História real (1999)

Por André Dick

Embora se saiba que David Lynch não faz filmes lineares, aqui ele muda um pouco, sem, no entanto, abdicar de seu estilo. A primeira sequência é típica dele: mostra uma mulher tomando banho de sol num pátio esverdeado, como Jeffrey Beaumont, ao final de Veludo azul, e a câmera vai se aproximando de uma casa branca com detalhes de azul. Em seguida, um senhor aparece procurando por Alvin Straigt (Richard Farnsworth) – e a sua calça de brim se harmoniza com o azul da casa. A mulher se intromete, mas ele não lhe dá atenção. Alvin está caído em sua cozinha. Imaginam que esteja tendo um ataque cardíaco, enquanto ele só precisa de ajuda para se levantar. A indefinição do velho amigo em chamar uma ambulância ou insistir para que ele acompanhe os demais companheiros numa diversão representa a fina ironia que perpassa a obra de Lynch, com grande destaque ainda mais em Cidade dos sonhos. Em seguida, mostra-se a chegada da filha de Alvin, Rose (Sissy Spacek), que tem problemas mentais e faz casinhas para pássaros (pintarroxos ou não), para levá-lo urgentemente ao médico. Este lhe diz, depois de um olhar cansado de Alvin sobre os objetos do consultório, que precisará usar andador e precisará deixar de fumar, em razão da diabetes. Na sequência seguinte, ele acende um cigarro.

Trata-se de um roteiro escrito a quatro mãos, por Joan Roach e Mary Sweeney, então casada com Lynch e montadora (e por vezes produtora, como no caso de A estrada perdida) de seus filmes (aliás, é dela a montagem de História real). Parece que Lynch não queria contar essa história – ele habitualmente escreve suas histórias –, mesmo que soubesse da realização do roteiro e da ideia. No entanto, não lhe agradava a ideia de filmar a trajetória de Alvin Straight, que, em 1994, foi de Laurens, Iowa, para Mr. Zion, Wisconsin, num cortador de grama. O que deve ter feito com que mudasse de ideia foi certamente o fato de a história apresentar uma sensibilidade distinta e de que depois de A estrada perdida seu cinema estava sendo rotulado. Ele considera História real seu filme mais experimental, o que é um exagero (continuam sendo Eraserhead e Império dos sonhos), mas, de qualquer modo, também assim ele não se deve concordar com a crítica de que seus filmes são bizarros e de que este mostra pessoas comuns em situações corriqueiras – quando aqueles apresentam, em suas imagens, imagens cuidadosas como as que se apresentam aqui. É seu filme mais linear desde O homem elefante, porém tem todos os elementos (a estrada, o fogo, a eletricidade, as paragens do interior, a cidadezinha lembrando Lumberton e Twin Peaks, casas que parecem caídas, pontes sobre rios). E, mesmo sem a estranheza habitual – o que certamente fez com que, depois de exibido no Festival de Cannes, a Walt Disney tivesse tido o interesse em distribuí-lo –, é com tais elementos que o espectador se vê surpreendido, à medida que Lynch consegue desenhar todas suas obsessões numa espécie de quadro aberto ao entendimento mais generalizado, embora não simplista ou deslocado para o efetivamente piegas.

A viagem que Alvin faz se dá por causa do irmão, Lyle (em uma curta aparição, mas expressiva, do sempre ótimo Harry Dean Stanton, que havia aparecido na versão cinematográfica de Twin Peaks), que teve um ataque cardíaco. Ela soube da notícia através de um telefonema em meio a uma tempestade com relâmpagos: “Adoro essas tormentas com relâmpagos”, diz Alvin à filha, com iluminações elétricas no rosto de cada um recorrentes na obra de David Lynch (não é difícil imaginar outros personagens dele olhando para esta luz, como a Laura Palmer ou o Fred Madison de A estrada perdida). A partir do dia seguinte, ele passa a se preparar para a viagem. Logo que a inicia, o seu antigo cortador de grama, já sem estrutura, acaba pifando. E ele vai atrás de outro para realizar a viagem.
Doente e sem enxergar direito, coloca a aventura como um compromisso familiar, em meio a lembranças da II Guerra Mundial, da qual participou, como se fosse uma regeneração da briga que o afastou do irmão. O filme basicamente mostra ele passando de cidade em cidade, embora nunca se estabeleça apenas nessa premissa: a sensibilidade contida em cada sequência representa os melhores elementos de Lynch, e a interpretação do fazendeiro, feita por Richard Farnsworth, é excelente (ele foi indicado, inclusive ao Oscar; depois, descobriu estar com câncer e, infelizmente, acabou tragicamente se suicidando). Cada pessoa que ele conhece (como Tom, feito por um dos atores preferidos de Lynch, Everet McGill, que lhe vende o trator, a menina grávida que fugiu de casa e a mulher que se encontra desesperada por ter atropelado mais um cervo na estrada, no momento mais surreal do filme) é um motivo para ele recordar sua trajetória, entre caminhões e ciclistas –quando encontra esses, um deles lhe pergunta: “O que é pior quando se envelhece?”, ao que Alvin responde: “É não se recordar de quando é jovem”.

O que Lynch busca é retratar as famílias e os velhos do interior norte-americano, quando em Veludo azul, Twin Peaks e Coração selvagem o interesse era pela aceleração da juventude. Entretanto, a maneira como cria a ambientação (as lojas, os figurinos das pessoas do interior) tem todo o seu direcionamento singular. Para Lynch, Alvin, com seu cortador de grama de 1966, representa a sustentação dos Estados Unidos. Várias vezes, ao longo do filme, ele cria uma analogia do cortador com enormes tratores que fazem colheita em campos de milho e trigo, em panorâmicas raras na carreira de Lynch (parecidas com aquelas de Duna, sendo o fotógrafo, o excelente Freddie Francis, aqui em seu último trabalho, o mesmo).
A tentativa de Alvin de vencer as próprias limitações, o cansaço da velhice, a preocupação com o afastamento imposto pelo Estado de Rose dos seus netos, encontram em sua vontade uma prova para desbravar um país desconhecido, tanto para ele quanto para o espectador. Sua aventura não tem o elemento rebelde que emprega, por exemplo, o personagem real de Na natureza selvagem, e sim o de alguém que precisa reencontrar seu irmão para resolver o que, na verdade, não pode, pois ficará sempre implícito. O personagem pode estar limitado pelo veículo em que viaja, mas sua visão é grandiosa, como outros personagens de Lynch: o Paul Atreides de Duna e o agente Cooper de Twin Peaks. Temos os Estados Unidos em origem durante toda a metragem, com suas paisagens tristes, povoados abandonados, estradas desertas, pessoas que o abrigam solidariamente e têm a estranheza dos habitantes de estrada de Coração selvagem, embora saibamos que, desta vez, há algo mais tranquilo esperando o personagem, pelo menos uma sombra à beira de árvores. Vejamos, por exemplo, a sequência em que uma casa de beira de estrada pega fogo, enquanto os bombeiros tentam apagá-lo, sob o olhar de alguns integrantes da família de Danny Riordan (James Joe Cada, memorável), do outro lado da pista, sentados em suas cadeiras, como se de dentro de uma pintura de Edward Hopper – família que abriga Alvin no pátio de sua casa.

A viagem esconde sobretudo as lembranças da II Guerra Mundial, onde Alvin era franco-atirador. A conversa que ele tem com um amigo da família, Verlyn Heller (numa curta e extraordinária atuação de Wiley Harker), numa lanchonete, além de mostrar a grande apresentação de Farnsworth, é um diálogo com os temores e lembranças de toda uma nação – perguntado se não tem medo de viajar, Alvin responde: “Por que teria medo, depois das trincheiras da II Guerra, de milharais?” –, além daquela tão significativa quanto: Alvin acampado num cemitério, recebendo a visita de um padre da igreja local.
Se A estrada perdida, filme anterior, mostrava a estrada como um símbolo da fuga e da confusão psicológica dos personagens, em História real, Lynch a filma com um realismo e a fotografia excepcional de Francis. É uma estrada direcionada para o reencontro, com uma figura familiar e com o passado. A sua visão desse universo interioriano lembra muito, na fotografia e na organização de cores, Dias de paraíso – e não vejo como dúvida que, ao lado de Malick e de Walter Salles no recente Na estrada, Lynch tenha dado a melhor visão sobre o que se esconde nas paisagens longínquas e inabitadas dos Estados Unidos, algo certamente com densidade humana, inesquecível e universal.

The straight story, EUA/FRA, 1999 Diretor: David Lynch Elenco: Richard Farnsworth, Sissy Spacek, Harry Dean Stanton, James Joe Cada, Wiley Harker, Jane Galloway Heitz, Everett McGill, Jennifer Edwards-Hughes, Barbara Robertson, John Farley Produção: Neal Edelstein, Mary Sweeney Roteiro: John Roach, May Sweeney Fotografia: Freddie Francis Trilha Sonora: Angelo Badalamenti Duração: 111 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Canal+ / Channel Four Films / Asymmetrical Productions / CiBy 2000 / Les Films Alain Sarde / StudioCanal / Walt Disney Pictures / The Picture Factory / The Straight Story Inc.

Cotação 5 estrelas

 

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