Cisne negro (2010)

Por André Dick

No final dos anos 90, Darren Aronofsky foi uma revelação do cinema independente com o experimental Pi, seguido por Réquiem para um sonho, um dos melhores momentos de Jared Leto. Depois do grande sucesso de Fonte da vida e O lutador (este indicado ao Oscar de melhor filme), Aronofsky faria sua obra talvez mais conhecida e bem-sucedida até agora em sua filmografia: Cisne negro.  Nathalie Portman interpreta Nina, uma bailarina que quer estrelar “O lago dos cisnes”, no entanto para isso precisa enfrentar alguns percalços: o professor, Thomas Leroy (Vincent Cassel), que não deseja escolhê-la, por considerar que ela não conseguirá se dividir entre os dois cisnes (o branco e o negro) exigidos para a encenação; a amiga que parece querer seu lugar, Lily (Mila Kunis); e ainda a sua mãe, Erica (a excelente Barbara Hershey), que não foi a bailarina que gostaria de ter sido e exige dela um comportamento exemplar no que se refere a ensaios exaustivos – mesmo que ela machuque os pés.
Num clima de conto de fadas de terror, relembrando momentos de Pi e Réquiem para um sonho,  o diretor mostra talento na condução das cenas, alternando cenas que parecem reais com outras surrealistas, mas sempre trabalhando com a psicologia das personagens, com o objetivo de revelar que o mundo da dança pode enlouquecer – e de fato enlouquece essa personagem.
O diretor da adaptação deseja extrair o que não vê em Nina: o cisne negro, e Aronofsky quer dar essa amplitude por meio de reflexos de espelhos, e na imaginaçsurão dela luzes são desligadas antes de se terminar o ensaio para prejudicar seu ensaio. Esses reflexos podem estar presentes em frente ao espelho de uma festa, ou no metrô, ou mesmo na passagem, por uma passarela, ao lado de alguém que parece uma réplica.

Ao  mesmo tempo, a fotografia de Matthew Libatique mostra uma Nova York tenebrosa, sempre acompanhando os passos de Nina, seja à sua frente, seja pelas costas, revelando a opressão do mundo em que ela se insere (difícil imaginar outro desconforto maior do que a escolha de Thomas de suas bailarinas. Nina não conhece sua sexualidade e, para Aronofsky, isso a impede de desenvolver seu lado mais obscuro. Trata-se de uma narrativa que busca a transição da adolescência para a vida adulta, o que, para alguns, significa a morte – e o sexo, o prazer, está sempre associado a algo mórbido ou que pode afastar da visão idílica que se tenta ter das coisas. Não se trata exatamente de uma abordagem sutil, e Aronofsky não a tem como objetivo. Sua meta é, por meio da figura da bailarina, suscitar uma coleção de metáforas.
E como a mulher, aqui, é vista de forma infantil: Nina substitui a bailarina Beth (Winona Ryder), mas é como se uma roubasse o doce da outra. A cena da festa, em que Thomas apresenta Nina a todos os convidados para o novo espetáculo da companhia, mostra esta tentativa de exercer um poder que, na verdade, inexiste. Não há densidade para elas, e a dança é apenas uma maneira de realizar as fantasias da caixinha de música encostada na cama. Na saída do evento, Nina precisa enfrentar Beth (ao lado de uma estátua, que Aronofsky deseja transformar em movimento).

Ela também precisa enfrentar a mãe, que lhe traz um bolo e, repreendida pelo fato de que o doce pode engordar, fica perturbada – certamente a figura mais caricata, contudo pode ser também proposital –, e mais adiante precisa sair à noite para uma boate. Quebrar regras, aqui, é um clichê, e por isso cada cena soa como uma ópera desencontrada de realidade.
Mila Kunis (em momento raro, indicada a melhor atriz coadjuvante) representa esta passagem para um universo desconhecido – ela poderia representar melhor o cisne negro, talvez. Ela também é apreciada por Thomas por sua dança espontânea e não calculada, segundo ele, como a de Nina (um de seus primeiros conselhos é que Nina descubra o próprio corpo, mas o faz com a mesma falta de sutileza de alguém que oprime). Esta, na contramão de sua própria personalidade, precisa, a fim de interpretar o cisne negro, cobri-la com outra personalidade, fantasiosa e capaz de colocá-la num ponto de enfrentamento com a realidade à sua volta – e surge, em sua pele, algo que lembra não mais um humano. No entanto não apenas Nina. Thomas também não parece tão humano (e num filme em que Portman certamente brilha com intensidade, a primeira vez realmente depois de O profissional, e V de vingança, Cassel não fica para trás, com uma composição excelente da petulância contida).

O diretor está interessado por esse universo da dança como poucos antes no cinema (obras sobre dança costumam ser apenas dramáticos ou fantasiosos), fazendo um bom trabalho casado de fotografia, direção de arte e efeitos sonoros, pois a sonoridade quer marcar presença mais do que a trilha sonora de Clint Mansell. E os efeitos, muitas vezes, são assustadores.
Diante disso, estamos também lançados num filme sem gênero demarcado. O que Cisne negro poderia ser? Um drama? Um suspense? Um terror? Certamente, um híbrido de todos esses elementos. E Cisne negro, com seu psicologismo falho e irregular, porém ainda interessante, ainda consegue ser um filme pop, ou seja, acessível, ao mesmo tempo que exerce um magnetismo próprio de cult movie.
Uma visita de Nina ao hospital, a fim de ver Beth, apresenta uma das sequências mais assustadoras da narrativa. Quando Nina percebe que pode ficar como Beth, só resta a ela fugir na noite. E, como bailarina, ela, na verdade, deseja ser uma boneca, então não há nada de anormal no fato de que ela pode, de alguma maneira, quebrar. O filme, com isso, trata também do receio da personagem em voltar a ser esquecida, em ficar isolada num hospital ou numa cama de quarto.

O que ela precisa fazer – e Aronofsky tenta conduzir – é escapar da trajetória linear que sua vida seguia até então, nem que para isso precise encarar uma semirrealidae, capaz de trazê-la cada vez mais para baixo (aonde ela é conduzida, em meio a luzes da discoteca ou dos ensaios, que acontecem entre subidas e descidas de longas escadarias).
Para isso, o diretor mostra fragmentos de narrativa, a revolta da personagem com a vida real, e desenhos se movimentado, algo digno de O iluminado. Nina não quer se entregar a seu outro lado – que pode representar um pesadelo –, entretanto o fato de não conseguir, ou seja, fracassar em seu intento, parece ser pior: toda a carga de repressão sexual poderia vir de uma vez só à tona, sufocando a personagem. Desse modo, ela fica num meio termo entre conseguir ou não sua libertação – o caminho para isso é tortuoso, mas, de algum modo, ainda neste cenário de pesadelo, mais confortador do que voltar atrás. É nisto que parece se concentrar Cisne negro: que se deve aguardar o acender das luzes e ver se a plumagem cobriu o que realmente faltava. 

Black swan, EUA, 2010 Diretor: Darren Aronofsky Elenco: Natalie Portman, Mila Kunis, Vincent Cassel, Barbara Hershey, Winona Ryder Roteiro: Mark Heyman, John McLaughlin, Andres Heinz Fotografia: Matthew Libatique Trilha Sonora: Clint Mansell Produção: Scott Franklin, Mike Medavoy, Arnold Messer, Brian Oliver Duração: 108 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Phoenix Pictures / Fox Searchlight Pictures / Protozoa Pictures

O filme da minha vida (2017)

Por André Dick

Terceiro filme dirigido por Selton Mello, O filme da minha vida é baseado no romance Um pai de cinema, do chileno Antonio Skármeta. Mello adapta o cenário original para a Serra Gaúcha dos anos 60, seguindo sua experiência cinematográfica iniciada em Feliz Natal e continuada em O palhaço, de 2011. Se apenas atuando Mello já fez ótimas comédias (O auto da Compadecida, Lisbela e o prisioneiro) e bons dramas (Lavoura arcaica, Jean Charles), atrás das câmeras ele vem procurando adotar um estilo próprio, mas dialogando com vários diretores. Por isso, há vários filmes dentro desse filme. Na narrativa, Tony Terranova (Johnny Massaro) tem lembranças constantes do seu pai, Nicolas (Vincent Cassel), que o deixou quando criança e nunca mais reapareceu. O jovem vive com a sua mãe, Sofia (Ondina Clais Castilho), enquanto dá aulas de francês numa escola do município onde vive. A cidade é cortada pelos trilhos de uma linha férrea que vai dar em algum lugar ainda desconhecido do espectador.

Com interesse especial por livros e pelo cinema, um tema que já ecoava em outra obra de Skármeta, o conhecido O carteiro e o poeta, Tony é apaixonado por Luna Madeira (Bruna Linzmeyer), irmã de Petra (Bia Arantes). O seu amigo principal, Paco (Selton Mello), tem como filosofia comparar humanos com um determinado animal de sua fazenda. É com ele que Tony tem conversas sobre o pai, e as lembranças se dão principalmente nos seus passeios de motocicleta, destacando-se que a bicicleta que ele leva ao celeiro traz novamente o personagem a um passado próximo.
Mello, de modo geral, mostra a história do personagem inicialmente em fragmentos, que se assemelham a visões, e se sustenta na belíssima fotografia de Walter Carvalho. Pode-se apontar como a melhor aquela em que imagina as irmãs ensaiando um número de dança no pátio da escola direcionadas a seu olhar. Em outro momento, ele observa as duas na rua da cidade com outros motociclistas, como se estivesse assistindo a um filme dos anos 1960, parecendo um diálogo com Loucuras de verão e A doce vida. Na escola onde dá aula, os seus alunos parecem saídos exatamente de alguma fotografia dessa época, o que é destacada pela coloração da imagem. Aos poucos, a narrativa um pouco dispersa vai ganhando mais unidade e, junto com as imagens que despertam uma espécie de lembrança longínqua, quase simétricas, com um design de produção muito elaborado, O filme da minha vida se torna uma espécie de ponte entre vida e arte de modo inegável.

A maneira como se costura a ligação desse personagem com o filme Rio vermelho, de Howard Hawks, é especialmente lúcida e concentra boa parte das memórias dele, assim como a conversa do maquinista Giuseppe (Rolando Boldrin, com breve e eficiente participação) com Paco, sintetizada na sequência final de maneira discreta e extremamente funcional pelo roteiro do diretor em parceria com Marcelo Vindicato. Neste sentido, há um diálogo com o adorável Cinema Paradiso, dos anos 80, com o encantamento de um menino pelo cinema e sua amizade com um projecionista, sem exatamente diluir a ideia. No entanto, não se trata apenas disso: o filme é composto por ligações de um ponto a ponto e não por acaso Sofia trabalha numa central telefônica. É uma espécie de representação do esforço de Tony em se conectar com as pessoas do seu círculo.
O mais interessante talvez seja como Mello vai costurando memórias e narrações internas com o cenário ao redor: as viagens de motocicleta por estradas desertas evocam uma solidão estendida aos personagens. Se o diálogo com o cinema de Fellini é evidente por meio da metalinguagem e da maneira como se desperta a paixão pelo cinema, os arredores da casa de campo onde Tony e sua mãe vivem, com seus varais de roupa e uma longa fileira de árvores distante remete ao melhor Andrei Tarkosky de O espelho e Nostalgia, com sua sensação de isolamento de tudo, o que se sente igualmente na ficção científica do cineasta russo Solaris. Conhecendo algumas dessas paisagens, arrisco dizer que Selton Mello as mostra como talvez nenhum cineasta brasileiro antes dele (lembrei algumas vezes do subestimado e semiesquecido O quatrilho, mas aqui uma dinâmica narrativa maior está em jogo). Isso não é pouco, visto a qualidade de algumas obras.

Se O filme da minha vida tem um pouco de dificuldade na parte sonora (algumas narrações em tom baixo são difíceis de se entender), não se pode dizer o mesmo da sua qualidade em termos de direção, elenco e fotografia. A intensidade do personagem central é acentuada pela atuação de Johnny Massaro, parecido com Louis Garrel e muito expressivo, que encontra em Bruna Linzmeyer um efetivo complemento para sua interpretação e empatia imediata. E, conhecido por Cisne negro, entre outras obras, Cassel tem uma rápida, mas boa presença. Sob o ponto de vista do design de produção elaborado, há uma passagem por um bordel da cidade vizinha àquela em que vive Tony que é iluminada quase como se por Zhang Yimou, tornando cada quadro histórico. Mais ainda quando vemos o bordel de dia, com o céu azul contrastando com a cena anterior, à noite, parecendo uma extensão de Santa Sangre, de Jodorowsky. Há uma estranha circularidade nesta história: se o início pode ir de encontro ao final por um palmo de película, suas imagens estão ligadas sempre à memória desses personagens. Este é um dos melhores filmes brasileiros já feitos, no qual a narrativa muitas vezes é explicada por seu aspecto visual. Não se trata de estilo sobre a substância e sim um triunfo na trajetória de Selton Mello.

O filme da minha vida, BRA, 2017 Diretor: Selton Mello Elenco: Johnny Massaro, Bruna Linzmeyer, Vincent Cassel, Selton Mello, Bia Arantes, Ondina Clais Castilho, Rolando Boldrin Roteiro: Marcelo Vindicato, Selton Mello Fotografia: Walter Carvalho Produção: Vania Catani Duração: 113 min. Estúdio: Bananeira Filmes, Globo Filmes Distribuidora: Vitrine Filmes