Dick Tracy (1990)

Por André Dick

Este filme teve dois atrativos de marketing, quando foi lançado: a presença de Warren Beatty à frente e atrás das câmeras, como em Reds, que lhe deu o Oscar de diretor, e a escalação de Madonna para contracenar com o herói, um detetive – além do romance entre os dois estendido para fora das telas. E a Walt Disney havia apostado todas as suas fichas nele, como se fosse, no início da nova década, um novo Popeye, mas sobretudo tentando repetir o desempenho, no ano anterior, do Batman de Tim Burton. Se em Popeye e Batman, Robert Altman e Burton contribuíram com sua visão, em Dick Tracy, Beatty fez um policial com ambiente europeu, com beleza plástica e ritmo pouco americano, e daí o seu semiesquecimento, embora hoje possa caracterizar o cinema de início da década de 90, fugindo um pouco às características dos anos 80. (Lembro de tê-lo visto pela primeira vez num cinema de rua exatamente em 1990, e o quanto a sessão foi diferente daquela de Batman, quando o público se mostrava com vontade de rir a qualquer coisa que Jack Nicholson dissesse, e hoje, revendo-o, nota-se como o filme de Beatty é mais sofisticado, embora menos envolvente, do que o de Burton.)

Sendo assim, Dick Tracy (o próprio Beatty, sem o queixo quadrado das HQs) não tem, a princípio, personalidade marcante. Quem rouba a cena são os vilões, sobretudo Big Boy Caprice, feito por Al Pacino, um mafioso impagável, dono das melhores frases do filme, baseadas em filósofos (a exemplo de Nietzsche e Platão) e políticos (Lincoln, Benjamin Franklin). Aliás, todo elenco de vilões sobrepuja o detetive: Dustin Hoffmann como Mumbles – que não consegue ver um copo-d’água –, William Forsythe como o Flattop, entre outros.
Dick Tracy combate exatamente Big Boy Caprice, que pretende controlar a cidade, eliminando de início um concorrente, Lips Manlis (Paul Sorvino, que no mesmo ano aparece em Os bons companheiros), chantageando o prefeito D. A. Fletcher (Dick Van Dyke), desviando dinheiro e roubando pontos de outros mafiosos. Apaixonado por Tess (Glenn Headly), Tracy encontra um garoto nas ruas, Kid (Charlie Korsmo, que na época apareceu também em Hook e Nosso querido Bob), que testemunhou uma situação decisiva para as investigações, e passa a cuidá-lo. Não sem antes persegui-lo perto de uma linha de trem, depois do sobrevoo da câmera pela cidade, mostrando os edifícios.

É a amizade com esse garoto que dá uma certa humanidade ao detetive, desde a cena em que surge. Em meio à trama conduzida sem excessos, mas sem toques de brilhantismo, Tracy se divide entre a amada e a cantora Breathless Mahoney, que tenta seduzi-lo com roupas transparentes e procura reprisar não apenas as estrelas antigas (Marlene Dietrich, Marilyn Monroe), mas outra atriz com inicial M (Michelle Pfeiffer), que um ano antes faria Susie e os Baker Boys, deitando-se sobre a cauda do piano. Um homem misterioso surge na cidade, e tenta, ao mesmo tempo, tirar Big Boy do centro das notícias e Tracy da polícia – cujo chefe Brandon é o saudoso Charles Durning.
Mesmo com a falta de ação e o roteiro dos autores de Top Gun, Jim Cash e Jack Epps Jr., sem grande densidade nos diálogos, trata-se de uma feliz transposição dos quadrinhos de Chester Gould para o cinema, por aquilo que cerca a trama: a produção, o cuidado com os ambientes, o interesse em estabelecer um vínculo entre visual e narrativa, as atuações equilibradas e as canções evocando um musical.

Com maquiagem impressionante de Doug Drexler e John Caglione Jr., o filme ainda tem a fotografia com assinatura de Vittorio Storaro, que recria o clima dos quadrinhos, iluminando prédios com cores básicas, do vermelho ao amarelo, no que remete especificamente a seu trabalho em O fundo do coração, com sua Las Vegas de estúdio. O mesmo acontece com a direção de arte de Richard Sylbert (vencedora do Oscar) e o figurino de Milena Canonero, com capotes de cores diversas e ternos supercoloridos. Já a trilha de Danny Elfman e as canções de Madonna trazem um certo ritmo que Beatty não imprime, de propósito, com a ação – como (spoilers) nas cenas de ascensão e queda de Big Boy Caprice, os shows da boate Ritz, o tiroteio espetacular ao final.
Nesse sentido, se a montagem do filme emula os cortes das tiras de quadrinhos, também podemos pensar que Dick Tracy envolve tanto a estética de videoclipe dos anos 80 em algumas passagens (sobretudo quando faz rodar várias imagens) quanto a de obras dos anos 50. Ao mesmo tempo, ele procura algumas imagens e transposições icônicas, como nos momentos em que Tracy e Tess passeiam de carro com Kid e vão à lanchonete, ao som de canções, e quando o detetive e Breathles se encontram em frente a um porto, com a lua ao fundo, fazendo a cor do capote de Tracy dialogar com a iluminação do cenário; ou quando se mostram cenários como o da estação de trem ou do cemitério.

Cada personagem passa a ser também um símbolo: há obviamente o maniqueísmo do herói contra os vilões terrivelmente ruins, apenas porque gostam de agir assim (e lembram as hienas que acompanham o vilão de Uma cilada para Roger Rabbit, do qual o filme, sem dúvida, é também uma extensão, por sua incorporação visível dos quadrinhos, embora não utilize exatamente a animação, com exceção do início e do final, quando as imagens parecem voltar às suas origens). Igualmente os interesses amorosos de Tracy: Tess e Breathley não fogem a uma composição de quadrinhos, embora Headly consiga imprimir certa dramaticidade em uma ou outra cena. Prejudicada pelo rótulo de femme fatale, Madonna não é ajudada pelo roteiro, que entrega algumas pérolas de mau uso verbal. Cantando em algumas sequências à frente de uma banda e uma cortina vermelha, Madonna também parece homenagear a Isabella Rosselini de Veludo azul. Ainda assim, Pacino consegue, em uma cena que parece inserida nos Tempos modernos, de Chaplin, compor um vilão ao mesmo tempo provocador e receoso de cometer qualquer ação diante da polícia. E, apesar de Beatty não ascender sobre os outros personagens, como se poderia esperar, também é verdade que ele dosa o lado ético e o lado envergonhado diante de situações românticas de modo acertado. Ou seja, Beatty oferece a Tracy, mesmo com um roteiro de punch quadrinístico, um elemento humano, e, também por estar atrás das câmeras, mostra-se interessado o bastante para que os outros personagens possam se destacar.

A narrativa, por se passar nos anos 1930, também apresenta um aspecto elementar de Grande Depressão dos Estados Unidos (o Kid parece nunca ter ido a uma lanchonete antes), de art decó, com toques do expressionismo alemão, de pintores como George Grosz e Otto Dix (influências do próprio Gould), numa sociedade, como aquela mostrada tão bem por De Palma em Os intocáveis, que só poderia fugir à realidade mergulhada em cigarros e cabarés. Não que Dick Tracy elabore um aprofundamento sobre o contexto da máfia ou dos jogos e bebidas proibidos, nem sobre a violência específica que cerca os gângsteres, mas não deixa de ser uma narrativa conduzida por elementos desta espécie.
Sim, trata-se de um filme colorido e artificioso como as histórias originais de Chester Gould, mas nunca menos que um êxito subestimado. Parece mesmo deslocado temporalmente, e ainda assim sobrevive como motivo de entretenimento, pela estranheza singular de sua narrativa.

Dick Tracy, EUA, 1990 Diretor: Warren Beatty Elenco: Warren Beatty, Charlie Korsmo, Madonna, Al Pacino, Glenne Headly, Michael Donovan O’Donnell, William Forsythe, Ed O’Ross, Seymour Cassel, James Keane, Charles Durning, Mandy Patinkin, Paul Sorvino, Dick Van Dyke, James Caan Roteiro: Chester Gould, Jim Cash, Jack Epps Jr. Fotografia: Vittorio Storaro Trilha Sonora: Danny Elfman  Produção: Warren Beatty Duração: 103 min. Estúdio: Touchstone Pictures / Silver Screen Partners IV / Mulholland Productions Distribuidora: Buena Vista Pictures

O círculo (2017)

Por André Dick

O diretor James Ponsoldt realizou dois ótimos filmes, O maravilhoso agora, sobre os conflitos amorosos na juventude, e O fim da turnê, tratando da relação entre um jornalista e seu entrevistado, um autor de determinado romance que o consagrou. Agora, em O círculo, ele ingressa num tema provocativo: a influência da tecnologia no dia a dia das pessoas. Ele mexe com um tema sensível, que costuma despertar críticas. Todos talvez lembrem de Homens, mulheres e filhos, no qual uma análise sobre a tecnologia era vista como uma espécie de aceno ao retrocesso, ou seja, a visão do filme seria a condenação àquilo que exatamente apenas analisa, junto com sua interação social. Tornou-se o “pior filme” da trajetória de Jason Reitman, embora seja excelente. O círculo não foge à regra: as críticas parecem ecoar mais o descontentamento que há com seu tema do que com o resultado em si.
Emma Watson interpreta Mae Holland, uma jovem que consegue trabalho no Circle, uma empresa de internet fundada por Eamon Bailey (Tom Hanks) e Tom Stenton (Patton Oswalt). Lá, ela conhece Ty Lafitte (John Boyega), uma figura enigmática, e intensifica sua amizade com Annie Allerton (Karen Gillan). No entanto, acaba se afastando de Mercer (Ellar Coltrane, de Boyhood), um amigo de infância, enquanto tenta manter vínculo com os pais, Vinnie (Bill Patxon) e Bonnie (Glenne Headly).

A empresa, com seu domínio sobre as pessoas, torna Mae uma referência – sua vida passa a ser acompanhada on-line, por meio de uma minúscula câmera. Neste ponto, o filme se parece mais com O show de Truman do que com A rede social, e Watson tenta manter um equilíbrio em sua atuação, que às vezes fica menos interessante do que poderia. Os gráficos das mensagens recebidas lembram muito os de Homens, mulheres e filhos, aparecendo na tela como quase personagens. Ponsoldt utiliza Mae como o símbolo do funcionário que precisa se submeter completamente à sua empresa para se sentir recompensada. Bailey e Stenton estão interessados no fato de que as pessoas não possam ter mais exatamente uma privacidade, e sim um compartilhamento. Há nisso, com certeza, uma crítica embutida às redes sociais, nas quais o usuário algumas vezes perde o limite entre público e privado.
Não se trata nada novo, mas Ponsoldt não é tão óbvio quanto aparenta, nem o roteiro de Eggers, autor também do livro em que o filme se baseia: Mae está em busca de uma segurança na vida pessoal e de se afastar dos problemas dos pais. Para isso, ela escolhe a Circle e o lazer com um caiaque. “Eu me sinto melhor quando estou sendo vigiada”, diz ela em determinado momento. Em outro, ela sugere que a Circle possa ser um papel decisivo nas eleições do país. Tudo exatamente para fugir do fato de que não consegue estabelecer mais ligação com seus pais e se afastou do melhor amigo de infância.

No início, quando ele vem ajudá-la a consertar um problema no carro, Mae lhe diz que vai ligar, mas ele pergunta por que eles não conversam exatamente naquele momento. É como se ela estivesse sempre adiando o encontro com suas próprias escolhas. Esse traço já existia no personagem central de O maravilhoso agora, assim como no escritor de O fim da turnê: o comportamento de ambos era sempre se refugiar em um motivo externo para a existência que não incluísse exatamente se definir pelo mais apropriado. Se Emma não consegue lidar suficientemente com as nuances da personagem – e neste ano ela teve um mau momento como atriz em A bela e a fera, contrariando suas atuações em As vantagens de ser invisível e Bling Ring –, ao menos sustenta a atenção com sua empatia. Em suas conversas com Lafitte e Annie há uma vulnerabilidade de uma pessoa desprendida da própria existência e não parece por acaso que ambos os personagens que se comportam como seus amigos parecem não existir dentro da empresa, vagando de forma solitária.
Hanks tem uma grande atuação, como é de praxe em sua carreira, fazendo uma figura ambígua e que lida com questões morais e particulares, trazendo muito do próprio Jobs para a maneira como apresenta as novidades tecnológicas de sua empresa.

Mesmo sem ser intenso como poderia, O círculo é um filme bastante agradável.  A maioria das cenas tem uma boa atmosfera, com uma interessante ligação de Mae com seus pais, em ótimas atuações de Headly e Paxton (ambos, infelizmente, faleceram recentemente), embora Coltrane, tão bom ator em Boyhood, seja severamente subutilizado, tal como John Boyega, e por vezes mal dirigido. A fotografia de Matthew Libatique consegue transitar entre a alta tecnologia e a natureza campestre (o deslocamento da amiga de Mae para a Escócia), mesmo que a trilha sonora de Danny Elfman não seja efetiva como a maior parte dos trabalhos do compositor (e a melhor participação musical seja de Beck). O círculo se sente bem desenvolvido principalmente em sua primeira metade, tendo uma leve queda na segunda parte, até atingir um final para o qual convergem os principais personagens, no qual Ponsoldt faz o que Danny Boyle tentou em Steve Jobs sem conseguir: sua crítica à tecnologia é a própria aceitação que se tem dela muitas vezes sem analisar o contexto e mostra que muitas vezes o indivíduo, ao querer se sentir observado, quer apenas se afastar de si mesmo, de acordo com a ideia de mundo contemporâneo. O que importa neste caso não é a lição de moral previsível implicada e sim a necessidade de existir fora do próprio círculo de amigos e familiares como ponto vital para a própria sobrevivência. No entanto, os drones que surgem em dois momentos-chave indicam: esse universo pode sempre trazer a lembrança do que se fez a alguém próximo, no caso de Mae. Para Ponsoldt, tudo é circular.

The circle, EUA, 2017 Direção: James Ponsoldt Elenco: Tom Hanks, Emma Watson, Glenne Headly, Bill Paxton, Ellar Coltrane, Karen Gillan, Patton Oswalt, John Boyega Roteiro: Dave Eggers, James Ponsoldt Fotografia: Matthew Libatique Trilha Sonora: Danny Elfman Produção: Anthony Bregman, Gary Goetzman, James Ponsoldt, Tom Hanks Duração: 109 min. Distribuidora: Imagem Filmes Estúdio: Imagenation Abu Dhabi FZ / Likely Story / Playtone