Madame Bovary (2015)

Por André Dick

Madame Bovary

As adaptações para o cinema de clássicos literários costumam suscitar alguns críticos e espectadores que indicam as mesmas características: “não captou a prosa”; “longe da densidade literária”; “personagens vazios, sem o impacto do livro”. Ainda é muito indelicado considerar uma adaptação de um clássico superior ou equivalente ao material original; mais do que uma indelicadeza, passa a ser um ponto contestável de todos os modos. É também difícil exigir originalidade da cineasta Sophie Barthes: Madame Bovary, de Gustave Flaubert, publicado em 1856, é o ponto de partida da maioria das histórias em que uma mulher, infeliz no casamento, decide buscar um verdadeiro amor, seja por meio de promessas românticas ou simplesmente porque imaginava que sua vida seria de outro modo. Nesse sentido, Madame Bovary chega a ser previsível, e normalmente se confunde sua temática com o resultado, assim como outro referencial, Anna Karenina, cuja adaptação de Joe Wright foi acusada de desvirtuar o romance original quando na verdade o enriqueceu com uma teatralidade realmente de impacto. E, como Anna Karenina, Madame Bovary já teve outras adaptações conhecidas, como aquela com Isabelle Huppert em 1991, dirigida por Claude Chabrol. Talvez pela má recepção crítica que o filme de Barthes não tenha chegado aos cinemas brasileiros, saindo diretamente no mercado de vídeo – o que se lamenta especialmente pela peça dramática em que se constitui, em meio a uma paisagem de obras de comédia e terror sem correspondência com a qualidade.

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Nesta nova adaptação, temos a atuação central de Mia Wasikowska, atriz que cresceu muito em termos dramáticos depois do decepcionante Alice no país das maravilhas. Ela fez, nos últimos anos, personagens também baseados em romances, como Jane Eyre e O duplo, além de Segredos de sangue (apesar de falho, já mostra uma tentativa de ela mostrar outras características) e Mapas para as estrelas. Como Emma Bovary, que se casa com um médico de um vilarejo, Charles Bovary (Henry Lloyd-Hughes), ela definitivamente entrega um papel sutil. Devota ao mundo religioso num convento logo no início, ela vê no casamento uma maneira de escapar a uma vida no meio rural, onde se veria atrelada à família para sempre. Nesse movimento, ela capta o livro de Flaubert em sua essência: estamos diante de uma mulher que pretende se emancipar do convencionalismo que se espera dela à época em que vive. O marido, sendo um médico e morando em e Yonville, representaria um ponto fora da curva dentro de seu projeto de vida, alguém com quem pode dividir experiências novas. Aos poucos, ela vai percebendo que isso não se mostra tão certo. Em meio a um contato com a empregada, ela passa por dias olhando o vazio pela janela.

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Ela vai conhecendo a comunidade de Yonville: Rhys Ifans é Monsieur Lheureux, que tenta lhe vender vestidos e vai empilhado dívidas em sua conta; Ezra Miller é Leon Dupuis, que se apaixona por ela logo no início, depois de um jantar, mas cuja paixão parece um pouco indefinida; Paul Giamatti se destaca como Monsieur Homais, entre o satírico e o trágico, uma especialidade do ator; e um surpreendente Logan Marshall-Green (mais conhecido como o cientista pouco simpático de Prometheus) interpreta o Marquês d’Andervilliers, capaz de envolver Bovary numa atmosfera de conquista para onde ela deseja ir. O filme não é sem falhas: ele possui um ritmo acelerado (mesmo que dê a impressão de ser lento), deixando para trás a caracterização de alguns personagens e se concentrando na solidão de Bovary em quase todos os momentos. Essa pouca caracterização não tira a beleza do filme de Barthes, sobretudo porque o elenco retribui a falta de certa consistência em termos de diálogos. Trata-se de uma adaptação com algumas liberdades, por outro lado absolutamente fiel a um sentimento de época. Reduzir a narrativa a uma espécie de peça feminista também não soa de acordo: o que Flaubert mostrava, em sua época, é o quanto a expectativa feminina era colocada em segundo plano quando o homem via que ela poderia ser diferente. Bovary não busca algum ideal feminino: ela busca a liberdade de escolher, que pertence a mulheres e homens, às vezes com uma rebeldia autocentrada (que Wasikowska incorpora com consciência), e o quanto essa escolha resulta mais de um embate consigo próprio do que exatamente com a sociedade em torno, voltada sempre a restringir espaços. Talvez esteja enganado quem ache que esta Madame Bovary não consegue representar um dos personagens femininos mais importantes da literatura.

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Madame Bovary, em termos técnicos, apresenta uma ótima direção de arte e uma fotografia delicada de Andrij Parekh, que parece se basear em Os duelistas, Barry Lindon, Tess, A árvore dos tamancos e nos filmes do português Manoel de Oliveira (como O gebo e a sombra), mas especificamente em Sven Nykvist. O figurino de Christian Gasc e Valérie Ranchoux também é grande e desempenha um papel ainda mais importante: é por meio dele que Bovary imagina renovar sua vida, sempre igual. Sophie trata a personagem como alguém que busca sempre a paixão, no entanto, esta não faz parte de sua época: todos os homens agem friamente, como o Marquês numa caça rodeado por cães. Nesse sentido, a beleza que Bovary vê no espaço bucólico de Yonville parece encobrir o que realmente se passa e, quando passa por algumas senhoras que trabalham no campo e percebe que a olham de costas, sabe que suas escolhas dependem ainda do que é dito. Tudo é projeto e esquemático e, ao tentar romper esse padrão, Bovary se vê em meio a uma sensação de luto. O que permanece, em termos dramáticos, é realmente a presença de Wasikowska: sua Bovary tem toda a instabilidade imaginada por Flaubert e uma sensação permanente de deslocamento. Por algumas horas, ela é realmente Madame Bovary.

Madame Bovary, EUA/BEL/ALE, 2015 Diretora: Sophie Barthes Elenco: Mia Wasikowska, Henry Lloyd-Hughes, Paul Giamatti, Ezra Miller, Rhys Ifans, Logan Marshall-Green Roteiro: Rose Barreneche e Sophie Barthes Fotografia: Andrij Parekh Trilha Sonora: Evgueni Galperine e Sacha Galperine Producão: Sophie Barthes, Felipe Marino, Jaime Mateus-Tique, Joe Neurauter Duração: 118 min. Distribuidora: 20th Century Fox Company Russia, Warner Bros., Noori Pictures Estúdio: Aden Film / Aleph Motion Pictures / Left Field Ventures / Occupant Entertainment / Radiant Films International

Cotação 4 estrelas

 

Walt nos bastidores de Mary Poppins (2013)

Por André Dick

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Com a temporada de possíveis indicados ao Oscar em alta, durante o final de cada ano, há sempre algum filme que acaba por simbolizar aquela característica que a premiação tentaria deixar para trás: o intitulado melodrama capaz de manipular o espectador. Se ainda, com essa manipulação, tivermos paisagens ensolaradas, pessoas parecendo viver num ambiente paralelo, e o Mickey Mouse em cima da cadeira mais próxima, soando como uma autopropaganda incômoda em alguns momentos, este filme pode correr o risco de ser visto exatamente com mais um passatempo descartável e esquecido de categorias consideradas mais importantes. Walt nos bastidores de Mary Poppins foi o filme que representou, este ano, o anseio de a Academia negar aquilo que costuma se ter como exemplo de Oscar. Mesmo precedido por premiações como o Globo de Ouro, que indicou Emma Thompson como melhor atriz, ele nos deixou em dúvida, já pelo trailer, se seria um convite irrecusável a sair da frente da tela.
Emma faz a escritora P.L.Travers, autora de Mary Poppins, que é procurada durante décadas por Walt Disney, a fim de que ceda os direitos de sua obra para uma adaptação. No entanto, a Califórnia está longe de ser o lugar ideal para ela. Incomodada pelo editor, que considera sua decisão de não publicar mais livros e depender de direitos autorais, equivocada, ela precisa reencontrar o Mr. Banks de Mary Poppins na figura do então midas de Hollywood, Disney (Tom Hanks). Chegando aos estúdios com o motorista, Ralph (Paul Giamatti), é claro que ela irá maltratar a todos que encontra pela frente, inclusive o roteirista da adaptação, Don DaGradi (Bradley Withford), e a dupla que fará as canções do filme, Robert (B.J. Novak) e Richard Sherman (Jason Schwartzman). Travers, no entanto, não deseja músicas na transposição para o cinema e, principalmente, desenhos animados. O mais delicado, ainda, é que ela não deseja assinar o contrato cedendo os direitos autorais.

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Dizer que o diretor John Lee Hancock faz uso de várias referências à obra de Robert Stevenson, indicada ao Oscar de melhor filme em 1965, seria natural, e mais ainda os embates entre Travers e equipe que constitui o projeto. Ela pode tanto querer outro ator para o papel principal quanto desejar que não haja uma determinada cor durante todo o filme. Hancock, no entanto, em meio a isso, desenha – em ritmo de filme da Disney (sem nenhuma ambientação escura) – um paralelo com a história da infância da escritora, na qual a atriz Annie Rose Buckley desempenha o papel, em que seu pai, Travers Goff (Colin Farrell), passa por problemas em seu emprego e com suas escolhas, diante de conflitos com a esposa, Margaret (Ruth Wilson). Parece, a princípio, um elemento deslocado na narrativa, fazendo com que haja vários flashbacks, mas, aos poucos, a montagem consegue encaixar de maneira mais desenvolta esse paralelo e, aqui, apesar de elementos atenuados pelo estilo Disney, pode-se dizer que o filme passa de apenas um símbolo do escapismo e da dedicação exclusiva à arte para uma humanidade e a redescoberta da infância sob um novo olhar – principalmente num flashback que se alterna com determinada reunião em que se cria uma canção para Mary Poppins. Hancock torna o ponto central a maneira como se recria a memória por meio da arte, e como esta pode se desviar da verdadeira história. Embora em alguns momentos esse excesso nostálgico prejudique, em detrimento da presença dos irmãos Sherman e de Walt Disney, o filme de Hancock acaba dosando de modo interessante os elementos.
Seria injusto não lembrar o quanto Mary Poppins remete à infância e às primeiras idas à locadora para reconhecer filmes que não podiam ser vistos no cinema, e o quanto o filme consegue lidar com essa atmosfera capaz de despertar a imaginação. Algumas obras dos estúdios Disney simbolizam essas características, sobretudo quando trazem astros em grande momento, como Julie Andrews (vencedora do Oscar de atriz pelo papel), e Mary Poppins é uma espécie de referencial, principalmente por sua influência no cinema ao misturar atores reais com desenhos animais, o que também lhe valeria um Oscar de efeitos especiais. O que o filme de Hancock faz é traçar como a imaginação despertada por esse filme pode estar ligada a também várias negações e embates de seus envolvidos, sem conduzir para um ambiente autoindulgente, em que as conversas desaparecem com a metalinguagem. Quando Travers e Disney conversam, não temos exatamente um aprofundamento nessa caracterização de que a obra pode estar ligada à vida e vice-versa, mas do quanto ideias como essa são esquecidas em nome de uma denominada grande beleza. Em suma, Walt nos bastidores de Mary Poppins não seria mais do que um drama que pode ser considerado comum, com alguns lances de emoção certamente inevitáveis, mas que servem ao fato de a obra conseguir chegar a um objetivo, e este corresponde não apenas ao apelo dos bonecos Disney, como o filme pode deixar desastradamente subentendido, mas à própria infância – e certamente não seria mais questionável do que filmes que querem se tornar herméticos, sem êxito, e pretensamente contidos porque não possuem o que dizer.

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É interessante como um filme no estilo de Walt nos bastidores de Mary Poppins pode ser visto apenas como sentimental. Não raro isso abre um espaço para aquilo que deve ser, na verdade, questionado em filmes cuja elaboração e pretensão se fixam num discurso que ronda sempre uma certa amargura visivelmente proposital para incomodar, mesmo que não que seja verdadeira ou se traduza em diálogo com o espectador, mantendo-se sempre perto de um conceito, teoria ou citação para serem cultuados e respeitados. Ou seja, há uma leveza nítida em Walt nos bastidores de Mary Poppins, mas bem menos prejudicial do que uma erudição calculada.
E é claro que não se esperaria de uma obra produzida pelos estúdios Disney uma visão negativa do próprio criador – no entanto, o filme também o situa como certamente manipulador em busca de pegar para seu projeto de cinema uma obra alheia. Isso é colocado de maneira sutil, fazendo com que não haja uma condescendência excessiva, embora Mickey Mouse volte à cena de modo deslocado. E Tom Hanks entrega a sua melhor atuação do ano (não a de Capitão Phillips). Sua interação com o elenco é excelente e o filme melhora a cada vez que temos sua presença, mas quem entrega realmente uma atuação primorosa, no sentido de lidar com o roteiro sentimental de modo a tirá-lo de uma aproximação com o drama forçado, é Emma Thompson. Mas ela não funcionaria sem a contrapartida de Hanks e do restante do elenco, principalmente Paul Giamatti, muito bem mesmo com poucas linhas de diálogo, e Jason Schwartzmann, como Richard Sherman, trazendo sua presença bem-humorada que transformou obras como Rushmore e Maria Antonieta. Ou seja, Hancock, roteirista de um dos melhores filmes de Clint Eastwood (Um mundo perfeito) e diretor do superficial Um sonho possível (que deu o Oscar de atriz a Sandra Bullock), é extremamente feliz na escolha deste elenco. Historicamente deslocado, parecendo um filme que habita os anos 1950, com uma direção de arte e figurinos extremamente elaborados, Walt nos bastidores de Mary Poppins é uma agradável surpresa.

Saving Mr. Banks, EUA, 2013 Diretor: John Lee Hancock Elenco: Emma Thompson, Tom Hanks, Colin Farrell, Paul Giamatti, Jason Schwartzman, Bradley Whitford, Annie Rose Buckley, Ruth Wilson, B.J. Novak, Rachel Griffiths, Kathy Baker Roteiro: Kelly Marcel, Sue Smith Fotografia: John Schwartzman Trilha Sonora: Thomas Newman Produção: Alison Owen, Ian Collie, Philip Steuer Duração: 125 min. Distribuidora: Walt Disney Pictures Estúdio: Walt Disney Pictures

Cotação 4 estrelas

12 anos de escravidão (2013)

Por André Dick

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Em razão de sua força histórica, os filmes sobre a escravidão costumam despertar polêmica. No ano passado, por exemplo, regressando a um embate da época de Pulp Fiction, Spike Lee disse que Tarantino desrespeitava a história com seu Django livre. Nele, Jamie Foxx interpretava um ex-escravo que fazia uma visita, com o dr. Schultz, à fazenda de Calvie Candie, na persona de Leonardo DiCaprio, acostumado a cometer os mais diversos tipos de violência contra seus escravos. Este ano o novo filme de Steve McQueen, 12 anos de escravidão, é recebido por alguns como o filme definitivo sobre o tema e como uma resposta inconsciente ao filme de Tarantino, que teria, de certa maneira, atenuado os acontecimentos reais. Tarantino, no entanto, tem um discurso muito mais contundente do que aparenta e não poupa o espectador, inclusive superando, nesse sentido, a abordagem de Bastardos inglórios, sua fascinante viagem pela II Guerra Mundial.
Pode-se desconfiar a abordagem de “filme definitivo” sobre o assunto, no entanto é preciso considerar que realmente o tema da escravidão foi mais abordado como pano de fundo do que como peça central. Mesmo em Lincoln, com seus méritos, ela é apenas um mote para que se falasse dos bastidores da política dos Estados Unidos no período enfocado. De qualquer modo, Spielberg realizou Amistad, filme subestimado, e A cor púrpura, no qual se faziam presentes as reminiscências da escravidão numa comunidade da Geórgia, com grandes atuações de Whoopi Goldberg e Oprah Winfrey. No ano passado ainda, os irmãos Wachawski e Tom Tkywer focaram, numa das histórias de Cloud Atlas, a amizade entre um escravo e um homem cujo ouro interessava a outro passageiro de um navio, entrelaçando a história com a de outros períodos (no presente ou no futuro) em que outros seres humanos viviam situações parecidas em seu cotidiano.

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O diretor inglês é ambicioso ao contar, a partir de 1841, a história de Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor), um homem negro que mora com sua família em Saratoga, Nova York, e, ao excursionar com dois homens brancos (Scoot McNairy e Taran Killam) a Washington, imaginando fazer uma tour musical, como violinista, é atraído para uma prisão e vendido como escravo. McQueen, durante a primeira hora de filme, encadeia uma sequência impressionante de cenas em que a submissão forçada recebe um caráter de narrativa crua, contrastando com uma fotografia delicada de Sean Bobbitt, habitual colaborador do cineasta. O momento em que Solomon se vê acorrentado é de uma composição claustrofóbica, tanto pelo cenário reduzido como pela condição do personagem, e McQueen o faz rapidamente depois de um panorama idílico da vida de Solomon para expandir a sensação. Ele vai parar nas plantações de algodão na Louisiana, sendo chamada de Platt e identificado como um escravo que fugiu da Geórgia. A primeira fazenda para a qual Solomon é levado é a de William Ford (Benedict Cumberbatch), interessado em reunir os escravos em seu pátio para ler páginas da Bíblia – não interrompida nem com o choro de uma das escravas, Eliza (Adepero Oduye)  – e que tem como um de seus capatazes John Tibeats (Paul Dano). Mas é quando chega à fazenda de Edwin Epps (Michael Fassbender) que Solomon irá enfrentar não apenas a perseguição, como o sentimento de estar preso indefinidamente na situação. Casado com Mary (Sarah Paulson), Epps tem como amante a escrava Patsy (Lupita Nyong’o), resultando em conflitos.
A saída mais elaborada por McQueen de uma possível dramaticidade forçada é exatamente seu realismo narrativo e montagem trepidante. 12 anos de escravidão é um dos filmes mais bem arquitetados dos últimos anos, no qual não se percebe a passagem do tempo, mas sentimos todo o peso dela nos minutos em que vemos Solomon ficar às voltas com seus algozes. Sua amizade com Patsy é também uma das pontes estabelecidas mais sensíveis, um diálogo direto da amizade entre Celie e Sofia em A cor púrpura. Junto à montagem, a trilha sonora de Hans Zimmer composta para 12 anos de escravidão é esplendorosa. Há trilhas conhecidas pelo lado emotivo, e a de Zimmer é uma delas.
Nesse ponto, não é difícil considerar a obra de McQueen como muito superior àquela anterior, Shame, com o mesmo Michael Fassbender. Não apenas pelo tratamento dado por McQueen aos personagens. Em 12 anos de escravidão, eles não são apenas símbolos do diretor; são densamente humanos, e a solidão que os afeta atinge o espectador da maneira mais forte. Do mesmo modo, neste cenário de desesperança, McQueen concede – e isto ele tem em comum com Spielberg, normalmente acusado, neste ponto, de excessivamente emotivo – um horizonte sempre próximo de saída. Ao mesmo tempo, ele consegue abordar essa história trágica com um olhar, como o de Solomon, voltado para o céu. No entanto, ao contrário de Spielberg, McQueen não esconde a violência mais crua que resultava da escravidão e importante dizer: ela não é moderada, ou apenas assustadora para quem desconhece os fatos históricos. Ele filma algumas das sequências mais fortes já retratadas pelo cinema nesse sentido, assim como encadeia personagens a exemplo de Theophilus Freeman (Paul Giamatti) – no entanto, certamente seria limitador que 12 anos de escravidão ficasse conhecido pela violência histórica que retrata.

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McQueen lida, também, com um embate entre o que seria pecado e as possíveis pragas bíblicas a partir disso, colocando o algodão branco como um exemplo de materialidade desse conceito. E traça com competência a genealogia buscada entre os donos de fazendas e as escravas, trazendo à cena algumas discussões importantes, utilizando a personagem de Harriet Shaw (Alfre Woodard), e o que já explorava em Shame: o castigo imposto ao corpo alheio como uma espécie de perversidade incontrolável. Em 12 anos de escravidão, esse castigo ganha contornos mais históricos e nos confronta com a reflexão social. Ao longo do filme, chama a atenção como McQueen não vê divisão entre a casa e o espaço onde os escravos transitam, como se eles fossem realmente parte de um cenário absolutamente normal, em que aquilo que seria reservado passa a ser aceito como parte de uma amplitude social. Pode haver violência tanto fora quanto dentro da casa, e na mesma intensidade, independente se é por objetos ou chibatadas. As mãos de Solomon alternam entre o castigo e o violino, quando possível, e a infância de Patsy, depois de ser descartada, tenta ser revivida com bonecas feitas artesanalmente por ela mesma. Um pedido fortuito no meio da noite pode também limitar a liberdade ou se negar à entrega.
Menos aflitivo talvez o filme fosse sem as atuações notáveis de todo o elenco, a começar por Chiwetel Ejiofor e Lupita Nyong’o. O poder do olhar de cada um deles marca 12 anos de escravidão de modo irretocável. Há, especialmente, uma cena de canto arrebatadora de Solomon – e só por ela Ejiofor já mereceria ser lembrado. Em seu polo oposto, Michael Fassbender faz um Epps de forma perfeita. Conhecido por seus feitos de interpretação em Shame, Prometheus e Bastardos inglórios, Fassbender traz a revolta. Lamenta-se apenas que alguns coadjuvantes (dos personagens de Giamatti, Dano e Cumberbatch) não sejam explorados – o filme, como referido, tem uma montagem excepcional, e, embora não prejudique o resultado em nenhum momento, pois há as cenas de violência e elas criam uma intensidade que possivelmente traria a exasperação com o tempo, é possível perceber que originalmente deveria ter até 3 horas para desenvolver cada um deles. No entanto, a aposta de fazer com que tudo seja uma experiência de Solomon, criando um isolamento dos outros personagens, ou apenas sua existência em razão do personagem principal, representa também o maior acerto de McQueen, ou seja, nada impede que 12 anos de escravidão continue com seu fluxo capaz de colocar o espectador inserido no período retratado de maneira incontornável.

12 years a slave, ING/EUA, 2013 Direção: Steve McQueen Elenco: Chiwetel Ejiofor, Michael Fassbender, Lupita Nyong’o, Benedict Cumberbatch, Paul Dano, Brad Pitt, Alfre Woodard, Adepero Oduye, Paul Giamatti, Sarah Paulson Roteiro: John Ridley, Steve McQueen Fotografia: Sean Bobbitt Trilha Sonora: Hans Zimmer  Produção: Dede Gardner, Anthony Katagas, Jeremy Kleiner, Steve McQueen, Arnon Milchan, Brad Pitt, Bill Pohlad Duração: 133 min. Distribuidora: Fox Searchlight Pictures Estúdio: New Regency Pictures / Plan B Entertainment / River Road Entertainment

Cotação 5 estrelas 

Cosmópolis (2012)

Por André Dick

Depois de um lançamento sem grande receptividade no Festival de Cannes, Cosmópolis, do cineasta canadense David Cronenberg, trilhou o caminho das produções mais restritas: passou em pouquíssimos cinemas, tanto no exterior quanto no Brasil (a boa notícia é que está sendo lançado logo em DVD e Blu-Ray). Trata-se de uma das obras mais instigantes do ano e, ao mesmo tempo, mais problemáticas, baseada no livro de Don DeLillo, que trata de um dia na vida do jovem milionário Eric Packer. Desde o início, quando ele diz a seu chefe de segurança, Turval (Kevin Durand),  que irá cortar seu cabelo no outro lado da cidade de Nova York, quando esta atravessa um dia conturbado – a passagem do presidente (“Que presidente?”, pergunta Packer), a morte de um rapper, Brutha Fez, que o milionário idolatra, tendo uma de suas canções como música de seu elevador –, Packer é o símbolo das finanças: ele precisa ficar perto dos gênios mais jovens do que ele, para se alimentar da criatividade alheia, mas ao mesmo tempo quer um afastamento de tudo, mesmo das mulheres com quem tem relações na ida para o cabeleireiro. A primeira é Didi Fancher (Juliette Binoche, numa ponta eficiente), que estende, no chão da limusine, suas mãos até os sapatos do amante, e há nesse detalhe uma espécie de síntese do fetiche por objetos. Ela dá conselhos sobre compras no mundo das artes – e Packer quer comprar a Capela Rothko por achar que cabe em sua sala. Paradoxalmente, ele não consegue ter relações com a mulher com quem casou, Elise Shifrin (Sarah Gadon), uma milionária que se diz poeta e imprime ainda mais estranheza ao filme. Ela não deseja Packer, quer apenas se esconder no fundo de uma biblioteca, com um livro, e fala como se recitasse versos – ela quase murmura seus diálogos, num tom enigmático e solene –, além de fumar fazendo pose na frente de um teatro, emulando uma pretensa solidão. É quase um complemento aos diálogos ditos em tom monocórdio por Pattinson (numa surpreendente atuação), que se dirige aos outros com desprezo e cinismo inabaláveis.

Cronenberg filma seu cotidiano na limusine com cuidado especial. Cada computador que se abre dentro do veículo e cada espaço que parece surgir entre os bancos mostra um universo em constante movimento, mesmo que num espaço exíguo. Corresponde-se diretamente com o que teorizam os personagem, falando em faturamentos, nanossegundos, experiências solitárias, ratos como moedas de troca, dinheiro como moeda de troca de vidas e com o que acontece fora dali, como o abalo na moeda chinesa, o yuan – em que  Packer apostou –, depois de um atentado ao vivo, pela TV. Nessa limusine, o milionário também atravessa seu momento mais constrangedor, pelo polêmico exame de próstata. Entretanto, a sequência é tão bem interpretada e efetiva para o andamento da história – sendo seu conceito o que define o próprio personagem –, que parece ser aquela que define a mescla pretendida por Cosmópolis: uma interpretação da realidade, de forma simbólica, e um adensamento de críticas a um certo modo de comportamento. Por que um jovem milionário faria tal exame enquanto conversa com sua chefe de finanças, Jane Melman (Emily Hampshire), que diz sentir uma “tensão sexual” no ar? Depois, ele ainda tem relações com uma segurança, Kendra Hays (Patricia McKenzie), a quem pergunta como é matar alguém, já que por meio de qualquer relação humana ele não sente nada. Há, de um lado, o temor da morte de Packer, e a certeza de que vai morrer, assim como sua juventude e agilidade. Todos os personagens que passam pela limusine são jovens, ágeis, rápidos – como a personagem de Vija Kinsky (Samantha Morton), cuja profusão de falas vem em ritmo quase de pesadelo, dividindo Cosmópolis em duas partes bem definidas –, mas, ao mesmo tempo, carregam uma carga grande de falas (Cronenberg, em certos momentos, não consegue fugir à teatralidade). Vija é uma espécie de versão mais adulta de Shriver (Jay Baruchel), que no início do filme é o nerd que promete a Packer que o sistema informatizado de sua limusine está protegido de qualquer vírus. É este vírus simbólico que atormenta o milionário: um vírus que pode tanto estar dentro do sistema de finanças – e pode levá-lo à bancarrota – quanto estar em seu corpo, fazendo com que submeta a exames completos diários, e em sua maneira de ver o mundo. Cronenberg torna a limusine uma espécie de pele do personagem central (uma ideia que é recorrente em sua trajetória, de Videodrome a Crash), a qual o protege do mundo e o torna indiferente ao que acontece fora, como se tudo estivesse ocorrendo pela televisão, e não ao vivo.

Num dos letreiros do lado de fora da limusine há uma frase de Marx: “Há um espectro que ronda o mundo, o espectro do capitalismo”. O que não se espera, nessa interpretação de Cronenberg aos dias atuais, é que haja, nesse discurso, na verdade um contradiscurso. Os anarquistas de Wall Street mostrados pelo filme – que se fantasiam como ratos e jogam ratos contra os clientes de uma lanchonete –, que dialogam com o Occupy Wall Street, são retratados de forma discreta (no momento em que balançam e picham a limusine de Packer, é como se fossem apenas parte de uma imagem de televisão, numa das sequências mais bem feitas do filme) e ainda mais um líder dos anarquistas, cuja diversão é atirar tortas em celebridades. Para Cronenberg, este não é o contradiscurso. Não é exatamente o poder financeiro de Nova York e os executivos que incomodam Cronenberg (como a Oliver Stone), e sim a falta de saída eficaz para a política que se apresenta, sem considerar o filme como algo panfletário. Segundo transparece por meio de Packer, só há discurso e presença para homens como ele porque o sistema, na verdade, firmado e o que tenta abalá-lo estão fundidos num mesmo discurso ineficaz e que se alimenta da própria mídia que contesta, como o painel luminoso se alimenta da frase de Marx. Nesse sentido, Cosmópolis, mesmo com sua densidade e, por vezes, mal-estar que provoca, é uma comédia de humor negro drástico, capaz de colocar o espectador em reflexão sobre tudo o que se julga contemporâneo demais, como diz uma de suas personagens. São verdadeiramente hilários os momentos em que o chefe de segurança abre o vidro para ficar avisando Packer de algum eminente ataque, como se ele, sim, de fato, fosse o presidente dos Estados Unidos, com sua bateria de proteção. E ao tentar afastar os manifestantes que cercam a limusine, como se estivesse num campo de guerra, ou revistando um médico como se fosse um assassino. Ou quando Packer recebe a visita de um rapper, Kosmo Thomas (Gouchy Boy), para relatar a notícia da morte de Brutha Fez (K’naan), ouvindo dele: “Entendo a sua decepção de ele ter morrido de ataque cardíaco, não de drogas”. Cronenberg, como em sua obra, não parece defender nenhum discurso, apenas colocar tudo num liquidificador, em que o resultado é a consequente estranheza e perturbação. São pessoas que se consideram vitais, e prontas para serem engolfadas pela mídia, seja para a divulgação de seus lucros quanto para mostrar os protestos de pessoas contra elas.

No entanto, Cronenberg gosta, também, de filosofar sobre a violência e os temores, como em Marcas da violência. E talvez seja aí o ponto fraco do filme: entende-se que Packer atravessa a cidade para voltar à sua infância e, diante do que faz na vida adulta, não há saída para ele. Numa sequência estranhíssima numa barbearia – que lembra diretamente Marcas da violência, inclusive com um personagem apresentando uma cicatriz no olho –, em que não sabemos se os personagens continuarão calmos ou explodirão de vez, poderíamos ter um atestado de Cronenberg sobre a atemporalidade das mazelas, mas acaba sendo prenúncio (com um ninho de ratos simbólico no cabelo de Pattinson), para uma sequência final, longa e um tanto cansativa – que, ao mesmo tempo, expõe as qualidades e os defeitos de Cosmópolis –, apesar das belas atuações de Pattinson e de Paul Giamatti.
Cronenberg sai-se melhor quando reprime a violência de seus personagens, como na ótima cena em que Packer e seu segurança estão assistindo a uma festa de jovens, e a música soa tão melancólica quanto o personagem central diante da despedida derradeira da adolescência e da genialidade precoce da qual ele não quer se desgrudar porque significa cair na indigência. Ali, Cosmópolis parece encontrar, sem muitas palavras – seu ponto, ao mesmo tempo, fraco e forte –, o que gostaria de trazer à cena e o que o torna tão contemporâneo.

Cosmopolis, FRA/ITA/CAN/PT, 2012 Diretor: David Cronenberg Elenco: Robert Pattinson, Samantha Morton, Jay Baruchel, Paul Giamatti, Kevin Durand, Juliette Binoche, Sarah Gadon, Mathieu Amalric, Emily Hampshire Produção: Paulo Branco, Martin Katz Roteiro: David Cronenberg Fotografia: Peter Suschitzky Trilha Sonora: Howard Shore Duração: 106 min. Distribuidora: Imagem Filmes Estúdio: Prospero Pictures / Alfama Films

Cotação 4 estrelas

Alexander Payne e seus descendentes

Por André Dick

Em As confissões de Schmidt, de Alexandre Payne (1961), um dos cineastas contemporâneos mais interessantes (o texto segue com spoilers), Jack Nicholson tem uma das melhores atuações de toda a sua carreira, o que não é pouco. Ele interpreta Warren Schmidt, que acaba de ficar viúvo de Helen (June Squibb) e de se aposentar, mas deseja retomar a vida. Para isso, ele quer fazer uma viagem pelo interior dos Estados Unidos para chegar, em Denver, ao casamento da filha, Jeannie (Hope Davies), o qual quer impedir, pois não gosta do genro, Randall Hertzel (Dermot Mulroney), que, logo à primeira vista, lhe pede dinheiro para negócios pessoais. Além disso, pretende ajudar um menino, Ndugu, da África do Sul por meio de uma agência de caridade. São objetivos de quem, como ele mesmo diz, gostaria de ser visto como alguém importante, generoso e atencioso, e aparecer nas capas de revista, porém está contido dentro de suas amarras.
O filme traz a característica básica dos filmes de Alexander Payne: o personagem central que deseja se encontrar. É aqui que Nicholson consegue ser ainda mais brilhante. Fazendo o Schmidt recém-aposentado e viúvo, que descobre uma traição da mulher com o melhor amigo (a cena em que esvazia o armário dela mostra-se antológica), ele se destaca mais do que todo o elenco, só tendo como equivalente Kathy Bates, como Roberta, a a mãe de Randall. A viagem dele pelo interior dos Estados Unidos é subliminar, mostrando por que gostaria de ser lembrado, numa tentativa de voltar à infância e à juventude, simbolizando a aventura que constitui a formação dos Estados Unidos (a ida ao museu faz parte disso). Trata-se, portanto, de um sujeito que pretende progredir, mas como progredir se a velhice chegou e se os compromissos com a família precisam ser mantidos, caso contrário se cai em solidão absoluta? Nesse sentido, ele é o oposto do produtor de música que Nicholson interpretou no ano seguinte, em Alguém tem que ceder – infelizmente outra de suas últimas atuações até agora (o que é de se lamentar, pois é de 2003; a de Como você sabe não está à sua altura).
A relação com a filha, problemática, é o núcleo de conflito no filme, que se revela cada vez mais interessante a cada passo da trama (entrecortada por pequenos incidentes, embora todos de relevo), escrita por Payne com seu habitual parceiro Jim Taylor. Quando ele precisa se deparar com toda a família do genro, e lembrar da memória da esposa, que acabou de perder, surge um dos momentos mais solitários que o cinema nos mostrou, muito por causa da atuação de Nicholson – e Payne procura no realismo das situações a sua poesia, na sua tentativa de compreender o que o cerca, em que contexto precisa se inserir para que não se sinta abandonado, ou mais próximo das estrelas. Trata-se de um humor patético, característica que ele guarda em comum com Wes Anderson (de Os excêntricos Tenembaums, por exemplo). Esta cena cria um enlace com aquela em que Schmidt está num camping e acaba beijando uma mulher casada, depois de quase torná-la sua psicóloga, mostrando a sua mescla entre infantilidade e insegurança adulta. Ali, já sabemos que as confissões mais profundas de Schmidt se atritam com a realidade. E para Payne, como é comum em sua filmografia, enfrentar o dia a dia rotineiro, como o faz Warren, tem a mesma importância dos descobridores da América – mas não há condescendência nenhuma em relação às suas atitudes.

Warren Schmidt remete ao professor de Eleição, Jim McAllister, interpretado por Matthew Broderick, conhecido pelo Ferris Bueller de Curtindo a vida adoidado, incumbido de organizar uma eleição para diretoria de alunos de seu colégio. É o motivo para ele se deparar com a sua aluna mais ambiciosa, Tracy Flick (Reese Witherspoon, em seu melhor papel até hoje), que pretende ganhar a eleição a qualquer custo. Ele quer colocar outros concorrentes para atrapalhá-la, entretanto só encontra um jogador do time de futebol e um ingênuo, Paul Metzler (Chris Klein, de American Pie, excelente).
Na verdade, Payne, como em seus outros filmes, fala de um indivíduo que gostaria de ser visto pelas conquistas pessoais – que não chamam a atenção – e sair da mesmice. O professor quer vingar através disso o amigo, também professor, que se envolveu com essa aluna e acabou denunciado. Tenta ter filhos com a mulher, Dianne (Molly Hagan), mas está interessado ainda mais em ter uma amante, Linda (Delaney Driscoll) – porém, tudo é visto, por Payne, sem o olhar moralista, em tom de humor e corrossão típicos de sua filmografia. Os personagens nunca agem como se esperava deles, e a lucidez disso é a melhor desculpa para ver um dos bons filmes de colégio já feitos, um dos poucos com real inteligência. Há uma crítica ao comportamento de cada personagem, como ao de uma menina, Lisa (Frankie Igrassia), que, para provocar Tammy Metzler (Jessica Campbell), irmã do outro candidato, o jogador, passa a andar com ele para magoá-la. A irmã resolve se candidatar por vingança ao irmão e à ex-amiga, apenas para tumultuar o ambiente – e Payne é mestre em tumultuar ambientes comuns, porém sempre por meio de uma dramaticidade travada, sem exageros e sem desviar o foco dos personagens para elementos cinematográficos que possam se destacar (seus filmes têm uma direção de arte e uma fotografia sempre naturais, apesar de cuidadosas, por exemplo). Eleição acaba sendo um retrato bastante interessante de certo comportamento político: a da menina que, para não ver a própria mediocridade, passa a ver todos contra ela e seus objetivos – Tracy Flick é o retrato mais bem acabado dessa questão. De qualquer modo, o que mais pode ser acentuado é sua questão entre o que é público e privado – e como os desejos pessoais podem contrastar com o que é considerado justo e dentro das normas.

O filme seguinte sobre os anti-heróis de Payne, Sideways começa como se fosse uma comédia fútil, com piadas e gracejos, mas logo se torna mais densa e séria, com a descoberta de que o personagem principal, um escritor, Miles Raymond (Paul Giamatti), abandonado pela mulher e que sai em viagem com o amigo Jack Lopate (Thomas Haden Church), que está para se casar e é mulherengo, é na verdade um alcoólatra. Em sua obsessão por experimentar vinhos – a viagem é feita por lugares com vinícolas do interior dos Estados Unidos, em Santa Ynez Valley –, Payne desenha o painel de um escritor que não consegue publicar o que considera sua obra-prima, nos moldes joycianos, e tenta preencher sua vida com um novo amor, todavia é sobretudo o retrato de um homem de meia-idade que tenta se encontrar na vida, como acontece em seus roteiros e filmes (como As confissões de Schmidt e Os descendentes).
Giamatti tem uma atuação bastante eficiente, mostrando toda sua desconfiança em relação a uma nova vida e seu desespero de ser aceito, apoiado por um elenco em grande estilo. E Payne novamente mostra o interior norte-americano, o que já acontecia em As confissões de Schmidt, com seus restaurantes de beira de estrada e o isolamento oferecido pela frustração, uma espécie de road movie quase estático e sem aventura. O seu amigo, especialmente, o coloca em várias situações constrangedoras, e representa uma espécie de tentativa de evidenciar a masculinização forçada.
Mas há a sensibilidade insegura de Miles, revelada pela sequência em que ele e seu amigo vão para casa de duas mulheres – Miles se interessa por uma garçonete, Maya Randall, feita por Virginia Madsen, enquanto o amigo fica com Stephanie, a talentosa Sandra Oh. Trata-se de uma pausa romântica muito bem feita, neste sentido, depois com a volta ao isolamento do hotel e, finalmente, um pouco da vivência do bucólico, pelo qual Payne está interessado sobretudo para mostrar o que pode esconder de mais real na estrutura psicológica dos seus personagens.

Estabelecendo relação direta com Sideways, em Os descendentes, Payne está preocupado em tirar de George Clooney a melhor atuação de sua carreira e por isso o filme tem um aspecto trágico familiar, mostrando emoções e constrangimentos dos personagens, característica do cineasta. Ele não gosta desse personagem como gostava do escritor problemático de Sideways – que gostaria de ver sua carreira artística reconhecida –, mesmo que sua assinatura esteja no estilo e na trama, com sua desenvoltura para um roteiro que poderia existir em outros filmes, sendo melhor trabalhado agora. Clooney faz Matt King, um pai de família que mora no Havaí, com duas filhas rebeldes, Alexandra (Shailene Woodley, excepcional) e Scottie (Amara Miller), e cuja mulher, Elizabeth (Patricia Hastie), está na UTI. Para acentuar seu drama pessoal, ela descobre que ela tem um amante – um vendedor de imóveis do lugar (Matthew Lillard), também casado, com Julie (Judy Greer, atriz inexpressiva, que aqui não atrapalha).
O filme basicamente mostra essa busca dele pelo amante da esposa, em meio à venda de um grande terreno da sua família, pretendido sobretudo por seu primo (Beau Bridges), mas é apenas um motivo para mostrar desencontros entre personagens. E o momento em que ele o encontra é o ponto alto desta tensão dispendida ao longo de todo o tempo e do que ele precisa suportar para criar as duas filhas problemáticas, acompanhadas por um rapaz, Sid (Nick Krause), meio namorado de Alexandra, em cuja solidão Matt se apoia para entender a sua própria.
O cenário das praias do Havaí não atenuam este sentimento de perda, e Payne quer que vejamos os personagens como complementares a esta paisagem – por isso, sabemos que eles não podem se desviar do seu passado, que volta a cada instante (seja por meio do coma da mulher, seja por meio do Mal de Alzheimer da sogra), como acontece com Schmidt, McAllister e Milles Raymond – dos outros filmes do cineasta –, exatamente num momento decisivo para a vida de cada um, que concentra todos os momentos, passados ou futuros.
O filme procura, em alguns momentos, representar a ética familiar, e Payne desenvolve isso com talento, dispondo os personagens da maneira mais sóbria, como se fosse um documentário familiar, adquirindo ainda mais intensidade do que aquela mostrada em As confissões de Schmidt e Sideways. As conversas do marido com a mulher em coma permitem a Clooney desempenhar cenas com as quais não estava acostumado, pois em algum momento sempre caía no exagero. Aqui é diferente. Clooney se coloca como um pai de família comum, e acreditamos nisso, com seu ar cansado e corpo arqueado. O momento em que ele reúne os familiares e amigos da esposa para contar a verdade é antológico. Payne filma tudo com mais luz natural do que cinematográfica, o que dá um aspecto de verdade ao que acontece e leva o espectador a se interessar ainda mais pela trama e por esta descendência.

Election, EUA, 1999 Diretor: Alexander Payne Elenco: Matthew Broderick, Reese Witherspoon, Loren Nelson, Chris Klein Produção: Albert Berger, David Gale, Keith Samples, Ron Yerxa Roteiro: Alexander Payne, Jim Taylor Fotografia: James Glennon Trilha Sonora: Rolfe Kent Duração: 103 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Paramount Pictures / Bona Fide Productions / MTV Films

Cotação 4 estrelas e meia

About Schmidt, EUA, 2002 Diretor: Alexander Payne Elenco: Jack Nicholson, Kathy Bates, Hope Davis, Dermot Mulroney, June Squibb, Howard Hesseman, Len Cariou, Harry Groener, Connie Ray, Mark Venhuizen, Cheryl Hamada, Phil Reeves Produção: Michael Besman, Harry Gittes Roteiro: Alexander Payne, Jim Taylor Fotografia: James Glennon Trilha Sonora: Rolfe Kent Duração: 125 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: New Line Cinema

Cotação 5 estrelas

Sideways, EUA, 2004 Diretor: Alexander Payne Elenco: Paul Giamatti, Thomas Haden Church, Virginia Madsen, Sandra Oh, Patrick Gallagher,Missy Doty, M.C. Gainey Produção: Michael London Roteiro: Alexander Payne, Jim Taylor Fotografia: Phedon Papamichael Trilha Sonora: Rolfe Kent Duração: 123 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Fox Searchlight Pictures / Michael London Productions / Sideways Productions Inc.

Cotação 4 estrelas e meia

The descendents, EUA, 2011 Diretor: Alexander Payne Elenco: George Clooney, Judy Greer, Shailene Woodley, Matthew Lillard, Beau Bridges, Robert Forster, Rob Huebel, Michael Ontkean, Mary Birdsong, Sonya Balmores, Amara Miller Produção: Jim Burke, Alexander Payne, Jim Taylor Roteiro: Alexander Payne, Nat Faxon, Jim Rash Fotografia: Phedon Papamichael Duração: 117 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Ad Hominem Enterprises

Cotação 5 estrelas