Rua Cloverfield, 10 (2016)

Por André Dick

Rua Cloverfield, 10.16

Filmes imaginando um futuro sem saída, em que os seres humanos são colocados numa situação-limite, nunca saem de moda, pois parecem sempre mexer com o inconsciente coletivo, de receio quanto às novas gerações e de como o planeta será habitado daqui a alguns anos. Do mesmo modo, obras envolvendo uma ameaça à própria sobrevivência se proliferam com o toque de Hollywood. A continuação (pelo menos é o que subentende o título) do cult Cloverfield recebeu a mesma produção de J.J. Abrams, o diretor que estreou no cinema com a terceira parte de Missão impossível e vem atraindo atenção por ajudar a revitalizar outras séries, como as de Star Trek e Star Wars, com um breve intervalo autoral – apesar de suas claras influências – no nostálgico e expressivamente bem-sucedido Super 8 (isso sem lembrar de seu grande acerto televisivo: Lost).
A narrativa se passa não em Nova York e sim num abrigo da Louisiana, com cenário claustrofóbico, em que um homem, Howard (John Goodman) diz cuidar de uma jovem, Michelle (Mary Elizabeth Winstead), após um acidente bastante suspeito, e de um rapaz, Emmett (John Gallagher Jr.), de uma ameaça externa que é colocada sempre em dúvida pelo espectador. Escrito por Josh Campbell, Matthew Stuecken, e Damien Chazelle (diretor de Whiplash), esta continuação tem a estreia de Dan Trachtenberg atrás das câmeras. E, se a obra tenta estabelecer uma ponte com Cloverfield, seu cartaz e marketing promocional que antecedeu seu lançamento parecem os de Super 8.

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Eu poderia dizer que o filme apresenta algumas obsessões de Abrams, a começar por exatamente por algo estranho acontecendo e colocando a humanidade em polvorosa, mas seu principal traço é a relação forçada entre essas figuras diferentes. A princípio, Howard tem dúvidas quanto à Michelle, mas, aos poucos, parece que há uma aproximação familiar. Toda a ambientação para que esses três pareçam enclausurados funciona plenamente durante a narrativa. Mais uma amostra de como o cinema norte-americano tem talento para criar um cenário restrito com grande design de produção e muitos detalhes (a sensação é de que, com seus neons, jukebox, mesa de sinuca, jogos e filmes, o abrigo é uma espécie de cenário atemporal da própria cultura norte-americana), Rua Cloverfield, 10 se baseia numa espécie de nostalgia que Abrams deve conservar de séries fantásticas. Assim como Steven Spielberg se baseou em No limite da imaginação para compor sua ótima série dos anos 80 (infelizmente pouco lembrada) chamada Histórias maravilhosas, J.J. Abrams tenta recuperar essa sensação pelo olhar contemporâneo, em que as ameaças estrangeiras parecem se proliferar dentro dos Estados Unidos, com uma sensação de pouca liberdade para seus cidadãos. Isso já estava claro em Super 8, quando a serenidade dos extraterrestres dos filmes de Spielberg (excluindo Guerra dos mundos) é substituída por uma cidade em polvorosa depois de um estranho acidente de trem, do qual um grupo de crianças é testemunha.

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Que tipo de acontecimento estaria deixando os personagens nesse abrigo? Seria uma invasão russa, para lembrar um dos receios que existiam na Guerra Fria (resultando em um filme, dos anos 80, chamado Amanhecer violento)? Ou alguma praga capaz de contaminar, como diz Howard? Temas como esse são bem trabalhados pelo roteiro de Campbell, Stuecken e Chazelle, apontando para os meios culturais, e dialogam principalmente com a versão já referida de Guerra dos mundos feita por Spielberg.
Os personagens de Michelle e Emmett possuem uma simpatia inerente graças a seus intérpretes, sobretudo Winstead, presença de destaque desde Scott Pilgrim, mas sem se menosprezar a ótima participação de Gallagher Jr., visto ao lado de Brie Larson no sensível Temporário 12. É Winstead que dá verossimilhança ao comportamento da personagem central, desconfiada do fato de estar naquele abrigo. Ainda assim, quem rouba a cena é John Goodman, numa atuação capaz de lembrar seus melhores momentos – um estranho assustador (como, especialmente, em Barton Fink) – e cujo passado pode ser a verdadeira ameaça existente aqui se não fosse diluída em meio aos contornos gerais. Isso poderia ser, caso se explorasse melhor, um novo The fog – A bruma assassina ou O enigma de outro mundo, ambos de John Carpenter, no entanto ele tem pressa, a pressa dos blockbusters.

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Há algumas tentativas do diretor em surpreender, e as surpresas podem não se resolver da melhor maneira, dando uma sensação de algo feito às pressas para se acomodar à história e sem aproveitar, por exemplo, exatamente esse passado do personagem de Goodman. É como se o roteiro quisesse esconder o que verdadeiramente sugere: um lado encoberto da América, e o diretor, de modo evidente, mostra sua inexperiência até então atrás das câmeras, querendo buscar atalhos para não tratar de temas que deixa em suspenso no ar.
Inevitável dizer que ao longo da história há algumas surpresas, o que não impede de o clímax ser inevitavelmente óbvio diante do potencial. O primeiro era um legítimo found footage, com algumas boas saídas e efeitos visuais decentes, mas carecia de alguma força que reunisse seus pedaços. Este tem uma força na reunião desses personagens, no ritmo e no suspense de muitas cenas – e deixando a sensação de que falta algo, ou seja, que não estamos vendo mais do que uma determinada cena de Guerra dos mundos mais extensa. Há alguns diálogos que poderiam ser mais desenvolvidos, não fosse a preferência, claro, de Trachtenberg, certamente influenciado por Abrams, de sintetizar tudo por meio de uma explicação definida. Tudo no cinema de Abrams (e digo isso porque sua produção se estende sobre o estilo de todo o filme, assim como Spielberg em Poltergeist – O fenômeno, não assinado por ele e sim por Tobe Hooper, mas tão dele quanto), no bom e mau sentido, deve ser explicado quase didaticamente ao espectador. Em muitos momentos ele acerta; em outros, como aqui, o que seria um grande suspense se torna apenas num filme competente e com ótimas atuações.

10 Cloverfield lane, EUA, 2016 Diretor: Dan Trachtenberg Elenco: Mary Elizabeth Winstead, John Goodman, John Gallagher Jr. Roteiro: Damien Chazelle, Josh Campbell, Matthew Stuecken Fotografia: Jeff Cutter Trilha Sonora: Bear McCreary Produção: J.J. Abrams, Lindsey Weber Duração: 103 min. Distribuidora: Paramount Pictures Brasil Estúdio: Bad Robot / Paramount Pictures / Spectrum Effects

Cotação 3 estrelas e meia

 

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2 Comentários

  1. João

     /  7 de dezembro de 2016

    Tava lendo a critica desse filme no omelete quando vi alguém comentando o link desse blog. Que texto INCRÍVEL, cheio de referências e ainda me ajudou a sacar da onde eu sentia que conhecia aquela atriz! hahha Precisava comentar isso antes de ler outros textos, parabéns!😉

    Responder
    • André Dick

       /  7 de dezembro de 2016

      Prezado João,

      não sabia que havia um link no Omelete para esta crítica. Fico feliz que tenha gostado do texto e das referências contidas nele. A atriz Mary Elizabeth Winstead vem se destacando cada vez mais. Se puder, veja um filme com ela chamado Faults.

      Agradeço pelo comentário e volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder

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