Okja (2017)

Por André Dick

O diretor Bong Joon-ho tem um clássico incontestável chamado Memórias de um assassino, de 2003, que inspirou diretamente Zodíaco, de David Fincher. Em Okja, lançado no Festival de Cannes sob protesto, em razão de ser distribuído pela Netflix, ele parece querer uma mescla entre O hospedeiro, sua obra mais cultuada, e a fantasia de filmes norte-americanos, além de referências a animações orientais. Em 2013, com O expresso do amanhã, o cineasta já tentava um salto para Hollywood, o que acontece plenamente aqui: este é um filme, apesar de não aparentar, extremamente comercial, e de modo algum é seu problema.
Começa mostrando em 2007 Lucy Mirando (Tilda Swinton), da Mirando Corporation, que faz um anúncio: sua empresa está criando um concurso cuja finalidade é escolher um super-porco. Vinte e seis dos melhores porcos são enviados a diferentes partes do mundo para que sejam criados por diferentes pessoas e culturas. Passam-se 10 anos e conhecemos Mija (Ahn Seo-hyun). Ela vive feliz com seu amigo animal, chamado Okja, no alto de uma montanha na Coreia do Sul, junto com seu avô (Byun Hee-bong). Esses momentos lembram as melhores peças sobre o cotidiano familiar de Hirokazu Koreeda, com um aproveitamento da natureza de maneira efetiva – e a cena na qual Mija corre perigo é especialmente bem feita, com auxílio da fotografia sempre excelente de Darius Khondji.

Eles recebem a visita do zoólogo e apresentador de TV a serviço da Mirando Corporation, Johnny Wilcox (Jake Gyllenhaal), que declara Okja como o ganhador do prêmio, um pequeno porco de ouro. Como o avô dizia que iria comprar o animal para Mija, ela fica desapontada e resolve seguir seu melhor amigo até Nova York. No entanto, ainda em Seul, um grupo chamado Frente de Libertação Animal, liderado por Jay (Paul Dano), tenta salvar a rara criação numa sequência de ação muito bem feita. Esta FLA tem todo o histórico de um grupo do gênero: denunciar a violência que se praticamente contra animais, e se vê a raridade desse tema, pois pouquíssimos filmes o apresentam da maneira que surge aqui, e trata-se de um ponto interessante.
Bong Joon-ho tem um humor excêntrico em seus filmes e não é diferente em sua nova obra. Os vinte minutos iniciais são certamente os melhores, mostrando a convivência de Mija e Okja. No entanto, à medida que a trama progride e entram novos personagens, não há um bom desenvolvimento. O diretor sempre teve alguns problemas em dosar drama e humor e aqui ele pende para o lado excêntrico, subutilizando Swinton e Gyllenhaal, ambos talvez em seus piores momentos.

Swinton, particularmente, exagera de forma desmedida e, sendo uma das coprodutoras do filme (ao lado de Brad Pitt), tem mais participação do que merecia sua personagem (em que ela aparenta tentar uma semelhança com o Willy Wonka de Johnny Deep), o que prejudica muito a história. Por sua vez, Gyllenhaal tenta uma caricatura que seja engraçada, no entanto o roteiro que recebe não é bom e sua alternativa acaba sendo a saída menos exitosa. Ahn Seo-hyun, para compensar, tem uma excelente atuação, embora a ligação com o avô ganhe pouco espaço (e Byun Hee-bong está ótimo) e Paul Dano, apesar de um personagem oscilante, também convence. Apenas não é dosada sua participação: uma cena específica quase tira o espectador do filme, completamente deslocada. A talentosa Lily Collins, entretanto, é desperdiçada como Red, uma das integrantes do grupo de proteção aos animais.
Claro que a mensagem está evidente a cada minuto e é inspiradora num universo em que os animais são submetidos a maus tratos inaceitáveis. No entanto, o diretor não consegue mesclar o pano de fundo sério com a comédia que tenta fazer em algumas situações: tudo soa excessivamente forçado e desgastante para o espectador. O tom é certamente o grande problema da narrativa, saltando do drama para a comédia sem nuances e um trabalho de elaboração dos personagens. Nisso, a violência, se não é forte como a de Fast food nation, de Linklater – sobre matadouros na fronteira com o México –, ou do recente terror Raw – que mostra estudantes de veterinária sem muita compaixão pelos animais –, soa pouco encaixada e como uma tentativa de esclarecer o que o espectador já entende em relação aos personagens maléficos. Isso já acontecia em O hospedeiro, no qual o suspense se diluía com um bom humor intruso.

A figura de Okja é extraordinária, parecendo um hipopótamo com agilidade de um cão, extremamente marcante, e os efeitos visuais muito bons, mas se sente desperdiçada, quase como um personagem central que realmente não tem destaque – concentrando-se tudo nos humanos. A crítica às corporações e às mídias sociais soa caricato e apressado, nivelando tudo com uma excentricidade que não cabe na narrativa e tentando ser didático demais para o espectador. A ironia é melhor aproveitada: “O inglês abre portas. Aprenda”, diz um integrante do FLA a Mija, sendo que os norte-americanos são os vilões explícitos. Okja era um dos filmes que eu mais esperava no ano – e sua decepção é lamentável. Ele tinha potencial para ser excelente e não chega, particularmente, a ser bom. No entanto, ele tem todas as características para se tornar um cult realmente apreciado e lembrado por causa de seus temas. Ou seja, Okja funciona mais em seu diálogo com a realidade, mesmo com elementos de fantasia, do que como obra cinematográfica.

Okja, EUA, 2017 Diretor: Bong Joon-ho Elenco: Tilda Swinton, Paul Dano, Ahn Seo-hyun, Byun Hee-bong, Steven Yeun, Lily Collins, Yoon Je-moon, Shirley Henderson, Daniel Henshall, Devon Bostick, Choi Woo-shik, Giancarlo Esposito, Jake Gyllenhaal Roteiro: Bong Joon-ho, Jon Ronson Trilha Sonora: Jaeil Jung Fotografia: Darius Khondji Produção: Dede Gardner, Jeremy Kleiner, Lewis Taewan Kim, Dooho Choi, Seo Woo-sik, Bong Joon-ho, Ted Sarandos Duração: 120 min. Estúdio: Plan B Entertainment, Lewis Pictures, Kate Street Picture Company Distribuidora: Netflix

 

A juventude (2015)

Por André Dick

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O cineasta italiano Paolo Sorrentino conseguiu chegar a Hollywood depois da recepção que teve seu A grande beleza em 2013, vencedor do Oscar de filme estrangeiro. Não era admirador do filme e achei o prêmio dado bastante injusto, pois parecia que ele desejava emular Fellini de um modo excêntrico e com uma carga emulando excessivamente cartões postais e linguagem facilitada. Em 2015, ele parece estrear (embora o filme não seja norte-americano) em Hollywood, com um grande elenco e num filme considerado menor, principalmente pelos admiradores de A grande beleza. É interessante a perspectiva que se tem sobre determinados trabalhos, pois A juventude me deixou muito mais receptivo, não apenas porque Sorrentino diminui consideravelmente os maneirismos que via no outro filme como consegue, por meio de um equilíbrio maior, fazer uma composição muito emotiva sobre os conflitos e sensações despertados pela velhice e pela juventude.
Michael Caine está especialmente excelente como Fred Ballinger, que passa férias num resort luxuoso nos Alpes suíços, ao lado do grande amigo Mick Boyle (interpretado por um Harvey Keitel fantástico, e se pergunta como ele não estava entre os principais indicados à categoria de ator coadjuvante neste início de ano), que deseja fazer um novo filme, depois de determinados fracassos e está reunido com um grupo de roteiristas. Fred é procurado por um emissário (Alex Macqueen) da Rainha Elizabeth II (para tocar sua obra popular “Canções simples”), mas ele não deseja aceitar o convite. Também no resort estão o ator Jimmy Tree (Paul Dano, em outra grande atuação depois da que apresenta, como Brian Wilson, em Love & Mercy), preparando-se para um novo papel, Maradona (Roly Serrano), cujo nome não é mencionado, mas tem todas as características do futebolista, a nova Miss Universo (Madalina Diana Ghenea) e a figura mais enigmática, uma jovem prostituta (Gabriella Belisario), além de uma jovem massagista (Luna Mijovic Zimic).

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Há não apenas a relação de Fred com Mick e com Jimmy – todas extremamente humanas –, como sua relação com a filha Lena (Rachel Weisz), casada com o filho de Mick, Julian (Ed Stoppard). Obviamente, é uma relação repleta de culpa, à medida que Fred não teria tratado sua esposa da maneira mais aceitável.
Como em A grande beleza e filmes anteriores de Sorrentino, há um cuidado visual muito grande, e pode-se dizer que ele emula uma certa linguagem publicitária. A diferença é que esta linguagem parece mais orgânica e conectada aos personagens que ele está mostrando, ou seja, não parece que ela é o principal elemento e sim um acréscimo. Como consequência, A juventude é uma obra simples, mas sem ser simplista, e não acentua passagens que poderiam lembrar mais um desfile de moda (embora algumas pareçam). O mais interessante na narrativa são os passeios dos personagens pelos Alpes, o que concede ao diretor de fotografia Luca Bigazzi um trabalho excepcional no sentido de sintetizar os enquadramentos e os atores de maneira mais eficientes para o andamento da narrativa. Como o filme anterior de Sorrentino, A juventude é também metalinguístico, mas esse traço é humanizado pela amizade entre os personagens Fred e Mick (que, ao final, se intensifica com uma emoção provocada certamente por influências fellinianas). Eles relembram antigas conquistas e a antiga forma que possuíam, além da influência no mundo das artes (Fred foi amigo de Stravinsky, por exemplo).

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Este é um filme que não se vê mais com tanta frequência: é essencialmente sobre como uma amizade pode persistir no tempo e os sonhos e realizações sempre se anunciam quando o ser humano se depara com seu limite. Os amigos fazem competições curiosas entre si, observam os outros hóspedes do lugar– e a conclusão é sempre a mesma: o tempo nunca conseguiria aproximá-los de alguma definição existencial ou servir como solução para atenuar seus problemas. Essa amizade é comparada às notas de uma música, seja pela maneira como Sorrentino capta a paisagem – com uma notável tranquilidade e, ao mesmo tempo, agilidade – e ao tempo. Em intensidade igual, o corpo, em A juventude, representa o desejo e a sensibilidade de se saber efêmero. Mesmo as lições de moral que se espalham ao longo da narrativa se manifestam como uma espécie de olhar sobre o círculo de situações humanas.
Há também um extremo bom gosto na escolha do design de produção e de figurinos, assim como algumas saídas interessantes para a história, como as apresentações feitas no pátio do resort todas as noites – sem, a meu ver, uma excentricidade nas imagens, mas uma composição muito sensível. Sorrentino lida com o contraste entre belas paisagens e a dificuldade de pessoas que caminham ali, no entanto parece mostrar mais: como a arte se confunde com a vida, sobretudo quando Lena acusa seu pai de ter se dedicado apenas à música, e ele usa, em determinado momento, um papel de bala para tentar compor uma sinfonia diante de uma paisagem pastoril. Do mesmo modo, ele vai sobrepondo os diálogos como camadas de memória, principalmente no encontro entre Mikey e sua atriz mais conhecida, Brenda Morel (Jane Fonda, numa participação memorável). Sorrentino está manipulando o espectador em muitos pontos, mas Caine, Keitel, Dano e Fonda realmente entregam o melhor de sua arte. Este filme é sobre a arte, com virtudes e falhas. Um filme realmente de grande beleza.

Youth, FRA/ITA/SUI/Reino Unido, 2015 Diretor Paolo Sorrentino Elenco:Michael Caine, Harvey Keitel, Rachel Weisz, Paul Dano, Jane Fonda, Alex Macqueen, Roly Serrano, Madalina Diana Ghenea, Paloma Faith, Ed Stoppard Roteiro: Paolo Sorrentino Fotografia: Luca Bigazzi Trilha Sonora: David Lang Produção: Carlotta Calori, Francesca Cima, Nicola Giuliano Duração: 124 min. Distribuidora: Fênix Filmes Estúdio: Indigo Film

Cotação 5 estrelas

12 anos de escravidão (2013)

Por André Dick

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Em razão de sua força histórica, os filmes sobre a escravidão costumam despertar polêmica. No ano passado, por exemplo, regressando a um embate da época de Pulp Fiction, Spike Lee disse que Tarantino desrespeitava a história com seu Django livre. Nele, Jamie Foxx interpretava um ex-escravo que fazia uma visita, com o dr. Schultz, à fazenda de Calvie Candie, na persona de Leonardo DiCaprio, acostumado a cometer os mais diversos tipos de violência contra seus escravos. Este ano o novo filme de Steve McQueen, 12 anos de escravidão, é recebido por alguns como o filme definitivo sobre o tema e como uma resposta inconsciente ao filme de Tarantino, que teria, de certa maneira, atenuado os acontecimentos reais. Tarantino, no entanto, tem um discurso muito mais contundente do que aparenta e não poupa o espectador, inclusive superando, nesse sentido, a abordagem de Bastardos inglórios, sua fascinante viagem pela II Guerra Mundial.
Pode-se desconfiar a abordagem de “filme definitivo” sobre o assunto, no entanto é preciso considerar que realmente o tema da escravidão foi mais abordado como pano de fundo do que como peça central. Mesmo em Lincoln, com seus méritos, ela é apenas um mote para que se falasse dos bastidores da política dos Estados Unidos no período enfocado. De qualquer modo, Spielberg realizou Amistad, filme subestimado, e A cor púrpura, no qual se faziam presentes as reminiscências da escravidão numa comunidade da Geórgia, com grandes atuações de Whoopi Goldberg e Oprah Winfrey. No ano passado ainda, os irmãos Wachawski e Tom Tkywer focaram, numa das histórias de Cloud Atlas, a amizade entre um escravo e um homem cujo ouro interessava a outro passageiro de um navio, entrelaçando a história com a de outros períodos (no presente ou no futuro) em que outros seres humanos viviam situações parecidas em seu cotidiano.

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O diretor inglês é ambicioso ao contar, a partir de 1841, a história de Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor), um homem negro que mora com sua família em Saratoga, Nova York, e, ao excursionar com dois homens brancos (Scoot McNairy e Taran Killam) a Washington, imaginando fazer uma tour musical, como violinista, é atraído para uma prisão e vendido como escravo. McQueen, durante a primeira hora de filme, encadeia uma sequência impressionante de cenas em que a submissão forçada recebe um caráter de narrativa crua, contrastando com uma fotografia delicada de Sean Bobbitt, habitual colaborador do cineasta. O momento em que Solomon se vê acorrentado é de uma composição claustrofóbica, tanto pelo cenário reduzido como pela condição do personagem, e McQueen o faz rapidamente depois de um panorama idílico da vida de Solomon para expandir a sensação. Ele vai parar nas plantações de algodão na Louisiana, sendo chamada de Platt e identificado como um escravo que fugiu da Geórgia. A primeira fazenda para a qual Solomon é levado é a de William Ford (Benedict Cumberbatch), interessado em reunir os escravos em seu pátio para ler páginas da Bíblia – não interrompida nem com o choro de uma das escravas, Eliza (Adepero Oduye)  – e que tem como um de seus capatazes John Tibeats (Paul Dano). Mas é quando chega à fazenda de Edwin Epps (Michael Fassbender) que Solomon irá enfrentar não apenas a perseguição, como o sentimento de estar preso indefinidamente na situação. Casado com Mary (Sarah Paulson), Epps tem como amante a escrava Patsy (Lupita Nyong’o), resultando em conflitos.
A saída mais elaborada por McQueen de uma possível dramaticidade forçada é exatamente seu realismo narrativo e montagem trepidante. 12 anos de escravidão é um dos filmes mais bem arquitetados dos últimos anos, no qual não se percebe a passagem do tempo, mas sentimos todo o peso dela nos minutos em que vemos Solomon ficar às voltas com seus algozes. Sua amizade com Patsy é também uma das pontes estabelecidas mais sensíveis, um diálogo direto da amizade entre Celie e Sofia em A cor púrpura. Junto à montagem, a trilha sonora de Hans Zimmer composta para 12 anos de escravidão é esplendorosa. Há trilhas conhecidas pelo lado emotivo, e a de Zimmer é uma delas.
Nesse ponto, não é difícil considerar a obra de McQueen como muito superior àquela anterior, Shame, com o mesmo Michael Fassbender. Não apenas pelo tratamento dado por McQueen aos personagens. Em 12 anos de escravidão, eles não são apenas símbolos do diretor; são densamente humanos, e a solidão que os afeta atinge o espectador da maneira mais forte. Do mesmo modo, neste cenário de desesperança, McQueen concede – e isto ele tem em comum com Spielberg, normalmente acusado, neste ponto, de excessivamente emotivo – um horizonte sempre próximo de saída. Ao mesmo tempo, ele consegue abordar essa história trágica com um olhar, como o de Solomon, voltado para o céu. No entanto, ao contrário de Spielberg, McQueen não esconde a violência mais crua que resultava da escravidão e importante dizer: ela não é moderada, ou apenas assustadora para quem desconhece os fatos históricos. Ele filma algumas das sequências mais fortes já retratadas pelo cinema nesse sentido, assim como encadeia personagens a exemplo de Theophilus Freeman (Paul Giamatti) – no entanto, certamente seria limitador que 12 anos de escravidão ficasse conhecido pela violência histórica que retrata.

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McQueen lida, também, com um embate entre o que seria pecado e as possíveis pragas bíblicas a partir disso, colocando o algodão branco como um exemplo de materialidade desse conceito. E traça com competência a genealogia buscada entre os donos de fazendas e as escravas, trazendo à cena algumas discussões importantes, utilizando a personagem de Harriet Shaw (Alfre Woodard), e o que já explorava em Shame: o castigo imposto ao corpo alheio como uma espécie de perversidade incontrolável. Em 12 anos de escravidão, esse castigo ganha contornos mais históricos e nos confronta com a reflexão social. Ao longo do filme, chama a atenção como McQueen não vê divisão entre a casa e o espaço onde os escravos transitam, como se eles fossem realmente parte de um cenário absolutamente normal, em que aquilo que seria reservado passa a ser aceito como parte de uma amplitude social. Pode haver violência tanto fora quanto dentro da casa, e na mesma intensidade, independente se é por objetos ou chibatadas. As mãos de Solomon alternam entre o castigo e o violino, quando possível, e a infância de Patsy, depois de ser descartada, tenta ser revivida com bonecas feitas artesanalmente por ela mesma. Um pedido fortuito no meio da noite pode também limitar a liberdade ou se negar à entrega.
Menos aflitivo talvez o filme fosse sem as atuações notáveis de todo o elenco, a começar por Chiwetel Ejiofor e Lupita Nyong’o. O poder do olhar de cada um deles marca 12 anos de escravidão de modo irretocável. Há, especialmente, uma cena de canto arrebatadora de Solomon – e só por ela Ejiofor já mereceria ser lembrado. Em seu polo oposto, Michael Fassbender faz um Epps de forma perfeita. Conhecido por seus feitos de interpretação em Shame, Prometheus e Bastardos inglórios, Fassbender traz a revolta. Lamenta-se apenas que alguns coadjuvantes (dos personagens de Giamatti, Dano e Cumberbatch) não sejam explorados – o filme, como referido, tem uma montagem excepcional, e, embora não prejudique o resultado em nenhum momento, pois há as cenas de violência e elas criam uma intensidade que possivelmente traria a exasperação com o tempo, é possível perceber que originalmente deveria ter até 3 horas para desenvolver cada um deles. No entanto, a aposta de fazer com que tudo seja uma experiência de Solomon, criando um isolamento dos outros personagens, ou apenas sua existência em razão do personagem principal, representa também o maior acerto de McQueen, ou seja, nada impede que 12 anos de escravidão continue com seu fluxo capaz de colocar o espectador inserido no período retratado de maneira incontornável.

12 years a slave, ING/EUA, 2013 Direção: Steve McQueen Elenco: Chiwetel Ejiofor, Michael Fassbender, Lupita Nyong’o, Benedict Cumberbatch, Paul Dano, Brad Pitt, Alfre Woodard, Adepero Oduye, Paul Giamatti, Sarah Paulson Roteiro: John Ridley, Steve McQueen Fotografia: Sean Bobbitt Trilha Sonora: Hans Zimmer  Produção: Dede Gardner, Anthony Katagas, Jeremy Kleiner, Steve McQueen, Arnon Milchan, Brad Pitt, Bill Pohlad Duração: 133 min. Distribuidora: Fox Searchlight Pictures Estúdio: New Regency Pictures / Plan B Entertainment / River Road Entertainment

Cotação 5 estrelas 

Os suspeitos (2013)

Por André Dick

Os suspeitos

Independente de se admirar David Fincher, parece inevitável, em algum momento, seja pelo estilo narrativo, seja pelo aspecto visual, reconhecer que o thriller sobre caça a psicopatas não seria o mesmo sem a sua contribuição oferecida em Seven, Zodíaco e Millennium. Hoje, mais do que se buscar a influência de nomes clássicos, como Hitchcock, é em Fincher que os cineastas contemporâneos, e os diretores de TV do gênero policial, parecem buscar inspiração, mesmo que o débito em relação a Hitchcock exista no próprio Fincher. Podemos ver isso este ano em Terapia de risco, de Soderbergh, e agora em Os suspeitos, de Denis Villeneuve, comparado com Zodíaco e Seven. Contando com o trabalho de fotografia do exímio Roger Deakins, colaborador habitual dos irmãos Coen e responsável pelo visual extraordinário de 007 – Operação Skyfall, Os suspeitos ainda possui um elenco de primeira linha. Seu cenário, por sua vez, é uma mistura entre Seven (pela chuva constante) e Millennium, e a trama busca criar várias trilhas, partindo de uma determinada situação que lembra aquele que vemos em A caça.
No Dia de Ação de Graças, Keller (Jackman) e Grace Dover (Bello) vão se encontrar com um casal amigo, Franklin (Howard) e Nancy Birch (Davis). Por desatenção, deixam suas filhas saírem sozinhas, Anna (Erin Gerasimovich) e Joy (Kyla Drew Simmons), respectivamente. Havia um trailer na rua em frente, segundo o filho dos Dover, Ralph (Dylan Minnette), e todos desconfiam que a evidência aponta para o responsável pelo consequente desaparecimento delas. O detetive Loki (Jake Gyllenhaal), numa lanchonete, é alertado sobre o caso e logo chega, com um grupo de policiais, ao veículo, onde descobrem Alex Jones (Dano, excelente mais uma vez, mesmo que com poucas linhas de diálogo). Trata-se de um rapaz com QI de uma criança de 10 anos, cuidado por uma tia, Holly (Melissa Leo), depois de ter perdido os pais. Villeneuve coloca o personagem de Keller querendo vingar o desaparecimento da filha, e daí por diante o seu conflito com a polícia e o detetive Loki se torna cada vez mais crescente.  Um grupo de personagens instigante poderia resultar num thriller policial de primeira grandeza, e Os suspeitos entrega pelo menos uma primeira meia hora fascinante, com uma boa colocação dos personagens e criação de um universo isolado, perdido no interior, de onde nada parece ter saída – e este ano tivemos a sensação em O lugar onde tudo termina –, mas com o passar do tempo parece se perder em algum ponto.

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Se o clima criado é realmente tenso e assustador em alguns momentos, e as pistas falsas, bem-vindas, o diretor parece um pouco surpreso ao lidar com este elenco. Hugh Jackman parece adotar um overacting sempre que está em exposição, como se quisesse uma indicação ao Oscar (evidente em suas explosões repentinas, sobretudo aquela em que segue, passo a passo, a atuação de Sean Penn em Sobre meninos e lobos), e o excelente casal de atores Terrence Howard e Viola Davis, deslocado da narrativa, tenta se encontrar em meio a dores de consciência diante de ações equivocadas que se perdem, demorando a criar algum tipo de ligação (e quase 150 minutos permitiriam isso), assim como quando a personagem de Maria Bello se torna acamada. Há, inclusive, algumas questões morais e religiosas colocadas de forma apressada, sem o devido peso, como se fossem inseridas para dar uma espécie de verniz (o que acontecia de forma orgânica em Seven), como a conversa inicial, que não se desenvolve ao longo do filme.
Este é o principal problema do filme longo, como Os suspeitos: é preciso, sobretudo, um trabalho de direção exato para ligar as pontas, mesmo que os personagens pareçam dispersos. Este é o talento de David Fincher, mas não de Villeneuve, que adota, em alguns momentos, movimentos de câmera querendo dar impacto a momentos mais comuns, como uma sequência em que filma um rio para se chegar ao grupo que está em busca das crianças, descuidando-se de detalhes que poderiam ser esclarecedores – e os símbolos que ele coloca à disposição do espectador na meia hora final dão a impressão de atender, na verdade, uma necessidade de soar mais hermético, sem nunca encontrar o ponto exato –, embora em outros surpreenda, quando, por exemplo, filma dois troncos de árvores para assinalar que as meninas desapareceram de casa, criando uma estranha fusão entre a natureza e o ser humano.

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Villeneuve tem uma noção bastante clara do cenário que dirige, criando momentos fantasmagóricos, mas ele não consegue delinear os personagens, talvez porque o roteiro de Aaron Guzikowski não tenha lhe permitido isso. Por isso, a presença de Jack Gyllenhaal chega a ser surpreendente. Mesmo com alguns cacoetes visando o Oscar e um enchimento na barriga para dar aspecto de homem mais velho, Gyllenhaal mostra que desde sempre foi um ator subestimado (está irrepreensível em Zodíaco e O segredo de Brokeback Mountain, para citar dois filmes). Os momentos em que ele está em cena, na pele de um detetive que parece tão congelado como o cenário que o cerca, quando não atrapalhado em sua investigação, tornam Os suspeitos um suspense mais interessante de ser assistido, com destaque para uma perseguição noturna, em que ele se vê exposto de maneira decisiva e para o momento em que precisa enfrentar Keller num carro.
O Festival de Toronto tem sido reconhecido por antecipar possíveis favoritos ao Oscar, e não por acaso recebeu Os suspeitos com euforia. Levando-se em conta que Argo, no ano passado, foi recebido com esse ânimo e recebeu o Oscar de melhor filme este ano, não parece, neste caso, que tenham novamente acertado. Os suspeitos é um thriller cujo diferencial está apenas no clima criado pela fotografia de Roger Deakins e nas atuações de Gyllenhaal e Dano. Embora tenso e perfeitamente assistível, quanto a suas surpresas e desfecho excessivamente expositivo, quando não constrangedor – com o roteiro querendo encobrir inúmeras falhas, e citá-las seria entrar em spoilers –, trata-se de mais uma thriller que tenta ser grande apenas na duração. Mas, de fato, compará-lo a Seven ou Zodíaco, seu maior objetivo, passa a ser, desde já, mais uma pista falsa.

Prisoners, EUA, 2013 Diretor: Denis Villeneuve Elenco: Jack Gyllenhaal, Hugh Jackman, Maria Bello, Melissa Leo, Paul Dano, Terrence Howard, Viola Davis, Wayne Duvall, Zoe Borde, Dylan Minnett, Erin Gerasimovich, Kyla Drew Simmons  Roteiro: Aaron Guzikowski Fotografia: Roger Deakins Trilha Sonora: Jóhann Jóhannsson Produção: Adam Kolbrenner, Andrew A. Kosove, Broderick Johnson, Kira Davis  Duração: 146 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: 8:38 Productions / Alcon Entertainment / Madhouse Entertainment

Cotação 3 estrelas

Ruby Sparks – A namorada perfeita (2012)

Por André Dick

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Um dos filmes mais comentados no final de 2012, com uma recepção de cult, embora tenha passado rapidamente pelos cinemas, é Ruby Sparks – A namorada perfeita. Dirigido pela mesma dupla do criativo e com ótimo elenco Pequena Miss Sunshine, Jonathan Dayton e Valerie Faris, o filme consegue se manter entre o drama, o romance e a comédia mais irônica ao longo da sua narrativa, sem exatamente alçar voos mais altos, mas tampouco desapontando o espectador.
Calvin Weir-Fields (Paul Dano, que participou do primeiro filme da dupla), depois de publicar um romance que se transformou em best-seller aos 19 anos, tem vivido uma crise existencial, sem conseguir produzir novos livros, e sai de casa praticamente apenas para participar de debates com alunos em universidades e de sessões de terapia com Dr. Rosenthal (Elliot Gould). Ele detesta a palavra gênio, e é chamado assim durante várias vezes ao longo do filme, sem esboçar felicidade. Isso porque gênio é a palavra que caracteriza o escritor que se destaca, colocando-o acima dos demais – e Calvin não se sente assim, pelo menos à primeira vista e com uma simples troca de palavras num debate.
Obcecado por J.D. Salinger, o autor de O apanhador no campo de centeio, ele ainda escreve numa máquina antiga, ou seja, afastado dos computadores . Também mora num apartamento moderno, completamente limpo, sem cores, como se retratassem a página que insiste em colocar todo o dia, junto com o café, a fim de ter uma espécie de inspiração momentânea para conseguir produzir outra história, além de um abajur posicionado geometricamente seja qual for a hora do dia e a insegurança diante da escrita.

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Ruby Sparks

Mantém uma relação próxima com o irmão, Harry (Chris Messina), tenta fugir do seu agente, Langdom Tharp (Steve Coogan) e convive com o seu cachorro, Scotty (uma homenagem a F. Scott Fitzgerald). Até o dia em que começa a sonhar com uma moça, que passa a servir de inspiração para seu livro. Quando o psiquiatra lhe pede para escrever algo numa página, o livro começa a surgir. Ele a chama de Ruby Sparks. Seu intuito é contar sua história desde o nascimento, passando pela infância, adolescência, até a vida adulta. Ela também é fã de John Lennon e pintora. E, certo dia, Ruby de fato aparece realmente, para seu espanto. No entanto, a princípio, ele considera que ninguém a vê, que ela é fruto de sua imaginação, até o momento em que conhece Mabel (Alia Shawkat), admiradora de sua obra.
Se antes tínhamos elementos que remetem a Adaptação (em que Nicolas Cage fazia os irmãos gêmeos que querem escrever roteiros), agora temos lembranças de A rosa púrpura do Cairo (uma das inspirações do filme), e do Gil Pender de Meia-noite em Paris, e o filme cultiva a ideia de que o personagem precisa se manter afastado do verdadeiro mundo para “criar sua obra”. No entanto, Ruby Sparks não chega a ser previsível como pode parecer a partir de sua premissa, embora sempre se mantenha numa linha regular, sem provocações. O filme brinca com o fato de o universo literário ser visto como o ponto da compreensão humana, assim como Pequena Miss Sunshine brincava com as estranhezas de uma família em viagem para um concurso de beleza da filha menor e tinha no personagem de Steve Carell o maior especialista de Proust nos Estados Unidos.
Ruby ganha vida com Joe Kazan, autora do roteiro e namorada na vida real de Paul Dano. O escritor passa a vivenciar outras experiências, inclusive aquela que parece mais ameaçadora: sair de casa. Passa, inclusive, a frequentar a noite – onde precisa passar por indiscrições de Ruby. Ela também o obriga a visitar sua mãe, Gertrude (Annette Benning), e seu padrasto, Mort (Antonio Banderas, inesperadamente divertido, embora subaproveitado), um carpinteiro que tenta convencer Calvin a levar para sua casa uma cadeira pós-moderna. Nada exatamente fora do contexto, e menos diferenciado do que a obra anterior dos diretores, apesar de o filme ter um ambiente indie interessante, apoiado numa bela trilha sonora de Nick Urata (a melhor qualidade do filme, ao lado da atuação do sempre eficiente Dano). É no momento em que Calvin e Ruby viajam para a praia que a noção de abertura da piscina para o mar se abre no personagem.

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Ruby Sparks depende de se gostar, mais do que de Paul Dano, de Zoe Kazan (neta do diretor Elia). Embora natural, ela fica um pouco deslocada quando o filme se inclina para a comédia, mesmo tendo feito o roteiro. Quando ela consegue dosar o personagem criado por Calvin e seus atritos românticos, mesmo que apressados e que escapam a um olhar mais atento, o filme acaba tendo seu melhor resultado. Com eles, o personagem passa a ter a experiência da vida que, na verdade, não deseja, mas experimentá-la por meio de Ruby passa a lhe causar não apenas melancolia, mas também cansaço e dinamismo. A questão é se ela conseguirá fazer com que Calvin dê tanto valor a ela quanto ao que estava fora dele mesmo. Volta-se, então, à questão que percorre o personagem: de que ele é, de fato, um gênio. Pois, se ele imaginava um amor perfeito com Ruby, ou seja, aplicava o romantismo em sua visão de mundo, com seus parques iluminados e uma toalha estendida no gramado, ele passa a reconhecer que pode ter o controle absoluto sobre Ruby, mas ela sempre será seu espelho, ou seja, com partes a serem sempre reescritas. É nesta releitura que, afinal, Calvin baseia sua existência a partir da premissa desse encontro, consigo e com o livro que, na verdade, tentará reescrever toda a vida.

Ruby Sparks, EUA, 2012 Diretor: Jonathan Dayton, Valerie Faris Elenco: Zoe Kazan, Antonio Banderas, Paul Dano, Alia Shawkat, Deborah Ann Woll, Annette Bening, Steve Coogan, Chris Messina, Elliott Gould, Aasif Mandvi, Wallace Langham Produção: Albert Berger, Ron Yerxa Roteiro: Zoe Kazan Fotografia: Matthew Libatique Trilha Sonora: Nick Urata Duração: 106 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Bona Fide Productions / Fox Searchlight Pictures

Cotação 3 estrelas