Teoria sobre o episódio 18 de Twin Peaks – O retorno (2017)

Por André Dick

Este texto apresenta spoilers sobre os episódios 17 e 18, o filme Twin Peaks – Fire walk with me e Duna

O final de Twin Peaks deixou uma proliferação de teorias para o espectador. Tanto no Brasil quanto no exterior muitas delas são extremamente criativas. Neste texto, apenas tento elaborar as pistas por meio de algumas sequências (com imagens legendadas pela Netflix, onde a terceira temporada está disponível) e analisar as informações de forma que elas realmente independam de uma quarta temporada (embora eu apreciasse um novo retorno).
A resolução de Twin Peaks se inicia logo depois que a figura de Mr. C é derrotada. Quando Naido se transforma em Diane (Laura Dern) diante de Dale Cooper (Kyle MacLachlan), eles olham para o relógio da delegacia, que está marcando 2:53, o mesmo horário determinado pelo Major Briggs para que Truman (Robert Forster), Bobby Briggs (Dana Ashbroock), Andy (Harry Goaz) e Hawk (Michael Horse) pudessem acessar o White Lodge no bosque de Twin Peaks, no episódio 14. Lá Andy teria informações visuais sobre um plano do Bombeiro (Carel Struycken). É hora de Dale Cooper dizer o que disse Phillip Jeffries (David Bowie) na visita em sonho que fez ao FBI, quando falou de Judy e a data de morte de Laura Palmer: “Vivemos dentro de um sonho”. Exatamente às 2:53 Jeffries conversa com Gordon Cole (David Lynch), Agente Cooper e Albert Rosenfield (Miguel Ferrer). E o sonho principal de Cooper é evitar o assassinato de Laura. Pelo que Cooper pergunta a Diane: “Você se lembra de tudo?”, com a concordância dela, ele já conseguiu mudar a linha de tempo (como veremos no final do episódio 17 e no episódio 18).

Isso está de acordo com o que diz a Senhora do Tronco (Catherine E. Coulson) a Hawk (Michael Horse) no episódio 10: “É o que é [o assassinato de Laura Palmer] e o que não é [a versão alterada do tempo]”.

Por meio da chave do 315, Dale Cooper, Diane e Gordon Cole (David Lynch) seguem pelo subterrâneo do Greath Northern, até chegar a uma porta, que abre para a Loja de Conveniência, onde Cooper encontrará o Homem de um Braço Só (Al Strobel) e, em seguida, Phillip Jeffries em forma de sino/chaleira. Ele é transportado para a data em que morrerá Laura Palmer, 23 de fevereiro de 1989, conforme Phillip havia dito no sonho passado no escritório do FBI. Ele faz a viagem no espaço e no tempo, quando o Homem de um Braço Só diz: “Eletricidade”, assim como Paul Atreides (interpretado pelo mesmo MacLachlan) conseguia fazer em Duna (quarta imagem abaixo), dirigido por David Lynch.

Podemos retroceder ao início da terceira temporada, quando Cooper está com o Bombeiro num lugar naquele momento indefinido (agora se entende que seja o White Lodge), enquanto sai um som estranho de um gramofone, ao que tudo indica o mesmo em que Leland Palmer, pai de Laura, ouvia suas músicas nas primeiras temporadas. O Bombeiro fornece algumas pistas: “Ouça os sons”; “Ele está na nossa casa agora”; “430”; “Richard e Linda”; “Dois passarinhos com uma pedra só”.

Destaca-se que o som ouvido por Cooper é o mesmo que ele ouvirá no episódio 17 quando está conduzindo Laura Palmer para o White Lodge, alterando a linha do tempo e impedindo sua morte. Quando surge esse som, logo depois de Sarah Palmer quebrar o retrato dela, ou seja, tentando impedir sua não morte, Laura desaparece e Cooper ouve um grito ao longe no bosque. A frase “Ela está na nossa casa agora” remete, por sua vez, ao que diz o neto dos Tremond/Chalfont no filme Twin Peaks – Fire walk with me, quando ele alerta Laura Palmer que Bob está embaixo do elevador de sua casa e ela descobre que se trata de Leland. Quem está na casa agora é Judy, a presença maligna referida por Gordon Cole no início do episódio 15 e a qual Mr. C buscava no episódio 15. As pistas do Bombeiro remetem ao futuro, no entanto. São essenciais para estabelecer uma ligação do primeiro com o último episódio. É o plano do Bombeiro para salvar Laura.
No segundo episódio da terceira temporada, Cooper encontra o Homem de um Braço Só, que lança a pergunta “É o futuro ou é o passado?”. No episódio 17, Cooper vai para o passado; no episódio 18, ele vai para o futuro (o presente, em relação a 1989).

O Homem de um Braço Só desaparece e surge Laura Palmer, que lhe pergunta: “Você me reconhece?”. Cooper pergunta: “Você é Laura Palmer?”. Ela lhe responde: “Eu sinto que a conheço, mas às vezes meus braços dobram para trás” (o que ela dizia no sonho da primeira temporada). Cooper novamente pergunta: “Quem é você”, e ela finalmente responde: “Laura Palmer”. Cooper retrocede: “Mas Laura está morta”, ao que Laura responde: “Eu estou morta, mas ainda vivo”, tirando seu rosto e dando espaço a uma claridade. Em seguida, ela levanta, vai até Cooper e o beija, como no sonho da primeira temporada. Em seguida, sussurra um segredo em seu ouvido. Na série dos anos 1990 ela contava quem era o seu assassino. Neste episódio da terceira temporada, algo acontece e Laura desaparece no espaço, ao som de seu grito. O que ela contou e a ele? Tudo indica que contou sobre Judy, a ameaça referida por Gordon Cole (David Lynch) no início do capítulo 17. Laura é enviada para uma realidade alternativa. Esta sequência já não aparece no episódio 18, pois Laura não se encontra mais no Black Lodge. Cooper olha assustado, as cortinas vermelhas parecem balançar com vento e surge um cavalo.

O cavalo é uma pista para a empreitada que Cooper terá no episódio 18, depois de salvar Laura no episódio 17, mas ela escapar de suas mãos, levada para um outro lugar que ainda ele desconhece. Nesse episódio final, Cooper, depois de sair do Black Lodge, e Diane viajam por uma estrada deserta. Exatamente no número de km 430 (número oferecido pelo Bombeiro), ele para de carro na beira da estrada e enxerga torres de eletricidade, onde se demarca uma passagem para outra dimensão. É dia e, quando a ultrapassam, fica noite.

A torre de eletricidade lembra a imagem que aparecia na mensagem do Major Briggs (embaixo do pico da direita) no episódio 9 e no mapa de Hawk (Michael Horse) no episódio 11. Quando Frank Truman (Robert Forster) pergunta o que ela significa, Hawk responde que ele não vai querer saber. Tudo indica que essa imagem remete a Judy.

O carro que utilizam também não é aquele com que Cooper chega a Twin Peaks no piloto da série de 1990. Parece um mais antigo.

Cooper se hospeda num hotel de beira de estrada com Diane, lembrando A estrada perdida. Ambos fazem amor tendo como música de fundo “My praier”, dos The Platters, a mesma do episódio 8, transportando a série para o mesmo dilema (a luta do bem contra o mal). É como se Diane reproduzisse, em sua imaginação, a relação que teve com Mr. C disfarçado de Cooper. É como se, por meio do ato, Cooper se transportasse para o universo de Judy disfarçado um pouco de Mr. C (por isso ele pede a ela que apague a luz do quarto), para não ser impedido, daí sua ausência completa de paixão. Diane, ainda traumatizada pelo que Mr. C fez a ela, cobre o rosto de companheiro. No dia seguinte, Cooper acorda num hotel da cidade, com um bilhete deixado por Diane, que se intitula agora Linda e o chama de Richard.

São os nomes dados pelo Bombeiro no início da temporada. Cooper (ou Richard?) tem agora, no estacionamento de outro hotel, um carro do mesmo modelo utilizado por Mr. C no terceiro episódio:

Ele está em Odessa, Texas, mas numa espécie de linha temporal diferente ou universo paralelo. O ano, no entanto, é 2017: a população da placa que aparece é a atual:

Para toda uma disposição cênica que Lynch tem em seus episódios, mas sobretudo neste, chama a atenção um poste de luz com um globo branco ao lado de uma árvore que lembra aquela que fica na entrada do White Lodge, em frente ao hotel onde Cooper acorda. Podemos lembrar de como a esfera, na trajetória de Lynch, remete a um universo onírico: em Coração selvagem, a Bruxa Boa (Sheryl Lee) aparecia numa esfera voando; em O homem elefante, John Merrick imaginava sua mãe nas estrelas; e no episódio 8 desta temporada de Twin Peaks vemos Laura Palmer sendo criada dentro de um globo dourado. No entanto, aqui, é um globo ligado a um poste de luz, corriqueiro, que pode estar dizendo que estamos mais na realidade do que a aparência demonstra.

Cooper finalmente chega à Cafeteria Judy (justamente uma cafeteria, oferecendo o que Cooper mais gosta), onde trabalharia quem ele busca; ao fundo há postes de eletricidade e à frente um cavalo branco de carrossel. Este cavalo branco aparece em visões de Sarah Palmer na série e no filme antes de Bob surgir. Também faz parte da mensagem do episódio 8 do woodsman e surge no Black Lodge, no segundo episódio desta temporada, como referido anteriormente.

Apesar de aparentar não ser totalmente ele, Cooper enfrenta cowboys na cafeteria e coloca suas armas no óleo onde estavam as batatas fritas (e óleo queimado remete ao Black Lodge, na segunda temporada e em Twin Peaks – Fire walk with me). Cooper encontra Carrie Page (Sheryl Lee), o duplo de Laura Palmer, perdida num bairro inóspito, com um homem baleado no sofá e uma metralhadora no chão da sala de estar. Nisso, ao mesmo tempo, pergunta-se como Carrie Page (nome sugestivo já pelo sobrenome, indicando uma página a ser escrita, como qualquer pessoa) abre a porta de sua casa tão rapidamente quando Cooper se anuncia como do FBI, estando envolvida com crimes.

Não teria tido também um sonho com o agente, assim como Laura confessa ter tido ao encontrá-lo no bosque, quando ele tenta salvá-la? O fato é que Cooper parece acordar quando a vê, perguntando se ela tem um pai chamado Leland (ela consente) e uma mãe chamada Sarah (que a deixa intrigada, o que se entende que é o nome de sua mãe também). Repare-se que na parede da casa há um pequeno cavalo branco e o corte de cabelo de Carrie Page é o mesmo que usa Laura Palmer quando conversa no segundo episódio desta temporada com o agente Cooper no Black Lodge.

Sabemos agora que ela é a garçonete da Cafeteria desaparecida há três dias, segundo a colega, numa semelhança com Teresa Banks, a primeira vítima de Bob em Twin Peaks – Fire walk with me e o poste com o número 6 que remete ao parque de trailers de Carl Rodd (e onde morava Teresa) nesse filme também existe à frente de sua casa. Lembremos que na investigação do filme Chester Desmond (Chris Isaak) e Sam Stanley (Kiefer Sutherland) se deparavam (na época, o espectador não sabia) com woodsmen, no Hap’s Diner, onde Teresa trabalhava:

No caminho para Twin Peaks, ela diz “Naquela época eu era muito jovem para saber”. Eles param num posto de gasolina com uma Loja de Conveniência (a estrada escura no enquadramento faz com que a Loja de Conveniência pareça estar no segundo andar, onde são os encontros dos integrantes do Black Lodge segundo informações anteriores), mas, ao mesmo tempo, é de uma marca atual, a Valero (será o lugar onde passam finalmente para a realidade não alternativa, assim como os postes demarcavam a passagem para a realidade alternativa?), e são seguidos por um carro até determinado trecho, num misto de suspense e paranoia (lembrando o Homem de um Braço Só atrás do carro de Leland no filme de 92). Vejamos a maneira como Lynch filma os faróis do carro que segue: parecem os olhos de uma coruja (elas não são o que parecem ser). Há um mal à espreita querendo sempre impedir a volta dos personagens a uma normalidade, com um ritmo lento e fascinante, talvez o melhor cinema “clássico” que Lynch fez desde Veludo azul.

Para recuperarmos informações importantes antes de seguir adiante, no episódio 8, Lynch conta o surgimento do Black Lodge, quando, no Novo México, explode a primeira bomba atômica, com acompanhamento de  “Threnody to the victims of Hiroshima”, de Krzysztof Penderecki. Essa bomba dá origem exatamente à figura de Bob – dentro de um ovo – e Lynch se desloca para uma Loja de Conveniência no deserto. A Loja de Conveniência é onde Bob, segundo o Homem de Um Braço Só, habita. À frente dessa Loja de Conveniência, perambulam os woodsmen que apareceram na primeira parte do episódio e voltam a aparecer nos episódios 11 (na Zona investigada por William Hustings) e 15. E Bob sendo criado em meio ao fogo da bomba atômica dá outro significado a “Fire walk with me”. Lembremos o que contava o Major Briggs na segunda temporada por meio das imagens abaixo:

O Major descreve uma caminhada em meio às chamas, que remetem justamente à bomba atômica de 1945 e, ao final, recorda a aparição de uma coruja gigante, o que remete à simbologia do anel e do Black Lodge.
No episódio 8, depois da detonação da bomba, deve-se lembrar que Lynch se desloca para um castelo em alto-mar, no mesmo ambiente em que Cooper no episódio 3 era transportado para um cubo pendurado no espaço sideral. A sequência remete imediatamente ao lar dos Atreides em Duna, onde estão Señorita Dido (Joy Nash) e o Bombeiro (Carel Struycken), ao lado de um sino – parecido com aquele que Cooper vislumbra no terceiro episódio.

Ele parece receber um chamado e se desloca, por uma escadaria, para um teatro, onde se projeta, na tela, a imagem da bomba atômica seguida pela de Bob. O Bombeiro se eleva no ar, aos olhos de Señorita Dido, e sai dele uma luz amarela que chega à mulher como uma bola dourada: dentro dela, está a imagem de Laura Palmer (Sheryl Lee). Esse amarelo é o ouro que se encontra na entrada do White Lodge no bosque de Twin Peaks, nos episódios 14 e 17 (lembrando que na entrada do Black Lodge há uma espécie de óleo escuro).

Esta bola é lançada no ar e entra numa espécie de gramofone gigante, direcionando-se à Terra. Laura estaria sendo enviada à Terra para enfrentar Bob? É um episódio que se sente quase à parte de toda a série – inclusive as duas primeiras temporadas – e que, de certo modo, pretende contar a origem da maldade humana e daquilo que pode combatê-la – na figura de Laura Palmer – de forma antológica. Esse episódio traz ainda mais significado à figura do anjo no final de Twin Peaks – Fire walk with me aparecendo para Laura Palmer como se fosse a sua salvação (imagem que Andy visualiza quando vai ao White Lodge no episódio 14). No oitavo, é como se Laura fosse a alma que poderia fazer frente a Bob, que utiliza como hospedeiro seu pai, Leland, mas também, pelas informações do fim da terceira temporada, a Judy. Para cada maldade, Lynch expõe aquilo que pode enfrentá-la de fato. Twin Peaks sempre tratou do amor e da salvação.

Mas quem é Judy?
Se no episódio 12, Sarah Palmer (Grace Zabriskie) começava a gritar numa loja de conveniência “Eles estão vindo” e, ao ser visitada por Hawk (Michael Horse), podia-se ouvir barulhos dentro de sua casa, no episódio 14, a acompanhamos entrando num bar para pedir um Bloody Mary quando é abordada por um homem. Pedindo que ele saia, sem ser atendida, Sarah retira seu rosto – como Laura faz no Black Lodge – e, ao invés de vermos luz, há uma escuridão. Ela mata o homem com uma mordida que lembra A hora do espanto, mas sem deixar rastro. Uma atmosfera aterradora e se pode notar que Sarah tem mais proximidade dos woodsmen do que imaginávamos.

Mas há um senão nessa possível teoria: Sarah foi sempre Judy (se realmente ela é um hospedeiro dela, como Leland era de Bob)? Acredita-se que não: Judy, na verdade, tenta dominá-la nesses anos em que está solitária porque Laura pode ameaçá-la. Ela se nutre da mãe dela como Bob de Leland. Na série original, Sarah, com suas visões, dava pistas de como apanhar o assassino. Ela sempre pareceu uma vítima de Leland, tanto quanto Laura, embora muitas vezes se notasse que ela fingia tragicamente não enxergar o que estava acontecendo. Um dos momentos mais interessantes nesse sentido está em As peças que faltam, quando ela chega a Laura no momento em que esta se encontra hipnotizada pelas hélices do ventilador (que indicam a proximidade de Leland/Bob), e se comporta de maneira estranha.

Sua maior proximidade seria o uso de cigarros, que na série a ligam à figura do woodsman de 1956 (“Gotta light?”). Em As peças que faltam, sua primeira aparição é carregando um pacote com várias embalagens de leite, o mesmo que Leland lhe dá para que durma e não veja o que faz. De qualquer modo, delimitemos que Sarah não era Judy, e sim passou a ser dominada por ela. A explicação de que Judy deu origem a Bob é parte também de uma suposição, pois nada comprova isso mesmo a partir de informações do episódio 8.

Judy é confundida com uma figura que aparece nos episódios 15 (quando o woodsman acessa a corrente de eletricidade) e 17 (quando desce a escadaria em que Cooper e o Homem de um Braço Só sobem), associada a um dos integrantes da reunião na Loja de Conveniência testemunhada por Phillip Jeffries em Twin Peaks – Fire walk with me: nela, aparecem os woodsmen (1, 2 e 3) e os Tremond/Chalfont (4) na terceira figura abaixo.

No segundo episódio da terceira temporada, Sarah já mostrava um comportamento no mínimo estranho ao ver uma cena violenta de animais, refletindo no espelho atrás de seu sofá (o que recorda justamente Leland olhando-se nele e visualizando Bob).

Um dos woodsman dizia numa cena incluída em Twin Peaks – As peças que faltam (extras de Twin Peaks – Fire walk with me), na reunião da Loja de Conveniência, algo que remete a esse comportamento: “Vida animal”:

Que Sarah é Judy parece ficar finalmente claro com uma pista deixada por Phillip Jeffries a Mr. C no episódio 15. Quando ele pergunta quem é ela, Jeffries diz que Mr. C já a conheceu (como Mr. C esconde Bob, isso se esclarece).

E quando pela fumaça da chaleira revela números de onde se encontraria essa figura são muito próximos dos da casa de Sarah Palmer (708): aparece uma profusão de números, de forma destacada 408.

Lembremos que o Bombeiro oferece várias visões a Andy no episódio 14, inclusive sobre o momento em que Lucy terá de decidir se vai atirar ou não no Mr. C depois de atender ao telefone. As imagens mostradas a Andy reproduzem o fato de, conforme diz a Senhora do Tronco no episódio 10, Laura ser a escolhida:

Há, inclusive, a indicação do poste com o número 6, que há em frente à casa de Carrie Page. É Page, justamente uma espécie de duplo de Laura (como foi Dougie de Cooper), que pode reestabelecer o equilíbrio. Por isso, o Bombeiro quer que Cooper a encontre no universo onde Judy tentou escondê-la, em Odessa. Ela já o era no final do filme Twin Peaks – Fire walk with me, iluminada:

Laura Palmer é escondida por Judy em Odessa justamente depois de revelar o segredo a Cooper na sala vermelha, por isso soa seu grito como no final do episódio 17, no momento em que está mudando a linha temporal. Não foi o White Lodge que levou Laura a Odessa, pois ela some um pouco antes exatamente de Cooper chegar ao White Lodge na floresta de Twin Peaks. Ao ouvir os sons que o Bombeiro disse que ele escutaria (de um gramofone, e lembremos que no White Lodge há um gigante para transportar as pessoas a diferentes lugares), Cooper, até então com Laura Palmer, conseguindo mudar seu curso, a perde e se ouve o grito no bosque. O grito acontece, ao mesmo tempo, no Black Lodge, por Sarah/Judy em 2017 e no passado, em 1989.

Recuperando uma informação do primeiro parágrafo: pouco antes vemos Sarah/Judy quebrando o retrato dela, como se quisesse impedi-la de viver outra vida (enviando-a, por fim, a Odessa). Em seguida, corta para a mesma sequência do segundo episódio, com o Homem de um Braço Só:

Desta vez, Cooper se levanta e segue até o Braço que lhe pergunta se esta é a história da menina que mora no fim da rua (numa ligação com o filme de Jodie Foster em que ela interpreta uma menina que sofre abuso sexual, como Laura). Não há mais a parte em que conversa com Laura; ela não está mais com ele. Em seguida, Cooper vai até o pai de Laura, Leland (Ray Wise), que lhe pede: “Encontre Laura”. Fazia parte do plano do Bombeiro destruir Judy e Bob.

Para Lynch, a casa de Laura e Cooper é o espaço conceitual de Twin Peaks, em que, dia a dia, o White Lodge enfrenta o Black Lodge. Quando Cooper, ao final, bate à porta de sua casa, fica claro que Alice Tremond (Mary Reber), a “nova” dona, olha para Laura de maneira que ela constitui uma ameaça ao Black Lodge. Alice é um nome muito sugestivo para um universo paralelo, e os Tremond/Chalfont são do Black Lodge. Eles aparecem no sonho de Laura Palmer em Twin Peaks – Fire walk with me e é embaixo do trailer em que moram no parque administrado por Carl Rodd (Harry Dean Stanton) que desaparece o agente do FBI Chester Desmond (Chris Isaak).

No episódio 12, Sarah avisava, reiteramos, numa loja de conveniência de Twin Peaks: “Eles estão vindo”. Isto não me parece passado nem o futuro; parece o presente. O Black Lodge, agora também na casa dos Palmer, dominou Sarah (por meio de Judy) e é preciso enfrentá-lo novamente mesmo com Mr. C em chamas no início do episódio 18. Judy tentou escondê-la, mas Cooper, por meio das pistas do Bombeiro do White Lodge a descobriu, mesmo a tendo perdido em 1989. E Laura é, afinal, a escolhida: com seu grito, ela é capaz de apagar a eletricidade e, consequentemente, os woodsmen e Judy, apagando, de certo modo, o seu passado. Repare-se que a Casa tem um símbolo sobre o número que lembra chifres de boi, que também havia na Cafeteria Judy.

Ela responde ao que a Senhora do Tronco pergunta a Hawk no episódio 10:

Antes de dizer:

Ao ouvir a voz de sua mãe, ela finalmente acorda do mundo em que estava, aparentemente fora da realidade, em Odessa: acorda para a realidade já alterada. Como Paul Atreides, em Duna, usando o som para disparar os módulos, “O adormecido deve despertar”. No filme de 1984, Atreides também é anunciado como uma espécie de escolhido, quando faz chover sobre o planeta desértico de Arrakis e destrói seu adversário final, Feyd-Rautha (Sting), com o som de sua voz. E Laura desperta. Tanto é que a própria atriz que interpreta Alice Tremond, Mary Reber, é a dona atualmente da casa dos Palmer. Estamos em 2017. Talvez seja a primeira vez que Lynch tenha oferecido uma pista concreta. A série se encerra com Laura sussurrando no ouvido de Cooper. Assim como na primeira temporada ela dizia o nome de seu assassino, aqui ela fala de Judy:

Levando em conta que esta possibilidade indica que não teria havido nunca Twin Peaks, a série, apenas o filme, antes do assassinato de Laura Palmer, pode-se dizer que Lynch aproveita também as duas versões temporais (passado e futuro) para dizer que os traumas não se apagam, que eles voltam sempre (por meio do grito de Laura). Prefiro, ainda assim, esta versão mais otimista, baseando-me na informação da Senhora do Tronco, de que “Laura é a escolhida”, e que o Bombeiro havia traçado um plano que se confirma, e que pode ser aceita, de qualquer modo, não se sabendo se haverá ou não quarta temporada (na qual Cooper poderia estar na cidade por outro motivo). Tudo, afinal, pode ser apenas um sonho do “sonhador” desta série fascinante.

Twin Peaks – Terceira temporada (O retorno) (2017)

Por André Dick

Este texto apresenta spoilers sobre a temporada e o filme O iluminado

Na terceira temporada de Twin Peaks (disponível na Netflix), David Lynch conseguiu algo realmente curioso, antes de tudo: utilizou o nome da cidade para tratar de um universo que se espalhou para Nova York, Buenos Aires, Novo México, Las Vegas, Washington e Dakota do Sul (e até Paris, num sonho, e Londres, num relato), voltando apenas algumas vezes às florestas da pacata cidade na fronteira com o Canadá. Isso formou um paradoxo: a série era Twin Peaks – em razão dos mistérios, de personagens que haviam participado das duas primeiras temporadas e por ter algumas cenas passadas na cidadezinha–, mas se passava mais em outros ambientes e num espaço conceitual.
É preciso dizer, no entanto, depois de assinalar essa surpresa (em parte) de pouco da história se passar realmente em Twin Peaks: houve episódios surpreendentes. O clima de Twin Peaks funcionou mesmo sem o semáforo noturno e os caminhões carregando madeira, ou sem vermos o salão do Greath Northern sendo transitado por turistas. Os primeiros seis, particularmente, são uma obra-prima; depois vieram o 8 (um marco), o 9, o 12 (no melhor momento de atuações do elenco), o 14, 16, 17 e 18. Ou seja, 14 episódios foram ótimos, uma média considerável em se tratando de uma temporada com 18.

De modo geral, Lynch explicou teorias subentendidas em Twin Peaks – Fire walk with me; utilizou o conceito do duplo (explorado em A estrada perdida, Cidade dos sonhos e Império dos sonhos, e na própria Twin Peaks por meio de Laura/Maddy; Bob/Leland), por meio de Cooper/Dougie Jones/Mr. C; analisou a terceira idade na vida de vários personagens; os efeitos do White Lodge e do Black Lodge; a relação entre sonho e realidade; e a influência da eletricidade na passagem a universos paralelos.
A trama principal pode ser resumida do seguinte modo: o agente Cooper (Kyle MacLachlan) sai do Black Lodge, depois de conversar com o Bombeiro (Carl Struycken), Laura Palmer (Sheryl Lee) e o Homem de um Braço Só (Al Strobel), passando pelo White Lodge, e toma o lugar de Dougie Jones, uma cópia que havia sido produzido pelo seu duplo do mal, Mr. C (também McLachlan), a fim de que este não voltasse para o Black Lodge. Enquanto isso, os antigos companheiros de Cooper, Gordon Cole (David Lynch) e Albert Rosenfield (Miguel Ferrer), ao lado de Thammy Preston (Chrysta Bell) e Diane (Laura Dern), vão no encalço de respostas sobre isso, a partir da prisão de Mr. C em Dakota do Sul. Já os integrantes da delegacia de Twin Peaks, xerife Frank Truman (Robert Forster), Andy (Harry Goaz) e Bobby Briggs (Dana Ashbrook) também buscam pistas sobre algo estar faltando na investigação do assassinato de Laura Palmer depois que Hawk (Michael Horse) recebe um comunicado da Senhora do Tronco (Catherine E. Coulson). Tudo, mais tarde, envolve pistas deixadas pelo Major Briggs.

O agente Cooper, na pele de Dougie, é casado com Janey-E (Naomi Watts), pai de Sonny Jim (Pierce Gagnon) e trabalha na agência de seguros de Bushnell Mullins (Don Murray) e algumas pessoas tendo o Mr. C por trás querem matá-lo. Outros, como os irmãos Mitchum, Bradley (James Belushi) e Rodney (Robert Knepper), sempre acompanhados por Candie (Amy Shiels), Sandie (Giselle Damier) e Mandie (Andrea Leal), querem descobrir por que ele faturou tanto em seu cassino de Las Vegas. Já em Twin Peaks, temos o filho de Audrey Horne, Richard (Eamon Farren) cometendo maldades; os efeitos da solidão de Sarah Palmer (Grace Zabriskie); algumas passagens pelo Double R e pelo Greath Northern; e apresentações musicais de ponta na Roadhouse. No episódio 8, os motivos da criação do Black Lodge, por meio do White Lodge, numa sequência de imagens fascinantes. Junto a inúmeras qualidades pictóricas captadas pela fotografia de Peter Deming, de atuação e roteiro, Lynch talvez pudesse ter colocado mais trama em Twin Peaks e mais inter-ligações entre os personagens. Os cenários de Las Vegas ou na Dakota do Sul não possuem o mistério das paisagens da cidadezinha: não evocam estranheza e beleza, uma volta a um passado longínquo que a vida urbana não pode captar. Era disso que Cooper tratava em muitos momentos nas temporadas iniciais, de um universo onde a contagem de vidas era realmente vital. Lynch não proporcionou isso em grande parte da temporada, preferindo utilizar o estilo de seus filmes mais experimentais a partir dos anos 90 e sem apostar na atmosfera do original. Por um lado, foi um acerto, não se curvando à expectativa e apresentando um trabalho muitas vezes extraordinário; por outro, às vezes se excedeu na escolha. Alguns dos grandes episódios foram cercados por essa sensação de mistério, de lugares isolados, principalmente os episódios 8, 9, 14, 16, 17 e 18. O último, por exemplo, localizado entre Odessa, Texas, e uma deserta Twin Peaks possui um clima semiapocalíptico.

Para alguns, a explicação para isso era recorrer ao fato de que David Lynch é um artista que não deve explicações a ninguém e que nunca entrega o que o espectador espera ou presta fan service. Foi interessante acompanhar esta temporada por redes sociais – já que nos anos 90 não havia além de jornais e revistas para ver a reação à série – por uma espécie de culto interessante a teorias. Nesses termos, a temporada em si teve boas bases de fan service, principalmente para quem é admirador de Twin Peaks – Fire walk with me. O fato de o filme ter sido um apoio da série não impediu algumas indagações: uma delas foi a própria exclusão completa de Annie Blackburn (Heather Graham), fundamental para o fechamento da segunda temporada e do filme e que aqui retornou apenas na referência às páginas do diário de Laura Palmer. Outra foi a ausência de Chester Desmond (Chris Isaak). Pode-se ter uma explicação para essa volta constante de Lynch ao filme, principalmente do episódio 8 em diante, além da tentativa de salvar Laura Palmer (Sheryl Lee). O diretor gosta de voltar a temas que teriam sido questionados em sua carreira. Foi assim com Duna, ao qual se refere sempre como projeto em que foi prejudicado, mais especificamente por não ter podido participar da montagem final. Toda sua carreira tem referências constantes a Duna, e a própria nova temporada de Twin Peaks. O personagem central de Duna, Paul Atreides, recebia um anel do pai que remete ao da Caverna da Coruja; as atrizes de Cidade dos sonhos lidam com uma caixa misteriosa, como a Bene Gesserit de Duna; os módulos de som dos Fremen em Duna adiantam o mistério a partir da descoberta de uma orelha em Veludo azul. Também a fala do Homem de um Braço Só ao ver Cooper levantando da cama do hospital (“Você está acordado. Finalmente”) é uma referência direta ao “O adormecido deve despertar” de Paul Atreides, feito pelo mesmo MacLachlan, em Duna. E foi assim com Twin Peaks – Fire walk with me: Lynch quis testar, por meio da série, o quanto havia sentido naquilo que não viram sentido à época do lançamento, nas vaias em Cannes, no fracasso de bilheteria e crítica. É como se ele desse uma resposta e ele a ofereceu do melhor modo: a terceira temporada foi um espetáculo sensorial e ajudou a desfazer outra lenda: de que não explica nada. É verdade que há muitas perguntas como resposta às respostas, mas pode-se mencionar nesta temporada inúmeros diálogos desvendando os mistérios relacionados ao Major Briggs.

O que mais fez Lynch, com a colaboração fundamental de Mark Frost, foi estabelecer pontas de explicação sobre o Black Lodge, o White Lodge, Blue Rose, a Loja de Conveniência, Phillip Jeffries, Judy, o creme de milho, o fogo, a origem de Bob, a ligação do Black Lodge com a eletricidade… Muito do mistério de Twin Peaks teve seu impacto aumentado, principalmente no antológico episódio 8. Gostei de várias soluções; outras poderiam ter sido apenas subentendidas, mas o saldo neste quesito foi extraordinário. E ainda com personagens enigmáticos: Freddie Sykes (Jake Wardle), o homem bêbado da delegacia (Jay Aaseng), Naido (Nae Yuuki) e o Bombeiro (Carl Struycken), além dos woodsmen no episódio 8.
Mais interessante é como Lynch e Mark Frost aproveitaram temas que teriam desvirtuado a segunda temporada. Esta, com todos seus problemas, tinha os competentes Harley Peyton e Robert Engels à frente de vários roteiros, com trabalhos algumas vezes superiores ao que Lynch e Frost, criadores da série, apresentaram nesta terceira, sobretudo a partir do momento em que os personagens precisavam ganhar desenvolvimento em inter-relações. E em termos de roteiro me refiro principalmente a diálogos, não em analogias ou imagens (nas quais Lynch se sobressai especialmente).

Robert Engels (que foi corroteirista do filme, ao lado de Lynch) assinou sozinho ou em parceria 10 episódios das duas primeiras temporadas, e Harley Peyton nada menos do que 13. Algumas simbologias referentes ao Major Briggs estão em episódios escritos por Engels e Peyton, mas, acima de tudo, assim como Frost (que participou do roteiro de 11 episódios), foram eles que desenharam esses personagens de Twin Peaks e também construíram o universo da cidade e dos personagens de Twin Peaks, sem o qual Lynch não teria conseguido trabalhar seus conceitos neste retorno. Em algumas resoluções desta temporada, o problema não foi a direção e sim o desenvolvimento de alguns personagens e a montagem de Duwayne Dunham, que colaborou com Lynch no piloto de Twin Peaks, em Veludo azul e Coração selvagem. A série original teve a montagem principalmente de um trio: Jonathan P. Shaw, Toni Morgan e Paul Trejo, que se revezou do início ao fim das temporadas, abrindo espaço apenas para Duwayne Dunham em dois episódios e Mary Sweeney, ex-mulher de Lynch, em um. Apesar do apoio de P. Shaw e Lynch na edição desta temporada, ela foi hesitante em certos momentos. Lynch compensou com a direção e o grande design de som: ao mesmo tempo que aprimorou elementos já mostrados em sua carreira, ele se mostrou aberto a algumas influências – mais especificamente Nicolas Winding Refn nas cenas iniciais passadas em Nova York e Terrence Malick, no episódio 8 e na entrada do corpo policial de Twin Peaks no bosque da cidade no episódio 14, com os raios de sol entre as árvores, uma conquista estilística de Emmanuel Lubezki.

A montagem era decisiva para o dinamismo de Twin Peaks (independente de lenta ou ágil). O retorno alternou ótimos episódios – principalmente aqueles em que a montagem foi mais vagarosa, com cenas extensas e repletas de diálogos – e outros mais fracos – aqueles em que algumas cenas foram curtas demais e outras longas demais. Em certos momentos, a montagem desta nova temporada era em certa medida confusa que surgiram teorias falando de uma não linearidade; veja-se, por exemplo, o agente Cooper jogando beisebol com o filho no episódio 12 e no episódio seguinte, o 13, aparecer na manhã seguinte ao jantar dos irmãos Mitchum, acontecido no 11. Ou Dougie se livrar do ataque de Ike (Christophe Zajac-Denek) no episódio 7 e os irmãos Mitchum verem a matéria de TV sobre ele apenas no episódio 11. O dinamismo do original era ajudado pela trilha de Angelo Badalamenti, que praticamente se ausentou aqui, voltando mais ao final, com grande empatia e se destacando no episódio 8. O design de som – feito por David Lynch – esteve em todos os episódios como o som principal, junto às apresentações de bandas e artistas solo, um acerto, por um lado (pela qualidade deles, a exemplo de Chromatics, Au Revoir Simone, Nine Inch Nails, Lissie e Eddie Vedder, que fizeram minhas apresentações favoritas), e prejudicial, por outro, em razão de costurar o final de muitos episódios de maneira previsível.
No entanto, tudo isso ganha algum sentido se concluirmos que “vivemos dentro de um sonho”, palavras que o agente Cooper fala na delegacia no episódio 17 do mesmo modo que Phillip Jeffries em Twin Peaks – Fire walk with me. É a explicação para o limbo em que parece se encontrar Audrey Horne (Sherilyn Fenn), sempre em conversa com o marido Charlie (Clark Middleton) sobre o amante Billy (que acabamos não conhecendo ao fim da temporada). São situações que configuram um interesse incomum pelo surrealismo cotidiano. Este se mostrou especialmente presente nos episódios com passagens para universos paralelos (episódio 1, 2, 3, 8, 11, 14, 15, 17 e 18).

Esse surrealismo foi apoiado por personagens significativos: Carl Rodd (Harry Dean Stanton) e William Hustings (Matthew Lillard), realmente vitais para a trama, em polos que se complementam, um com certa sensibilidade para uma ligação com universos paralelos e o outro, um diretor de escola confuso e envolvido numa busca arriscada pela Zona. Albert Rosenfield (Miguel Ferrer) foi ótimo, funcionando muito bem em sua despedida em parceria com Gordon Cole (David Lynch), Tammy Preston (Chrysta Bell) e Diane (Laura Dern). Anthony Sinclair (Tom Sizemore) teve momentos – aquele em que ele vai conspirar contra Dougie aos irmãos Mitchum é excepcional (“Vocês têm um inimigo: Dougie Jones!”), assim como quando se esconde atrás da mesa quando surge o trenzinho dos mafiosos, suas assistentes e Dougie na agência de seguros. Bushnell Mullins (Don Murray) se inclui entre os grandes personagens da mitologia de Twin Peaks, com sua gentileza e decência, como diz Cooper ao acordar. Murray tem uma precisão cômica que tornou grandes as reuniões com Dougie ou sua ida à delegacia de Las Vegas para falar com os irmãos Fusco. Janey-E (Naomi Watts) destacou-se, particularmente o melhor personagem novo desta temporada, ao lado do filho Sonny Jim (Pierce Gagnon). Watts conseguiu desenhar uma personagem desapontada com o marido, mas amorosa e defensora do seu lar. A despedida dela de Cooper (ela já sabia que não se tratava de Dougie) no episódio 16 costurou toda uma simbologia para uma mulher de família que poderia ter sido a esposa de Cooper caso ele não fosse agente do FBI. A despedida dela comove porque ela queria ter aquela vida que já não Dougie e sim Cooper lhe prometia. Seu olhar triste é de alguém que estava gostando daquela vida, mas continuar nela seria tirar a vida que Cooper tinha antes de ocupar o lugar de Dougie.

Em Twin Peaks, Hawk (Michael Horse), Bobby Briggs (Dana Ashbrook) e a Senhora do Tronco (Catherine E. Coulson) foram acertos. O arco desenhado pelo crescimento emocional de Bobby foi, sem dúvida, uma boa ponte com as temporadas anteriores, em companhia das mensagens misteriosas da Senhora do Tronco e a sabedoria de Hawk. Frank Truman (Robert Forster) tornou-se um substituto eficiente para Harry, nunca querendo substituir o êxito de Michael Ontkean. Não aproveitados o quanto se poderia, Andy (Harry Goaz) e Lucy (Kimmy Robertson) se mostraram um alívio nostálgico, mas a ponta de Michael Cera como seu filho Wally Brando é antológica. Chad Broxford (John Pirruccello) atuou como um bom vilão policial. Personagens introduzidos sem força, como os irmãos Mitchum, adquiriram uma importância fundamental – e alguns dos melhores momentos foram deles na parte final, numa recuperação extraordinária para Knepper e Belushi. Mesmo os eventos do episódio 11 (que pareciam forçados à primeira vista) ganham numa reavaliação, sobretudo o jantar com Dougie, seguido por torta de cereja. Achei muito engraçados os irmãos T. Fusco (Larry Clarke), “Smiley” Fusco (Eric Edelstein) e D. Fusco (David Koechner) – principalmente na cena em que eles são informados de que Dougie seria o agente Cooper ou quando prendem Ike – e Hutch e Chantal tiveram sua inclusão explicada pelo excepcional episódio 16, com atuações magníficas de Leigh e Roth. Steven Burnett (Caleb Landry Jones) tem um potencial não aproveitado totalmente, caso não tenha uma nova temporada, assim como Richard Horne (Eamon Farren) foi um vilão à altura pelo pouco roteiro que recebeu. Outros personagens ao redor do Mr. C não tiveram o mesmo êxito: falo de Duncan Todd (Patrick Fischler). Algumas vezes, Lynch impediu o prosseguimento mais ágil da série com cenas em que eles apareciam. Particularmente, todos os episódios que se concentraram na tentativa de matar Dougie Jones foram menos exitosos, excluindo o 16. Fiquei bastante surpreso como Clark Middleton, como Charlie, o “marido” de Audrey; é um ótimo ator e trava um diálogo de quatro episódios com desenvoltura. Sherilyn Fenn fez novamente uma misteriosa Audrey Horne, desta vez perturbada e num mundo paralelo, sobretudo em sua apresentação na Roadhouse. Grace Zabriskie, como Sarah Palmer, roubou a cena nos episódios em que apareceu. E o agente Dave Mackley feito por Brent Briscoe foi um personagem discreto, mas eficiente.

E houve elementos que ficaram sem explicação, o que era de se esperar. Sem saber se a série terá uma quarta temporada, alguns personagens novos ou antigos, quando (re)apresentados, não adquiriram desenvolvimento. Isso funcionou muito bem em episódios iniciais, mas quando a série não mostrou o desenvolvimento deles é claro que houve certa decepção. Não tivemos clareza sobre a vida de Becky (Amanda Seyfried), filha de Shelly (Mädchen Amick); a ligação entre Shelly e Red (Balthazar Getty), que teve ótima apresentação no episódio 6 e depois fez apenas uma ponta no episódio 11; quem de fato é Diane (Laura Dern), pois nem no encerramento parece que tivemos respostas suficientes, principalmente quando ela enxerga um duplo no hotel de beira de estrada e não fala a respeito ao agente Cooper, antes de ele se transformar em Richard e ela em Linda, agindo, de certo modo, como a Diane fabricada por Mr. C, que não avisa sobre o ataque de um woodsman a Hustings. Também merecia elaboração o interesse de Richard Horne (Richard Beymer, mais uma vez fora de série, principalmente no quase monólogo do capítulo 12) por Beverly Page (Ashley Judd), assim como a relação entre Big Ed Hurley (Everety McGill) e Norma Jennings (Peggy Lipton), que se resolve em menos de cinco minutos depois de décadas. Imagino que muitos se cansaram com Dr. Jacoby (Russ Tamblyn) restrito apenas a algumas cenas de discurso no seu programa de internet, assim como Nadine (Wendy Robie) de espectadora dele. James Hurley (James Marshall) praticamente não teve participação, a não ser cantando “Just you” na Roadhouse e servindo de confidente para Freddie. Não ficou muito clara a relação entre Steven Burnett (Caleb Landry Jones) e Gersten Hayward (Alicia Witt).
Todas essas são tramas mais lineares, que talvez não coubessem no conceito da temporada, mas poderiam ter sido exploradas em determinados momentos, ao invés de Lynch se concentrar principalmente no que fazia sua equipe de FBI ou certas cenas mais conceituais (um homem varrendo o chão da Roadhouse, estabelecendo ligação com um Renault mais velho falando de uma sujeira que não pode ser escondida; uma francesa demorando a sair do quarto de Gordon; o excesso de intervenções de Candie no episódio 10; Jerry Horne perdido no bosque por três capítulos; a bad trip na floresta do episódio 15; algumas conversas de personagens desconhecidos na Roadhouse…), entre outras.

E temos as questões suscitadas pelo episódio 8, com sua referência à origem de uma maldade. Quem seria aquele casal em White Sands, no Novo México? Pode-se afirmar que não é ninguém que o espectador conhece, apenas representa de onde veio o mal sintetizado pelo Black Lodge e pela Loja de Conveniência. No episódio 17, o Bombeiro (Carel Struycken), que aparece no episódio 8, ressurge no White Lodge, com seus sinos de eletricidade, agora lembrando as fábricas soturnas de Eraserhead, com a cabeça do Major Briggs (Don S. Davis) flutuando no ar, depois de ter encontrado Andy no episódio 14. Esses momentos possuem uma força visual poucas vezes vista, inclusive na trajetória de Lynch. Audrey, que terminou o episódio 16, se olhando num espelho sem maquiagem, como se estivesse acordando como Cooper, não aparece mais nos dois últimos. E qual seria a ligação de Sarah Palmer com os woodsmen?
Também houve o polêmico Dougie Jones. Nos primeiros episódios (até o sexto e um tanto no episódio 11), ele funcionou muito bem, com cenas verdadeiramente cômicas e no ponto exato, graças à atuação excepcional de MacLachlan, também com o assessor de Bushnell, Phil Bisby (Josh Fadem); nos demais pouco foi desenvolvido e terminou como um personagem que fica num meio-termo. Lynch poderia, ao contrário, ter mostrado mais a rotina de Dougie junto à família, já que o motivo era mostrar principalmente o homem médio dos Estados Unidos. Não tenho clareza sobre o motivo de Lynch ter preferido colocar o personagem no lugar do agente Cooper até o episódio 15, mas tenho algumas hipóteses além daquela de que quis substituí-lo por Gordon Cole: 1) O agente Cooper não teria a parceria de Harry S. Truman (Michael Ontkean), que não voltou para a série; ambos foram decisivos para o ritmo da série original; 2) Frost e Lynch não conseguiriam reproduzir o ritmo de diálogos de Cooper das duas primeiras temporadas pelo excesso de ideias conceituais e porque queriam uma trama vagarosa, uma oposição às características do personagem; 3) Muitos episódios funcionaram no plano conceitual e o agente Cooper sempre estabeleceu uma ponte desse plano com o plano material, pelo qual Lynch não estava tão interessado; 4) Lynch não queria fazer uma série exatamente bem-humorada, apesar de momentos indicando esse caminho, e o agente Cooper prejudicaria isso. Hoje, a hipótese principal, no entanto, foi que Lynch manteve o personagem escondido para que o espectador pudesse testemunhar uma volta impressionante no capítulo 16, já histórico. Não haveria com certeza a mesma emoção de Cooper dizendo “Eu sou o FBI” se ele tivesse voltado logo no início. Sem dúvida, mas ainda se sente um pouco incômoda sua quase não presença (ou não existência, como diz o Braço no início da temporada), principalmente com tanta participação de Mr. C, principalmente nos episódios 7, 13 e 15, alguns dos mais problemáticos em termos de ritmo (mesmo que com grande performance novamente de MacLachlan). Não foi uma temporada, por isso, sem falhas, mas é difícil não considerar que foram vários filmes espetaculares prejudicados por alguns vazios (particularmente, os capítulos 10, 11, 13 e 15 se sentiram menos à altura do restante).

E os dois episódios finais mostram que, mais do que o retorno de Cooper a Twin Peaks, o que importava a Lynch e a Frost era mostrar como uma possível existência de duplos pode transformar o universo complexo e a narrativa mais aos moldes de Império dos sonhos e A estrada perdida. Depois do episódio 17, em que a ação se desenvolve em combater Mr. C e tentar voltar no tempo para salvar Laura Palmer de seu destino, além de se saber sobre uma presença ameaçadora (Judy), no episódio 18 o Homem de um Braço Só (Al Strobel), como havia pedido Cooper no episódio 16, faz uma nova versão de Dougie Jones para Janey-E e Sonny Jim. Enquanto Dougie chega de volta à Lancelot Court falando “Casa!”, ao fim de tudo, o agente Cooper procura uma casa para Laura Palmer, mas ela não existe mais ou é indefinida. Tudo volta às palavras da Senhora do Tronco, de que “a morte não é o fim, mas uma mudança”: é justamente o que Lynch apresenta nesse clímax. A emoção de ver a linha de tempo sendo alterada é muito marcante, principalmente na figura de Jack Nance, um dos melhores amigos de Lynch, que regressa à cena como Pete Martell, inclusive numa caminhada inédita, não utilizada no piloto da série, depois de sair de casa. É como se Lynch também quisesse reviver esses amigos (não apenas Nance, Davis, David Bowie e Frank Silva faleceram, como do elenco desta temporada Catherine Coulson, a Senhora do Tronco, Miguel Ferrer e Will Frost, que faz uma ponta como Dr. Hayward). Isso me leva à figura de minha mãe, que era uma grande fã da série original e faleceu há quatro anos. Este Twin Peaks, de maneira inesperada, apresenta com seu final uma sensibilidade especial de Lynch em relação aos anos que se passaram: gostaríamos que a linha de tempo fosse muitas vezes mudada. O diretor, claramente, sabe disso: ele compreende exatamente a nostalgia do espectador e o sentimento de perda durante tantos anos. Lynch é generoso quando não se esperava tanto dele, fazendo seus personagens se comportarem como o próprio público.
No episódio 18, Lynch busca seus duplos no cinema, mas moldando os conceitos num simbolismo rico, daí particularmente ter me agradado em especial: o agente Cooper e Diane dirigem como o casal Lila Crane (Vera Miles) e Sam Loomis (John Gavin), que busca Marion Crane (Janet Leigh) em Psicose. O interessante é que ele para de carro na beira da estrada e enxerga postes de eletricidade, onde se demarca uma passagem para outra dimensão. Esta sequência dialoga com Intriga internacional, de Hitchcock, em que um agente de publicidade, Roger O. Thornhill (Cary Grant), era confundido com um agente secreto, George Kaplan (novamente os duplos), e em determinado momento se encontra numa estrada deserta, tendo de se esconder de um avião que quer matá-lo num milharal (garmonbozia?). No início deste episódio, o encontro de Cooper com Diane na saída do Black Lodge lembra um num bosque nas proximidades do Monte Rushmore do mesmo filme de Hitchcock, cuja título original é North by Northwest (lembrando que Twin Peaks fica no Northwest dos Estados Unidos), e Gordon Cole se refere ao Monte Rushmore no episódio 4 deste temporada, em diálogo com Albert.

Cooper se hospeda num hotel de beira de estrada com Diane, lembrando A estrada perdida. Esta sequência também remete a Psicose, assim como o papel de parede da Loja de Conveniência do episódio 15 lembra a dos quartos do hotel de Norman Bates (que age como sua mãe).

Diane e Cooper fazem amor tendo como música de fundo “My praier”, dos The Platters, a mesma do episódio 8, transportando a série para os anos 1950. No dia seguinte está num hotel da cidade, remetendo a Hitchcock e a A estrada perdida, com um bilhete deixado por Diane, que se intitula agora Linda e o chama de Richard. O quarto tem um papel de parede que remete ao formato que sai da chaleira de Phillip Jeffries e remete ao anel da Coruja (depois de selecionar essas imagens, vi que muitos no Twitter perceberam esse mesmo detalhe). Assim como dialoga com a tapeçaria onde brinca o menino Danny no Hotel Overlook de O iluminado (filme em que Kubrick teria se inspirado em Eraserhead, de Lynch).

Outro indício de que se trata de um universo em que Cooper não é mais exatamente o Cooper que conhecíamos é o número do quarto em que ele se hospeda, 7. Este número aparece em diferentes oportunidades sempre relacionada a duplos, sonhos ou universos paralelos: é o número do café de Tracey (Madeleine Zima) no primeiro episódio da terceira temporada; o número do quarto em que Mr. C encontra Chantal (Jennifer Jason Leigh); o número do andar em que Phillip Jeffries (David Bowie) chega para encontrar a equipe do FBI em Twin Peaks – Fire walk with me e o número que está no nome da Lucky 7 Insurance, a agência de seguros em que trabalha Dougie Jones.

Em sua busca (não se sabe ainda pelo quê) em Odessa (agora sabemos a cidade), no Texas, ele passa de carro por um trilho de trem (à frente do qual apareciam os Tremond/Chalfont no filme de 1992 para entregar o quadro de Laura e pelo qual passava o Homem de um Braço Só na perseguição ao carro onde estão Leland e Laura; destaca-se, ainda, que é num vagão de trem onde ocorre o assassinato de Laura).

Odessa está um universo paralelo: em frente à Cafeteria Judy (justamente uma cafeteria, oferecendo o que Cooper mais gosta), onde trabalharia quem ele busca, há um cavalo branco de carrossel. Este cavalo branco aparece em visões de Sarah Palmer na série e no filme antes de Bob surgir. Também faz parte da mensagem do episódio 8 do woodsman e surge no Black Lodge, no segundo episódio desta temporada, quando Laura Palmer diz a Cooper: “Eu estou morta, mas ainda vivo”, sugerindo uma ligação exatamente com o episódio 18. Dentro da cafeteria, há várias imagens de quadros com cavalos (estamos no Texas, mas aqui é simbólico).

Também há ao lado da porta de entrada da Cafeteria Judy uma guirlanda de rosas que remete a uma do quarto de Laura Palmer no filme de 92.

Do lado de fora da Cafeteria, temos, além dos postes de eletricidade, contêiners, que haviam também ao lado da casa com acesso à Zona, universo paralelo, no episódio 11. Tudo indica que há indícios do Black Lodge neste lugar.

Cooper enfrenta cowboys na cafeteria e coloca suas armas no óleo onde estavam as batatas fritas (e óleo queimado remete ao Black Lodge, na segunda temporada e em Twin Peaks – Fire walk with me). Não parece coincidência que a atriz que faz a garçonete abordada pelos cowboys, Kristi, seja Francesca Eastwood, filha de Clint (conhecido por tantos filmes de faroeste). E a Odessa real, no Texas, tem como chamariz uma escultura chamada Jack Rabbit (como lembra o leitor do blog Alan nos comentários à crítica dos episódios 17 e 18), mesmo nome dado por Bobby Briggs ao lugar que serve de pista para chegar ao White Lodge no bosque de Twin Peaks. Cooper encontra Carrie Page (Sheryl Lee), o duplo de Laura Palmer, perdida num bairro inóspito, com um homem baleado no sofá e uma metralhadora no chão da sala de estar. Perceba-se a semelhança do ator (infelizmente o nome dele não aparece nos créditos finais, isso se não for apenas um boneco, o que seria ainda mais proposital) com Jack Nicholson e como seu corpo parece congelado. Essa imagem remete ao final de O iluminado, de Stanley Kubrick. A roupa do morto também é parecida. Deve-se lembrar que naquele filme Jack Torrance era um duplo (ou reencarnação) de um zelador que havia matado a família anos antes no Hotel Overlook. Nisso, ao mesmo tempo, pergunta-se como Carrie Page (nome sugestivo já pelo sobrenome, indicando uma página a ser escrita, como qualquer pessoa) abre a porta de sua casa tão rapidamente quando Cooper se anuncia como do FBI, estando envolvida com crimes. Repare-se, também, que na parede da casa há um pequeno cavalo branco.  Sabemos também que ela é a garçonete da Cafeteria desaparecida há três dias, segundo a colega, numa semelhança com Teresa Banks, a primeira vítima de Bob em Twin Peaks – Fire walk with me e o poste com o número 6 que remete ao parque de trailers de Carl Rodd (e onde morava Teresa) nesse filme também existe à frente de sua casa.

Também não se entende por que ela pergunta a ele se é agente no carro do mesmo modo (em olhar e voz) que ela pergunta se Leland, seu pai, estava em casa num determinado dia em que viu Bob, no filme Twin Peaks – Fire walk with me. No caminho para Twin Peaks, ela diz “Naquela época eu era muito jovem para saber”. Eles param num posto de gasolina com uma Loja de Conveniência (a estrada escura no enquadramento faz com que a Loja de Conveniência pareça estar no segundo andar, onde são os encontros dos integrantes do Black Lodge segundo informações anteriores) e são seguidos por um carro até determinado trecho, num misto de suspense e paranoia (lembrando o Homem de um Braço Só atrás do carro de Leland no filme de 92). Vejamos a maneira como Lynch filma os faróis do carro que segue: parecem os olhos de uma coruja (elas não são o que parecem ser). Há um mal à espreita querendo sempre impedir a volta dos personagens a uma normalidade, com um ritmo lento e fascinante, talvez o melhor cinema “clássico” que Lynch fez desde Veludo azul.

Os faróis iluminando a estrada sintetizam a obra de Lynch e remetem à primeira perseguição a James Hurley e Donna Hayward no piloto da série e à estrada em que os woodsman aparecem assustando o casal de velhinhos no episódio 8, passado em 1956: “é passado ou futuro?”, mas também a filmes anteriores de Lynch, Coração selvagem, A estrada perdida e Veludo azul. Tudo se mescla, assim como o episódio 18 incorpora várias referências simbólicas e cinematográficas, sendo uma espécie de homenagem de Lynch a Hitchock e Kubrick principalmente. Se algumas vezes o retorno de Twin Peaks investiu em excesso de conceitos, Frost e Lynch o finalizam de maneira impressionante.

O episódio todo é construído por elementos simbólicos sobre a duplicidade tanto em Twin Peaks quanto no cinema e ambos sintetizam o universo da série por meio de detalhes que podem passar em branco. No plano narrativo, é como se Cooper e Laura tivessem uma simbiose, perdidos entre o passado e o futuro. Para Lynch, a casa de ambos é o espaço conceitual de Twin Peaks, em que, dia a dia, o White Lodge enfrenta o Black Lodge. Minha teoria é de que ela é realmente Laura Palmer, à medida que os pais de Carrie têm o mesmo nome: Leland e Sarah. Tanto que, quando Cooper, ao final, bate à porta de sua casa, fica claro que Alice Tremond (Mary Reber), a “nova” dona, olha para Laura de maneira que ela constitui uma ameaça ao Black Lodge. Alice é um nome muito sugestivo para um universo paralelo. No episódio 12, Sarah avisava na Loja de Conveniência: “Eles estão vindo”. Isto não me parece passado nem o futuro; parece o presente. O Black Lodge, agora também na casa dos Palmer, dominou Sarah (por meio de Judy?) e é preciso enfrentá-lo novamente mesmo com Mr. C em chamas no início do episódio 18. E Laura é, afinal, a escolhida: ela é capaz de apagar a eletricidade e, consequentemente, os woodsmen. Ao ouvir a voz de sua mãe, ela finalmente acorda do mundo em que estava, aparentemente fora da realidade. Não seria coincidência a passagem para a Loja de Conveniência também se dar no Greath Northern, em diálogo direto com o Bates Motel e o Overlook. São argumentos para uma possível quarta temporada, apenas uma entre inúmeras teorias, permitidas num universo de sonhos. Depois de toda uma temporada, finalmente chegamos a Twin Peaks.

Twin Peaks – The Return, EUA, 2017 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Sheryl Lee, Ray Wise, Grace Zabriskie, Naomi Watts, Pierce Gagnon, Robert Knepper, James Belushi, Don Murray, David Lynch, Laura Dern, Miguel Ferrer, Richard Beymer, Chrysta Bell, Sherilyn Fenn, Clark Middleton, Tim Roth, Jennifer Jason Leigh, Eamon Farren, Robert Forster, Michael Horse, Harry Goaz, James Marshall, Dana Ashbrook, Kimmy Robertson, David Bowie, Wendy Robie, Russ Tamblyn, Harry Dean Stanton, Everett McGill, Peggy Lipton, Catherine E. Coulson, Mädchen Amick, Josh Fadem, Caleb Landry Jones, Alicia Witt, Brent Briscoe, Balthazar Getty, Amanda Seyfried, Matthew Lillard, Patrick Fischler, Nathan Frizzel, John Pirruccello, Jay Aaseng, Nae Yuuki, Al Strobel, Jake Wardle, Amy Shiels, Giselle Damier, Andrea Leal, David Patrick Kelly, Eddie Vedder, Jonny Coyne, Michael Cera, Emily Stofle, Shane Lynch, Derek Mears, Sarah Jean Long, Christophe Zajac-Denek, Jane Adams, Charlotte Stewart, Ashley Judd, Larry Clarke, Frank Silva, Gary Hershberger, Joan Chen, Jack Nance, Don S. Davis, Eric Edelstein, David Koechner, Grant Goodeve, Eric Rondell, Sky Ferreira, Scott Coffey, David Duchovny, Richard Chamberlain, Robert Broski, Tracy Philips, Cullen Douglas, Tikaeni Faircrest, Xolo Mariduen, Joy Nash, Francesca Eastwood, George Griffith, Carel Struycken, Nicole LaLiberte, Warren Frost, Adele René, Ernie Hudson, Walter Olkewicz, Nafessa Williams, Jeremy Davies, Ronnie Gene Blevins, Brett Gelman, Grace Victoria Cox, Jane Levy, Madeline Zima, Phoebe Augustine, Bérénice Marlohe, Julee Cruise, Ben Rosenfield, Mary Reber, Cornelia Guest Roteiro: David Lynch e Mark Frost Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Balalamenti Produção: David Lynch e Mark Frost Duração: 1080 min. Distribuidora: Showtime

 

Twin Peaks – O retorno (Episódio 14) (2017)

Por André Dick

Este texto apresenta spoilers

Na semana passada, depois do episódio 13 da nova temporada de Twin Peaks (disponível na Netflix), escrevi sobre a paciência do espectador sendo testada, principalmente ao final dele. Ao revê-lo, notei melhor a ordem de acontecimentos: Sarah Palmer (Grace Zabriskie) assiste a uma luta de boxe em preto e branco, com problemas na eletricidade da televisão, indicando alguma atividade paranormal na casa. Seriam os woodsmen? Em seguida, vemos Audrey Horne (Sherilyn Fenn) na mesma conversa com o marido, Charlie (Clark Middleton) do episódio 12,  referindo-se a Ghostwood, projeto contra o qual protestava quando ocorreu a explosão no banco no final da segunda temporada. Estaria Audrey num universo paralelo ou ainda no hospital, em coma, imaginando essa vida angustiante? Ela se pergunta como chegar à Roadhouse, pois parece não saber onde fica. Vemos, em seguida, um show de James Hurley (James Marshall) na Roadhouse, cantando a mesma música, “Just you”, que cantou na segunda temporada com Donna Hayward (Lara Flynn Boyle) e a prima de Laura Palmer, Maddie (Shery Lee). Esta música antecipou a aparição de Bob para Maddie, na sala de estar dos Palmer. E como se encerra o episódio? Com Big Ed Hurley olhando o seu posto de gasolina vazio, ao lado de uma tapeçaria com a cabeça de um urso (com a inscrição “Bear with me”, em vez de “Fire walk with me”) e, em seguida, acende um fósforo para pôr fogo num papel para vê-lo queimar. Quem atirava fósforos acesos em Leland Palmer quando ele era criança? Exatamente Bob. David Lynch faz uma conexão de cenas inteligente sob um pano de fundo de analogias e tratando da repetição de tempo, assim como se repete a luta a que Sarah assiste. “Está acontecendo de novo”, os personagens parecem dizer.

Embora eu ainda considere a montagem desses momentos desequilibrada, em relação aos melhores momentos da série, isso de certo modo comprova o que escrevi em alguns textos sobre esta temporada de Twin Peaks: tudo se move mais num espaço conceitual do que na inter-ligação entre os personagens. São imagens que parecem aleatórias e muitas vezes não conversam entre si, mas que possuem um subtexto. Isso não releva os problemas de momentos como esses, apenas mostra que Lynch deseja em muitos momentos destacar conceitos, não os personagens.
A nova Twin Peaks alterna ótimos episódios – principalmente aqueles em que a montagem é mais vagarosa, mas os diálogos e situações significativas – e outros mais fracos – aqueles em que algumas cenas são curtas demais, apresentando personagens para não desenvolvê-los, e outras longas demais, com uma autoindulgência de se achar que tudo que é mostrado tem um significado incomum, e às vezes não tem, talvez para alimentar teorias. E o ponto principal: David Lynch fez do episódio 8 um marco. A partir daí, esperava-se mais dele.

O episódio 14 traz de volta elementos melhor desenvolvidos, fazendo com que o espectador acredite que Lynch poderia ter mantido desse modo todo o tempo. Gordon Cole (David Lynch) liga para a delegacia de Twin Peaks, sendo atendido por Lucy (Kimmy Robertson). Falando com o xerife Frank Truman (Robert Forster), este lhe passa a informação sobre o diário de Laura Palmer com a informação de que há “dois Coopers”. Enquanto isso, Thammy Preston (Chrysta Bell) se reúne com Albert Rosenfield (Miguel Ferrer) para tratar de detalhes das investigações envolvendo a “Rosa Azul”. Ele comenta sobre o primeiro caso: Lois Duffy, que atirou e matou seu próprio duplo e antes de desaparecer teria dito: “Eu sou como a Rosa Azul”. Em seguida chegam Cole, incomodado pelo som de um homem limpando a janela, e Diane (Laura Dern). Sabendo das informações sobre Dougie Jones, a surpresa é Diane dizer que é irmã de Janey-E (Naomi Watts). Por sua vez, Cole recorda de um sonho que teve com a atriz Monica Bellucci, remetendo a uma passagem mostrada em Twin Peaks – Fire walk with me, no qual apareciam Phillip Jeffries (David Bowie)  e o agente Cooper (Kyle MacLachlan) em seu escritório no FBI. Um momento de grande tensão e mescla entre série e filme muito bem-sucedida, é ponto alto desse episódio, pela montagem empregada e pela fala de Bellucci: “Somos como o sonhador que sonha e vive dentro do sonho… mas quem é o sonhador?”.

Em Twin Peaks, Bobby Briggs (Dana Ashbrook), xerife Truman (Robert Forster), Hawk (Michael Horse) e Andy (Harry Goaz) vão até o Palácio de Jack Rabbit, lugar indicado por um das pistas do Major Briggs reveladas no episódio 9. Vejamos que depois de quatro episódios esta trama regressa, mesmo sendo mais importante do que outras. O resultado é um reencontro com o clima principalmente da segunda temporada, quando a equipe do xerife e o agente Cooper vão até a Caverna da Coruja, e a ação focada no bosque misterioso de Twin Peaks emprega uma boa mescla entre nostalgia e desenvolvimento da história, ausente, sobretudo, no episódio anterior. A última vez em que alguém da equipe policial esteve à procura de pistas no bosque foi Hawk no início desta temporada, depois da conversa com a Senhora do Tronco. A atmosfera da série se fortalece apenas por meio da paisagem misteriosa, fugindo ao cenário da delegacia e do escritório de Ben Horne no Greath Northern, que basicamente concentraram as ações de Twin Peaks até o momento. As pistas do Major Briggs levam à moça (Nae Yuuki) sem olhos do terceiro episódio, que o agente Cooper encontrava antes de ir até o cubo no espaço sideral, deitada no bosque, desnuda. Impressiona nesta sequência é a construção: Truman, Hawk, Bobby e Andy veem um portal no céu parecido com aquele vislumbrado por Gordon Cole no episódio 11. Andy é transportado, então, para o que entendemos ser o White Lodge, do episódio 8, onde se encontra com o Gigante, agora se intitulando Bombeiro (Carl Struycken). Com um espelho gigante no teto, ele visualiza várias cenas, como a da menina correndo quando é anunciada a morte de Laura Palmer no primeiro episódio, assim como Lucy, a imagem de Laura entre dois anjos (que remete ao filme), os woodsmen na loja de conveniência, o poste com o número 6 do parque de trailers de Carl Rodd (do episódio 6 e do filme), recordando a ligação do Black Lodge com a eletricidade, e os dois Coopers: do bem e do mal.

Andy e Lucy abrigam a jovem numa das celas da delegacia, enquanto Chad Broxford (John Pirruccello), preso por seu tráfico, está em outra, tentando calar um homem bêbado (Jay Aaseng) que sangra – numa cena tipicamente de terror. Recordando os latidos de Bobby no primeiro episódio de Twin Peaks, não parece ser o melhor lugar para Chad dormir pensando no que fez.
O relato do jovem Freddie Sykes (Jake Wardle) a James Hurley (James Marshall), seguranças no Greath Northern, envolve justamente o Bombeiro: ele teria recebido um recado dessa figura ao se deparar com esses portal visto por Cole e pelo corpo policial em Londres, tendo, a partir daí, de vestir uma luva de borracha verde cobrindo permanentemente a sua mão, o que sugere uma espécie de sátira aos filmes de super-heróis. Eles precisam aguardar o que está no forno do hotel, quando Hurley adentra um espaço de filme de terror.
Num episódio passado praticamente todo em Twin Peaks, pela primeira vez neste retorno, acompanhamos Sarah Palmer (Grace Zabriskie) entrando num bar para pedir um Bloody Mary quando é abordada por um homem. Pedindo que ele saia, sem ser atendida, Sarah retira seu rosto – como Laura faz no Black Lodge no início desta temporada – e, ao invés de vermos luz, há uma escuridão. Ela mata o homem com uma mordida que lembra A hora do espanto, mas sem deixar rastro. Isto não é Twin Peaks, é Dario Argento. Uma atmosfera aterradora e se pode notar que Sarah tem mais proximidade dos woodsmen do que imaginávamos. Logo vamos para a Roadhouse, onde duas mulheres conversam sobre Tina e Billy, as figuras a quem Audrey Horne se referia nos episódios anteriores. Uma delas é Megan (Shane Lynch), filha de Tina, e a outra Sophie (Emily Stofle, esposa de David Lynch). Billy não seria o homem que está na cela em Twin Peaks com uma poça de sangue a seus pés?
Este é um capítulo realmente incomum, mesmo em meio àqueles que já vimos nesta temporada, talvez o mais original, sem sair do tom, desde o oitavo e com uma inserção na análise dos sonhos, inclusive no relato de Freddie a James, e num surrealismo funcional e assustador. David Lynch desde sempre falou que seria um filme dividido em 18 episódios. Apenas se lamenta que o agente Cooper ainda seja Dougie Jones – cujos recursos cômicos infelizmente se esgotaram – a quatro partes do final, por outro lado representando uma sugestão de que haverá uma quarta temporada, enfim, com o personagem, justificando toda essa demora. Um episódio como esse realmente justificaria uma continuidade. É um dos mais interessantes da série e surge num momento em que tudo parecia indicar histórias circulares. Funcionando como um filme, insere Twin Peaks numa linhagem de Além da imaginação, com mistérios envolvendo a humanidade e tudo sendo traduzido em lendas de uma grande aldeia universal. Uma notável superioridade em relação aos quatro episódios anteriores e se unindo ao que de melhor foi apresentado nesta temporada.

Twin Peaks – Episode 14, EUA, 2017 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, David Bowie, Robert Forster, David Lynch, Michael Horse, Harry Goaz, Monica Bellucci, Grace Zabriskie, Miguel Ferrer, Chrysta Bell, Dana Ashbrook, James Marshall, Nae Yuuki, Carl Struycken, John Pirruccelli, Jay Aaseng, Jake Wardle, Emily Stofle, Shane Lynch Roteiro: David Lynch e Mark Frost Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Balalamenti Produção: David Lynch e Mark Frost Duração: 58 min. Distribuidora: Showtime

Twin Peaks – As peças que faltam (2014)

Por André Dick

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Este texto contém spoilers

Depois do anúncio feito no ano passado, de que Twin Peaks estaria de volta em 2016, com nove episódios dirigidos por David Lynch, os rumos se modificaram com a notícia de que o cineasta estaria de fora da empreitada; no dia 15 de maio, no entanto, ele confirmou novamente sua presença, o que volta a criar expectativa. No ano passado, as duas primeiras temporadas já haviam sido lançadas em Blu-ray, trazendo também o filme, Twin Peaks – Fire walk with me (no Brasil, Twin Peaks – Os últimos dias de Laura Palmer). O material vem numa bela caixa, para os fãs da série, num item raro, basicamente utilizando a mesma confecção estrangeira, com cuidado sobretudo na apresentação das imagens icônicas da série e uma remasterização realmente impressionante (a imagem é irretocável).
O filme, por sua vez, é acompanhado ainda de um material extra, intitulado Twin Peaks – As peças que faltam (The missing pieces), que reserva 91 minutos de cenas estendidas ou deletadas, ou seja, compõe basicamente outra obra. Desde 1992, depois de David Lynch afirmar que teve de excluir muito material da versão final preparada para ser exibida no Festival de Cannes, há uma grande expectativa em conhecê-lo, e seu lançamento sempre foi adiado por questão de direitos autorais. No entanto, fotografias dispersas de algumas dessas cenas deram origem a petições para que fossem liberadas.
A exibição em Cannes, seguida por vaias, foi a primeira polêmica despertada pelo filme. Tarantino, que estreava por lá com seu Cães de aluguel, saiu da sessão desapontado, dizendo que nunca mais veria um filme do diretor, do qual se dizia fã. Pedro Almodóvar – um dos integrantes do júri, que tinha como presidente Gérard Depardieu –, disse, em entrevista a Fabio Liporoni (Revista SET, ed. 62, ago. 1992), que teria dado a Palma de Ouro ou a Twin Peaks – Fire walk with me ou para L’oeil qui ment (de Raul Ruiz):  “O filme é fantástico. David Lynch é um diretor excepcional. E, ao contrário do que muitos disseram, totalmente independente da série de televisão”.

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Twin Peaks – Fire walk with me figurou ao lado de obras que acabaram se tornando referências, como O jogador, de Robert Altman, Instinto selvagem, de Paul Verhoeven, Retorno a Howards End, de James Ivory, O fim de um longo dia, de Terrence Davies, e Simples desejo, de Hal Hartley. Quem venceu foi As melhores intenções, de Bille August, que já havia recebido a Palma pelo ótimo Pelle – O conquistador. O interessante é como a peça de David Lynch foi recebendo mais atenção do que todos esses filmes, reunindo um culto não apenas por sua ligação com uma série referencial, mas sim por sua importância. Apesar de Lynch defendê-lo, o filme rendeu um hiato ao diretor de cinco anos, até A estrada perdida, período em que se questionou seu talento, como depois da realização de Duna.
Nesse sentido, As peças que faltam é uma espécie de homenagem aos fãs de Twin Peaks e um grande acréscimo para quem gosta de materiais complementares de uma obra. Nos últimos anos, não são poucas as experiências e materiais que cresceram com uma versão estendida do diretor: O portal do paraíso, de Michael Cimino; Cruzada, de Ridley Scott; Era uma vez na América, de Sergio Leone, O barco, de Wolfgang Petersen, e Vidas sem rumo, de Francis Ford Coppola, são alguns, além da trilogia O senhor dos anéis (ainda melhor em sua versão estendida). David Lynch preferiu não fazer uma versão estendida do filme, considerando que este já tem a metragem que gostaria, deixando os 91 minutos de extras como um material complementar, assim como fez com Veludo azul há alguns anos, que contém quase outro filme também em extras. Ele chegou, inclusive, a fazer uma festa de lançamento no cinema, em Los Angeles, para As peças que faltam. No entanto, o caso de Twin Peaks é mais interessante: Lynch precisou cortar o material que não se encaixava bem no filme do cinema, com as participações de personagens queridos da série de TV. Mas não apenas.

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Se o material com entrevistas reserva um encontro memorável de David Lynch com os atores Ray Wise (Leland Palmer), Sheryl Lee (Laura Palmer) e Grace Zabriskie (Sarah Palmer), com um humor corrosivo e relatos interessantes sobre a convivência nas filmagens, As peças que faltam inicia com imagens da investigação dos agentes Chester Desmond (Chris Isaak) e Sam Stanley (Kiefer Sutherland) em Deer Meadow. Há uma ida estendida deles ao Hap’s Diner e depois a briga de Desmond com o xerife da cidade, Cable (Gary Bullock). Para os fãs de Chris Isaak, aqui tem uma participação mais longa dele, e esta briga, apesar de se entender por que foi excluída do filme, tem uma atmosfera típica da série, mais bem-humorada. Em seguida, Sam Stanley aparece com o agente Cooper, que ganha uma cena de acréscimo, uma conversa com Diane. Dessas cenas, o encontro com Sam Stanley é certamente a melhor; a de Cooper conversando à porta com Diane, sem que o espectador a veja, parece mais uma brincadeira de bastidores, embora Kyle MacLachlan faça valer sua presença.
Melhor é a participação mais detalhada do agente do FBI Phillip Jeffries, feito por David Bowie, que aparecia de relance no filme e aqui tem um destaque maior, transportando-se de um hotel na Argentina para a sede do FBI na Filadélfia; é um dos grandes momentos aterrorizantes da obra de David Lynch, e Bowie sabe como lançar um personagem surpreendente, como já fez em outras experiências suas no cinema, como Fome de viver e Furyo – Em nome da honra. Também interessante é quando o agente lembra de sua passagem pelo Black Lodge, atrás da misteriosa Judy, onde estão Bob (Frank Silva) e o anão (Michael J. Anderson), e fala, com o rosto sobre a mesa, exatamente a data em que Laura Palmer será morta. Essas sequências transformam o material num item necessário para a compreensão de alguns detalhes, e principalmente a reunião no Black Lodge mostra que Twin Peaks envereda pelo gênero do terror, como parte da segunda temporada da série.

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Quando a história chega a Twin Peaks, temos sequências de Laura Palmer em convivência mais normal com seus pais – o que não acontece no filme oficial –, inclusive uma reunião em que Leland Palmer quer ensinar à mulher (Zabriskie, finalmente com maior oportunidade de aparecer) e a Laura como falar algumas palavras em norueguês, lembrando que é um comitiva da Noruega que está no Great Northern Hotel no início da série de TV. Leland adentra a sala como se fosse o personagem de Jack Nicholson em O iluminado. Também mostra Laura tendo um encontro mais demorado com Donna Hayward (Moira Kelly) e seus pais, o Dr. Will (Warren Frost) e Eileen (Mary Jo Deschanel), revelando uma normalidade familiar que não encontra em sua casa. Essas cenas são muito importantes tanto para a mitologia de Twin Peaks quanto para a compreensão do filme lançado nos cinemas: Dr. Hayward fala da figura do anjo a Laura – símbolo que será determinante a seu final – e faz um truque de mágica ligado à aparição de uma rosa vermelha (outro símbolo do roteiro, ligado à personagem de Lil); ele diz que a mágica havia dado certo no trecho da estrada em que Laura, afinal, virá a desaparecer (um detalhe colocado discretamente por Lynch). Nessas cenas, deve-se destacar não apenas a presença de Kelly, mas, principalmente, a atuação excelente de Frost.
Há também sequências de Laura com o namorado Bobby Briggs, editadas no filme oficial. Uma delas mostra Laura chegando à casa de Bobby, enquanto a mãe e o pai deste estão sentados na sala. O Major Briggs (Don S. Davis) lembra passagens bíblicas do Apocalipse, que remetem também à figura do anjo, fundamental para entender a narrativa de Twin Peaks – Fire walk with me. Além de David Lynch dar mais espaço ao cenário da casa – que no filme se restringe ao porão onde está Bobby (em mais uma excelente participação de Dana Ashbrook) –, e filmar exatamente como em algumas sequências do piloto da série (a câmera mais estática), ele novamente desenvolve esse encontro ou afastamento de Laura da vida familiar.
O contato de Laura com Donna rende igualmente uma sequência de ida das duas ao Canadá que dialoga certamente com o material que Lynch apresentaria anos depois em A estrada perdida. Não só a atriz Sheryl Lee, injustamente esquecida, e que depois faria pequenas participações em obras como Inverno da alma e Pássaro branco na nevasca, consegue mesclar diferentes tons em sua atuação como Laura. Ela divide a cena principalmente com Donna Hayward – e, ao contrário de muitos admiradores da série, não acredito que Lara Flynn Boyle faça exatamente falta. A atriz Moira Kelly, que no mesmo ano, 1992, fazia a namorada de Charlie Chaplin no filme biográfico com Robert Downey Jr., traz um certo ar de ingenuidade que Flynn Boyle não possui e se imagina como o personagem de Donna, na série de TV, teria crescido com sua participação. Se em Twin Peaks – Fire walk with me a sua participação era marcante, aqui, principalmente na conversa que tem com Laura, mais extensa do que no filme, ela ainda traz mais interesse para a dualidade que trava com a amiga. O clima noturno da sequência que desemboca no Canadá dialoga com aquele visto no início de Cidade dos sonhos.

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E temos, em determinado momento, Laura Palmer sendo hipnotizada pelo ventilador de teto, reproduzindo uma sequência que se encaixaria perfeitamente em Império dos sonhos. Ou seja, como realmente Twin Peaks sempre anunciou, esta obra antecipa o David Lynch do final dos anos 90 e início dos anos 2000.
Do mesmo modo, há sequências mais longas do relacionamento entre Teresa Banks (Pamela Gidley) e Leland Palmer – que no filme se mostram com uma edição bastante concentrada. Nos extras, Lynch destaca mais o Blue Diamond Motel, onde está Teresa, fazendo, inclusive, uma analogia entre o anel da coruja carregado por alguns personagens e o diamante que caracteriza a fachada do Motel. Em meio a essas conversas entre Banks e Leland, temos outra participação de Jacques Renault (Walter Olkewicz).
Há outras passagens que conferem uma lembrança justa aos personagens da cidade, mas não se sentiriam encaixadas de maneira clara no filme: a ligação de Ed Hurley (Everett McGill) com Nadine (Wendy Robie) e Norma Jennings (Peggy Lipton); o xerife Harry Truman (Michael Otkean), preparando-se para apanhar um traficante com Andy Brennan (Harry Goaz), Tommy (Michael Horse) e a assessoria de Lucy Moran (Kimmy Robertson); uma conversa na madeireira entre Pete (Jack Nance) e Josie (Joan Chen) com o senhor que trabalha no banco no último episódio de Twin Peaks, Dell Mibbler (Ed Wright); os atritos entre Leo (Eric Da Re) e Shelly (Mädchen Amick). E do mesmo modo temos, numa breve aparição, a Senhora do Tronco (Catherine E. Coulson). São particularmente boas aquelas sequências em que Ed escuta com Norma a música de Angelo Badalamenti na caminhonete, e a conversa na madeireira, de extrato surreal próprio da série. A maneira como Lynch os traz de volta mostra seu carinho com esses personagens e complementa o filme, mesmo que de forma menos clara.

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De modo geral, acredita-se que todas as cenas em que Laura Palmer aparece – inclusive aquela em que recebe o telefonema do psiquiatra, Dr. Lawrence Jacoby (Russ Tamblyn) – deveriam ter sido mantidas no filme oficial, assim como a participação estendida de Phillip Jeffries, que traria acréscimos à história, e o encontro de Cooper com o agente Stanley. Outras poderiam ter mescladas, talvez não com a mesma duração, pois o ritmo de Twin Peaks – Fire walk with me tem uma falsa lentidão, sendo, na verdade, muito ágil (apesar de seus 135 minutos). O importante de As peças que faltam, além de ser um complemento vital de Twin Peaks, é o cuidado com que David Lynch retomou este material: além de as cenas inéditas terem a mesma qualidade de imagem do filme oficial, receberam um tratamento sonoro, musical (com a colaboração sempre vital de Angelo Badalamenti) e visual claramente de acordo com os tempos atuais, como o teletransporte de Jeffries ou a imagem em que Laura Palmer se encontra embaixo do ventilador. Mostram como David Lynch tinha uma noção exata de que o filme não era apenas a continuação da série, e sim uma outra linguagem. Mais pesado do que a série, Twin Peaks – Fire walk with me também conserva experimentos poucas vezes visto, acentuados com este material, como na passagem de Jeffries, a reunião no Black Lodge e as sequências surrealistas com Laura Palmer. E existe ainda, ao final, algumas cenas que se passam depois do final da série de TV, com Annie Blackburn (Heather Graham), que dialogam, no entanto, com um símbolo existente apenas no filme. Twin Peaks – As peças que faltam só não é tão excelente, principalmente para os fãs, quanto a volta da série no ano que vem.

Twin Peaks – The missing pieces, EUA, 2014 Diretor: David Lynch Elenco: Sheryl Lee, Ray Wise, Dana Ashbrook, Kyle MacLachlan, Madchen Amick, James Marshall, Mary Jo Deschanel, Warren Frost, David Bowie, Chris Isaak, Kiefer Sutherland, Everett McGill, Wendy Robie, Peggy Lipton, Michael Otkean, Harry Goaz, Michael Horse, Kimmy Robertson, Jack Nance, Joan Chen, Ed Wright, Don S. Davis, Russ Tamblyn, Catherine E. Coulson, Heather Graham, Gary Bullock, Pamela Gidley Produção: Francis Bouygues, Gregg Fienberg Roteiro: David Lynch, Robert Engels Fotografia: Ron Garcia Trilha Sonora: Angelo Badalamenti Duração: 91 min.

Cotação 5 estrelas

 

As vantagens de ser invisível (2012)

Por André Dick

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Os filmes de universo adolescente com um acento dramático e cômico próprio tiveram uma queda muito grande de qualidade depois da ausência de John Hughes, conhecido por filmes como A garota de rosa shocking e O clube dos cinco. Independente ou não de seus atores terem feito carreira, são filmes que marcaram um período nos anos 1980, identificando o comportamento juvenil com a música. Por isso, é uma grata surpresa assistir As vantagens de ser invisível, desde já uma da obras mais interessantes dos últimos anos.
O diretor de As vantagens, Stephen Chbosky, também escreveu o romance em que o filme se baseia. Daí sua proximidade dos personagens e do clima da história. Charlie (Logan Lerman) acaba de iniciar o ensino médio em sua escola de Pittsburgh, por volta do início dos anos 90, tendo o intuito de fazer amizades, a fim de não voltarem problemas psicológicos relativos a um amigo que se suicidou e à morte de uma tia, ajudado pelos pais (Kate Walsh e Dylan McDermott), pela irmã, Candace (Nina Dobrev) e pelas músicas dos Smiths. Logo ele faz amizade com um professor de inglês, Sr. Anderson (Paul Rudd), que o incentiva a ler romances, e se aproxima de Patrick (Ezra Miller) e Sam (Emma Watson), meio-irmãos, num jogo de futebol americano, de uma turma mais adiantada. A sequência em que Chbosky filma Sam num túnel ouvindo “Heroes” e Charlie falando da infinitude é a síntese inicial deste filme, cercado de quase todos os clichês do gênero (festas, experimentos com drogas, fitas de música, pôsteres de ídolos no quarto) para realçar uma improvável solidão, dificilmente tão bem focada em outros filmes, daquilo que cerca a adolescência.

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O principal elemento de As vantagens é justamente mostrar essa solidão do personagem em meio à multidão (em festas concentradas numa casa ou em festas e refeitórios da escola), assim como sua necessidade de dialogar por cartas com o amigo que se foi. Chbosky o filma contra a parede do salão de festas, enquanto Sam e Patrick aceleram ao ritmo de “Come on Eileen”, dos Dexys Midnight Runners. Ele também quer acelerar os mais de mil dias que precisa ficar na escola: deseja ser escritor e passa a gostar de Sam, protagonista, com Patrick, de uma adaptação de “The Rock Horror Picture Show”, além de esconder o segredo de seu novo amigo ser gay. A eles se juntam a budista e punk, com admiração por filmes estrangeiros, Mary Elizabeth (Mae Whitman), a cleptomaníaca Alice (Erin Wilhelmi), e Bob Stoner (Adam Hagenbuch). Não sabemos se Sam irá corresponder a ele, nem se a namorada que ele passa a ter em determinada altura criará uma reviravolta em sua vida. A sequência na qual Charlie acompanha os amigos à primeira festa, e pede à Sam para que ela prepare um milkshake, quando ele começa a caminhar pelos corredores vazios da casa, parece mostrar, ao mesmo tempo, não apenas a solidão do personagem principal, como Chbosky deseja, como também a do próprio grupo que ali se insere. Ali, parece acontecer apenas uma festa – no entanto, a diferença é justamente cada um dos que levantam o brinde.
O seu deslocamento e a necessidade ou não de ser invisível é o mote para que o diretor consiga dosar tanto elementos pop, na conformidade reconhecida, quanto alguns experimentos com a direção de arte: As vantagens de ser invisível lembra, às vezes, pela iluminação quase atemporal de Andrew Dunn, um filme clássico, dos anos 70. Talvez porque ele consiga falar realmente para todas as gerações. Há lotes e cargas de sensações aqui, mesmo em lugares-comuns a todos, mesmo se esperando justamente que um amigo defenderá o outro, seja qual for a circunstância, ou o ato de ser surpreendido pela pessoa de quem se gosta. Demarcando as sequências, existe uma trilha sonora quase sempre afeita ao gosto dos personagens, e as experiências que podem resultar de ouvi-la seguem de acordo com cada personagem. Há  previsíveis viagens psicodélicas (um rótulo adolescente), alguns personagens um tanto mal desenvolvidos, mas, ao mesmo tempo, há uma dolorosa passagem de tempo, seja quando se vai para as férias, seja quando se é preciso seguir o ritual da escola. Escolher entre um relógio acertado e outro nem tanto: eis as escolhas do diretor, evidenciadas pela impressão de estarmos vendo um panorama abrangente na pele de cada um desses personagens. Embora em alguns momentos a narrativa apresente repetições, é com olhar melancólico que acompanhamos a trajetória dos personagens, na contagem regressiva para a despedida ou reencontro do túnel da adolescência.

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As vantagens de ser invisível emprega para os adolescentes o que Na estrada insere em jovens que desejam transgredir. Mas há uma separação evidente aqui: enquanto os beats significavam um pedaço da América que queria fugir ao establishment (e certamente, no futuro, não fugiriam), os personagens de As vantagens de ser invisível desejam constituir o que eles chamam de plano de vida perfeito, sobretudo serem aceitos numa universidade. A personagem de Sam não é Marylou, porém existe uma antecipação nela dos períodos afetivos que a Charlie chegam de modo diferente. E é nisso que, ao final descobrimos, os aproxima tanto, também pelas falhas e feridas que cada um proporciona ao outro. Notável, também, quando Charlie e Patrick saem à noite, de carro, e se deparam com o tentativa de contornar uma separação por meio da amizade e do afeto incalculado. Daí, o diretor Chbosky conseguir reproduzir as reminiscências de forma tão dolorosa, sem, em nenhum momento, recorrer a alguma manipulação gratuita, capaz de afetar os personagens, nem mesmo com o acento psicológico da parte final.
Em sua segunda experiência na direção, Chbosky alcança isso em razão de um elenco escolhido minuciosamente: é difícil imaginar um ator tão exato para o papel principal quanto Logan Lerman, a despeito de, na maioria das vezes, ele ter a necessidade de se mostrar introspectivo, e Watson consegue demonstrar uma fragilidade emocional quase desconhecida em sua participação na série Harry Potter. Já Ezra Miller foi o ator principal de um dos filmes que menos apreciei no ano passado (Precisamos falar sobre o Kevin). Sua participação em As vantagens mostra, no entanto, que ele é um ator diferenciado, capaz de demonstrar nuances na sua interpretação, a meu ver ausentes no personagem de Kevin.
São atores e personagens em ponto de conversação constante, e o diretor consegue expandir cada um de modo inspirador. Em nenhum momento, e isto é especialmente destacável, As vantagens de ser invisível parece a adaptação de uma história, mas a história em si, ou seja, ela consegue, de modo natural, trazer as situações para perto, de modo que não conseguimos distinguir mais sua própria ambientação daquela que costumamos imaginar em alguma fita perdida com inúmeras músicas de bandas recém-descobertas ou mesmo da luminosidade de lâmpadas e estrelas quando se precisa sair de um ambiente coberto para finalmente tentar entender o que se passa do lado de fora.

The Perks of Being a Wallflower, EUA, 2012 Diretor: Stephen Chbosky Elenco: Logan Lerman, Ezra Miller, Emma Watson, Nina Dobrev, Paul Rudd, Mae Whitman, Melanie Lynskey, Kate Walsh, Dylan McDermott, Johnny Simmons, Nicholas Braun Produção: Lianne Halfon, John Malkovich, Russell Smith Roteiro: Stephen Chbosky Fotografia: Andrew Dunn Trilha Sonora: Michael Brook Duração: 103 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Summit Entertainment / Mr. Mudd

Cotação 5 estrelas