O círculo (2017)

Por André Dick

O diretor James Ponsoldt realizou dois ótimos filmes, O maravilhoso agora, sobre os conflitos amorosos na juventude, e O fim da turnê, tratando da relação entre um jornalista e seu entrevistado, um autor de determinado romance que o consagrou. Agora, em O círculo, ele ingressa num tema provocativo: a influência da tecnologia no dia a dia das pessoas. Ele mexe com um tema sensível, que costuma despertar críticas. Todos talvez lembrem de Homens, mulheres e filhos, no qual uma análise sobre a tecnologia era vista como uma espécie de aceno ao retrocesso, ou seja, a visão do filme seria a condenação àquilo que exatamente apenas analisa, junto com sua interação social. Tornou-se o “pior filme” da trajetória de Jason Reitman, embora seja excelente. O círculo não foge à regra: as críticas parecem ecoar mais o descontentamento que há com seu tema do que com o resultado em si.
Emma Watson interpreta Mae Holland, uma jovem que consegue trabalho no Circle, uma empresa de internet fundada por Eamon Bailey (Tom Hanks) e Tom Stenton (Patton Oswalt). Lá, ela conhece Ty Lafitte (John Boyega), uma figura enigmática, e intensifica sua amizade com Annie Allerton (Karen Gillan). No entanto, acaba se afastando de Mercer (Ellar Coltrane, de Boyhood), um amigo de infância, enquanto tenta manter vínculo com os pais, Vinnie (Bill Patxon) e Bonnie (Glenne Headly).

A empresa, com seu domínio sobre as pessoas, torna Mae uma referência – sua vida passa a ser acompanhada on-line, por meio de uma minúscula câmera. Neste ponto, o filme se parece mais com O show de Truman do que com A rede social, e Watson tenta manter um equilíbrio em sua atuação, que às vezes fica menos interessante do que poderia. Os gráficos das mensagens recebidas lembram muito os de Homens, mulheres e filhos, aparecendo na tela como quase personagens. Ponsoldt utiliza Mae como o símbolo do funcionário que precisa se submeter completamente à sua empresa para se sentir recompensada. Bailey e Stenton estão interessados no fato de que as pessoas não possam ter mais exatamente uma privacidade, e sim um compartilhamento. Há nisso, com certeza, uma crítica embutida às redes sociais, nas quais o usuário algumas vezes perde o limite entre público e privado.
Não se trata nada novo, mas Ponsoldt não é tão óbvio quanto aparenta, nem o roteiro de Eggers, autor também do livro em que o filme se baseia: Mae está em busca de uma segurança na vida pessoal e de se afastar dos problemas dos pais. Para isso, ela escolhe a Circle e o lazer com um caiaque. “Eu me sinto melhor quando estou sendo vigiada”, diz ela em determinado momento. Em outro, ela sugere que a Circle possa ser um papel decisivo nas eleições do país. Tudo exatamente para fugir do fato de que não consegue estabelecer mais ligação com seus pais e se afastou do melhor amigo de infância.

No início, quando ele vem ajudá-la a consertar um problema no carro, Mae lhe diz que vai ligar, mas ele pergunta por que eles não conversam exatamente naquele momento. É como se ela estivesse sempre adiando o encontro com suas próprias escolhas. Esse traço já existia no personagem central de O maravilhoso agora, assim como no escritor de O fim da turnê: o comportamento de ambos era sempre se refugiar em um motivo externo para a existência que não incluísse exatamente se definir pelo mais apropriado. Se Emma não consegue lidar suficientemente com as nuances da personagem – e neste ano ela teve um mau momento como atriz em A bela e a fera, contrariando suas atuações em As vantagens de ser invisível e Bling Ring –, ao menos sustenta a atenção com sua empatia. Em suas conversas com Lafitte e Annie há uma vulnerabilidade de uma pessoa desprendida da própria existência e não parece por acaso que ambos os personagens que se comportam como seus amigos parecem não existir dentro da empresa, vagando de forma solitária.
Hanks tem uma grande atuação, como é de praxe em sua carreira, fazendo uma figura ambígua e que lida com questões morais e particulares, trazendo muito do próprio Jobs para a maneira como apresenta as novidades tecnológicas de sua empresa.

Mesmo sem ser intenso como poderia, O círculo é um filme bastante agradável.  A maioria das cenas tem uma boa atmosfera, com uma interessante ligação de Mae com seus pais, em ótimas atuações de Headly e Paxton (ambos, infelizmente, faleceram recentemente), embora Coltrane, tão bom ator em Boyhood, seja severamente subutilizado, tal como John Boyega, e por vezes mal dirigido. A fotografia de Matthew Libatique consegue transitar entre a alta tecnologia e a natureza campestre (o deslocamento da amiga de Mae para a Escócia), mesmo que a trilha sonora de Danny Elfman não seja efetiva como a maior parte dos trabalhos do compositor (e a melhor participação musical seja de Beck). O círculo se sente bem desenvolvido principalmente em sua primeira metade, tendo uma leve queda na segunda parte, até atingir um final para o qual convergem os principais personagens, no qual Ponsoldt faz o que Danny Boyle tentou em Steve Jobs sem conseguir: sua crítica à tecnologia é a própria aceitação que se tem dela muitas vezes sem analisar o contexto e mostra que muitas vezes o indivíduo, ao querer se sentir observado, quer apenas se afastar de si mesmo, de acordo com a ideia de mundo contemporâneo. O que importa neste caso não é a lição de moral previsível implicada e sim a necessidade de existir fora do próprio círculo de amigos e familiares como ponto vital para a própria sobrevivência. No entanto, os drones que surgem em dois momentos-chave indicam: esse universo pode sempre trazer a lembrança do que se fez a alguém próximo, no caso de Mae. Para Ponsoldt, tudo é circular.

The circle, EUA, 2017 Direção: James Ponsoldt Elenco: Tom Hanks, Emma Watson, Glenne Headly, Bill Paxton, Ellar Coltrane, Karen Gillan, Patton Oswalt, John Boyega Roteiro: Dave Eggers, James Ponsoldt Fotografia: Matthew Libatique Trilha Sonora: Danny Elfman Produção: Anthony Bregman, Gary Goetzman, James Ponsoldt, Tom Hanks Duração: 109 min. Distribuidora: Imagem Filmes Estúdio: Imagenation Abu Dhabi FZ / Likely Story / Playtone

Jovens adultos (2011)

Por André Dick

Jovens adultos 5

A parceria de Jason Reitman com Diablo Cody iniciada em Juno – um filme que não corresponde à sua repecussão – ganhou um segundo capítulo neste filme menos comentado, que passou rapidamente por nossos cinemas, mas é dramaticamente (com elementos de humor) muito superior: Jovens adultos. Não era de se esperar muito de uma história relativamente limitada, sobre uma escritora de livros juvenis (que publica numa coleção), Mavis Gary (Charlize Theron). Quando passa por um período sem conseguir criar e de rotina de troca de homens em sua vida, ela recebe a mensagem de um ex-namorado, que acabou de ter uma filha. Morando em Minneapolis, ela decide voltar para Mercury, Minnesota, sua cidadezinha de origem, a fim de reencontrá-lo. O antigo namorado se chama Buddy Slade (Patrick Wilson) e, além de ser pai, está muito bem casado com Beth (Elizabeth Reaser). Por sua vez, Mavis anda com um cachorrinho em sua pequena bolsa e destrata a todos que encontra à sua frente, pois se considera, acima de tudo, uma escritora best-seller.
No entanto, na coleção em que ela escreve, seu nome aparece quase num rodapé e ela, na verdade, está querendo um acerto de contas com o seu passado. O que poderia ser uma trama juvenil ou simplesmente bem-humorada transforma-se num drama agridoce, por meio do talento de Reitman em lidar com personagens fora do contexto, o que já mostrou tanto em Juno, de forma menos exemplar, quanto no interessante Obrigado por fumar (em que imperava o politicamente incorreto) e no excelente Amor sem escalas, seu melhor filme ao lado deste até o momento. Reitman está interessado numa espécie de retrato do americano que pensa ter obtido um sucesso descomunal quando precisa voltar às suas raízes para entender que não atingiu exatamente o que queria.

Jovens adultos 2

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É um movimento também trazido por Alexander Payne em filmes como Sideways. Neste, havia o escritor Miles Raymond (Paul Giamatti), que não conseguia publicar o que considerava sua obra joyciana e, não conseguindo, sai numa jornada por vinícolas com seu amigo que vai se casar. Ao contrário de Mavis, Miles era comedido de inseguro. O que não significa que Mavis também não o seja. Ao chegar na cidade, ela vai para um pub, onde encontra Matt Freehauf (Patton Oswalt), que foi agredido nos tempos de colégio porque ele seria gay – deixando-o com cicatrizes incuráveis e muletas. Sabendo do objetivo de Mavis de terminar com o casamento de Buddy, Matt se coloca como intermediário, mas apenas para mostrar seu entendimento da questão. Incapacitada de se resolver como adulta – a personagem central não consegue visitar os próprios pais na visita à cidadezinha –, ela encontra em Matt um diálogo baseado em bebidas e monstros pintados no quarto. É como se ele representasse o que ela não consegue ser: uma pessoa que conseguiu, enfim, se despir do posto de rainha da escola para, de fato, tornar-se um sucesso como autora – com o nome escondido – de livros infantojuvenis. Mas como se ela não consegue entender as mais simples relações?
Jovens adultos vai de encontros em bares a hotéis com garrafas de Coca-Cola jogadas no colchão, contudo é muito mais do que um pretenso aroma de cigarros ou cheiro de esmalte que a personagem usa a determinada altura, em determinados tons. Mavis, na verdade, parece ser o retrato da mulher que se aproxima dos 40 anos estando presa à juventude e às conquistas da escola, mas pode esconder mais do que isso. A personagem que Charlize interpreta com vigor – sendo seu melhor papel até hoje, pelo qual foi indicada ao Globo de Ouro de melhor atriz – tem uma instabilidade muito bem trabalhada ao longo do filme, desde o momento em que acorda (com o pijama da Hello Kitty), liga a TV, para se abastecer um pouco de cultura fútil, até o momento em que busca alguma comida fast food para ouvir possíveis conversas capazes de inspirá-la a escrever. Quando pretende reconquistar o namorado, passa por um salão de beleza, faz aplique nos cabelos e tenta recuperar o ar juvenil, entretanto apenas ela acredita que não está mais velha e estranha; para ela, todos os outros estão estendendo o tapete como se ela ainda fosse a rainha do colégio, e ainda a invejam por isso, já que conseguiu sair e fazer sucesso na cidade grande.

Jovens adultos 3

Não parece sem sentido que Reitman a coloque sempre num ponto de vista juvenil, como as fitas cassete que carrega, remetendo também a uma fuga para a adolescência eterna. Reitman consegue mesclar a faceta patética da sua personagem com uma espécie de ressentimento que ela deixa claro, como na apresentação da banda da mulher do antigo namorado,  a quem tenta convencer a beijá-la mais tarde, e na meia hora final, certamente num tour de fource de Charlize, capaz, ao mesmo tempo, de fazer o espectador rever o seu comportamento ao longo do filme e, mesmo diante de sua incapacidade para o enfrentamento, tentar vê-la numa condição melhor, o que não é, porém, o objetivo de Reitman, pois o filme está longe de ser previsível.
Não se trata de nenhum retrato superficial de uma determinada idade, mas um retrato bastante considerável da natureza de Mavis, capaz de se ampliar em boas doses de ironia e vontade de esquecer o que aconteceu. Estamos diante de vários temas, mas o mais subentendido é, sem dúvida, o alcoolismo, e a maneira como a personagem precisa enfrentá-lo para tentar entender a cidade de onde veio. Trata-se de uma personagem que adentra uma loja de roupas para bebê com a mesma falta de vigor com que ergue a garrafa de Coca-Cola quando acorda com os cabelos desgrenhados, mas, ao tentar mudar diante do espelho, imagina recuperar o que perdeu. Trata-se, portanto, de um papel que deve ser desempenhado de dentro para fora, e as expressões que Theron coleciona ao longo da narrativa, assim como sua inesperada amizade com Matt, cada um tentando recuar no tempo para tentar fazer com que caia no esquecimento, transformam o que poderia ser um roteiro superficial em algo mais humano e próximo do verdadeiro afeto.

Young Adult, EUA, 2011 Diretor: Jason Reitman Elenco: Charlize Theron, Patton Oswalt, Patrick Wilson, Elizabeth Reaser Produção: Diablo Cody, Lianne Halfon, Mason Novick, Jason Reitman, Russell Smith, Charlize Theron Roteiro: Diablo Cody Fotografia: Eric Steelberg Trilha Sonora: Rolfe Kent Duração: 94 min. Distribuidora: Paramount Pictures Brasil Estúdio: Denver and Delilah Productions / Indian Paintbrush / Mandate Pictures / Mr. Mudd / Right of Way Films

Cotação 4 estrelas