Extraordinário (2017)

Por André Dick

Conhecido por escrever o romance-diário As vantagens de ser invisível e adaptá-lo para o cinema, também à frente da direção, Stephen Chbosky era o diretor ideal para Extraordinário. A partir de outro romance, um best-seller escrito por R. J. Palacio, Chbosky mostra os passos de August “Auggie” Pullmann, que possui um problema raro que afeta sua face, “disostose mandibulofacial”. Depois de várias cirurgias, ele estudou em sua casa, com aulas da própria mãe, Isabel (Julia Roberts). No entanto, antes do ensino médio, Isabel e seu marido, Nate (Owen Wilson), o matriculam numa escola particular.
A experiência de um novo mundo se descortina para August. No primeiro dia, ele é acompanhado por três futuros colegas, entre eles Jack Will (Noah Jupe). Depois, ele é ajudado pelo diretor Tushman (Mandy Patinkin) e pelo professor de inglês Sr. Browne (Daveed Diggs) a enfrentar o bullying de Julian (Bryce Gheisar) e seus amigos. Toda essa parte lembra muito As vantagens de ser invisível, que tratava de um adolescente solitário, com problemas para se enturmar e visivelmente desconfortável no colégio, que fazia amizade apenas com um professor (Paul Rudd).

Chbosky também se concentra na rotina de Olivia, ou “Via”, a irmã de Auggie, que se matricula numa peça de teatro, onde conhece um rapaz, Justin (Nadji Jeter), depois que sua amiga, Miranda (Danielle Rose Russell) passa a ignorá-la. Ela não tem vergonha do irmão, mas se sente um pouco feliz por ser colocada sempre em segundo plano pelos pais, principalmente a mãe, que desistiu de sua carreira para cuidar do filho. Chbosky, com o auxílio da ótima atuação de Izabela Vidovic, como Olivia, tira um pouco o foco do personagem central e faz com que uma coadjuvante cresça em importância para a narrativa. Nesse sentido, lamenta-se que, mesmo terno, o personagem da mãe não se destaque como poderia, e Julia Roberts entrega ainda assim uma bela atuação, e o do pai é pouco aproveitado, mesmo com o sempre interessado Owen Wilson.

Para um filme que mostra uma criança com problema de ser aceita socialmente, Chbosky é muito sensível e tenta contrabalançar realidade e fantasia. O menino é fã de Star Wars e várias vezes se enxerga como se Chewbacca estivesse chegando ao colégio. Trata-se de uma resolução talvez simplista para o problema, mas, ao mesmo tempo, toca o espectador. Sua admiração também pela ciência – sintetizada pelo fato de querer esconder seu rosto usando um capacete de astronauta – funciona em vários pontos, interligando-o a outros personagens. Do mesmo modo, há uma lembrança cortante de Via da sua avó (feita por Sonia Braga) diante de uma praia deserta que sintetiza mais o personagem do que todas as suas situações.
Talvez o filme que mais tenha contato com Extraordinário seja o belíssimo Marcas do destino, em que Eric Stoltz fazia um jovem, Roy L. Dennis, com uma doença que o fazia se parecer com o “homem elefante” de Lynch. Lá, Bogdanovich equilibrava as atuações de Stoltz e Cher, como sua mãe, com rara eficácia. Em Extraordinário, Chbosky toca em alguns pontos sensíveis quando mostra diálogos entre Auggie e sua mãe, e a química entre Tremblay e Roberts é comovente.

Depois de O quarto de Jack, pelo qual merecia uma indicação ao Oscar, Tremblay aparece sob uma maquiagem muito bem feita, mas, quando precisa realçar pontos sensíveis a seu personagem, demonstra a competência que já havia repetido este ano no curioso O livro de Henry. Ele ganha uma companhia exitosa de Vidovic e Jupe, ambos muito bem, servindo como acréscimos substanciais à sua história. Apenas se lamenta que, ao contrário do que mostra em As vantagens de ser invisível, Chbosky evita a complexidade da história e prefere estabelecer pontos entre os personagens com uma humanidade que parece por vezes encaixada demais para agradar à plateia. Seu roteiro para A bela e a fera deste ano já tinha esse problema. Isso, por um lado, não prejudica Extraordinário, uma vez que sua narrativa continua fluida, por outro lado concede certo desapontamento por não se ver esses personagens e suas inter-relações exatamente desenvolvidas. Ainda assim, seu entusiasmo diante da vida contagia o espectador.

Wonder, EUA, 2017 Diretor: Stephen Chbosky Elenco: Julia Roberts, Owen Wilson, Jacob Tremblay, Mandy Patinkin, Noah Juper Daveed Diggs, Nadji Jeter, Danielle Rose Russell, Sonia Braga Roteiro: Jack Thorne, Steve Conrad, Stephen Chbosky Trilha Sonora: Marcelo Zarvos Fotografia: Don Burgess Produção: Michael Beugg, Dan Clark, David Hoberman, Todd Lieberman Duração: 113 min. Estúdio: Lionsgate, Mandeville Films, Participant Media, Walden Media, TIK Films Distribuidora: Lionsgate

As vantagens de ser invisível (2012)

Por André Dick

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Os filmes de universo adolescente com um acento dramático e cômico próprio tiveram uma queda muito grande de qualidade depois da ausência de John Hughes, conhecido por filmes como A garota de rosa shocking e O clube dos cinco. Independente ou não de seus atores terem feito carreira, são filmes que marcaram um período nos anos 1980, identificando o comportamento juvenil com a música. Por isso, é uma grata surpresa assistir As vantagens de ser invisível, desde já uma da obras mais interessantes dos últimos anos.
O diretor de As vantagens, Stephen Chbosky, também escreveu o romance em que o filme se baseia. Daí sua proximidade dos personagens e do clima da história. Charlie (Logan Lerman) acaba de iniciar o ensino médio em sua escola de Pittsburgh, por volta do início dos anos 90, tendo o intuito de fazer amizades, a fim de não voltarem problemas psicológicos relativos a um amigo que se suicidou e à morte de uma tia, ajudado pelos pais (Kate Walsh e Dylan McDermott), pela irmã, Candace (Nina Dobrev) e pelas músicas dos Smiths. Logo ele faz amizade com um professor de inglês, Sr. Anderson (Paul Rudd), que o incentiva a ler romances, e se aproxima de Patrick (Ezra Miller) e Sam (Emma Watson), meio-irmãos, num jogo de futebol americano, de uma turma mais adiantada. A sequência em que Chbosky filma Sam num túnel ouvindo “Heroes” e Charlie falando da infinitude é a síntese inicial deste filme, cercado de quase todos os clichês do gênero (festas, experimentos com drogas, fitas de música, pôsteres de ídolos no quarto) para realçar uma improvável solidão, dificilmente tão bem focada em outros filmes, daquilo que cerca a adolescência.

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O principal elemento de As vantagens é justamente mostrar essa solidão do personagem em meio à multidão (em festas concentradas numa casa ou em festas e refeitórios da escola), assim como sua necessidade de dialogar por cartas com o amigo que se foi. Chbosky o filma contra a parede do salão de festas, enquanto Sam e Patrick aceleram ao ritmo de “Come on Eileen”, dos Dexys Midnight Runners. Ele também quer acelerar os mais de mil dias que precisa ficar na escola: deseja ser escritor e passa a gostar de Sam, protagonista, com Patrick, de uma adaptação de “The Rock Horror Picture Show”, além de esconder o segredo de seu novo amigo ser gay. A eles se juntam a budista e punk, com admiração por filmes estrangeiros, Mary Elizabeth (Mae Whitman), a cleptomaníaca Alice (Erin Wilhelmi), e Bob Stoner (Adam Hagenbuch). Não sabemos se Sam irá corresponder a ele, nem se a namorada que ele passa a ter em determinada altura criará uma reviravolta em sua vida. A sequência na qual Charlie acompanha os amigos à primeira festa, e pede à Sam para que ela prepare um milkshake, quando ele começa a caminhar pelos corredores vazios da casa, parece mostrar, ao mesmo tempo, não apenas a solidão do personagem principal, como Chbosky deseja, como também a do próprio grupo que ali se insere. Ali, parece acontecer apenas uma festa – no entanto, a diferença é justamente cada um dos que levantam o brinde.
O seu deslocamento e a necessidade ou não de ser invisível é o mote para que o diretor consiga dosar tanto elementos pop, na conformidade reconhecida, quanto alguns experimentos com a direção de arte: As vantagens de ser invisível lembra, às vezes, pela iluminação quase atemporal de Andrew Dunn, um filme clássico, dos anos 70. Talvez porque ele consiga falar realmente para todas as gerações. Há lotes e cargas de sensações aqui, mesmo em lugares-comuns a todos, mesmo se esperando justamente que um amigo defenderá o outro, seja qual for a circunstância, ou o ato de ser surpreendido pela pessoa de quem se gosta. Demarcando as sequências, existe uma trilha sonora quase sempre afeita ao gosto dos personagens, e as experiências que podem resultar de ouvi-la seguem de acordo com cada personagem. Há  previsíveis viagens psicodélicas (um rótulo adolescente), alguns personagens um tanto mal desenvolvidos, mas, ao mesmo tempo, há uma dolorosa passagem de tempo, seja quando se vai para as férias, seja quando se é preciso seguir o ritual da escola. Escolher entre um relógio acertado e outro nem tanto: eis as escolhas do diretor, evidenciadas pela impressão de estarmos vendo um panorama abrangente na pele de cada um desses personagens. Embora em alguns momentos a narrativa apresente repetições, é com olhar melancólico que acompanhamos a trajetória dos personagens, na contagem regressiva para a despedida ou reencontro do túnel da adolescência.

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As vantagens de ser invisível emprega para os adolescentes o que Na estrada insere em jovens que desejam transgredir. Mas há uma separação evidente aqui: enquanto os beats significavam um pedaço da América que queria fugir ao establishment (e certamente, no futuro, não fugiriam), os personagens de As vantagens de ser invisível desejam constituir o que eles chamam de plano de vida perfeito, sobretudo serem aceitos numa universidade. A personagem de Sam não é Marylou, porém existe uma antecipação nela dos períodos afetivos que a Charlie chegam de modo diferente. E é nisso que, ao final descobrimos, os aproxima tanto, também pelas falhas e feridas que cada um proporciona ao outro. Notável, também, quando Charlie e Patrick saem à noite, de carro, e se deparam com o tentativa de contornar uma separação por meio da amizade e do afeto incalculado. Daí, o diretor Chbosky conseguir reproduzir as reminiscências de forma tão dolorosa, sem, em nenhum momento, recorrer a alguma manipulação gratuita, capaz de afetar os personagens, nem mesmo com o acento psicológico da parte final.
Em sua segunda experiência na direção, Chbosky alcança isso em razão de um elenco escolhido minuciosamente: é difícil imaginar um ator tão exato para o papel principal quanto Logan Lerman, a despeito de, na maioria das vezes, ele ter a necessidade de se mostrar introspectivo, e Watson consegue demonstrar uma fragilidade emocional quase desconhecida em sua participação na série Harry Potter. Já Ezra Miller foi o ator principal de um dos filmes que menos apreciei no ano passado (Precisamos falar sobre o Kevin). Sua participação em As vantagens mostra, no entanto, que ele é um ator diferenciado, capaz de demonstrar nuances na sua interpretação, a meu ver ausentes no personagem de Kevin.
São atores e personagens em ponto de conversação constante, e o diretor consegue expandir cada um de modo inspirador. Em nenhum momento, e isto é especialmente destacável, As vantagens de ser invisível parece a adaptação de uma história, mas a história em si, ou seja, ela consegue, de modo natural, trazer as situações para perto, de modo que não conseguimos distinguir mais sua própria ambientação daquela que costumamos imaginar em alguma fita perdida com inúmeras músicas de bandas recém-descobertas ou mesmo da luminosidade de lâmpadas e estrelas quando se precisa sair de um ambiente coberto para finalmente tentar entender o que se passa do lado de fora.

The Perks of Being a Wallflower, EUA, 2012 Diretor: Stephen Chbosky Elenco: Logan Lerman, Ezra Miller, Emma Watson, Nina Dobrev, Paul Rudd, Mae Whitman, Melanie Lynskey, Kate Walsh, Dylan McDermott, Johnny Simmons, Nicholas Braun Produção: Lianne Halfon, John Malkovich, Russell Smith Roteiro: Stephen Chbosky Fotografia: Andrew Dunn Trilha Sonora: Michael Brook Duração: 103 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Summit Entertainment / Mr. Mudd

Cotação 5 estrelas