Superman I (1978) e Superman II (1980)

Por André Dick

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O cineasta Richard Donner foi, por algum tempo, um artesão capaz de fazer filmes divertidos e com viés comercial, mas sem menosprezar a inteligência do espectador. O primeiro Superman é  superior às sequências (em séries e na versão de 2006), capaz de, ao mesmo tempo, mostrar a origem do herói e sua transformação em algo maior sem perder parte da ingenuidade saudável que necessitamos numa história do gênero, baseada nos quadrinhos de Joe Schuster e Jerry Siegel. Para o papel principal, foi escolhido Cristopher Reeve (que faria ainda, em seguida, o belo Em algum lugar do passado), e para seu pai, Jor-El, Marlon Brando (em bela interpretação, apesar de curta).
(Daqui em diante, spoilers.) O filme mostra o herói ainda bebê sendo mandado por Jor-El e sua mulher Lara (Susannah York)  para a Terra porque seu planeta de origem, Krypton, está sendo destruído. Ele embarca numa espécie de cápsula que lembra o cesto de Moisés, e depois de anos chega à Terra. A cápsula cai à beira de uma estrada no interior do Kansas, como se fosse um meteoro, e abre um buraco enorme, e o Superman já criança é encontrado por aqueles que se transformam em seus pais adotivos, Jonathan e Martha Kent (Glenn Ford e Phyllis Thaxter), da pequena cidade de Smalville. A relação do Superman com seu pai terráqueo, assim como com sua mãe, é memorável, e as paisagens tristes do interior se projetam na própria vida daquele que esconde no celeiro parte da solução do mistério. “Sempre soubemos que ia partir”, diz sua mãe, e Donner consegue realmente desenhar uma relação humana sem recorrer à pieguice, o que rende a sequência mais melancólica da série, com a despedida dele ao universo que também lhe trouxe uma admiração especial por Lana Lang (de volta em Superman III). Clark segue para o Ártico, onde irá fundar uma espécie de extensão de Krypton, tentando descobrir as origens de sua genética e o rosto familiar que até então não conhecia, e o ator que faz o herói nesta etapa, Jeff East, empresta um sentido de afastamento de tudo e de todos, oferecendo um sentido de solidão.

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Clark Kent cresce (Reeve) e se transforma num jornalista do Daily Planet, sob a chefia de Perry White (Jackie Cooper) e com a companhia do fotógrafo Jimmy Olsen (Mark McClure) e da jornalista Lois Lane (Margot Kidder), por quem é apaixonado (interessante o clima do escritório, em diálogo direto com Todos os homens do presidente). Ainda indefinido entre a persona humana e a de herói, logo ele precisa tomar como rumo o enfrentamento com uma série de criminosos. À frente deles, está Lex Luthor (Gene Hackman, superior a Kevin Spacey), acompanhado de Otis (Ned Beatty) e Eva Teschmacher (Valerie Perrine), que ameaça a terra com uma ogiva nuclear. É Luthor que consegue desenhar, nos subterrâneos de Metrópolis, um vilão perverso (sobretudo quando o herói se depara com uma kryptonita), e, para isso, Hackman tem uma grande contribuição.
Se os efeitos especiais estão um tanto ultrapassados (mas em nenhum momento decepcionantes, e receberam o Oscar), a direção de arte (de Krypton, sobretudo) é fascinante  e a trilha de John Williams continua memorável, a melhor dos filmes de super-heróis. Além disso, Metrópolis é uma espécie de Nova York, captada de forma nostálgica pela ótima fotografia de Geoffrey Unsworth (2001), com grandes letreiros de jornal (evocando os anos 40 ou 50) e muitos bandidos sem tanto tato para o crime, além de abrigar várias cenas de ação do herói, que inspirariam, sobretudo, as adaptações de Homem-Aranha (na franquia de Sam Raimi). As transformações do Superman (em cabines giratórias) guardam um resquício do humor bem dosado por Donner, sem cair numa espécie de pastelão cômico efetuado por Lester depois, sobretudo no terceiro.

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Especialmente porque Donner é uma diretor especialista em cenas de ação que misturam drama e comédia, o que pode ser constatado em filmes como Os Goonies, Máquina mortífera, Ladyhwake e no faroeste dos anos 90 Maverick e não desaponta nunca em Superman; pelo contrário, ele estabelece um padrão para o que viria na década seguinte, com o Batman, de Tim Burton, e com o bom humor recente e vertiginoso tanto de Homem de ferro quanto de Thor e Os vingadores, de Joss Whedon. O Superman de Reeve, e isso se deve sobretudo à visão de Donner, é, sobretudo, alguém indefinido entre tempos diferentes: ao mesmo tempo em que conserva um ar dos anos 40, ele consegue efetuar uma transição para os momentos em que precisa enfrentar Luthor de maneira plausível.
Em Superman II, Donner deixou a direção depois de ter rodado praticamente todo o filme, dando espaço a Richard Lester, que regravou várias vezes para poder assiná-lo (há uma versão do corte de Donner em DVD, sem o estilo de Lester, que abusaria da comicidade também no terceiro filme), para continuar, basicamente, a mesma história. Kent está cada vez mais próximo de Lois Lane e ambos, inclusive, vão viajar juntos para as cataratas do Niágara. Ele está cansado de ser herói, deseja ser humano, e, para isso, volta às suas origens, à Fortaleza da Solidão, em que está a explicação do seu passado, para tentar ser igual. No entanto, chegam três criminosos à Terra, coronel Zod (Terence Stamp), Non (Jack O’Halloran) e Ursa (Sarah Douglas), mandados embora de Krypton no início do primeiro filme, condenados por Jor-El, e eles vão querer perturbar a população, sobretudo o filho de quem os mandou embora, tendo como aliado Lex Luthor (que já inicia o filme numa situação complicada). Luthor tenta chegar às origens do herói, a fim de tentar encobri-lo com sua tentativa de romper o mundo. Mas sua relação com Superman é estranha: ao mesmo tempo em que proporciona doses de violência, sobretudo moral, ele não consegue se posicionar como um vilão todo o tempo, e tenta disfarçar com uma ironia seca seu objetivo (chama a atenção como Hackman estava mais à vontade no primeiro filme, pois ele não quis continuar a filmagem com Lester).

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A questão é como o herói voltará a ser como era antes. Como observa Pauline Kael, “as transições de Clark Kent para Super-Homem e vice-versa agora são números cômicos bem acabados”. Nesse sentido, como o primeiro filme, Donner e Lester – cada qual em sua versão; a de Donner mais séria, com a presença de Marlon Brando e sequências mais impressionantes (como a inicial), a de Lester mais desconstraída – conseguem dosar a humanidade de Clark sem torná-la superficial ou maniqueísta (na interpretação talentosa de Reeve). É interessante como os vilões também conseguem ficar no limite do bom humor aceitável, principalmente em sequências com duelos militares e na famosa invasão da Casa Branca. Há muitas cenas de ação de destaque, efeitos especiais melhores do que o primeiro, e no todo trata-se de uma continuação divertida, apoiado novamente num roteiro de Mario Puzo (criador de O poderoso chefão). Mas não existe, na versão de Lester, a melancolia impregnada por Donner nas bordas de suas versões: o seu Superman é, ao mesmo tempo, um herói e alguém realmente trágico, não com rompantes para o humor exagerado. Não que Lester não perceba a essência dele, mas é certo que Donner consegue desenhá-la de maneira mais adequada, assim como sua relação conflituosa com o pai que não conheceu e com a dualidade entre alguém de outro planeta e o humano. É exatamente isto que falta na versão de 2006, feita por Bryan Singer. Por isso e outros detalhes, mesmo depois de vários anos, são esses dois Superman aqueles filmes que ainda servem de referência.

Superman, ING/EUA, 1978 Diretor: Richard Donner Elenco: Marlon Brando, Gene Hackman, Christopher Reeve, Ned Beatty, Jackie Cooper, Glenn Ford, Trevor Howard, Margot Kidder, Susannah York, Jack O’Halloran, Terence Stamp, Sarah Douglas Produção: Pierre Spengler, Michael Thau Roteiro: Mario Puzo, Robert Benton, David Newman, Leslie Newman Fotografia: Geoffrey Unsworth Trilha Sonora: John Williams Duração: 144 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Alexander Salkind / Dovermead Film / Film Export A.G. / International Film Production

Cotação 5 estrelas

Superman II, ING/EUA, 1980 Diretor: Richard Lester Elenco: Cristopher Reeve, Gene Hackman, Ned Beatty, Jackie Cooper, Sarah Douglas, Margot Kidder, Valerie Perrine, Susannah York, Terence Stamp, Jack O’Halloran, Marlon Brando (na versão de Richard Donner) Produção: Ilya Salkind Roteiro: Mario Puzo Fotografia: Robert Paynter, Geoffrey Unsworth Trilha Sonora: Ken Thorne Duração: 127 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Warner Bros.

Cotação 4 estrelas

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4 Comentários

  1. Um personagen fantástico, um filme fantástico e um ator fantástico. Uma das melhores lembranças da minha infância. Realmente, os filmes que vieram depois não conseguiram se aproximar dessa série no gosto do público. Clássico eterno.

    Responder
    • André Dick

       /  4 de setembro de 2016

      Prezado Agnaldo,

      esses filmes também trazem algumas das melhores lembranças da minha infância. Em relação aos filmes posteriores, eu aprecio O homem de aço e, sobretudo, Batman vs Superman. Embora ainda considere Richard Donner aquele que fez o melhor filme do super-herói e Reeve seu melhor intérprete, gosto de Snyder e da atuação de Cavill.

      Um abraço,
      André

      Responder
  2. Olá.
    Em primeiro lugar, andei dando uma olhada em algumas outras boas resenhas pelo blog além desta, e queria parabenizar pelo material!
    Coincidentemente, revi Superman dia desses (ainda sou um locador de filmes – de locadoras mesmo – , acredite! rs), e, olha, devo dizer que o filme “envelheceu bem”, como se diz; mesmo na questão dos certamente ultrapassados efeitos especiais, não fica feio para os dias de hoje (a parte do Superman voando com Lois Lane, ela com seus questionamentos consigo mesma, em “off”, a respeito dele ao seu lado, por exemplo, além de bem feita visualmente, é singela e emocionante). E procurei analisar também enquanto assistia desta vez, depois de tanto tempo, todo o contexto, a montagem de uma história original de um personagem já famoso, para um longa, contando à época sua origem, e com a definição a ser feita de uma trama, um inimigo, etc… realmente, considerando tudo isso, é um filme muito bem feito!
    Curioso também que, como todas as outras vezes que assisti esse filme creio que tenham sido na tv aberta (e, assim, provavelmente, com suas edições particulares), teve alguns trechos agora que me pareceram inéditos (para mim), ou seja, poder-se-ia dizer que foi a primeira vez que vi o filme, completo (a parte de Kripton, no início, me pareceu mais estendida do que a que eu conhecia, por exemplo).
    Seja como for, devo dizer que Superman II ainda é o meu favorito (na verdade, juntamente com “X-Men: Primeira Classe” e “Batman Begins”, está no meu top 3 de filmes de heróis – com menções honrosas para o “Batman – o Retorno”, do Tim Burton, e “Homem-Aranha 2”, o da trilogia com o Maguire… como se vê, creio que eu tenha uma queda por “partes 2”! : ) . Acho um baita filme de ação, ainda mais do que o primeiro, que era mais, digamos, “introdutório”; já esta continuação tem já todo mundo devidamente apresentado, todas introduções já foram feitas (graças ao primeiro, claro), e aí se pode partir direto pra uma treta mais feia, e mais complexa, hehe… é um filme também mais dark, ao contrário de uma certa leveza do primeiro.
    O Zod do Terence Stamp, por sinal, é um dos grandes vilões da minha infância (tenho a impressão de ter visto o filme no cinema, no início dos anos 80…)!
    Já aquele de 2006 achei fraquíssimo, uma tremenda decepção (fracas as continuações dos anos 80 também foram, mas devido à expectativa pelo hiato sem a aparição do herói a decepção aqui acho que foi bem maior)… o Homem de Aço, legal, uma boa retomada da saga do herói, até a metade, e depois quase saí do cinema antes do fim (algo raríssimo) por não aguentar mais tanta explosão e porradaria sem fim… rs… algumas forçações tb, como o Russel Crowe querendo aparecer a toda hora, lá adiante, mesmo depois de morto, e não só com uns “toques” pro filho como quase participando mesmo fisicamente de algumas encrencas, rs… mas, no geral, acho que se saiu bem, foi uma boa retomada.
    Batman vs Superman, ainda não sei bem, não digeri direito… gostei de algumas partes, outras fiquei meio assim (achei meio cedo para uma volta do Batman às telas, para começar… e depois, acho que o filme padeceu mais ou menos do mesmo mal do Homem de Aço, relativamente bem armado até a metade, e depois muito bam, bum, bang! : ) Além do “desequilíbrio” de ter que haver um inimigo em comum para Batman e Superman… estranho ver o Batman, um herói até então bastante “realista” no cinema, tendo que enfrentar um monstrão alienígena energético e tal, rss, mas, claro, necessário, para o super ter um inimigo à altura… – ah, claro, o melhor – e quase unânime, me parece – acabou sendo mesmo a aparição “trezentiana” da Mulher-Maravilha!)
    Enfim… apenas algumas considerações particulares (e “leigas”, em termos de cinema) a respeito da trajetória do homem de aço nas telas…
    Um abraço!

    Responder
    • André Dick

       /  9 de setembro de 2016

      Prezado Diego,

      agradeço por seu comentário sobre o trabalho apresentado aqui, neste texto e em outros. Fico realmente feliz de que tenha gostado. Em relação à sua análise de Superman, é ótima, e fico ainda mais feliz de encontrar um apreciador dessas duas obras, de 78 e 80. Eu acho que o primeiro envelheceu bem muito pela direção de Donner, do roteiro de Puzo e da fotografia do Unsworth, além do elenco ser ótimo. E, como fala, os efeitos especiais mereceram o Oscar: eles são bem feitos, apesar de, hoje em dia, um pouco ultrapassados pela tecnologia. Mas comparemos este trabalho com o feito em Superman IV, quase uma década depois… É realmente um feito, para a época e ainda hoje em dia. Não tenho o mesmo entusiasmo pela continuação, que ainda assim considero de primeira.

      “O Zod do Terence Stamp, por sinal, é um dos grandes vilões da minha infância (tenho a impressão de ter visto o filme no cinema, no início dos anos 80…)!” Eis algo com que concordo. Para uma criança, Zod é realmente assustador, e a reformulação dada ao personagem por Michael Shannon não foi tão interessante, embora boa. O homem de aço, em si, acho que é melhor do que pareceu na época: acredito que ele vai envelhecer como uma referência de filme com mais dramaticidade, apesar das explosões serem exageradas, concordo.

      Concordo com o que fala sobre Superman – O retorno, uma tentativa de trazer o molde de Donner/Lester para os tempos modernos, sem tanta eficácia, e por causa de um ator que apenas tentou reproduzir o inimitável: a atuação de Reeve.

      Apenas em relação a Batman vs Superman, discordamos um pouco, pois acho o filme excepcional, um dos melhores do gênero (aliás, aprecio que coloque Batman begins entre seus três melhores). O Doomsday realmente destoa em relação aos anteriores, em que os personagens enfrentam vilões mais reais, no entanto me parece um símbolo do ingresso numa fantasia mais intensa.

      Agradeço novamente pelo ótimo comentário, que não tem nada de leigo e sim mostra um grande entendimento de cinema, e volte sempre!

      Abraços!
      André

      Responder

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