Adoráveis mulheres (2019)

Por André Dick

Depois de uma estreia exitosa com Lady Bird – A hora de voar, indicado aos Oscars de melhor filme e direção, Greta Gerwig se tornou uma das promissoras cineastas da atualidade. Talvez seu nome tenha sido o mais comentado, entre as diretoras de cinema, desde Sofia Coppola. A origem, de certo modo, era muito parecida. Lady Bird se baseava nas características do cinema indie, o mesmo que Sofia ajudou a popularizar com As virgens suicidas e Encontros e desencontros: personagens descompromissados, uma história simples, uma maneira de filmar sem grandes adornos e muita agilidade narrativa. Isso aproximava o trabalho das duas de modo fundamental, e, além disso, havia a humanidade dos personagens.
Em seu segundo filme, Adoráveis mulheres, Gerwig toma como base o romance de Louisa May Alcott, já adaptado para o cinema antes (uma das versões é de 1994), que mostra uma jovem chamada Jo March (Saoirse Ronan). Ela é uma escritora em busca dos primeiros interessados a publicá-la, o que encontra na figura do Sr. Dashwood (Tracy Letts), em torno de 1868, em Nova York. Um pouco depois, ela entra em contato com o professor Friedrich Bhaer (Louis Garrel) Enquanto isso, sua irmã, Amy (Florence Pugh), vive em Paris com a tia March (Meryl Streep), e reencontra Laurie (Timothée Chalamet), um antigo amigo.

Gwrwig retrocede alguns anos antes para mostrar como Jo conheceu Laurie, tornando-se muito próximos, e como vivia com as irmãs Meg (Emma Watson), Amy (Pugh) e Beth (Eliza Scanlen), numa casa em Concord, Massachusetts. As irmãs são muito unidas, ao lado da mãe Marmee (Laura Dern). Seu pai (Bob Odenkirk) está, por sua vez, na Guerra Civil.
No prosseguimento de sua trajetória como diretora, Gerwig adota mais ou menos as mesmas escolhas de Sofia quando resolveu fazer Maria Antonieta e, recentemente, O estranho que nós amamos. Desde o início, é possível perceber uma tentativa de certa grandiosidade, ao mostrar Jo dançando com o Prof. Bhaer num baile, que remete a cenas de clássicos (especificamente O portal do paraíso, A época da inocência Gangues de Nova York) e, em seguida, um desfile suntuoso de figurinos deixando o filme visualmente muito atrativo para o espectador, em combinação com a ótima fotografia de Yorick Le Saux, alterando lugares escuros e iluminados de maneira amplamente eficaz.

Nesse sentido, Adoráveis mulheres se aproxima da suntuosidade de Maria Antonieta, por exemplo, e se afasta quase completamente dos elementos de cinema indie que caracterizam Lady Bird. Isso, por um lado, é elogiável, pois a diretora não quis se repetir, inclusive nos primeiros acordes da trilha sonora de Alexandre Desplat, evocando John Williams, com outra influência clara de Gerwig: A cor púrpura, de Steven Spielberg Se o filme de Spielberg mostrava de maneira excepcional a trajetória de mulheres afrodescendentes com uma trajetória de sofrimento, Gerwig revela uma aristocracia modesta em Adoráveis mulheres. As paisagens invernais, no entanto, aproximam muito os filmes, assim como os enquadramentos de Gerwig, a imponência das casas e um transporte para os anos 1860, enquanto o filme de Spielberg se passava no início do século XX. Embora os temas sejam diferentes, a imersão é a mesma. Gerwig faz lembrar de como eram os filmes históricos feitos para o Oscar, com talento.
No que se refere ao desenvolvimento das personagens, Gerwig conta com o apoio vital da melhor do elenco: Saoirse Ronan, seguida por Chalamet, seguindo seu bom momento desde Querido menino e Um dia de chuva em Nova York. Além  disso, Gerwig extrai de Emma Watson a melhor atuação da atriz desde As vantagens de ser invisível. Outra atriz que se destaca é Florence Pugh, uma revelação nos últimos anos, só não mais que Eliza Scanlen, mesmo com breve participação.

A relação de Laurie com Jo e Amy atravessas as épocas e Gerwig decidiu contar a história, com idas e vindas no tempo, com uma sucessão de acontecimentos dialogando por conta própria., sem uma unidade evidente. O filme está no seu melhor quando concentra seus personagens em cenários pequenos, dando uma dimensão de afeto a essas adoráveis mulheres, à luz de velas e iluminadas pelo sol atravessando a janela, assim como por meio de cenas em que fazem peças teatrais caseiras. Há uma conversa entre Marmee e Jo, elucidando o que habita a narrativa, e oportunizando a Laura Dern seu grande momento como atriz discreta (que era sobretudo nos anos 80 e 90).
Gerwig usava um humor discreto em Lady Bird e aqui emprega um certo classicismo, parecendo querer reproduzir os filmes talhados para o Oscar, lembrando em alguns momentos Brooklyn (com a mesma Saoitse Ronan). É uma característica que não se aproximou de Sofia nem mesmo no grandioso Maria Antonieta, cuja narrativa ainda trazia elementos dos filmes indie da diretora. Na maioria das vezes, Gerwig consegue empregar bem esse tom ao contrário de muitos pares.

Do mesmo modo que Lady Bird, Jo é visivelmente o alter ego de Gerwig, e traz com isso, além de motivações artísticas muito interessantes, um certo discurso às vezes entregue um pouco de maneira expositiva. Ao contrário do que acontecia no seu filme de estreia, Gerwig parece ter dúvida se o espectador vai entender as motivações de Joe nas entrelinhas. No terceiro ato, ela faz quase uma ligação direta de sua trajetória como diretora com os percalços da personagem.
É nesse ponto que Adoráveis mulheres mostra a união  entre um cinema mostrado com absoluta beleza técnica, por um lado, e aquele que evolui em termos de história e elenco, por outro. E isso se dá de maneira efetiva, pois, de Saoise, passando por Chalamet, até Laura Dern e Meryl Streep, o que não falta a esta adaptação é um elenco. Talvez Gerwig pudesse ter mesclado seu estilo anterior a um novo sem perder as características básicas. Mas, mesmo ao fazer de Adoráveis mulheres uma procura pelo Oscar, ela mantém um tom otimista e afetuoso, no qual o ser humano aprende tanto fora quanto dentro da obra que ele compõe para sua vida de maneira sensível.

Little women, EUA, 2019 Diretora:  Greta Gerwig Elenco: Saoirse Ronan, Emma Watson, Florence Pugh, Eliza Scanlen, Laura Dern, Timothée Chalamet, Meryl Streep, Tracy Letts, Bob Odenkirk, James Norton, Louis Garrel, Chris Cooper Roteiro: Greta Gerwig Fotografia: Yorick Le Saux Trilha Sonora: Alexandre Desplat Produção: Amy Pascal, Denise Di Novi, Robin Swicord Duração: 135 min. Estúdio: Columbia Pictures, Regency Enterprises, Pascal Pictures, Di Novi Pictures Distribuidora: Sony Pictures Releasing

O rei (2019)

Por André Dick

Lançado no Festival de Veneza este ano, O rei é uma adaptação não oficial das partes 1 e 2 de Henrique IV e de Henrique V, de Shakespeare, mas certamente seu correspondente mais imediato é a segunda, que teve duas versões consideradas referenciais: uma dos anos 40, com Laurence Olivier, vencedora do Oscar de melhor filme, e a outra do final dos anos 80 dirigida e interpretada por Kenneth Branagh. A trama, passada no século XV, acompanha, desde o início, o conflito de Henry (Timothée Chalamet), ou “Hal”, com seu pai, o rei Henrique IV (Ben Mendelsohn), da Inglaterra. O jovem não demonstra interesse pelo legado do pai, nem por sua compulsão em travar guerras, preferindo andar ao lado de John Falstaff (Joel Edgerton) por tavernas. Trata-se de um veterano de guerra que cuida do príncipe e de suas recorrentes inclinações etílicas, além da constante falta de rumo em sua vida.

Quando seu pai o procura, já adoentado e sem pronunciar direito suas palavras, é para anunciar que Thomas (Dean-Charles Chapman), o irmão mais novo, assumirá o trono, numa espécie de vingança familiar. Para evitar uma nova guerra, Hal vai até o campo de batalha tentar uma manobra, a fim de que seu irmão não sofra, enfrentando o inimigo Hotspur (Tom Glynn-Carney).
David Michôd se revelou no início desta década através do excelente Reino animal, situado em seu país de origem, a Austrália, um thriller que evocava o melhor estilo de Scorsese com uma sensação de estarmos em meio a um faroeste contemporâneo, cercado por uma paisagem urbana desoladora e coberta pelo crime. Roteirista de O rei ao lado de um dos atores daquele seu filme de estreia (assim como lá o vilão era interpretado por Mendelsohn) e aqui fazendo Falstaff, Joel Edgerton, Michôd parece superar a irregularidade de The Rover – uma ficção apocalíptica mais realista e menos nos moldes de Mad Max – e War machine, filme de guerra subestimado tendo à frente Brad Pitt, um dos produtores deste.

Em O rei, ele aposta no talento que tem para o trabalho visual, lembrando, em muitos momentos, os melhores filmes recentes de época, influenciado diretamente pelo Ridley Scott de Robin Hood, mas dialogando também com Legítimo rei, uma espécie de segunda versão de Coração valente. Atento aos designs de época, ao figurino dos soldados e às locações das batalhas notáveis, próprio de um grande diretor, ele possui ainda o auxílio da fotografia de Adam Arkapaw e da trilha sonora de Nicholas Britell, esta bastante discreta quando surgem as cenas de maior tensão, que colaboram para o tom autenticamente histórico de cada sequência. Há, certamente, alguns problemas de transição, de correspondência entre personagens, abrindo espaço para lacunas, correspondentes certamente ao fato de ele ter 140 minutos e muito de seu material ter ficado na ilha de edição.
Ao mostrar Henrique V como uma figura saindo da adolescência, Michôd extrai de Chalamet uma boa atuação, embora ele não esteja à altura de sua presença em Querido menino, em que mostra seu verdadeiro talento. Com uma certa indefinição ainda na composição de seus papéis, oscilando entre nervosismo e uma tentativa de se mostrar um ator capaz de empreender alguns monólogos, Chalamet tem uma presença interessante em O rei, embora seja ofuscado exatamente por Edgerton.

Ou seja, certamente o resultado, embora pareça, não depende apenas dele, e sim do roteiro, que às vezes não transmite seus sentimentos da maneira mais conveniente, fazendo o ator se desdobrar por meio de ações e olhares. É a amizade entre Henrique V e Falstaff a peça que move o roteiro. Quando ela se revela aos poucos, O rei encontra de forma compacta o seu caminho, no entanto isso não ocorre tantas vezes quanto poderia. A ida para a guerra se constitui num momento capaz de lembrar brevemente O resgate do soldado Ryan, apresentando uma iluminação soturna desse período, e há um certo registro de guerra capaz de evocar luminosas sequências de outra obra de Scott, Cruzada, sempre com esmero técnico.
Mchôd coloca esse personagem no centro de muitos outros interessados em criar integras e governar a Inglaterra por meio dele. Um dos que se mostram amigos é William Gascoigne (Sean Harris), mas seu conflito central é com o arcebispo (Andrew Cavill) até chegar ao momento da Batalha de Agincourt, em que se mostra relevante o personagem de Delfim de França.

Este é interpretado de maneira simples e ao mesmo tempo excêntrica por Robert Pattinson, mostrando-se mais uma vez num bom momento e fazendo o que se espera de um coadjuvante: dar a impressão de que sua importância é maior do que aquela que o roteiro lhe oferece, depois de suas colaborações com Eggers (O farol) e Claire Denis (High life). Talvez haja uma falha em colocar dois personagens femininos muito interessantes (interpretados por Lily-Rose Depp e Thomasin McKenzie) de maneira tão rápida e sem tempo para interferir na história como poderiam, porém Michôd não foge ao fato de que, dentro de seus limites, do elo com a história, tudo parece contado de maneira plausível e por vezes emocional. Quando é preciso transportar a narrativa para seu grande momento, o clímax, o espectador é inserido no centro dos acontecimentos.

The king, EUA/AUS, 2019 Diretor: David Michôd Elenco: Timothée Chalamet, Joel Edgerton, Sean Harris, Lily-Rose Depp, Robert Pattinson, Ben Mendelsohn, Thomasin McKenzie Roteiro: David Michôd e Joel Edgerton Fotografia: Adam Arkapaw Trilha Sonora: Nicholas Britell Produção: Brad Pitt, Dede Gardner, Jeremy Kleiner, Liz Watts, David Michôd, Joel Edgerton Duração: 140 min. Estúdio: Plan B Entertainment, Netflix, Blue-Tongue Films, Porchlight Films Distribuidora: Netflix

Querido menino (2018)

Por André Dick

Baseado em dois livros, Beautiful Boy: A Father’s Journey Through His Son’s Addiction, de David Sheff, e Tweak: Growing Up on Methamphetamines, de Nic Sheff, Querido menino é justamente a reunião de duas perspectivas. Steve Carell interpreta David Scheff, jornalista do The New York Times, um pai que se separou de Vicki (Amy Ryan) e casou novamente com Karen Barbour(Maura Tierney), tendo dois filhos. No entanto, ele traz do casamento anterior com Vicki seu primeiro filho, o jovem Nicholas (Timothée Chalamet). O problema é que este possui problemas graves com as drogas. Dirigido pelo belga Felix Van Groeningen, de Alabama Monroe, Querido menino é um dos filmes mais interessantes já surgidos sobre o tema.
Se a maior parte das narrativas costuma atenuar o problema do vício na adolescência, Querido menino aposta exatamente nas consequências que ele acarreta para elaborar uma trama que se constrói por meio de lembranças do pai de momentos-chave da relação com seu filho. Com um quarto que reúne pôsters de Nirvana e de David Bowie, Nic é infuenciado claramente pela figura do pai. Este é como se fosse uma representação de um período de sua vida em que, justamente, ele era mais inocente e apegado a temas do cotidiano que não misturassem a busca incessante pelas drogas.

Sob certo olhar, Querido menino trata principalmente do recomeço das trajetórias de determinadas pessoas dentro da mesma vida. Se David parece se recolher do mundo externo em uma casa confortável, afastada da cidade, quase uma chácara, Nic procura nas drogas um refúgio para fases que não quer enfrentar, principalmente o estudo na universidade e o compromisso. Chalamet havia sido muito elogiado por seu papel em Me chame pelo seu nome, mas é aqui que ele se mostra um ator fora de série. Sua atuação é tão melhor que a de qualquer coadjuvante deste ano que sua ausência do Oscar soa quase um boicote da Academia a momentos de real afeto cinematográfico.
Sua transição do Nic envolvido com drogas para o Nic buscando uma vida normal é dolorosa e emocional no sentido exato, nunca deixando espaço para exageros de abordagem ou manipulação com os sentimentos do espectador. E ele, ao trabalhar com o tema, é claro sobre o que quer dizer: os possíveis prazeres e distanciamento da realidade dura do personagem, por meio das drogas, nunca o levam mais do que a oscilações e retrocessos em sua vida, embora sejam eles que podem, depois de sofrer, levá-lo adiante. Não é verdade que este filme traga soluções óbvias ou lugares-comuns; sua base narrativa é de alto significado. A luta do pai para entender o filho é a luta deste para entender sua compreensão (ou falta de) da vida. Não por acaso, a narrativa inicia com David consultando o Dr. Brown (Timothy Hutton), querendo adentrar no campo do autoconhecimento.

Da relação dele com o pai, Felix Van Groeningen extrai uma história agridoce, situada entre um lado trágico – o périplo de Nic por casas de recuperação é o principal elemento disso –, e nunca pendendo para o uso do vício em drogas como um traço pop, o que vemos em certo cinema de Danny Boyle, sem deméritos para o olhar que este lança. Ele se lança mais no terreno que era desbravado por Trier em Oslo, 31 de agosto: o sentimento inescapável de alguém sentir-se sozinho e sem apoio, mesmo tendo opções para contornar seu rumo. Há uma dramaticidade decisivamente corrente no roteiro do diretor em parceria com Luke Davies, sem apelar a um excesso de situações que mostrem o jovem usando drogas, e sim seus efeitos em relações sociais. A atmosfera de solidão e dificuldade de inserção de Nic não raramente reproduzem cenários constantemente desabitados, só preenchidos por sentimentos perdidos no tempo.

É desse modo que o diretor acolhe flashbacks pontuais e canções bem encaixadas (“Territorial pissings”, do Nirvana, e “Heart of Gold”, de Neil Young, por exemplo), reproduzindo determinadas sensações dos personagens em épocas diferentes e como elas, na verdade, se completam, mesmo que algumas num momento mais puro e em outro mais ruidoso. Carell, nesse sentido, entrega uma de suas melhores atuações, mais exatamente numa cena em que se despede do filho, ainda pequeno, antes de ele fazer uma viagem de avião. Em outro momento, ele visualiza um encontro perfeito com Nic num restaurante, querendo apenas compartilhar uma refeição, não fosse o comportamento irreconhecível daquele que criou. Um encontro na casa de recuperação traz o olhar incrédulo do pai em relação à impossibilidade de o filho conseguir enfrentar seu vício. Já Nic tenta se estabelecer num romance com Lauren (Kaitlyn Dever), não fosse ele ao mesmo tempo autodestrutivo, e Dever repete sua competência dramática já mostrada em Homens, mulheres e filhos e Outside in. Van Groeningen se mostra um diretor muito acima do que já demonstrava ser, trazendo um dos trabalhos mais belos do cinema nos últimos anos e subestimado como os grandes filmes costumam ser antes do reconhecimento.

Beautiful boy, EUA, 2018 Diretor: Felix Van Groeningen Elenco: Steve Carell, Timothée Chalamet, Maura Tierney, Amy Ryan, Kaitlyn Dever Roteiro: Luke Davies e Felix Van Groeningen Fotografia: Ruben Impens Produção: Dede Gardner, Jeremy Kleiner, Brad Pitt Duração: 120 min. Estúdio: Plan B Entertainment, Big Indie Pictures Distribuidora: Amazon Studios

Lady Bird – A hora de voar (2017)

Por André Dick

Lançado no Festival de Sundance de 2017 e desde então elevado pela crítica a ponto de chegar a indicações principais ao Oscar, Lady Bird, de Greta Gerwig, é um filme sobre a adolescência com vários elementos que já vimos antes. São organizados de maneira a fazer o espectador sentir uma espécie de nostalgia, assim como as obras dos anos 80 de John Hughes e do recente e excepcional As vantagens de ser invisível e de Quase 18, em que uma jovem gosta de um colega sem saber ao certo o motivo. Saoirse Ronan interpreta Christine McPherson, mais conhecida pelo nome-título, filha de Marion (Laurie Metcalf) e Larry (Tracy Letts), que tem um irmão, Miguel (Jordan Rodrigues), adotado. Ela estuda numa escola secundária religiosa de Sacramento, onde sua melhor amiga é Julie Steffans (Beanie Feldstein). Ambas resolvem entrar no grupo de teatro escolar, com o padre Leviatch (Stephen McKinley Henderson) à frente, onde Lady Bird conhecerá Danny O’Neill (Lucas Hedges). Essas inter-relações de Lady Bird levam a um conflito frequente com a mãe e a uma tentativa de sempre compreender sua melhor amiga. E ela não gosta da cidade onde vive, pois queria ter uma experiência artística em Nova York ou qualquer outro lugar.

Gerwig, assim como no roteiro que ajudou a escrever com seu marido Noah Baumbach, também diretor, em Frances Ha, mostra uma generosidade com esse sentimento de uma pessoa querendo sair da adolescência e entrar na vida adulta. A personagem, aqui, pretende ingressar numa boa universidade, mas sem deixar a essência para trás. Entre descobertas e paixões, também com o jovem de uma banda de música, Kyle Scheible (Timothée Chalamet, infelizmente a peça menos funcional do elenco), Lady Bird tende a descobrir que seu microuniverso se estende a um cosmos do qual não chegava a ser admiradora e se aproxima de Shelly (Marielle Scott), a namorada do irmão.
Além de tudo, o filme possui uma montagem muito criativa, com cenas curtas e ainda assim eficazes. Embora nos primeiros 15 minutos há certos maneirismos e referências claríssimas a Eleição, de Alexander Payne, aos poucos mesmo eles vão se encaixando nos personagens. Ronan, desde Brooklyn, possui uma grande empatia com o público e aqui se destaca realmente como uma atriz capaz de sustentar a história. Suas amizades e romances são visivelmente elementos autobiográficos de Gerwig. Quando a personagem começa a tentar deixar de lado sua antiga amiga, para se tornar próxima de Jenna (Odeya Rush), isso não vem sem uma determinada pré-condição de que ela consegue se aceitar, nem a si, nem sua família. Há elementos aqui que Gerwig explorou no roteiro de outro filme que fez com Baumbach, Mistress America, mas neste ela ainda mantinha uma certa aura cultural que não satisfazia aos seus objetivos, nem havia propriamente uma fluidez na história.

Gerwig insere seus personagens num equilíbrio entre a transgressão (querer ser rebelde) e a permanência (a tradição da família), não sem uma boa porção de gags, visuais sobretudo, em peças de teatro exageradas. No roteiro, há um humor agridoce que Gerwig traz também de Mulheres do século 20, no qual faz uma jovem também de cabelo tingido, como Lady Bird, ajudando uma amiga a criar seu filho adolescente. Com uma mescla de nuances e sobreposições de tempos que remetem aos melhores momentos recentes de Malick (quando várias festas de fim de ano passam e Lady Bird procura emprego), sem o uso de voice overs, por outro lado, a narrativa se constrói de maneira interessante e sem, embora aparente, um elemento pop. Para um olhar superficial, trata-se apenas de um filme sobre a vinda da adolescência, como se costuma falar.

No entanto, vendo-se atentamente, Lady Bird representa uma espécie de transição entre sentimentos passageiros e outros mais duradouros. O que está para se passar na vida dela é justamente esse sentimento de que os indivíduos não são construídos também por seu núcleo (familiar, escolar etc.): Greta mostra com sensibilidade de que não há possibilidade de um indivíduo ser alguém distanciado de tudo para se entender, e com isso vem o elemento da sexualidade. O momento em que ela percebe que o espaço da escola se desloca para outros lugares é o momento exatamente de compreender que as gags proporcionadas pela primeira parte não se sustentam longe de um conhecimento existencial. Há cenas significativas que parecem descompromissadas, como aquela da festa de colégio em que todos estão vestidos com roupas de Velho Oeste e há cactus luminosos: Lady Bird mostra visão sobre o interior dos Estados Unidos e de como a religião da escola onde ela estuda simboliza a época posterior dos confrontos dessa região.

Em razão de um roteiro simples e personagens mais ainda, no entanto sem nunca perder um elemento de humanidade que normalmente é esquecido na maior parte dos filmes, por meio de um elenco cuja simpatia conta muito (Tracey Letts, Stephen McKinley Henderson e Beanie Feldsteine de forma destacada), Lady Bird realmente consegue voar. Aqui, a passagem para as novas gerações não traz conflito, e sim aceitação, mesmo que por vezes dolorosa. A sequência final, na qual temos um vínculo com a primeira parte da narrativa, deixa a personagem e o espectador em suspenso, devido à sua fragilidade, e a química entre Ronan e a ótima Metcalf indica essa progressão. Para Greta, o início da vida adulta não significa mais do que entender quem nos formou, independente de qual seja a aceitação. Para muitos, isso pode ser uma obviedade: não para quem viveu a adolescência e sabe que ninguém nasce com uma linguagem independente dos demais. Lady Bird, no fundo, trata disso como poucos filmes a respeito de sua faixa etária: nós somos feitos de um sentimento universal e é isso que nos faz, de fato, humanos.

Lady Bird, EUA, 2017 Diretora: Greta Gerwig Elenco: Saoirse Ronan, Laurie Metcalf, Tracy Letts, Lucas Hedges, Timothée Chalamet, Beanie Feldstein, Stephen McKinley Henderson, Lois Smith, Jordan Rodrigues, Marielle Scott Roteiro: Greta Gerwig Fotografia: Sam Levy Trilha Sonora: Jon Brion Produção: Scott Rudin, Eli Bush, Evelyn O’Neil Duração: 93 min. Estúdio: Scott Rudin Productions, Management 360, IAC Films Distribuidora: A24, Universal Pictures Release date

 

Me chame pelo seu nome (2017)

Por André Dick

O tradicional diretor James Ivory, conhecido por seus filmes históricos dos anos 80 e 90, alguns de notável qualidade, adaptou o romance de André Aciman para este filme dirigido pelo italiano Luca Guadagnino, influenciado aqui especificamente por Eric Rohmer, aquele de Pauline na praia. Ele mostra a trajetória de Elio (Timothée Chalamet), de 17 anos, que vive numa área rural da Itália com seus pais, Sr. Perlman (Michael Stuhlbarg) e Annella (Amira Casar). O pai é um estudioso de arquelogia e recebe um estudante de pós-graduação, Oliver (Armie Hammer), para ficar com a família no verão de 1983 e ajudá-lo a catalogar novas peças. A casa é um verdadeiro oásis: lembrando as paisagens de Um bom ano, de Ridley Scott, este interior da Itália é um convite a um passeio, e a bela fotografia de Sayombhu Mukdeeprom consegue mostrá-las de modo atrativo.
Oliver parece, a princípio, um típico personagem norte-americano, tentando contrastar sua cultura com os belos lugares enfocados pelo diretor. Elio, por algum motivo não definido explicitamente, se torna seu companheiro de visita à região, sobretudo de bicicleta. Em pouco tempo, Oliver já encontra um bar e companhia para apostas, mas Guadagnino quer emprestar a ele uma aura cultural que vai se manifestando em doses ao longo da narrativa. Já Elio, com conhecimento extremo em música, tem interesse por Marzia (Esther Garrel), contudo começa a se sentir atraído pelo pesquisador, em meio a suas experimentações com o violão e o piano de casa.

Na história do cinema recente, em que já tivemos os ótimos O segredo de Brokeback Mountain, The normal heart e Moonlight, para citar apenas alguns conhecidos sobre a relação entre dois homens, Me chame pelo seu nome pretende incluir grandes temas por meio de seu roteiro, no entanto se sente estranhamente vazio. O roteiro de Ivory não consegue esclarecer – mesmo que seja o objetivo, fica num meio-termo – o personagem de Oliver, e Hammer entrega uma atuação aqui capaz de contentar quem questiona seu talento interpretativo (e, particularmente, ele tem atuações destacáveis, em A rede social e O agente da U.N.C.L.E., entre outros). Não há uma ligação dele com o Sr. Perlman, e ele parece mais um turista em férias do que um estudioso dedicado. Em determinado momento, o Sr. Perlman fala dele como se fosse algum gênio não descoberto, mas nada antes o mostra como tal. Nem Hammer nem o roteiro emprestam empatia ao personagem, lembrando apenas alguém certo de um brilhantismo pessoal. Elio é uma espécie de versão mais jovem dele, situando-se entre o tédio de um jovem que não precisa se esforçar para ter tudo e a necessidade de quem deseja corresponder à atração também pela mulher de maneira autocentrada. Timothée Chalamet atua de maneira mais segura, mas longe de qualquer traço memorável, e falta a seu personagem um desenvolvimento.

Além disso, o tom de sedução de Oliver em reação a Elio é enfraquecido pelo roteiro expositivo, sem nuances ou complexidade real. Eles não conversam; eles expõem conceitos, por meio de imagens com o intuito de captar elementos da Roma Antiga, de estátuas históricas. O pesquisador representa essa faceta. Contudo, percebe-se, aos poucos, que Guadagnino evita close-ups em Hammer, pois este não consegue transparecer uma emoção dosada. E isso surpreende, pois ele já havia feito com talento o homem casado com J. Edgar interpretado por DiCaprio no filme de Eastwood.
O número de diálogos em tom pouco crível é notável ao longo da narrativa. Isso se mostra na aproximação pouco natural entre os personagens: durante um jogo de vôlei no gramado dos Perlman, Oliver sai do campo para ver se as costas de Elio, sentado, olhando a partida, estão tensas. Em outro momento, talvez porque não houvesse pêssegos no café atrativo da família Perlman, ele resolve roubar um de Elio enquanto ele está dormindo. Oliver ainda quer ensinar a Elio as melhores notas para uma música sobre a qual não tem conhecimento, possivelmente porque lê Heráclito. Muito do que leva o espectador a gostar do filme é simpatizar com suas figuras: aqui, ambas são pouco naturais, ao contrário do que pretende o filme e seus atores são constantemente prejudicados pela maneira como Guadagnino parece se envergonhar da relação que está mostrando, usando a natureza como subterfúgio. Ele tenta ser naturalista como um filme de Rohmer, mas tudo soa muito disperso para ter uma real emoção. Em momento algum, Oliver e Elio discutem o que estão sentindo um pelo outro; talvez fosse o objetivo, mas para um filme que pretende focar uma paixão é como se algo faltasse.

Em certos momentos, com destaque para aqueles em que Elio toca piano para distrair os convidados dos pais, o diretor quer enfocar um certo vazio rodeado pela cultura (inserindo diálogos sobre Heidegger, como se isso encobrisse a falta do que dizer dos personagens, ou mostrando artefatos históricos) com um bom panorama do interior italiano, capaz de despertar a sexualidade dessas figuras. Não existe, porém, uma química entre os atores, visivelmente desconfortáveis: basta comparar suas atuações com aquelas de Brokeback Mountain e Moonlight, por exemplo. Quando há uma aproximação entre os dois, Guadagnino prefere filmá-los se divertindo, pulando na cama, ou Elio pulando nas costas de Oliver, sem, na verdade, querer mostrar diálogos mais afetivos. Sim, há, mais perto do desfecho, alguns momentos que parecem trazer uma certa essência, num discurso excepcional do personagem de Sthulbarg, mas encaixado para estabelecer uma coesão em relação ao que se viu antes e como uma tentativa de Guadagnino em definir o que não faz ao longo da narrativa por meio dos personagens centrais.
No final das contas, Me chame pelo seu nome procura apresentar uma experiência para o espectador, mas o que atinge é somente a superfície: vemos as paisagens de cartão postal da Itália, mas não a paixão entre duas pessoas, pelo pouco que tem a dizer de maneira emocional e sem recorrer a uma certa pose naturalista. É um filme que, tentando falar de paixão o tempo todo, se esquece efetivamente de transparecer um afeto: como os passeios de bicicletas, ele investe num movimento para que o espectador não perceba que pouco ocorreu. Havia uma história complexa e melancólica no roteiro, sobre como o ser humano precisa se adaptar às mudanças da vida (na última cena, muito bem composta e enquadrada). Faltaram o diretor e os atores certos para fazer isso.

Call me by your name, ITA/FRA/EUA, 2017 Diretor: Luca Guadagnino Elenco: Armie Hammer, Timothée Chalamet, Michael Stuhlbarg, Amira Casar, Esther Garrel, Victoire Du Bois Roteiro: James Ivory Fotografia: Sayombhu Mukdeeprom Trilha Sonora: Sufjan Stevens Produção: Peter Spears, Luca Guadagnino, Emilie Georges, Rodrigo Teixeira, Marco Morabito, James Ivory, Howard Rosenman Duração: 132 min. Estúdio: Frenesy Film Company, La Cinéfacture, RT Features, Water’s End Productions Distribuidora: Sony Pictures Classics