Maria Antonieta (2006)

Por André Dick

A cineasta Sofia Coppola costumava, até se transformar em diretora, ser mais lembrada por sua participação um tanto deslocada em O poderoso chefão III (no qual fazia a filha do chefão Pacino, apaixonada pelo seu primo, interpretado por Andy Garcia). Nada que antecipasse seu talento como diretora, assim como já ocorria em As virgens suicidas e Encontros e desencontros. Além de sempre escolher bem o elenco e a equipe técnica, com destaque para o fotógrafo Lance Acord, em mais um trabalho notável aqui, tudo no trabalho de Sofia é lento e gradual: as cenas se apresentam como uma espécie de teatro encenado muitas vezes que, de tão representado, fica natural.
Kirsten Dunst interpreta Maria Antonieta, filha de Maria Teresa (Marianne Faithfull), que se casa com Luís XVI (Jason Schwartzman), prestes a assumir no lugar de rei Luís XV (Rip Torn), e se muda para a França. Lá, ela é recepcionada pela condessa de Noailles (Judy Davis). Mostrando sua aproximação com o marido em casamento arranjado, Sofia questiona até que ponto Maria Antonieta representa a liberdade e a prisão de uma mulher destinada a fazer história.

Dedicada às caminhadas pelo Palácio de Versalhes e indiferente ao que acontece com o povo (“Que comam os brioches” é sua famosa frase, antes da guilhotina, que não aparece), Sofia tem uma percepção atenta e destaque para detalhes como a primorosa direção de arte e o figurino oscarizado de Milena Canonero, tornando o mundo em que vivia Maria Antonieta tão pop – não diria exatamente extravagante, apesar dos exageros em todas as suas cores – quanto o de uma adolescente com cartazes em seu quarto, embalando o filme com uma trilha dedicada a bandas da atualidade (como The Strokes, Gang of Four, The Cure, New Order, Air), o que confunde os tempos. É justamente este elemento pop –  não menosprezando, visualmente, suas influências, que vão de Amadeus, de Milos Forman, a O novo mundo, de Malick – que sustentam o filme e lhe oferecem um rosto contemporâneo. Cada gesto é delineado a partir de um cuidado – às vezes rebuscado – com as cores, ressoando esta geração que cerca os Coppola, incluindo Sofia, Roman e Wes Anderson.

A Revolução Francesa não pode surgir nem em sua imaginação porque Maria Antonieta  é povoada pelas ideias de uma jovem descompromissada. Recebendo joias e festas de presente, não é do seu interesse nenhum contexto. Mas Sofia não a condena por isso. Como seu posicionamento diante das virgens suicidas e de Charlotte, em Encontros e desencontros, Maria Antonieta é uma espécie de heroína, destinada à tragédia de não conseguir simbolizar alguma ruptura na história e não se interessar por política – e ter seu nome tão lembrado nos livros, sobretudo pela miséria do povo no período em que foi o comentário principal. Seus devaneios com o amante, Conde Axel von Fersen (Jamie Dornan), e a pouca atenção dada ao Imperador Joseph II (Danny Huston), seu irmão que a aconselha a parar com festas, com as drogas (em meio a fumaças de ópio, a bebida) são apenas acréscimos numa trajetória cuja finalidade é servir ao marido e ter filhos.
Na verdade, por mais que Sofia esconda, pois sua narrativa é sempre despistada por cores de cenários e atuações leves, há uma espécie de tragédia nesta vida em que parece não haver tragédia alguma – é como se Maria Antonieta acordasse como Paris Hilton, mas vivesse como um personagem em meio às névoas de Shakespeare. Sem entender exatamente seu posto, recém-saída da adolescência, Maria Antonieta não deixa de enfrentar as maledicências com um choro escondido atrás da porta, e também não deixa de tentar fazer política de bom relacionamento com quem se aproxima para tentar reverenciá-la. Na ida à ópera, foge, para admiração de Luís XVI, do convencional e aplaude os componentes da peça, sendo observada como se fosse John Merrick em O homem elefante. Em meio a isso, o ar entre o cômico e o entendiado do rei Luís XVI ganham uma interpretação definitiva com o subestimado Schwartzmann (de Rushmore e Moonrise Kingdom). E a amante de seu pai Madame du Barry (Asia Argento) também chama a atenção.

O senso de responsabilidade, para Sofia, é o mesmo: a cobrança feita à mulher parece igual, independente da situação. Seus personagens, aqui, estão envolvidos com trivialidades, como estivemos em qualquer época da história, e isso, além de não causar uma densidade que esperaríamos num drama histórico (não é o objetivo de Sofia), torna tudo mais acessível e mainstream. No entanto, Sofia não ingressa numa questão feminista. Do mesmo modo, ela não torna o plano social (que prejudicaria o entendimento do filme, que é justamente enfocar personagens à parte de um universo real) uma extensão de suas preocupações, como o faz Arcell em O amante da rainha, que se inspira claramente em Maria Antonieta, mas acaba sucumbindo, em determinados momentos, tanto ao elenco mais limitado quanto ao peso de determinados aspectos. Quando ela vai a festas, seu comportamento é exatamente de uma mulher que não vivenciou o encontro não planejado pela corte – e Sofia registra cada festa não como uma passarela pessoal e sim como um lugar para se esconder quem é, atrás da máscara, vestindo outra personagem.

Do mesmo modo, quando Sofia filma os doces, as roupas e as joias, com um registro sonoro dos anos 80, parece querer transformar Versalhes numa espécie de extensão da new wave, embora, para a personagem principal, seja mais do que um belo lugar, com suas árvores transplantadas: trata-se de uma espécie de prisão pessoal, uma espécie de exílio da juventude, onde ela deixará tudo que imaginava esquecer em algum momento. Na terceira parte do final, quando ingressamos na saturação dos prazeres de Maria Antonieta, o filme declina um pouco de sua tentativa de se manter alheio à história. Quando há discussões ao redor de uma mesa, com Luís XVI, elas sempre continuam no terreno do comportamento juvenil, com o personagem olhando a esposa com uma luneta de papel, mas o contexto se esforça para fazer parte da visão de Sofia. Trata-se do momento mais fraco de Maria Antonieta, ainda que com a fotografa de Acord perfeitamente agradável.
Kirsten Dunst  substitui o papel de namorada do Homem-Aranha pela mulher de vestidos suntuosos que abalou a França numa determinada época e a questão é que devemos estar atentos à história, pois é ela, trivial ou não, que nos move – e nos manter à distância desse universo enfocado, sobretudo o político – e sua atuação consegue ser eficiente sempre que chamada ao centro da ação. Mais ainda: como demonstraria mais adiante, sobretudo em Melancolia, Kirsten guarda uma certa tristeza que se confunde ao que ela consegue elaborar por meio da personagem, sem atrair o filme para um lugar em que não se quer mais vê-lo. Maria Antonieta ainda guarda sua maior atuação, e isso não é pouco, além de também ser o melhor filme de Sofia Coppola.

Marie Antoinette, EUA, 2006 Diretor: Sofia Coppola Elenco: Kirsten Dunst, Jason Schwartzman, Rip Torn, Judy Davis, Asia Argento, Marianne Faithfull, Aurore Clément, Steve Coogan Roteiro: Sofia Coppola Fotografia: Lance Acord Produção: Sofia Coppola, Ross Katz Duração: 123 min. Estúdio: Pricel, Tohokushinsha Film Corporation, American Zoetrope, Pathé Distribuidora: Columbia Pictures Corporation

O estranho que nós amamos (2017)

Por André Dick

Exibido pela primeira vez no Festival de Cannes, no qual recebeu o prêmio de melhor direção, para Sofia Coppola, O estranho que nós amamos é uma nova adaptação de um romance de um Thomas P. Cullinam. Ele já havia sido transposto para o cinema em 1971, por Don Siegel, tendo à frente do elenco Clint Eastwood e Geraldine Page. Quase esquecido, pode-se dizer que a versão de Sofia o colocou novamente em circuito para debate e comparação.
A história se passa em 1864, quando um internato com arquitetura própria da Virgínia, no Sul do Estados Unidos, administrado por Martha Farnsworth (Nicole Kidman), durante a Guerra Civil Americana, serve de repouso para um soldado ferido de guerra e fugitivo, John McBurney (Colin Farrell). Ele é descoberto no bosque, capaz de lembrar um pouco o cenário de A lenda do cavaleiro sem cabeça, de Tim Burton, semelhante a uma pintura, por uma das alunas da mansão, Amy (Oona Laurence). McBurney passa a ser cuidado tanto por Martha quanto, especialmente, por Edwina Morrow (Kirsten Dunst). As outras jovens da casa são Alicia (Elle Fanning), Jane (Arroz Angourie), Emily (Emma Howard) e Marie (Addison Riecke).

O estranho que nós amamos tem todos os elementos de um filme de Sofia Coppola, principalmente porque mostra, antes de tudo, um retrato da solidão humana. Assim como em As virgens suicidas, essas mulheres estão à espera de algo que aconteça em suas vidas, e isso é simbolizado por McBurney, e como Encontros e desencontros não parece haver uma sintonia entre o desejo e o que se manifesta dessa aproximação. Sofia fez o decepcionante Bling Ring há alguns anos, tendo apresentado depois apenas o especial A very Murray Christmas, para a Netflix, uma ótima peça com o ator Bill Murray. Em O estranho que nós amamos ela retoma o talento exibido em Maria Antonieta e Um lugar qualquer, dos quais este novo filme também se aproxima por certo tédio existencial e um classicismo que tenta fazer as coisas permanentes.
Que esta obra seja considerada inferior por alguns à de Don Siegel de 1971 só pode ser por nostalgia ou culto a Eastwood – no mesmo ano, diretor e ator fizeram o primeiro Dirty Harry. Não há nenhum sentido em compará-los: a obra de Sofia é uma visão por vezes assustadora sobre um grupo de mulheres que visualiza no homem a essência de permanecer exatamente onde estão e como são, e Farrell faz uma espécie de vampiro (a analogia com o personagem que interpreta em A hora do espanto não é desprezível) querendo colocá-las umas contra as outras. Ele queria ser salvo e se esconder num lugar, e conseguiu. O que ele ignorava é: não se pode enganar ninguém num espaço tão reduzido. Não há elogios à figura masculina: McBurney é uma intromissão necessária, porém dispensável para o andamento da rotina.

No filme de Siegel, tudo era excessivamente voltado a construir uma imagem de Velho Oeste deslocada para uma casa onde mulheres procuravam a companhia de um homem. O design de produção era previsível, assim como o figurino não evocava uma imersão no período enfocado, apesar das qualidades interpretativas de Clint Eastwood. Na versão de de Sofia, o cenário não raras vezes, com as árvores encobrindo quase toda a paisagem, evoca Cabo do medo, de Scorsese, e os candelabros, Barry Lindon.
Eastwood, no original, era um soldado querendo usar métodos de galã em relação às personagens que os cercavam – Farrell escolhe um ar de mistério ameaçador, de alguém com o intuito de cuidar das flores do jardim, mas sem saber o quanto há de espinhos nelas. Sofia usa uma história que às vezes soa teatral demais em alguns momentos para fazer uma espécie de Os outros em ritmo de história norte-americana. Para estabelecer paralelos com a obra de Siegel, apenas num plano superficial: a fotografia de Phillipe Le Sord (O grande mestre), do filme de Sofia, é sublime e ajuda a contar essa história de maneira que realmente sintamos estar diante de uma grande obra. Além disso, suas temáticas ficam encobertas e subentendidas. Do que Sofia está tratando aqui? Certamente mais do que sobre um período da história dos Estados Unidos, tanto que ela não entra em maiores detalhes sobre a escravidão, como havia no filme de Don Siegel. Isso equivale a dizer que essas mulheres estão completamente afastadas da realidade, sendo quase fantasmas à espera de uma razão para existir. As cores de seu figurino (branco, rosa e azul celeste) representam uma leveza não existente no lugar onde moram; elas também se escondem por trás dele.

E elas encontram na figura do soldado uma certa razão para tentarem se revelar. Esse ingresso de um estranho em suas vidas é acompanhado por um tom soturno e pausado, sem espaço para grande alegria, a não ser tentativas de vivê-la, a exemplo dos cantos ao piano. Qualquer conversa entre os personagens é milimetricamente calculada, um tanto sem vida, porque o que eles escondem sempre se pronuncia em primeiro lugar. O elenco, todo, é melhor: Kidman está num de seus melhores momentos (embora Geraldine Page faça muito bem o papel no original), Dunst é minuciosa nos gestos de uma jovem melancólica, Farrell é notável, entre uma certa ingenuidade e uma tentativa de manipular, e Fanning acerta no tom de fingimento (o único senão é sua pouca presença, ao contrário de sua personagem na versão de 1971). Por esses elementos, entende-se que Sofia Coppola volta a seus melhores momentos, de Maria Antonieta e Um lugar qualquer, mas com um desenvolvimento ainda maior de temas discretos, que não se apresentam para o espectador com uma necessidade de convencê-lo sobre determinadas abordagens. Para Sofia, o mistério da humanidade está escondido no bosque como o soldado, à espera de atendimento. Não parece por acaso a maneira como a diretora utiliza a névoa do amanhecer como uma espécie de convite a tentar desvendar esse mistério insondável.

The beguiled, EUA, 2017 Diretora: Sofia Coppola Elenco: Nicole Kidman, Kirsten Dunst, Elle Fanning, Colin Farrell, Angourie Rice, Addison Riecke, Oona Laurence, Emma Howard Roteiro: Albert Maltz, Irene Kamp, Sofia Coppola Fotografia: Philippe Le Sourd Trilha Sonora: Laura Karpman, Phoenix Produção: Sofia Coppola, Youree Henley Estúdio: American Zoetrope, FR Productions Distribuidora: Universal Pictures

Vidas sem rumo (1983)

Por André Dick

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Antes de John Hughes compor boa parte da visão do universo adolescente nos anos 80, com Gatinhas e gatões, O clube dos cinco e A garota de rosa shocking, o diretor Francis Ford Coppola, recém-saído dos problemas financeiros trazidos por sua obra-prima O fundo do coração, realizou a adaptação para o cinema de Outsiders, de Susan E. Hinton, com a revelação de um elenco de jovens estelar, que teria novos projetos de destaque, sobretudo naquela década (Estevez e Lowe se reencontrariam em O primeiro ano do resto de nossas vidas). Isso aconteceu depois de receber uma carta de uma bibliotecária que, em nome de alguns alunos (ver carta e respostas), lhe pedia para que fizesse a adaptação. Envolvido desde os anos 1970 com cenários mafiosos (de O poderoso chefão) e de guerra (Apocalypse now), caracterizados pela grandiosidade, não parecia adequado esperar que Coppola gostaria de adaptar uma história de brigas entre gangues, com jovens problemáticos, material menos ambicioso do que suas obras anteriores. A história se passa em Oklahoma, Tulsa, em 1965, quando vemos uma gangue – os Greasers – formada por Ponyboy (Howell),seus irmãos Darrel (Swayze) e Sodapop (Lowe), além de Johnny Cade (Macchio), Two-Bit Matthews (Estevez), Dallas Winston (Dillon) e Steve Randle (Cruise). Eles são rivais de outra gangue, composta por jovens da classe rica, que se autointitula Socs.

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Na versão estendida do filme (de 109 minutos, encontrada em Blu-Ray, enquanto a versão lançada nos cinemas era de 91 minutos), logo no início, quando vemos Ponyboy quase se envolver em confusão, sendo salvo por amigos, ao som de Elvis Presley (que ocupa a trilha de Carmine, pai de Francis, no original), já sabemos que Vidas sem rumo terá um ritmo de pressão adolescente. Essa gangue tem, por um lado, a liderança de Darrel, o mais velho, e por outro lado a rebeldia de Dallas. É esta rebeldia que levará ao primeiro desentendimento do filme com o universo feminino, quando ele, Ponyboy e Johnny estão num cinema drive-in e encontram duas jovens, Cherry (Lane) e Marcia (Meyrink). Após Cherry se desentender com Dallas, ela aceita a conversa dos outros dois, mas eles são perseguidos por dois integrantes dos Socs, Bob Sheldon (Garrett) e Randy Adderson (Dalton). Apenas aparentemente as coisas se resolvem, pois, quando estão à noite, numa praça, Ponyboy e Johnny são atacados por eles.
As consequências os levam a fugir da cidade, indo se refugiar numa igreja abandonada numa cidade vizinha. Ponyboy ponta o cabelo de loiro e, influenciado por …E o vento levou e um poema de Robert Frost, imagina um horizonte igual ao filme de Fleming. São dois jovens refugiados tanto da condição de se afastarem do universo de gangues quanto da sua verdadeira personalidade. A versão estendida de Coppola sugere uma ligação estrita entre esses dois personagens, também pela amizade de Ponnyboy com o irmão, Sodapop (personagem que pouco aparece na versão menor). Esta relação se estabelece com mais força depois que ambos são expostos a um acontecimento que pode transformar suas vidas e fazer com que se depare com uma situação mais grave.
Acostumado a mostrar os vínculos entre os mafiosos de O poderoso chefão e a relação apaixonada do casal central de O fundo do coração, Coppola visualiza esses jovens como afastados de uma cultura norte-americana. Suas origens são misturadas, e são melancólicos em não conseguir fazer parte diretamente desta cultura, também pelo estereótipo firmado de classes sociais afastadas umas das outras. Quando a fotografia excepcional de Stephen H. Burum parece reproduzir flashes de …E o vento levou, é sempre sob esse ponto de vista, de que os personagens gostariam de pertencer a algo maior, mais transcendente, do que a condição em que são colocados. Com uma vontade explícita também de dialogar com Terrence Malick de Terra de ninguém e Dias de paraíso, Coppola filma esses bairros e ruas em que os jovens se movimentam quase totalmente vazios, afastados de qualquer movimento e perspectiva. A noite no parque tem apenas a companhia do vento e as casas parecem sempre com as luzes apagadas ou enfraquecidas. Não se avista ninguém pelas janelas ou cortinas, como se não houvesse ninguém para ajudá-los, apenas com a ameaça invisível da polícia.

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O mesmo acontece quando Ponnyboy e Johnny precisam se refugiar em outra cidade e viajam de trem, chegando a um descampado. Coppola filma com cuidado essas imagens, embora não consiga estabelecer um vínculo entre os personagens do mesmo modo que acontece com esses dois. De qualquer modo, o elenco é de grande talento. Dillon, que vinha de outro belo filme com jovens, Tex, entrega uma atuação exemplar, assim como Macchio mostra que sua carreira ter praticamente encerrado depois dos anos 80 (voltou recentemente numa ponta em Hitchcock) foi uma injustiça. Thomas Howell é um bom ator, que faria depois o ótimo A morte pede carona, e Diane Lane tem uma participação curta, mas marcante, demonstrando a boa atriz que viria a ser. Já os demais são bastante convincentes: Lowe e Swayze formam uma boa dupla de irmãos para Howell, Cruise já mostra o que viria a explorar mais em Nascido em 4 de julho, e Estevez adianta sua participação talentosa em filmes como O primeiro ano do resto de nossas vidas e Tocaia.
Mas o primeiro nome a rejuvenescer a sua filmografia, aqui, é mesmo Coppola. Pouco afeito a este universo, que viria a adentrar novamente com interesse em O selvagem da motocicleta, do mesmo ano (com Dillon, Lane e o acréscimo de Mickey Rourke), plasticamente tão interessante quanto este filme, mas com uma força dramática menos intensa, Coppola tenta refazer sua história com uma narrativa mais simples em vários pontos, sem as repetições e fugas de um longa-metragem mais largo como os que fez nos anos 70. Se isso prejudica o desenvolvimento de alguns personagens e situações, mostra um desprendimento maior em relação a lances narrativos que desviem a sensibilidade do espectador. Embora muitos prefiram a versão original, a versão estendida de Coppola, com um prólogo e um desfecho mais elaborados, além da trilha sonora com canções da época, tornando a narrativa menos melancólica, mostram realmente a melhor adaptação do livro de Hinton. Os personagens têm uma carga maior de personalidade, o que lhes concede mais vida, mantendo Vidas sem rumo como um cult movie sólido.

The outsiders, EUA, 1983 Diretor: Francis Ford Coppola Elenco: C. Thomas Howell, Ralph Macchio, Diane Lane, Emilio Estevez, Tom Cruise, Matt Dillon, Patrick Swayze, Rob Lowe, Sofia Coppola, Tom Waits, Michelle Meyrink, Leif Garrett, Darren Dalton Roteiro: Kathleen Rowell Fotografia: Stephen H. Burum Trilha Sonora: Carmine Coppola  Produção: Francis Ford Coppola, Fred Roos, Gray Fredrickson Duração: 91 min. (versão original); 109 min. (versão estendida) Estúdio: Pony Boy / Zoetrope Studios

Cotação 4 estrelas

Bling Ring – A gangue de Hollywood (2013)

Por André Dick

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Depois de sua contestada atuação em O poderoso chefão III, Sofia Coppola encontrou sua voz como cineasta e já apresenta uma trajetória interessante. Desde As virgens suicidas, seu filme ainda mais estranho e inovador, passando por Encontros e desencontros, com a intimidade do casal feito por Bill Murray e Scarlett Johansson, até o reinado pop de Maria Antonieta, o foco de Sofia são as pessoas deslocadas, mesmo que aparentem ter algum destaque. Se em seu filme Um lugar qualquer, apesar de bons momentos, sobretudo do elenco, sempre um acerto de seus filmes, esta ideia já dava alguns sinais de desgaste, em Bling Ring – A gangue de Hollywood temos a representação mais acabada de figuras que idealizam um mundo à parte para tentarem se destacar nele. Sofia se baseia na história verídica, relatada em artigo escrito por Nacy Jo Sales para a Vanity Fair, de um grupo de jovens que, entre 2008 e 2009, entrou em casas de celebridades em Beverly Hills quando descobriu que elas não tinham nenhuma segurança, nem câmeras de vídeo. Diante do universo moderno, chega a ser suspeito que isso aconteça, e Sofia, até então acostumada a manter um certo distanciamento do objeto enfocado, aqui tenta quase dar um aspecto semidocumental a seu filme, mas com a música pop de seus outros projetos (até o título salta aos olhos como uma logomarca).
Nele, a turma é formada inicialmente por Rebecca (Katie Chang) e Marc (Israel Broussard) , que acabou de chegar ao novo colégio, lembrando apenas aparentemente Daniel LaRusso em primeira visita à Califórnia, depois de ser expulso de outro. Quando passam a se encontrar e viajar para a praia, logo sentem que são bastante parecidos, e Rebecca tem a ideia de entrar em casas de celebridades, o que apenas a princípio é negado por Marc. Eles logo convidam Nicki (Emma Watson), Sam (Taissa Farmiga) e Chloe (Claire Julien) para participar dos roubos, principalmente de joias, bolsas, relógios e sapatos.

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Nicki e Sam moram juntas sob os cuidados de Laurie (Leslie Mann), que emprega os ensinamentos do livro O segredo, a partir de uma estrela de Hollywood, e o que elas fazem é justamente aquilo que Sofia pretende retratar: entrar num universo em que há um determinado vazio cultural. Não apenas porque, segundo a diretora, elas não têm muito a dizer, mas porque o mundo hoje, principalmente este enfocado, seria vazio. Bling Ring, nesse sentido, não toma uma premissa muito diferente de Encontros e desencontros, com a personagem central deixada no hotel pelo marido, fotógrafo de modelos, e perambula por uma Tóquio completamente estranha. Mas aquela personagem buscava um certo conforto intelectual, e o encontrava no ator feito por Bill Murray. Encontros e desencontros apresenta mais diálogos no início e no final, mas Bling Ring se ressente de algo: no meio dele, entre os 30 minutos iniciais e finais, não existe uma vontade de Sofia em mostrar além daquilo que foi noticiado pela imprensa.
Então, vemos esses jovens fascinados por personalidades como Paris Hilton (que se ergue aqui como uma espécie de ícone da juventude transviada de Los Angeles), Lindsay Lohan, Megan Fox e Orlando Bloom, seguindo-os em sites ou redes sociais, como se dependessem deles para sua existência. Não há muita história além daquela que possivelmente é lido numa síntese, e o que poderia haver é o que existe em As virgens suicidas, Maria Antonieta e Encontros e desencontros: personagens em conflito, mesmo com pouco a falar. Também porque naqueles filmes temos Kirsten Dunst e uma jovem Scarlett Johansson (transformando suas limitações em atrativo), o que faltaria em Bling Ring é justamente um destaque. Emma Watson, que esteve excelente em As vantagens de ser invisível, tenta fazer bastante com o material que lhe é dado, e o filme cresceria com ela, mas Sofia não parece interessada em dar ênfase nos personagens, confundindo-os com o próprio vazio que retrata.
Para ela, esses jovens queriam copiar socialites, ir a festas, usar drogas e finalmente praticar os roubos. Mas Sofia esquece das maravilhas que proporcionou o vazio em seus filmes interiores: falta desta vez o elemento de ligação, o que, em Bling Ring, não consegue ser captado por meio de um estilo semidocumental, por flashes de uma vida conturbada (todos os jovens passam o dia tirando fotos ou trocando informações sobre grifes caras das celebridades) ou comentários em tom de alívio cômico, sobre um encontro com alguém que pode conduzir a uma carreira (e Leslie Mann entra nesta situação), quando há um deslizamento para a sátira, nunca trabalhada tão bem nesse campo quanto por Amy Heckerling em As patricinhas de Beverly Hills. A questão é que, mesmo os personagens sendo desinteressantes, ainda assim seriam mais convidativos do que uma sequência de cenas com armários sendo abertos, sapatos sendo apreciados, gravações em vídeo e imagens de programas dedicados às celebridades. E Sofia saberia explorá-los, mas Bling Ring se ressente de um acabamento.

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Falta uma espécie de encontro entre os personagens, como há no início, e mesmo no final. Israel Broussard  é um ator que dá indícios de ser talentoso, com seu conflito pessoal diante dos roubos, embora passageiro, e mesmo a contrapartida, Katie Chang, cria um certo envolvimento, mas logo se ausenta. Sofia continua com talento para filmar, construindo – com a ajuda do fotógrafo Harris Savides, a quem Bling Ring é dedicado em memória e responsável por trabalhos irretocáveis, como os de Zodíaco e Elefante, nos quais contou com Christopher Blauvelt, que complementou o trabalho aqui – uma Los Angeles excessivamente iluminada de dia, com suas palmeiras características, e bastante escura e até sem vida à noite, a não ser nos clubes noturnos frequentados pela turma (as únicas luzes são dos flashes ou da pista de dança). Isso cria um contraste interessante às suas imagens, mostrando uma certa ingenuidade do universo familiar em paralelo ao comportamento diante dele. Há, por exemplo (spoiler), uma belíssima sequência em que é mostrado um assalto a distância, e o assistimos em toda sua amplitude, como se estivéssemos numa janela perto da casa. O humor, de qualquer modo, não casa com as demais cenas, mesmo porque seria difícil acompanhar esses personagens com certo prazer, pois eles não são exatamente pessoas, mas gravações em vídeo.
A atmosfera também conduz Sofia a uma espécie de discurso reiterativo, querendo evidenciar as críticas que faz, e mesmo fazendo, em determinado momento, uma referência ao clipe que dirigiu dos White Stripes. O discurso contestado em Bling Ring, com a imagem de Paris Hilton nas almofadas, parece o mesmo usado em Spring breakers para Britney Spears: elas são ícones de parte dos jovens que a cultura produz. Seria revelador caso isso não fosse exatamente um tema explorado pela mídia e a moda, que Sofia não exatamente critica (não por acaso, Hilton teria se emocionado depois da exibição do filme em Cannes). Por outro lado, não seria exatamente por criticar um certo vazio de comportamento que Bling Ring conseguiria deixar de ter a mesma característica, embora Sofia Coppola continue a ser uma cineasta que reserva expectativas, com seu olhar contemporâneo, mesmo em outras épocas. Embora não especialmente neste filme, ela já provou ter grande talento.

Bling Ring, EUA, 2013 Diretora: Sofia Coppola  Elenco: Katie Chang, Israel Broussard, Emma Watson, Taissa Farmiga, Claire Julien, Leslie Mann Produção: Roman Coppola, Sofia Coppola, Youree Henley Roteiro: Sofia Coppola Fotografia: Harris Savides, Christopher Blauvelt Duração: 90 min. Distribuidora: Diamond Films Estúdio: American Zoetrope / NALA Films / Pathé Distribution / StudioCanal /

2  estrelas

Vencedores do Festival de Cannes 2013

Por André Dick

La vie d’Adele.Filme

A 66ª edição do Festival de Cannes terminou hoje, e a Palma de Ouro de melhor filme foi para La vie d’Adèle, do diretor franco-tunisiano Abdellatif Kechiche, que conta a história do amor entre Adèle (Adele Exarchopoulos), uma adolescente, e Emma (Léa Seydoux, de Meia-noite em Paris), uma estudante de arte. O prêmio do grande júri ficou com Inside Llewyn Davis, de Joel e Ethan Coen, que conta a história de um cantor folk dos anos 60, com elenco de destaque: Carey Mulligan (que também aparece no filme que abriu o Festival, O grande Gatsby), John Goodman, Garrett Hedlund (Na estrada), Oscar Isaac (Drive) e Justin Timberlake.
Amat Escalante foi escolhido como melhor diretor, por Heli, enquanto Bruce Dern (pai de Laura Dern) saiu do Festival com o prêmio de melhor ator, pela atuação em Nebraska, de Alexander Payne (de Os descendentes), e Bérénice Bejo (O artista) com o de melhor atriz, por Le passé. O melhor roteiro ficou nas mãos de Jia Zhangke, por A touch of sin, e o Prêmio do Júri foi para Like father, like son, de Hirokazu Koreeda. A Palma de Ouro para melhor curta-metragem é de Safe, de Moon Byoung-Gon, e a Câmara de Ouro (para diretores estreantes), de Ilo Ilo, de Anthony Chen.

The immigrant.Filme

De maneira geral, pelas críticas, La vie d’Adele foi a grande surpresa do festival, embora o filme Le passé tenha sido também bastante elogiado, tendo atrás das câmeras o ótimo Asghar Farhadi, de A separação. Não tão elogiado (mas considerado uma obra-prima pela respeitável Slant, que o comparou, pela reconstituição e fotografia, a Era uma vez na América, de Sergio Leone), The immigrant é o novo filme de James Gray, com Joaquin Phoenix (que atuou em Amantes, outro filme de Gray), Marion Cotillard e Jeremy Renner. O novo filme de  Nicolas Winding Refn, Only God forgives, também com Ryan Gosling, não teve a mesma repercussão de Drive, que levou o prêmio de melhor diretor. Mas, ao que tudo indica, não deve ser menosprezado. Filmes violentos, como ele parece ser na avaliação da crítica, costumam não ser tão bem recebidos em Cannes, embora Drive o fosse.
O que se leva do festival é que o premiado nos últimos anos tem feito ótima trajetória depois e indicado ao Oscar de melhor filme, como A árvore da vida e Amor. O prêmio para os Coen era esperado desde a exibição, mas parece não conferir a ele certeza de chegada com fôlego no final do ano passado: Barton Fink (premiado com a Palma de Ouro principal) e O homem que não estava lá (premiado com melhor direção) concorreram depois, no Oscar, em categorias técnicas e de ator coadjuvante. No entanto, os Coen, recentemente, com Onde os fracos não têm vez, Um homem sério e Bravura indômita estão entre os diretores preferidos da Academia.

Nebraska.Filme

Nebraska, de Alexander Payne, é em preto e branco e conta a história de um senhor (Bruce Dern) com demência, que realiza uma viagem. Em ritmo de road movie, com elementos que Payne já trabalhou em seus ótimos As confissões de Schmidt e Sideways, Nebraska talvez traga o que Os descendentes deveria ter lhe trazido em 2011: o Oscar de melhor filme. Bruce Dern também comoveu a plateia de Cannes, o que lhe confere, desde já, destaque. Os filmes La Venus à la fourrure, de Roman Polanski, com sua mulher Emmanuelle Seigner, e Only lovers left alive, de Jim Jarmush, com Tom Hiddleston,Tilda Swinton e John Hurt, aproveitando a mitologia dos vampiros, tiveram uma boa recepção no Festival, e são de diretores que normalmente trazem uma visão diferente. Behind te Candelabra, com Matt Damon, Michael Douglas, Rob Lowe e Dan Aykroyd, em mais um último filme de Steven Soderbergh (que há pouco também lançou Terapia de risco), não chamou muita atenção, mas vem recebendo críticas positivas.
Entre os filmes exibidos na mostra “Um outro olhar”, parece que Sofia Coppola não repetiu o êxito de outros, com seu Bling Ring – A gangue de Hollywood, mas sempre é interessante aguardar pelos filmes de quem realizou Encontros e desencontros e Maria Antonieta. Não se deve esquecer que Cosmópolis, de David Cronenberg, e Moonrise Kingdom, de Wes Anderson, foram praticamente ignorados no Festival de 2012.

Vencedor.Palma de Ouro no Festival de Cannes