Bling Ring – A gangue de Hollywood (2013)

Por André Dick

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Depois de sua contestada atuação em O poderoso chefão III, Sofia Coppola encontrou sua voz como cineasta e já apresenta uma trajetória interessante. Desde As virgens suicidas, seu filme ainda mais estranho e inovador, passando por Encontros e desencontros, com a intimidade do casal feito por Bill Murray e Scarlett Johansson, até o reinado pop de Maria Antonieta, o foco de Sofia são as pessoas deslocadas, mesmo que aparentem ter algum destaque. Se em seu filme Um lugar qualquer, apesar de bons momentos, sobretudo do elenco, sempre um acerto de seus filmes, esta ideia já dava alguns sinais de desgaste, em Bling Ring – A gangue de Hollywood temos a representação mais acabada de figuras que idealizam um mundo à parte para tentarem se destacar nele. Sofia se baseia na história verídica, relatada em artigo escrito por Nacy Jo Sales para a Vanity Fair, de um grupo de jovens que, entre 2008 e 2009, entrou em casas de celebridades em Beverly Hills quando descobriu que elas não tinham nenhuma segurança, nem câmeras de vídeo. Diante do universo moderno, chega a ser suspeito que isso aconteça, e Sofia, até então acostumada a manter um certo distanciamento do objeto enfocado, aqui tenta quase dar um aspecto semidocumental a seu filme, mas com a música pop de seus outros projetos (até o título salta aos olhos como uma logomarca).
Nele, a turma é formada inicialmente por Rebecca (Katie Chang) e Marc (Israel Broussard) , que acabou de chegar ao novo colégio, lembrando apenas aparentemente Daniel LaRusso em primeira visita à Califórnia, depois de ser expulso de outro. Quando passam a se encontrar e viajar para a praia, logo sentem que são bastante parecidos, e Rebecca tem a ideia de entrar em casas de celebridades, o que apenas a princípio é negado por Marc. Eles logo convidam Nicki (Emma Watson), Sam (Taissa Farmiga) e Chloe (Claire Julien) para participar dos roubos, principalmente de joias, bolsas, relógios e sapatos.

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Nicki e Sam moram juntas sob os cuidados de Laurie (Leslie Mann), que emprega os ensinamentos do livro O segredo, a partir de uma estrela de Hollywood, e o que elas fazem é justamente aquilo que Sofia pretende retratar: entrar num universo em que há um determinado vazio cultural. Não apenas porque, segundo a diretora, elas não têm muito a dizer, mas porque o mundo hoje, principalmente este enfocado, seria vazio. Bling Ring, nesse sentido, não toma uma premissa muito diferente de Encontros e desencontros, com a personagem central deixada no hotel pelo marido, fotógrafo de modelos, e perambula por uma Tóquio completamente estranha. Mas aquela personagem buscava um certo conforto intelectual, e o encontrava no ator feito por Bill Murray. Encontros e desencontros apresenta mais diálogos no início e no final, mas Bling Ring se ressente de algo: no meio dele, entre os 30 minutos iniciais e finais, não existe uma vontade de Sofia em mostrar além daquilo que foi noticiado pela imprensa.
Então, vemos esses jovens fascinados por personalidades como Paris Hilton (que se ergue aqui como uma espécie de ícone da juventude transviada de Los Angeles), Lindsay Lohan, Megan Fox e Orlando Bloom, seguindo-os em sites ou redes sociais, como se dependessem deles para sua existência. Não há muita história além daquela que possivelmente é lido numa síntese, e o que poderia haver é o que existe em As virgens suicidas, Maria Antonieta e Encontros e desencontros: personagens em conflito, mesmo com pouco a falar. Também porque naqueles filmes temos Kirsten Dunst e uma jovem Scarlett Johansson (transformando suas limitações em atrativo), o que faltaria em Bling Ring é justamente um destaque. Emma Watson, que esteve excelente em As vantagens de ser invisível, tenta fazer bastante com o material que lhe é dado, e o filme cresceria com ela, mas Sofia não parece interessada em dar ênfase nos personagens, confundindo-os com o próprio vazio que retrata.
Para ela, esses jovens queriam copiar socialites, ir a festas, usar drogas e finalmente praticar os roubos. Mas Sofia esquece das maravilhas que proporcionou o vazio em seus filmes interiores: falta desta vez o elemento de ligação, o que, em Bling Ring, não consegue ser captado por meio de um estilo semidocumental, por flashes de uma vida conturbada (todos os jovens passam o dia tirando fotos ou trocando informações sobre grifes caras das celebridades) ou comentários em tom de alívio cômico, sobre um encontro com alguém que pode conduzir a uma carreira (e Leslie Mann entra nesta situação), quando há um deslizamento para a sátira, nunca trabalhada tão bem nesse campo quanto por Amy Heckerling em As patricinhas de Beverly Hills. A questão é que, mesmo os personagens sendo desinteressantes, ainda assim seriam mais convidativos do que uma sequência de cenas com armários sendo abertos, sapatos sendo apreciados, gravações em vídeo e imagens de programas dedicados às celebridades. E Sofia saberia explorá-los, mas Bling Ring se ressente de um acabamento.

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Falta uma espécie de encontro entre os personagens, como há no início, e mesmo no final. Israel Broussard  é um ator que dá indícios de ser talentoso, com seu conflito pessoal diante dos roubos, embora passageiro, e mesmo a contrapartida, Katie Chang, cria um certo envolvimento, mas logo se ausenta. Sofia continua com talento para filmar, construindo – com a ajuda do fotógrafo Harris Savides, a quem Bling Ring é dedicado em memória e responsável por trabalhos irretocáveis, como os de Zodíaco e Elefante, nos quais contou com Christopher Blauvelt, que complementou o trabalho aqui – uma Los Angeles excessivamente iluminada de dia, com suas palmeiras características, e bastante escura e até sem vida à noite, a não ser nos clubes noturnos frequentados pela turma (as únicas luzes são dos flashes ou da pista de dança). Isso cria um contraste interessante às suas imagens, mostrando uma certa ingenuidade do universo familiar em paralelo ao comportamento diante dele. Há, por exemplo (spoiler), uma belíssima sequência em que é mostrado um assalto a distância, e o assistimos em toda sua amplitude, como se estivéssemos numa janela perto da casa. O humor, de qualquer modo, não casa com as demais cenas, mesmo porque seria difícil acompanhar esses personagens com certo prazer, pois eles não são exatamente pessoas, mas gravações em vídeo.
A atmosfera também conduz Sofia a uma espécie de discurso reiterativo, querendo evidenciar as críticas que faz, e mesmo fazendo, em determinado momento, uma referência ao clipe que dirigiu dos White Stripes. O discurso contestado em Bling Ring, com a imagem de Paris Hilton nas almofadas, parece o mesmo usado em Spring breakers para Britney Spears: elas são ícones de parte dos jovens que a cultura produz. Seria revelador caso isso não fosse exatamente um tema explorado pela mídia e a moda, que Sofia não exatamente critica (não por acaso, Hilton teria se emocionado depois da exibição do filme em Cannes). Por outro lado, não seria exatamente por criticar um certo vazio de comportamento que Bling Ring conseguiria deixar de ter a mesma característica, embora Sofia Coppola continue a ser uma cineasta que reserva expectativas, com seu olhar contemporâneo, mesmo em outras épocas. Embora não especialmente neste filme, ela já provou ter grande talento.

Bling Ring, EUA, 2013 Diretora: Sofia Coppola  Elenco: Katie Chang, Israel Broussard, Emma Watson, Taissa Farmiga, Claire Julien, Leslie Mann Produção: Roman Coppola, Sofia Coppola, Youree Henley Roteiro: Sofia Coppola Fotografia: Harris Savides, Christopher Blauvelt Duração: 90 min. Distribuidora: Diamond Films Estúdio: American Zoetrope / NALA Films / Pathé Distribution / StudioCanal /

2  estrelas

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2 Comentários

  1. Samuel

     /  26 de agosto de 2013

    Excelente crítica! Cheguei aqui através de um link dos comentários do Omelete e adorei a sua análise e visão do filme.

    Responder
    • Prezado Samuel,

      agradeço por seu comentário a respeito da crítica sobre “Bling Ring”! Também pela gentileza e visita.

      Volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder

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