Fahrenheit 11 de setembro (2004)

Por André Dick

Filme.Michael Moore

O diretor Gus Van Sant realizou Elefante, baseado no assassinato de diversos alunos em Columbine, recebendo a Palma de Ouro de melhor filme em Cannes em 2003. O filme, sem fugir ao tom documental, mostra como transcorre determinado dia num colégio de Portland, Oregon, colocando o o espectador diante da ameaça iminente da dupla que fará um ataque, à espera, em casa, do armamento. Um ano antes, esse acontecimento havia sido tratado exatamente pelo documentário Tiros em Columbine, de Michael Moore. Foi o documentário seguinte do cineasta que acabaria ganhando também a Palma de Ouro em Cannes: o polêmico Fahrenheit 11 de setembro, o filme-evento de 2004.
Moore deseja apontar as falhas de George W. Bush, ao contrário da condescendência de Oliver Stone em W, no qual Josh Brolin interpretava com competência, mas prejudicado pelo roteiro, o ex-presidente e, desse modo, parte do terrível ataque às torres do World Trade Center para mostrar o comportamento do governo dos Estados Unidos em relação aos atos de terrorismo. Para isso, lança mão de várias revelações: mostra, por exemplo, que os únicos voos que saíram dos Estados Unidos logo depois do 11 de setembro levaram embora familiares de Bin Laden, o responsável pelo atentado. Além do principal: Bush seria indeciso, ou precavido diante de suas ligações, para tomar qualquer decisão (como quando soube do ataque, enquanto ouvia crianças contarem histórias numa escola da Flórida, numa das melhores cenas do filme, embora, se vista de forma distanciada, excessivamente simplista). E coloca em dúvida, inclusive, a sua eleição, com a polêmica na contagem dos votos da Flórida, onde o irmão de Bush era governador, e ele mesmo aparece numa conversa estranha dentro de um avião, em disputa com Al Gore, seguida por uma posse longe de amistosa.

Filme.Michael Moore 4De tão incisivas, algumas críticas chegam a ser cômicas, e há intervalos sempre quando o assunto parece se tornar denso em excesso, pontuado pela trilha excelente de Jeff Gibbs, com referências à série policial Dragnet e a faroestes. Mas o retrato dado por Moore a Bush é revelador: mostrando o passado do ex-presidente, a obsessão de sua família pelo petróleo no Oriente Médio, o oportunismo na invasão ao Iraque, já que lá não estava quem assumiu o atentado, Bin Laden, cuja família mantinha relação de negócios com os Bush e os Estados Unidos. E o que foi bastante discutido enquanto ele era presidente: a necessidade de criar um clima de terror para a população, como se fosse acontecer um novo ataque a qualquer momento – e algumas invenções para evitar ferimentos. Neste ponto, Moore utiliza todos os meios para esvaziar a criação de um estado de medo, mostrando que a preocupação quanto à defesa não era tão grande, ao filmar apenas um guarda, que ajudava a cobrir toda uma costa dos Estados Unidos. Se em alguns momentos ele soa exagerado – é difícil separar, numa situação dessas, o que é fingimento ou realidade, pois se trata de um medo coletivo –, para o momento em que fala, 2004, embora não seja datado por isso, Fahrenheit 11 de setembro é eficiente. Havia excessos, e eles estão no filme.
É surpreendente, também, o trecho de uma entrevista de Condoleezza Ricce, em que ela diz que o governo havia recebido um relatório afirmando que o país poderia ser atacado, com um título sugestivo: “Bin Laden pretende atacar os Estados Unidos”. Todos os políticos, mesmo aqueles cujo nome pode assustar, são vistos como pessoas que agem apenas para encobrir a verdade (há uma colagem de depoimentos desastrosos). Não por acaso, os créditos iniciais acontecem quando o presidente e outras personalidades de seu governo (como Colin Powell e Donald Rumsfeld) são maquiados – Bush especificamente para tratar da invasão ao Iraque. Moore segue o mesmo caminho de Pakula em Todos os homens do presidente e de Oliver Stone em JFK: a política é apenas um meio para tratar do comportamento ambíguo. E, principalmente como JFK, Fahrenheit 11 de setembro manipula o espectador sempre que deseja, no entanto sem deixar de fasciná-lo. Trata-se de uma visão pessoal e, por isso, mais polêmica, em que o quebra-cabeças é armado conforme se espera em relação à sua finalidade e com uma montagem intensa.

Filme.Michael Moore 6

O problema e a qualidade fundamentais do filme é justamente a presença de Michael Moore. Ele, por vezes, se excede com passagens de pretensão cômica, tentando tornar o tema mais acessível e leve para o espectador. Embora isso funcione em alguns momentos, em outros soa apenas deslocado. Moore se coloca, desde o início, como o antagonista de Bush, quando este lhe sugere procurar um trabalho de verdade, e não interrompe a sucessão de ataques àquele que continuou o que o pai começou no início dos anos 90: a invasão ao Iraque. É esta invasão que Moore tenta colocar como o estopim dos desejos de Bush em conquistar mais petróleo para os Estados Unidos, com a pretensão de um combate mais efetivo a quem poderia esconder armas de destruição em massa (acusação que se mostrou infundada), tirando-o de Saddam Hussein e o colocando como peça a ser julgada pelo povo, sem haver a própria reflexão, reduzindo tudo a uma espécie de genética texana de Bush e seu estilo de caubói e comprador de poços. Se no seu início Moore inspirou diretamente Kathryn Bigelow em A hora mais escura, esta passagem pelo Iraque inspirou o filme anterior da diretora, Guerra ao terror. São imagens de impacto, principalmente pela associação entre a música ouvida pelos soldados e a violência que empregam na invasão a casas durante todos os dias. Neste trecho, Moore compõe aquilo que exatamente forma Fahrenheit 11 de setembro: para qual fim existe uma guerra. No seu olhar, ao som de Bruce Springsteen, a guerra apenas é uma forma de fortalecer o sistema do medo e do financiamento de armas.
Michael Moore aparece também, algumas vezes, fazendo entrevistas ou se manifestando em frente ao Congresso Nacional, onde pede a adesão à guerra de filhos de senadores e deputados, o que causa constrangimento notável. Também entrevista mães que perderam seus filhos no Iraque e jovens negros e da periferia cooptados pelo governo para servirem na guerra e pretensamente melhorarem de vida, o que vai ao encontro do início, quando a comunidade negra da Flórida não é ouvida no Senado. Por baixo de toda a política do documentário, existe, na verdade, uma tragédia de classes poucas vezes abordada com a mesma sensibilidade. Por isso, polêmico ou exagerado, este documentário também vencedor do Oscar de melhor documentário é uma peça-chave para entender o que aconteceu nos Estados Unidos no período turbulento da Era Bush e suas consequências para a política internacional, entregando um humor, mesmo que em doses desmedidas, que acaba por desfazer a aura política de poder e superioridade.

Fahrenheit 9/11, EUA, 2004 Diretor: Michael Moore Elenco: Michael Moore, George W. Bush Produção: Michael Moore Roteiro: Michael Moore Trilha Sonora: Jeff Gibbs Duração: 110 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Miramax Films

Cotação 4 estrelas e meia

Vencedor.Palma de Ouro no Festival de Cannes

Histórias cruzadas (2011)

Por André Dick

Este drama, baseado em romance de Kathryn Stockett, possui alguns méritos evidentes: tem um elenco competente (sobretudo Viola Davis, Octavia Spencer, premiada com o Oscar de atriz coadjuvante, e Jessica Chastain, que surgiu em A árvore da vida) e uma reconstituição notável (com uma direção de arte e figurinos destacáveis, além de uma fotografia detalhada).
Ao lidar com o preconceito existente na sociedade norte-americana dos anos 60, o filme evidencia esse panorama, mostrando o dia a dia de algumas empregadas domésticas negras, Abileen (Viola) e Minny (Octavia Spencer), e o afastamento que elas sofrem, por não terem direitos iguais – há cenas que tratam do problema muito bem filmadas pelo diretor, Tate Taylor. Essas empregadas acabam contando suas histórias a uma jornalista, Skeeter Phelan (Emma Stone), que volta à sua cidade natal, Jackson, no Mississipi, e, entre reuniões com mulheres que se encontram para comer bolo e tomar chá, pretende escrever um livro sobre elas, a pedido de uma editora (Mary Steenburgen) de Nova York. Além disso, ela foi criada por Constantino (Cicely Tyson), demitida de forma injusta por sua mãe (Allison Janney, numa grande atuação), motivo que a faz se dedicar ainda mais ao trabalho – um dos melhores momentos é quando ela se lembra de uma passagem na infância, em que Taylor melhor consegue conciliar tempos diferentes e estabelecer um vínculo entre as personagens.
Abileen cuida de uma menina que a chama de verdadeira mãe, e Minny, apesar de sofrer violência doméstica do marido e ser demitida por uma dona de casa maquiavélica, Hilly Holbrook (Bryce Dallas Howard), filha de Sra. Walters (Sissy Spacek), encontra uma mulher ignorada pelas mulheres da sociedade de Jackson, Celia Foote (Jessica Chaston) – e a relação entre as duas, primeiro escondida, torna-se mais próxima com o passar do tempo e se dá, a princípio, a partir da descoberta, por parte de Celia, de novas receitas culinárias para o marido dela. Em meio aos acontecimentos, transcorre o surgimento da Lei dos Direitos Civis (há uma menção à Marcha sobre Washington, de 1963) e esta trama acaba ficando um tanto deslocada em relação à principal, servindo mais como pano de fundo histórico.

O diretor Tate Taylor não consegue efetuar a dramaticidade que vemos Spielberg conduzir, por exemplo, no clássico A cor púrpura, nem desenha a amizade comovente entre uma idosa e seu motorista, como havia em Conduzindo miss Daisy, ou a de uma dona de casa com um jardineiro, no belo Longe do paraíso. Assim, o filme não deslancha como poderia. Faltam conflitos entre as personagens e, de maneira geral, parece que existe uma aceitação de determinados comportamentos.
Há, nisso uma certa infantilidade no tratamento dado, o que repercute a tendência maniqueísta: as mulheres brancas são cruéis, e o espectador é atendido em sua vontade de puni-las – mas os personagens parecem receber novamente sua punição mecanicamente, nunca alçando realmente uma dramaticidade. E a vilã, por ser exagerada, acaba tirando do filme a proporção exata da gravidade de suas ações – tornando algumas situações quase cômicas, quando na verdade não o são, ou invariavelmente em clichês. Nesse sentido, a reabilitação de alguns personagens soa, em parte, esquemática, pois não há conflito dramático entre personagens que chegue até ela. É de se desconfiar se é a presença de Chris Columbus (que escreveu grandes sucessos nos anos 80, como Os Goonies e Gremlins, mas nunca emplacou como diretor, a exemplo de suas tentativas em Harry Potter e, quando fez um drama, Lado a lado, não foi efetivo) como produtor do filme.
Porém, a visão de Taylor não é superficial: a  jornalista – cercada por copos de café e datilogrando sua máquina à noite – ajuda a mostrar a contundência de ações que havia em relação às empregadas.
Pode-se dizer que isso acarreta outro significado possível: o de que personagem da jornalista quer fazer sua carreira decolar. No entanto, Tate Taylor reverte isso pela lembrança que ela tem de Constantino e, afinal, pela relação que ela estabelece entre as personagens, tornando “A ajuda” do título original em “histórias cruzadas” do título brasileiro.
Trata-se de uma história, aqui, quase exclusivamente de mulheres: ou homens têm pouca participação, a não ser quando um policial resolve ir atrás de uma empregada ou quando um dos maridos, grosseiramente, levanta da mesa quando a empregada decide, depois de muito relutar, pedir ajuda; ou quando um jovem tenta conquistar a jornalista. Não há o posicionamento deles em relação às situações de racismo ou ao contexto: parecem figuras que não sabem o que estava se passando, o que prejudica a narrativa, mesmo que não chegue a desmerecê-la. O filme, nesse sentido, acaba crescendo – e muito – com o depoimento de Abileen e Minny, pois são personagens mais complexos do que aquelas mulheres de classe rica que o filme enfoca.
Também não parece haver dúvida de que a semelhança física entre as atrizes Jessica Chaston e Bruce Dallas Howard (filha do cineasta Ron Howard) ajuda a criar um paralelo de comportamento – mesmo porque ambas teriam outra coisa em comum, o que descobrimos ao final do filme, numa festa que guarda outra surpresa em relação também ao restante da trama.
A atuação das atrizes, reitera-se, merece destaque: Viola, apesar de não estar melhor do que em outras oportunidades, é uma atriz de grande talento; Spencer mereceu o Oscar de atriz coadjuvante; e Chaston faz uma interpretação bastante agradável, aproveitando um personagem até certo ponto superficial. Infelizmente, o papel central é desempenhado por Emma Stone, uma atriz simpática (principalmente em Amor a toda prova), mas que não confere peso dramático às cenas, como se exigiria neste caso.
Se os personagens não se enlaçam como deveriam e alguns deles são mal desenvolvidos, além de ter, pelo menos, mais tempo do que deveria – um corte na montagem deixaria a história mais ágil, sem prejuízo da narrativa –, não resta dúvida de que se trata de um filme efetuado com cuidado. Não se vê, em Taylor, um desejo de contar uma história definitiva, e sim de mostrar com delicadeza essas personagens e colocá-las num contexto grave, o que ele desempenha bem, tornando o filme atrativo.

The help, EUA, 2011 Diretor: Tate Taylor Elenco: Emma Stone, Bryce Dallas Howard, Mike Vogel, Allison Janney, Viola Davis, Ahna O’Reilly, Octavia Spencer, Jessica Chastain, Anna Camp, Eleanor Henry, Emma Henry, Chris Lowell Produção: Michael Barnathan, Chris Columbus, Brunson Green Roteiro: Tate Taylor Fotografia: Stephen Goldblatt Trilha Sonora: Thomas Newman Duração: 146 min. Distribuidora: Disney Estúdio: 1492 Pictures / Imagenation Abu Dhabi FZ / Harbinger Pictures / DreamWorks SKG / Reliance Entertainment / Participant Media

Cotação 3 estrelas