A juventude (2015)

Por André Dick

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O cineasta italiano Paolo Sorrentino conseguiu chegar a Hollywood depois da recepção que teve seu A grande beleza em 2013, vencedor do Oscar de filme estrangeiro. Não era admirador do filme e achei o prêmio dado bastante injusto, pois parecia que ele desejava emular Fellini de um modo excêntrico e com uma carga emulando excessivamente cartões postais e linguagem facilitada. Em 2015, ele parece estrear (embora o filme não seja norte-americano) em Hollywood, com um grande elenco e num filme considerado menor, principalmente pelos admiradores de A grande beleza. É interessante a perspectiva que se tem sobre determinados trabalhos, pois A juventude me deixou muito mais receptivo, não apenas porque Sorrentino diminui consideravelmente os maneirismos que via no outro filme como consegue, por meio de um equilíbrio maior, fazer uma composição muito emotiva sobre os conflitos e sensações despertados pela velhice e pela juventude.
Michael Caine está especialmente excelente como Fred Ballinger, que passa férias num resort luxuoso nos Alpes suíços, ao lado do grande amigo Mick Boyle (interpretado por um Harvey Keitel fantástico, e se pergunta como ele não estava entre os principais indicados à categoria de ator coadjuvante neste início de ano), que deseja fazer um novo filme, depois de determinados fracassos e está reunido com um grupo de roteiristas. Fred é procurado por um emissário (Alex Macqueen) da Rainha Elizabeth II (para tocar sua obra popular “Canções simples”), mas ele não deseja aceitar o convite. Também no resort estão o ator Jimmy Tree (Paul Dano, em outra grande atuação depois da que apresenta, como Brian Wilson, em Love & Mercy), preparando-se para um novo papel, Maradona (Roly Serrano), cujo nome não é mencionado, mas tem todas as características do futebolista, a nova Miss Universo (Madalina Diana Ghenea) e a figura mais enigmática, uma jovem prostituta (Gabriella Belisario), além de uma jovem massagista (Luna Mijovic Zimic).

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Há não apenas a relação de Fred com Mick e com Jimmy – todas extremamente humanas –, como sua relação com a filha Lena (Rachel Weisz), casada com o filho de Mick, Julian (Ed Stoppard). Obviamente, é uma relação repleta de culpa, à medida que Fred não teria tratado sua esposa da maneira mais aceitável.
Como em A grande beleza e filmes anteriores de Sorrentino, há um cuidado visual muito grande, e pode-se dizer que ele emula uma certa linguagem publicitária. A diferença é que esta linguagem parece mais orgânica e conectada aos personagens que ele está mostrando, ou seja, não parece que ela é o principal elemento e sim um acréscimo. Como consequência, A juventude é uma obra simples, mas sem ser simplista, e não acentua passagens que poderiam lembrar mais um desfile de moda (embora algumas pareçam). O mais interessante na narrativa são os passeios dos personagens pelos Alpes, o que concede ao diretor de fotografia Luca Bigazzi um trabalho excepcional no sentido de sintetizar os enquadramentos e os atores de maneira mais eficientes para o andamento da narrativa. Como o filme anterior de Sorrentino, A juventude é também metalinguístico, mas esse traço é humanizado pela amizade entre os personagens Fred e Mick (que, ao final, se intensifica com uma emoção provocada certamente por influências fellinianas). Eles relembram antigas conquistas e a antiga forma que possuíam, além da influência no mundo das artes (Fred foi amigo de Stravinsky, por exemplo).

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Este é um filme que não se vê mais com tanta frequência: é essencialmente sobre como uma amizade pode persistir no tempo e os sonhos e realizações sempre se anunciam quando o ser humano se depara com seu limite. Os amigos fazem competições curiosas entre si, observam os outros hóspedes do lugar– e a conclusão é sempre a mesma: o tempo nunca conseguiria aproximá-los de alguma definição existencial ou servir como solução para atenuar seus problemas. Essa amizade é comparada às notas de uma música, seja pela maneira como Sorrentino capta a paisagem – com uma notável tranquilidade e, ao mesmo tempo, agilidade – e ao tempo. Em intensidade igual, o corpo, em A juventude, representa o desejo e a sensibilidade de se saber efêmero. Mesmo as lições de moral que se espalham ao longo da narrativa se manifestam como uma espécie de olhar sobre o círculo de situações humanas.
Há também um extremo bom gosto na escolha do design de produção e de figurinos, assim como algumas saídas interessantes para a história, como as apresentações feitas no pátio do resort todas as noites – sem, a meu ver, uma excentricidade nas imagens, mas uma composição muito sensível. Sorrentino lida com o contraste entre belas paisagens e a dificuldade de pessoas que caminham ali, no entanto parece mostrar mais: como a arte se confunde com a vida, sobretudo quando Lena acusa seu pai de ter se dedicado apenas à música, e ele usa, em determinado momento, um papel de bala para tentar compor uma sinfonia diante de uma paisagem pastoril. Do mesmo modo, ele vai sobrepondo os diálogos como camadas de memória, principalmente no encontro entre Mikey e sua atriz mais conhecida, Brenda Morel (Jane Fonda, numa participação memorável). Sorrentino está manipulando o espectador em muitos pontos, mas Caine, Keitel, Dano e Fonda realmente entregam o melhor de sua arte. Este filme é sobre a arte, com virtudes e falhas. Um filme realmente de grande beleza.

Youth, FRA/ITA/SUI/Reino Unido, 2015 Diretor Paolo Sorrentino Elenco:Michael Caine, Harvey Keitel, Rachel Weisz, Paul Dano, Jane Fonda, Alex Macqueen, Roly Serrano, Madalina Diana Ghenea, Paloma Faith, Ed Stoppard Roteiro: Paolo Sorrentino Fotografia: Luca Bigazzi Trilha Sonora: David Lang Produção: Carlotta Calori, Francesca Cima, Nicola Giuliano Duração: 124 min. Distribuidora: Fênix Filmes Estúdio: Indigo Film

Cotação 5 estrelas

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