Ninfomaníaca – Volumes I & II (2013)

Por André Dick

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Já bastante distanciado do estilo que ajudou a empregar, do grupo Dogma 95, nos anos 1990, ao lado de Thomas Vinterberg (Festa de família e A caça), Lars von Trier continua sua trajetória de filmes polêmicos e provocadores, voltados a uma tentativa de instigar a opinião pública, tentando não estabelecer apenas uma ideia de cinema, mas de publicidade cultural. Isso se percebe nas apenas nas suas obras louvadas em Cannes, como Dançando no escuro (seu melhor filme, ao lado de Ondas do destino) e Dogville, mas em suas obras até menores, a exemplo de Os idiotas, e ganha seu ponto culminante em Ninfomaníaca, dividido em duas partes (para ser lançado sem problemas no cinema), que contou com uma campanha de marketing até inovadora, em se tratando de obras consideradas mais de art house: o elenco da obra posava, em cartazes promocionais, com gestos e posições remetendo a atos sexuais. Tudo isso acabou antecipando o conceito de que Ninfomaníaca seria provocador, uma obra de fetiches e, sobretudo, pornográfica. Mas, se Kechiche, com Azul é a cor mais quente, sofreu uma série de acusações de exploração a respeito do tema no ano passado, o mesmo não pode ser dito ao se lançar Ninfomaníaca, considerado até conservador em relação ao que se esperava. Mesmo porque Ninfomaníaca não é uma obra exatamente pornográfica ou que tome a sexualidade como motivo de romper limites, e sim como exemplo, para o espectador, de como o sexo pode, num determinado momento, passar do prazer estabelecido pela possibilidade amorosa para um espaço em que, para se fugir de uma pretensa normalidade social e se sentir vivo, tudo começa a ficar próximo de uma autodestruição.

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Esta é uma característica que já existia em Ondas do destino, com a personagem de Emily Watson vagando em busca de homens que pudessem satisfazer às fantasias do marido, e Dogville, em que a personagem de Nicole Kidman sofria numa pequena comunidade os mais violentos abusos. Von Trier nunca foi um diretor discreto, e Ninfomaníaca se mostra como sua obra mais reveladora neste sentido. O interessante é como ele usa um artifício simplista – a personagem central, Joe (Charlotte Gainsboroug), ser encontrada com marcas de violência num beco, pelo bondoso Seligman (Stellan Skarsgård) – para iniciar uma espécie de fragmentos de um discurso ninfomaníaco, lembrando-se a obra de Barthes que tanto fez sucesso nos anos 70, transformando-se numa coleção de peças interligadas sobre o desejo da personagem central em descobrir o ingrediente secreto do sexo, segundo sua amiga: o amor. É justamente o que não consegue sentir Joe, que pede a Jêrome (Shia LeBeouf, excelente), mais interessado em sua motocicleta, para perder sua virgindade. Os sentimentos de Joe estão quase todos ligados à maneira como o pai (Christian Slater, no papel, embora curto, de sua carreira) quis apresentá-la à natureza, em passeios pelo parque, com uma influência clara do cineasta russo Andrei Tarkovsky – e são belas e densas as analogias que Joe traça entre os detalhes dos diferentes tipos de folhas com partes do corpo humano, mais do que aquela que Seligman traça da busca de Joe pelos homens com uma pescaria. Ela não consegue sentir prazer no sexo; mais, como a personagem de Kirsten Dunst em Melancolia, o sexo é apenas um símbolo de escape da própria personalidade, perdendo-se num espaço vazio, em que a personalidade ou o desejo de se preocupar com o que a outra pessoa está sentindo não é mais presente (o que se apresentava também em Shame, mas de forma menos interessante). Isso se revela em suas incursões com a amiga B. (Sophie Kennedy Clark) por um trem, além de sua vida sexual com a entrada e saída de vários homens num apartamento, depois de provar a si mesma um conceito (“mea vulva, mea maxima vulva”) que poderia estar em alguma parede da Roma Antiga. Um desses amantes é casado com a personagem de uma esposa traída feita com extraordinária desenvoltura por Uma Thurman, em seu momento mais interessante no cinema depois de Kill Bill, numa mistura de comédia, absurdo e drama familiar.

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É justamente a obra Kill Bill, de Tarantino, a principal referência para se analisar Ninfomaníaca como um filme dividido em duas partes. Assim como o filme de Tarantino, esta divisão se deu mais por razões comerciais e de distribuição do que por uma diferenciação exata entre as duas partes. Mas, como Kill Bill, Ninfomaníaca também possui em cada um dos episódios suas características demarcadas. Se o primeiro Ninfomaníaca é mais descompromissado e, mesmo com as cenas de sexo ousadas, mais leve e até bem-humorado em alguns pontos, o segundo é muito mais trágico e soturno, um pouco semelhante ao andar em que as mulheres descem – inclusive Joe – para encontrarem K. (Jamie Bell, de Billy Elliot e Tintim para um papel de impressionante dificuldade e contenção). Esta separação não é sem alguns resultados estranhos. A atriz que faz Joe na adolescência e durante um pedaço da vida adulta, Stacy Martin, tem trejeitos completamente diferentes daqueles que Charlotte Gainsboroug em sua versão ainda mais adulta, e isto torna o filme levemente estranho em alguns aspectos – e, apesar de Gainsboroug ser uma atriz mais reconhecida e Martin querer ainda descobrir uma linha de interpretação, é esta que dá mais sentido à história. O mesmo se pode dizer dos diálogos de Joe com Seligmann, mais naturais no primeiro do que no segundo filme, embora igualmente, até determinado momento, superficiais e um tanto impostos excessivamente ao que será relatado, com uma aura de referência cultural, acentuada pelos grafismos de Von Trier, característicos desde Ondas do destino, mas aqui ainda mais presentes. Diálogos como aquele sobre a polifonia ou sobre as imagens que teriam aparecido a Joe em determinada experiência sexual não conseguem servir mais do que peças para Von Trier trabalhar a sua arquitetura – e são pouco orgânicos. Mais complicada ainda é a passagem da temática de admiradora sexual do primeiro para a de ninfomaníaca em busca de autoflagelação, de masoquismo, do segundo. E o segundo não possui tanto a bela relação entre Joe e o pai da primeira parte, guiando-se por um caminho que resulta num vínculo um tanto mal explicado com L. (feito por um intruso Willem Dafoe), apesar de determinados momentos continuarem evocando a obra de Tarkovsky (quando Joe está no alto de uma montanha, por exemplo) e o ritmo da montagem manter sempre o interesse, sem entregar claramente as soluções de cada personagem. Desse modo, cada um dos capítulos impõe um respeito – e Von Trier mostra uma certa evolução em relação a seu filme mais denso sobre o tema, Dogville, ao não colocar os personagens simplesmente como estranhamente perversos, mas todos com uma certa falha inerente diante da personalidade centralizadora de Joe, satirizando, inclusive, a proximidade entre alguém que relata uma história e o ouvinte que procura aparar suas arestas.

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Não há nenhum resquício de toques morais no trabalho de Von Trier porque o cineasta justamente os coloca sempre numa posição de eles não conseguirem corresponder à realidade de Joe – e onde se colocam imagens pretensamente filosóficas a personagem faz questão de levar para o espaço de sua realidade, pois, acima de tudo, ela pretende ter o controle máximo da situação, inclusive em relação a quem a ajuda e a acolhe. O melhor elogio que se faz a esta obra é justamente como a primeira parte requisita a segunda e como, apesar de episódica, a obra de Von Trier contém uma organicidade singular, por mais longa que seja (em torno de 4 horas), com um encadeamento absolutamente tranquilo, quase ausente em seus outros filmes e que o aproxima, sob determinados aspectos, inclusive dos enquadramentos escolhidos, a Michael Haneke e Terrence Malick – as caminhadas de Joe pelo parque. E que Lars Von Trier se mostra, mais uma vez, um cineasta que, apesar de quase impor suas polêmicas, sabe administrá-las com coerência no mínimo interessante. Mesmo nos momentos mais indecisos da segunda parte, por exemplo, que não se sustentam como as da primeira parte, o diretor demonstra um notável equilíbrio e domínio sobre o elenco, jogando com temas polêmicos, embora alguns de maneira bastante questionável e até tortuosa. O final, que parece abrupto e mesmo decepcionante para uma obra que se anunciava, pelo tamanho, mais “épica”, não reduz a história; pelo contrário, Lars von Trier continua considerando que a ajuda pode esconder mais do que uma simples gentileza: pode esconder apenas aquilo que a sociedade parece aceitar, mas não aceita. É uma conclusão pessimista, mas a obra do diretor dinamarquês é toda feita em cima desse pressuposto, e, concordando ou não com ele, suas qualidades cinematográficas não conseguem apagá-lo.

Nymphomaniac – Vol. I, Dinamarca/Bélgica/França/Alemanha, 2013 Diretor: Lars von Trier Elenco: Charlotte Gainsbourg, Stacy Martin, Stellan Skarsgård, Christian Slater, Connie Nielsen,  Shia LaBeouf, Sophie Kennedy Clark, Uma Thurman Roteiro: Lars von Trier Fotografia: Manuel Alberto Claro Produção: Bert Hamelinck, Bettina Brokemper, Louise Vesth, Maj-Britt Paulmann, Marianne Jul Hansen, Marianne Slot, Marie Cecilie Gade, Peter Aalbæk Jensen, Peter Garde, Sascha Verhey Duração: 118 min. Distribuidora: Califórnia Filmes Estúdio: Zentropa Entertainments

Cotação 4 estrelas e meia

Nymphomaniac – Vol. II, Dinamarca/Bélgica/França/Alemanha, 2013 Diretor: Lars von Trier Elenco: Charlotte Gainsbourg, Stacy Martin, Stellan Skarsgård, Jamie Bell, Shia LaBeouf, Jean-Marc Barr, Willem Dafoe, Kookie, Christian Slater, Kate Ashfield, Mia Goth  Roteiro: Lars von Trier Fotografia: Manuel Alberto Claro Produção: Bert Hamelinck, Bettina Brokemper, Louise Vesth, Maj-Britt Paulmann, Marianne Jul Hansen, Marianne Slot, Marie Cecilie Gade, Peter Aalbæk Jensen, Peter Garde, Sascha Verhey Duração: 123 min. Distribuidora: Califórnia Filmes Estúdio: Zentropa Entertainments

Cotação 4 estrelas

Pulp Fiction – Tempo de violência (1994)

Por André Dick

Pulp fiction.Tarantino 3

É  preciso ingressar no universo de Quentin Tarantino para gostar de seus filmes, feito a partir de referências cinematográficas, musicais e de quadrinhos, mas com um senso de espaço e tempo notáveis. Realizado quase ao mesmo tempo em que contribuiu com roteiros para Oliver Stone (Assassinados por natureza) e Tony Scott (Amor à queima-roupa), Pulp Fiction – filme que sucedeu Cães de aluguel – começa com Vincent Vega (Travolta) e Jules (Jackson) indo cobrar dívidas com um sujeito que não cumpriu acordo com o chefe deles, Marsellus Wallace (Ving Rhames), enquanto caminham tranquilamente por um corredor numa manhã que se anuncia como calma. Vincent está preocupado porque precisará fazer companhia à mulher do chefe, Mia (Uma Thurman), por uma noite. Tarantino leva o casal o casal para uma lanchonete estilizada, uma homenagem a Elvis Presley, também com sósias de James Dean e Marilyn Monroe, onde Vincent tenta demonstrar ou esconder interesse pela mulher do chefe, ao fazer comentários sobre o preço abusivo do milk-shake e comentar sobre o passado de outro capanga selecionado para cuidá-la. De acordo com o ambiente, a conversa desvia para o plano da atuação:  Mia participou de um piloto de série de TV, e Vincent, com suas pulp fictions de bolso, deseja participar desse universo paralelo. Trata-se de uma das sequências mais divertidas, com elementos de videoclipe, e referências a Os embalos de sábado à noite, ainda que vaga e estranha, pois não se sabe ao certo se termina em um episódio que não deve ser contado a Marcellus e envolve um casal suburbano (Eric Stoltz e Patricia Arquette), amigo de Vincent.

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Em outra história, temos Butch (Bruce Willis), boxeador que precisa perder uma luta e pensa, antes de tudo, viver tranquilamente com sua namorada (Maria de Medeiros). Quando criança, ele ganhou um relógio importante deixado por seu pai a um amigo (Cristopher Walken), escondido num lugar delicado durante um longo tempo, na II Guerra Mundial. A história de Butch se cruzará com as de Vincent e de Marcellus – desta vez num ambiente inesperado e filmado por Tarantino com requintes de crueldade e de histórias em quadrinhos perversas, mas também, e eis o diferencial do diretor, com um aspecto de humanidade (além de uma homenagem aos filmes dos anos 50, com a conversa de Butch com uma taxista, tendo um fundo externo acertadamente falso). E, por mais que os personagens se castiguem, a recompensa acaba sendo uma espécie de saída da rotina em que estão inseridas, mesmo que Tarantino nunca seja complacente nas imagens, tornando uma singela loja numa espécie de superfície do subterrâneo também do seu dono.
Pulp Fiction não deixa de ser o segundo passo, depois de Cães de aluguel, com sua conhecida sequência final, que trabalha com diferentes histórias a fim de compor um painel do submundo e de gângsteres que podem se arrepender e mesmo perdoar diante de uma situação extrema, ou se ajudarem quando se encontram com uma situação pior do que aquela que causam. Daí, Tarantino transitar por conversas sobre as drogas de Amsterdã e o Big Mac de Paris e pelos personagens de Samuel L. Jackson (que recita versículos da Bíblia para suas vítimas) e Travolta discutindo porque nenhum deles quer limpar o banco do carro ensanguentado depois de um acontecimento acidental; nesse caminho, é possível que haja a mudança completa para um deles e se passa a falar de redenção, capaz até mesmo de poder convencer dois assaltantes (Amanda Plummer e Tim Roth) que pretendem mudar sua vida passando a assaltar lanchonetes.

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São poucas as tramas, assim como mostraria em Kill Bill e Bastardos, mas Tarantino dá um tratamento especial a cada uma delas, e dar atenção significa transformar os diálogos em camadas, assim como lança mão de uma fotografia especial de Andrzej Sekula (contrastando as cenas que se passam à noite e de manhã cedo) e uma montagem com precisão rítmica de Sally Menke, que participou dos filmes de Tarantino até Bastardos inglórios e veio a falecer em 2010 (e é justamente a montagem que veio a prejudicar longas sequências de Django livre). Quando Vincent e Jules precisam buscar abrigo na casa de um conhecido (Tarantino) e necessitam da ajuda de um especialista para se livrar de um corpo, conhecido singelamente como Wolf (Harvey Keitel, em momento excelente), que sai de uma festa familiar diretamente para o serviço, o filme se encaminha como um quebra-cabeças que deve ser completado, pois podemos tanto estar no início do filme quanto em seu final. Mas esse detalhe não é brusco, ou seja, não se sente a quebra da narrativa. Como em poucos filmes, parece que, mesmo na antilinearidade, existe uma narrativa que se adianta e volta sem que haja sobressaltos. Tarantino filma grande parte das cenas de Pulp Fiction com câmera quase imóvel, e os travellings servem para dar velocidade à trama. Sua melhor característica está lá, desde o início: são os diálogos ditos com velocidade, e ainda assim calculados, um a um, apesar de muitas vezes parecerem dispersos, o que se revela também em suas trajetórias de vingança, Kill Bill, Bastardos inglórios e o recente Django livre. Ao mesmo tempo em que usa muitos diálogos, conserva uma narrativa limpa, sem excessos, à medida que a percepção de Tarantino da montagem de um filme (com a colaboração de Menke) consegue sempre transformá-lo numa peça que vai tomando mais força. E impressiona como as atitudes dos personagens vão mudando conforme a necessidade, como o intervalo que se dedica a Butch e a Marcellus, com um ato derradeiro impressionante e que antecipa Kill Bill, ou quando percebemos que Vincent e Jules podem estar no passado de uma história que já teve seu final.
Neste filme, que melhora muito com uma revisão – ao contrário, parece-me, que Cães de aluguel, ele ganha mais amplitude –, Tarantino também retoma atores improváveis (como Eric Stoltz no papel de um vendedor de drogas, que seria, a princípio, de Kurt Cobain; o próprio Willis como um boxeador; e Travolta, quase esquecido durante toda a década de 80, como o capanga), além de confirmar o talento de outras (Uma Thurman, Jackson, Keitel), tornando Pulp Fiction, que recebeu a Palma de Ouro, em Cannes, de melhor filme e o Oscar de roteiro original (tendo sido indicado a melhor filme, entre outros), uma espécie de retrato demarcado de um período, mas capaz de dialogar com outros e com uma visão própria do universo que Scorsese ajudou a dar uma definição derradeira, com Os bons companheiros.

Pulp Fiction, EUA, 1994 Diretor: Quentin Tarantino Elenco: John Travolta, Samuel L. Jackson, Tim Roth, Amanda Plummer, Eric Stoltz, Bruce Willis, Ving Rhames, Phil LaMarr, Maria de Medeiros, Rosanna Arquette, Peter Greene, Uma Thurman, Steve Buscemi, Christopher Walken, Quentin Tarantino, Harvey Keitel Produção: Lawrence Bender Roteiro: Quentin Tarantino, Roger Avary Fotografia: Andrzej Sekula Trilha Sonora: Karyn Rachtman Duração: 154 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Miramax Films / Jersey Films / A Band Apart

Cotação 5 estrelas

Vencedor.Palma de Ouro no Festival de Cannes

Quentin Tarantino: Pulp Fiction, Kill Bill e Bastardos inglórios

Por André Dick

Pulp Fiction 6

Tarantino não esconde sua predileção pela violência, tentando fazer de seus filmes retratos de um cotidiano baseado em revanche e, ainda assim, capaz de atrair nossa atenção pelos elementos humanos que podem surgir dele.
Na verdade, é preciso ingressar no universo desse cineasta para gostar de seus filmes, feito a partir de referências cinematográficas, musicais e de quadrinhos, mas com um senso de espaço e tempo notáveis. Realizado quase ao mesmo tempo em que contribuiu com roteiros para Oliver Stone (Assassinados por natureza) e Tony Scott (Amor à queima-roupa), Pulp Fiction – filme que sucedeu Cães de aluguel – começa com Vincent Vega (Travolta) e Jules (Jackson) indo cobrar dívidas com um sujeito que não cumpriu acordo com o chefe deles, Marsellus Wallace (Ving Rhames), enquanto caminham tranquilamente por um corredor numa manhã que se anuncia como calma. Vincent está preocupado porque precisará fazer companhia à mulher dele, Mia (Uma Thurman) por uma noite, e em algum momento ele lembra Sailor, de Coração selvagem – inspiração clara do filme – e ela, a Laura Palmer de Twin Peaks – Fire walk with me (sobretudo numa ida ao banheiro). Eles saem e vão a uma lanchonete estilizada, uma homenagem a Elvis Presley, porém com sósias de James Dean e Marilyn Monroe também. “A Jayne Mansfield deve estar de folga”, diz Vincent, tentando demonstrar ou esconder interesse pela mulher do chefe, ao fazer comentários sobre o preço abusivo do milk-shake. Esta é uma das sequências mais divertidas, ainda que vaga e estranha, terminando em um episódio que não deve ser contado a Marcellus e envolve um casal suburbano (Eric Stoltz e Patricia Arquette), amigo de Vincent.
Também temos Butch (Bruce Willis), boxeador que precisa perder uma luta e pensa, antes de tudo, viver tranquilamente com sua namorada (Maria de Medeiros). Quando criança, ele ganhou um relógio importante deixado por seu pai a um amigo (Cristopher Walken), escondido num lugar delicado durante um longo tempo. A história de Butch se cruzará com as de Vincent e de Marcellus – desta vez num ambiente inesperado e filmado por Tarantino com requintes de crueldade e de histórias em quadrinhos perversas, mas também, e eis o diferencial do diretor, com um aspecto de humanidade (além de uma homenagem aos filmes dos anos 50, com a conversa de Butch com um taxista, tendo um fundo externo acertadamente falso). E, por mais que os personagens se castiguem, a recompensa acaba sendo uma espécie de saída da rotina em que estão inseridas, mesmo que Tarantino nunca seja complacente nas imagens, tornando uma singela loja numa espécie de superfície do subterrâneo também do seu dono.
Pulp Fiction não deixa de ser o segundo passo, depois de Cães de aluguel, com sua conhecida sequência final, que trabalha com diferentes histórias a fim de compor um painel do submundo e de gânsters que podem se arrepender e mesmo perdoar diante de uma situação extrema, ou se ajudarem quando se encontram com uma situação pior do que aquela que causam. Daí, Tarantino transitar por conversas sobre as drogas de Amsterdã e o Big Mac de Paris e pelos personagens de Samuel L. Jackson (que recita versículos da Bíblia para suas vítimas) e Travolta discutindo porque nenhum deles quer limpar o banco do carro ensanguentado depois de um acontecimento acidental; nesse caminho, é possível que haja a mudança completa para um deles e se passa a falar de redenção, capaz até mesmo de poder convencer dois assaltantes que pretendem mudar sua vida passando a assaltar lanchonetes.

Pulp Fiction 2

Pulp Fiction 5

São poucas as tramas, assim como mostraria em Kill Bill e Bastardos, mas Tarantino dá um tratamento especial a cada uma delas, e dar atenção significa transformar os diálogos em camadas, assim como lança mão de uma fotografia especial (contrastando as cenas que se passam à noite e de manhã cedo) e uma montagem singular. Quando Vincent e Jules precisam buscar abrigo na casa de um conhecido (Tarantino) e necessitam da ajuda de um especialista para se livrar de um corpo, conhecido singelamente como Wolf (Harvey Keitel, em momento excelente), que sai de uma festa familiar diretamente para o serviço, o filme se encaminha como um quebra-cabeças que deve ser completado, pois podemos tanto estar no início do filme quanto em seu final. Mas esse detalhe não é brusco, ou seja, não se sente a quebra da narrativa. Como em poucos filmes, parece que, mesmo na antilinearidade, existe uma narrativa que se adianta e volta sem que haja sobressaltos.
Tarantino filma grande parte das cenas de Pulp Fiction com câmera quase imóvel, e os travellings servem para dar velocidade à trama. Sua melhor característica está lá, desde o início: são os diálogos ditos numa velocidade pop, e ainda assim calculados, um a um, apesar de muitas vezes parecerem dispersos. Ao mesmo tempo em que usa muitos diálogos, conserva uma narrativa limpa, sem excessos, à medida que a percepção de Tarantino da montagem de um filme consegue sempre transformá-lo numa peça que vai crescendo. Este filme melhora muito com uma revisão – ao contrário, parece-me, que Cães de aluguel, ele ganha mais amplitude.
Tarantino também retoma atores imprevisíveis (como Eric Stoltz no papel de um vendedor de drogas, que seria, a princípio, de Kurt Cobain; o próprio Willis como um boxeador; e Travolta, quase esquecido durante toda a década de 80, como o capanga), além de confirmar o talento de outras (Uma Thurman, Jackson, Keitel), tornando Pulp Fiction, que recebeu a Palma de Ouro, em Cannes, de melhor filme e o Oscar de roteiro original (tendo sido indicado a melhor filme, entre outros), uma espécie de retrato demarcado de um período, mas capaz de dialogar com outros e com uma visão própria do universo que Scorsese ajudou a dar uma definição derradeira, com Os bons companheiros.

Kill Bill.Uma Thurman

Kill Bill

Se Jackie Brown, com seu aroma setentista, serviu como depuração do estilo de Tarantino, o episódio 1 de Kill Bill mostra o quanto o cinema de Tarantino tenta se aproximar de uma atmosfera pop sem perder a densidade, com a fotografia excelente de Robert Richardson (que passou a colaborar, desde então, com o diretor). Os personagens não chegam a ser elaborados, entretanto as sequências violentas acabam delineando uma personagem vingativa de grande personalidade e torcemos para ela. Essa personagem é Beatriz Kiddo (Uma Thurman), um nome que nunca pode ser dito – daí ela atender por “A Noiva”. Ela está para se casar num vilarejo tranquilo, quando um bando de pistoleiros, a mando de seu ex-amante, dos tempos de crime, Bill (Keith Carradine), invade seu casamento. Depois de ficar em coma, com uma bala na cabeça e ser estuprada por um dos médicos, ela se ergue e passa a ir atrás de cada uma das mulheres que tentaram matá-la a mando de Bill, inclusive Elle Driver (Daryl Hannah), O-Ren Ishii (Lucy Liu), e Vernita Green (Viveca A. Fox). Trata-se de um grande filme pequeno, com uma profusão de cenas exageradas, como se pedíssemos os melhores ingredientes para se contar uma história de vingança, cartunesca, e de qualquer modo atrativa. E Tarantino utiliza todos os elementos disponíveis à sua mão: o figurino de Beatriz Kiddo para sua batalha final (com predominância amarela e detalhes em preto) remete aos filmes da década de 70, mas aqui estamos numa espécie de discoteca, onde a cada momento pode surgir um novo som, um novo estilo (Tarantino, afinal, é um DJ), e a cada lance de espada é possível jorrar sangue por todas as partes – para terminar num jardim japonês típico.
Em Kill Bill 2, salta-se de capítulo para outro como se quisesse alternar vários gêneros: do faroeste a um filme de artes marciais, o que vemos na personagem principal é sempre o arrependentimento da vida ligada ao crime – como um dos personagens centrais de Pulp Fiction. Kiddo deseja ser uma mãe normal, sendo impedida sempre pelo contexto. Ela quer matar a todos para ficar com a filha pequena – o mote da série – e Tarantino deseja que o espectador se sinta preso dentro de um caixão para que possa dar devido valor à vingança da heroína. Cada uma das cenas é pensada isoladamente, como também em conjunto, sobretudo aquelas que envolvem o irmão de Bill, Budd (Michael Madsen, assustador), que detém uma desejada espada Hattori Hanzo, e definidas, claramente, por capítulos. Há, também, uma dose de humor negro em seu treinamento por Pai-Mei (o ótimo Gordon Liu), que debocha de seu conhecimento de artes marciais e a ensina a quebrar uma madeira, o que só vemos numa situação em que ela acaba sendo colocada e traz um sentimento de claustrofobia (sobretudo se vista no cinema, mas em vídeo também há a sensação). Os melhores momentos são aqueles em que ela lembra das lições de sabedoria de Bill (mais sérias) e do Pai-Mei (satíricas). É esse equilíbrio que ela tenta manter de um lugar claustrofóbico diretamente para uma cafeteria. Uma Thurman dá o sentido exato para a personagem, contudo é Keith Carradine, com uma tranquilidade mórbida, que dá o tom de toda a série, mesmo que ele apareça muito pouco. Auxiliado pela direção de Tarantino – que costuma extrair as atuações mais detalhadas dos atores –, ele compõe um Bill violento, maldoso e sedutor, no entanto também contador de histórias, tocando flauta diante de uma fogueira. Beatriz Kiddo é sua antítese, uma vilã arrependida de seus crimes por causa da maternidade. Tarantino visualiza, assim, o conceito de mãe americana, perfeito, com belas casas e a esposa preparando o lanche de suas crianças, distorcido por muitas lutas, espadas, móveis quebrados e sangue.

Bastardos inglórios 5

Não há dúvida que Tarantino exerce aqui, mesmo fazendo uma colagem de cinema, uma das melhores direções de sua carreira, onde já se anunciam os diálogos que víamos em Pulp fiction e que veríamos em Bastardos inglórios, com o seu deslocamento para a Segunda Guerra Mundial a fim de contar sobre a violência que vê na contemporaneidade e na história que a forma.
Este filme, com fundo histórico e acontecimentos imprevisíveis, é talvez o melhor produto de seu imaginário. Com diálogos novamente excelentes e sequências delimitadas e agradavelmente longas, Tarantino retrata o horror da Segunda Guerra e o nazismo com sua inquestionável capacidade de extrair grandes atuações de atores limitados, em outro contexto. É bem verdade que às vezes Brad Pitt parece uma escala acima frente ao restante do elenco, como Aldo Raine, líder dos bastardos, embora soe divertido em vários momentos. Mas é também verdade que ele é uma resposta ao coronel Hans Landa, um nazista feito por Cristoph Waltz, numa das melhores interpretações do cinema recente, que chega, com sua tropa, à casa da família LaPadite no início do filme, remetendo à cabana do início de O portal do paraíso (em que Cristopher Walken persegue um imigrante eslavo).
Há também a história de uma jovem judia, Shoshana Dreyfuss (Mélanie Laurent), que consegue escapar de uma chacina, vai a Paris, onde herda o cinema de uma tia, e é cortejada por um ator alemão de filmes nazistas, o cinéfilo Frederick Zoller (Daniel Brühl), a serviço de Joseph Goebbels (Sylvester Groth). Essa história, que acontece em paralelo à história dos bastardos inglórios, cuja função é matar nazistas (“Esse negócio só prospera”, diz Aldo, antes de o “Urso Judeu” aparecer batendo com o taco de beisebol dentro de túnel), consegue ser ainda mais intensa quando sabemos que ela é a dona do cinema para onde Hitler pode ir, convidado para a estreia de um filme que tece loas ao nazismo, retratando a história de Zoller. É essa metalinguagem  nas entrelinhas – sem autorreferências –, essa camada capaz de trazer outras, que torna o filme de Tarantino numa surpresa.

Bastardos inglórios 8

Bastardos inglórios 6

O cineasta está empenhado em transformar seu ritmo de história fragmentada novamente num trunfo seu como diretor, e a homenagem que presta ao cinema não é mais tão previsível como em Kill Bill 1, por exemplo (a segunda parte dessa série já anunciava uma maior discrição). Não se esperava um retrato tão maduro da Segunda Guerra Mundial – concentrado, é verdade, nos personagens, e não em episódios trágicos, como o dos campos de concentração nazistas. Os cenários são bastante delimitados e elegantes (como o do cinema e o da taverna), além de vazios (dando a impressão de grandiosidade em alguns momentos), com a valiosa fotografia de Richardson (fazendo a cor do figurino dialogar com a iluminação), pois o que se quer mostrar é o conflito que pode emergir de determinado contexto, e os personagens, mesmo quando parecem calmos, estão prestes a cometer algo.
Se vê Hitler como, mais do que um genocida, um ridículo (aliando-se a Chaplin de O grande ditador, tentando recuperar o chapéu mesmo com os berros do ditador pelos megafones de rua), Tarantino vê o coronel Landa, principal ameaça nazista aqui, como um psicopata que tenta ser engraçado com suas vítimas. Na cena em que conversa com Shoshana, sem saber que ela é descendente de judeus, mostra-se sua dupla face quando pede uma sobremesa, dizendo que o doce é o melhor que existe, e ao final da conversa espreme um cigarro nele – o que faz, de algum modo, com suas vítimas, quando as interroga pacientemente, para, então, descontrolar-se. E a reconstituição de época é exata, mostrando que Tarantino sabe também contar histórias situadas foram do universo contemporâneo, e que deveria permanecer nesse caminho para nos contar histórias extraordinárias como esta. A sua admiração pelo cinema poderia render apenas um fetichismo por vezes incômodo – como vemos em alguns momentos de seu primeiro filme, Cães de aluguel –, entretanto existe aqui um conhecimento maior das porções que fazem um filme encadear. Por sua vez, o personagem de Michael Fassbender, especialista em cinema e designado para a Operação Kino, parece um alter ego do cineasta, sempre atraído para uma briga (desde o início, percebe-se, o que ele quer é criar confusão, pedindo tranquilidade aos outros). Por isso, a sequência do bar, quando alguns bastardos se encontram com nazistas, se desenha inesperada. A câmera vai focando cada personagem de modo insistente, como se dependesse de cada um a solução pretendida. Ainda assim, o que, ao final, fazem é mais do que isso: os personagens estão querendo se autodestruir, pois, para Tarantino, desde Cães de aluguel, este parece ser o motivo para desencadear uma conversa (chegando ao exemplo principal o diálogo entre Beatriz Kiddo e Bill no segundo Kil Bill). A seu modo, Soshana se prepara para a vingança ao som de “Putting out of fire (Gasoline)”, de David Bowie, preparando um filme especial, e Tarantino mostra que a condução de diálogos, num momento de conflito, pode ser mais assustadora do que as próprias mortes espalhadas ao longo do filme. Do mesmo modo, quando Hans Landa observa a entrada de convidados na estreia do filme nazista e a câmera o acompanha lentamente – com uma trilha, ao fundo, que remete a e Ennio Morricone e aos filmes de Sergio Leone. Pois Tarantino deixa claro: a conversa será apenas pretexto para um acerto de contas inesperado e intransferível para outro lugar – a etapa anterior da tranquilidade e a humanidade plena. É por isso, afinal, que seus personagem vivem, enquanto ele pula as faixas e volta a abaixar a agulha.

Pulp Fiction, EUA, 1994 Diretor: Quentin Tarantino Elenco: John Travolta, Samuel L. Jackson, Tim Roth, Amanda Plummer, Eric Stoltz, Bruce Willis, Ving Rhames, Phil LaMarr, Maria de Medeiros, Rosanna Arquette, Peter Greene, Uma Thurman, Steve Buscemi, Christopher Walken, Quentin Tarantino, Harvey Keitel Produção: Lawrence Bender Roteiro: Quentin Tarantino, Roger Avary Fotografia: Andrzej Sekula Trilha Sonora: Karyn Rachtman Duração: 154 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Miramax Films / Jersey Films / A Band Apart

Cotação 5 estrelas

Kill Bill: Vol. 1, EUA, 2003 Diretor: Quentin Tarantino Elenco: Uma Thurman, Lucy Liu, Vivica A. Fox, Daryl Hannah, David Carradine, Michael Madsen, Julie Dreyfus, Produção: Lawrence Bender Roteiro: Quentin Tarantino, Uma Thurman Fotografia: Robert Richardson Trilha Sonora: RZA Duração: 111 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Miramax Films / A Band Apart / Super Cool ManChu

Cotação 4 estrelas

Kill Bill: Vol. 2, EUA, 2004 Diretor: Quentin Tarantino Elenco: Uma Thurman, David Carradine, Lucy Liu, Vivica A. Fox, Chia Hui Liu, Michael Madsen, Daryl Hannah, Michael Parks, Samuel L. Jackson Produção: Lawrence Bender Roteiro: Quentin Tarantino Fotografia: Robert Richardson Trilha Sonora: RZA, Robert Rodriguez, Lars Ulrich Duração: 134 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Miramax Films / A Band Apart / Super Cool ManChu

Cotação 4 estrelas e meia

Inglorious basterds, EUA/ALE, 2009 Diretor: Quentin Tarantino Elenco: Brad Pitt, Mélanie Laurent, Christoph Waltz, Eli Roth, Michael Fassbender, Diane Kruger, Daniel Brühl, Sylvester Groth, Til Schweiger, Omar Doom, Denis Menochet, Mike Myers Produção: Lawrence Bender Roteiro: Quentin Tarantino Fotografia: Robert Richardson Duração: 153 min. Distribuidora: Paramount Pictures Brasil Estúdio: Universal Pictures / A Band Apart / The Weinstein Company / Zehnte Babelsberg / Visiona Romantica

Cotação 5 estrelas