Fargo (1996)

Por André Dick

Os Oscars de melhor atriz (Frances McDormand) e roteiro original, além do prêmio de melhor direção em Cannes, fizeram de Fargo o filme mais bem-sucedido dos Coen antes de Onde os fracos não têm vez. Donos de um estilo próprio no cinema independente americano, Joel, que até então (quando não se podia assinar em parceria) assinava a direção, e seu irmão Ethan, com quem escreve o roteiro e produz, formam, desde Gosto de sangue, uma referência, e, depois de duas obras particularmente estranhas – o instigante Ajuste final e Barton Fink –, eles tratam, aqui, dentro do mesmo limite a que se propõem, de um faroeste contemporâneo.
Este faroeste (daqui em diante spoilers), em que não se sabe ao certo quem são os heróis e quem são os vilões, mas sempre com um personagem que traz uma espécie de indicação moral, um vendedor de carros, Jerry Lundegaard (William H. Macy), contrata dois bandidos, Carl Showalter (Steve Buscemi), e Grimsrud (Peter Stormare), apresentados por seu mecânico Shep Proudfoot (Steve Reevis), para cometer um crime: o sequestro de sua própria esposa, Jean (Kristin Rudrüd). O encontro é num bar de Fargo, Dakota do Norte, e pretende pagar suas dívidas com o dinheiro do resgate, pedido ao sogro, Wade Gustafson (Presnell), o qual promete repartir com os sequestradores.

Estamos perto de uma situação surreal dentro do cotidiano, parecida com aquelas que movimentam Arizona nunca mais e Barton Fink, dois dos melhores filmes dos Coen. Há não apenas uma falta de equilíbrio para os personagens, como ela acaba tendo acesso a todos os meandros da narrativa. Contudo, é interessante que enquanto nesses dois filmes, assim como em outros dos Coen, a exemplo de E aí, meu irmão, cadê você?, o clima aqui não é quente: os personagens estão num cenário glacial e com aparência longínqua, afastada de toda a civilização. Eles não chegam a se comportar, sob esse ponto de vista, de maneira comum, e sim parecem estar sempre sob uma pressão externa, que faz o ambiente esquentar consideravelmente. Esta situação se desenha pela necessidade de cada personagem de extravasar sua própria loucura – e enquanto os bandidos parecem, a princípio, ágeis, com o passar do tempo, eles lembram mais a dupla de assaltantes atrapalhada de Arizona nunca mais;. Sim, os Coen não conseguem fugir a uma espécie de tragédia cômica em seus melhores momentos, que os transformaram em referências. Obras como Onde os fracos não têm vez e Bravura indômita também iriam adquirir este espaço em que o heroísmo costuma ser visto como uma extensão da humanidade.

Depois de iniciarem a trajetória para Minneapolis, os marginais, sem ligarem para o fato de que Jerry muda de ideia no último minuto a respeito do sequestro, ou seja, sem antecedência o suficiente para matá-lo, matam um policial em Minessota, quando são parados na ida para o cativeiro.
A delegada Marge Gunderson (Frances McDormand, ótima, num papel incomum) chega à cena do crime, fotografada com uma tristeza desoladora por Roger Deakins (habitual colaborador dos Coen, quase parte de sua identidade visual) e começa a investigar o caso, indo parar na concessionária onde Jerry trabalha. Casada com um pintor de selos, Norm (John Carroll Lynch), a delegada esbanja bondade: almoça com velhos amigos, aguarda o marido preparar o café antes de ir trabalhar, não liga para a incompetência de seus policiais, tudo a fim de garantir uma gestão tranquila para seu bebê. Marge é a única personagem no filme que tem um posicionamento de alegria e mesmo esperança diante do mundo, mas ela apenas aparenta ser ingênua. Quando soa o sotaque caipira, e quando se parece debochar dela, nesse instante ele consegue observar todos os detalhes e seguir as pistas mais elaboradas.

É ela o símbolo desse cinema dos Coen, em que o personagem menos talhado para as definições se torna a referência para que o mundo se transforme, nem que seja circunscrito a um pedaço que parece insignificante da América. Todas as situações provocadas pelo erro do sequestro acabam retornando como peças desastradas de um panorama mais amplo desta sociedade, em que há, por um lado, uma certa falta de vigor explícita no que toca a humanidade e uma extrema aridez quando se precisa chegar a temas mais delicados. O mundo do crime se contrapõe decisivamente àquele café da manhã de Maggie com o marido e a tranquilidade da gravidez. Maggie parece suportar a investigação porque, assim como as camadas de roupa, ela guarda sempre uma camada de recolhimento, que nunca sai dos limites de sua casa e das pinturas do marido. Por isso, de certo modo, ela acaba sendo o esteio da obra.
As outras figuras são dominadas pela paranoia do dinheiro: o marido traidor, seu sogro que quer ser valente, os bandidos covardes (um deles sanguinário). Os irmãos Coen dão um tratamento a cada personagem, ressaltando suas características emocionais, mesmo que sejam mostradas com violência. Algumas cenas podem assustar pelo banho de sangue, característica dos Coen, no entanto a trama é conduzida de maneira tão competente que é difícil não se render ao brilhantismo do filme.

Fargo, EUA, 1996 Diretor: Joel Coen Elenco: William H. Macy, Steve Buscemi, Frances McDormand, Peter Stormare, Kristin Rudrüd, Harve Presnell, John Carroll Lynch, Steve Reevis Roteiro: Ethan Coen Fotografia: Roger Deakins Trilha Sonora: Carter Burwell Produção: John Cameron Duração: 98 min. Estúdio: Company PolyGram Filmed Entertainment, Working Title Films Distribuidora: Gramercy Pictures

Fome de poder (2017)

Por André Dick

Em Fome de poder, uma cinebiografia sem os elementos típicos do gênero, Michael Keaton interpreta Ray Kroc, um vendedor ambulante que avança pelas estradas do interior dos Estados Unidos em 1954, vendendo aparelhos de milk-shake. O início parece lembrar um pouco as imagens de Carol, um road movie, sem a tentativa, no entanto, de estabelecer sentimentos entre os personagens – o que eles têm a apresentar são negócios a serem concretizados. Por causa de um pedido maior do que o comum, Kroc viaja até San Bernardino, Califórnia. Lá ele conhece a primeira lanchonete do McDonald’s, assim como os irmãos que a projetaram, Maurice (John Carroll Lynch) e Richard McDonald (Nick Offerman). Apresentado aos bastidores da criação, logo tem interesse em fazer parte do projeto, visualizando uma possível franquia capaz de se estender por todo o país. Para isso, ele tenta convencer quem não pensa o mesmo. Com a esposa Ethel (Laura Dern) como fonte de apoio, Kroc tenta encontrar, afinal, um negócio capaz de fazê-lo se consagrar.

Essa linha de argumento lembra bastante A rede social, quando Sean Parker visualiza de fora a criação de Zuckerberg e tenta convencê-lo a expandir sua ideia. Roy é do tipo compenetrado, que não deseja fazer mais nada depois de vislumbrar essa possibilidade de realmente ganhar dinheiro. Vendo como os hambúrgueres e as batatas fritas são preparados, ele pretende aplicar o mesmo rigor em todas as unidades que deseja abrir depois de assinar um contrato com os irmãos inventores. Como extrair potencial de uma história que parece mais inclinada a um documentário sobre negócios a serem feitos? Sobre a empresa que popularizou o fast-food?
Se Fome de poder tem um grande mérito é a atuação de Michael Keaton, fazendo jus a seu grande momento no cinema, logo depois de Birdman e Spotlight. Ao contrário desses filmes, no entanto, Keaton volta a apresentar certos trejeitos de Beetlejuice. Ele faz um sujeito que não é exatamente antipático, mas bastante frio em seu modo de comportamento, com uma certa alegria calculada. Isso não muda quando conhece o proprietário de um restaurante, Rollie Smith (Patrick Wilson), e sua esposa Joan (Linda Cardellini); pelo contrário: tudo se mostra conforme seu planejamento. É interessante como Kroc visualiza a empresa a ser colocada em expansão como um símbolo dos Estados Unidos e uma espécie de lugar onde não as famílias se reúnem, mas uma comunidade. Nesse sentido, aponta-se que Fome de poder trabalha bem com as potencialidades temáticas, mesmo que nunca ingresse naquele campo que Linklater trabalhe com impacto em Fast food nation, sobre os bastidores dessa indústria.

O diretor John Lee Hancock fez há alguns anos um filme visualmente muito parecido – outro grande mérito de sua direção –, chamado Walt nos bastidores de Mary Poppins. Se lá ele mostrava como agia o criador Walt Disney, aqui ele revela como iniciou a rede de lanches internacional que é lembrada principalmente pela efetiva entrega de seus produtos para consumo num curto espaço de tempo. Seria algo previsível não fosse a maneira como Hancock filma, com bela fotografia de John Schwartzman e trilha sonora de Carter Burwell (e os 25 milhões de orçamento aparecem na tela).
Ele, infelizmente, não recebe um roteiro, escrito por Robert D. Siegel, sem arestas, problema com o qual já lidava em Um sonho possível, o que é lamentável quando se lembra que realizou a história de uma das melhores obras de Clint Eastwood, Um mundo perfeito. Quando as coisas mudam drasticamente no momento em que Ray conhece Harry Sonneborn (BJ Novak), um consultor financeiro que o leva a um caminho específico capaz de inserir Fome de poder em vários temas, como fidelidade, ganância, traição, mas não explica exatamente por que, por exemplo, Crok nunca se reúne com os irmãos McDonald, conversando com eles apenas por telefone (e nem eles demonstram especial interesse pelo que Crok está fazendo), ou por que sua esposa jamais chega a frequentar o seu negócio brilhante. Nesse ponto, os atores, de modo geral, são subaproveitados, a começar por Laura Dern, embora Carroll Lynch e Offerman sejam convincentes e Cardellini discretamente insinuante.

Principalmente por causa de Keaton, o filme transita entre as aspirações de uma pessoa ao grande sonho americano e a maneira como ela tenta possuir o sonho de outra sem ter exatamente o merecimento disso. Hancock desenha uma linha tênue, em que vemos um Crok extremamente dedicado, enquanto os irmãos McDonald parecem até acomodados, e na qual os personagens parecem estar atrás dele em termos de agilidade e esperteza. Não deixa de ser uma limitação narrativa, principalmente quando a obra desenha seu arco final, talvez não mostrando exatamente como as coisas aconteceram e sim como Hancock imagina que causaria um impacto maior no espectador. Ainda assim, é interessante como o diretor desenha essa visão gloriosa de uma marca que é comparada a outras instituições marcantes de uma cidade com uma visão até certo ponto bastante sombria e pouco alegre, mesmo com o sol quase sempre brilhando e os arcos dourados reluzindo à noite. É um filme sobre parte da história dos Estados Unidos por meio de uma marca. Se não chega a ser uma propaganda (pergunta-se se não seria uma antipropaganda), Fome de poder atinge elementos de cinema de qualidade.

The founder, EUA, 2017 Diretor: John Lee Hancock Elenco: Michael Keaton, Nick Offerman, John Carroll Lynch, Linda Cardellini, Patrick Wilson, B. J. Novak, Laura Dern Roteiro: Robert D. Siegel Fotografia: John Schwartzmann Trilha Sonora: Carter Burwell Produção: Don Handfield, Karen Lunder, Jeremy Renner, Aaron Ryder Duração: 115 min. Distribuidora: Weinstein Company Estúdio: FilmNation Entertainment, The Combine, Faliro House Productions S.A.

 

Jackie (2016)

Por André Dick

jackie-filme-7

Depois de receber o Oscar de melhor atriz por Cisne negro, Natalie Portman poucas vezes teve seu talento novamente aproveitado, e se destacou, nos últimos anos, especialmente nos poucos minutos de tela em Cavaleiro de copas, de Malick, como uma das namoradas do roteirista de Hollywood Rick, feito por Christian Bale. É uma participação quase sem falas, baseada em gestos, e que Portman converte numa das melhores de sua carreira, que inclui ainda peças como O profissional, dos anos 90, as prequelas de Star Wars, Closer, V de Vingança e os dois filmes da série Thor. Uma grande atriz não precisa percorrer a calçada da fama e estar presente em tweets todos os anos como Meryl Streep: é em papéis específicos que ela consegue brilhar como poucas outras em toda a sua carreira. Neste filme do chileno Pablo Larraín, ela interpreta Jacqueline Kennedy, esposa de JFK quando aconteceu o assassinato mais tempestuoso dos Estados Unidos na década de 60, que repercute até hoje.
Basicamente, é o relato de Jackie ao jornalista Theodore H. White (Billy Crudup), quando ela lembra dos acontecimentos que marcaram o dia fatídico com seu marido e presidente (feito por Caspar Phillipson) e o que transcorreu depois, com a posse de Lyndon Johnson (John Carroll Lynch), ao lado da esposa Lady Bird (Beth Grant), a ligação com Bobby (Peter Sarsgaard), irmão do presidente, e sua amizade com a secretária social Nancy Tuckerman (Greta Gerwig) e Bill Walton (Richard E. Grant). Todas essas ligações vão se desenhando de maneira interessante pelas lentes de Larraín, captando uma atmosfera de desespero e consternação diante do ocorrido.

jackie-12

jackie

jackie-4

Para uma obra que parece um relato histórico, Jackie possui uma profundidade no drama, graças à maneira como Portman se apresenta longe e à frente das câmeras. Ela concede uma grandeza trágica a essa primeira dama, e suas conversas com Bobby e a secretária social se transformam em referências para entendê-la, assim como quando conversa com um padre (John Hurt, excelente, em um dos seus últimos papéis). Tudo isso poderia resultar em apenas um dos tantos relatos históricos cansativos que assistimos na televisão, em que se eliminam as falhas da figura evocada para tecer um panorama perfeito.
Larraín é um diretor de talento, como já havia mostrado na sua análise sobre a disputa política em No, e já havia trabalhado no gênero de cinebiografia com Neruda, um dos favoritos ao Oscar de filme estrangeiro antes de anunciarem os pré-finalistas, contudo mais exatamente no primeiro não exibia o domínio narrativo que possui aqui. Jackie é uma obra belíssima, no sentido tanto das atuações, principalmente de Portman, capaz de rivalizar com a atuação de Huppert, quanto na parte técnica. A trilha sonora de Mica Levi (que antes apresentara um trabalho excêntrico em Sob a pele) e a fotografia de Stéphane Fontaine (de Elle) ajudam a dar uma sustentação notável, assim como o design de produção da Casa Branca: cada elemento está ali para agir em conjunto com o restante.

jackie-filme-4

jackie-15

jackie-filme-5

Além de Larraín extrair grandes atuações de todo o elenco, o que mais chama atenção, contudo, é a maneira como o cineasta transmite as sensações de cada personagem. Há um sentido de solidão diante do inesperado, uma angústia que não consegue se desprender do corpo e puxa o enfrentamento de toda uma existência. Jackie, depois do acontecimento, vê toda sua vida se transformar em horas, e o que lhe resta é tentar projetar imediatamente o que pode acontecer a seguir. O roteiro de Noah Oppenheim (o mesmo, surpreendentemente, de Maze Runner) é eficaz na maneira como liga passado e presente (o da entrevista) e como deixa algumas lacunas para o espectador preencher, sobretudo quando Jacqueline precisa preparar o enterro do marido. O político, que existia por exemplo em JFK, de Oliver Stone, acaba sendo diluído em meio a comportamentos de bastidores que oscilam entre o drama implacável e a simples necessidade de esquecer o que aconteceu.
Larraín transforma cenas aparentemente simples, como a chegada dos Kennedy ao Texas, numa aula de ligar cinema e história, sempre aproximando a câmera das reações de Jackie e dando oportunidade a Portman de entregar nuances que não seriam vistas de outra maneira. Outro bom momento, nesse sentido, é quando ela conversa com o motorista do carro que transporta o caixão de JFK e presencia o silêncio abalado de Bobby, uma figura que empunha determinado poder capaz de fazer Lyndon Johnson se curvar em sua cadeira e cujos negócios, como lembra Jackie, não são plenamente estabelecidos. O belo figurino que ela veste é como se fosse um contraponto à sua angústia, mais exatamente quando ela chega ao quarto da Casa Branca depois do assassinato e visualiza as manchas de sangue nele. Há uma primeira dama que aparece em frente às câmeras, forçando uma fala perfeita, quase robótica, e outra justificadamente abalada, nos bastidores.

jackie-filme-9

jackie-14

jackie-17

Mas atenta, principalmente, a alguns momentos-chave, por exemplo quando Jackie se limpa em frente a um espelho depois do atentado e quando testemunha a passagem de poder, como se estivesse, num prazo curto de tempo, saindo da história para ingressar no temido esquecimento. Muitas vezes, ela compara o que está acontecendo a ele com o que aconteceu a Abraham Lincoln, e há uma ligação disso com o momento em que ela e JFK recebem uma equipe de TV na Casa Branca para mostrar a reforma que foi realizada nela, em razão de Jackie, quando se criou um quarto e a conservação de peças históricos desse presidente referencial para a extinção da escravatura, como já vimos em Lincoln. Há breves entraves nessa sequência em relação ao restante da narrativa, assim como é mostrada a entrevista com o jornalista, que poderiam servir apenas como introdução.
No entanto, em relação a alguma tentativa de tornar as imagens de JFK e Jackie em irretocáveis, nada mais falso: a coragem aqui se mostra em revelar como o centro do poder desaba diante de uma tragédia incontornável para uma população e uma conversa gentil com os filhos se mostra o resquício de uma liberdade ainda a ser guardada. Larraín aprimora isso com a fotografia de Fontaine, que parece misturar os trabalhos de Malick, Noé e, sobretudo, Reygadas (principalmente nos tons das cores, a exemplo daquele momento em que Jacqueline corre atrás de seus filhos). O clima chuvoso de Washington, com suas árvores e gramados, com o clima fúnebre, também ajuda a transmitir, por outro lado, a angústia enfocada: todos esses elementos tornam Jackie num filme de raríssimo impacto.

Jackie, CHI/EUA/FRA, 2016 Diretor: Pablo Larraín Elenco: Natalie Portman, Billy Crudup, Peter Sarsgaard, Greta Gerwig, John Hurt, John Carroll Lynch, Beth Grant, Caspar Phillipson Roteiro: Noah Oppenheim Fotografia: Stéphane Fontaine Trilha Sonora: Mica Levi Produção: Ari Handel, Darren Aronofsky, Juan de Dios Larraín, Mickey Liddell, Pascal Caucheteux, Scott Franklin Duração: 100 min. Distribuidora: Diamond Filmes Estúdio: Jackie Productions / Jackie Productions (II)

cotacao-4-estrelas-e-meia

 

Zodíaco (2007)

Por André Dick

Zodíaco.Filme

O cineasta David Fincher, depois de realizar o subestimado Alien 3, regressou com Seven, que traz Brad Pitt e Morgan Freeman, como investigadores de um serial killer. Em Seven, os diálogos não se mostram tão importantes quanto o clima mórbido, com reviravoltas e uma experiência sensorial, cercada por uma galeria de mortes inspirada nos sete pecados capitais. Fincher pinta um retrato cruel da sociedade, sobretudo impactante. Depois de Clube da luta e Vidas em jogo, ele realizou O quarto do pânico, ainda tateando, indefinido, como nesses anteriores, entre a estética e a história bem contada, mostrando uma mãe (Jodie Foster) e sua filha (Kristen Stewart), com problema de asma, presas num quarto do pânico, por causa de um assalto que acontece em sua casa. Se há problemas narrativas, Fincher trabalha de forma notável o elemento claustrofóbico.
Em Zodíaco (daqui em diante, possíveis spoilers), Fincher volta ao clima de perseguição a um psicopata de Seven com todas as doses de suspense de que é capaz e consegue solucionar o clima de O quarto do pânico de forma efetiva. Mostra isso ao começar contando a história do assassino que se autonomeia Zodíaco (ele mandava cartas para jornais, incitando a polícia e novas vítimas), mas nunca consegue ser descoberto, ao longo de anos, mesmo investigado por um policial, David Toschi (Mark Ruffalo), acompanhado de William Armstrong (Anthony Edwards), sob o comando do Capitão Marty Lee (Dermot Mulroney).

Zodíaco.Filme 7

Zodíaco.Filme 12

Zodíaco.Filme 9

Esses investigadores ganham a parceria de Jack Mulanax (Elias Koteas), em Vallejo, e Narlow Ken (Donal Logue), em Napa. Todos os seus crimes são cometidos sem deixar pistas: inicia-se no dia 4 de julho de 1969, em meio a festividades dos Estados Unidos, com fogos de artifício riscando o escuro da noite e a quebra com a inocência dos anos 50 e 60 – depois de os personagens pararem numa lanchonete à la American graffiti –, e o mais impactante é um à beira de um lago, quando um casal é abordado pelo criminoso que surge por trás das árvores (com o Zodíaco desenhado em sua roupa), e sua tentativa mais assustadora aquela em que aborda uma mulher na estrada.
Fincher mostra a repercussão dos assassinatos do Zodíaco no San Francisco Chronicle, com a cobertura de um jornalista alcoólatra, Paul Avery (Robert Downey Jr., excelente). Todas as tramas ganham o interesse de um cartunista do jornal, Robert Graysmith (Jack Glylenhaal, no melhor papel de sua carreira, escolhido por Fincher depois de assistir a Donnie Darko), obcecado pelo caso e pela criptografia enviada pelo Zodíaco para provocar os leitores do jornal. Trata-se de um caso quase impossível e coloca até sua mulher, Melanie (Chloë Sevigny), e seus filhos em perigo para conseguir obter novas pistas, sobretudo quando a polícia se mostra cansada com a procura sem resolução.
Graysmith se torna amigo de Avery, tentando fazer parte da investigação, e são especialmente divertidos os momentos em que o jornalista diz a seu chefe que está sendo ameaçado. Além disso, Fincher, com seus ambientes amarelados, por meio do auxílio da excelente fotografia de Harris Savides, dialoga abertamente com Todos os homens do presidente, de Alan J. Pakula, sobretudo nos debates da redação sobre como os crimes do Zodíaco devem ser abordados. Também provoca suspense a procura para desvendar a caligrafia do assassino, com um especialista, Sherwood Morrill (Phillip Baker Hall), além de haver as tentativas de um apresentador de TV, Melvin Belli (Brian Cox), em estabelecer uma ligação com o assassino pretendendo antecipar suas ações.

Zodíaco.Filme 6

Zodíaco.Filme 5

Zodíaco.Filme 14

Ao contrário de Seven, não temos, aqui, crimes a serem solucionados da noite para o dia, mas uma indagação que percorre anos, décadas, desde os anos 1960, entrelaçando diferentes personagens interessados ou não pelo crime. Fincher não entrega qualquer resposta, pois no fim das contas quer relatar como uma história hedionda pode perpassar a própria atemporalidade das pessoas envolvidas, que vão do ápice ao desaparecimento, ou ao contrário, em segundos. Nesse sentido, sua aproximação de Memórias de um assassino, de Joon-Ho Bong, se destaca, com a obsessão da polícia em capturar um criminoso imprevisível durante anos (o filme de Fincher apenas tem menos humor). Quando surge Arthur Leigh Allen (John Carroll Lynch), essa sensação se mostra ainda mais presente. Aos poucos, cada policial começa a imaginar que as demais investigações só podem andar se o Zodíaco for preso; é como se ele fosse um impecilho em suas vidas. Do mesmo modo, Graysmith passa a se desentender com a mulher, à medida que, mesmo com filhos, concentra seu olhar numa possível investigação pessoal, trazendo para casa telefonemas anônimos. O tempo corre para todos, mas o espectador não o vê passar na Golden Gate Bridge, apenas na construção de edifícios e na passagem de datas assinalada pelo diretor, além de na clara construção psicológica dos personagens.
A cada pista não correspondida, Fincher não mostra nenhum mistério solucionado e cenas de perseguição gratuitas, mantendo-se mais no plano da investigação em cima de materiais enviado pelo Zodíaco ao jornal de San Francisco e nos documentos de delegacias e depoimentos. Ele parece interessado, muito mais, em cada personagem do que em Seven ou qualquer outro filme – talvez pela admiração que tem com os personagens reais, pois trata-se de uma história que habitou sua infância. Está lá também sua homenagem ao cinema, quando Graysmsith encontra Toschi na sala em que é exibido Dirty Harry – com Clint Eastwood –, cuja história tem ecos de Zodíaco. Toschi sai do cinema perturbado por exatamente não conseguir solucionar o crime que lembra o do filme.

Zodíaco.Filme 4

Zodíaco.Filme 3

Zodíaco.Filme 15

Numa metalinguagem sensível à obra de Fincher, mais bem solucionada do que normalmente, o diretor ainda mostra um encontro entre Graysmith e alguém que teria trabalhado com o assassino num cinema. Nele, pode-se dizer que Fincher brinca claramente com a obra de Hitchcock, quase sendo uma homenagem à parte. Mais interessante é que surge uma amizade também entre Graysmith e Toschi, e a habitual competência de Ruffalo para compor papéis cotidianos com sensibilidade cria um grande vínculo com a insistência cercada de ingenuidade de Glyllenhall.
Como em O curioso caso de Benjamin Button, A rede social e Millennium, Fincher está interessado na progressão que cada um desses personagens tem para a história e na história, deslocando-se de uma década para a outra sem nenhum sobressalto, mas como se tudo fosse atemporal. Isso ganha a colaboração da excelente trilha sonora e da fotografia de Savides. Se em seu início a estética crescia sobre o roteiro e os personagens, em Zodíaco Fincher começa a atingir o equilíbrio. Com isso, revela-se, em toda sua abrangência, a obsessão pelos detalhes e pelos personagens complexos. E ainda revela mais: um dos artesãos mais sensíveis que o cinema ofereceu nos últimos 20 anos, pelo menos.

Zodiac, EUA, 2007 Diretor: David Fincher Elenco: Jake Gyllenhaal, Mark Ruffalo, Anthony Edwards, Robert Downey Jr., Brian Cox, John Carroll Lynch, Richmond Arquette, Bob Stephenson, John Lacy, Chloë Sevigny, Elias Koteas, Dermot Mulroney, Philip Baker Hall, David Lee Smith, J. Patrick McCormack, Adam Goldberg, James LeGros Roteiro: James Vanderbilt Fotografia: Harris Savides Trilha Sonora: David Shire Produção: Ceán Chaffin, Brad Fischer, Mike Medavoy, Arnold Messer, James Vanderbilt Duração: 158 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Paramount Pictures / Warner Bros. Pictures / Phoenix Pictures

Cotação 5 estrelas

 

Chamada.Filmes dos anos 2000