Jogo perigoso (2017)

Por André Dick

Adaptado de um livro de Stephen King, Jogo perigoso é um lançamento recente da Netflix, dirigido por Mike Flanagan, o mesmo do terror Hush. Se há alguns anos os livros de King não eram tão adaptados com tanta frequência, como nos anos 80 e 90, parece que em 2017 houve uma retomada das transposições para o cinema de obras do autor, a começar por It – A coisa, um dos grandes sucessos do ano. King tem uma variedade de histórias que vão desde a descoberta da juventude (Conta comigo), passando por homens lutando para escapar ao ambiente da cadeia (Um sonho de liberdade) até peças com o terror mais denso (O iluminado, para citar apenas um dentre vários).
Com uma premissa muito simples, Jogo perigoso mostra um casal, Jessie Burlingame (Carla Gugino) e Gerald (Bruce Greenwood), um advogado, indo para sua casa de férias no Maine. Eles querem revitalizar o casamento e, para isso, Gerald tem a ideia de algemar as mãos de sua esposa à cama. O marido já não sente a mesma atração pela mulher e fingir que ela é uma desconhecida parece despertar nele um desejo mal explicado. O que poderia ser uma espécie de Instinto selvagem em forma de diálogo teatral logo se transforma num pesadelo, não apenas para Gerald como para Jessie.

Se o espectador está interessado em boas atuações, encontrará com certeza em Gugino e Greenwood presenças de qualidade em cena. Ambos conseguem desenvolver, principalmente no início, uma boa química, pela maneira como a história é contada, de maneira ágil. No entanto, isso não é o suficiente para sustentar o roteiro. Se a ida deles para a casa afastada é precedida pelo encontro com um cachorro abandonado à beira da estrada (ao qual Gerald, em determinado momento, vai se referir como “cujo”, que é o nome de outra obra de King adaptada para o cinema, num filme assustador de 1983) e lembre um pouco o clima de Violência gratuita, de Michael Haneke, parece que tudo que cerca essa cena misturando sexo e recordações desagradáveis não é tão bem dosada quanto poderia ou o diretor Flanagan imagina. Há uma base para discussão sobre o matrimônio e sobre a intimidade bastante interessante e mesmo inusual no cinema norte-americano, no qual a fantasia se mistura com a agressão física, contudo a expectativa logo vai se desaparecendo com o tratamento irregular e os diálogos distribuídos de maneira mais plana.

Excessivamente calcado em flashbacks (nos quais Flanagan traz Henry Thomas, atuando de forma estranha, talvez pela dificuldade do papel, também para o espectador, para quem se acostumou a assisti-lo em filmes como E.T.), o filme desliza por temas arriscados e seu tom nunca se sente sólido. Ele parte de um início em que o foco é o “jogo” de Gerald para escolher no passado a forma de explicar o presente e guiar a personagem central, com resultados duvidosos. Isso porque parece que o passado de Jessie, por pior que seja, pode sugerir em algum momento o jogo do marido (será ele até o momento antes em que o conhecemos alguém diferente?) e sua superação, sob um novo castigo. Por um lado, trata-se de uma ideia até interessante e podemos ver nesse aspecto uma circularidade da personagem, uma espécie de confronto dela com seus incômodos psicológicos mais graves, contudo a maneira com que se revela acaba sendo um pouco tortuosa para o espectador. Flanagan não consegue oferece o devido crescendo no sentido de desvendar e desmontar cada personagem, embora a atriz Chiara Aurelia se mostre excepcional numa participação de grande relevância para a trama.

Flanagan não tem uma direção criativa, preferindo utilizar a simbologia de uma eclipse para definir a personagem central. É excessivamente expositivo por meio dessa imagem, não deixando para o espectador qualquer tentativa de desvendar algo. Essa opção tomada é lamentável porque principalmente Gugino (um destaque em Watchmen e Sucker Punch, duas obras de Snyder) oferece uma atuação que, com um roteiro melhor e numa obra com melhor narrativa, seria propícia a indicações a prêmios. Nesse ponto, é talvez o filme mais comum em termos de produção da Netflix, não apenas porque utiliza poucos cenários, de acordo com o livro, como também pelo acabamento do eclipse em desacordo visualmente com o restante do design de produção, parecendo sempre algo à parte da trama. Jogo perigoso é também mais assustador do que dramático em algumas cenas, mas termina com um epílogo terrível, um dos piores do cinema recente. Quando Flanagan pretende acentuar o mistério ao redor de uma trama em parte bastante realista, chegando a um momento em que o espectador precisa enfrentar uma determinada imagem, acaba se perdendo, e de certo modo o espectador percebe que antes a trama já não se mostrava com a força devida. É esse final, de qualquer modo, que define a decepção: tão calculado quanto expositivo, mesmo Gugino vê sua atuação até então irretocável ser prejudicada pela direção de Flanagan.

Gerald’s game, EUA, 2017 Diretor: Mike Flanagan Elenco: Carla Gugino, Bruce Greenwood, Henry Thomas, Carel Struycken, Kate Siegel, Chiara Aurelia Roteiro: Jeff Howard e Mike Flanagan Fotografia: Michael Fimognari Trilha Sonora: The Newton Brothers Produção: Trevor Macy Duração: 103 min. Estúdio: Intrepid Pictures Distribuidora: Netflix

E.T. – O extraterrestre (1982)

Por André Dick

ET.Spielberg

Quando lançado, este filme recebeu muitas críticas positivas e uma extraordinária bilheteria, a maior da década de 1980. Seu diretor, Steven Spielberg, apresenta um extraterrestre pacífico, diferente de todos que haviam aparecido no cinema – no mesmo período, John Carpenter lançava seu assustador O enigma de outro mundo –, uma espécie de símbolo da infância. Foi indicado a vários Oscars (entre os quais de melhor filme, diretor), ganhando os de melhor trilha musical, som, efeitos sonoros e efeitos visuais, tendo recebido ainda o Globo de Ouro de melhor filme dramático. Toda esta receptividade tornou Spielberg um novo Walt Disney, um cineasta que não quis crescer, alusão a Peter Pan, obra de J.M. Barrie citada ao longo do filme (e adaptada para adultos em Hook – A volta do Capitão Gancho), como na cena de voo das bicicletas. Parece mesmo a síntese da trajetória de Spielberg, por todo seu referencial envolvendo figuras que remetem a uma fábula, mas a verdade é que ele nunca esteve tão à vontade com este universo quanto aqui. Recém-saído de um êxito do cinema de ação em Os caçadores da arca perdida, e ainda aproveitando o mistérios de seres do outro mundo trazido por Contatos imediatos do terceiro grau, Spielberg, numa época em que já pensava na adaptação de Tintim para o cinema, em conversas com Hergé (que viria a concretizar com Peter Jackson em 2011), antecipa, e sintetiza, aquele cinema em que o foco são as casas do subúrbio do interior dos Estados Unidos, tão bem trabalhadas depois em filmes produzidos por ele, como De volta para o futuro, Os Goonies e Gremlins, com suas crianças e jovens envolvidos com questões fantásticas, desde uma máquina de tempo, passando por um mapa de tesouro até monstros que vão ao cinema ver Branca de Neve e os 7 anões.

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Melissa Mathison, a roteirista, opta pelo caminho mais objetivo, escolhendo um menino simples chamado Elliott (o ótimo Henry Thomas, que nunca mais estrelou um êxito e se destacaria, adulto, apenas em Gangues de Nova York) para ser o personagem principal, a fim de que as crianças se identifiquem, pois os adultos, sobretudo aqueles ligados à Nasa (representados pelo personagem do frio Peter Coyote), são, em grande parte, ameaçadores, e o foco aqui seria transformar Elliott numa espécie de personagem de Richard Dreyfuss em Contatos imediatos, sem a paranoia equivalente. Ele é o ponto de referência para que um visitante de outro planeta consiga voltar para casa. Para isso, é necessária a ajuda do irmão, Michael (Robert McNaughton, muito expressivo) e Gertie (Drew Barrymore), a caçula. Sua mãe, Marie (Dee Wallace) não sabe disso, o que rende muitas cenas engraçadas. Ao mesmo tempo em que ela parece ser uma mãe preocupada, ela habita um universo paralelo: é antológica, por exemplo, a sequência em que ela vai ao armário ver de onde vem um barulho, e se depara com inúmeros bonecos organizados milimetricamente, com destaque para um deles.
Desde o seu início, com a partida da nave espacial, deixando o extraterrestre para trás, e a consequente perseguição a ele por parte de integrantes da Nasa, a proximidade com um universo fantástico é muito maior daquela que Spielberg nos apresentou em Contatos imediatos do terceiro grau, assim como a aproximação de Elliott do ser vindo do espaço – em uma cena fabulosa, tanto quanto assustadora, no milharal. Estamos inseridos nos anos 80, com as casas abertas, as bicicletas e um pôr do sol de verão, a cultura pop consequente dos anos 70 (e Spielberg faz uma homenagem a Star Wars, de George Lucas), mas também em algo estranho, desconhecido, como o que encontramos na floresta, uma espécie de versão mais tranquila de Poltergeist, lançado à época, mas não totalmente livre de um mistério.

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Marie, a mãe de Elliott, foi abandonada pelo marido, que se encontra com a amante no México, e as reuniões à noite trazem amigos de Michael – entre eles, C. Thomas Howell, que depois faria uma carreira razoável, inclusive O selvagem da motocicleta, de Coppola, no ano seguinte –, das quais o personagem principal tenta participar, sem muito êxito. A alternativa é olhar para as estrelas por trás da névoa da fumaça e da louça a ser lavada. Sob certo ponto de vista, Elliott precisa de uma amizade, e ela surge na figura do extraterrestre solitário. Uma ida à floresta para jogar balas pelo chão (como na fábula João e Maria) representa também o chamado à criatura de outro mundo – e ela nunca foi tão plausível quanto na criação de Carlo Rambaldi. Daí ET ser o retrato também de uma geração que precisava crescer, de algum modo, nem que fosse para conhecer o destino das espaçonaves. Os adolescentes são figuras que devem, por isso, amadurecer, embora Elliott, aqui, precise amadurecer mais ainda, pois o sentido de tudo é como enfrentar a perda (seja do ser estrangeiro, seja de algo familiar). Nesse sentido, tudo acaba criando um ambiente de nostalgia, quando, por exemplo, Spielberg, durante uma festa de Halloween, coloca o ET tentando correr atrás de alguém fantasiado de Yoda e, depois de chegar à floresta, ajuda a construir um artefato que pode emitir sinais para sua volta, utilizando-se de galhos de árvore e os objetos mais estranhos, sintetizando, numa determinada parte, a distância e a aproximação com o desconhecido, além da impressionante melancolia das imagens (quando Michael, de bicicleta, vai tentar encontrar o ser espacial).
No entanto, o melhor da história são os símbolos, como a planta do ET – ligada a ele e Elliott –, a floresta repleta de pinheiros e as rãs espalhadas pela sala de aula de Elliott, a metalinguagem divertida empregada por Spielberg, com o extraterrestre vendo um filme que se reproduz na realidade, com um beijo romântico. Spielberg está à vontade aqui em desenhar analogias, o que se desgastaria em sua trajetórias, em filmes interessantes, mas não tão efetivos, quanto Hook, em que a obra de Barrie não se torna mais uma referência entre outras, mas a própria tentativa de fazer uma versão adulta deste filme. E o vínculo que ele estabelece entre Elliott e o ET é eficiente, mesmo na parte final, em que parece haver uma manipulação emotiva, sobretudo pela atuação convincente de Henry Thomas.
Na versão comemorativa de 20 anos e E.T., em 2002, incluíram alguns cenas extras e talvez dispensáveis (como a do extraterrestre tomando banho, ou rádios no lugar de armas dos federais que perseguem a turma de Elliott, e a mãe de Elliott procurando todos no Halloween), mas a versão original de 1982 (relançada em Blu-Ray) é sem retoques. Assumido conto de fadas, uma espécie de síntese para o que os estúdios Disney sempre tentaram fazer no cinema com atores, é uma ficção para divertir, empolgar e rever sempre – ainda mais porque contém a melhor trilha de John Williams e um grande trabalho de fotografia de Allen Daviau, sobretudo nas cenas noturnas da floresta e nas perseguições de bicicleta (sobretudo a da ladeira) –, E.T. é uma espécie de símbolo das perdas e reencontros da infância, a cada ano mais contemporâneo.

E.T. – The extra-terrestrial, EUA, 1982 Diretor: Steven Spielberg Elenco: Dee Wallace, Henry Thomas, Peter Coyote, Robert MacNaughton, Drew Barrymore, Erika Eleniak, C. Thomas Howell, Pat Walsh e Debra Winger (vozes do E.T.). Produção: Steven Spielberg e Kathleen Kennedy Roteiro: Melissa Mathison Fotografia: Allen Daviau Trilha Sonora: John Williams Duração: 115 min. Estúdio: Universal Pictures

Cotação 5 estrelas

E.T. – O extraterrestre (1982)

Por André Dick

Quando lançado, este filme recebeu muitas críticas positivas e uma extraordinária bilheteria, a maior da década de 1980. Seu diretor, Steven Spielberg, apresenta um extraterrestre diferente de todos que haviam aparecido no cinema, um arquétipo para o imaginário da infância. Foi indicado a vários Oscars (entre os quais de melhor filme, diretor), ganhando os de melhor trilha musical, som, efeitos sonoros e efeitos visuais, tendo recebido o Globo de Ouro de melhor filme dramático. Toda esta receptividade tornou Spielberg um novo Walt Disney, um cineasta que não quis crescer, alusão a Peter Pan, obra de John Barrie citada ao longo do filme (e adaptada para adultos em Hook – A volta do Capitão Gancho), como na cena de voo das bicicletas.
Melissa Mathison, a roteirista, opta pelo caminho mais fácil, escolhendo um menino simples chamado Elliott (o ótimo Henry Thomas, que nunca mais estreou um êxito) para ser o personagem principal, a fim de que as crianças se identifiquem, pois os adultos, sobretudo aqueles ligados à Nasa, são, em grande parte, ameaçadores. Ele é o ponto de referência para que um visitante de outro planeta consiga voltar para casa. Para isso, é necessária a ajuda do irmão (Robert McNaughton, muito expressivo) e Gertie (Drew Barrymore, que se tornaria uma estrela adulta), a caçula. Sua mãe (Dee Wallace) não sabe disso, o que rende muitas cenas engraçadas. No entanto, o melhor da história são os símbolos, como a planta do ET – ligada a ele e Elliott –, a floresta repleta de pinheiros e as rãs espalhadas pela sala de aula de Elliott.
Desde o seu início, com a partida da nave espacial, deixando o extraterrestre para trás, e a consequente perseguição a ele por parte de integrantes da Nasa, a proximidade com um universo fantástico é muito maior daquela que Spielberg nos apresentou em Contatos imediatos de 3º grau, assim como a aproximação de Elliott do ser vindo do espaço – em uma cena fabulosa no milharal. Estamos inseridos nos anos 80, com as casas abertas, as bicicletas e um pôr do sol de verão, mas também em algo estranho, desconhecido, como o que encontramos na floresta. Daí ET ser o retrato também de uma geração que precisava crescer, de algum modo, nem que fosse para conhecer o destino das espaçonaves. Os adolescentes são figuras que devem, por isso, amadurecer, embora Elliott, aqui, precise amadurecer mais ainda, pois o sentido de tudo é como enfrentar a perda (seja do ser estrangeiro, seja de algo familiar).
Na versão comemorativa de 20 anos, em 2002, incluíram alguns cenas extras e talvez dispensáveis (como a do ET tomando banho numa banheira, ou rádios no lugar de armas dos federais que perseguem a turma de Elliott, a mãe de Elliott procurando todos no Halloween), mas a versão original de 1982 é sem retoques. Assumido conto de fadas, é uma ficção para divertir, empolgar e rever sempre – ainda mais porque contém a melhor trilha de John Williams e um grande trabalho de fotografia.

E.T. – The extra-terrestrial, EUA, 1982 Diretor: Steven Spielberg Elenco: Dee Wallace, Henry Thomas, Peter Coyote, Robert MacNaughton, Drew Barrymore, Erika Eleniak, C. Thomas Howell, Pat Walsh e Debra Winger (vozes do E.T.). Produção: Steven Spielberg e Kathleen Kennedy Roteiro: Melissa Mathison Fotografia: Allen Daviau Trilha Sonora: John Williams Duração: 115 min. Estúdio: Universal Pictures 

Cotação 5 estrelas