Pequena grande vida (2017)

Por André Dick

O filme mais recente de Alexander Payne foi lançado no Festival de Veneza, sendo, a partir de então, considerado de longe seu pior trabalho. O cineasta nunca chegou a ter entusiastas no meio da crítica, apesar dos Oscars de roteiro adaptado por Sideways e Os descendentes, mas sempre teve inegável respeito e um público admirador. Pequena grande vida se passa num futuro não muito distante, no qual Paul Safranek (Matt Damon), um terapeuta ocupacional, é casado com Audrey (Kristen Wiig), em Omaha. Trata-se de um típico casal classe média, como Payne mora em Eleição, com intenções de uma nova vida. Paul poderia ser também o escritor ébrio de Sideways, o viúvo de As confissões de Schmidt, o herdeiro de Os descendentes. São personagens que carregam uma certa melancolia, uma vontade de verem suas vidas de forma diferente, no entanto barrados em algum momento pela impossibilidade.

Os Safranek resolvem fazer parte de um projeto de miniaturização, em que os humanos são reduzidos a poucos centímetros, depois de reencontrarem um casal de amigos que seguiu o caminho, Dave Johnson (Jason Sudeikis) e Carol (Maribeth Monroe). Com a intenção de viverem uma vida melhor, eles se inscrevem no programa, criado pelo cientista norueguês Jørgen Asbjørnsen (Rolf Lassgård). O objetivo do programa é reduzir os gastos em alimentação para a humanidade e fugir do aquecimento global. No dia da entrevista, o casal está nervoso e precisa se separar antes de verem completa a transformação. E esta se mostra no mínimo excêntrica: os seres humanos parecem bolachas em micro-ondas, que, ao invés de crescerem, diminuem.
Chegando inicialmente a uma casa que lembra a de alguma fábula, em Leisureland, Paul se torna um atendente de telemarketing e vai morar num apartamento bem menor do que antevia seu sonho inicial, enquanto precisa lidar com seu vizinho Dušan (Christoph Waltz), que tem como empregada a ativista política vietnamita Ngoc Lan Tran (Hong Chau) e como melhor amigo Joris Konrad (Udo Kier). A questão é que ele percebe que esse microcosmo tem as mesmas particularidades (econômicas, sociais) da vida normal que vivia antes: Leisureland não passa de Omaha em estado minúsculo. Dušan é a própria representação disso. E Lan Tran mostra numa espécie de periferia que recorda a população esquecida pela ventilação em O vingador do futuro, de Paul Verhoeven, num condomínio interno com luzes futuristas que evoca algo de Terry Gilliam.

Com elementos de ficção científica notáveis e um design de produção de Stefania Cella que justifica seus quase 70 milhões de dólares de orçamento, Pequena grande vida é a comédia mais original do ano, mas uma comédia nos moldes de Payne: com um fundo existencial humano muito belo, elementos de transição dramáticos e aqui imprevisíveis. Quem souber o que vai acontecer na história depois de 20 minutos certamente tem spoilers dele.
Como apreciador da filmografia de Payne, já estava preparado para a decepção depois das considerações inciais sobre o projeto. Não é nenhuma surpresa, mas Pequena grande vida se enquadra naquela seção de filmes que passam a ser vistos de forma injusta mesmo por quem os aprecia. Diante de críticas de todos os tipos, o público em geral costuma querer fazer parte da mesma recepção e, enquanto procura por qualidades em obras indicadas ao Oscar mesmo quando elas não existem como apontado pela maioria ou existem por meio de um marketing prévio, procura apenas por falhas naquelas apontadas (literalmente) como menores. Pequena grande vida foi o selecionado como uma das decepções de 2017, mesmo porque os filmes de Payne sempre são cotados (e indicados) ao Oscar.

A fotografia de Phedon Papamichael sabe capturar o mundo em miniatura de maneira plasticamente bela, assim como Damon, Waltz e sobretudo Chau (revelada em Vício inerente) entregam ótimas atuações. Damon, que esteve em outro filme bastante subestimado no ano passado, Suburbicon, está especialmente no momento de sua carreira que melhor recorda a autenticidade de interpretação revelada em Gênio indomável, há mais de duas décadas, enquanto Waltz não se apresentava tão eficiente desde Django livre. Se alguns momentos do terceiro ato não chegam a ser desenvolvidos como poderia – e o humor se mescla com o drama por vezes de maneira estranha –, o conceito desenvolvido por Payne não vai no sentido óbvio: de que o dinheiro não definiria esse personagem de Paul, nem visualiza exatamente uma Era da Aquarius para a humanidade se sentir menos culpada.
De modo geral, existe aqui e na filmografia de Payne uma necessidade de validar o sentimento humano. No seu filme anterior a este, Nebraska, víamos um senhor de terceira idade tentando reaver um pouco de autoestima, mas, principalmente, de valores familiares até então dispersos pelo tempo. Conforme Payne, o que importa em Pequena grande vida é o tamanho das ações, independente do universo em que se esteja, e pensar no extraordinário não necessariamente modifica mais do que pensar no que está ao alcance e necessidade imediatos. Muito se comenta que o roteiro foca uma classe média nos Estados Unidos eternamente descontente; isso parece uma brincadeira diante da visualização do filme. Não se trata de um Querida, encolhi as crianças com fundo mais sério, e sim uma grande obra injustamente recepcionada até agora como comum. Uma obra profundamente humana por causa do estilo de Payne, sempre em movimento e sem fixar maneirismos.

Downsizing, EUA, 2017 Diretor: Alexander Payne Elenco: Matt Damon, Christoph Waltz, Hong Chau, Kristen Wiig, Udo Kier Roteiro: Alexander Payne e Jim Taylor Fotografia: Phedon Papamichael Trilha Sonora: Rolfe Kent Produção: Mark Johnson, Alexander Payne, Jim Taylor Duração: 135 min. Estúdio: Ad Hominem Enterprises Distribuidora: Paramount Pictures

Nebraska (2013)

Por André Dick

Nebraska 12

Com uma filmografia sólida, o diretor Alexander Payne, ao contrário do intervalo de sete anos entre Sideways e Os descendentes, desta vez regressa depois de pequeno período, com Nebraska, indicado novamente aos Oscars principais (filme, direção, ator, atriz coadjuvante, roteiro original e fotografia). Lançado no ano passado no Festival de Cannes, dando a Bruce Dern o prêmio de melhor ator, o filme recebeu a desconfiança no restante do ano, com Payne sendo relativamente esquecido. Alguns diretores costumam não ser reconhecido como autores, mas Payne, desde Ruth em questão e sobretudo em Eleição, que ajudou a definir os anos 90, com sua estética referencial para diretores da nova geração, constrói um perfil definido por meio de suas narrativas, e, ao mesmo tempo em que não abandona características demarcadas, consegue somar novos elementos ao seu estilo.
Payne também é conhecido por extrair grandes atuações, como a de Jack Nicholson em As confissões de Schmidt, de Paul Giamatti em Sideways e de George Clooney em Os descendentes, todos indicados ao Oscar por elas. Não é diferente em Nebraska. O excelente Bruce Dern interpreta Woody Grant, com sintomas de Alzheimer, é encontrado caminhando numa rodovia, o que pode se ver como um diálogo direto com Sideways. Ele está confuso e imagina ter recebido um prêmio de 1 milhão de dólares, desejando ir para Lincoln, no Nebraska, a fim de recebê-lo. Embora tudo indique ser um equívoco, o seu filho, David (Will Forte, mais conhecido como humorista e uma ótima surpresa), decide que esta pode ser uma possibilidade de distração para se pai e resolve seguir a viagem, talvez também para esquecer sua rotina de vendedor de eletrodomésticos e sua dificuldade em estabelecer um vínculo. Entre paisagens e estradas tipicamente norte-americanas, com uma atmosfera melancólica, Nebraska emprega essa viagem como uma tentativa não apenas de manter a ideia de que ele está indo buscar 1 milhão de dólares em Lincoln, mas de que o tempo em que irão passar juntos pode ser uma possibilidade de estabelecer ligações de afeto. No entanto, a estrada de Payne não se configura confortável como aquela de Paris, Texas, por exemplo, com sua estética repleta de cores e contrastes: a sensação é de que existe um país semiabandonado, embora triunfe ainda a ideia de conquista e superação.

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No caminho, eles param na pequena cidade de Hawthorne para visitar familiares, e recebem a companhia materna, Kate (June Squibb), e de Ross (Bob Odenkirk), o outro filho. Recebidos pelo irmão de Woody, Ray (Rance Howard), e sua mulher, Martha (Mary Louise Wilson), cuja atividade é ficar em frente à TV, com dois filhos, Cole (Devin Ratray) e Bart (Tim Driscoll), eles se encontram também numa situação de entender melhor o passado de Woody, embora a notícia mais espetacular seja a de que o parente tenha conseguido um prêmio de 1 milhão de dólares. Não que o passado reserve grandes descobertas, mas, como uma odisseia pessoal, é possível estabelecer uma renovação familiar, sobretudo quando se encontra figuras como a de Peg Nagy (Angela McEwan, uma participação notável), e mesmo quando não existe propriamente um bem-estar, proporcionado por Ed Pegram (Stacy Keach, excelente) – o que pode ser necessário para um avanço.
Com uma fotografia elaborada em preto e branco de Phedon Papamichael (as nuvens do interior fazendo uma analogia com a cor dos cabelos de Woody e Kate e das casas de interior, o escuro em diálogo com os tratores, os carros, o figurino, a noite e as lâmpadas dos bares), Nebraska toca por sua sensibilidade e depois de se vê-lo não é possível imaginá-lo em cores. Em certos aspectos, inclusive na sua temática de vida em relação a Woody, ele lembra História real, de David Lynch, com elementos de As confissões de Schmidt, assim como Sideways, filmes de Payne, porém há uma tentativa de compreender a ligação entre as gerações, como também com o passado, especialmente bem mostrada por Payne aqui e em sua obra anterior, Os descendentes. Do mesmo modo que em As confissões de Schmidt, Payne lida com figuras do interior entre o respeito delimitado e uma espécie de ironia em relação a seu comportamento. A família do genro de Schmidt, naquele filme, é especialmente vista de forma corrosiva. Em Nebraska, não é diferente – e, se alguns momentos soam bem-humorados, é justamente por esse olhar de Payne. No entanto, parece que o humor vai até um determinado ponto; depois de uma discussão, a narrativa de Nebraska toma um rumo menos complacente.

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Do retrato que Payne faz desses personagens do interior, pode-se desconfiar, e foi acusado de não ser fiel. Mas também se deve falar que o cineasta nasceu em Omaha, Nebraska, ou seja, ele tem conhecimento sobre esse universo. O que se percebe é que ele, mais do que retratar as pessoas dessa comunidade visita por Woody e sua família, revela o desejo delas quando se deparam com uma maneira de modificar suas vidas. Não é um retrato elogioso – e daí possivelmente as críticas feitas por meio do humor. Um exemplo pode ser o de Kate, a mulher de Woody, que no início pode não ser uma figura exatamente delineada além do esperado, mas que passa, ao longo da narrativa, a desempenhar um meio-termo entre sentimentos que Woody não consegue demonstrar do melhor modo, assim como uma figura capaz de surpreender os próprios filhos. Este retrato apresentado por Payne produz a sequência mais bela, possivelmente, de um filme seu, em que os personagens reencontram um cenário de passado, com árvores que lembram o filme O sacrifício – que também trata da relação entre pais e filhos – e, em seguida, uma síntese da época atual, nos Estados Unidos, de secura e afastamento de uma determinada mitologia de segurança. Por outro lado, parece ser essa mesma mudança de mitologia dos Estados Unidos que confere a este personagem uma lembrança de certo encontro com aquela mitologia de livros e histórias contadas. Na verdade, Payne trata de um país que está terminando e outro que está começando, mas um não existe sem o outro. Esta sensação se reproduz durante a narrativa de Nebraska, em maior ou menor frequência, em suas referências a guerras longínquas e ainda presentes: para Payne, os conflitos se desenham no embate mais forte, aquele do presente contra o passado. E, em paralelo a isso, temos o comportamento dos pais, igualmente inserido em suas memórias e esquecimentos, como se fossem crianças, e a atitude correspondente dos filhos, com um sentimento ainda mais infantil, principalmente quando tentam recuperar um bem importante para o pai. Hawthorne se torna mais do que um lugar para se passar alguns momentos: sua composição e arquitetura traz um sentimento permanente de infância, no entanto, como toda infância, capaz de dar novos passos.
Por isso, Nebraska mostra que a herança é uma espécie de sonho particular estendido às novas gerações, e Bruce Dern revela esta ideia da melhor forma, numa atuação contida e comovente. O diretor Alexander Payne mais uma vez não desaponta quem espera uma narrativa com elementos de humor, mas, ao mesmo tempo, densa e trabalhada num crescente. Seu filme mais introspectivo até o momento, Nebraska nos faz lembrar de como o ser humano pode se reconhecer sempre não apenas pelo passado, como também pelo futuro, por mais limitado que pareça, afinal, segundo Payne, tudo pode reservar um alento.

Nebraska, EUA, 2013 Diretor: Alexander Payne Elenco: Bruce Dern, Will Forte, June Squibb, Bob Odenkirk, Stacy Keach, Rance Howard, Mary Louise Wilson, Angela McEwan, Devin Ratray, Tim Driscoll Roteiro: Bob Nelson Fotografia: Phedon Papamichael Trilha Sonora: Mark Orton Produção: Albert Berger, Ron Yerxa Duração: 115 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: Blue Lake Media Fund / Bona Fide Productions / Echo Lake Productions

Cotação 5 estrelas

Vencedores do Festival de Cannes 2013

Por André Dick

La vie d’Adele.Filme

A 66ª edição do Festival de Cannes terminou hoje, e a Palma de Ouro de melhor filme foi para La vie d’Adèle, do diretor franco-tunisiano Abdellatif Kechiche, que conta a história do amor entre Adèle (Adele Exarchopoulos), uma adolescente, e Emma (Léa Seydoux, de Meia-noite em Paris), uma estudante de arte. O prêmio do grande júri ficou com Inside Llewyn Davis, de Joel e Ethan Coen, que conta a história de um cantor folk dos anos 60, com elenco de destaque: Carey Mulligan (que também aparece no filme que abriu o Festival, O grande Gatsby), John Goodman, Garrett Hedlund (Na estrada), Oscar Isaac (Drive) e Justin Timberlake.
Amat Escalante foi escolhido como melhor diretor, por Heli, enquanto Bruce Dern (pai de Laura Dern) saiu do Festival com o prêmio de melhor ator, pela atuação em Nebraska, de Alexander Payne (de Os descendentes), e Bérénice Bejo (O artista) com o de melhor atriz, por Le passé. O melhor roteiro ficou nas mãos de Jia Zhangke, por A touch of sin, e o Prêmio do Júri foi para Like father, like son, de Hirokazu Koreeda. A Palma de Ouro para melhor curta-metragem é de Safe, de Moon Byoung-Gon, e a Câmara de Ouro (para diretores estreantes), de Ilo Ilo, de Anthony Chen.

The immigrant.Filme

De maneira geral, pelas críticas, La vie d’Adele foi a grande surpresa do festival, embora o filme Le passé tenha sido também bastante elogiado, tendo atrás das câmeras o ótimo Asghar Farhadi, de A separação. Não tão elogiado (mas considerado uma obra-prima pela respeitável Slant, que o comparou, pela reconstituição e fotografia, a Era uma vez na América, de Sergio Leone), The immigrant é o novo filme de James Gray, com Joaquin Phoenix (que atuou em Amantes, outro filme de Gray), Marion Cotillard e Jeremy Renner. O novo filme de  Nicolas Winding Refn, Only God forgives, também com Ryan Gosling, não teve a mesma repercussão de Drive, que levou o prêmio de melhor diretor. Mas, ao que tudo indica, não deve ser menosprezado. Filmes violentos, como ele parece ser na avaliação da crítica, costumam não ser tão bem recebidos em Cannes, embora Drive o fosse.
O que se leva do festival é que o premiado nos últimos anos tem feito ótima trajetória depois e indicado ao Oscar de melhor filme, como A árvore da vida e Amor. O prêmio para os Coen era esperado desde a exibição, mas parece não conferir a ele certeza de chegada com fôlego no final do ano passado: Barton Fink (premiado com a Palma de Ouro principal) e O homem que não estava lá (premiado com melhor direção) concorreram depois, no Oscar, em categorias técnicas e de ator coadjuvante. No entanto, os Coen, recentemente, com Onde os fracos não têm vez, Um homem sério e Bravura indômita estão entre os diretores preferidos da Academia.

Nebraska.Filme

Nebraska, de Alexander Payne, é em preto e branco e conta a história de um senhor (Bruce Dern) com demência, que realiza uma viagem. Em ritmo de road movie, com elementos que Payne já trabalhou em seus ótimos As confissões de Schmidt e Sideways, Nebraska talvez traga o que Os descendentes deveria ter lhe trazido em 2011: o Oscar de melhor filme. Bruce Dern também comoveu a plateia de Cannes, o que lhe confere, desde já, destaque. Os filmes La Venus à la fourrure, de Roman Polanski, com sua mulher Emmanuelle Seigner, e Only lovers left alive, de Jim Jarmush, com Tom Hiddleston,Tilda Swinton e John Hurt, aproveitando a mitologia dos vampiros, tiveram uma boa recepção no Festival, e são de diretores que normalmente trazem uma visão diferente. Behind te Candelabra, com Matt Damon, Michael Douglas, Rob Lowe e Dan Aykroyd, em mais um último filme de Steven Soderbergh (que há pouco também lançou Terapia de risco), não chamou muita atenção, mas vem recebendo críticas positivas.
Entre os filmes exibidos na mostra “Um outro olhar”, parece que Sofia Coppola não repetiu o êxito de outros, com seu Bling Ring – A gangue de Hollywood, mas sempre é interessante aguardar pelos filmes de quem realizou Encontros e desencontros e Maria Antonieta. Não se deve esquecer que Cosmópolis, de David Cronenberg, e Moonrise Kingdom, de Wes Anderson, foram praticamente ignorados no Festival de 2012.

Vencedor.Palma de Ouro no Festival de Cannes