O preço da verdade (2019)

Por André Dick

Um diretor que investiu em filmes com caráter de denúncia é Steven Soderbergh. Embora tenha peças contra a indústria farmacêutica (Distúrbio, Terapia de risco) ou manipulação de contratos no esporte (High flying bird), talvez seu principal filme, nesse sentido, tenha sido aquele que foi lançado no mesmo ano de outro exemplar com essa característica, Traffic: o dramático e, ao mesmo tempo, bem-humorado Erin Brokovich, indicado ao Oscar de melhor filme em 2000, e ganhador do prêmio de melhor atriz (para Julia Roberts).
Ela desempenha com impressionante veracidade Erin Brokovich, uma mulher solteira, com filhos, que tenta descobrir como uma empresa está despejando dejetos tóxicos numa comunidade do interior dos Estados Unidos. Iniciando como secretária, torna-se uma assessora jurídica, tendo sempre desentendimentos engraçados com seu chefe (o ótimo Albert Finney).

Parece que o filme de Soderbergh, em suas aproximações e leves diferenças, é a premissa inspiradora de O preço da verdade, baseado também numa história verdadeira relatada no livro “The Lawyer Who Became DuPont’s Worst Nightmare”, de Nathaniel Rich. Desta vez, acompanhamos um advogado, Robert Bilott (Mark Ruffalo), funcionário daTaft Stettinius & Hollister, em Cincinnati, Ohio, que é procurado por um fazendeiro, Wilbur Tennant (Bill Camp), que mora na cidade de sua tia, Parkersburg, Virgínia Ocidental.
A cidadezinha está às voltas justamente com m problema na água: parece que uma empresa conhecida, DuPont, está derramando substâncias tóxicas nelas, afetando não apenas os moradores, como também os animais da fazenda de Tennant. Quando Robert vai até lá, descobre que quase duzentas vacas morreram devido a complicações de saúde, sem uma explicação evidente. A questão imposta é que o advogado trabalha justamente para empresas que infringem as leis ambientais – o que coloca sua guinada como uma matéria de filme de Hollywood.

O diretor Todd Haynes é muito conhecido por seu apuro visual. Suas obras têm um detalhado rebuscamento, a exemplo de Longe do paraíso, Carol e o recente e belíssimo Sem fôlego, com sua fotografia em preto e branco. Usando novamente o trabalho do diretor de fotografia Edward Lachman, seu colaborador de longa data, Haynes filma esse advogado num universo soturno e praticamente sem vida. Enquanto Erin Brokovich tinha uma temática tão pesada quanto em alguns momentos, era mais solar, O preço da verdade faz a atmosfera se abater sobre o espectador. Em Erin Brokovich, Soderbergh empregava seu estilo documental, o que ocorre mesmo em sua franquia Onze homens e um segredo, mas dava especial atenção à relação entre os personagens. Erin se envolve com um hippie, que passa a cuidar de seus filhos. A claridade dos filmes de Soderbergh parece real, destacando-se nesse um tom dos anos 70 (cores pastéis, horizontes e planícies típicas de filmes dessa década), enquanto o de Haynes, apesar de soturno e parecendo mais próximo da realidade, adquire um formato um pouco mais irrealista. O roteiro de Mario Correa e Matthew Michael Carnahan se desvencilha de muitos diálogos e aprofunda no trabalho dos personagens em sua caracterização visual, a maneira como se comportam diante de um desafio.

O personagem representado por Mark Ruffalo tem um casamento estável com Sarah (Anne Hathaway) e trabalha numa firma de advocacia conhecida, tendo à frente Tom Terp (Tim Robbins). Quando ele se desentende com o advogado advogado da DuPont Phil Donnelly (Victor Garber), um dos homens que têm conhecimento do que faz a indústria na cidade, tudo passa a desencadear uma investigação pessoal em meio a milhares de arquivos. Há um ponto de vista sem dúvida mais romantizado do que o que vemos em Erin Brokovich: o personagem de Ruffalo é visualizado mais como um herói que combate o sistema, ao contrário da personagem de Roberts, mais humana. Isso, de qualquer modo, não diminui o interesse em se saber para onde se mexem as peças de O preço da verdade, um filme consciente dos temas que trata – embora não os leve até seu limite polêmico. Além de Ruffalo atuar muito bem, Hathaway, Garber e Robbins, além de Bill Pullman mais ao final, como um advogado, são ótimos coadjuvantes, concedendo a seus papéis uma credibilidade insuspeita. São eles que tornam O preço da verdade realmente sólido.

Dark waters, EUA, 2019 Diretor: Todd Haynes Elenco: Mark Ruffalo, Anne Hathaway, Tim Robbins, Bill Camp, Victor Garber, Mare Winningham, Bill Pullman Roteiro:  Mario Correa e Matthew Michael Carnahan Fotografia:  Edward Lachman Trilha Sonora: Marcelo Zarvos Produção: Mark Ruffalo, Christine Vachon, Pamela Koffler Duração: 126 min. Estúdio: Killer Films, Amblin Partners Distribuidora  Focus Features

Coringa (2019)

Por André Dick

Há uma década, Todd Phillips realizou uma das comédias mais interessantes do cinema deste século, Se beber, não case!, muitas vezes subestimada, que ganhou duas sequências, a terceira parte com menos qualidade, igual à outra empreitada de sua autoria, Um parto de viagem. Em 2016, ele lançou Cães de guerra, uma espécie de sátira à política da era George W. Bush, com dois amigos lucrando com a venda de armas para territórios em combate. Sem exatamente ser associado a temas sérios, Phillips tinha como projeto antigo fazer uma adaptação da origem do Coringa para o cinema. Ela se tornou real com a atuação de Joaquin Phoenix, um dos atores mais brilhantes de sua geração, que apenas nesta década atuou em obras notáveis como O mestre, Ela, Vício inerente e Você nunca esteve realmente aqui.

Com um roteiro apresentando elementos de dois filmes de Scorsese – O rei da comédia e Taxi Driver –, Coringa mostra Arthur Fleck (Phoenix), que trabalha como palhaço nas ruas de Gotham City, em 1981, e em casa cuida de sua mãe Penny (Frances Conroy). A cidade está passando por um momento conturbado, com muitos desempregados e lixo nas ruas, atraindo, inclusive, uma invasão de ratos. Arthur sofre de problemas neurológicos, um deles rir compulsivamente quando em estado de ansiedade. Ele tem uma boa relação com a mãe, com quem costuma assistir ao programa de Murray Franklin (Robert De Niro), um talk show, no entanto precisa tomar muitos medicamentos, para que suas crises não piorem. Também tem interesse por uma vizinha, Sophie Dumond (Zazie Beetz), que encontra certo dia no elevador, com a sua filha – numa cena capaz de transferir o espectador para algo de Drive. Todos os problemas de Fleck são acentuados pelo fato de não ser bem aceito em seu ambiente de trabalho, apesar do apoio de Gary (Leigh Gill) e da “amizade” de Randall (Glenn Fleshler), e os rumos da política na cidade, com a candidatura de Thomas Wayne (Brett Cullen).

Phillips costura os rumos da vida de Fleck, que, em meio a tudo, sonha em fazer um show de comédia stand-up , com uma visão sombria sobre o comportamento humano. Seu roteiro, apesar de tomar como referência as obras de Scorsese, como já fazia em Cães de guerra – com seus elementos visuais e narrativos de O lobo de Wall Street –, vai muito além e considerá-lo um simples apêndice dessas obras mostra um desentendimento da proposta de Phillips: não estamos diante de um taxista que detesta o cheiro das ruas nem de um stalker em busca da amizade de seu comediante favorito. Sem se basear exatamente no cânone de histórias em quadrinhos do Coringa, o diretor desenha uma figura da qual o espectador se aproxima aos poucos como de um personagem a ser estudado. É exposta a relação dos cenários nos quais Fleck perambula com seu comportamento, e a maneira como ele projeta a realidade se confronta com sua visão sobre construção familiar, a partir da figura emblemática da mãe, feita com sensibilidade por Conroy, e, fantasiosamente, de Murray, em bela atuação de De Niro. A maneira como ela espera dele um comportamento feliz e como ele visualiza o apresentador Murray Franklin como uma espécie de pai artístico é entrelaçada com outra subtrama definidora de que aqui está uma adaptação dos quadrinhos realmente psicológica, escolhida como melhor filme no Festival de Veneza.

Phoenix, com uma atuação extraordinária, vai modulando nuances e mudando seus trejeitos a cada vez que vai descobrindo mais sobre si mesmo (e se autodescobrir, em seu  caso, não é exatamente um mérito) e Phillips não o visualiza, embora pareça, como uma vítima da sociedade, e sim como o resultado de escolhas passadas feitas por outras pessoas, traduzidas no que ele tenta ser e não consegue, pois os limites entre o certo e o errado já se perderam em sua mente e não são simples ou firmados.
Com uma trilha sonora incessante de Hildur Guðnadóttir, retratando o descompasso do personagem central, e uma fotografia exímia de Lawrence Sher, com o qual Phillips habitualmente trabalha e que se inspira na de Emmanuel Lubezki de Birdman, em alguns momentos, Coringa revela um universo no qual a piada feita em cadernos borrados de pensamentos nunca consegue realmente se manifestar – apenas uma risada compulsiva. Fleck é uma espécie de travessia da tentativa de se adaptar e o resultado da inadaptação, e os passos dados por Phoenix na construção de seu personagem são marcantes porque se situam num espaço em que a clareza não se manifesta nunca. Isso porque não sabemos o que nele é humano e desumano, pois ambas as facetas algumas vezes parecem existir nele em diferentes etapas da narrativa e Gotham City e seus habitantes são a projeção de como ele se sente em relação às pessoas.

Por isso, a tentativa de se aproximar amorosamente da vizinha Sophie se mostra tão dolorosa e Phillips consegue extrair uma sensação de solidão inabalável do apartamento em que Fleck vive com sua mãe, com uma densidade singular. São raríssimas as obras capazes de lidar com temas delicados de maneira tão ampla e, principalmente, acompanhar a progressão de um indivíduo em suas complicações antissociais. Se este é visto como uma saída para a sociedade em ruínas? Só o espectador mais desavisado entenderia assim. Coringa provoca o espectador a pensar sobre o que constitui um indivíduo, no caso de Fleck os problemas neurológicos e o que isso é usado em nome de um combate ao sistema – Phillips não está interessado nisso em nenhum momento, como se predispõe a dizer, uma vez que ele enxerga o sistema como parte da própria desculpa para um ser humano com elementos psicóticos se manifestar. Kubrick já usou esses temas em Laranja mecânica, mas Phillips faz em seu filme mais do que uma releitura: ele faz uma leitura da sociedade contemporânea por meio da entrada de um homem na insanidade completa. Desde o início, o filme não está tentando ser bem-humorado; ele pesa. Não serve para indicar exemplos, a não ser de como o cinema pode fazer um registro de impacto quando conta uma história com maestria.

Joker, EUA, 2019 Diretor: Todd Phillips Elenco: Joaquin Phoenix, Robert De Niro, Zazie Beetz, Frances Conroy, Brett Cullen, Shea Whigham, Bill Camp, Glenn Fleshler, Leigh Gill, Douglas Hodge Roteiro: Todd Phillips e Scott Silver Fotografia: Lawrence Sher Trilha Sonora: Hildur Guðnadótti Produção: Todd Phillips, Bradley Cooper, Emma Tillinger Koskoff Duração: 121 min. Estúdio: DC Films, Village Roadshow Pictures, Bron Creative, Joint Effort Distribuidora: Warner Bros. Pictures

A grande jogada (2017)

Por André Dick

Esta estreia na direção de Aaron Sorkin, mais conhecido por seu trabalho como roteirista, reúne suas qualidades já percebidas em Questão de honra, O homem que mudou o jogo e A rede social. Em comum, nesses filmes há um trabalho de encadeamento de diálogos muito apurado, nunca deixando de definir o perfil dos personagens. Aqui ele conta a história, baseada em fatos reais, de Molly Bloom (Jessica Chastain), que esteve à frente de muitos jogos de pôquer em Los Angeles e Nova York, até cair na rede do FBI e precisar ser defendida pelo conhecido advogado Charlie Jaffey (Idris Elba). O roteiro é feito a partir da própria autobiografia de Molly, com um título bastante sugestivo: Molly’s Game: From Hollywood’s elite to Wall Street’s billionaire boys club, my high-stakes adventure in the world of underground poker.

Como o último trabalho de Sorkin havia sido o falho e irregular Steve Jobs, esta estreia em A grande jogada vinha com uma série de dúvidas. No entanto, a maneira como ele apresenta Molly, em que ela faz amizade primeiro com um ator, ou melhor, X (Michael Cera), uma mistura, por informações que acompanham o filme, de Ben Affleck, Tobey Maguire e Leonardo DiCaprio, e depois com Douglas Downey (Chris O’Dowd), que a apresenta a integrantes da máfia russa, é notável pela sequência magnetizante de diálogos e narração em off de Molly, contando sua história. Não há intervalos em A grande jogada, o que poderia soar cansativo, mas nunca ingressa nesse caminho, e sem gostar de jogos muitas vezes me perguntei o que este filme tem de diferente. Na base, ele é uma cinebiografia com elementos até previsíveis, mas a maneira com que foi filmada e a atuação de Jessica Chastain, recuperando-se do overacting de Armas na mesa, no qual tentava exagerar uma frieza, são exemplos de como transformar um filme que poderia ser apenas comum em algo atrativo.

A relação entre Molly e seu pai Larry (Kevin Costner, discreto e eficiente), é o pano de fundo da narrativa, porém é o advogado feito por Elba que traz alguns momentos de intensa dramaticidade, mesmo sendo, no fim das contas, subaproveitado. Não conhecemos muito bem a personagem central como uma personalidade, mesmo com os flashbacks de quando era mais jovem e esportista treinada pelo pai, e sim como a figura inserida numa situação complexa e que determinou sua vida em certo ponto.
Como em Questão de honra, Sorkin apresenta uma atração pelo universo dos advogados e do tribunal, embora as cenas passadas nele não se estendam, sendo mais trabalhados os bastidores, com as tentativas de Charlie em lidar com os advogados que tentam entrar em acordo com sua cliente. E como no ótimo e às vezes esquecido O homem que mudou o jogo há um verdadeiro jogo entre o que pode ser ganho caso se invista em determinadas jogadas – quando no filme de Miller tudo se fazia em torno de compra e venda de jogadores para a construção de uma equipe competitiva. A atração pelo jogo, contudo, era intrínseca, embora no filme com Brad Pitt mais voltada a uma questão histórica, para os personagens e para a equipe.
No entanto, há a presença de mais humor, sobretudo pela figura de Douglas Downey, graças à atuação calibrada do sempre subestimado O’Dowd (o policial de Missão madrinha de casamento) e, quando a violência de uma determinada situação surge para espantar a calmaria, parece que Sorkin recorre a truques bem colocados de suspense.

Apesar de aproximações feitas com A rede social, esta personagem é muito diferente do Zuckerberg daquele filme. Há um senso de realismo muito mais presente, assim como um sentimento de desamparo e solidão da personagem num universo em que ela se insere com gosto pela luxúria e sobrevivência. Sorkin visualiza esse universo longe da simetria informatizada e dividida em atos definidos de Boyle para seu roteiro de Steve Jobs (o qual já não era necessariamente interessante) e recorre a vários cenários para multiplicar essa visão de submundo repleto de ricos, em que transitam interesses pelo dinheiro e pela sexualidade dosados por uso de drogas, sem fixar essa visão.
Chastain transforma Molly numa personagem mais interessante do que transparece ao início, em que parecemos estar diante mais de uma mulher apenas ousada em se envolver com o universo do pôquer – quando há camadas mais psicológicas. Ela encarna uma mulher a princípio determinada, mas depois bastante volúvel, difícil de ser definida. É difícil haver um filme com tantos flashbacks que parece acontecer no mesmo tempo, de maneira linear. Em nenhum momento, Sorkin confunde o espectador com artifícios que fujam ao roteiro ou tenta ser hermético por meio da montagem. Com temas que perfazem um grande panorama, a partir basicamente de apostas, literalmente, A grande jogada se faz marcante.

Molly’s game, EUA, 2017 Diretor: Aaron Sorkin Elenco: Jessica Chastain, Idris Elba, Kevin Costner, Michael Cera, Jeremy Strong, Chris O’Dowd, Bill Camp Roteiro: Aaron Sorkin Fotografia: Charlotte Bruus Christensen Trilha Sonora: Daniel Pemberton Produção: Mark Gordon, Amy Pascal, Matt Jackson Duração: 140 min. Estúdio: The Mark Gordon Company, Pascal Pictures, Ciwen Pictures, Huayi Brothers Pictures Distribuidora: STXfilms

O sacrifício do cervo sagrado (2017)

Por André Dick

O diretor grego Yorgos Lanthimos, depois dos exitosos Dente canino e Alpes, ingressou na indústria de cinema norte-americana com o estranho O lagosta, uma espécie de crítica corrosiva de uma vida em comunidade num futuro não longínquo, na qual o indivíduo escolhia seu modo de vida e sua amada baseado em conceitos deslocados do senso comum. Agora, ele regressa com um elenco novamente de atores americanos em O sacrifício do cervo sagrado. Na história, o cirurgião Steven Murphy (Colin Farrell) tem um casamento tranquilo com Anna (Nicole Kidman) e um casal de filhos, Kim (Raffey Cassidy) e Bob (Sunny Suljic). Alcóolatra, Steven fica amigo de Martin (Barry Keoghan), filho de um paciente dele que morreu na sala de cirurgia. Martin o visita frequentemente e quer que ele tenha um caso com sua mãe (Alicia Silverstone). No início, essa relação não fica muito clara, o que torna ainda mais perturbadora a narrativa. O espectador não possui informações do motivo pelo qual Murphy perambula com Martin por ruas e cafés, sabendo-se imediatamente que ele não é parte da família.

O roteiro de Lanthimos e Efthymis Filippou aposta no mistério dessa figura que age como intrusa numa família a princípio bem composta. Mas as coisas não são bem assim, e tudo na filmografia de Lanthimos prova isso. Se o elenco é excelente (principalmente Farrell, Kidman e Keoghan, este um dos integrantes da equipe de resgate em Dunkirk), as soluções visuais da fotografia de Thimios Bakatakis são ainda melhores. O hospital onde Steven trabalha parece uma extensão do comportamento desses personagens, tanto no que se refere ao afastamento quanto à ausência de cores abundantes. O uso das lâmpadas nos tetos dialoga com o estilo de Stanley Kubrick, mesmo na maneira de filmá-las: a impressão é que o espectador se encontra num túnel em que desconhece a saída, como os personagens apresentados. Nesse sentido, explica-se por que boa parte dos diálogos definidores se dão nos corredores do hospital onde Steven trabalha. Tudo, de qualquer modo, esconde um enigma: como pode acontecer o que acontece com os filhos desse casal? O núcleo da história parece se basear no seguinte conceito: enquanto o filho tem uma certa inclinação científica, talvez como o pai, a menina tem uma predisposição para a arte e para a música. O que acontece a eles se estende aos pais. Lanthimos mistura sentimentos de culpa e aflição com notável habilidade, nunca deixando os diálogos frios, vitais para que haja uma estranheza adicional no comportamento já estranho desses personagens, interromperem a atuação notável do elenco.

Mais do que um diálogo com Dente canino e O lagosta, O sacrifício se corresponde com Alpes, filme excelente de Lanthimos de 2011. Nele, a enfermeira “Monte Rosa” (Aggeliki Papoulia) se encontra num universo pré-determinado pelo cansaço da linguagem e das situações. Mais do que surrealista, o roteiro nunca permite nenhuma explicação clara ao espectador, e a composição de imagens pela fotografia de Christos Voudouris (Antes da meia-noite) realmente é atrativa, com uma certa simetria já existente em Dente canino, com o acréscimo de uma maior variação, também em razão dos temas oferecidos por Lanthimos. Os diálogos da nova obra do cineasta grego se assemelham muito em termos de ritmo dessa obra. Quando o médico, por exemplo, se deita com a esposa logo no início do filme, ela se comporta como se estivesse anestesiada: o médico não age por paixão e sim por meio de certa frieza. Não apenas a interpretação de Nicole Kidman é excepcional, como Lanthimos desenha uma ligação imediata da rotina do personagem central com sua vida em casa, igualmente deslocada de qualquer normalidade. Depois, quando ela precisa conversar com Matthew (Bill Camp), um colega do marido, dentro de um carro, sua reação se aproxima justamente desta cena.

O melhor desse filme em relação aos anteriores de Lanthimos é sua compreensão de atmosfera, apostando tudo num sentimento de obra de terror, sem cair num humor corrosivo que por vezes desconstrói em demasia a narrativa. Em Dente canino e O lagosta, o excesso de estranheza por vezes distanciava o espectador, como se inserido num surrealismo desmesurado. Quem conhece o trabalho do diretor sabe que ele privilegia a construção das imagens, sempre impactantes, em detrimento de uma explicação narrativa (que na maioria das vezes não importa para seu interesse). Aqui ele se limita a algumas bordas, e apara as arestas de maneira mais reflexiva e contundente, construindo uma mistura de gêneros efetiva e surpreendente. Levemente inspirado na peça de origem grega Iphigenia em Aulis, de Eurípedes, tratando do sacrifício de um determinado familiar para que permaneça uma “harmonia” dos integrantes que restam, O sacrifício do cervo sagrado se constitui num dos filmes mais originais dos últimos anos, em que a realidade do personagem central vai se mesclando à realidade, ou seja, o universo hospitalar vai tomando também o espaço de seu comportamento e de sua casa. O porão, neste caso (spoiler), se torna o espaço para que o cirurgião possa expor seu verdadeiro instinto, tanto no que se refere à sobrevivência dos filhos quanto à sua ideia de unidade familiar. Lanthimos faz isso de maneira tanto convincente quanto voltado a um olhar sobre a própria história dos gêneros que mistura de maneira tão bem acabada.

The killing of a sacred deer, EUA/IRL/Reino Unido, 2017 Diretor: Yorgos Lanthimos Elenco: Colin Farrell, Nicole Kidman, Barry Keoghan, Raffey Cassidy, Sunny Suljic, Alicia Silverstone, Bill Camp Roteiro: Yorgos Lanthimos e Efthymis Filippou Fotografia: Thimios Bakatakis Produção: Ed Guiney, Yorgos Lanthimos Duração: 121 min. Estúdio: Film4, New Sparta Films, HanWay Films, Bord Scannán na, hÉireann/The Irish Film Board, Element Pictures, Limp Distribuidora: A24, Curzon Artificial Eye

Sob o mesmo céu (2015)

Por André Dick

Sob o mesmo céu 27

Quando o diretor atinge o estágio de possuir um público particular, talvez seja o momento em que comecem os problemas. No caso de Cameron Crowe, diretor de filmes como Vida de solteiro, Quase famosos, Jerry Maguire e Tudo acontece em Elizabethtown, banhados pela cultura pop e, principalmente, por trilhas sonoras elaboradas, o problema é sair um pouco desta rota. Se ele conseguiu adotar momentos diferentes em obras como Vanilla Sky – principalmente por sua visão perturbadora do amor dividido entre dois caminhos – e Compramos um zoológico – com sua visão familiar mesclada à preservação de um habitat para animais –, pode-se dizer que Sob o mesmo céu inaugura uma nova etapa na carreira de Crowe. Não que ele não tenha algumas das características próprias do diretor: lá estão a trilha sonora com vários hits, o romantismo e a busca de um homem pelo amor.
Temos a história de Brian Gilcrest (Bradley Cooper), que, depois de uma passagem pelo Oriente Médio, volta ao Havaí, na época do Natal, onde se encontra imediatamente com sua antiga namorada, Tracy Woodside (Rachel McAdams), a quem abandonou, agora mãe de dois filhos e casada com rei Woody (John Krasinski). Ele passa a ser acompanhado por uma militar, piloto de caças, chamada Allison Ng (Emma Stone), que se encanta em lhe dar “alohas” quentes, como ela mesmo se refere. O objetivo de Brian é ter de tratar com os nativos do local, principalmente com o líder Bumpy (Dennis “Bumpy” Kanahele), a fim de receber permissão para colocar sobre o céu do Havaí um satélite, planejado pelo milionário Carson Welch (Bill Murray), o homem mais rico da América. No meio de tudo isso, ainda aparecem o General Dixon (Alec Baldwin) e o Coronel ‘Fingers’ Lacy (Danny McBride).

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Sob o mesmo céu tem recebido críticas tenebrosas desde seu lançamento – e isso é realmente uma grande vergonha. A sensação é de que Crowe apresentaria todos os problemas do cinema contemporâneo em sua obra. Não apenas o filme traz atuações excepcionais de todo o elenco (com destaque para as de Emma Stone e Bradley Cooper), como possui alguns diálogos plenamente espirituosos, também para tratar das influências do Havaí em sua narrativa. O filme tem uma divisão clara entre o mundo projetado e moderno, sobretudo pela presença de satélites e referências a viagens espaciais, por meio da figura do filho de Tracy, Mitchell (Jaeden Lieberher), e o mundo natural, com a crença em lendas do espaço havaiano – aqui, uma breve influência de A última onda, de Peter Weir –, além da cultura da dança, representada pela filha, também de Tracy, Grace (Danielle Rose Russell), e da música, cantada em rodas.
No início desta década, Alexander Payne havia trazido às telas uma visão muito interessante sobre uma família havaiana no excelente Os descendentes. Por sua vez, Sob o mesmo céu traz um clima de que os personagens se alimentam, para suas vidas, desse ambiente – esclarecido principalmente quando Brian e Allison se encontram com Bumpy. Nisso, há uma abordagem sobre as pessoas nascidas no Havaí ou não – Allison se diz ¼ havaiana, Brian tenta se aproveitar que nasceu no arquipélago para convencer Bumpy a respeito do satélite – , e se sentir ou não norte-americano ou parte do mundo contemporâneo diante das lendas locais. Para Brian, tudo se resume a trocar favores; para Allison, não.

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Embora seja uma referência talvez distante, há semelhanças entre detalhes de Sob o mesmo céu com Síndromes e um século, sobretudo na maneira como Crowe preferiu captar seu filme, com cenários bastante simples, por meio das lentes de Eric Gautier (Na estrada), mostrando um senso autoral do ambiente em que a história se insere bastante eficiente, revelando os parques e lugares de dança havaiana. Isso sem comentar em seu tratamento surrealista de determinadas ocasiões, quando Carson encontra Brian e Allison numa festa na qual a música de fundo é Tears for Fears, que diz que todos querem governar o mundo, e as atuações de Murray e Stone se destacam pela despretensão e um certo improviso, também presente em outras cenas. As críticas dirigidas a Sob o mesmo céu parecem endereçadas a essas características, acompanhadas de  uma certa quebra ao cinema linear a que estamos acostumados.
Ao contrário dos filmes anteriores de Crowe, principalmente Compramos um zoológico, não há uma reiteração do que a história se propõe; é mais fácil perceber, em Sob o mesmo céu, uma opção pela sugestão e por comportamentos estranhos e, algumas vezes, inexplicáveis. Ainda assim, esse caminho não se sente deslocado, mas parte de uma narrativa que se permite a discutir questões românticas e familiares sob o ponto de vista de condução do mundo, ou seja, procurando descobrir para onde ele segue. Perceba-se, por exemplo, a relação de Woody com sua família e com a chegada de Brian ao lar onde encontra sua ex-namorada, o que rende algumas das melhores sequências da história, principalmente diálogos nos quais as palavras faltam e o espectador tem acesso ao que eles queriam dizer por legendas (um diálogo criativo com Noivo neurótico, noiva nervosa).

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Um dos maiores equívocos é aproximar este Sob o mesmo céu de Elizabethtown, uma das obras mais falhas de Crowe, também pela ineficiência de Orlando Bloom e Kirsten Durnst, o que não ocorre aqui. Ainda: Sob o mesmo céu não se apoia numa simpatia exagerada de Crowe, em que os personagens ficam sorrindo de maneira forçada. Mesmo em suas obras mais acertadas, como Quase famosos e Jerry Maguire, fazia-se presente um sentimento em parte pouco natural. Isso não acontece em Sob o mesmo céu: todos os personagens soam, ao mesmo tempo que cotidianos, bastante humanos. Há realmente um grande sentimento na maneira como Crowe os revela, assim como suas ações no espaço do Havaí. O principal é, sem dúvida, Brian, com sua tentativa de não soar como alguém inconfiável; o segundo é Allison, em sua tentativa de conviver com as mudanças que podem ser trazidas ao arquipélago. Não parece haver dúvida, depois disso, que se trata do melhor casal escolhido pelo diretor desde aquele composto por Tom Cruise e Renee Zellweger em Jerry Maguire. Crowe, desta vez, se não adota mudanças no entrelaçamento amoroso entre os personagens, evita a todo instante colocar tudo seguido por uma obviedade romântica: a simplicidade está em todo canto, mas não o tratamento. Daí a aversão de fãs fiéis ao novo Crowe: ele simplesmente não utiliza a maior parte de seus maneirismos em Sob o mesmo céu. Ele visivelmente está procurando por algo novo, influenciado por certo cinema oriental e europeu, além de deixar indefinido o gênero. Veja-se, sob esse ponto de vista, sua cena final, um verdadeiro primor não apenas na trajetória de Crowe, como do cinema norte-americano, pouco afeito a algumas discrições emotivas. Se Crowe tivesse incluído “Hawaii Aloha”, dos Strokes, em sua extensa trilha sonora, a alegria estaria completa.

Aloha, EUA, 2015 Diretor: Cameron Crowe Elenco: Bradley Cooper, Emma Stone, Bill Murray, Rachel McAdams, Alec Baldwin, Danny McBride, John Krasinski, Bill Camp, Dennis Bumpy Kanahele, Jaeden Lieberher, Danielle Rose Russell, Ivana Milicevic Roteiro: Cameron Crowe Fotografia: Éric Gautier Trilha Sonora: Jon Thor Birgisson Produção: Cameron Crowe, Scott Rudin Duração: 105 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Columbia Pictures / LStar Capital / Regency Enterprises / Scott Rudin Productions / Sony Pictures Entertainment / Vinyl Films

Cotação 4 estrelas e meia