A lavanderia (2019)

Por André Dick

O cineasta Steven Soderbergh sempre teve um projeto cinematográfico voltado a mostrar o indivíduo tentando enfrentar um sistema oculto ou visível, de modo que sua obra pode ser vista como uma extensão das ideias que revelam os choques entre as pessoas à margem dele. De certo modo, isso constitui alguns de seus melhores projetos, a exemplo de Erin Brokovich. Ao mesmo tempo, ele busca rechaçar o sistema de tratamento psiquiátrico, em peças como Terapia de risco e Distúrbio, em meio à série buscando a diversão em assaltos de Onze homens e um segredo. Ainda ele vê certo atrativo em universos deteriorados, como em Contágio e Kafka.
Em A lavanderia, ele acompanha Ellen Martin (Meryl Streep), que está em férias com o marido Joseph David (James Cromwell) quando acontece algo terrível. Ela passa a buscar meios de como processar a vida sob outra condição, tendo de lidar com determinados seguros que a levam a uma teia muito delicada de corrupções e desvios ligados a um escritório de advocacia da Cidade do Panamá, dirigido por Jürgen Mossack (Gary Oldman) e Ramón Fonseca (Antonio Banderas).

Eles prestam serviços para os mais variados clientes – e não necessariamente honestos, incluindo bandidos declarados, como traficantes, e ditadores. Ellen está aos poucos consciente de que sua vida ao lado da filha, Melanie (Melissa Rauch) e dos netos é apenas um resquício de um grande conglomerado de interesses escusos.
Com um início satirizando a aurora da humanidade de Kubrick em 2001 (e o cineasta teve parte de seu patrimônio envolvido na mesma questão que apresenta o filme), Soderbergh está interessado em ligar esse mosaico da vida minúscula de Ellen com uma discussão relacionada a negócios. Neste ano, ele já havia oferecido uma visão contundente sobre o universo do basquete em High flying bird, mas é em A klavanderia que ele utiliza uma trama provocadora.

Baseado numa atuação concisa e excelente de Streep, são, no entanto, Oldman e Banderas que brilham em papéis evocando A grande jogada, de Adam McKay. Assinando com seu pseudônimo Peter Andrews, Soderbergh apresenta um trabalho de fotografia notável, parecendo ampliar sempre cada cenário com lentes luminosas (e ele sempre foi experimental, mesmo nos momentos mais fracos, a exemplo de Full frontal). As reuniões do Capitão Ethan Allen (Robert Patrick) e Matthew Quirk (David Schwimmer), sócios de uma balsa que causa o conflito do primeiro ato, num pub são especialmente agradáveis, apesar do assunto insensível, ligado a papéis não comprováveis da Shoreline Cruises, levando a um vigarista das Bahamas, Irvin Boncamper (Jeffrey Wright).
Soderbergh, baseado num roteiro de Scott Z. Burns, a partir de Based on Secrecy World: Inside the Panama Papers Investigation of Illicit Money Networks and the Global Elite, de Jake Bernstein, joga com os personagens em diferentes espaços e suas ações sendo colhidas numa cadeia, como ele se especializou em mostrar no ótimo Traffic. Há uma base numa história verdadeira, a dos Panama Papers, mas ele cresce exatamente em pontos rotineiros, quando mostra um ricaço, Charles (Nonso Anozie), que é pego numa situação delicada pela filha Simone (Jessica Allain) e precisa contorná-la tentando esconder da sua esposa Miranda (Nikki Amuka-Bird). Por trás, os acordos familiares e, do mesmo modo, o eco dos Panamá Papers. É interessante como Soderbergh, como em Logan Lucky, seu filme de assalto nos bastidores de uma corrida de automóveis mostra também dois homens reunidos num bar (Will Forte e Chris Parnell), em algo que lembra A mula, de Eastwood. Também temos em viagem ao Oriente o personagem Maywood (Matthias Schoenaerts), se envolvendo numa estranha situação com Gu Kailai (Rosalind Chao).

A lavanderia não é necessariamente um drama ou uma comédia, situando-se num meio-termo oportuno que conduz o risco de emprego de dinheiro em questões duvidosas. Embora toda a narrativa que envolve a personagem de Streep seja mais de um drama de Hollywood, interrompido apenas por uma cena em que ela imagina fazer algo, em outros momentos o filme parece uma sátira, que, embora lembre A grande aposta, não tem o encantamento de McKay pelas trapaças. Ou seja, Soderbergh lança um certo pesar mesmo quando parece brincar com as vítimas das enganações de Mossack e Fonseca – e ao filmá-los por meio de imagens emulando propagandas luminosas lança, na verdade, uma bruma de dúvida sobre seu comportamento. Nesse sentido, o filme de Soderbergh, apesar de nunca explorar com a devida ênfase seus personagens, é um estudo muito curioso sobre o universo dos negócios e o reflexo na vida de várias pessoas, mesmo que pareça episódico. É na sua aparente leveza que sua trama se fortalece de maneira substancial, definindo-se como um dos melhores momentos na trajetória de Soderbergh e do cinema deste ano.

The laundromat, EUA, 2019 Diretor: Steven Soderbergh Elenco: Meryl Streep, Gary Oldman, Antonio Banderas, Jeffrey Wright, Robert Patrick, Nonso Anozie, Melissa Rauch, Jessica Allain, Nikki Amuka-Bird, David Schwimmer, Sharon Stone Roteiro: Scott Z. Burns Fotografia: Steven Soderbergh (como Peter Andrews) Trilha Sonora: David Holmes Produção: Scott Z. Burns, Lawrence Grey, Gregory Jacobs, Steven Soderbergh Michael Sugar Duração: 95 min. Estúdio: Anonymous Content, Grey Matter Productions, Topic Studios, Sugar23 Distribuidora: Netflix

O retorno de Mary Poppins (2018)

Por André Dick

No clássico Mary Poppins de 1964, duas crianças, Michael e Jane, causam muitos problemas aos pais, até o dia em que pedem uma nova babá. Quem chega, voando de guarda-chuva, é a personagem-título (Julie Andrews), que transforma a vida dessa família tradicional, administrada por Mr. Banks (David Tomlinson). O melhor amigo dela é um rapaz que faz apresentações no parque – talvez a interpretação mais conhecida de Dick Van Dyke. Enquanto Mary viaja com as crianças por um mundo encantado (a primeira mistura perfeita de humanos com animação), Banks pretende associá-las ao banco onde trabalha. Mary Poppins é, ao mesmo tempo, um musical e um filme infantojuvenil clássico. Difícil negar sua qualidade e números de dança, como o da chaminé, na qual se mistura a realidade e a fantasia para recriar um novo mundo. Desde a parte técnica, passando pela direção e elenco, a obra de Robert Louis Stevenson baseada em livro de P.L. Travers marcou época.
Em 1971, na mesma linha, foi realizado Se minha cama voasse, do mesmo diretor de Mary Poppins, também com algumas cenas animadas. A atriz da Broadway Angela Lansbury faz uma aprendiz de feiticeira na época da invasão nazista. Utiliza uma de suas mágicas para fazer uma cama voar e leva junto três crianças. Juntas, viajam para um mundo animado (com cenas que lhe valeram o Oscar de efeitos especiais).

A história de O retorno de Mary Poppins inicia em 1935, na mesma Londres no primeiro, agora no período da Grande Depressão. Michael Banks (Ben Wishaw), mais velho e que perdeu sua mulher Kate há um ano, cria os três filhos, Annabel (Pixie Davies), John (Nathanael Saleh) e Georgie (Joel Dawson), com a ajuda da governanta Ellen (Julie Walters). Com problemas no banco, ele precisa travar um embate com o rei William “Weatherall” Wilkins Jr. (Colin Firth), de quem é empregado e é o novo presidente do Fidelity Fiduciary Bank. É um começo que remete muito ao argumento de Os Goonies, embora baseado numa das sequências escritas por P. L. Travers, e Michael e sua irmã Jane (Emily Mortimer), ao lembrarem que o pai deixou ações no Fidelity Fiduciary Bank, passam a procurar a prova da propriedade. Michael encontra a pipa de infância, que coloca em pertences para venda. Quando as crianças veem Mary Poppins descer do céu para ajudá-los, junto com essa pipa, ela é uma brisa literal de esperança.

A partir daí, vem o problema dessa sequência: Jane e Michael, ao reencontrarem Mary Poppins, parecem não sentir nenhuma emoção em especial – apesar de Rob Marshall encadear canções que tentem motivá-la junto aos personagens, repetindo até a mistura entre humanos e animação num dos pontos mais nostálgicos do filme, em que aparece ainda como destaque o acendedor de luzes de rua Marty (Lin-Manuel Miranda) e uma tigela se torna o objeto-chave da narrativa, sendo levada para uma excêntrica Topsy (Meryl Streep, descontrolada e ainda assim um bom acréscimo, reeditando por um breve momento a parceria com Blunt de O diabo veste prada), capaz de arrumá-la. A história segue os passos de Hook – A volta do Capitão Gancho, com a passagem do tempo como conceito de fundo para os acontecimentos e a velha rivalidade da Disney com as cifras (existente só dentro de seus filmes), o que já aparecia este ano no superior Christopher Robin.

Visualmente, O retorno de Mary Poppins é uma peça encantadora: poucas obras nos jogam de volta numa atmosfera dos anos 60, graças ao trabalho de fotografia de Dion Beebe (habitual parceiro de Marshall) e ao figurino irretocável de Sandy Powell (vencedora de três Oscars), com cores remetendo ao trabalho que apresentou em A invenção de Hugo Cabret, mas sem perder o verniz de contemporaneidade, e o elenco tenta lidar bem com o roteiro disperso. Embora Blunt tenha carisma, ela não consegue, em razão do roteiro, se alçar no papel como Julie Andrews, por um detalhe substancial: ela não tem, curiosamente, uma grande presença em cena. Por vezes, sente-se que Mary Poppins está na história apenas para justificar que se trata de uma sequência – ou melhor, um remake disfarçado – do filme de 1964. Blunt cresceu muito como atriz nos últimos anos, porém não lhe é dado o devido espaço para mostrar a atriz talentosa que é, a não ser alguns maneirismos que lembram os de Andrews, curiosamente ausente da sequência mesmo em se tratando de alguma homenagem. Enquanto isso, Lin-Manuel Miranda é uma grata surpresa, rivalizando com a empatia de Dick Van Dyke. Se as fichas fossem concentradas na relação entre Mary Poppins e Marty, a obra certamente cresceria. O problema central é a direção de Marshall, acompanhada pelo roteiro de David Magee, responsável pelos bons diálogos de Em busca da terra do nunca, sobre o criador de Peter Pan e As aventuras de Pi. No entanto, não se deve esquecer que Wishaw, Firth e a atuação das crianças não são pontos para a história criar a densidade, mesmo fantasiosa, de que necessitava.

Vencedor do Oscar por Chicago, ele fez Memórias de uma gueixa, Nine, Caminhos da floresta e outras peças que não primavam pelo estilo próprio. Em O retorno de Mary Poppins, ele tenta captar o que Stevenson fez no primeiro, no entanto o apanha apenas no visual, uma vez que as sequências musicais parecem intrusivas e pouco naturais, embora as canções sejam afetivas, e o embate entre reis das finanças com o homem mais simples é, em se tratando de seus propósitos, no mínimo forçado. Marshall não tem um grande talento para compor momentos grandiosos, e eles existiriam em profusão aqui se melhor encenados, assim como o design de produção se mostra menos amplo do que o esperado, excessivamente de estúdio. Mesmo com todos os elementos à mão, ele sempre prefere a montagem caótica, ligeira demais, quando os temas tratados exigem um tratamento mais lento. É ele certamente o responsável por O retorno de Mary Poppins ser mais um lembrete do quanto o filme de 1964 foi marcante. É agradável, contudo seu potencial exigia ser muito mais do que isso.

Mary Poppins returns, EUA, 2018 Diretor: Rob Marshall Elenco: Emily Blunt, Lin-Manuel Miranda, Ben Whishaw, Emily Mortimer, Julie Walters, Dick Van Dyke, Angela Lansbury, Colin Firth, Meryl Streep Roteiro: David Magee Fotografia: Dion Beebe Trilha Sonora: Marc Shaiman Produção: Rob Marshall, John DeLuca, Marc Platt Duração: 130 min. Estúdio: Walt Disney Pictures, Lucamar Productions, Marc Platt Productions Distribuidora: Walt Disney Studios Motion Pictures

The Post – A guerra secreta (2017)

Por André Dick

O diretor Steven Spielberg é um dos grandes nomes indiscutíveis do cinema. Ter realizado EncurraladoTubarão e Contatos imediatos do terceiro grau nos anos 70, e Os caçadores da arca perdidaE.T., A cor púrpura e Império do sol nos anos 80 já é motivo suficiente para ter seu nome entre os maiores da história. No entanto, a partir dos anos 90, mais especificamente depois de Jurassic Park, Spielberg foi aos poucos se afastando do gênero da fantasia e mais fantástico – no qual se destacou também como produtor –, incorporando filmes com elementos históricos, a exemplo de A lista de SchindlerAmistad O resgate do soldado Ryan. Nos anos 2000, apesar de fazer algumas ficções referenciais, como Inteligência artificial,  Minority Report e Guerra dos mundos, o tom era sempre soturno, alternando novamente com filmes sobre questões históricas, entre os quais Munique, com alguma folga aventuresca em Indiana Jones e o reino da caveira de cristal. Um respiro original foi sua parceria com DiCaprio em Prenda-me se for capaz e o dramático e cômico O terminal.

Neste início de década, ele apresentou mais dois filmes, dois mais dramáticos, Cavalo de guerra e Lincoln, e uma bela animação, As aventuras de Tintim. Novamente fez um drama histórico em Ponte dos espiões e uma fantasia de animação em O bom gigante amigo. Esta tendência de Spielberg de alternar fantasia – as últimas vezes em escala soturna, exceto para a aventura de Indiana e as animações com Tintim e BFG – com filmes com pano de fundo histórico não o tornou exatamente um cineasta previsível, no entanto parece bem mais acomodado.
Em The Post – A guerra secreta, Spielberg tem o intuito de revelar os bastidores de várias publicações feitas sobre segredos do Pentágono, relacionadas ao Secretário de Defesa, Robert McNamara (Bruce Greenwood), e o presidente Lyndon Johnson, que vão eclodir na gestão de Nixon, em exercício na época enfocada, início dos anos 70. A responsável pelo The Washington Post, Katherine Graham (Meryl Streep), tem uma amizade protocolar com o editor Ben Bradlee (Tom Hanks), que se envolve nessa divulgação de documentos secretos, vazados por Daniel Ellsberg (Matthew Rhys) primeiramente para o New York Times. Enquanto Bradlee é casado com Antoinette (Sarah Paulson), Katherine, viúva e reservada, tenta lidar com a pressão exercida por Fritz Beebe (Tracy Letts) e Arthur Parsons (Bradley Whitford).

Com sua equipe habitual, incluindo o fotógrafo Janusz Kaminski e o músico John Williams, Spielberg não se arrisca em nenhum momento de seu novo filme. Ele inclui no elenco Hanks, seu ator preferido, e Meryl Streep, ambos em papéis que poderiam ser melhor delineados, sendo difícil encontrar neles as nuances que os temas políticos exigiriam. O roteiro de Liz Hannah e Josh Singer, este vencedor do Oscar por Spotlight, se sente como uma coleção de mensagens e críticas à política, como se por meio do cinema não se fizesse também política muitas vezes. Nisso, há um interesse de Spielberg pela guerra do Vietnã pela primeira vez desde os anos 70, já que parte de sua filmografia é dedicada à Segunda Guerra Mundial.
The Post se sente como uma mescla entre Todos os homens do presidente, sem nunca alcançar a mesma tensão e desenvoltura dramática, e exatamente Spotlight, mas Spielberg parece confundir fantasia e realidade: a redação do Washington Post lendo um determinado jornal de maneira ampla e irrestrita soa teatral e simétrica demais. A começar por Bradlee, todos parecem um pouco figuras ingênuas, desconhecendo o poder que tem às mãos tanto quanto os políticos. Bradlee, feito por Hanks de maneira desinteressante (algo raro em sua carreira), oscila entre certo oportunismo e depois um discurso libertário, enquanto a personagem de Streep transporta o desconhecimento sobre os temas do dia a dia da redação de jornal para um patamar de interessada por tudo o que acontece no The Washington Post. Spielberg se equivoca em diferentes momentos, abusando do tom jornalístico e depois do tom sentimental que lhe é tão caro na sua carreira e apenas não o prejudica quando é amparado por um bom roteiro, o que não acontece aqui. Talvez os momentos mais autênticos fiquem com o assistente de Bradlee, Ben Bagdikian (Bob Odenkirk, eficaz), pois parecem recordar um filme dos anos 70, principalmente quando realiza sua investigação.

The Post marca um momento decisivo na trajetória de Spielberg. Preocupado com os movimentos da história, ele parece se aproveitar de um determinado contexto para colocar o papel da imprensa em discussão, mas o faz por meio de um assunto (Guerra do Vietnã) que não necessariamente é o mesmo da atualidade. Ele parece não entender que o jogo do poder, em que se digladiam política e jornalismo, acontece desde sempre, isolando fatos que justificariam uma correspondência temporal. Seu filme não tem a urgência mesmo de um Jogos de poder, com o mesmo Hanks, porque não conta com um roteiro afiado nem personagens que não sejam apenas símbolos de uma bondade pura. Particularmente, ele poderia ter feito um retrato do que ele considera prejudicial na atualidade sem recorrer a um contexto histórico diferente, ou seja, a história mostrada passa a ser apenas metáfora de outra. Mesmo que ele possa encontrar elementos parecidos em ambos os contextos, a história tem pesos diferentes.
Hoje, há um confronto de ideologias nos Estados Unidos que reflete em debates sobre a liberdade de imprensa, mas esta, contrariada ou não, tem direito de falar o que quiser (inclusive com diversos meios e mídias) e tem o direito esclarecido de publicar os documentos oficiais que quiser, independente de perder contatos no poder. No entanto, na época de Nixon, havia algo mais: uma tentativa de ele proibir judicialmente informações ao público sobre milhares de mortes que não precisavam ter ocorrido no Vietnã. Por isso, Spielberg mescla duas discussões distintas como se fossem a mesma. Era uma tragédia, independente de estar ligada à condição da imprensa, que, de qualquer modo, se fez justa porta-voz com o vazamento. Não se convence o espectador com Bradlee colocando os pés sobre a mesa e querendo ler as milhares de páginas do Pentágono para ele próprio desencavar as matérias. Isso é tratar o espectador de maneira duvidosa. Quanto ao personagem de Streep, lamenta-se que um cineasta que enfocou o universo feminino praticamente apenas no belíssimo A cor púrpura não consiga lhe dar a ênfase necessária, porém se entende, pois seu foco sempre foram personagens de homens ou garotos. Streep não tem um bom roteiro à mão, mas sua atuação também não ajuda (sua inclusão entre as indicadas ao Oscar de melhor atriz é uma das grandes injustiças desse ano). E, quando se coloca um jornal para ser impresso, com matérias impactantes e que podem mudar a história, é estranho Spielberg usar a trilha de John Williams como se Peter Pan chegasse à Terra do Nunca. Não duvido que Spielberg não esteja brincando, mas parece.

The Post, EUA, 2017 Diretor: Steven Spielberg Elenco: Meryl Streep, Tom Hanks, Sarah Paulson, Bob Odenkirk, Tracy Letts, Bradley Whitford, Bruce Greenwood, Matthew Rhys, Michael Stuhlbarg Roteiro: Liz Hannah, Josh Singer Fotografia: Janusz Kamiński Trilha Sonora: John Williams Produção: Steven Spielberg, Kristie Macosko Krieger, Amy Pascal Duração: 115 min. Estúdio: DreamWorks Pictures, Amblin Partners, Amblin Entertainment, 20th Century Fox, Participant Media, Pascal Pictures, Star Thrower Entertainment Distribuidora: 20th Century Fox

 

O fantástico Sr. Raposo (2009)

Por André Dick

Em um ensaio de Estâncias, o filósofo italiano Giorgio Agamben recorda de um texto intitulado “Moral do brinquedo”, em que o poeta Charles Baudelaire narra a visita que fez, quando criança, à casa de uma certa Madame Panckhoucke – citando as palavras de Agamben: “Ela tomou-me pela mão e juntos atravessamos muitas habitações; depois, abriu a porta de um quarto, que me proporcionou um espetáculo extraordinário e realmente fabuloso. Os muros, por estarem cobertos de brinquedos, já não eram mais visíveis. O teto desaparecia sob a florescência de brinquedos que pendiam como estalactites maravilhosas. O piso deixava apenas pequeno espaço onde pôr os pés… Por causa dessa aventura, é que não posso parar diante de uma loja de brinquedos e percorrer com o olhar a inextricável multidão das suas formas bizarras e das suas cores díspares, sem pensar na senhora vestida de veludo e de pele, que me aparece como a Fada do brinquedo”. Para Agamben, Baudelaire desenha “um misto de alegria impenetrável e de frustração estupefata, que está na raiz quer da criação artística, quer de toda relação entre os homens e os objetos”. Deslocando-se para o livro A criança e a vida familiar no Antigo Regime, de Ariés, Agamben considera que até o século XVIII a Europa adulta “procura avidamente os objetos em miniatura, as casas de boneca…” – sendo que os “historiadores de brinquedos (nas palavras de Ariés), os colecionadores de bonecas e de objetos em miniatura, encontram sempre muita dificuldade para distinguir as bonecas de brinquedo de todas as outras imagens e estatuetas […].”. Para Agamben, em outro ensaio, “O país dos brinquedos”, “o brinquedo é uma materialização da historicidade contida nos objetos que ele consegue extrair por meio de uma manipulação particular”.

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Esta manipulação particular e o encontro com uma casa de brinquedos com a avidez de um historiador é o que move Anderson, sobretudo em O fantástico Sr. Raposo, baseado numa história de Roald Dahl, autor de histórias infantis adaptadas para o cinema com grande êxito, como os dois A fantástica fábrica de Chocolate, James e o pêssego gigante, Matilda e mesmo Gremlins (cujo livro homônimo de Dahl serviu de base para o filme de Joe Dante). Desde o início, quando num travelling horizontal – que dialoga diretamente com o início de Moonrise Kingdom –, Anderson coloca o espectador numa espécie de redoma de brinquedo e, depois de mostrar o Sr. Raposo (George Clooney) e a  Sra. Raposa (Meryl Streep), roubando um galinheiro – para ela dizer que está grávida, pedindo que ele deixe a vida de ladrão e procure outro emprego –, os mostra em mudança para uma nova casa – numa árvore –, tudo lembra uma casa de bonecas. Por se tratar de raposas e texugos, tendo esquilos como transportadores de mudança, O fantástico Sr. Raposo mostra tocas e mais tocas, onde os personagens passam, cavando por vontade ou desesperados. O casal já tem um filho, Ash (Jason Schwartzman), que quer ser esportista, mas não consegue chegar ao talento do pai. Com a chegada de um primo mais ágil, Kristofferson (Eric Anderson), ele acaba ficando ressentido – sobretudo porque o primo é convidado pelo pai e pelo gambá, Kylie (Wallace Wolodarsky), para participar do roubo de galinhas a propriedades vizinhas, dos fazendeiros mais temidos de toda a história da região, Boggis (Robin Hurlstone), Bunce (Hugo Guinness) e Bean (Michael Gambon), que abrem fogo contra o Sr. Raposo. “Ele mal chegou e já ganhou máscara de bandido”, diz ele, revoltado.

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Aconselhado a não se mudar para lá, o Raposo não dá ouvidos ao advogado, Badger (Bill Murray), pois quer, afinal, seguir seu instinto de caçar galinhas, indo contra a vontade da esposa, que adora pintar plantações sob tempestades de raios (e a pintura é referência contínua de Anderson, como vemos com Sam de Moonrise Kingdom). No plano animal, o adversário é o Rato (Willlem Dafoe) – que ganha, ao longo do filme, a animação mais assustadora, sobretudo pelo tamanho que parece ter dentro dessa caixa de brinquedos movida por Anderson.
Tendo tocas como cenários e a reconstituição cuidadosa da casa da família de raposas com miniaturas condizentes, Anderson, mais ainda do que em Os excêntricos Tenenbaums ou A vida marinha com Steve Zissou, investe num imaginário propício às fábulas. Se as personagens nunca agem como personagens de uma fábula normal – as gags para adultos são muitas – , é porque Anderson investe todo o seu estilo, em pinceladas de humor também visual e uma ágil troca de diálogos, em roteiro escrito pelo diretor em parceria com Noah Baumbach (diretor de A lula e  a baleia), já estabelecida em A vida marinha com Steve Zissou. Ele chegou a competir com Up – Altas aventuras ao Oscar de melhor animação, e este filme é sem dúvida bastante semelhança com Sr. Raposo no sentido de que é mais dirigido a adultos. Anderson deseja investir sua concepção visual num stop-motion dos mais originais – correspondendo-se com alguns crustáceos filmados em noite de lua cheia por Zissou –, em que cada personagem ganha uma movimentação crível (destaca-se, por exemplo, a presença de alguns cães), colocando, para aproximar espectador e filme, os personagens falando diretamente para a câmera, com a habitual tendência de Anderson em buscar o enquadramento exato.

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Lá estão todos os elementos que vemos na filmografia “com atores” de Anderson: a família é sempre um lugar para a juventude tentar crescer da melhor forma, mesmo que ela apresente às vezes alguns valores duvidosos – o filho ficar triste porque não é convidado pelo pai a ser um “bandido”, por exemplo. Mas o pai, como um Royal Tenenbaum, que vive de enganações, e tenta deixar de escrever no jornal da cidade para ser respeitado novamente como um caçador, não deseja apenas refazer sua vida: ele não sabe exatamente o que está fazendo e, quando arrasta a todos para dentro da situação, o que lhe resta é tentar liderar uma revolução e se transformar novamente numa referência. Mas as coisas, a partir daí, já mudaram: para Anderson, no entanto, dentro ou fora da árvore – ou da caixa de brinquedos –, os personagens devem continuar sobrevivendo, mas não sem humor ou música. O fantástico Sr. Raposo é uma peça de grande apelo justamente por sua inteligência em mesclar o universo das fábulas com o da música pop (temos até mesmo uma participação de Jarvis Cocker, do Pulp, em forma de animação), sem reduzir o seu universo, com a ajuda de uma magnífica fotografia de Tristan Oliver, ocupando o cargo do colaborador habitual do diretor, Robert D. Yeoman.
É bem verdade que, por ser dirigido ou não às crianças, mais do que seus outros filmes, Anderson se arrisca, aqui, a tentar dar uma certa lição moral – no que acaba não tendo controle, perdendo, no meio do filme, alguma parte da força que existe no restante –, mas acaba se recuperando e compondo um retrato corrosivo de uma família, assim como seu referencial Os excêntricos Tenenbaums e uma meditação sobre a violência contra animais da maneira mais surpreendente que se pode imaginar e, ao mesmo tempo, brincando com golpes de artes marciais. Não é sempre que vemos raposas, texugos e gambás agindo em conjunto ou não – em Anderson, no entanto, mais do que interessante, torna-se memorável.

Fantastic Mr. Fox, EUA, 2009 Diretor: Wes Anderson Elenco: George Clooney, Meryl Streep, Bill Murray, Jason Schwartzman, Owen Wilson, Michael Gambon, Helen McCrory, Roman Coppola, Brian Cox, Wallace Wolodarsky, Robin Hurlstone, Hugo Guinness, Jarvis Cocker Roteiro: Wes Anderson, Noah Baumbach Fotografia: Tristan Oliver Trilha Sonora: Alexandre Desplat Produção: Wes Anderson, Allison Abbate, Jeremy Dawson, Scott Rudin Duração: 87 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: American Empirical Pictures / Twentieth Century Fox Film Corporation / Blue Sky Studios / Indian Paintbrush / Twentieth Century Fox Animation

Cotação 4 estrelas

 

Um divã para dois (2012)

Por André Dick

A realização de filmes que mesclam drama com elementos de humor é cada vez mais difícil no cinema atual. Temos alguns filmes que conseguem realizar essa mistura de maneira efetiva, como Melhor é impossível e Alguém tem que ceder, ambos com Jack Nicholson. Este tipo de narrativa depende muito dos atores envolvidos: qualquer um que fuja à caracterização pretendida faz a história se perder. A dependência dos atores é visível em Um divã para dois: o casal, interpretado por Meryl Streep e Tommy Lee Jones, é totalmente crível. Ao assisti-los em cena, não temos dúvida de que eles realmente vivem num casamento (embora melancólico). Ele interpreta um contador, Arnold Soames, que repete a rotina todos os dias: antes de sair pela manhã para o trabalho, aguarda sua mulher, Kay, colocar na mesa o prato com bacon e ovo frito e abre o jornal, sem dizer “bom dia”; quando chega, vai jantar e vê um jogo de golfe, dormindo em frente à TV, para ser acordado e ir para a cama – num quarto separado. Repentinamente, Kay decide que seu casamento não pode ficar nesta situação e vai à livraria procurar uma obra de autoajuda. Acaba encontrando uma escrita por Bernie Feld (Steve Carell) e, no dia seguinte, resolve comprar um pacote de terapia de casais justamente para consultar o médico. No entanto, ele se encontra em Hope Springes, cidade fictícia do Maine, e Arnold é pressionado a ir junto. Daí em diante, nas mãos de um diretor ruim e de um elenco comum, o filme certamente se perderia. Mas, com a direção de David Frankel – que realizou o divertido O diabo veste prada e o irregular Marley e eu –, isso não acontece: ele consegue dosar justamente o drama do casal que não consegue se entender com elementos de humor.
Chegando a Maine, Arnold reclama dos valores a serem pagos em lanchonetes e cafés. Piora a situação quando conhece, com Kay, Bernie Feld, e este os impele a discutir temas ligados ao relacionamento, tendo sempre como mote a relação sexual. No papel de Bernie, Steve Carell mostra seu talento para papéis comedidos e excêntricos. Ele já mostrava bastante talento em outros filmes, como Amor a toda prova (em que contracenava com Ryan Gosling). Mas, como melhor ator ainda, ele serve de escada para os personagens de Arnold e Kay discutirem a vida. Tanto Tommy Lee Jones quanto Meryl Streep estão excelentes em seus papéis – ao mesmo tempo convincentes e afinados –, e as situações em que são provocados pelo terapeuta valem o filme, passando boa parte da metragem no sofá dele, o que exige dos atores uma minúcia para gestos corporais e uma fala quase teatral, com poucos movimentos.

Pode ser que algumas vezes o diálogo se traduzam em algo previsível – renderia, talvez, melhor com roteiro de Woody Allen –, contudo os atores, mostrando vulnerabilidade, tornam uma obra que poderia ser previsível em uma narrativa humana. Esse casal circula ao redor de Bernie, da paisagem de Home Springs – uma cidade do interior que ganha profundidade com a fotografia de Florian Ballhaus – e pouco lida com outros personagens – Elisabeth Shue aparece perdida em uma ponta, indigna do seu talento, que já conhecemos desde Despedida em Las Vegas –, em torno do afastamento que procuraram em suas vidas. A insegurança de Tommy Lee Jones rende alguns de seus melhores momentos como ator. Estamos acostumados a vê-lo em papéis de xerife (como em Onde os fracos não têm vez), militares (em Capitão América) ou de agente do futuro mau humorado (na série Homens de preto), mas é em Um divã para dois que, seguindo o modelo de Jack Nicholson, ele se reinventa e sai do estereótipo ao qual é associado durante sua trajetória. O momento em que ele planeja um jantar com ela é significativo para mostrar o que ele chama, mais adiante, de “raros momentos felizes”, esperando que tudo volte ao normal (e talvez neste ponto o filme acabe diminuindo sua intensidade ao final). E uma sequência que se passa justamente num cinema mostra que só uma atriz como Meryl Streep se sairia bem dela sem chamuscar sua carreira. Inegável o talento da atriz em aproveitar situações corriqueiras para mostrar insegurança, como nos momentos em que ouve o marido contar sobre desejos que tem ao terapeuta. Por seu potencial dramático, os olhares que ela faz para ele e o terapeuta mostram as contradições de uma vida toda, assim como a sequência inicial, em que ela se prepara para ir ao quarto dele.
Bernie tem, ao longo do filme, a função de provocar os personagens, para que eles saiam da comodidade e é interessante que o diretor não queira mostrá-lo em sua própria vida cotidiana, ou seja, só o vemos dentro da sala, para a terapia de casal. É uma escolha inteligente do diretor, pois mostra que esses personagens precisam se reconciliar a partir dos encontros com ele e sua presença não é inserida no cotidiano até o último momento.
A dificuldade de relacionamento, situada muitas vezes pelo olhar de Bernie durante algumas discussões e falta de soluções para o afastamento do casal, se corresponde diretamente com Alguém tem que ceder, que mostra uma dramaturga (Diane Keaton) que se apaixona por um empresário da música (Jack Nicholson): ela, afastada de relacionamentos; ele, só querendo sair com mulheres jovens. Também lembra Melhor é impossível, sobretudo numa cena de jantar em que o casal tenta se reconciliar. Em Um divã para dois, essa complicação do relacionamento quando ele já se estabeleceu – Arnold e Kay são casados há mais de 30 anos – é mostrada de forma vigorosa durante todas as cenas, sem cair em algo forçado ou vulgar, mesmo quando os temas constrangem os personagens. E há uma cena específica que define o grande talento de Jones e Streep: quando, aconselhados por Bernie, eles precisam voltar a se abraçar. A dificuldade com que Arnold faz isso é ao mesmo tempo engraçada e trágica. Sentimos, nele, o peso de vários anos de fuga da relação, e nela o sofrimento por não conseguir reatar o relacionamento. É uma cena simples, que seria esquecível com outros atores, mas se mostra íntima, melancólica e surpreendente, como Um divã para dois.

Hope Springs, EUA, 2012 Diretor: David Frankel Elenco: Meryl Streep, Tommy Lee Jones, Steve Carell, Elisabeth Shue, Jean Smart, Susan Misner, Marin Ireland, Ben Rappaport, Brett Rice, Daniel Flaherty, Kayla Ruhl, Jamie Christopher White Produção: Todd Black Roteiro: Vanessa Taylor Fotografia: Florian Ballhaus Trilha Sonora: Theodore Shapiro Duração: 100 min. Distribuidora: Imagem Filmes Estúdio: Escape Artists / Mandate Pictures / Management 360

Cotação 3 estrelas e meia