é levada por Bruno para Nova York. Não sabemos quais são os objetivos de Bruno, no entanto Joaquin consegue desenhar seu personagem a fim de afastar do espectador, em alguns momentos, a desconfiança inicial de que deseja se aproveitar de Ewa. Ao longo do filme, surge um mágico, Orlando (Jeremy Renner), que traz um toque de leveza a uma situação grave, criando atrito com Bruno, e pode-se imaginar o quanto Gray irá utilizar este elemento para colocar sua história em movimento.

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Era uma vez em Nova York

Com toda a grandeza aparente (e as imagens não escondem isso), fica-se em dúvida do motivo de Era uma vez em Nova York  não ser, como tudo antecipava, um grande filme. Pode-se apostar fato de o roteiro ser surpreendentemente fraco, sem que os arcos dramáticos consigam levá-lo adiante. Renner não conseguiria, pois não tem as características para isso – e recentemente mais voltado ao gênero de filme de ação, com Os vingadores e João e Maria –, embora traga certa diversão à história, mas impressiona que Phoenix e Cotillard também não consigam. A explicação talvez esteja no fato de que eles não tenham um espaço de diálogos e todas as situações parecem sempre em movimento porque é difícil encontrar o que eles tenham para falar de tão relevante. O possível triângulo entre os personagens é o que leva o filme para um lado em que não estava preparado – justamente a força do filme anterior de Gray, Amantes.
São interessantes as analogias que Gray faz entre a imigrante e a Estátua da Liberdade, assim como Coppola fazia em seu clássico referencial, porém ele não a desenvolve de modo a obter um interesse direto do espectador. Também existe a sensação de que o mágico feito por Renner tinha mais presença em alguma montagem inicial do filme, fazendo apresentações que remetem à peça de teatro que Corleone já adulto (interpretado por Robert De Niro) vai com seu amigo, numa noite de Nova York. É esta montagem que determina, em parte, o insucesso de Gray: ele gostaria, possivelmente,  de ter realizado um épico, mesmo que mais intimista, mas não teve a disponibilidade, o orçamento e história necessárias para tanto. Para que haja a progressão necessária, seria interessante que o filme tivesse uma sequência de narrativas mais sólidas (como aquela que envolve a família da imigrante).
A partir da metade, a narrativa trata de um drama evidentemente grave, mas um drama único, sem refletir em outras partes, também prejudicado pelo orçamento mais limitado – e as soluções são entregues muito rapidamente, sem desenvolvimento. James Gray tinha mostrado um grande talento em Amantes, ainda seu melhor filme, também com Phoenix, seu ator favorito, ao deixar alguns temas encobertos, ainda que desta vez ele se adiante em querer sintetizar os conflitos da imigrante por meio da culpa e da religião (que ele busca também em Coppola). Os signos referentes à religião se contrapõem a como a personagem seria vista pela sociedade e como são as pessoas que a cercam.

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Se no início Gray consegue delinear bem os personagens, aos poucos eles vão ficando soltos, e é difícil identificar o que pode ressoar entre eles, sendo Cotillard a mais prejudicada, pois sua Ewa não ganha um crescendo, ficando sempre num tom monocórdio. No entanto, Cotillard não chega a ser convincente, pelo menos não demonstrando aquele talento conhecido em Piaf e Ferrugem e osso: desde o início, ela adota um tom baixo para sua linha de diálogos, e com o enfraquecimento da direção de Gray, depois que se tenta dar uma sustentação ao triângulo amoroso, ela se mostra ainda mais restrita a um único comportamento. Esse aparente mistério na forma de atuar dá a sensação de ser empregado para esconder a fragilidade da história. Sua personagem não é simplesmente solitária, mas alguém que não consegue estabelecer conexão com o espectador, permanecendo sempre ligada a uma interpretação prévia, baseada na solidão desde sua partida da Europa.
Com isso, ao final, também é complicado esconder que Phoenix é levado por Gray a uma situação em que pretende se credenciar para o Oscar, mas o roteiro e seu personagem são sensivelmente unidimensionais, fazendo o impacto se perder (pode-se dizer que Phoenix, de maneira surpreendente, pois não é um traço seu, incorre num overactiong, quando percebe que o roteiro não sustenta o drama pessoal de Bruno). O impacto é difícil de ser recuperado mesmo com a tomada final, que permanece como uma motivação para teorias e tentativas de sobrepô-la à ausência de diálogos e argumentos, mas sem a correspondência prática.
Nesse sentido, Era uma vez em Nova York é com certeza um filme com plasticidade capaz de enganar o espectador, entretanto não só está longe de ser uma obra-prima quanto de ser um filme acima da média, com exceção de sua reconstituição de época. Mais do que um filme, ele é um lembrete de que diretores que conhecem a história do cinema e sabem aplicar momentos que lembrem outras obras, em busca de uma permanência de um contexto clássico no qual nada se move, a não ser sua visão artística, não necessariamente trazem uma sensibilidade nova. E que reunir astros de peso com uma atmosfera brilhante não necessariamente conduz a um bom filme. Esta América de Gray é exatamente tudo isso.

The immigrant, EUA, 2013 Diretor: James Gray Elenco: Marion Cotillard, Joaquin Phoenix, Jeremy Renner, Dagmara Dominczyk, Jicky Schnee, Yelena Solovey, Maja Wampuszyc, Ilia Volok, Angela Sarafyan Roteiro: James Gray, Ric Menello Fotografia: Darius Khondji Trilha Sonora: Christopher Spelman Produção: Anthony Katagas, Christopher Woodrow, Greg Shapiro, James Gray Duração: 120 min. Distribuidora: Europa Filmes Estúdio: Keep Your Head / Kingsgate Films / Worldview Entertainment

Cotação 2 estrelas e meia

 

A origem (2010)

Por André Dick

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O diretor Christopher Nolan, da nova franquia de Batman, costuma ser visto como um designer que arrisca mudanças no meio cinematográfico, desde Amnésia. Embora não aprecie especialmente Amnésia, é em A origem que fica claro como ele faz seus filmes: uma montagem vertiginosa, na qual ele imagina delinear os personagens, com muitos efeitos especiais de qualidade e um roteiro hermético. Ou seja, Nolan tem uma maneira de dirigir e montar um filme: as peças são demasiadamente montadas, para, enfim, se ter uma ideia do todo quase sempre apenas ao final, ou, às vezes, isso também não acontece. Não se pode esquecer seu filme Insônia, em que, a fim de lidar com a mesma temática do comportamento humano guiado por uma sensação de fadiga, a mesma de Amnésia, tínhamos Al Pacino com os olhos reticentes a cada cena, na caça de um psicopata. A caçada no gelo de Insônia é uma espécie de prenúncio para o que viria a se concretizar, com toda a força, em A origem – tendo seu estilo atenuado em filmes feitos para maiores plateias, como a trilogia Batman (de qualidade) e O grande truque, em que iniciava seu estilo de montagem que se reproduziria no segundo Batman e neste A origem.
Fala-se que Terrence Malik, mas é claro que estamos falando de realizadores diferentes: Malick vê uma saída na natureza, enquanto Nolan deseja imaginar a imaginação humana como um labirinto. Neste filme, ele pretende fazer o espectador entrar em vários estágios de um sonho. Sua concepção, porém, é mais voltada a dois filmes de Steven Spielberg dos anos 2000, Inteligência artificial e Minority Report. Este segundo, principalmente, possui um tom mais sombrio e pessimista. Baseado numa história de Philip K. Dick, tem sua localização no ano de 2054, em Washington, onde precogs, que se parecem com clones, ficam embaixo d’água e antecipam crimes que serão cometidos, adiantando os  culpados à polícia. Até que um crime tem uma origem desconhecida, podendo ser o chefe dos policiais (Tom Cruise), que passa a ser perseguido por outro (Colin Farrell).

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Tem pontos interessantes: a perseguição de pequenas aranhas-robôs, por exemplo, entrando em apartamentos a fim de verificar a identidade de cada um por meio do olhar; as fugas de Cruise em meio a naves; elementos policiais tradicionais em meio à trama. Mas definitivamente não parece que Spielberg está aqui em bom momento. Ele parece habitar um futuro de pesadelo (como em Inteligência artificial), e quer deixar claro que se trata de um mundo profundamente devastado em todos os sentidos. Isso faz com que não haja simpatia pelo personagem principal, prejudicando o interesse pela trama em si. Em A origem, de Nolan, este futurismo de Spielberg, baseado na literatura de K. Dick, se converte numa espécie de charada para os sonhos de Freud, mas a concepção parece ser a mesma: os personagens de Nolan lembram os clones que ficam embaixo da água de Minority Report reportando a um futuro, com a diferença de que invadem os sonhos alheios a fim de conseguir informações secretas. Nolan deseja focalizar exatamente uma espécie de memória dos sonhos, que pode existir para antecipar qualquer ação a ser realizada.
DiCaprio é Dom Cobb recebe a proposta de um cliente, Saito (Ken Watanabe), de entrar num sonho de Robert Fischer (Cillian Murphy), a fim de implantar uma ideia (“inception” do título original) que o levará a dividir a herança de seu pai, Maurice (Pete Postlethwaite). Esta equipe é formada por Arthur (Joseph Gordon-Levitt), Ariadne (Ellen Page), recomendada por Miles (Michael Caine), mentor de Cobb e pai-de-lei,  Eames (Tom Hardy), que assume a forma de outras pessoas em sonhos, e Yusuf (Dileep Rao), que formula as drogas para que se tenha acesso aos níveis diferentes de sonhos e ao subconsciente.

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Trata-se de uma narrativa engenhosa, criativa e com potencialidade, cercada por exposição maciça de efeitos especiais (excelentes), mas com um viés artístico – que pode ser tanto interessante para alguns, quanto bastante cansativo para outros – e um jogo com a psicologia do personagem central, Cobb, sem o devido interesse, pelo menos não aquele dado por Nolan a Bruce Wayne em Batman begins, o melhor episódio da franquia dirigida por ele. Durante os seus sonhos, Cobb costuma encontrar sua esposa já desaparecida, Mal (Marion Cotillard), e costuma visualizar, sobretudo numa praia idílica, seus dois filhos brincando – a mesma imagem que dá início ao filme. E Cobb, não por acaso, é o nome do assaltante do primeiro filme de Nolan, Following.
O que se destaca, depois de uma perseguição a Peter Browning (Tom Berenger), o padrinho de Fischer, também dominado por Eames, é uma longa sequência de uma van caindo num rio, enquanto entramos e saímos do estado onírico dos personagens; a invasão a uma fortaleza no gelo; Arthur num corredor com gravidade zero enfrentando inimigos (e por pouco ele não lembra David Bowman) e remissões ao que se chama de limbo, onde os personagens, mesmo dentro dos sonhos, podem estar feridos. Mas não esqueçamos: trata-se de um filme sobre os sonhos e, enigmáticos em Lynch, passam a ser aqui lições de arquitetura. Ou seja, vale mais o contexto do que a narrativa do filme em si. Nolan tem sempre uma concepção pré-determinada para sua trama, nunca deixando uma abertura adequada para que o espectador respire: é como aquela cidade, no início do filme, se desdobrando sobre a personagem de Ariadne (ou com os objetos se espatifando no ar, numa sequência esplendorosa). Além das óbvias influências desta fase dos anos 2000 de Spielberg, A origem remete, por meio de seu pião, aos enigmas de 2001.

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No entanto, Nolan não se baseia, como Kubrick, no conceito apenas como referência artística: ele deseja também adaptar seu simbolismo a uma espécie de metáfora pop. Esta faceta pop contrasta, em parte, com o peso expositivo do roteiro de sua própria autoria, sobretudo quando Cobb decide montar sua equipe e são dadas a ele inúmeras argumentações sobre a arquitetura simétrica do trabalho a ser realizado. Toda esta exposição, ao mesmo tempo em que expõe uma complexidade, um atrativo, extrai a energia de alguns diálogos e das situações; tudo parece excessivamente calculado, e os personagens se movem de maneira racional até o limite. Da metade para o final, quase não há emoções ressoando entre eles, apenas ideias conceituais de Nolan, algumas brilhantes (como a analogia entre a queda da van, da neve de uma montanha e a subida de um elevador).
Com a atuação ainda indefinida de DiCaprio, escondido por uma série de projeções, tanto do seu passado com sua esposa quanto com seu projeto saturado por sonhos, A origem não se desvencilha do fato de que possui uma montagem ao mesmo tempo vertiginosa e tortuosa em seu propósito de não deixar brechas para que o espectador considere de que não sairá satisfeito ou com enigmas dispersos, conduzindo-o ao entendimento de que a obra se torna justamente complexa por não deixar quase nada de modo claro. Montado como um grande puzzle de peças, de forma às vezes desordenada e mesmo confusa, assim como os edifícios que se desdobram ou aqueles atingidos por um oceano magnífico, com a trilha sonora competente de Hans Zimmer, a extraordinária fotografia de Wally Pfister (a descoberta maior de Nolan) e uma direção de arte não menos do que brilhante de Huy Hendrix Dyas, A origem se ressente exatamente de um certo onirismo capaz de dar mais sensibilidade aos personagens, que passam pelo roteiro como se fossem exatamente executivos da corporação Rekall. Assim como a eles não é permitido um sonho real, ao espectador não resta senão a possibilidade de acompanhá-los numa espécie de simetria encaixada e, senão previsível, pelo menos de fadiga onírica. Ainda assim, em meio às teorias e à exposição, Nolan consegue realizar uma obra instigante e cujo maior mérito é alcançar um terreno ainda pouco explorado da humanidade, com o auxílio de uma notável equipe técnica e algumas imagens realmente inesquecíveis.

Inception, EUA/Reino Unido, 2010 Direção: Christopher Nolan Elenco: Leonardo DiCaprio, Joseph Gordon-Levitt, Ellen Page, Tom Hardy, Ken Watanabe, Dileep Rao, Cillian Murphy, Tom Berenger, Marion Cotillard, Pete Postlethwaite, Michael Caine Roteiro: Christopher Nolan Fotografia: Wally Pfister Trilha Sonora: Hans Zimmer Produção: Christopher Nolan, Emma Thomas Duração: 148 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Legendary Pictures / Syncopy / Warner Bros

Cotação 3 estrelas e meia

 

Vencedores do Festival de Cannes 2013

Por André Dick

La vie d’Adele.Filme

A 66ª edição do Festival de Cannes terminou hoje, e a Palma de Ouro de melhor filme foi para La vie d’Adèle, do diretor franco-tunisiano Abdellatif Kechiche, que conta a história do amor entre Adèle (Adele Exarchopoulos), uma adolescente, e Emma (Léa Seydoux, de Meia-noite em Paris), uma estudante de arte. O prêmio do grande júri ficou com Inside Llewyn Davis, de Joel e Ethan Coen, que conta a história de um cantor folk dos anos 60, com elenco de destaque: Carey Mulligan (que também aparece no filme que abriu o Festival, O grande Gatsby), John Goodman, Garrett Hedlund (Na estrada), Oscar Isaac (Drive) e Justin Timberlake.
Amat Escalante foi escolhido como melhor diretor, por Heli, enquanto Bruce Dern (pai de Laura Dern) saiu do Festival com o prêmio de melhor ator, pela atuação em Nebraska, de Alexander Payne (de Os descendentes), e Bérénice Bejo (O artista) com o de melhor atriz, por Le passé. O melhor roteiro ficou nas mãos de Jia Zhangke, por A touch of sin, e o Prêmio do Júri foi para Like father, like son, de Hirokazu Koreeda. A Palma de Ouro para melhor curta-metragem é de Safe, de Moon Byoung-Gon, e a Câmara de Ouro (para diretores estreantes), de Ilo Ilo, de Anthony Chen.

The immigrant.Filme

De maneira geral, pelas críticas, La vie d’Adele foi a grande surpresa do festival, embora o filme Le passé tenha sido também bastante elogiado, tendo atrás das câmeras o ótimo Asghar Farhadi, de A separação. Não tão elogiado (mas considerado uma obra-prima pela respeitável Slant, que o comparou, pela reconstituição e fotografia, a Era uma vez na América, de Sergio Leone), The immigrant é o novo filme de James Gray, com Joaquin Phoenix (que atuou em Amantes, outro filme de Gray), Marion Cotillard e Jeremy Renner. O novo filme de  Nicolas Winding Refn, Only God forgives, também com Ryan Gosling, não teve a mesma repercussão de Drive, que levou o prêmio de melhor diretor. Mas, ao que tudo indica, não deve ser menosprezado. Filmes violentos, como ele parece ser na avaliação da crítica, costumam não ser tão bem recebidos em Cannes, embora Drive o fosse.
O que se leva do festival é que o premiado nos últimos anos tem feito ótima trajetória depois e indicado ao Oscar de melhor filme, como A árvore da vida e Amor. O prêmio para os Coen era esperado desde a exibição, mas parece não conferir a ele certeza de chegada com fôlego no final do ano passado: Barton Fink (premiado com a Palma de Ouro principal) e O homem que não estava lá (premiado com melhor direção) concorreram depois, no Oscar, em categorias técnicas e de ator coadjuvante. No entanto, os Coen, recentemente, com Onde os fracos não têm vez, Um homem sério e Bravura indômita estão entre os diretores preferidos da Academia.

Nebraska.Filme

Nebraska, de Alexander Payne, é em preto e branco e conta a história de um senhor (Bruce Dern) com demência, que realiza uma viagem. Em ritmo de road movie, com elementos que Payne já trabalhou em seus ótimos As confissões de Schmidt e Sideways, Nebraska talvez traga o que Os descendentes deveria ter lhe trazido em 2011: o Oscar de melhor filme. Bruce Dern também comoveu a plateia de Cannes, o que lhe confere, desde já, destaque. Os filmes La Venus à la fourrure, de Roman Polanski, com sua mulher Emmanuelle Seigner, e Only lovers left alive, de Jim Jarmush, com Tom Hiddleston,Tilda Swinton e John Hurt, aproveitando a mitologia dos vampiros, tiveram uma boa recepção no Festival, e são de diretores que normalmente trazem uma visão diferente. Behind te Candelabra, com Matt Damon, Michael Douglas, Rob Lowe e Dan Aykroyd, em mais um último filme de Steven Soderbergh (que há pouco também lançou Terapia de risco), não chamou muita atenção, mas vem recebendo críticas positivas.
Entre os filmes exibidos na mostra “Um outro olhar”, parece que Sofia Coppola não repetiu o êxito de outros, com seu Bling Ring – A gangue de Hollywood, mas sempre é interessante aguardar pelos filmes de quem realizou Encontros e desencontros e Maria Antonieta. Não se deve esquecer que Cosmópolis, de David Cronenberg, e Moonrise Kingdom, de Wes Anderson, foram praticamente ignorados no Festival de 2012.

Vencedor.Palma de Ouro no Festival de Cannes

Ferrugem e osso (2012)

Por André Dick

Ferrugem e osso.Imagem 4

Uma das grandes surpresas do Oscar neste ano foi a não indicação ao prêmio de Marion Cotillard por Ferrugem e osso, lembrada, no entanto, pelo Globo de Ouro (assim como o filme, na categoria de produções estrangeiras). Depois de vencer o prêmio por Piaf, ela se destacou em outros filmes, como no belo Meia-noite em Paris, e participou do desfecho da trilogia do Batman de Nolan, com um papel deslocado, pelo menos para sua importância. Em Ferrugem e osso, ela volta a mostrar que se trata de uma das grandes atrizes surgidas nos últimos vinte anos, capaz de sustentar um filme.
No entanto, ela não está sozinha: temos o diretor Jacques Audiard e o ator Matthias Schoenaerts, apoiados num roteiro que parece banal, mas consegue, aos poucos, transformar-se numa referência para a complexidade dos relacionamentos e da transição de fases na vida de alguns personagens. Neste sentido, o filme mostra como a França tem produzido, como ao longo de sua história, obras originais e, quando afastadas da metalinguagem, verdadeiramente densas. Como Stéphanie, uma treinadora de orcas para um show aquático – nos moldes da Disney –, ao som de Katy Perry, Cottilard desenvolve nuances memoráveis (a partir daqui, spoilers). A personagem conhece um segurança de boate, Ali (Matthias Schoenaerts), que mora com o filho, Sam (Armand Verdure), na casa da irmã, Anna (Corinne Masiero), cuja única distração pode ser um aquário com poucos peixes na sala, depois de uma briga, e sofre um acidente numa de suas apresentações, precisando amputar parte de suas pernas. Passando por uma transformação completa por conta disso, a primeira pessoa de que ela lembra no novo momento é justamente Ali. O momento em que ela reencontra o personagem, e ele a leva para a praia, a fim de nadarem, é não apenas lírico no sentido da fotografia de Stéphane Fontaine e da trilha sonora (mais uma vez acertada) de Alexandre Desplat, mas carregado de sensações: o encontro dela com a água, onde se deu o acidente transformador, e, ao mesmo tempo, a calmaria da areia, com o personagem de Ali segurando Stéphanie em seus braços, é calculadamente emocional.

Ferrugem e osso.Filme

Ferrugem e osso.Filme 2

A partir daí, ambos se transformam não apenas em amigos, mas passam, numa espécie de consentimento mútuo, a ter relações sexuais. O diretor Audiard desenha a narrativa de forma muito detalhista e simples, sem pesar demais nas frustrações dos personagens diante da realidade – Ali passa a trabalhar como segurança de supermercados –, evitando, com isso, esconder o peso que enfrentam. Ali irá seguir por um caminho em que o corpo é justificado para se obter cicatrizes e machucados em troca de dinheiro. A questão é que não sabemos se o segurança terá interesse em assumir a relação com Stéphanie, ou abandoná-la, como faz com quase todos que encontra.
Audiard explora muito bem esta estrutura básica de roteiro, nunca deixando os personagens completamente indispostos com seus caminhos. A domadora precisa voltar ao parque aquático para reencontrar a baleia no momento da sua vida em que ela se reconcilia com as sensações do seu corpo. É como se a baleia, que causou a sua dor presente, também fizesse parte do passado que, pelas suas pernas, não será recuperado. No entanto, Audiard mostra justamente que, ao se ver como no reflexo do parque aquático, a personagem está se vendo, também direcionando a baleia para o outro lado de sua vida. E, com discreção interessante, o diretor consegue estabelecer, por meio de Stéphanie, a necessidade de que a relação com Ali não se baseie apenas no instinto, ou na necessidade de preservar as sensações do corpo, mas também na proximidade não forçada por torpedos.

Ferrugem e osso.Imagem

Ferrugem e osso.Filme 5

Ferrugem e osso consegue, desse modo, lidando com vários elementos ao mesmo tempo, desde a sensação de perda e de reencontro, vincular o espectador de modo decisivo à trama. Que Cotillard se mostre uma atriz magnífica, em seus gestos contidos, no embate com o eu, desde o acidente, quando está na cama, também com o vazio do apartamento, interrompido por poucas visitas, é mais do que notável. Com Hawkes, em As sessões, ela consegue – também com a ajuda de efeitos especiais, que lembram aqueles utilizados em Gary Sinise, de Forrest Gump – compor um personagem que se mostra, a todo instante, desprovido de qualquer afetação. Se no início ela seduz Ali, em determinada altura ela reflete que não sabe mais o que seria a sensação da conquista. Impelida a falar mais por Ali, Stéphanie entende que a repressão e a angústia da completa mudança podem ficar resignadas apenas por um gesto de delicadeza (palavra que ela soletra para convencer Ali a agir de modo diferente). É justamente esta delicadeza e não a violência que move este belíssimo Ferrugem e osso para um lugar em que os personagens estão sempre cercados pela água e pelo contato seco com o corpo. É a água que pode conceder uma recuperação como pode abalar e congelar o corpo. Lutar contra a água é justamente o que fazem Stéphanie e Ali durante o filme de Audiard, e demonstrar que com ela se pode também limpar as feridas de uma briga. Na água, tanto os raios de sol podem criar uma sensação de sossego, como também manchas de sangue podem anunciar uma queda.
O diretor de Ferrugem e osso, por uma série de imagens à deriva, consegue delinear essa atração estranha entre os personagens. Ali  parece não querer aumentar sua família nem se estruturar, de fato, numa casa. Stéphanie tem, no entanto, o intuito de conseguir segurá-lo. Quando ela resolve tatuar na perna Direita, que é o movimento que indica à baleia no parque aquático, é como se ela precisasse também se direcionar para a margem, parecendo sufocada a maior parte do tempo por seus próprios sonhos interligados com a realidade. Ela avisa Ali de que ele pode se machucar ao insistir no que pretende realizar em sua vida; ele diz que ela não pode dizer isso depois do que aconteceu com ela. A larga esperança que cada um vê no outro é, na verdade, a expectativa de que não se repita o que pode ser perdido: a partir do momento em que ela se segura nos ombros dele, Ferrugem e osso mostra a fusão entre duas pessoas, o complemento que faltava para que possam caminhar.

De Rouille et D’os/ Rust and Bone, FRA/BEL, 2012 Diretor: Jacques Audiard Elenco: Marion Cotillard, Matthias Schoenaerts, Armand Verdure, Céline Sallette, Corinne Masiero Produção: Jacques Audiard, Martine Cassinelli, Pascal Caucheteux Roteiro: Jacques Audiard, Thomas Bidegain Fotografia: Stéphane Fontaine Trilha Sonora: Alexandre Desplat Duração: 120 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: Why Not Productions / France 2 Cinéma / Les Films du Fleuve / Radio Télévision Belge Francophone (RTBF) / Lumière Pictures / Canal+ / Ciné+ / France Télévision / Centre National de la Cinématographie (CNC) / Vlaams Audiovisueel Fonds / Région Provence-Alpes-Côte d’Azur / Casa Kafka Pictures Movie Tax Shelter Empowered by Dexia / Département des Alpes-Maritimes / VOO / Page 114 / Lunanime

Cotação 4 estrelas e meia