Adoráveis mulheres (2019)

Por André Dick

Depois de uma estreia exitosa com Lady Bird – A hora de voar, indicado aos Oscars de melhor filme e direção, Greta Gerwig se tornou uma das promissoras cineastas da atualidade. Talvez seu nome tenha sido o mais comentado, entre as diretoras de cinema, desde Sofia Coppola. A origem, de certo modo, era muito parecida. Lady Bird se baseava nas características do cinema indie, o mesmo que Sofia ajudou a popularizar com As virgens suicidas e Encontros e desencontros: personagens descompromissados, uma história simples, uma maneira de filmar sem grandes adornos e muita agilidade narrativa. Isso aproximava o trabalho das duas de modo fundamental, e, além disso, havia a humanidade dos personagens.
Em seu segundo filme, Adoráveis mulheres, Gerwig toma como base o romance de Louisa May Alcott, já adaptado para o cinema antes (uma das versões é de 1994), que mostra uma jovem chamada Jo March (Saoirse Ronan). Ela é uma escritora em busca dos primeiros interessados a publicá-la, o que encontra na figura do Sr. Dashwood (Tracy Letts), em torno de 1868, em Nova York. Um pouco depois, ela entra em contato com o professor Friedrich Bhaer (Louis Garrel) Enquanto isso, sua irmã, Amy (Florence Pugh), vive em Paris com a tia March (Meryl Streep), e reencontra Laurie (Timothée Chalamet), um antigo amigo.

Gwrwig retrocede alguns anos antes para mostrar como Jo conheceu Laurie, tornando-se muito próximos, e como vivia com as irmãs Meg (Emma Watson), Amy (Pugh) e Beth (Eliza Scanlen), numa casa em Concord, Massachusetts. As irmãs são muito unidas, ao lado da mãe Marmee (Laura Dern). Seu pai (Bob Odenkirk) está, por sua vez, na Guerra Civil.
No prosseguimento de sua trajetória como diretora, Gerwig adota mais ou menos as mesmas escolhas de Sofia quando resolveu fazer Maria Antonieta e, recentemente, O estranho que nós amamos. Desde o início, é possível perceber uma tentativa de certa grandiosidade, ao mostrar Jo dançando com o Prof. Bhaer num baile, que remete a cenas de clássicos (especificamente O portal do paraíso, A época da inocência Gangues de Nova York) e, em seguida, um desfile suntuoso de figurinos deixando o filme visualmente muito atrativo para o espectador, em combinação com a ótima fotografia de Yorick Le Saux, alterando lugares escuros e iluminados de maneira amplamente eficaz.

Nesse sentido, Adoráveis mulheres se aproxima da suntuosidade de Maria Antonieta, por exemplo, e se afasta quase completamente dos elementos de cinema indie que caracterizam Lady Bird. Isso, por um lado, é elogiável, pois a diretora não quis se repetir, inclusive nos primeiros acordes da trilha sonora de Alexandre Desplat, evocando John Williams, com outra influência clara de Gerwig: A cor púrpura, de Steven Spielberg Se o filme de Spielberg mostrava de maneira excepcional a trajetória de mulheres afrodescendentes com uma trajetória de sofrimento, Gerwig revela uma aristocracia modesta em Adoráveis mulheres. As paisagens invernais, no entanto, aproximam muito os filmes, assim como os enquadramentos de Gerwig, a imponência das casas e um transporte para os anos 1860, enquanto o filme de Spielberg se passava no início do século XX. Embora os temas sejam diferentes, a imersão é a mesma. Gerwig faz lembrar de como eram os filmes históricos feitos para o Oscar, com talento.
No que se refere ao desenvolvimento das personagens, Gerwig conta com o apoio vital da melhor do elenco: Saoirse Ronan, seguida por Chalamet, seguindo seu bom momento desde Querido menino e Um dia de chuva em Nova York. Além  disso, Gerwig extrai de Emma Watson a melhor atuação da atriz desde As vantagens de ser invisível. Outra atriz que se destaca é Florence Pugh, uma revelação nos últimos anos, só não mais que Eliza Scanlen, mesmo com breve participação.

A relação de Laurie com Jo e Amy atravessas as épocas e Gerwig decidiu contar a história, com idas e vindas no tempo, com uma sucessão de acontecimentos dialogando por conta própria., sem uma unidade evidente. O filme está no seu melhor quando concentra seus personagens em cenários pequenos, dando uma dimensão de afeto a essas adoráveis mulheres, à luz de velas e iluminadas pelo sol atravessando a janela, assim como por meio de cenas em que fazem peças teatrais caseiras. Há uma conversa entre Marmee e Jo, elucidando o que habita a narrativa, e oportunizando a Laura Dern seu grande momento como atriz discreta (que era sobretudo nos anos 80 e 90).
Gerwig usava um humor discreto em Lady Bird e aqui emprega um certo classicismo, parecendo querer reproduzir os filmes talhados para o Oscar, lembrando em alguns momentos Brooklyn (com a mesma Saoitse Ronan). É uma característica que não se aproximou de Sofia nem mesmo no grandioso Maria Antonieta, cuja narrativa ainda trazia elementos dos filmes indie da diretora. Na maioria das vezes, Gerwig consegue empregar bem esse tom ao contrário de muitos pares.

Do mesmo modo que Lady Bird, Jo é visivelmente o alter ego de Gerwig, e traz com isso, além de motivações artísticas muito interessantes, um certo discurso às vezes entregue um pouco de maneira expositiva. Ao contrário do que acontecia no seu filme de estreia, Gerwig parece ter dúvida se o espectador vai entender as motivações de Joe nas entrelinhas. No terceiro ato, ela faz quase uma ligação direta de sua trajetória como diretora com os percalços da personagem.
É nesse ponto que Adoráveis mulheres mostra a união  entre um cinema mostrado com absoluta beleza técnica, por um lado, e aquele que evolui em termos de história e elenco, por outro. E isso se dá de maneira efetiva, pois, de Saoise, passando por Chalamet, até Laura Dern e Meryl Streep, o que não falta a esta adaptação é um elenco. Talvez Gerwig pudesse ter mesclado seu estilo anterior a um novo sem perder as características básicas. Mas, mesmo ao fazer de Adoráveis mulheres uma procura pelo Oscar, ela mantém um tom otimista e afetuoso, no qual o ser humano aprende tanto fora quanto dentro da obra que ele compõe para sua vida de maneira sensível.

Little women, EUA, 2019 Diretora:  Greta Gerwig Elenco: Saoirse Ronan, Emma Watson, Florence Pugh, Eliza Scanlen, Laura Dern, Timothée Chalamet, Meryl Streep, Tracy Letts, Bob Odenkirk, James Norton, Louis Garrel, Chris Cooper Roteiro: Greta Gerwig Fotografia: Yorick Le Saux Trilha Sonora: Alexandre Desplat Produção: Amy Pascal, Denise Di Novi, Robin Swicord Duração: 135 min. Estúdio: Columbia Pictures, Regency Enterprises, Pascal Pictures, Di Novi Pictures Distribuidora: Sony Pictures Releasing

Os incríveis 2 (2018)

Por André Dick

Há três anos, Tomorrowland – Um lugar onde nada é impossível mostrava mais uma tentativa de Brad Bird em dirigir filmes com humanos. Precedido por desenhos animados importantes, como O gigante de ferroOs incríveis e Ratatouille, Bird estreou em Missão fantasma – Protocolo fantasma à frente de um elenco. Se o episódio que fez de Ethan Hunt não possui a mesma vibração da terceira parte, de J.J. Abrams, pode-se dizer que ele conseguiu acertar nas sequências de movimento incessante e Tomorrowland, apesar do fracasso financeiro, foi uma ficção científica diferenciada. Com grande divulgação da Walt Disney, aos poucos Tomorrowland foi sendo comparado a John Carter, principalmente pela bilheteria, que equivaleu, no momento, a pouco mais de seu orçamento e teria provocado, inclusive, o cancelamento das filmagens de um possível terceiro Tron. Com essa decepção em sua curta e relevante filmografia até agora, Bird voltou à area da animação, com a sequência Os incríveis 2.

Ele retoma a história dos integrantes da família Parr – Bob (Craig T. Nelson), Helen (Holly Hunter), Dash (Huck Milner), Violet (Sarah Vowell) e Jack-Jack (Eli Fucile) – que formam os super-heróis intitulados Incríveis. Durante uma ação contra um ato de vilania, o agente Rick Dicker (Jonathan Banks) avisa que o programa do qual fazem parte será desativado, o que força os super-heróis a terem de se manter secretos o tempo todo. A família em seguida é contatada por Winston Deavor (Bob Odenkirk), fã de super-heróis e dono da DEVTECH, assessorado pela irmã Evelyn (Catherine Keener). Helen é escolhida, com sua identidade Elastigirl, a ser a primeira a ser uma espécie de relações públicas da empresa, por ser mais delicada do que seu marido, Bob, conhecido também por seu temperamento. Weaver, por sua vez, deixa os incríveis morando numa mansão extraordinária, e Bob assume o papel de cuidar dos filhos enquanto a mulher vai combater o crime. Em meios às reviravoltas, também temos o personagem Lucius (Samuel L. Jackson).
Há uma questão preocupante: o bebê da família, Jack-Jack, começa a descobrir também seus poderes, e Bob o leva para Edna Mode (Brad Bird), a estilista de super-heróis que já aparecia na primeira parte. A primeira grande ação de Elastigirl é impedir ataque a um trem sofisticado, numa sequência que remete a Operação França, de William Friedkin, dos anos 70. Surge a verdadeira ameaça: um vilão, Screenslaver (Bill Wise), que hipnotiza as pessoas com telas de TV, celulares e óculos.

Os incríveis 2 tem todos os elementos já vistos no primeiro, de 2004, com um bom humor e ação mesclados e uma família disfuncional muito interessante. Não chego a ter nostalgia do primeiro (não está entre minhas animações preferidas), por isso não me parece tão destoante considerar este segundo mais bem resolvido. Ele ingressa na linha das continuações da Pixar com real qualidade, a exemplo dos subestimados Universidade Monstros e Carros 3. O primeiro tinha os dois primeiros terços bem resolvidos, mas caía um pouco no lugar-comum na última parte. Este, muito em razão de Jack-Jack, o bom humor se espalha em núcleos até a resolução de tudo, brincando com o próprio gênero de maneira bem-humorada. Bird sempre se mostrou um exímio diretor no sentido de utilizar esses elementos na pérola O gigante de ferro, que o levou à Disney, e mesmo em Tomorrowland, muito contestado, conseguia utilizá-los em boa proporção. Bird tem uma leveza para abordar temas que poderiam ser forçados: ele não abdica de uma visão moderna sobre os super-heróis, porém nunca a coloca com uma seriedade pré-programada.

O fato de Helen sair de casa, enquanto o marido tenta cuidar dos filhos, é uma abordagem certamente interessante, à medida que no ano passado Mulher-Maravilha recebeu tanto destaque. Elastigirl fornece, além disso, uma composição de imagens em ação bastante satisfatórias (da família, é certamente aquela com super-poderes mais interessantes). No entanto, Bird tem um verdadeiro encanto em homenagear antigos filmes em suas obras. Se O gigante de ferro possuía referências claras a E.T. – O extraterrestre e Tomorrowland dialogava com Os Goonies, Os incríveis 2, além de sua homenagem constante a 007, como o anterior, evoca Velocidade máxima 2 numa passagem surpreendente, além de desenhar uma aeronave como aquela de Interestelar, de Christopher Nolan. Também temos lembranças, em algum momento do vilão e de sua hipnose, do recente Thelma – uma tentativa sueca de fazer uma mulher com poderes paranormais (embora se lamente que uma animação utilize imagens que podem provocar problemas em quem possui fotossensibilidade, pois seria dispensável esse recurso para fazer a narrativa funcionar) – e de toda obra visual de Tim Burton, especialmente das propagandas do Coringa na televisão de Batman. E, assim como o primeiro, há homenagem constante à discussão do papel do super-herói na sociedade, como em Watchmen. Mesmo a figura de Helen é claramente inspirada visualmente na de Laurie Juspeczyk/Espectral II (vivida no cinema por Malin Åkerman), dos criadores Alan Moore e Dave Gibbons. Visualmente, Bird está entre os melhores diretores da atualidade: Os incríveis 2 mostra isso de maneira notável, com design de produção meticuloso e uma ambientação que leva o espectador a ingressar em cada cenário como se fosse verdadeiro. Seu senso de divertimento nunca se desequilibra e nunca torna os personagens em caricaturas, como poderia acontecer de modo indevido.

Incredibles 2, EUA, 2018 Diretor: Brad Bird Elenco: Craig T. Nelson, Holly Hunter, Sarah Vowell, Huck Milner, Samuel L. Jackson, Bob Odenkirk, Catherine Keener Roteiro: Brad Bird Fotografia: Mahyar Abousaeedi Trilha Sonora: Michael Giacchino Produção: John Walker, Nicole Paradis Grindle Duração: 118 min. Estúdio: Walt Disney Pictures, Pixar Animation Studios Distribuidora: Walt Disney Studios

The Post – A guerra secreta (2017)

Por André Dick

O diretor Steven Spielberg é um dos grandes nomes indiscutíveis do cinema. Ter realizado EncurraladoTubarão e Contatos imediatos do terceiro grau nos anos 70, e Os caçadores da arca perdidaE.T., A cor púrpura e Império do sol nos anos 80 já é motivo suficiente para ter seu nome entre os maiores da história. No entanto, a partir dos anos 90, mais especificamente depois de Jurassic Park, Spielberg foi aos poucos se afastando do gênero da fantasia e mais fantástico – no qual se destacou também como produtor –, incorporando filmes com elementos históricos, a exemplo de A lista de SchindlerAmistad O resgate do soldado Ryan. Nos anos 2000, apesar de fazer algumas ficções referenciais, como Inteligência artificial,  Minority Report e Guerra dos mundos, o tom era sempre soturno, alternando novamente com filmes sobre questões históricas, entre os quais Munique, com alguma folga aventuresca em Indiana Jones e o reino da caveira de cristal. Um respiro original foi sua parceria com DiCaprio em Prenda-me se for capaz e o dramático e cômico O terminal.

Neste início de década, ele apresentou mais dois filmes, dois mais dramáticos, Cavalo de guerra e Lincoln, e uma bela animação, As aventuras de Tintim. Novamente fez um drama histórico em Ponte dos espiões e uma fantasia de animação em O bom gigante amigo. Esta tendência de Spielberg de alternar fantasia – as últimas vezes em escala soturna, exceto para a aventura de Indiana e as animações com Tintim e BFG – com filmes com pano de fundo histórico não o tornou exatamente um cineasta previsível, no entanto parece bem mais acomodado.
Em The Post – A guerra secreta, Spielberg tem o intuito de revelar os bastidores de várias publicações feitas sobre segredos do Pentágono, relacionadas ao Secretário de Defesa, Robert McNamara (Bruce Greenwood), e o presidente Lyndon Johnson, que vão eclodir na gestão de Nixon, em exercício na época enfocada, início dos anos 70. A responsável pelo The Washington Post, Katherine Graham (Meryl Streep), tem uma amizade protocolar com o editor Ben Bradlee (Tom Hanks), que se envolve nessa divulgação de documentos secretos, vazados por Daniel Ellsberg (Matthew Rhys) primeiramente para o New York Times. Enquanto Bradlee é casado com Antoinette (Sarah Paulson), Katherine, viúva e reservada, tenta lidar com a pressão exercida por Fritz Beebe (Tracy Letts) e Arthur Parsons (Bradley Whitford).

Com sua equipe habitual, incluindo o fotógrafo Janusz Kaminski e o músico John Williams, Spielberg não se arrisca em nenhum momento de seu novo filme. Ele inclui no elenco Hanks, seu ator preferido, e Meryl Streep, ambos em papéis que poderiam ser melhor delineados, sendo difícil encontrar neles as nuances que os temas políticos exigiriam. O roteiro de Liz Hannah e Josh Singer, este vencedor do Oscar por Spotlight, se sente como uma coleção de mensagens e críticas à política, como se por meio do cinema não se fizesse também política muitas vezes. Nisso, há um interesse de Spielberg pela guerra do Vietnã pela primeira vez desde os anos 70, já que parte de sua filmografia é dedicada à Segunda Guerra Mundial.
The Post se sente como uma mescla entre Todos os homens do presidente, sem nunca alcançar a mesma tensão e desenvoltura dramática, e exatamente Spotlight, mas Spielberg parece confundir fantasia e realidade: a redação do Washington Post lendo um determinado jornal de maneira ampla e irrestrita soa teatral e simétrica demais. A começar por Bradlee, todos parecem um pouco figuras ingênuas, desconhecendo o poder que tem às mãos tanto quanto os políticos. Bradlee, feito por Hanks de maneira desinteressante (algo raro em sua carreira), oscila entre certo oportunismo e depois um discurso libertário, enquanto a personagem de Streep transporta o desconhecimento sobre os temas do dia a dia da redação de jornal para um patamar de interessada por tudo o que acontece no The Washington Post. Spielberg se equivoca em diferentes momentos, abusando do tom jornalístico e depois do tom sentimental que lhe é tão caro na sua carreira e apenas não o prejudica quando é amparado por um bom roteiro, o que não acontece aqui. Talvez os momentos mais autênticos fiquem com o assistente de Bradlee, Ben Bagdikian (Bob Odenkirk, eficaz), pois parecem recordar um filme dos anos 70, principalmente quando realiza sua investigação.

The Post marca um momento decisivo na trajetória de Spielberg. Preocupado com os movimentos da história, ele parece se aproveitar de um determinado contexto para colocar o papel da imprensa em discussão, mas o faz por meio de um assunto (Guerra do Vietnã) que não necessariamente é o mesmo da atualidade. Ele parece não entender que o jogo do poder, em que se digladiam política e jornalismo, acontece desde sempre, isolando fatos que justificariam uma correspondência temporal. Seu filme não tem a urgência mesmo de um Jogos de poder, com o mesmo Hanks, porque não conta com um roteiro afiado nem personagens que não sejam apenas símbolos de uma bondade pura. Particularmente, ele poderia ter feito um retrato do que ele considera prejudicial na atualidade sem recorrer a um contexto histórico diferente, ou seja, a história mostrada passa a ser apenas metáfora de outra. Mesmo que ele possa encontrar elementos parecidos em ambos os contextos, a história tem pesos diferentes.
Hoje, há um confronto de ideologias nos Estados Unidos que reflete em debates sobre a liberdade de imprensa, mas esta, contrariada ou não, tem direito de falar o que quiser (inclusive com diversos meios e mídias) e tem o direito esclarecido de publicar os documentos oficiais que quiser, independente de perder contatos no poder. No entanto, na época de Nixon, havia algo mais: uma tentativa de ele proibir judicialmente informações ao público sobre milhares de mortes que não precisavam ter ocorrido no Vietnã. Por isso, Spielberg mescla duas discussões distintas como se fossem a mesma. Era uma tragédia, independente de estar ligada à condição da imprensa, que, de qualquer modo, se fez justa porta-voz com o vazamento. Não se convence o espectador com Bradlee colocando os pés sobre a mesa e querendo ler as milhares de páginas do Pentágono para ele próprio desencavar as matérias. Isso é tratar o espectador de maneira duvidosa. Quanto ao personagem de Streep, lamenta-se que um cineasta que enfocou o universo feminino praticamente apenas no belíssimo A cor púrpura não consiga lhe dar a ênfase necessária, porém se entende, pois seu foco sempre foram personagens de homens ou garotos. Streep não tem um bom roteiro à mão, mas sua atuação também não ajuda (sua inclusão entre as indicadas ao Oscar de melhor atriz é uma das grandes injustiças desse ano). E, quando se coloca um jornal para ser impresso, com matérias impactantes e que podem mudar a história, é estranho Spielberg usar a trilha de John Williams como se Peter Pan chegasse à Terra do Nunca. Não duvido que Spielberg não esteja brincando, mas parece.

The Post, EUA, 2017 Diretor: Steven Spielberg Elenco: Meryl Streep, Tom Hanks, Sarah Paulson, Bob Odenkirk, Tracy Letts, Bradley Whitford, Bruce Greenwood, Matthew Rhys, Michael Stuhlbarg Roteiro: Liz Hannah, Josh Singer Fotografia: Janusz Kamiński Trilha Sonora: John Williams Produção: Steven Spielberg, Kristie Macosko Krieger, Amy Pascal Duração: 115 min. Estúdio: DreamWorks Pictures, Amblin Partners, Amblin Entertainment, 20th Century Fox, Participant Media, Pascal Pictures, Star Thrower Entertainment Distribuidora: 20th Century Fox

 

Nebraska (2013)

Por André Dick

Nebraska 12

Com uma filmografia sólida, o diretor Alexander Payne, ao contrário do intervalo de sete anos entre Sideways e Os descendentes, desta vez regressa depois de pequeno período, com Nebraska, indicado novamente aos Oscars principais (filme, direção, ator, atriz coadjuvante, roteiro original e fotografia). Lançado no ano passado no Festival de Cannes, dando a Bruce Dern o prêmio de melhor ator, o filme recebeu a desconfiança no restante do ano, com Payne sendo relativamente esquecido. Alguns diretores costumam não ser reconhecido como autores, mas Payne, desde Ruth em questão e sobretudo em Eleição, que ajudou a definir os anos 90, com sua estética referencial para diretores da nova geração, constrói um perfil definido por meio de suas narrativas, e, ao mesmo tempo em que não abandona características demarcadas, consegue somar novos elementos ao seu estilo.
Payne também é conhecido por extrair grandes atuações, como a de Jack Nicholson em As confissões de Schmidt, de Paul Giamatti em Sideways e de George Clooney em Os descendentes, todos indicados ao Oscar por elas. Não é diferente em Nebraska. O excelente Bruce Dern interpreta Woody Grant, com sintomas de Alzheimer, é encontrado caminhando numa rodovia, o que pode se ver como um diálogo direto com Sideways. Ele está confuso e imagina ter recebido um prêmio de 1 milhão de dólares, desejando ir para Lincoln, no Nebraska, a fim de recebê-lo. Embora tudo indique ser um equívoco, o seu filho, David (Will Forte, mais conhecido como humorista e uma ótima surpresa), decide que esta pode ser uma possibilidade de distração para se pai e resolve seguir a viagem, talvez também para esquecer sua rotina de vendedor de eletrodomésticos e sua dificuldade em estabelecer um vínculo. Entre paisagens e estradas tipicamente norte-americanas, com uma atmosfera melancólica, Nebraska emprega essa viagem como uma tentativa não apenas de manter a ideia de que ele está indo buscar 1 milhão de dólares em Lincoln, mas de que o tempo em que irão passar juntos pode ser uma possibilidade de estabelecer ligações de afeto. No entanto, a estrada de Payne não se configura confortável como aquela de Paris, Texas, por exemplo, com sua estética repleta de cores e contrastes: a sensação é de que existe um país semiabandonado, embora triunfe ainda a ideia de conquista e superação.

Nebraska

Nebraska 2

No caminho, eles param na pequena cidade de Hawthorne para visitar familiares, e recebem a companhia materna, Kate (June Squibb), e de Ross (Bob Odenkirk), o outro filho. Recebidos pelo irmão de Woody, Ray (Rance Howard), e sua mulher, Martha (Mary Louise Wilson), cuja atividade é ficar em frente à TV, com dois filhos, Cole (Devin Ratray) e Bart (Tim Driscoll), eles se encontram também numa situação de entender melhor o passado de Woody, embora a notícia mais espetacular seja a de que o parente tenha conseguido um prêmio de 1 milhão de dólares. Não que o passado reserve grandes descobertas, mas, como uma odisseia pessoal, é possível estabelecer uma renovação familiar, sobretudo quando se encontra figuras como a de Peg Nagy (Angela McEwan, uma participação notável), e mesmo quando não existe propriamente um bem-estar, proporcionado por Ed Pegram (Stacy Keach, excelente) – o que pode ser necessário para um avanço.
Com uma fotografia elaborada em preto e branco de Phedon Papamichael (as nuvens do interior fazendo uma analogia com a cor dos cabelos de Woody e Kate e das casas de interior, o escuro em diálogo com os tratores, os carros, o figurino, a noite e as lâmpadas dos bares), Nebraska toca por sua sensibilidade e depois de se vê-lo não é possível imaginá-lo em cores. Em certos aspectos, inclusive na sua temática de vida em relação a Woody, ele lembra História real, de David Lynch, com elementos de As confissões de Schmidt, assim como Sideways, filmes de Payne, porém há uma tentativa de compreender a ligação entre as gerações, como também com o passado, especialmente bem mostrada por Payne aqui e em sua obra anterior, Os descendentes. Do mesmo modo que em As confissões de Schmidt, Payne lida com figuras do interior entre o respeito delimitado e uma espécie de ironia em relação a seu comportamento. A família do genro de Schmidt, naquele filme, é especialmente vista de forma corrosiva. Em Nebraska, não é diferente – e, se alguns momentos soam bem-humorados, é justamente por esse olhar de Payne. No entanto, parece que o humor vai até um determinado ponto; depois de uma discussão, a narrativa de Nebraska toma um rumo menos complacente.

Nebraska 6

Nebraska 10

Do retrato que Payne faz desses personagens do interior, pode-se desconfiar, e foi acusado de não ser fiel. Mas também se deve falar que o cineasta nasceu em Omaha, Nebraska, ou seja, ele tem conhecimento sobre esse universo. O que se percebe é que ele, mais do que retratar as pessoas dessa comunidade visita por Woody e sua família, revela o desejo delas quando se deparam com uma maneira de modificar suas vidas. Não é um retrato elogioso – e daí possivelmente as críticas feitas por meio do humor. Um exemplo pode ser o de Kate, a mulher de Woody, que no início pode não ser uma figura exatamente delineada além do esperado, mas que passa, ao longo da narrativa, a desempenhar um meio-termo entre sentimentos que Woody não consegue demonstrar do melhor modo, assim como uma figura capaz de surpreender os próprios filhos. Este retrato apresentado por Payne produz a sequência mais bela, possivelmente, de um filme seu, em que os personagens reencontram um cenário de passado, com árvores que lembram o filme O sacrifício – que também trata da relação entre pais e filhos – e, em seguida, uma síntese da época atual, nos Estados Unidos, de secura e afastamento de uma determinada mitologia de segurança. Por outro lado, parece ser essa mesma mudança de mitologia dos Estados Unidos que confere a este personagem uma lembrança de certo encontro com aquela mitologia de livros e histórias contadas. Na verdade, Payne trata de um país que está terminando e outro que está começando, mas um não existe sem o outro. Esta sensação se reproduz durante a narrativa de Nebraska, em maior ou menor frequência, em suas referências a guerras longínquas e ainda presentes: para Payne, os conflitos se desenham no embate mais forte, aquele do presente contra o passado. E, em paralelo a isso, temos o comportamento dos pais, igualmente inserido em suas memórias e esquecimentos, como se fossem crianças, e a atitude correspondente dos filhos, com um sentimento ainda mais infantil, principalmente quando tentam recuperar um bem importante para o pai. Hawthorne se torna mais do que um lugar para se passar alguns momentos: sua composição e arquitetura traz um sentimento permanente de infância, no entanto, como toda infância, capaz de dar novos passos.
Por isso, Nebraska mostra que a herança é uma espécie de sonho particular estendido às novas gerações, e Bruce Dern revela esta ideia da melhor forma, numa atuação contida e comovente. O diretor Alexander Payne mais uma vez não desaponta quem espera uma narrativa com elementos de humor, mas, ao mesmo tempo, densa e trabalhada num crescente. Seu filme mais introspectivo até o momento, Nebraska nos faz lembrar de como o ser humano pode se reconhecer sempre não apenas pelo passado, como também pelo futuro, por mais limitado que pareça, afinal, segundo Payne, tudo pode reservar um alento.

Nebraska, EUA, 2013 Diretor: Alexander Payne Elenco: Bruce Dern, Will Forte, June Squibb, Bob Odenkirk, Stacy Keach, Rance Howard, Mary Louise Wilson, Angela McEwan, Devin Ratray, Tim Driscoll Roteiro: Bob Nelson Fotografia: Phedon Papamichael Trilha Sonora: Mark Orton Produção: Albert Berger, Ron Yerxa Duração: 115 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: Blue Lake Media Fund / Bona Fide Productions / Echo Lake Productions

Cotação 5 estrelas