Missão: impossível – Efeito Fallout (2018)

Por André Dick

O primeiro Missão: impossível, ainda dos anos 90, mostrou a volta, na época, do diretor Brian De Palma, estruturado em momentos de suspense, depois do desapontamento financeiro de A fogueira das vaidades e Síndrome de Caim. Nele, Ethan Hunt (Tom Cruise), um agente principal da IMF (Impossible Mission Force), é acusado de traição e precisa buscar uma lista oficial de espiões norte-americanos para a misteriosa Max (Vanessa Redgrave), a fim de provar sua inocência. Auxiliado por uma dupla (Ving Rhames e Jean Réno) e tendo em torno Claire (Emmanuelle Béart), o agente tenta chegar ao computador que contém a lista. Mesmo não apresentando muitos momentos de ação, a expectativa da história criada por De Palma vale a sessão, com uma passagem final memorável, em que a fotografia do colaborador habitual do diretor, Stephen H. Burum, era um trunfo. Se o segundo filme, dirigido por John Woo, tinha prevalência de estilo sobre substância, o terceiro, de J.J. Abrams elevou a série a um novo patamar, com o agente Hunt, dividido entre o trabalho e o casamento com Julia (Michelle Monagan). No entanto, ela não sabe de sua vida dupla, e ele parte em nova missão, para capturar Owen Davian (o ótimo Philip Seymour Hoffmann), que tem um objeto, o Pé de Coelho. O filme basicamente é sobre sua tentativa de reencontrar a namorada, mas Abrams concede ao personagem traços humanos.

No quarto filme, de Brad Bird, com o subtítulo Protocolo fantasma, além da curiosa presença de Léa Seydoux, as sequências de ação e a beleza das paisagens, na tempestade do deserto antológica, eram um acréscimo à competência narrativa, o que se repetiu na quinta parte, Nação secreta. O diretor desta, Christopher McQuarrie, volta em Missão: impossível – Efeito Fallout.
O filme dá prosseguimento ao que aconteceu no anterior. O que sobrou da organização de Solomon Lane (Sean Harris) se transformou num grupo terrorista. Ethan Hunt, em Belfast, precisa interromper a venda de plutônio para integrantes desse grupo, para outro cliente, John Lark. Ele recebe a ajuda novamente de Benjamin Dunn (Simon Pegg) e Luther Stickell (Ving Rhames). No entanto, acontece um imprevisto, que vai colocar Hunt em ação. Mesmo sob ordem de Alan Hunley (Alec Baldwin), ex-agente da CIA e secretário do IMF, para acompanhar Hunt, a agente Erica Sloane (Angela Bassett) escolhe o agente August Walker (Henry Cavill) e a primeira passagem é para a Cidade das Luzes, onde MvQuarrison filma cenas de ação antológicas, sob influência clara de John Wick 2 (a luta no banheiro entre os heróis e um personagem feito por Liang Yang) e do James Cameron de O exterminador do futuro 2, na perseguições de motos e carros. Lá, Hunt conhece a White Widow (Vanessa Kirby), enquanto tenta encontrar os integrantes ex-aliados de Lane, ao mesmo tempo que reencontra Ilsa Faust (Rebecca Ferguson), ex-agente do MI6, que aparecia em Nação secreta.

Efeito Fallout tem, primeiramente, excelentes locações (toda a sequência que se passa em Paris), assim como acontecia no terceiro, passado em grande quantidade no Japão (onde Ethan tinha uma passagem que inspiraria Batman em seu segundo filme de Nolan). As peripécias do agente são obviamente difíceis de acreditar, mas Quarrie filma com tanta veracidade e com uma fotografia alternando ângulos que sabemos estar diante de uma obra de aventura incomum. Tudo soa espetacular, com efeitos especiais de ponta e design de produção detalhista (o clube noturno, por exemplo), auxiliado por uma montagem trepidante.
McQuarrie concentra uma carga mais humana no personagem de Hunt, ou seja, coloca medo e reflexão na maneira como ele age diante do perigo. Isso fazia falta sobretudo no segundo da série. No primeiro, De Palma fazia um filme de ação quase orquestrado – num meio caminho entre os policiais que fez (Os intocáveis) com o aspecto cult de Femme fatale. Por sua vez, Abrams fazia uma espécie de peça de espionagem em que, à medida que acelera, consegue estabelecer cada um dos componentes de interesse entre cada personagem – ou seja, parecia que estávamos em meio à ação e o personagem de Hunt tentava encontrar a sua amada para se reconectar a uma vida ilusória. As conversas de Luther com a personagem de Rebecca Ferguson são as que melhor retomam essa tentativa de experimentar uma vida cotidiana.

Se o quarto e o quinto filmes foram interessantes, no entanto concentrados na parte visual, é neste sexto que McQuarrie estabelece melhor ainda a peregrinação de Hunt com o peso de escolher entre a humanidade e os amigos, de forma destacada no primeiro ato. E, mesmo que Pegg e Rhames continuem boas presenças, trazendo doses bem-vindas de humor, é, de forma surpreendente, que Cavill, um ator normalmente restrito apenas ao personagem de Superman e poucas variações (no ótimo O agente da U.N.C.L.E.), se destaque. Por isso, talvez, ele se ressinta, em alguns momentos, de reviravoltas no ato final, quando tudo se estabelece de maneira mais direta e Tom Cruise continue se afastando de um roteiro em que atue menos fisicamente. Surge uma personagem surpresa de um dos filmes passados e, ao contrário de explorar a sua presença, McQuarrie prefere se concentrar apenas na ação, o que diminui uma certa conexão do público. De qualquer modo, blockbuster de grande qualidade, Efeito Fallout acaba concedendo mais responsabilidade para as próximas obras de 007, a única franquia que possui a mesma quantidade de cenas de ação em intensidade, em que o espectador não apenas testemunha a ação, como se corresponde com a corrente emocional dos personagens. Existe aqui uma narrativa funcional, sem desenvolvimentos desnecessários, parecendo-se muito com Operação Skyfall nesse aspecto, abrindo os personagens para uma continuação possivelmente ainda mais grandiosa e capaz de reunir elementos do passado de Hunt e o futuro da humanidade contra grupos ameaçadores.

Mission: Impossible – Fallout, EUA, 2018 Diretor: Christopher McQuarrie Elenco: Tom Cruise, Henry Cavill, Ving Rhames, Simon Pegg, Rebecca Ferguson, Sean Harris, Angela Bassett, Alec Baldwin Roteiro: Christopher McQuarrie Fotografia: Rob Hardy Trilha Sonora: Lorne Balfe Produção: Tom Cruise, JJ Abrams, David Ellison, Dana Goldberg, Don Granger, Christopher McQuarrie, Jake Myers Duração: 147 min. Estúdio: Bad Robot, Skydance Media, Alibaba Pictures Distribuidora: Paramount Pictures

Pulp Fiction – Tempo de violência (1994)

Por André Dick

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É  preciso ingressar no universo de Quentin Tarantino para gostar de seus filmes, feito a partir de referências cinematográficas, musicais e de quadrinhos, mas com um senso de espaço e tempo notáveis. Realizado quase ao mesmo tempo em que contribuiu com roteiros para Oliver Stone (Assassinados por natureza) e Tony Scott (Amor à queima-roupa), Pulp Fiction – filme que sucedeu Cães de aluguel – começa com Vincent Vega (Travolta) e Jules (Jackson) indo cobrar dívidas com um sujeito que não cumpriu acordo com o chefe deles, Marsellus Wallace (Ving Rhames), enquanto caminham tranquilamente por um corredor numa manhã que se anuncia como calma. Vincent está preocupado porque precisará fazer companhia à mulher do chefe, Mia (Uma Thurman), por uma noite. Tarantino leva o casal o casal para uma lanchonete estilizada, uma homenagem a Elvis Presley, também com sósias de James Dean e Marilyn Monroe, onde Vincent tenta demonstrar ou esconder interesse pela mulher do chefe, ao fazer comentários sobre o preço abusivo do milk-shake e comentar sobre o passado de outro capanga selecionado para cuidá-la. De acordo com o ambiente, a conversa desvia para o plano da atuação:  Mia participou de um piloto de série de TV, e Vincent, com suas pulp fictions de bolso, deseja participar desse universo paralelo. Trata-se de uma das sequências mais divertidas, com elementos de videoclipe, e referências a Os embalos de sábado à noite, ainda que vaga e estranha, pois não se sabe ao certo se termina em um episódio que não deve ser contado a Marcellus e envolve um casal suburbano (Eric Stoltz e Patricia Arquette), amigo de Vincent.

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Em outra história, temos Butch (Bruce Willis), boxeador que precisa perder uma luta e pensa, antes de tudo, viver tranquilamente com sua namorada (Maria de Medeiros). Quando criança, ele ganhou um relógio importante deixado por seu pai a um amigo (Cristopher Walken), escondido num lugar delicado durante um longo tempo, na II Guerra Mundial. A história de Butch se cruzará com as de Vincent e de Marcellus – desta vez num ambiente inesperado e filmado por Tarantino com requintes de crueldade e de histórias em quadrinhos perversas, mas também, e eis o diferencial do diretor, com um aspecto de humanidade (além de uma homenagem aos filmes dos anos 50, com a conversa de Butch com uma taxista, tendo um fundo externo acertadamente falso). E, por mais que os personagens se castiguem, a recompensa acaba sendo uma espécie de saída da rotina em que estão inseridas, mesmo que Tarantino nunca seja complacente nas imagens, tornando uma singela loja numa espécie de superfície do subterrâneo também do seu dono.
Pulp Fiction não deixa de ser o segundo passo, depois de Cães de aluguel, com sua conhecida sequência final, que trabalha com diferentes histórias a fim de compor um painel do submundo e de gângsteres que podem se arrepender e mesmo perdoar diante de uma situação extrema, ou se ajudarem quando se encontram com uma situação pior do que aquela que causam. Daí, Tarantino transitar por conversas sobre as drogas de Amsterdã e o Big Mac de Paris e pelos personagens de Samuel L. Jackson (que recita versículos da Bíblia para suas vítimas) e Travolta discutindo porque nenhum deles quer limpar o banco do carro ensanguentado depois de um acontecimento acidental; nesse caminho, é possível que haja a mudança completa para um deles e se passa a falar de redenção, capaz até mesmo de poder convencer dois assaltantes (Amanda Plummer e Tim Roth) que pretendem mudar sua vida passando a assaltar lanchonetes.

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São poucas as tramas, assim como mostraria em Kill Bill e Bastardos, mas Tarantino dá um tratamento especial a cada uma delas, e dar atenção significa transformar os diálogos em camadas, assim como lança mão de uma fotografia especial de Andrzej Sekula (contrastando as cenas que se passam à noite e de manhã cedo) e uma montagem com precisão rítmica de Sally Menke, que participou dos filmes de Tarantino até Bastardos inglórios e veio a falecer em 2010 (e é justamente a montagem que veio a prejudicar longas sequências de Django livre). Quando Vincent e Jules precisam buscar abrigo na casa de um conhecido (Tarantino) e necessitam da ajuda de um especialista para se livrar de um corpo, conhecido singelamente como Wolf (Harvey Keitel, em momento excelente), que sai de uma festa familiar diretamente para o serviço, o filme se encaminha como um quebra-cabeças que deve ser completado, pois podemos tanto estar no início do filme quanto em seu final. Mas esse detalhe não é brusco, ou seja, não se sente a quebra da narrativa. Como em poucos filmes, parece que, mesmo na antilinearidade, existe uma narrativa que se adianta e volta sem que haja sobressaltos. Tarantino filma grande parte das cenas de Pulp Fiction com câmera quase imóvel, e os travellings servem para dar velocidade à trama. Sua melhor característica está lá, desde o início: são os diálogos ditos com velocidade, e ainda assim calculados, um a um, apesar de muitas vezes parecerem dispersos, o que se revela também em suas trajetórias de vingança, Kill Bill, Bastardos inglórios e o recente Django livre. Ao mesmo tempo em que usa muitos diálogos, conserva uma narrativa limpa, sem excessos, à medida que a percepção de Tarantino da montagem de um filme (com a colaboração de Menke) consegue sempre transformá-lo numa peça que vai tomando mais força. E impressiona como as atitudes dos personagens vão mudando conforme a necessidade, como o intervalo que se dedica a Butch e a Marcellus, com um ato derradeiro impressionante e que antecipa Kill Bill, ou quando percebemos que Vincent e Jules podem estar no passado de uma história que já teve seu final.
Neste filme, que melhora muito com uma revisão – ao contrário, parece-me, que Cães de aluguel, ele ganha mais amplitude –, Tarantino também retoma atores improváveis (como Eric Stoltz no papel de um vendedor de drogas, que seria, a princípio, de Kurt Cobain; o próprio Willis como um boxeador; e Travolta, quase esquecido durante toda a década de 80, como o capanga), além de confirmar o talento de outras (Uma Thurman, Jackson, Keitel), tornando Pulp Fiction, que recebeu a Palma de Ouro, em Cannes, de melhor filme e o Oscar de roteiro original (tendo sido indicado a melhor filme, entre outros), uma espécie de retrato demarcado de um período, mas capaz de dialogar com outros e com uma visão própria do universo que Scorsese ajudou a dar uma definição derradeira, com Os bons companheiros.

Pulp Fiction, EUA, 1994 Diretor: Quentin Tarantino Elenco: John Travolta, Samuel L. Jackson, Tim Roth, Amanda Plummer, Eric Stoltz, Bruce Willis, Ving Rhames, Phil LaMarr, Maria de Medeiros, Rosanna Arquette, Peter Greene, Uma Thurman, Steve Buscemi, Christopher Walken, Quentin Tarantino, Harvey Keitel Produção: Lawrence Bender Roteiro: Quentin Tarantino, Roger Avary Fotografia: Andrzej Sekula Trilha Sonora: Karyn Rachtman Duração: 154 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Miramax Films / Jersey Films / A Band Apart

Cotação 5 estrelas

Vencedor.Palma de Ouro no Festival de Cannes