A bela e a fera (2017)

Por André Dick

Desde o sucesso bilionário de Alice no país das maravilhas, a Walt Disney vem procurando fazer versões com atores de suas animações clássicas. Em seguida, tivemos Cinderela, Malévola e ano passado Mogli – O menino lobo e Meu amigo, o dragão. Se Cinderela e Malévola fizeram sucesso e Mogli atingiu novamente uma cifra bilionária, Meu amigo, o dragão, o melhor deles, acabou tendo uma recepção moderada. Este ano as expectativas estavam voltadas para a adaptação de A bela e a fera, realizada não apenas a partir da obra de Jeanne-Marie Leprince de Beaumont, como também da adaptação do ótimo desenho animado de 1991, o primeiro a ser indicado na categoria principal do Oscar.
Se em 1991 as músicas criadas para A bela e a fera tinham uma grande surpresa, nesta versão de Bill Condon, que fez filmes como Deuses e monstros e os dois últimos da série Crepúsculo, há uma atualização de alguns temas. Com a narrativa passada na França, o filme inicia mostrando a transformação de um príncipe numa Fera, que passa a viver encastelado com seus objetos, antes pessoas de seu círculo. Na aldeia de Villeneuve, perto dali, anos depois, moram Belle (Emma Watson) e seu pai, Maurice (Kevin Kline). Gaston (Luke Evans) é um ex-soldado que tenta conquistá-la, sempre acompanhado pelo braço direito LeFou (Josh Gad).

Ela, porém, não está interessada nele. Certo dia, seu pai, numa viagem, é atacado por lobos e vai parar no castelo da Fera (Dan Stevens). Sua filha surge para resgatá-lo e se torna prisioneira em seu lugar. Exatamente como a história original e como na animação de 91. No entanto, é notável que Belle aqui é uma mulher que tenta criar uma independência do papel visualizado para a mulher, trabalhando numa biblioteca e tentando ensinar crianças a ler (o que pode ofender alguns habitantes do vilarejo), e que Gaston, mais do que um pretendente, é um vilão ameaçador e que, com sua obsessão em falar com o espelho, pode lembrar outro personagem bastante conhecido dos contos de fada.
O roteiro de Stephen Chobsky, diretor de As vantagens de ser invisível, escrito a partir de uma primeira versão de Evan Spiliotopoulos, poderia trabalhar esses temas de maneira inovadora, no entanto Condon não consegue efetuar essa transposição de uma maneira interessante. Não apenas porque a personagem de Belle surge desinteressante, apesar da empatia, em razão de uma performance pouco efetiva de Emma Watson, como porque toda a narrativa se desenvolve de maneira a não mostrar a Fera como de fato uma figura solitária.

Os símbolos funcionavam na animação, mas não funcionam aqui – e a graça dos objetos tinha um componente superior anteriormente, embora continuem interessantes Lumière (Ewan McGregor), o candelabro, Cogsworth (Ian McKellen), um relógio de lareira, e Sra. Potts (Emma Thompson), um bule de chá disposto a uma conversa. Evans e Kline têm bons desempenhos, mas o vilão é baseado estritamente numa ideia de caricatura já vista em outros filmes, sem nuances. Os personagens estabelecem vínculos, mas nunca com naturalidade, e as decisões, quando tomadas, parecem sempre pertencer a outra história, não ao que estávamos assistindo até então. As mudanças bruscas no comportamento da Fera apenas acentuam uma sensação contínua de falta de interesse para o roteiro ser de fato interessante e é decepcionante que Chobsky tenha participação nele depois do êxito de seu filme em 2012, do qual Emma Watson participava, com mais vigor.
É visível a influência de Condon: Os miseráveis, de Tom Hopper, de 2012, tanto pela composição dos cenários e figurinos (belíssimos) quanto pela inserção das canções (excelentes, novamente sob comando de Alan Menken, que recebeu o Oscar de melhor trilha sonora e canção pelo A bela e a fera dos anos 90) em meio a movimentos de câmera que tentam captar a grandiosidade dos ambientes. Uma dança numa taverna é especialmente bem feita, aliada a uma composição espetacular de cores que lembra o melhor traço visual de filmes recentes dos estúdios Disney, a exemplo de Oz – Mágico e poderoso, assim como a dança entre Belle e a Fera se sinta quase componente de um cenário de Barry Lindon.

Embora Condon tenha dirigido Dreamgirls, não há quase um sinal de seu estilo nesta obra. Além disso, há também elementos que remetem a Frozen, a animação de grande sucesso em 2013, que impedem ainda mais de o filme soar com o mínimo de identidade. Há um momento em que a câmera se distancia e mostra o castelo da Fera ao longe e este tem o formato daquele que acompanha a marca dos estúdios Disney: é como se não apenas o príncipe vivesse encastelado numa situação que não queria; a própria história não foge nem um traço do que aguardam os produtores do projeto. Se no excepcional Deuses e monstros Condon mostrava uma relação interessante entre dois homens, a tentativa de ele mostrar LeFou como um pretendente de Gaston soa como uma possibilidade de abordar um tema inicialmente à parte, mas logo se perde pela inconsistência do roteiro e seu temor de fazer qualquer abordagem nesse sentido, nem mesmo quando LeFou sabe que Belle é uma ameaça para o que deseja. Isso se associa à extensa metragem para pouca história (mais de duas horas), quando a animação tinha agilíssimos 84 minutos. Que este A bela e a fera tenha arrecadado quase meio bilhão de dólares em duas semanas de exibição é surpreendente, mas talvez justificável: não será tão cedo que a Disney arrisque numa continuação de John Carter. Mais surpreendente ainda quando o chamado caça-níquel Alice através do espelho, um semifracasso dos estúdios Disney no ano passado, se sinta uma obra realmente distinta perto desta versão.

Beauty and the beast, EUA, 2017 Diretor: Bill Condon Elenco: Emma Watson, Dan Stevens, Luke Evans, Kevin Kline, Josh Gad, Ewan McGregor, Stanley Tucci, Ian McKellen, Emma Thompson, Audra McDonald, Gugu Mbatha-Raw Roteiro: Stephen Chbosky, Evan Spiliotopoulos Fotografia: Tobias A. Schliessler Trilha Sonora: Alan Menken Produção: David Hoberman, Todd Lieberman Duração: 129 min. Distribuidora: Walt Disney Pictures Estúdio: Walt Disney Pictures

 

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4 Comentários

  1. Abra seu coração. O da fera era gelado aquela floresta. O filme é mágico. Esperando pelo DVD. Primeira vez que assisto a Bela e a Fera.

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    • André Dick

       /  25 de março de 2017

      Prezado(a),

      a animação de 91 é clássica e realmente mágica. Respeito quem gostou desta versão, mas a considero muito inferior e com problemas de desenvolvimento na narrativa, apesar da superprodução.

      Responder
  2. Anônimo

     /  29 de março de 2017

    André, desculpe esta comentando no post de outro filme, mas você vai dar sua opinião sobre Logan? Aguardo ansiosamente pois tenho suas criticas em alta estima!

    Responder
    • André Dick

       /  29 de março de 2017

      Prezado(a),

      Agradeço por suas palavras e pelo interesse! Pretendo fazer em breve uma crítica sobre Logan.

      Volte sempre!

      Um abraço!
      André

      Responder

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