O círculo (2017)

Por André Dick

O diretor James Ponsoldt realizou dois ótimos filmes, O maravilhoso agora, sobre os conflitos amorosos na juventude, e O fim da turnê, tratando da relação entre um jornalista e seu entrevistado, um autor de determinado romance que o consagrou. Agora, em O círculo, ele ingressa num tema provocativo: a influência da tecnologia no dia a dia das pessoas. Ele mexe com um tema sensível, que costuma despertar críticas. Todos talvez lembrem de Homens, mulheres e filhos, no qual uma análise sobre a tecnologia era vista como uma espécie de aceno ao retrocesso, ou seja, a visão do filme seria a condenação àquilo que exatamente apenas analisa, junto com sua interação social. Tornou-se o “pior filme” da trajetória de Jason Reitman, embora seja excelente. O círculo não foge à regra: as críticas parecem ecoar mais o descontentamento que há com seu tema do que com o resultado em si.
Emma Watson interpreta Mae Holland, uma jovem que consegue trabalho no Circle, uma empresa de internet fundada por Eamon Bailey (Tom Hanks) e Tom Stenton (Patton Oswalt). Lá, ela conhece Ty Lafitte (John Boyega), uma figura enigmática, e intensifica sua amizade com Annie Allerton (Karen Gillan). No entanto, acaba se afastando de Mercer (Ellar Coltrane, de Boyhood), um amigo de infância, enquanto tenta manter vínculo com os pais, Vinnie (Bill Patxon) e Bonnie (Glenne Headly).

A empresa, com seu domínio sobre as pessoas, torna Mae uma referência – sua vida passa a ser acompanhada on-line, por meio de uma minúscula câmera. Neste ponto, o filme se parece mais com O show de Truman do que com A rede social, e Watson tenta manter um equilíbrio em sua atuação, que às vezes fica menos interessante do que poderia. Os gráficos das mensagens recebidas lembram muito os de Homens, mulheres e filhos, aparecendo na tela como quase personagens. Ponsoldt utiliza Mae como o símbolo do funcionário que precisa se submeter completamente à sua empresa para se sentir recompensada. Bailey e Stenton estão interessados no fato de que as pessoas não possam ter mais exatamente uma privacidade, e sim um compartilhamento. Há nisso, com certeza, uma crítica embutida às redes sociais, nas quais o usuário algumas vezes perde o limite entre público e privado.
Não se trata nada novo, mas Ponsoldt não é tão óbvio quanto aparenta, nem o roteiro de Eggers, autor também do livro em que o filme se baseia: Mae está em busca de uma segurança na vida pessoal e de se afastar dos problemas dos pais. Para isso, ela escolhe a Circle e o lazer com um caiaque. “Eu me sinto melhor quando estou sendo vigiada”, diz ela em determinado momento. Em outro, ela sugere que a Circle possa ser um papel decisivo nas eleições do país. Tudo exatamente para fugir do fato de que não consegue estabelecer mais ligação com seus pais e se afastou do melhor amigo de infância.

No início, quando ele vem ajudá-la a consertar um problema no carro, Mae lhe diz que vai ligar, mas ele pergunta por que eles não conversam exatamente naquele momento. É como se ela estivesse sempre adiando o encontro com suas próprias escolhas. Esse traço já existia no personagem central de O maravilhoso agora, assim como no escritor de O fim da turnê: o comportamento de ambos era sempre se refugiar em um motivo externo para a existência que não incluísse exatamente se definir pelo mais apropriado. Se Emma não consegue lidar suficientemente com as nuances da personagem – e neste ano ela teve um mau momento como atriz em A bela e a fera, contrariando suas atuações em As vantagens de ser invisível e Bling Ring –, ao menos sustenta a atenção com sua empatia. Em suas conversas com Lafitte e Annie há uma vulnerabilidade de uma pessoa desprendida da própria existência e não parece por acaso que ambos os personagens que se comportam como seus amigos parecem não existir dentro da empresa, vagando de forma solitária.
Hanks tem uma grande atuação, como é de praxe em sua carreira, fazendo uma figura ambígua e que lida com questões morais e particulares, trazendo muito do próprio Jobs para a maneira como apresenta as novidades tecnológicas de sua empresa.

Mesmo sem ser intenso como poderia, O círculo é um filme bastante agradável.  A maioria das cenas tem uma boa atmosfera, com uma interessante ligação de Mae com seus pais, em ótimas atuações de Headly e Paxton (ambos, infelizmente, faleceram recentemente), embora Coltrane, tão bom ator em Boyhood, seja severamente subutilizado, tal como John Boyega, e por vezes mal dirigido. A fotografia de Matthew Libatique consegue transitar entre a alta tecnologia e a natureza campestre (o deslocamento da amiga de Mae para a Escócia), mesmo que a trilha sonora de Danny Elfman não seja efetiva como a maior parte dos trabalhos do compositor (e a melhor participação musical seja de Beck). O círculo se sente bem desenvolvido principalmente em sua primeira metade, tendo uma leve queda na segunda parte, até atingir um final para o qual convergem os principais personagens, no qual Ponsoldt faz o que Danny Boyle tentou em Steve Jobs sem conseguir: sua crítica à tecnologia é a própria aceitação que se tem dela muitas vezes sem analisar o contexto e mostra que muitas vezes o indivíduo, ao querer se sentir observado, quer apenas se afastar de si mesmo, de acordo com a ideia de mundo contemporâneo. O que importa neste caso não é a lição de moral previsível implicada e sim a necessidade de existir fora do próprio círculo de amigos e familiares como ponto vital para a própria sobrevivência. No entanto, os drones que surgem em dois momentos-chave indicam: esse universo pode sempre trazer a lembrança do que se fez a alguém próximo, no caso de Mae. Para Ponsoldt, tudo é circular.

The circle, EUA, 2017 Direção: James Ponsoldt Elenco: Tom Hanks, Emma Watson, Glenne Headly, Bill Paxton, Ellar Coltrane, Karen Gillan, Patton Oswalt, John Boyega Roteiro: Dave Eggers, James Ponsoldt Fotografia: Matthew Libatique Trilha Sonora: Danny Elfman Produção: Anthony Bregman, Gary Goetzman, James Ponsoldt, Tom Hanks Duração: 109 min. Distribuidora: Imagem Filmes Estúdio: Imagenation Abu Dhabi FZ / Likely Story / Playtone

A bela e a fera (2017)

Por André Dick

Desde o sucesso bilionário de Alice no país das maravilhas, a Walt Disney vem procurando fazer versões com atores de suas animações clássicas. Em seguida, tivemos Cinderela, Malévola e ano passado Mogli – O menino lobo e Meu amigo, o dragão. Se Cinderela e Malévola fizeram sucesso e Mogli atingiu novamente uma cifra bilionária, Meu amigo, o dragão, o melhor deles, acabou tendo uma recepção moderada. Este ano as expectativas estavam voltadas para a adaptação de A bela e a fera, realizada não apenas a partir da obra de Jeanne-Marie Leprince de Beaumont, como também da adaptação do ótimo desenho animado de 1991, o primeiro a ser indicado na categoria principal do Oscar.
Se em 1991 as músicas criadas para A bela e a fera tinham uma grande surpresa, nesta versão de Bill Condon, que fez filmes como Deuses e monstros e os dois últimos da série Crepúsculo, há uma atualização de alguns temas. Com a narrativa passada na França, o filme inicia mostrando a transformação de um príncipe numa Fera, que passa a viver encastelado com seus objetos, antes pessoas de seu círculo. Na aldeia de Villeneuve, perto dali, anos depois, moram Belle (Emma Watson) e seu pai, Maurice (Kevin Kline). Gaston (Luke Evans) é um ex-soldado que tenta conquistá-la, sempre acompanhado pelo braço direito LeFou (Josh Gad).

Ela, porém, não está interessada nele. Certo dia, seu pai, numa viagem, é atacado por lobos e vai parar no castelo da Fera (Dan Stevens). Sua filha surge para resgatá-lo e se torna prisioneira em seu lugar. Exatamente como a história original e como na animação de 91. No entanto, é notável que Belle aqui é uma mulher que tenta criar uma independência do papel visualizado para a mulher, trabalhando numa biblioteca e tentando ensinar crianças a ler (o que pode ofender alguns habitantes do vilarejo), e que Gaston, mais do que um pretendente, é um vilão ameaçador e que, com sua obsessão em falar com o espelho, pode lembrar outro personagem bastante conhecido dos contos de fada.
O roteiro de Stephen Chobsky, diretor de As vantagens de ser invisível, escrito a partir de uma primeira versão de Evan Spiliotopoulos, poderia trabalhar esses temas de maneira inovadora, no entanto Condon não consegue efetuar essa transposição de uma maneira interessante. Não apenas porque a personagem de Belle surge desinteressante, apesar da empatia, em razão de uma performance pouco efetiva de Emma Watson, como porque toda a narrativa se desenvolve de maneira a não mostrar a Fera como de fato uma figura solitária.

Os símbolos funcionavam na animação, mas não funcionam aqui – e a graça dos objetos tinha um componente superior anteriormente, embora continuem interessantes Lumière (Ewan McGregor), o candelabro, Cogsworth (Ian McKellen), um relógio de lareira, e Sra. Potts (Emma Thompson), um bule de chá disposto a uma conversa. Evans e Kline têm bons desempenhos, mas o vilão é baseado estritamente numa ideia de caricatura já vista em outros filmes, sem nuances. Os personagens estabelecem vínculos, mas nunca com naturalidade, e as decisões, quando tomadas, parecem sempre pertencer a outra história, não ao que estávamos assistindo até então. As mudanças bruscas no comportamento da Fera apenas acentuam uma sensação contínua de falta de interesse para o roteiro ser de fato interessante e é decepcionante que Chobsky tenha participação nele depois do êxito de seu filme em 2012, do qual Emma Watson participava, com mais vigor.
É visível a influência de Condon: Os miseráveis, de Tom Hopper, de 2012, tanto pela composição dos cenários e figurinos (belíssimos) quanto pela inserção das canções (excelentes, novamente sob comando de Alan Menken, que recebeu o Oscar de melhor trilha sonora e canção pelo A bela e a fera dos anos 90) em meio a movimentos de câmera que tentam captar a grandiosidade dos ambientes. Uma dança numa taverna é especialmente bem feita, aliada a uma composição espetacular de cores que lembra o melhor traço visual de filmes recentes dos estúdios Disney, a exemplo de Oz – Mágico e poderoso, assim como a dança entre Belle e a Fera se sinta quase componente de um cenário de Barry Lindon.

Embora Condon tenha dirigido Dreamgirls, não há quase um sinal de seu estilo nesta obra. Além disso, há também elementos que remetem a Frozen, a animação de grande sucesso em 2013, que impedem ainda mais de o filme soar com o mínimo de identidade. Há um momento em que a câmera se distancia e mostra o castelo da Fera ao longe e este tem o formato daquele que acompanha a marca dos estúdios Disney: é como se não apenas o príncipe vivesse encastelado numa situação que não queria; a própria história não foge nem um traço do que aguardam os produtores do projeto. Se no excepcional Deuses e monstros Condon mostrava uma relação interessante entre dois homens, a tentativa de ele mostrar LeFou como um pretendente de Gaston soa como uma possibilidade de abordar um tema inicialmente à parte, mas logo se perde pela inconsistência do roteiro e seu temor de fazer qualquer abordagem nesse sentido, nem mesmo quando LeFou sabe que Belle é uma ameaça para o que deseja. Isso se associa à extensa metragem para pouca história (mais de duas horas), quando a animação tinha agilíssimos 84 minutos. Que este A bela e a fera tenha arrecadado quase meio bilhão de dólares em duas semanas de exibição é surpreendente, mas talvez justificável: não será tão cedo que a Disney arrisque numa continuação de John Carter. Mais surpreendente ainda quando o chamado caça-níquel Alice através do espelho, um semifracasso dos estúdios Disney no ano passado, se sinta uma obra realmente distinta perto desta versão.

Beauty and the beast, EUA, 2017 Diretor: Bill Condon Elenco: Emma Watson, Dan Stevens, Luke Evans, Kevin Kline, Josh Gad, Ewan McGregor, Stanley Tucci, Ian McKellen, Emma Thompson, Audra McDonald, Gugu Mbatha-Raw Roteiro: Stephen Chbosky, Evan Spiliotopoulos Fotografia: Tobias A. Schliessler Trilha Sonora: Alan Menken Produção: David Hoberman, Todd Lieberman Duração: 129 min. Distribuidora: Walt Disney Pictures Estúdio: Walt Disney Pictures

 

Noé (2014)

Por André Dick

Noé

O diretor Darren Aronofsky nunca foi conhecido exatamente pela discrição à frente de seus projetos. Desde Réquiem para um sonho, com Jared Leto e Ellen Burstyn, ele flertava com imagens de alucinação, que se intensificariam não em O lutador, com uma das melhores atuações de Mickey Rourke, mas em Fonte da vida, uma tentativa de compreensão do universo, e Cisne negro, com a personagem central inserida num ambiente de dança. Noé, sua maior produção até o momento, com gastos milionários, tem esse efeito quase surreal das imagens do cineasta, que iniciou a carreira com Pi, mesmo que se possa entender que é seu filme menos autoral.
Quando se fala em autoria, certamente lembra-se do fato de que Aronofsky é um diretor e roteirista que tem alguns temas prediletos. A religião estava subentendida em cada momento de Pi e Fonte da vida, mas nunca chegou a ser preponderante – e talvez não o seja novamente em Noé, que, pela escala de movimentação, pode lembrar mais um filme fantástico baseado num relato bíblico a que todos temos acesso. Pertencente ao Gênesis, a história da Arca de Noé sintetiza a ideia de como o mundo pode ter passado por um acontecimento divisor. A questão de se dizer que se trata de uma história reproduzida a partir de uma verdade absoluta depende de cada um, mas é difícil negar que tal relato mostra uma capacidade de conjugação entre o homem e a natureza e de como o ser humano pode ser ínfimo diante de um desafio imposto. Não por acaso, ele serviu como motivo para Aronofsky usar o seu arsenal de imagens que já vinham ganhando intensidade sobretudo desde o espetacular Cisne negro. Como neste filme, a fotografia de Matthew Libatique fornece para o espectador uma passagem para um mundo ao mesmo tempo novo, estranho e em alguns momentos terrivelmente real. De todos os filmes de Aronofsky, Noé parece, sem dúvida, aquele mais bem acabado em termos de produção. E, apesar de não parecer, também é o mais ambicioso, embora menos subjetivo do que Cisne negro e Réquiem para um sonho.

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A história vai ampliar o relato bíblico, acrescentando novos personagens. Noé tem sonhos com uma inundação, em que está embaixo d’água, tendo de enfrentar visões terríveis, principalmente quando ele pisa na terra, e ela parece sangue. Também sonha, como se carregasse o peso da Queda da Humanidade, por seus antepassados, com Adão e Eva, além de visualizar a maçã e a serpente no Éden. Ele vaga com a mulher, Naameh (Jennifer Connelly), e seus filhos, Shem, Ham e Jafé, amparando uma menina ferida em determinado momento, Ila, fugindo dos seres humanos, que teriam se entregue à maldade. Tanto como na Bíblia, fato de Noé ter sido escolhido é sua bondade, que foge à linhagem de Caim, que matou Abel. Noé quer encontrar o seu avô, Matusalém (Anthony Hopkins), para que possa solucionar a dúvida em relação à mensagem de Deus e, desde o início, portanto, Noé pretende abarcar uma nuvem de figuras bíblicas.
Mas, se a fotografia de Libatique é extraordinária em alguns momentos, parece que Aronofsky não teve a mesma felicidade ao optar em apresentar os anjos caídos, os guardiões, como ents  gigantes em forma de rocha se locomovendo e falando com uma imponência que remete aos Transformers de Bay (e numa sessão com o trailer do novo filme da série o diálogo é estranho e incômodo), com as vozes de Nick Nolte e Frank Langella. Algumas imagens lembram diretamente o episódio de As duas torres, mas onde Jackson traz um entretenimento mitológico Aronofsky quer introduzir questões sobre como a família se constitui e como ela pode não se constituir quando não se pode reconhecer o par – como há para os animais que adentram a Arca, certamente, no entanto, o detalhe mais decepcionante do filme, pois, com exceção de alguns pássaros, são todos frutos de CGI, sem a mesma competência daquele usado em As aventuras de Pi, empurrando o filme ainda mais para uma linha fantasiosa.
Seria no mínimo mais complicado se Aronofsky não tivesse escolhido os pares de Uma mente brilhante (Russell Crowe e Jennifer Connelly) e As vantagens de ser invisível (Logan Lerman, como Ham, e Emma Watson, como Ila). É precisamente o elenco que se destaca: Crowe pode em determinado momento evocar o Javert de Os miseráveis, mas parece mais interessado em atentar para o conflito de um homem que precisa escolher entre a mensagem divina e os seres humanos, que precisam ser sacrificados para que o mundo comece novamente. Connelly é sempre uma atriz de presença e quando Aronofsky lhe oferece diálogos (poucos) o filme certamente cresce, assim como Emma e o habitualmente subestimado Lerman conseguem lidar de forma efetiva com os personagens – ficando como peças fracas as inclusões de Douglas Booth, como Shem, e de Leo McHugh Caroll como Jafé.

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Mas, diante de um relato bíblico em que a grandiosidade permeia a imaginação, não se deve deixar de apontar que Aronofsky deve ter mordido a maçã e esquecido sua habitual densidade, cujo ponto máximo se encontra em Cisne negro, como se tivesse pretendido entregar uma versão blockbuster de Malick. Fica visível sua indefinição entre fazer um filme na linha fantasiosa (com a inclusão das rochas falantes) ou mais moralista (quando põe em discussão o livre arbítrio da humanidade e trata do perdão dos anjos caídos). São dois filmes dentro do mesmo, e Noé se ressente claramente de um rumo definido. Mas talvez dessa maneira não fosse um filme de Aronofsky, cujo pessimismo habitual, sobretudo em O lutador, é atenuado aqui em uma porção sentimental. Ele é capaz de combinar a estranheza com o kitsch e não é diferente na maior parte de Noé, em que o mal da humanidade se dá justamente em querer maltratar os animais como seres humanos, principalmente na figura de Tubalcaim (Ray Winstone, muito bem com poucos diálogos), da linhagem de Caim, que pretende se opor aos desejos de Noé e, consequentemente, de Deus.
Em determinado momento, vemos uma vala de mortos que remete também a tragédias de guerras, assim como as armas são esquentadas em fogo e cordeiros despedaçados. Os humanos são tratados e agrupados do pior modo possível, e os animais servem apenas para o alimento. Mais interessante, no entanto (aqui, spoiler) em que Noé faz o relato oral sobre a criação do mundo. Embora as imagens soem menos interessantes do que aqueles que Malick selecionou para A árvore da vida – um peso dramático incontornável para projetos como esse –, Crowe consegue dar uma viva emoção ao caráter oral de como as histórias passam de geração para geração, aliando no filme as duas histórias conhecidas sobre a criação. É justamente em momentos como este que Noé atinge um tópico universal, capaz de dialogar com as mais variadas religiões, e não há dúvidas de que passagens dos filmes – como a da criação de árvores para a construção da arca – se baseiam, mesmo que por um viés ainda mais fantástico, em interpretações de diferentes culturas sobre esse relato, mostrando um estudo por parte dos roteiristas. Do mesmo modo, a analogia entre a maçã da árvore da vida e frutos silvestres encadeia uma retomada da possibilidade de vida no ventre de alguém que até então não poderia dar a luz, e se põe a fertilidade ou não como o resquício da humanidade num cenário de tormento e de guerra.

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Desse modo, embora Noé seja, antes de tudo, entretenimento – e seus 139 minutos passem num piscar de olhos, em razão da montagem e do arco narrativo não se concentrar em diálogos, mas em imagens –, há alguns elementos narrativos capazes de desenvolver as premissas de seus personagens. Esses se desenvolvem principalmente no terceiro ato, em que há uma mescla de discussões a respeito não apenas da liderança paterna de Noé, mas da maternidade, de como se dá a livre escolha do nascimento, o ódio em relação ao pai por não dar a escolha de salvar a mulher que se deseja e um possível desejo de trai-lo, o peso na consciência de se deixar homens para trás quando é possível até salvá-los, sob o pedido de Deus. Isso se acentua ainda mais quando em diálogo com o relato bíblico, pois o dilúvio teria coberto a Terra para que a maldade do homem desaparecesse, mas quando estão na Arca, em família, essa maldade apenas é canalizada de outras maneiras. Ou seja, o homem, de certo modo, sempre acaba se confrontando consigo mesmo, para criar ou destruir. Aronofsky encontra aí algumas questões para explorar, na medida em que tudo vai se encadeando para um final bastante fiel, em determinados aspectos, ao relato original. Ou seja, situado entre adaptar uma história de fundo religioso e optar por um caminho mais livre, Aronofsky tenta se manter num equilíbrio ao longo de seu Noé. O poder emocional de duas mãos tocando a terra, quando antes se oferecia uma gota vinda do céu provocando o surgimento de uma flor no solo, pode também mostrar a crença no extraordinário. Para Aronofsky, a criação habita justamente esta ligação fundamental entre o divino e a matéria.

Noah, EUA, 2014 Diretor: Darren Aronofsky Elenco: Russell Crowe, Jennifer Connelly, Emma Watson, Ray Winstone, Anthony Hopkins, Logan Lerman, Douglas Booth, Leo McHugh Carroll Roteiro: Ari Handel, Darren Aronofsky Fotografia: Matthew Libatique Trilha Sonora: Clint Mansell Produção: Darren Aronofsky, Mary Parent, Scott Franklin Duração: 139 min. Distribuidora: Paramount Pictures Brasil Estúdio: Disruption Entertainment / New Regency Pictures / Protozoa Pictures

Cotação 3 estrelas e meia

 

Bling Ring – A gangue de Hollywood (2013)

Por André Dick

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Depois de sua contestada atuação em O poderoso chefão III, Sofia Coppola encontrou sua voz como cineasta e já apresenta uma trajetória interessante. Desde As virgens suicidas, seu filme ainda mais estranho e inovador, passando por Encontros e desencontros, com a intimidade do casal feito por Bill Murray e Scarlett Johansson, até o reinado pop de Maria Antonieta, o foco de Sofia são as pessoas deslocadas, mesmo que aparentem ter algum destaque. Se em seu filme Um lugar qualquer, apesar de bons momentos, sobretudo do elenco, sempre um acerto de seus filmes, esta ideia já dava alguns sinais de desgaste, em Bling Ring – A gangue de Hollywood temos a representação mais acabada de figuras que idealizam um mundo à parte para tentarem se destacar nele. Sofia se baseia na história verídica, relatada em artigo escrito por Nacy Jo Sales para a Vanity Fair, de um grupo de jovens que, entre 2008 e 2009, entrou em casas de celebridades em Beverly Hills quando descobriu que elas não tinham nenhuma segurança, nem câmeras de vídeo. Diante do universo moderno, chega a ser suspeito que isso aconteça, e Sofia, até então acostumada a manter um certo distanciamento do objeto enfocado, aqui tenta quase dar um aspecto semidocumental a seu filme, mas com a música pop de seus outros projetos (até o título salta aos olhos como uma logomarca).
Nele, a turma é formada inicialmente por Rebecca (Katie Chang) e Marc (Israel Broussard) , que acabou de chegar ao novo colégio, lembrando apenas aparentemente Daniel LaRusso em primeira visita à Califórnia, depois de ser expulso de outro. Quando passam a se encontrar e viajar para a praia, logo sentem que são bastante parecidos, e Rebecca tem a ideia de entrar em casas de celebridades, o que apenas a princípio é negado por Marc. Eles logo convidam Nicki (Emma Watson), Sam (Taissa Farmiga) e Chloe (Claire Julien) para participar dos roubos, principalmente de joias, bolsas, relógios e sapatos.

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Nicki e Sam moram juntas sob os cuidados de Laurie (Leslie Mann), que emprega os ensinamentos do livro O segredo, a partir de uma estrela de Hollywood, e o que elas fazem é justamente aquilo que Sofia pretende retratar: entrar num universo em que há um determinado vazio cultural. Não apenas porque, segundo a diretora, elas não têm muito a dizer, mas porque o mundo hoje, principalmente este enfocado, seria vazio. Bling Ring, nesse sentido, não toma uma premissa muito diferente de Encontros e desencontros, com a personagem central deixada no hotel pelo marido, fotógrafo de modelos, e perambula por uma Tóquio completamente estranha. Mas aquela personagem buscava um certo conforto intelectual, e o encontrava no ator feito por Bill Murray. Encontros e desencontros apresenta mais diálogos no início e no final, mas Bling Ring se ressente de algo: no meio dele, entre os 30 minutos iniciais e finais, não existe uma vontade de Sofia em mostrar além daquilo que foi noticiado pela imprensa.
Então, vemos esses jovens fascinados por personalidades como Paris Hilton (que se ergue aqui como uma espécie de ícone da juventude transviada de Los Angeles), Lindsay Lohan, Megan Fox e Orlando Bloom, seguindo-os em sites ou redes sociais, como se dependessem deles para sua existência. Não há muita história além daquela que possivelmente é lido numa síntese, e o que poderia haver é o que existe em As virgens suicidas, Maria Antonieta e Encontros e desencontros: personagens em conflito, mesmo com pouco a falar. Também porque naqueles filmes temos Kirsten Dunst e uma jovem Scarlett Johansson (transformando suas limitações em atrativo), o que faltaria em Bling Ring é justamente um destaque. Emma Watson, que esteve excelente em As vantagens de ser invisível, tenta fazer bastante com o material que lhe é dado, e o filme cresceria com ela, mas Sofia não parece interessada em dar ênfase nos personagens, confundindo-os com o próprio vazio que retrata.
Para ela, esses jovens queriam copiar socialites, ir a festas, usar drogas e finalmente praticar os roubos. Mas Sofia esquece das maravilhas que proporcionou o vazio em seus filmes interiores: falta desta vez o elemento de ligação, o que, em Bling Ring, não consegue ser captado por meio de um estilo semidocumental, por flashes de uma vida conturbada (todos os jovens passam o dia tirando fotos ou trocando informações sobre grifes caras das celebridades) ou comentários em tom de alívio cômico, sobre um encontro com alguém que pode conduzir a uma carreira (e Leslie Mann entra nesta situação), quando há um deslizamento para a sátira, nunca trabalhada tão bem nesse campo quanto por Amy Heckerling em As patricinhas de Beverly Hills. A questão é que, mesmo os personagens sendo desinteressantes, ainda assim seriam mais convidativos do que uma sequência de cenas com armários sendo abertos, sapatos sendo apreciados, gravações em vídeo e imagens de programas dedicados às celebridades. E Sofia saberia explorá-los, mas Bling Ring se ressente de um acabamento.

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Falta uma espécie de encontro entre os personagens, como há no início, e mesmo no final. Israel Broussard  é um ator que dá indícios de ser talentoso, com seu conflito pessoal diante dos roubos, embora passageiro, e mesmo a contrapartida, Katie Chang, cria um certo envolvimento, mas logo se ausenta. Sofia continua com talento para filmar, construindo – com a ajuda do fotógrafo Harris Savides, a quem Bling Ring é dedicado em memória e responsável por trabalhos irretocáveis, como os de Zodíaco e Elefante, nos quais contou com Christopher Blauvelt, que complementou o trabalho aqui – uma Los Angeles excessivamente iluminada de dia, com suas palmeiras características, e bastante escura e até sem vida à noite, a não ser nos clubes noturnos frequentados pela turma (as únicas luzes são dos flashes ou da pista de dança). Isso cria um contraste interessante às suas imagens, mostrando uma certa ingenuidade do universo familiar em paralelo ao comportamento diante dele. Há, por exemplo (spoiler), uma belíssima sequência em que é mostrado um assalto a distância, e o assistimos em toda sua amplitude, como se estivéssemos numa janela perto da casa. O humor, de qualquer modo, não casa com as demais cenas, mesmo porque seria difícil acompanhar esses personagens com certo prazer, pois eles não são exatamente pessoas, mas gravações em vídeo.
A atmosfera também conduz Sofia a uma espécie de discurso reiterativo, querendo evidenciar as críticas que faz, e mesmo fazendo, em determinado momento, uma referência ao clipe que dirigiu dos White Stripes. O discurso contestado em Bling Ring, com a imagem de Paris Hilton nas almofadas, parece o mesmo usado em Spring breakers para Britney Spears: elas são ícones de parte dos jovens que a cultura produz. Seria revelador caso isso não fosse exatamente um tema explorado pela mídia e a moda, que Sofia não exatamente critica (não por acaso, Hilton teria se emocionado depois da exibição do filme em Cannes). Por outro lado, não seria exatamente por criticar um certo vazio de comportamento que Bling Ring conseguiria deixar de ter a mesma característica, embora Sofia Coppola continue a ser uma cineasta que reserva expectativas, com seu olhar contemporâneo, mesmo em outras épocas. Embora não especialmente neste filme, ela já provou ter grande talento.

Bling Ring, EUA, 2013 Diretora: Sofia Coppola  Elenco: Katie Chang, Israel Broussard, Emma Watson, Taissa Farmiga, Claire Julien, Leslie Mann Produção: Roman Coppola, Sofia Coppola, Youree Henley Roteiro: Sofia Coppola Fotografia: Harris Savides, Christopher Blauvelt Duração: 90 min. Distribuidora: Diamond Films Estúdio: American Zoetrope / NALA Films / Pathé Distribution / StudioCanal /

2  estrelas

As vantagens de ser invisível (2012)

Por André Dick

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Os filmes de universo adolescente com um acento dramático e cômico próprio tiveram uma queda muito grande de qualidade depois da ausência de John Hughes, conhecido por filmes como A garota de rosa shocking e O clube dos cinco. Independente ou não de seus atores terem feito carreira, são filmes que marcaram um período nos anos 1980, identificando o comportamento juvenil com a música. Por isso, é uma grata surpresa assistir As vantagens de ser invisível, desde já uma da obras mais interessantes dos últimos anos.
O diretor de As vantagens, Stephen Chbosky, também escreveu o romance em que o filme se baseia. Daí sua proximidade dos personagens e do clima da história. Charlie (Logan Lerman) acaba de iniciar o ensino médio em sua escola de Pittsburgh, por volta do início dos anos 90, tendo o intuito de fazer amizades, a fim de não voltarem problemas psicológicos relativos a um amigo que se suicidou e à morte de uma tia, ajudado pelos pais (Kate Walsh e Dylan McDermott), pela irmã, Candace (Nina Dobrev) e pelas músicas dos Smiths. Logo ele faz amizade com um professor de inglês, Sr. Anderson (Paul Rudd), que o incentiva a ler romances, e se aproxima de Patrick (Ezra Miller) e Sam (Emma Watson), meio-irmãos, num jogo de futebol americano, de uma turma mais adiantada. A sequência em que Chbosky filma Sam num túnel ouvindo “Heroes” e Charlie falando da infinitude é a síntese inicial deste filme, cercado de quase todos os clichês do gênero (festas, experimentos com drogas, fitas de música, pôsteres de ídolos no quarto) para realçar uma improvável solidão, dificilmente tão bem focada em outros filmes, daquilo que cerca a adolescência.

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O principal elemento de As vantagens é justamente mostrar essa solidão do personagem em meio à multidão (em festas concentradas numa casa ou em festas e refeitórios da escola), assim como sua necessidade de dialogar por cartas com o amigo que se foi. Chbosky o filma contra a parede do salão de festas, enquanto Sam e Patrick aceleram ao ritmo de “Come on Eileen”, dos Dexys Midnight Runners. Ele também quer acelerar os mais de mil dias que precisa ficar na escola: deseja ser escritor e passa a gostar de Sam, protagonista, com Patrick, de uma adaptação de “The Rock Horror Picture Show”, além de esconder o segredo de seu novo amigo ser gay. A eles se juntam a budista e punk, com admiração por filmes estrangeiros, Mary Elizabeth (Mae Whitman), a cleptomaníaca Alice (Erin Wilhelmi), e Bob Stoner (Adam Hagenbuch). Não sabemos se Sam irá corresponder a ele, nem se a namorada que ele passa a ter em determinada altura criará uma reviravolta em sua vida. A sequência na qual Charlie acompanha os amigos à primeira festa, e pede à Sam para que ela prepare um milkshake, quando ele começa a caminhar pelos corredores vazios da casa, parece mostrar, ao mesmo tempo, não apenas a solidão do personagem principal, como Chbosky deseja, como também a do próprio grupo que ali se insere. Ali, parece acontecer apenas uma festa – no entanto, a diferença é justamente cada um dos que levantam o brinde.
O seu deslocamento e a necessidade ou não de ser invisível é o mote para que o diretor consiga dosar tanto elementos pop, na conformidade reconhecida, quanto alguns experimentos com a direção de arte: As vantagens de ser invisível lembra, às vezes, pela iluminação quase atemporal de Andrew Dunn, um filme clássico, dos anos 70. Talvez porque ele consiga falar realmente para todas as gerações. Há lotes e cargas de sensações aqui, mesmo em lugares-comuns a todos, mesmo se esperando justamente que um amigo defenderá o outro, seja qual for a circunstância, ou o ato de ser surpreendido pela pessoa de quem se gosta. Demarcando as sequências, existe uma trilha sonora quase sempre afeita ao gosto dos personagens, e as experiências que podem resultar de ouvi-la seguem de acordo com cada personagem. Há  previsíveis viagens psicodélicas (um rótulo adolescente), alguns personagens um tanto mal desenvolvidos, mas, ao mesmo tempo, há uma dolorosa passagem de tempo, seja quando se vai para as férias, seja quando se é preciso seguir o ritual da escola. Escolher entre um relógio acertado e outro nem tanto: eis as escolhas do diretor, evidenciadas pela impressão de estarmos vendo um panorama abrangente na pele de cada um desses personagens. Embora em alguns momentos a narrativa apresente repetições, é com olhar melancólico que acompanhamos a trajetória dos personagens, na contagem regressiva para a despedida ou reencontro do túnel da adolescência.

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As vantagens de ser invisível 7

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As vantagens de ser invisível emprega para os adolescentes o que Na estrada insere em jovens que desejam transgredir. Mas há uma separação evidente aqui: enquanto os beats significavam um pedaço da América que queria fugir ao establishment (e certamente, no futuro, não fugiriam), os personagens de As vantagens de ser invisível desejam constituir o que eles chamam de plano de vida perfeito, sobretudo serem aceitos numa universidade. A personagem de Sam não é Marylou, porém existe uma antecipação nela dos períodos afetivos que a Charlie chegam de modo diferente. E é nisso que, ao final descobrimos, os aproxima tanto, também pelas falhas e feridas que cada um proporciona ao outro. Notável, também, quando Charlie e Patrick saem à noite, de carro, e se deparam com o tentativa de contornar uma separação por meio da amizade e do afeto incalculado. Daí, o diretor Chbosky conseguir reproduzir as reminiscências de forma tão dolorosa, sem, em nenhum momento, recorrer a alguma manipulação gratuita, capaz de afetar os personagens, nem mesmo com o acento psicológico da parte final.
Em sua segunda experiência na direção, Chbosky alcança isso em razão de um elenco escolhido minuciosamente: é difícil imaginar um ator tão exato para o papel principal quanto Logan Lerman, a despeito de, na maioria das vezes, ele ter a necessidade de se mostrar introspectivo, e Watson consegue demonstrar uma fragilidade emocional quase desconhecida em sua participação na série Harry Potter. Já Ezra Miller foi o ator principal de um dos filmes que menos apreciei no ano passado (Precisamos falar sobre o Kevin). Sua participação em As vantagens mostra, no entanto, que ele é um ator diferenciado, capaz de demonstrar nuances na sua interpretação, a meu ver ausentes no personagem de Kevin.
São atores e personagens em ponto de conversação constante, e o diretor consegue expandir cada um de modo inspirador. Em nenhum momento, e isto é especialmente destacável, As vantagens de ser invisível parece a adaptação de uma história, mas a história em si, ou seja, ela consegue, de modo natural, trazer as situações para perto, de modo que não conseguimos distinguir mais sua própria ambientação daquela que costumamos imaginar em alguma fita perdida com inúmeras músicas de bandas recém-descobertas ou mesmo da luminosidade de lâmpadas e estrelas quando se precisa sair de um ambiente coberto para finalmente tentar entender o que se passa do lado de fora.

The Perks of Being a Wallflower, EUA, 2012 Diretor: Stephen Chbosky Elenco: Logan Lerman, Ezra Miller, Emma Watson, Nina Dobrev, Paul Rudd, Mae Whitman, Melanie Lynskey, Kate Walsh, Dylan McDermott, Johnny Simmons, Nicholas Braun Produção: Lianne Halfon, John Malkovich, Russell Smith Roteiro: Stephen Chbosky Fotografia: Andrew Dunn Trilha Sonora: Michael Brook Duração: 103 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Summit Entertainment / Mr. Mudd

Cotação 5 estrelas