Anos 90 (2018)

Por André Dick

Ator que se destacou inicialmente em filmes de Judd Apatow (a exemplo de O virgem de 40 anos e Ligeiramente grávidos) e que depois empreendeu uma trajetória peculiar, fazendo desde Superbad, passando por O homem que mudou o jogo, até O lobo de Wall Street e Cães de guerra, além da boa série Anjos da lei, com êxito incomum nas bilheterias, Jonah Hill faz sua estreia na direção em Anos 90, produzido pela A24, uma distribuidora de filmes independentes que têm se destacado nos últimos anos, a exemplo de Lady Bird e Projeto Flórida. Pode-se afirmar que há uma tentativa de mesclar Harmony Korine (que faz uma ponta nele), de peças como Gummo e autor de Kids, com Richard Linklater, aquele de Jovens, loucos e rebeldes, no entanto com elementos realmente particulares.
Embora tenhamos Katherine Waterston e Lucas Hedges como a mãe, Dabney, e o irmão, Ian, do personagem principal, Stevie, de 13 anos, interpretado com êxito por Sunny Suljic, que se encontra na vida fazendo amizade com um grupo de skatistas, Hill nunca os utiliza de maneira previsível. Primeiramente, ele mostra as dificuldades de relacionamento entre os irmãos. Há uma adoração de Stevie por Ian, na tentativa de descobrir suas preferências musicais, no entanto quando os conflitos se encadeiam são inevitáveis.

Solitário, Stevie encontra uma saída dese universo num no grupo liderado por Ray (Na-kel Smith), tendo o agressivo e mais próximo de sua idade Ruben (Gio Galicia), “Fuckshit” (Olan Prenatt) e “Fourth Grade” (Ryder McLaughlin). Stevie é um menino que tem o cobertor de as Tartarugas Ninja, remetendo diretamente à década do título, no entanto passa por conflitos internos que se reproduzem na relação problemática com o irmão e a mãe quando esta lhe pede para se afastar dos amigos e desperta uma mágoa. A história é quase uma versão masculina de Soul Kitchen, sobre um grupo de meninas skatistas, também marcante e que não chegou aos cinemas brasileiros, pelo menos até agora.
Anos 90 baseia sua qualidade no ótimo elenco. Isso não parece com obras sobre a adolescência feitos em Hollywood, seja dramáticos ou bem-humorados, como o próprio Superbad do qual Hill participa. É mais soturno, com uma fotografia pouco atrativa, que, por outro lado, oferece certo realismo, e utiliza uma trilha da dupla Trent Reznor e Atticus Ross, responsável por aquela notável de A rede social. Para um filme passado na ensolarada Los Angeles, ele parece exatamente um contraponto ao clima da cidade, com o uso do cinza e de um céu nunca azul, além de prédios que parecem tirar o espaço de cada um desses skatistas, à procura de pistas e lugares vazios para fazer suas manobras. Esses jovens estão dispersos: nunca vemos como são suas vidas familiares, nem se destaca a personalidade de cada um. Em meio a tudo, eles acabam desenhando a proximidade de Stevie do skate, atraindo para um universo no qual pode encontrar liberdade, lembrando em alguns momentos As patricinhas de Beverly Hills, sem o mesmo humor. A loja de skate onde se encontram passa a ser sua casa.

A fotografia em 16mm na proporção 4:3 de Christopher Blauvelt (lembrando um filme antigo) e a trilha (sem canções em excesso querendo referenciar o período enfocado), enlaçadas, produzem uma sensação de aproximação da década mencionada, porém, ao mesmo tempo, uma volta nostálgica a um esporte que praticamente se consolidou nela. É uma época pré-internet e celulares, na qual havia mais inter-relações na fase da adolescência, sobretudo, e uma simples tentativa de pertencer a um grupo ajudava a constituir uma personalidade, mais do que servir de referência para algo que se pudesse fazer. Stevie, de certo modo, é uma espécie de símbolo dessa passagem da infância para a adolescência, na qual o universo ao redor se mostra mais confuso quando o contexto parece ser mais delicado do que se imagina. Não por acaso, ele é apelidado de “Sunburn”. Hill não chega a explorar, também pela duração de seu filme ser curta (apesar de na medida), outros temas para além daquele da relação do menino com a família  e com os amigos, porém, dentro de sua perspectiva, é bastante eficiente. Os diálogos dele com o líder do grupo, interpretado com afeto por Na-kel Smith, são verdadeiramente autênticos, assim como o duelo que trava com o amigo que o levou a este universo, com receio de perder espaço para alguém mais corajoso na hora de efetuar algumas manobras no skate. De forma mesmo inesperada, vemos em Jonah Hill um autor em meio à leva de novos cineastas, propenso a apresentar uma época com sensibilidade rara.

Mid90s, EUA, 2018 Diretor: Jonah Hill Elenco: Sunny Suljic, Lucas Hedges, Na-Kel Smith, Olan Prenatt, Gio Galicia, Ryder McLaughlin, Alexa Demie, Katherine Waterston Roteiro: Jonah Hill Fotografia: Christopher Blauvelt Trilha Sonora: Trent Reznor e Atticus Ross Produção: Eli Bush, Jonah Hill, Ken Kao, Scott Rudin, Lila Yacoub Duração: 85 min. Estúdio: A24, Waypoint Entertainment, Scott Rudin Productions Distribuidora: A24

Lady Bird – A hora de voar (2017)

Por André Dick

Lançado no Festival de Sundance de 2017 e desde então elevado pela crítica a ponto de chegar a indicações principais ao Oscar, Lady Bird, de Greta Gerwig, é um filme sobre a adolescência com vários elementos que já vimos antes. São organizados de maneira a fazer o espectador sentir uma espécie de nostalgia, assim como as obras dos anos 80 de John Hughes e do recente e excepcional As vantagens de ser invisível e de Quase 18, em que uma jovem gosta de um colega sem saber ao certo o motivo. Saoirse Ronan interpreta Christine McPherson, mais conhecida pelo nome-título, filha de Marion (Laurie Metcalf) e Larry (Tracy Letts), que tem um irmão, Miguel (Jordan Rodrigues), adotado. Ela estuda numa escola secundária religiosa de Sacramento, onde sua melhor amiga é Julie Steffans (Beanie Feldstein). Ambas resolvem entrar no grupo de teatro escolar, com o padre Leviatch (Stephen McKinley Henderson) à frente, onde Lady Bird conhecerá Danny O’Neill (Lucas Hedges). Essas inter-relações de Lady Bird levam a um conflito frequente com a mãe e a uma tentativa de sempre compreender sua melhor amiga. E ela não gosta da cidade onde vive, pois queria ter uma experiência artística em Nova York ou qualquer outro lugar.

Gerwig, assim como no roteiro que ajudou a escrever com seu marido Noah Baumbach, também diretor, em Frances Ha, mostra uma generosidade com esse sentimento de uma pessoa querendo sair da adolescência e entrar na vida adulta. A personagem, aqui, pretende ingressar numa boa universidade, mas sem deixar a essência para trás. Entre descobertas e paixões, também com o jovem de uma banda de música, Kyle Scheible (Timothée Chalamet, infelizmente a peça menos funcional do elenco), Lady Bird tende a descobrir que seu microuniverso se estende a um cosmos do qual não chegava a ser admiradora e se aproxima de Shelly (Marielle Scott), a namorada do irmão.
Além de tudo, o filme possui uma montagem muito criativa, com cenas curtas e ainda assim eficazes. Embora nos primeiros 15 minutos há certos maneirismos e referências claríssimas a Eleição, de Alexander Payne, aos poucos mesmo eles vão se encaixando nos personagens. Ronan, desde Brooklyn, possui uma grande empatia com o público e aqui se destaca realmente como uma atriz capaz de sustentar a história. Suas amizades e romances são visivelmente elementos autobiográficos de Gerwig. Quando a personagem começa a tentar deixar de lado sua antiga amiga, para se tornar próxima de Jenna (Odeya Rush), isso não vem sem uma determinada pré-condição de que ela consegue se aceitar, nem a si, nem sua família. Há elementos aqui que Gerwig explorou no roteiro de outro filme que fez com Baumbach, Mistress America, mas neste ela ainda mantinha uma certa aura cultural que não satisfazia aos seus objetivos, nem havia propriamente uma fluidez na história.

Gerwig insere seus personagens num equilíbrio entre a transgressão (querer ser rebelde) e a permanência (a tradição da família), não sem uma boa porção de gags, visuais sobretudo, em peças de teatro exageradas. No roteiro, há um humor agridoce que Gerwig traz também de Mulheres do século 20, no qual faz uma jovem também de cabelo tingido, como Lady Bird, ajudando uma amiga a criar seu filho adolescente. Com uma mescla de nuances e sobreposições de tempos que remetem aos melhores momentos recentes de Malick (quando várias festas de fim de ano passam e Lady Bird procura emprego), sem o uso de voice overs, por outro lado, a narrativa se constrói de maneira interessante e sem, embora aparente, um elemento pop. Para um olhar superficial, trata-se apenas de um filme sobre a vinda da adolescência, como se costuma falar.

No entanto, vendo-se atentamente, Lady Bird representa uma espécie de transição entre sentimentos passageiros e outros mais duradouros. O que está para se passar na vida dela é justamente esse sentimento de que os indivíduos não são construídos também por seu núcleo (familiar, escolar etc.): Greta mostra com sensibilidade de que não há possibilidade de um indivíduo ser alguém distanciado de tudo para se entender, e com isso vem o elemento da sexualidade. O momento em que ela percebe que o espaço da escola se desloca para outros lugares é o momento exatamente de compreender que as gags proporcionadas pela primeira parte não se sustentam longe de um conhecimento existencial. Há cenas significativas que parecem descompromissadas, como aquela da festa de colégio em que todos estão vestidos com roupas de Velho Oeste e há cactus luminosos: Lady Bird mostra visão sobre o interior dos Estados Unidos e de como a religião da escola onde ela estuda simboliza a época posterior dos confrontos dessa região.

Em razão de um roteiro simples e personagens mais ainda, no entanto sem nunca perder um elemento de humanidade que normalmente é esquecido na maior parte dos filmes, por meio de um elenco cuja simpatia conta muito (Tracey Letts, Stephen McKinley Henderson e Beanie Feldsteine de forma destacada), Lady Bird realmente consegue voar. Aqui, a passagem para as novas gerações não traz conflito, e sim aceitação, mesmo que por vezes dolorosa. A sequência final, na qual temos um vínculo com a primeira parte da narrativa, deixa a personagem e o espectador em suspenso, devido à sua fragilidade, e a química entre Ronan e a ótima Metcalf indica essa progressão. Para Greta, o início da vida adulta não significa mais do que entender quem nos formou, independente de qual seja a aceitação. Para muitos, isso pode ser uma obviedade: não para quem viveu a adolescência e sabe que ninguém nasce com uma linguagem independente dos demais. Lady Bird, no fundo, trata disso como poucos filmes a respeito de sua faixa etária: nós somos feitos de um sentimento universal e é isso que nos faz, de fato, humanos.

Lady Bird, EUA, 2017 Diretora: Greta Gerwig Elenco: Saoirse Ronan, Laurie Metcalf, Tracy Letts, Lucas Hedges, Timothée Chalamet, Beanie Feldstein, Stephen McKinley Henderson, Lois Smith, Jordan Rodrigues, Marielle Scott Roteiro: Greta Gerwig Fotografia: Sam Levy Trilha Sonora: Jon Brion Produção: Scott Rudin, Eli Bush, Evelyn O’Neil Duração: 93 min. Estúdio: Scott Rudin Productions, Management 360, IAC Films Distribuidora: A24, Universal Pictures Release date

 

Três anúncios para um crime (2017)

Por André Dick

Visto como um dos grandes favoritos ao Oscar depois de ser escolhido como melhor filme no Festival de Toronto, Três anúncios para um crime estende aos Estados Unidos a trajetória de seu diretor britânico, Martin McDonagh, mais conhecido por Na mira do chefe e Sete psicopatas e um shih tzu. McDonagh tem um certo estilo situado entre o humor corrosivo e o policial, fazendo de certos artifícios previsíveis uma possibilidade de rever certa tradição dentro de gênero. Em seu novo filme, ele mostra uma mãe divorciada, Mildred Hayes (Frances McDormand), que, descontente com o fato de que nunca descobriram o responsável pelo assassinato de sua filha adolescente, Angela (Kathryn Newton), decide alugar três outdoors com Red Welby (Caleb Landry Jones), com um recado para a polícia de Ebbie, Missouri, onde mora. Ela vive com o filho Robbie (Lucas Hedges) e se desentende constantemente com o ex-marido, Charlie (John Hawkes). Sua melhor amiga é Denise (Amanda Warren). Todos parecem entendê-la; ela também entende a todos, mesmo que não queira deixar isso claro. Ao mesmo tempo, joga sinuca às vezes com James (Peter Dinklage, ótimo). Sua maior qualidade não é exatamente a simpatia, e McDormand parece não mostrar aqui as qualidades que lhe deram o Oscar de melhor atriz em Fargo e sim os sentimentos de secura encontrados em sua personagem, por exemplo, de Moonrise Kingdom.

Por meio do protesto, o principal alvo é o xerife Bill Willoughby (Woody Harrelson, entre o ingênuo e o patético, com grande eficácia), sempre acompanhado pelo oficial Jason Dixon (Sam Rockwell). Este é acusado de castigar afrodescentes na delegacia, no entanto McDonagh não chega a mostrá-lo fazendo isso, tentando capturar uma ambiguidade que certamente leva a muitas reclamações em relação ao roteiro. Enquanto Bill vive com a mulher, Anne (Abbie Cornish), e as duas filhas, numa fazenda com estábulos e muitos cavalos, Jason vive com sua mãe (Sandy Martin), com problemas visíveis de saúde, embora tão problemática quanto seu filho.
Se os dois primeiros atos mesclam drama e humor de maneira adequada – e o personagem de Dixon é o principal motivo para sustentar a combinação –, parece que o grande momento do filme é a partir da meia hora final, e ela acaba oferecendo mais sentido a toda a narrativa de McDonagh. Visivelmente influenciado pelos irmãos Coen, a personagem Mildred é desagradável, graças a uma performance fria de McDormand, mas tem um clímax bem desenvolvido. E, pelo menos antes, há uma sequência magnífica em que ela avista um cervo perto de um dos outdoors, que parece mesclar exatamente o passado e o presente. Harrelson e Rockwell não chegam a ter um roteiro em conjunto, mas, separados, conseguem render bons momentos, sobretudo na leitura de uma determinada carta, condicionando o espectador a uma cena típica dos irmãos Coen e realizada com grande êxito em termos de timing. Há algumas gags envolvendo o personagem de Dinklage que funcionam por exatamente não aplicar o politicamente correto, embora em nenhum momento sigam um caminho de desconsideração a certos comportamentos. A nova namorada de Charlie, Penelope (Samara Weaving), representa bem isso.

O mais interessante é como McDonagh mostra a reação dos personagens ao protesto de Mildred. O xerife tem um certo problema de saúde e faz chantagem emocional com ela, no que não tem êxito, e sua relação com a mulher tem uma emoção calibrada (Cornish também atua bem). Uma determinada sequência passada no estábulo de sua fazenda é cortante, tanto pela atuação de Harrelson quanto pela atmosfera campestre de afastamento de tudo. Já Dixon tem uma reação exasperada ao ver os cartazes e completamente descontrolado e desligado de qualquer racionalidade. Por isso, o que acontece a ele revela não a tentativa de transformá-lo em outra figura e sim numa espécie de símbolo de certo desconhecimento de si mesmo. McDonagh, de maneira bem-humorada, inclui tanto uma carta quanto uma briga de pub convincente para acordá-lo.
Desse modo, o roteiro de McDonagh trata da raiva internalizada e a passividade de personagens. Em meio a um cenário perdido no meio do nada, destacado pela trilha sonora de Carter Burwell, parece um faroeste fora de época e possui cenas de violência bem inseridas no contexto. As feridas dos personagens, antes nunca expostas, começam a se avolumar com uma contundência fora de série. Quem com ferro fere, com ferro será ferido, parece estar inscrito nas iniciais desses personagens.

Nisso, Mildred é a representação da mudança que deseja inserir movimento numa paragem quase em forma de natureza morta, destacando-se nisso a atuação de Rockwell, no final de contas talvez a mais expressiva depois de um começo mais caricato. Para isso, a fotografia de Ben Davis colabora de maneira decisiva. Ebbing é vista como uma cidade idílica; por baixo, ela esconde problemas que caracterizam muitas cidades grandes. A violência gera violência nesse lugar afastado de tudo, porém pode apaziguar a transmissão dessa violência para outros lugares. No entanto, ao mesmo tempo, para McDonagh, não há reais mudanças, o que não equivale a dizer que elas não devem ser procuradas. A boa impressão em relação a Três anúncios é de que ele é absolutamente estranho, no mínimo original, e, apesar de não parecer a aclamada obra-prima como foi recebido, é um dos melhores momentos do cinema norte-americano nos últimos anos.

Three billboards outside Ebbing, Missouri, EUA/ING, 2017 Diretor: Martin McDonagh Elenco: Frances McDormand, Woody Harrelson, Sam Rockwell, John Hawkes, Peter Dinklage, Caleb Landry Jones, Lucas Hedges, Abbie Cornish, Amanda Warren, Sandy Martin, Samara Weaving, Kathryn Newton Roteiro: Martin McDonagh Fotografia: Ben Davis Trilha Sonora: Carter Burwell Produção: Graham Broadbent, Pete Czernin, Martin McDonagh Duração: 115 min. Estúdio: Blueprint Pictures, Fox Searchlight Pictures, Film4 Productions, Cutting Edge Group Distribuidora: Fox Searchlight Pictures

Manchester à beira-mar (2016)

Por André Dick

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Poucos filmes conseguem transformar uma narrativa simples em algo mais elaborado. Lançado em 2011, Margaret, de Kenneth Lonergan, tinha essa qualidade. A nova obra do diretor, Manchester à beira-mar, também a possui: Lonergan é um cineasta para o qual importam pequenos gestos, algumas reações repentinas e nem sempre explicadas e possui a grande qualidade de extrair atuações interessantes de seu elenco. Em Margaret, tínhamos grandes atuações de Anna Paquin e Mark Ruffalo, além de trazer Matt Damon e Allison Janney, numa história que mesclava a necessidade de responder por um momento importante para a vida de várias pessoas, assim como o despontar de uma jovem para a vida adulta de maneira irremediável.
Já em Manchester, a narrativa se concentra na trajetória de Lee Chandler (Casey Affleck), que trabalha, muito a contragosto, como zelador em Quincy, Massachusetts. Lidando com certa antipatia com clientes, ele, depois do trabalho, costuma ir ao bar e esquecer das questões que o envolvem. Num determinado dia, ele recebe a notícia, por meio de George (CJ Wilson), de que seu irmão Joe (Kyle Chandler), dono de um navio pesqueiro em Manchester, na costa de Massachusetts, sofreu um ataque cardíaco. O reconhecimento do corpo é o início para se reconhecer o que Lee enfrentou na vida pessoal para que chegasse até ali. Isso o faz voltar para a cidade de onde veio, a fim de encontrar o filho de Joe, Patrick (Lucas Hedges). Nesse lugar, por meio de lembranças, ficamos sabendo que Lee constituía uma família com Randi (Michelle Williams).

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Lonergan utiliza a estrutura de um filme de Atom Egoyan, com inúmeros flashbacks, para construir um panorama ao redor da existência de Lee e sua relação problemática com a família. Affleck entrega uma atuação competente, embora não à altura de todas as premiações, e Michelle é uma coadjuvante de luxo. Por sua vez, Hedges faz o adolescente com problemas de maneira interessante, embora se sinta que sua relação com duas meninas, Sandy (Anna Baryshnikov), que toca com ele numa banda indie, e Silvie McGann (Kara Hayward, de Moonrise Kingdom), soa em demasia um complemento forçado à narrativa, em que Lee é o destaque, assim como sua relação com a mãe, Elise (Gretchen Mol), que não participa de seu dia a dia e teve problemas com álcool. A ligação com o sobrinho é essencial não tanto para descobrirmos as motivações de Lee, mas para Lonergan trabalhar com o interesse pelo tema da adolescência já exibido em Margaret na relação entre os personagens de Paquin e Kieran Culkin.
Lee, especificamente, é o personagem que todo ator pede: difícil, complexo e com questões a resolver. Casey Affleck funciona mais quando ele se mostra indefinido entre ser ou não sociável, mais ao início, revelando um ar entediado, não tanto quanto está disponível para o discurso de relação familiar que Lonergan pretende expor, através, por exemplo, de um objeto como o sofá, no entanto é difícil imaginar que Matt Damon, um dos produtores e cogitado antes para o papel principal, seria adequado, mesmo talentoso (já que fez esse papel algumas vezes em sua carreira).

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Ainda assim, Affleck tem certas nuances que não funcionam num drama tão trágico (ele se mostrava melhor em O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford), nem exatamente há uma química com Hedges, seu sobrinho, a ponto de tornar mais complexa a relação.
Tudo, porém, é mostrado com beleza intensa por Lonergan, em cenários nos quais a frieza é contrária ao que cada um sente, embora não venha, muitas vezes, à superfície. Como nos filmes de Egoyan, o cenário frio é um contraste em relação ao que os personagens escondem – e uma situação interessante é quando Patrick abre a geladeira e tem uma crise emocional ao lembrar do pai. Em outro momento, eles pensam se devem deixar o corpo guardado até que possam enterrá-lo na primavera, quando o gelo já teria derretido. Falta ao contexto, a partir daí, uma emoção maior, sendo tudo calculado como se resultasse das medidas de um artesão, o que Lonergan, por sua tentativa recorrente de estabilizar os personagens por meio das lembranças. Pode-se remeter, nesse sentido, principalmente à sequência em que Lee é avisado de um desejo do irmão e cada vez que ele tenta se desvencilhar é levado para todos os registros que podem explicar seu passado, mesmo sem poder defini-lo, envolvendo Patrick (interpretado quando criança por Ben O’Brien). Esta é a sequência mais baseada na filmografia de Egoyan.

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Depois de estrear no Festival de Sundance e obter grandes críticas, e agora várias indicações ao Oscar, Manchester à beira-mar se sente muitas vezes complexo como Margaret, mas, depois da sessão, talvez ele não seja tão múltiplo, tão discreto quanto gostaria de ser. Isso se manifesta não apenas pela atuação de Affeck e sim por alguns personagens que não se desenvolvem, ficando num plano a que estamos acostumados em outras narrativas. A presença de Chandler, mesmo curta, é sensível – e ele é um ator capaz de surpreender. É seu personagem que, de certo modo, enlaça passado, presente e futuro, e Lonergan indica que algumas vezes o que se torna um exemplo de pedido de confiança não necessariamente obriga o outro a atendê-la, justamente porque a busca particular pela explicação de tudo continua, agraciada pela fotografia tocante de Jody Lee Lipes. É um filme, antes de tudo, sobre como a humanidade é ligada por gerações diferentes, por momentos abrangentes que podem definir essa ligação e como se isso toca cada um.

Manchester by the sea, EUA, 2016 Diretor: Kenneth Lonergan Elenco: Casey Affleck, Lucas Hedges, Kyle Chandler, Michelle Williams, Gretchen Mol, Tate Donovan, Matthew Broderick Roteiro: Kenneth Lonergan Fotografia: Jody Lee Lipes Trilha Sonora: Lesley Barber Produção: Chris Moore, Kevin J. Walsh, Kimberly Steward, Lauren Beck, Matt Damon Duração: 135 min. Distribuidora: Sony Estúdio: B Story / Big Indie Pictures / CMP / K Period Media / Pearl Street Films / The Affleck/Middleton Project

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