As vantagens de ser invisível (2012)

Por André Dick

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Os filmes de universo adolescente com um acento dramático e cômico próprio tiveram uma queda muito grande de qualidade depois da ausência de John Hughes, conhecido por filmes como A garota de rosa shocking e O clube dos cinco. Independente ou não de seus atores terem feito carreira, são filmes que marcaram um período nos anos 1980, identificando o comportamento juvenil com a música. Por isso, é uma grata surpresa assistir As vantagens de ser invisível, desde já uma da obras mais interessantes dos últimos anos.
O diretor de As vantagens, Stephen Chbosky, também escreveu o romance em que o filme se baseia. Daí sua proximidade dos personagens e do clima da história. Charlie (Logan Lerman) acaba de iniciar o ensino médio em sua escola de Pittsburgh, por volta do início dos anos 90, tendo o intuito de fazer amizades, a fim de não voltarem problemas psicológicos relativos a um amigo que se suicidou e à morte de uma tia, ajudado pelos pais (Kate Walsh e Dylan McDermott), pela irmã, Candace (Nina Dobrev) e pelas músicas dos Smiths. Logo ele faz amizade com um professor de inglês, Sr. Anderson (Paul Rudd), que o incentiva a ler romances, e se aproxima de Patrick (Ezra Miller) e Sam (Emma Watson), meio-irmãos, num jogo de futebol americano, de uma turma mais adiantada. A sequência em que Chbosky filma Sam num túnel ouvindo “Heroes” e Charlie falando da infinitude é a síntese inicial deste filme, cercado de quase todos os clichês do gênero (festas, experimentos com drogas, fitas de música, pôsteres de ídolos no quarto) para realçar uma improvável solidão, dificilmente tão bem focada em outros filmes, daquilo que cerca a adolescência.

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O principal elemento de As vantagens é justamente mostrar essa solidão do personagem em meio à multidão (em festas concentradas numa casa ou em festas e refeitórios da escola), assim como sua necessidade de dialogar por cartas com o amigo que se foi. Chbosky o filma contra a parede do salão de festas, enquanto Sam e Patrick aceleram ao ritmo de “Come on Eileen”, dos Dexys Midnight Runners. Ele também quer acelerar os mais de mil dias que precisa ficar na escola: deseja ser escritor e passa a gostar de Sam, protagonista, com Patrick, de uma adaptação de “The Rock Horror Picture Show”, além de esconder o segredo de seu novo amigo ser gay. A eles se juntam a budista e punk, com admiração por filmes estrangeiros, Mary Elizabeth (Mae Whitman), a cleptomaníaca Alice (Erin Wilhelmi), e Bob Stoner (Adam Hagenbuch). Não sabemos se Sam irá corresponder a ele, nem se a namorada que ele passa a ter em determinada altura criará uma reviravolta em sua vida. A sequência na qual Charlie acompanha os amigos à primeira festa, e pede à Sam para que ela prepare um milkshake, quando ele começa a caminhar pelos corredores vazios da casa, parece mostrar, ao mesmo tempo, não apenas a solidão do personagem principal, como Chbosky deseja, como também a do próprio grupo que ali se insere. Ali, parece acontecer apenas uma festa – no entanto, a diferença é justamente cada um dos que levantam o brinde.
O seu deslocamento e a necessidade ou não de ser invisível é o mote para que o diretor consiga dosar tanto elementos pop, na conformidade reconhecida, quanto alguns experimentos com a direção de arte: As vantagens de ser invisível lembra, às vezes, pela iluminação quase atemporal de Andrew Dunn, um filme clássico, dos anos 70. Talvez porque ele consiga falar realmente para todas as gerações. Há lotes e cargas de sensações aqui, mesmo em lugares-comuns a todos, mesmo se esperando justamente que um amigo defenderá o outro, seja qual for a circunstância, ou o ato de ser surpreendido pela pessoa de quem se gosta. Demarcando as sequências, existe uma trilha sonora quase sempre afeita ao gosto dos personagens, e as experiências que podem resultar de ouvi-la seguem de acordo com cada personagem. Há  previsíveis viagens psicodélicas (um rótulo adolescente), alguns personagens um tanto mal desenvolvidos, mas, ao mesmo tempo, há uma dolorosa passagem de tempo, seja quando se vai para as férias, seja quando se é preciso seguir o ritual da escola. Escolher entre um relógio acertado e outro nem tanto: eis as escolhas do diretor, evidenciadas pela impressão de estarmos vendo um panorama abrangente na pele de cada um desses personagens. Embora em alguns momentos a narrativa apresente repetições, é com olhar melancólico que acompanhamos a trajetória dos personagens, na contagem regressiva para a despedida ou reencontro do túnel da adolescência.

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As vantagens de ser invisível emprega para os adolescentes o que Na estrada insere em jovens que desejam transgredir. Mas há uma separação evidente aqui: enquanto os beats significavam um pedaço da América que queria fugir ao establishment (e certamente, no futuro, não fugiriam), os personagens de As vantagens de ser invisível desejam constituir o que eles chamam de plano de vida perfeito, sobretudo serem aceitos numa universidade. A personagem de Sam não é Marylou, porém existe uma antecipação nela dos períodos afetivos que a Charlie chegam de modo diferente. E é nisso que, ao final descobrimos, os aproxima tanto, também pelas falhas e feridas que cada um proporciona ao outro. Notável, também, quando Charlie e Patrick saem à noite, de carro, e se deparam com o tentativa de contornar uma separação por meio da amizade e do afeto incalculado. Daí, o diretor Chbosky conseguir reproduzir as reminiscências de forma tão dolorosa, sem, em nenhum momento, recorrer a alguma manipulação gratuita, capaz de afetar os personagens, nem mesmo com o acento psicológico da parte final.
Em sua segunda experiência na direção, Chbosky alcança isso em razão de um elenco escolhido minuciosamente: é difícil imaginar um ator tão exato para o papel principal quanto Logan Lerman, a despeito de, na maioria das vezes, ele ter a necessidade de se mostrar introspectivo, e Watson consegue demonstrar uma fragilidade emocional quase desconhecida em sua participação na série Harry Potter. Já Ezra Miller foi o ator principal de um dos filmes que menos apreciei no ano passado (Precisamos falar sobre o Kevin). Sua participação em As vantagens mostra, no entanto, que ele é um ator diferenciado, capaz de demonstrar nuances na sua interpretação, a meu ver ausentes no personagem de Kevin.
São atores e personagens em ponto de conversação constante, e o diretor consegue expandir cada um de modo inspirador. Em nenhum momento, e isto é especialmente destacável, As vantagens de ser invisível parece a adaptação de uma história, mas a história em si, ou seja, ela consegue, de modo natural, trazer as situações para perto, de modo que não conseguimos distinguir mais sua própria ambientação daquela que costumamos imaginar em alguma fita perdida com inúmeras músicas de bandas recém-descobertas ou mesmo da luminosidade de lâmpadas e estrelas quando se precisa sair de um ambiente coberto para finalmente tentar entender o que se passa do lado de fora.

The Perks of Being a Wallflower, EUA, 2012 Diretor: Stephen Chbosky Elenco: Logan Lerman, Ezra Miller, Emma Watson, Nina Dobrev, Paul Rudd, Mae Whitman, Melanie Lynskey, Kate Walsh, Dylan McDermott, Johnny Simmons, Nicholas Braun Produção: Lianne Halfon, John Malkovich, Russell Smith Roteiro: Stephen Chbosky Fotografia: Andrew Dunn Trilha Sonora: Michael Brook Duração: 103 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Summit Entertainment / Mr. Mudd

Cotação 5 estrelas

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11 Comentários

  1. Ótima crítica! fez jus ao filme. Eu não entendo pq esse filme não fez nem 10% do sucesso que ele merecia, ele é simplismente perfeito. Nunca gostei da franquia Percy Jackson ou mesmo de Harry Potter, mas Logan Lerman dá um show de atuação, Emma Watson está incrível e Ezra, dispensa comentários. É um filme extremamente sensível e belo. Tá no meu top 5.

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    • Prezado Edson,

      Agradeço por seu comentário! Também acho difícil entender por que o filme passou tão rapidamente pelos cinemas, também pelo ótimo elenco, como comenta (todos se destacando mais do que em outros trabalhos). Seu comentário define: é extremamente sensível e belo. Espero que ele consiga, agora que está sendo lançado em DVD e Blu-ray, chegar a mais pessoas. Inclusive, vou procurar revê-lo.
      Obrigado pela visita e volte sempre!

      Um abraço,
      André

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  2. Roberts

     /  8 de agosto de 2013

    Ótima crítica. O filme é realmente muito bom 😀

    Responder
  3. André Dick

     /  9 de fevereiro de 2014

    Prezados Marcos,

    agradeço por seu comentário sobre a crítica. Em relação ao que pergunta, seria isto mesmo, e Chbosky, também aqui, é fiel à adaptação de seu livro.

    Obrigado pela visita e volte sempre.

    Um abraço,
    André

    Responder
  4. excepcional! filme magnífico! amei assisto sempre que posso! escolheram ótimos personagens para o filme
    show de bola!

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    • André Dick

       /  1 de setembro de 2014

      Prezado Thomaz,

      é realmente um grande filme e sempre atrativo para novas sessões, sobretudo em razão dos personagens.

      Obrigado pela visita e volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder
  5. Pedro

     /  5 de outubro de 2014

    Ótima crítica, gosto muito dos filmes com essa temática.

    Responder
  6. Não me pareceu que as cartas são para o amigo que faleceu! Charlie diz que quer evitar que ele o identifique, bem como o irmão que joga futebol americano e apareceu na TV. Acredito que as cartas eram para um desconhecido ou até para ele mesmo, expandindo sua visão da vida…

    Responder
    • André Dick

       /  27 de maio de 2016

      No livro ele escreve para um anônimo, mas no filme, pelo que lembro (a última vez em que o assisti foi há um ano), era para o amigo, ou assim se deixa subentendido. Eu precisaria revê-lo para ter certeza.

      Responder

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