Animais fantásticos – Os crimes de Grindelwald (2018)

Por André Dick

Depois de dirigir os quatro últimos filmes da série Harry Potter, David Yates estabeleceu uma parceria com a autora J. K. Rowling. Em 2016, ambos se reuniram novamente em Animais fantásticos e onde habitam, baseado num roteiro dela, a partir de um livro nos moldes de um bestiário. Nele, tínhamos a volta a um universo que se convencionou chamar de mágico e aqui parece traçar paralelos com a realidade de modo mais abrangente. Animais fantásticos e onde habitam era o primeiro filme de uma anunciada franquia composta por cinco obras, que encontra sua segunda parte em Animais fantásticos – Os crimes de Grindelwald.
O sequência se passa em 1927 e inicia mostrando o bruxo Gellert Grindelwald (Johnny Depp) sendo levado de Nova York para França, prisioneiro da MACUSA (Congresso Mágico dos Estados Unidos), a fim de ser julgado, porém no caminho é libertado por um de seus seguidores. Na Inglaterra, o magizoologista Newt Scamander (Eddie Redmayne) solicita ao Ministério Britânico da Magia o direito novamente de viajar, depois da confusão que ocasionou em sua visita a Nova York no primeiro filme. Nesse local, ele encontra o irmão Theseus (Callum Turner), que está noivo de Leta Lestrange (Zoë Kravitz), uma antiga conhecida de Newt da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, fazendo de ambos os personagens acréscimos bem-vindos, restando saber se a referência à mitologia grega no nome do irmão de Newt ajudará a explicar suas motivações.

Há notícias vindas de Paris de que Credence Barebone (Ezra Miller) está vivo, e sua presença é desejada por Grindelwald, já que ele seria o único que pode enfrentar o Professor Albus Dumbledore (Jude Law) de Hogwarts, de quem Newt foi aluno e o qual reencontra em meio à névoa londrina. Quando Newt chega à sua casa, ele encontra o casal de amigos Queenie Goldstein (Alison Sudol) e Jacob Kowalski (Dan Fogler), este sob feitiço da companheira, acentuando o humor já demonstrado na primeira parte. Ambos vieram à Europa junto com Tina (Katherine Waterston), irmã de Queenie, que está atrás de Credence em Paris, encontrando-o num show no Circus Arcanus, em que o jovem vilão é apaixonado por Nagini (Claudia Kim), uma mulher que se transforma numa cobra gigante. Tina se depara com Yusuf Kama (William Nadylam), interessado em buscar as origens do jovem. Em meio a tudo, Newt cuida dos animais fantásticos, embora sua maleta não revele, como no primeiro, tantas surpresas.

Do mesmo modo que em Animais fantásticos e onde habitam, o roteiro de J.K. Rowling é ágil, principalmente ao apresentar os personagens de maneira a despertar simpatia. Redmayne faz outra vez uma boa composição, entre o tímido e o corajoso, como Newt, expandindo ainda mais sua personalidade em sua amizade com Dumbledore. Trata-se de um personagem menos desenvolvido do que Harry Potter, porém interessante em seu comedimento e nas nuances (uma aproximação dele com Credence ao alimentar uma pequena ave é um acerto do roteiro).
Enquanto Waterston, filmada como uma atriz dos anos 20 e 30, é subaproveitada, Fogler tem um tempo de humor notável, que combina com o de Sudol, fazendo esses personagens sempre atrativos, embora não presentes como deveriam, e Law se mostra surpreendentemente discreto. Ezra Miller não tem oportunidades como no primeiro de mostrar seu talento (o roteiro não colabora), contudo tem boa presença, sempre assustadora, de acordo com Credence. Com uma trilha sonora brilhante de James Newton Howard, um figurino irretocável de Colleen Atwood (o primeiro venceu o Oscar da categoria) e fotografia novamente impecável de Phillipe Rousselot, além dos efeitos visuais de qualidade, o novo Animais fantásticos é tudo o que se esperava: um grande blockbuster. Há um uso extremamente competente de cenários londrinos e parisienses, mesmo em estúdio, captando uma atmosfera de época com rara perspicácia.

A continuidade como roteirista de Rowling se mostra altamente competente ao dosar passagens de um lirismo natural – o flashback de Newt e Leta em Hogwarts que remete imediatamente à série Harry Potter – e de uma fábula com fundo histórico – quando se evoca o futuro da humanidade num determinado momento-chave. Como no original, não há o excesso de subtramas da série Harry Potter, que muitas vezes leva o espectador a perder o fio da meada e Rowling trabalha com referências oportunas à invasão alemã em Paris durante a Segunda Guerra, deslizando entre a Torre Eiffel e o submundo da magia, quando no primeiro havia referências ao 11 de setembro, representadas antes de tudo por uma águia, que remete, na narrativa, também ao Arizona, ao velho oeste utópico da cultura norte-americana, e aqui reaparece em forma de estátua numa das sequências derradeiras. Da Paris à Áustria, Grindelwald é um Adolf Hitler no meio dos bruxos. Yates desenha uma batalha fantástica no Cemitério Pere Lachaise, de Paris, em que as cruzes se manifestam contra a maldade. Visto como um vilão fora das telas, Depp domina o personagem de maneira inquestionável, substituindo Colin Farrell à altura.

Não há muita emoção no reencontro entre Newt e Tina, principalmente quando adentram o Ministério da Magia, sendo descobertos por Leta e Theseus, tendo de se esconder num maquinário gigante, mas Yates tem uma noção equilibrada de filme que precisa se situar entre a ação, o humor e a fantasia – e o faz em doses animadoras na maior parte do tempo. Impressiona seu ritmo de composição de cada ambiente, fazendo com que os personagens pareçam imersos num universo verdadeiramente à parte. Desde o início, quando há a libertação de Grindelwald nos céus soturnos e chuvosos de Nova York, em meio a uma sequência de relâmpagos, remetendo à saga cibernética das Wachowski, e dragões desenhados em meio às gotas de chuva, passando por uma criatura marítima gigante, até o momento em que, nas ruas de Paris, Newt parece domar uma criatura que parece saída de As sete faces do Dr. Lao, dos anos 60 (assim como quando surge o Circus Arcanus), Animais fantásticos possui uma vibração fantástica, capaz de dialogar com o primeiro e anuncia o que virá. Mesmo quando os diálogos não fluem do melhor modo, é mais uma conquista de Yates e Rowling, uma fantasia capaz de aliar nostalgia e expectativa por novas aventuras desses personagens.

Fantastic beasts – The crimes of Grindelwald, EUA/ING, 2018 Diretor: David Yates Elenco: Eddie Redmayne, Katherine Waterston, Dan Fogler, Alison Sudol, Ezra Miller, Zoë Kravitz, Callum Turner, Carmen Ejogo, Claudia Kim, William Nadylam, Kevin Guthrie, Jude Law, Johnny Depp Roteiro: J. K. Rowling Fotografia: Philippe Rousselot Trilha Sonora: James Newton Howard Produção: David Heyman, J. K. Rowling, Steve Kloves, Lionel Wigram Duração: 134 min. Estúdio: Warner Bros. Pictures, Heyday Films Distribuidora: Warner Bros. Pictures

Animais fantásticos e onde habitam (2016)

Por André Dick

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Depois de dirigir os quatro últimos filmes da série Harry Potter, David Yates estabeleceu uma parceria com a autora J.K. Rowling. Agora, baseando-se no roteiro dela, a partir de um livro nos moldes de um bestiário que ela também escreveu, temos a volta a um universo que se convencionou chamar de mágico e aqui parece traçar paralelos com a realidade de modo mais abrangente. Animais fantásticos e onde habitam é o primeiro filme de uma anunciada franquia composta por cinco obras.
Em 1926, o magiozoologista Newt Scamander (Eddie Redmayne) chega de viagem a Nova York. Este início poderia lembrar Era uma vez em Nova York, na chegada da personagem de Marion Cotillard a uma América prometida, e o cuidado visual não fica distante: tudo no filme é apresentado com uma riqueza de detalhes. Durante um discurso de Mary Lou Barebone (Samantha Morton), um dos animais que ele traz em sua mala escapa; é o Niffler, que tem atração por objetos reluzentes. Newt acaba se deparando com Jacob Kowalski (Dan Fogler), um “no-maj”, um trouxa (ou seja, os não magos), que deseja ter uma padaria, e leva os doces que faz para obter um negócio no banco. Ambos acabam trocando de mala. A investigadora Tina Goldstein (Katherine Waterston) leva Newt para MACUSA (Congresso Mágico dos Estados Unidos), mas a presidente Seraphina Picquery (Carmen Ejogo) e Percival Graves (Colin Farrell) não lhe dão a devida importância.

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No entanto, várias criaturas escapam da mala, agora sob alçada de Kowalsi, atraindo Tina e Newt. Juntos, eles conhecem a irmã de Tina, Queenie (Alison Sudol, agradável). Já Mary Lou Barebone dirige um orfanato, onde ela ensina as crianças a acreditar em bruxos, entre as quais Credence Barebone (Ezra Miller, excepcional), sempre sob proteção secreta de um dos integrantes do MACUSA.
O roteiro de J.K. Rowling é ágil, principalmente em sua primeira meia hora quando apresenta os personagens de maneira a despertar simpatia. Redmayne faz uma boa composição, entre o tímido e o corajoso, como Newt, conseguindo se desvencilhar não apenas da atuação marcante de A teoria de tudo como dos trejeitos um pouco forçados de A garota dinamarquesa e, principalmente, do vilão que apresentava em O destino de Júpiter, mas é Waterston, filmada como uma atriz dos anos 20 e 30, que se destaca com sua sensibilidade vista antes em Vício inerente. Por sua vez, o coadjuvante Fogler tem um tempo de humor notável, que combina com o de Sudol, fazendo esses personagens a princípio atrativos. Com uma fotografia primorosa de Phillipe Rousselot, uma trilha sonora brilhante de James Newton Howard (sem açucarar demais as notas e evocando a trilha de John Williams de Harry Potter, assim como de Alexandre Desplat) e um figurino irretocável, Animais fantásticos e onde habitam é uma das melhores surpresas entre os blockbusters deste ano.

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É o chamado filme que tem uma finalidade comercial bem clara e ainda assim consegue ter coração. Como um não fã exatamente da série Harry Potter, apesar de reconhecer as qualidades dela, especialmente dos três últimos capítulos, esta obra, que se passa setenta anos da saga do menino com poderes supremos, sugere temas envolvendo a magia sob um ponto de vista talvez mais soturno. Há menções, claro, a Hogwarts, mas o filme se sente outro universo, ou seja, o espectador não tem nenhuma obrigação de conhecer a outra franquia para poder entendê-lo. Além disso, ele evita ser o que parecia ser anunciado: uma espécie de Jumanji dos anos 20, com animais soltos por Nova York. Ele toca mais aquele ponto em que uma figura ameaçadora que pode estar causando estragos na cidade se volta contra figuras políticas, representadas pelo senador Henry Shaw (Josh Cowdery), filho de Henry (Jon Voight).
O filme trata de uma cidade não apenas ameaçada por criaturas e sim a ser reconstruída, e pode-se destacar a beleza das imagens que dialogam com King Kong, de Peter Jackson, principalmente em seus instantes de uma enorme criatura (não daremos spoilers) que corre pelo gelo atrás de Kowalski. As cenas de ação têm um vigor interessante, já empregado por Yates nos episódios que dirigiu da série Harry Potter, mesclando a elas um tom assustador.

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Existe uma certa desenvoltura na construção dessa narrativa, passada quase completamente à noite, com a sua figura mítica da águia, conhecida em diversas fábulas. A estreia como roteirista de Rowling se mostra altamente competente ao dosar passagens de um lirismo natural – a entrada no universo dos animais fantásticos – e de quase pesadelo – quando Scamander e Tina são colocados em ameaça. Não há o excesso de subtramas da série Harry Potter, que muitas vezes leva o espectador a perder o fio da meada e Rowling trabalha com referências oportunas à Nova York transformada depois de 11 de setembro, representadas antes de tudo por essa águia, que remete, na narrativa, também ao Arizona, ao velho oeste utópico da cultura norte-americana. Há um trânsito fluente entre o drama e o humor, na figura do padeiro, por exemplo, graças à atuação de Fogler, e uma atmosfera agradável que remete ao cinema clássico, principalmente quando os personagens visitam uma taverna. Newt não aprecia exatamente os seres humanos – tampouco as figuras importantes do filme parecem gostar – e as criaturas que carrega parecem ser ameaçadoras não apenas para a cidade, mas para quem vive no universo mágico. Por outro lado, são dele os gestos de generosidade ao longo da trama e a compreensão que ele lança sobre as ameaças a Nova York são a de quem exatamente entende o que acontece em seus subterrâneos mesmo que não aparente ou finja estar distraído.

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Neste ano, Yates já havia lançado A lenda de Tarzan, que trazia a ligação do homem com a natureza: aqui, ele mostra a ligação do homem com a natureza por meio de um universo mágico e extraordinário, e a visita que fazemos ao artefato que Newt carrega é impactante na resolução dos efeitos visuais – e, com CGI ou não, são magníficos. Esse artefato (a mala) contém não apenas criaturas fantásticas, como poderia também abrigar a cidade – e no momento-chave do final ela adquire uma imponência ainda maior. Se Harry Potter teve pelo menos dois capítulos iniciais como uma espécie de teste para o elenco, este filme começa a todo ritmo, tanto com o quarteto quanto com vilões ameaçadores. Ao mesmo tempo, por seu tom agridoce, Animais fantásticos se sente igualmente também como um grande universo ainda a ser explorado com esses personagens: ele realmente envolve o espectador a ponto de nos deixar com saudade deles depois que a sessão termina.

Fantastic beasts and where to find them, EUA/ING, 2016 Direção: David Yates Elenco: Eddie Redmayne, Katherine Waterston, Dan Fogler, Alison Sudol, Ezra Miller, Colin Farrell, Zoë Kravitz, Ron Perlman, Samantha Morton, Jon Voight, Carmen Ejogo Roteiro: J.K. Rowling Fotografia: Philippe Rousselot Trilha Sonora: James Newton Howard Produção: David Heyman, J.K. Rowling, Lionel Wigram, Neil Blair, Steve Kloves Duração: 133 min. Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: Warner Bros.

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A garota dinamarquesa (2015)

Por André Dick

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O cineasta inglês Tom Hooper recebeu os Oscars de melhor filme e direção por um de seus esforços menos entusiasmantes, O discurso do rei. Logo depois, ele apresentou um musical moderno baseado na peça Os miseráveis, apostando num grande elenco (Hugh Jackman, Anne Hathaway e Russell Crowe) cantando por força própria, sem o auxílio (pelo menos aparente) de complementos ou correções de estúdio pós-produção. Esses dois filmes anunciam em parte a nova obra do diretor, A garota dinamarquesa. Em parte porque mostra bem uma cultura determinada – a dinamarquesa –, assim como ele mostrava anteriormente as culturas inglesa e francesa, apoiada num grande design de podução, em parte porque lida com a superação de um homem diante de sua vontade própria, assim como os personagens centrais de Os miseráveis e O discurso do rei.
A história inicia em Copenhagen, por volta dos anos 1920. Desta vez, o núcleo é o pintor reconhecido de paisagens Einar Wegener (Eddie Redmayne), casado com a também pintora Gerda Wegener (Alicia Vikander). Ambos pretendem ter filhos, mas Gerda não consegue engravidar. Certo dia, ela lhe pede para posar com uma roupa de bailarina para uma pintura que está fazendo, e Eimar admira o figurino, como se vestisse uma nova pele. No dia em que Gerda o aconselha a ir vestido como uma mulher para uma festa, ele encontra Henrik (Ben Whishaw, competente como sempre), por quem logo se sente atraído. E passa a chamar de Lili Elbe, em razão da amiga Ulla (Amber Heard), exatamente uma bailarina.

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Essa transformação de Einar numa mulher vai acontecendo numa forma gradativa, em meio a conflitos com a esposa. Gerda sonha em sobreviver por meio da pintura, mas tem seus quadros negados por um expositor, até o momento em que parece descobrir o seu estilo, como também Einar, ao lembrar de Hans Axgil (Matthias Schoenaerts). Por esse diálogo com o universo dos pintores e da boemia que os cercava, é fácil detectar uma beleza plástica nos detalhes comparável a Moça com brinco de pérola, além de um diálogo com Eclipse de uma paixão, sobre a relação romântica entre Rimbaud e Verlaine. E, baseado em fatos reais, como esses dois filmes, A garota dinamarquesa é um belo exemplo de como fazer uma obra biográfica sem cair exatamente no lugar-comum. Indo à história real, é interessante como Hooper conseguiu manter elos de ligação e criou outros, como o apego de Einar à sua infância, traduzido constantemente em suas pinturas.
Enquanto a trilha de Alexander Desplat parece excessivamente calcada em tons já conhecidos, a fotografia de Danny Cohen proporciona os melhores momentos de A garota dinamarquesa, junto com a presença de Vikander. Ela é realmente o principal nome da narrativa, mesmo com a presença de Redmayne, cujo papel é bastante difícil e ao qual ele se entrega com esforço, não sem cair, por vezes, em certos maneirismos que, ao longo do filme, acabam por desfocar um pouco o personagem – e sua atuação fica longe daquela de A teoria de tudo em termos de resultado.

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É como se a personagem de Vikander realmente desempenhasse a força central dessa história, bastante auxiliada a partir de determinado ponto por Schoenaerts (tão bem dirigido quanto em Ferrugem e osso e tornando complexo um personagem com roteiro mínimo). Vikander, depois de já se mostrar excelente atriz em O amante da rainha e Anna Karenina, embora tenha ficado mais conhecido com o recente Ex Machina, desempenha este papel com um potencial de atuação raras vezes visto nos últimos anos, mesclando um drama interno com uma tentativa de parecer menos atingida pelos desejos do marido.
A maneira como Hooper entrelaça o mundo artístico e a descoberta de uma visão própria nesse universo com a descoberta de si mesmo cava boa parte do interesse dramático de A garota dinamarquesa, que lida bem com algumas instabilidades narrativas, principalmente devido às ações de Gerda, não tão explicadas quanto o diretor possivelmente imagine. Ainda assim, mesmo com a dramaticidade em parte exagerada, Hooper tem um entendimento desse universo muito interessante. As comparações com o recente Tangerine por parte de alguns críticos me parecem injustas: embora o primeiro seja exemplo de cinema indie e aparentemente mais objetivo e direto, A garota dinamarquesa me parece um filme mais completo, além de visualmente muito bem trabalhado, dialogando, em seu design de produção, com as produções anteriores de Hooper.

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São muito interessantes as consultas que Einar faz a diferentes médicos e as prescrições dadas sobre sua obsessão em se tornar uma mulher, e a ausência de psicologia efetiva, além dos tratamentos recomendados. O filme não quer apenas, como me parece Tangerine, utilizar o tema da transexualidade porque é pouco abordado, mas sim levar os personagens a um espaço em que são mais do que símbolos de um período. Mesmo a figura da bailarina, presente em toda a primeira parte da história e por meio da qual o personagem central parece finalmente encontrar sua sexualidade, é um diálogo direto com o universo pictórico de Degas, do final do século anterior. Quando o expositor diz a Gerda para encontrar um estilo, é como se pedisse a ele um contorno menos francês. Esse contorno acaba sendo reproduzido pelo anseio do marido de se libertar de sua condição de casado: a figura da bailarina, já tão usada em quadros, é o que lhe proporciona a ideia de fugir ao que se espera do homem, do padrão de masculinidade esperado.
O tema da transexualidade se coloca com uma simbologia de representação do corpo e de se ver com outro sexo (e uma imagem em que Einar observa uma stripper por meio de um vidro é de uma grande sensibilidade de Hooper). Nunca há um deslizamento da história para o que poderia ser uma espécie de apelo. O roteiro de Lucinda Coxon, baseado em romance de David Ebershoff, tem o mérito de enquadrar as passagens dessa experiência de modo a nunca torná-la previsível. Isso se deve sobretudo a Vikander, uma grande atriz que consegue transformar os momentos derradeiros em uma virada realmente emocional, apoiada também em Redmayne, finalmente num momento que faz jus ao seu talento. E, ao contrário de O discurso do rei, Hooper não se entrega a uma frieza histórica, e sim a uma emoção calculada em doses, como no final sólido e que expande a imaginação do espectador.

The danish girl, Reino Unido/EUA, 2015 Diretor: Tom Hooper Elenco: Eddie Redmayne, Alicia Vikander, Matthias Schoenaerts, Ben Whishaw, Amber Heard, Sebastian Koch, Emerald Fennell, Adrian Schiller Roteiro: Lucinda Coxon Fotografia: Danny Cohen Trilha Sonora: Alexandre Desplat Produção: Anne Harrison, Eric Fellner, Tim Bevan Duração: 120 min. Distribuidora: Universal Pictures Estúdio: ELBE / Harrison Productions / MMC Independent / Pretty Pictures / Senator Film Produktion / Working Title Films

Cotação 4 estrelas

O destino de Júpiter (2015)

Por André Dick

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Se os irmãos Andy e Lana Wachowski têm uma qualidade inegável é que eles sabem produzir, por meio de seus filmes, bastante polêmica. Depois de Matrix, qualquer título deles tem a qualidade de despertar o mesmo ânimo antes da estreia. No entanto, depois, seja com Speed Racer ou Cloud Atlas, embora haja uma variedade de críticas, normalmente são recebidos com certa decepção. Nunca há o mesmo impacto causado por Matrix – e mesmo as continuações dessa referência dos anos 90 foram recebidas com desconfiança. Ainda assim, os filmes considerados falhos dos irmãos são realmente interessantes: o visual e a inspiração nos quadrinhos de Speed Racer são bem trabalhados e Cloud Atlas consegue ser uma ficção científica que arrisca lidar com vários temas em conjunto. E difícil duvidar do talento de uma dupla cuja estreia é Ligadas pelo desejo, uma mistura de suspense e obra noir.
No ano passado, O destino de Júpiter era visto previamente como um fracasso antecipado de bilheterias e teve seu lançamento adiado pela Warner Bros em muitos meses, para uma possível melhora em seu acabamento e um substancial corte na metragem – ou talvez porque fosse confundido com outros filmes mais imediatos da temporada. Ele parece ser um pouco resultado desse limite entre o gênero de ficção científica e as produções de super-heróis.
Sua história já indica isso. Tudo inicia com um homem, Maximilian Jones (James D’Arcy), observando as estrelas e conhecendo a futura esposa Aleksa (Maria Doyle Kennedy) em São Petersburgo. Algum tempo demais, com a mulher já grávida, ele decide que sua filha se chamará Jupiter. Em poucos minutos, já mostra que ela cresceu (agora Mila Kunis) com familiares russos em Chicago e trabalha limpando casas. Com o desejo de comprar um telescópio, ela atende a um pedido do seu primo Vladie (Chute Gurry), enquanto, num momento delicado, surge Caine Wise (Channing Tatum).

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Os Wachowski misturam essa trama – para que as duas se completem – com a de três filhos da Casa de Abrasax, uma dinastia que comanda a Terra, ou seja, Balem (Eddie Redmayne), Kalique (Tuppence Middleton) e Titus (Douglas Booth), que estão atrás de Jupiter. Caine e Jupiter encontrarão Dtinger Apini (Sean Bean) e o capitão Diomika Tsing (Nukking Amuka-Bird) e tudo poderá se transformar numa ópera espacial, mesclado a uma mistura entre história da Roma Antiga (Titus, Balem) e nomes que evocam algum humor (Jupiter Jones ou Caine, para não dizer logo “canine”, uma mistura entre humano e lobo mais parecido com um fauno da mitologia).
Desde o início, O destino de Júpiter não fica a dever para suas principais inspirações: os quadrinhos de ficção científica dos anos 30, os mesmos que envolvem Flash Gordon. E quando se vai ao filme, percebe-se que os Wachowski continuam entre os raros cineastas que ainda querem construir um universo à parte. Mas, ao contrário de seus filmes anteriores, esse visual não marca pela originalidade. Enquanto em Matrix, Speed Racer e Cloud Atlas, havia uma elaboração criativa de cenários, desta vez tudo se sente um pouco emprestado: nos cenários das naves, a Matrix Cloud Atlas; no planeta distante, a Thor e O senhor dos anéis; numa seção de burocracia espacial, a Brazil – O filme; e mesmo a trilha de Michael Giacchino, uma das qualidades para dar ênfase às cenas de ação, têm correspondência direta com a da segunda trilogia de Star Wars. E O destino de Júpiter prova, novamente, a originalidade de algumas ficções dos anos 80 (Flash Gordon, Duna) que, quando lançadas, enfrentaram críticas. São referências que devem se moldar a uma nova criatividade, o que, infelizmente, acontece apenas em parcelas. Isso, em termos dos Wachowski, é uma surpresa. Eles mantêm o cuidado com o acabamento, inclusive com os figurinos e os efeitos especiais espetaculares, no entanto é visível que eles tentaram tornar seu cinema mais acessível, embora continuem interessados em teorias.

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Depois de Cloud Atlas, a sua obra-prima, isso soa como uma tentativa de eles não terem o desejo de ser ligados a temas considerados intimistas. Eles querem tornar as críticas aos seres humanos num plano declaradamente pop, além de forçadas por um determinado discurso contra o consumismo que pode ser revertido ao se constatar que a obra custou em torno de 200 milhões de dólares, com o uso do 3D (prejudicial por tirar as cores originais, o que é essencial no gênero da fantasia) para aumentar as bilheterias. Há traços nisso de autoria, no entanto não é o que eles têm de mais interessante: os Wachowski, de certo modo, menosprezam seu próprio talento ao lançar um filme que tenta fazer do humor sua seriedade. Nesse sentido, por um lado, ele tem um certo descompromisso, mas não o bastante para deixar de se levar a sério. Em alguns momentos, eles enveredam claramente pela sátira, porém há algo na engrenagem que não funciona, e eles recuam. Não é como o caminho adotado pelo Flash Gordon dos anos 80, em que o ator que vivia o herói, Sam Jones, realmente fazia humor com sua inexpressividade e os cenários (realmente originais) complementavam sua presença. Além disso, é difícil acompanhar as linhas escritas pelos Wachowski, tornando a família russa de Jupiter num elemento à parte.
Este é um detalhe que dificulta a ligação do espectador com os personagens: os personagens parecem carregados de uma despretensão e, ao mesmo tempo, de frases expositivas, que lidam com várias teorias ligadas ao surgimento da Terra e, consequentemente, a Jupiter Jones, a abelha-rainha da grande colmeia sideral. Pode-se imaginar quantos momentos realmente temos os personagens tratando das próprias situações pelas quais passam: todos eles estão dominados por discursos, que remetem a vários conceitos extraídos de programas de TV, livros e quadrinhos, mas, principalmente, de Eram os deuses astronautas?. Isso, inegavelmente, poderia trazer uma certa inteligência à base do roteiro, no entanto fica deslocado quando se tenta enveredar por momentos de humor sem o equilíbrio necessário, que acabam destoando do que aparenta ser sério.

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E a questão seria, também, quais as indicações feitas pelos Wachowski a Eddie Redmayne para que ele compusesse o vilão. Com uma participação visivelmente diminuída pela sala de montagem, Redmayne compõe um vilão severo, mas procurando por vida e, certamente prejudicado pelo roteiro, ele se lança na única saída: o overacting mais complicado. Ele se sente como a tragédia personificada da vilania; exagerado ou não, Redmayne parece levar todas as suas falas com uma seriedade assustadora, de fazer tremer as cadeiras do cinema, mesmo que seja com sussurros. É interessante como, diante dele, mesmo Channing Tatum é beneficiado com algumas falas bem-humoradas, como aquela em que faz perguntas ao amigo Dtinger sobre dívidas passadas ou simplesmente por sua falta de expressão chega a despertar algum divertimento. Desse roteiro, o melhor beneficiado é Booth, com ironia de um lorde na medida exata, e, mesmo com pouca participação, Bean também se mostra presente. Entretanto, Mila Kunis parece outra escolha problemática: os Wachowski teriam aqui um papel para Natalie Portman, ainda que certamente lembrasse sua personagem de Thor. Kunis nunca parece de fato estar em seu papel. No entanto, a escolha do elenco talvez não repercutisse em algum resultado.
O que mais se lamenta no filme dos Wachowski é o quanto ele tem um potencial em movimento, com o mesmo montador Alexander Berner e o diretor de fotografia John Toll, de Cloud Atlas, com todas as cenas de ação bem filmadas – uma batalha nos céus de Chicago parece ser a melhor – e, ainda assim, se ressente de um traço emocional para que possa fazer uma diferença. A sensação é que o filme entretém, mas é difícil encontrar nele algo a mais além das imagens. O cinema dos Wachowski ser genuíno e sincero dentro de suas possibilidades mostradas em Cloud Atlas não parece lhes dar o direito de negarem o próprio talento: eles tinham tudo, aqui, para colocar em ação uma homenagem decisiva ao cinema de ficção científica. Embora possa ser visto daqui a alguns anos como um cult, ou mesmo melhorar numa versão mais longa, O destino de Júpiter se sente como uma obra que continua visivelmente inacabada.

Jupiter ascending, EUA, 2015 Diretores: Andy Wachowski e Lana Wachowski Elenco: Mila Kunis, Channing Tatum, Eddie Redmayne, Douglas Booth, Sean Bean, Tuppence Middleton, Doona Bae Roteiro: Andy Wachowski, Lana Wachowski Fotografia: John Toll Trilha Sonora: Michael Giacchino Produção: Andy Wachowski, Lana Wachowski Duração: 127 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Village Roadshow Pictures / Warner Bros

Cotação 2 estrelas e meia

 

A teoria de tudo (2014)

Por André Dick

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Ao longo da história do cinema, não são poucas personalidades que suscitaram a criação de filmes. Embora se possa dizer que nos últimos anos foi criado quase um novo gênero – o da cinebiografia –, também é possível avaliar o quanto essas histórias inspiram não apenas a equipe que as transpõe para as telas, como também o público que pode conhecer muitas  figuras que às vezes não ficariam tão conhecidas de outro modo. Em relação a este segundo ponto, não seria o caso exatamente de A teoria de tudo, que relata parte da história vivida por Stephen Hawking, visto como o maior físico teórico e cosmólogo da atualidade. Lidar com um nome que se torna, dentro de seu campo, numa espécie de mito, não é fácil para um cineasta e para o ator encarregado de interpretá-lo. Por isso, não deixa de ser interessante que A teoria de tudo pareça, à primeira vista, um filme até descompromissado e, dentro daquilo que costuma ser visto como cinebiografia, sem a pretensão de definir o homem que retrata.
Se, por um lado, isso pode impedir o espectador de ter acesso às teorias mais detalhadas de Hawking, por outro, temos acesso à vida do biografado, mesmo que seja pela parcela de relacionamento com sua primeira mulher, Jane, e seus filhos, o que pode ser avaliado como uma oportunidade de instigar um lado mais acentuadamente dramático e explicado pelo fato de o filme se basear no livro Travelling to Infinity: My Life with Stephen, escrito exatamente por ela.

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O filme de James Marsh – o mesmo do elogiado O equilibrista – inicia mostrando Hawking (Eddie Redmayne) numa festa na Universidade de Cambridge, onde conhece Jane Wilde (Felicity Jones). As escolhas de Marsh para a fotografia do filme já se mostram neste instante, quando há uma luz azulada que dá contorno ao ambiente e aos personagens. Essa cor azul se contrapõe logo a uma festa em que os dois vão juntos, na qual o diretor de fotografia Benoît Delhomme faz o amarelo de um carrossel se corresponder com os fogos de artifício no céu. A teoria de tudo reserva esses fogos de artifício como as verdadeiras estrelas para onde os olhos de Hawking apontam. Neste sentido, Marsh está interessado na relação que Hawking estabeleceu com Jane e os filhos que viriam a ter juntos, assim como o dia a dia vivido pela mulher para também se adequar à realidade do marido com quem casou.
O momento em que ele passa a ter mais problemas motores, na universidade, antecipando a doença degenerativa ELA (esclerose lateral amiotrófica), dialoga diretamente com a maneira como Ron Howard apresenta o matemático feito por Russell Crowe em Uma mente brilhante, mas quem realmente consegue proporcionar dosagem às cenas de maneira equilibrada e bastante justificada é o ator Eddie Redmayne. Ele já havia feito alguns anos atrás o assistente que se apaixona por Marilyn Monroe nos bastidores de uma filmagem em Sete dias com Marilyn e Marius, o amado de Cosette (Amanda Seyfried), no musical subestimado Os miseráveis, mas é aqui que ele tem a grande oportunidade de demonstrar seu talento. Sabendo-se que o cinema não é apenas uma maneira de verter um biografado para a tela de maneira convincente, é interessante dizer que Redmayne em nenhum momento foge ao que se espera de uma grande atuação. Ela não é exagerada, tentando acentuar os problemas de Hawking, nem tímida, no sentido de não querer arriscar onde o biografado certamente pensaria se é interessante que sua vida seja revelada de modo aberto na tela, em sua intimidade. Possivelmente se fosse um ator comum, Redmayne cairia numa simples reprodução das dificuldades de Hawking: ele é um ator que, pelo contrário, consegue ser espontâneo nessa reprodução, sem cair em exageros. Nesse campo, só há uma atuação nas últimas décadas que pareça chegar ao que ele alcança em A teoria de tudo: a do escritor e artista plástico Christy Brown, feita por Daniel Day-Lewis, em Meu pé esquerdo, com o qual recebeu seu primeiro Oscar.

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O diretor Marsh conduz os tons amarelos de momentos em que Hawking e sua esposa se casam para ambientes mais fechados, onde Hawking lida com a descoberta de equipamentos que podem ajudá-lo ou mesmo na avaliação em sua universidade – e o professor que mais o ajuda é Dennis Sciama (David Thewlis, dentro do tipo de papel eficiente que costuma desempenhar) –, quando recebe a desconfiança também de alguns pares não tão interessados em aceitar as suas teorias sobre o universo. O que Marsh faz – e não é comum numa cinebiografia de um físico renomado – é trazer humor a algumas situações, principalmente quando ele conhece Elaine Mason (Maxine Peake), apoiado numa trilha sonora não menos do que bela de Jóhann Jóhannsson. Há um limite tênue entre a dificuldade vivenciada por Hawking, e que o espectador normalmente não veria como um espaço para humor, e a verdadeira experiência que mostra Marsh ao revelar os bastidores de sua vida, também desenvolvidos quando Jane conhece Jonathan Jones (Charlie Cox). Nesse momento, o filme desenha uma passagem do ambiente universitário para o conflito familiar e religioso, que acaba dialogando com a própria aversão de Hawking à figura divina.
Se em alguns momentos essa abordagem acaba sendo direta demais, e Marsh não consiga mostrar o suficiente o real conflito entre esses personagens, para suas vidas e em relação à vida do outro, os compromissos assumidos ou abandonados, até onde pode despertar o sentido de manter a família – e às vezes os lances de roteiro se pareçam muito ajustados a um filme que estreia na temporada do Oscar –, quando consegue adotar um equilíbrio, ela mostra a verdadeira dor que ronda A teoria de tudo. É quando o personagem, que abre suas teorias para o mundo e o transforma, não consegue, em termos físicos, realizar movimentos comuns.

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No entanto, muito em razão de Redmayne, este plano não soa emocional demais, pois ele consegue mesclar o humor e alguns elementos de convencimento em suas falas que impedem o filme de ser um aplauso em público comovido a Hawking. Sem dúvida, há um material que poderia se tornar manipulável aqui, em termos emocionais, mas Marsh está mais interessado no que interessa a Hawking em conjugar seus estudos do universo e a criação dos filhos e o quanto não se pode adotar uma visão cosmológica quando não há uma noção familiar e de relação com os outros. Mesmo a relação de Hawking com os ambientes e a matéria suscitam momentos interessantes em A teoria de tudo: quando ele observa, por exemplo, uma escada em espiral, como se ela subisse até o céu, ou o café se integrando ao leite numa xícara, como se observasse o espaço, ou quando tudo parece reduzido depois dos exames que comprovam sua doença e ele está com o rosto contra a cama – num ambiente asséptico e tecnológico, mas não plenamente humano, diante das suas dificuldades –, assim como no momento em que um de seus colegas o coloca nos braços de uma estátua da Rainha Victoria.
Essas relações com pessoas e objetos circulam ao redor do momento em que Hawking consegue adquirir a estrutura necessária para escrever aquele livro que o tornou mais conhecido, Uma breve história do tempo. Mas o filme não está exatamente interessado no sucesso que teve a obra de Hawking ou mesmo em suas possibilidades cosmológicas de perceber as possibilidades de criação do Universo. A teoria de tudo se concentra mais no olhar do físico diante de sua realidade e a possibilidade, afinal, de reverter a própria vida para se atingir de novo a possibilidade de se reinventar – o que o filme de Marsh indica é que não importa o ponto zero da criação, mas as relações infinitas que podem se produzir a partir de um olhar para as pessoas ao redor, como em seu primeiro encontro com Jane. Acometido por uma doença que poderia impossibilitá-lo a pensar sobre o universo, Hawking, na figura de Redmayne, não se torna apenas uma figura de superação e uma inspiração: ele é, de fato, um ser humano, e o que prova isso é a sua busca pelo entendimento do outro.

The theory of everything, ING, 2014 Diretor: James Marsh Elenco: Eddie Redmayne, Felicity Jones, Charlie Cox, David Thewlis, Harry Lloyd, Maxine Peake, Simon McBurney, Emily Watson Roteiro: Anthony McCarten Fotografia: Benoît Delhomme Trilha Sonora: Jóhann Jóhannsson Produção: Anthony McCarten, Eric Fellner, Tim Bevan Duração: 123 min. Distribuidora: Universal Pictures Estúdio: Working Title Films

Cotação 3 estrelas e meia

Os miseráveis (2012)

Por André Dick

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O fato de Tom Hooper ter recebido um Oscar precipitado de melhor diretor por O discurso do rei, com um dos filmes menos merecedores do prêmio principal, pode trazer uma desconfiança inicial para Os miseráveis. Em segundo, o fato de o gênero musical sofrer um declínio desde os anos 1970, quando foram feitos Um violinista no telhado e Hair, nos quais a história e as canções envolviam o espectador de forma inegável, e se pode ouvir as trilhas de forma quase independente, tamanho o seu alcance. No entanto, recentemente, torna-se difícil não lembrar da experiência desgastante que Baz Luhrmann nos proporcionou em Moulin Rouge, com sua montanha-russa de imagens, Rob Marshall, em Chicago, apesar dos bons atores, e Tim Burton, no excessivamente soturno Sweeney Todd. Além disso, os atores selecionados para Os miseráveis estavam prontos para entregar uma atuação dramática de ponta, capaz de ser credenciada para o Oscar, e isso, muitas vezes, compromete o resultado, pois soa artifical.
Tom Hooper por trás das câmeras, Anne Hathaway em lágrimas, Russell Crowe tentando cantar e Hugh Jackman na pele de um homem frágil e perseguido: eis os quesitos que podiam ter aniquilado Os miseráveis, baseado não apenas no histórico romance de Victor Hugo, de 1862, mas na adaptação feita inicialmente para a Broadway por Alain Boublil, Claude-Michel Schönberg e Herbert Kretzmer. Não se sabe exatamente, ao final, a contribuição de cada um para o resultado, mas é inegável dizer que Os miseráveis é um alento (incapaz de agradar a todos), podendo ser identificado como espetáculo teatral traduzido para o cinema. Close-ups no rosto dos artistas, câmeras em movimento constante, e ainda assim Hooper foi um dos poucos diretores a traduzir para o cinema uma encenação musical e tornar canções que poderiam simplesmente soar piegas (algumas o são) em algo que merece ser visto e apreciado. A sensação é de que estamos diante de um palco, mas um palco não estável, que nos permite nos aproximarmos das feições e gestos mais imperceptíveis dos atores, tentando vê-los cantar com a própria voz, nem que às vezes isso não aconteça (um tratamento depois da filmagem é visível), os acordes soem imperfeitos e os movimentos, frenéticos. Mas há certamente um propósito: Hooper não conseguiria captar o movimento dos personagens e encobrir o fato de que eles cantam (muito), e não dançam, com planos estáticos ou afastados dos personagens, à medida que cada canto se constitui numa espécie de monólogo e substitui, quase sempre, a sua parte falada.

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Desde o início, Os miseráveis impressiona por sua qualidade justamente na direção de Hooper, quando, com um movimento espetacular de câmera, ele mostra um grupo de prisioneiros, em meio à chuva e às ondas do mar, condenado a trabalhar em embarcações (que à época era a condenação por crimes contra a igreja), fazendo um trabalho braçal, sob o olhar de Javert (Russell Crowe). Ele ordena um dos homens, Jean Valjean (Hugh Jackman), preso por 19 anos por ter roubado um pedaço de pão, a erguer um mastro de navio e, em seguida, entrega sua liberdade condicional. Crowe, obviamente, não sabe cantar, mas Os miseráveis consegue justamente por isso (pelo menos na maior parte das vezes, os atores não parecem ter um canto aperfeiçoado depois em estúdio) transparecer a encenação teatral de cada situação. Em contrapartida, Jackman apresenta-se como um ator que consegue se desvencilhar de seus papéis anteriores, e sua peregrinação até ser acolhido numa igreja acontece em poucos minutos, nos quais Hooper emprega uma estética de videoclipe,  sem cair numa superficialidade, ou seja, as imagens continuam parecendo de um filme histórico. Ao roubar algumas pratarias do padre que o acolhe, ele é preso, mas, ao ser entregue por policiais, o religioso o protege. Prepara-se para se transformar em outro homem. E, com a câmera seguindo os olhos de Valjean, somos transportados para anos depois, quando ele já se transformou em dono de uma fábrica e prefeito de uma cidezinha. Uma de suas empregadas, Fantine (Anne Hathaway), precisa ser ajudada, depois de atravessar a prostituição, levando-o à sua filha, Cosette (primeiro, Isabelle Allen, depois Amanda Seyfried, de Mamma mia), e a um casal de oportunistas, os Thénardier (Sasha Bara Cohen e Helena Bonham Carter), a porção Sweeney Todd desta adaptação, sempre perseguido, noite adentro, por Javert. Cada um dos personagens é um símbolo sem dúvida, mas Fantine alcança um poder emocional maior quando canta de “I Dreamed a Dream”. De modo geral, esta é a história de Os miseráveis, e ela se passa, a partir de determinado momento, durante a Revolução dos estudantes contra a monarquia, em Paris, em que se insere o personagem do revolucionário Marius (Eddie Redmayne, de Sete Dias com Marilyn), Gavroche (a revelação Daniel Huttlestone) e Éponine, filha dos Thénardier (Samantha Barks).

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Trata-se, desse modo, ao mesmo tempo, um filme com uma reconstituição de época impressionante, desde a fotografia, passando pelo desenho de produção até o figurino, que soam em harmonia o tempo todo. Destaca-se a mescla do azul (como no teto da Igreja do início do filme, das roupas de vários personagens) com o branco da neve e o escuro da noite, o amarelo das velas e o vermelho das bandeiras e uniformes, iluminados por velas ou candelabros (veja Delacroix).
Particularmente, embora o poder vocal de cada ator varie em intensidade, há exatamente em Os miseráveis, com sua impressionante reconstituição de época e com a direção ousada de Hooper (como Bigelow, Wes e Paul Thomas Anderson, Peter Jackson, os irmãos Wachowski e Tom Tykwer, ele foi desta vez esquecido pelo Oscar), sustentado pela fotografia de Danny Cohen (parceiro do diretor na série John Adams e em O discurso do rei) e uma seleção de músicas que ora conseguem traduzir a experiência de cada personagem, ora simplesmente soam exageradas aos ouvidos, uma ausência de artificialidade, exatamente aquilo que costuma relegar muitos musicais ao esquecimento. Por mais que haja uma quantidade de câmeras em dispersão, em momento algum isso incomoda a ponto de diminuir a obra; pelo contrário, é a partir dessa maneira de registro que o filme ganha uma potência inesperada e realça o pano de fundo dos personagens de Os miseráveis: a miséria do povo, o trabalho escravo, o sofrimento. Não se pode esquecer que Victor Hugo é um autor romântico, e muitas de suas ideias, nesse sentido, realçam o sublime, o contato fervoroso com uma imagem divina. Não por acaso, o personagem Valjean está sempre cercado por imagens religiosas ou de crucifixos, e os cenários parecem sempre assustadores e grandiosos, tornando menor a presença do homem neles – Javert, em específico, está sempre andando em coberturas de prédios, como se fosse quase cair. É, sem dúvida, um elemento básico para a compreensão do filme, ou seja, suas especificações narrativas também pertencem a um determinado período, que o diretor Hooper consegue traduzir para a vertente contemporânea, sem apagar seu elemento histórico.
É bem verdade que exatamente este romantismo exacerbado acaba diminuindo a intensidade da segunda metade, quando Cosette e Marius se apaixonam e, em meio à Revolução de 1832, cantam declarações de amor, enquanto Varjean se conscientiza de que poderá perder sua filha adotiva para outro homem. Nesses momentos, Hooper não consegue contrabalançar da maneira mais coesa o canto de amor com as cenas de revolução (aliás, apesar de apressadas, muito bem feitas), tirando um pouco Os miseráveis do caminho que adotara até então, assinalado ainda por um final um tanto abrupto, embora o filme tenha 158 minutos. Mas não se trata de um equívoco capaz de atrapalhar o filme, pois não se percebe a duração. Pelo contrário: como poucos musicais desde os anos 70, Os miseráveis convida a um novo olhar.

Les misérables, Reino Unido, 2012 Diretor: Tom Hooper  Elenco: Hugh Jackman, Russell Crowe, Anne Hathaway, Amanda Seyfried, Sacha Baron Cohen, Helena Bonham Carter, Eddie Redmayne, Samantha Barks, Aaron Tveit, Colm Wilkinson Roteiro: William Nicholson, baseado na obra de Victor Hugo Fotografia: Danny Cohen Trilha Sonora: Claude-Michel Schönberg Duração: 158 min. Distribuidora: Paramount Pictures Brasil Estúdio: Working Title Films / Cameron Mackintosh Ltd.

Cotação 4 estrelas