A grande aposta (2015)

Por André Dick

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Este novo filme de Adam McKay, diretor de O âncora, Ricky Bobby e Quase irmãos (todos com Will Ferrell) e também presente na direção e roteiros de Saturday Night Live, é baseado num livro escrito por Michael Lewis, sobre a crise financeira de 2007-2008, causada, como todos sabem, por uma bolha no mercado imobiliário. Em 2005, a possibilidade de isso acontecer, especificamente em 2007, é antevista por Michael Burry (Christian Bale). Ele configura esse mercado como completamente instável, baseado em empréstimos fora de qualquer padrão. Visto como uma pessoa antissocial (e assumindo-se como tal), ele vai a vários bancos para tirar lucro da ideia, apostando o dinheiro da empresa para ganhar em cima da esperada perda na área. Os bancos apostam que o mercado é seguro, e ele acaba sendo visto como um desequilibrado; riem dele pelas costas.
Num determinado local, quem ouve a história de suas peregrinações é Jared Vennett (Ryan Gosling), que logo nota que as previsões são verdadeiras, e se junta a Mark Baum (Steve Carell). Os dois descobrem que a possível quebra está ligada a CDOs, grupos de empréstimo. Baum trabalha com Porter Collins (Hamish Linklater), Danny Moses (Rafe Spall) e Vinnie Daniel (Jeremy Strong), tentando ser convencida pela esposa, Cynthia (Marisa Tomei), a largar a profissão e o universo de Wall Street. A profissão de quem lida com o dinheiro é constantemente satirizada em A grande aposta e associada, como no filme de Scorsese, a strippers e boates onde ele é jogado pelos ares.

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Há também, na mesma escala, os investidores Charlie Geller (John Magaro) e Jamie Shipley (Finn Wittrock), sabendo das ideias de Burry por via indireta, que passam a trabalhar para o ex-banqueiro Ben Rickert (Brad Pitt). Todos esses personagens estão envolvidos com a mesma possibilidade, no entanto nunca são vistos juntos, ou seja, eles apenas anteveem o que irá acontecer sem terem certeza de que isso acontecerá – ao mesmo tempo em que têm essa certeza.
McKay trabalha com esse elenco de maneira muito competente, mas estranhamente desigual, sendo prejudicado pela montagem, que dá espaço maior a personagens não tão interessantes quanto os de Bale, Pitt, Rosling e Carell, os principais (e fiquei imaginando se tivessem conseguido encaixar aqui Jim Carrey em seus melhores momentos). Todos estão muito bem, especialmente Carell, na atuação dramática que poderia ter lhe rendido uma nova indicação ao Oscar e complementa, em outro plano, aquela excelente que teve em Amor a toda prova (em que também contracena com sua esposa aqui, Tomei). O personagem de Bale é fascinante, principalmente no início, quando lhe é dado um merecido espaço, com suas manias, fuga do stress por meio de uma bateria e a Síndrome de Asperger. McKay, ainda assim, se equivoca ao restringi-lo somente a um espaço, sendo como o homem que não vê os outros, mas sabe tudo o que irá acontecer aos outros. Falta, digamos, um ponto alto, capaz de atrair todos os personagens, mesmo separados, para o mesmo núcleo dramático.

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O roteiro é bastante complexo, principalmente para quem não sabe os detalhes da crise, ou seja, em certos momentos parece mais para o público norte-americano. No início, existe a impressão de que se trata mais de uma comédia satírica sobre o que aconteceu, porém, aos poucos, vai se anunciando mais um drama nas entrelinhas referentes aos personagens, sobretudo nas atuações de Pitt e Carell, às vezes oportunizando mesmo uma lição de moral, o que seria dispensável diante do que o filme nos mostra (e dificilmente A grande aposta pode ser visto como uma comédia, do modo como é vendido, não mais, por exemplo, do que um Cosmópolis, uma sátira ferina de Cronenberg tanto ao capitalismo exacerbado quanto aos ocupantes de Wall Street).
Há uma agilidade sensível na direção, ao mostrar personagens falando para a câmera. Isso às vezes funciona, outras não (passa a ser um recurso estranho quando ele se ausenta por muito tempo), no entanto a montagem vai selecionando muitas imagens para que o espectador nãos e distraia, mesmo que não entenda plenamente o contexto. Para isso, ele coloca Margot Robbie (curiosamente de O lobo de Wall Street) e Selena Gomez para dar explicações práticas das negociações em andamento, sobretudo, no segundo caso, quando há uma reunião em Las Vegas para discutir os rumos da economia. Há uma certa linguagem moderna que, por vezes, acaba se chocando com as reflexões do filme, mais exatamente do personagem de Carell, e isso cria um conflito claro na estrutura.

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Às vezes, ele lembra O lobo de Wall Street pela bateria de diálogos rápidos (Pitt tentou, lembremos, comprar os direitos e fazer esse filme), assim como uma excelente obra dos anos 90, chamado O sucesso a qualquer preço. E é interessante como todos os atores envolvidos no projeto já participaram de filmes com uma sátira ou crítica ao chamado capitalismo (mesmo Gosling fez Lost river, que trata também de pessoas sendo desalojadas e não deixa de ser uma metáfora da bolha financeira de 2008). Mas aqui não há o talento de Martin Scorsese quando, em O lobo de Wall Street, desmontou esse universo com o auxílio da atuação de DiCaprio. Havia mais foco na maneira como se dava esse olhar, e os personagens eram caricaturais, sem nenhum moralismo, quando aqui pelo menos o personagem de Pitt aparece para dizer palavras capazes de mostrar os verdadeiros erros. É interessante como McKay, um diretor de comédias, acaba levando mais a sério e querendo demonstrar com dados e definições de conceitos esse universo. Tudo é entregue para que o espectador possa selecionar as partes capazes de deixar o panorama mais claro; às vezes não fica, mas o elenco se esforça.
Mesmo com todas as falhas, ainda há mais virtudes em A grande aposta e uma real vida nas atuações, sem a neutralidade forçada e esforçada, por exemplo, de um Spotlight. Nisso, a fotografia de Barry Ackroyd, apesar de lembrar bastante a da série The Office (com Carell), e outras séries, diga-se de passagem, oferece um movimento ininterrupto e capta melhor os cenários, seja do centro de Nova York, dos escritórios ou de Las Vegas. A grande aposta acaba tendo como referência uma dissolução interessante de gêneros no fim das contas, além de contar com um elenco estelar em grande forma, apesar de alguns não terem o tempo necessário para poderem brilhar, talvez mesmo porque não quisessem, com a consciência de que o roteiro e a visão sobre o colapso financeiro e suas consequências até hoje, inclusive seu reaproveitamento sob outras formas, conta mais para o espectador ter consciência sobre o tema.

The big short, EUA, 2015 Diretor: Adam McKay Elenco: Christian Bale, Steve Carell, Ryan Gosling, Brad Pitt, Finn Wittrock, Marisa Tomei, Max Greenfield, John Magaro, Karen Gillan, Melissa Leo, Hamish Linklater, Billy Magnussen, Rafe Spall, Tracy Letts Roteiro: Adam McKay, Charles Randolph Fotografia: Barry Ackroyd Trilha Sonora: Nicholas Britell Produção: Brad Pitt, Dede Gardner Duração: 130 min. Distribuidora: Paramount Pictures Estúdio: Plan B Entertainment / Regency Enterprises

Cotação 3 estrelas e meia

 

Os suspeitos (2013)

Por André Dick

Os suspeitos

Independente de se admirar David Fincher, parece inevitável, em algum momento, seja pelo estilo narrativo, seja pelo aspecto visual, reconhecer que o thriller sobre caça a psicopatas não seria o mesmo sem a sua contribuição oferecida em Seven, Zodíaco e Millennium. Hoje, mais do que se buscar a influência de nomes clássicos, como Hitchcock, é em Fincher que os cineastas contemporâneos, e os diretores de TV do gênero policial, parecem buscar inspiração, mesmo que o débito em relação a Hitchcock exista no próprio Fincher. Podemos ver isso este ano em Terapia de risco, de Soderbergh, e agora em Os suspeitos, de Denis Villeneuve, comparado com Zodíaco e Seven. Contando com o trabalho de fotografia do exímio Roger Deakins, colaborador habitual dos irmãos Coen e responsável pelo visual extraordinário de 007 – Operação Skyfall, Os suspeitos ainda possui um elenco de primeira linha. Seu cenário, por sua vez, é uma mistura entre Seven (pela chuva constante) e Millennium, e a trama busca criar várias trilhas, partindo de uma determinada situação que lembra aquele que vemos em A caça.
No Dia de Ação de Graças, Keller (Jackman) e Grace Dover (Bello) vão se encontrar com um casal amigo, Franklin (Howard) e Nancy Birch (Davis). Por desatenção, deixam suas filhas saírem sozinhas, Anna (Erin Gerasimovich) e Joy (Kyla Drew Simmons), respectivamente. Havia um trailer na rua em frente, segundo o filho dos Dover, Ralph (Dylan Minnette), e todos desconfiam que a evidência aponta para o responsável pelo consequente desaparecimento delas. O detetive Loki (Jake Gyllenhaal), numa lanchonete, é alertado sobre o caso e logo chega, com um grupo de policiais, ao veículo, onde descobrem Alex Jones (Dano, excelente mais uma vez, mesmo que com poucas linhas de diálogo). Trata-se de um rapaz com QI de uma criança de 10 anos, cuidado por uma tia, Holly (Melissa Leo), depois de ter perdido os pais. Villeneuve coloca o personagem de Keller querendo vingar o desaparecimento da filha, e daí por diante o seu conflito com a polícia e o detetive Loki se torna cada vez mais crescente.  Um grupo de personagens instigante poderia resultar num thriller policial de primeira grandeza, e Os suspeitos entrega pelo menos uma primeira meia hora fascinante, com uma boa colocação dos personagens e criação de um universo isolado, perdido no interior, de onde nada parece ter saída – e este ano tivemos a sensação em O lugar onde tudo termina –, mas com o passar do tempo parece se perder em algum ponto.

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Se o clima criado é realmente tenso e assustador em alguns momentos, e as pistas falsas, bem-vindas, o diretor parece um pouco surpreso ao lidar com este elenco. Hugh Jackman parece adotar um overacting sempre que está em exposição, como se quisesse uma indicação ao Oscar (evidente em suas explosões repentinas, sobretudo aquela em que segue, passo a passo, a atuação de Sean Penn em Sobre meninos e lobos), e o excelente casal de atores Terrence Howard e Viola Davis, deslocado da narrativa, tenta se encontrar em meio a dores de consciência diante de ações equivocadas que se perdem, demorando a criar algum tipo de ligação (e quase 150 minutos permitiriam isso), assim como quando a personagem de Maria Bello se torna acamada. Há, inclusive, algumas questões morais e religiosas colocadas de forma apressada, sem o devido peso, como se fossem inseridas para dar uma espécie de verniz (o que acontecia de forma orgânica em Seven), como a conversa inicial, que não se desenvolve ao longo do filme.
Este é o principal problema do filme longo, como Os suspeitos: é preciso, sobretudo, um trabalho de direção exato para ligar as pontas, mesmo que os personagens pareçam dispersos. Este é o talento de David Fincher, mas não de Villeneuve, que adota, em alguns momentos, movimentos de câmera querendo dar impacto a momentos mais comuns, como uma sequência em que filma um rio para se chegar ao grupo que está em busca das crianças, descuidando-se de detalhes que poderiam ser esclarecedores – e os símbolos que ele coloca à disposição do espectador na meia hora final dão a impressão de atender, na verdade, uma necessidade de soar mais hermético, sem nunca encontrar o ponto exato –, embora em outros surpreenda, quando, por exemplo, filma dois troncos de árvores para assinalar que as meninas desapareceram de casa, criando uma estranha fusão entre a natureza e o ser humano.

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Villeneuve tem uma noção bastante clara do cenário que dirige, criando momentos fantasmagóricos, mas ele não consegue delinear os personagens, talvez porque o roteiro de Aaron Guzikowski não tenha lhe permitido isso. Por isso, a presença de Jack Gyllenhaal chega a ser surpreendente. Mesmo com alguns cacoetes visando o Oscar e um enchimento na barriga para dar aspecto de homem mais velho, Gyllenhaal mostra que desde sempre foi um ator subestimado (está irrepreensível em Zodíaco e O segredo de Brokeback Mountain, para citar dois filmes). Os momentos em que ele está em cena, na pele de um detetive que parece tão congelado como o cenário que o cerca, quando não atrapalhado em sua investigação, tornam Os suspeitos um suspense mais interessante de ser assistido, com destaque para uma perseguição noturna, em que ele se vê exposto de maneira decisiva e para o momento em que precisa enfrentar Keller num carro.
O Festival de Toronto tem sido reconhecido por antecipar possíveis favoritos ao Oscar, e não por acaso recebeu Os suspeitos com euforia. Levando-se em conta que Argo, no ano passado, foi recebido com esse ânimo e recebeu o Oscar de melhor filme este ano, não parece, neste caso, que tenham novamente acertado. Os suspeitos é um thriller cujo diferencial está apenas no clima criado pela fotografia de Roger Deakins e nas atuações de Gyllenhaal e Dano. Embora tenso e perfeitamente assistível, quanto a suas surpresas e desfecho excessivamente expositivo, quando não constrangedor – com o roteiro querendo encobrir inúmeras falhas, e citá-las seria entrar em spoilers –, trata-se de mais uma thriller que tenta ser grande apenas na duração. Mas, de fato, compará-lo a Seven ou Zodíaco, seu maior objetivo, passa a ser, desde já, mais uma pista falsa.

Prisoners, EUA, 2013 Diretor: Denis Villeneuve Elenco: Jack Gyllenhaal, Hugh Jackman, Maria Bello, Melissa Leo, Paul Dano, Terrence Howard, Viola Davis, Wayne Duvall, Zoe Borde, Dylan Minnett, Erin Gerasimovich, Kyla Drew Simmons  Roteiro: Aaron Guzikowski Fotografia: Roger Deakins Trilha Sonora: Jóhann Jóhannsson Produção: Adam Kolbrenner, Andrew A. Kosove, Broderick Johnson, Kira Davis  Duração: 146 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: 8:38 Productions / Alcon Entertainment / Madhouse Entertainment

Cotação 3 estrelas

Oblivion (2013)

Por André Dick

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Tom Cruise é um dos melhores atores de sua geração, como provam suas atuações em Nascido em 4 de julho, Rain man e Magnólia. No gênero de ficção científica, havia feito dois filmes marcantes com Spielberg, Minority Report e Guerra dos Mundos, mesmo com sua irregularidade. Por isso, com Oblivion, havia a expectativa de um filme pelo menos original. Desta vez, ele faz uma parceria com Joseph Kosinski, que coescreveu os quadrinhos em que o filme se baseia, diretor de Tron – O legado, habituado aos efeitos especiais, mas cuja sensibilidade tem dificuldade de ir além daquele universo que até agora retratou: o eletrônico e o robótico. Uma qualidade sua é que costuma se cercar de técnicos talentosos, e não é diferente aqui. A fotografia é de Claudio Miranda (que  ganhou o Oscar deste ano com As aventuras de Pi), o designer de produção de Darren Gilford (o mesmo do seu filme de estreia) tem algumas boas alternativas, embora, na maior parte do tempo, lembre outros filmes de futuro desolador, como o recente Prometheus, e a trilha da banda francesa M83 consegue manter certo ritmo com sintetizadores, fazendo o que o Daft Punk fez em Tron – O legado. E, na produção, temos até mesmo o nome de David Fincher (diretor de Seven e Millennium).

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Jack Harper (Cruise) se encontra em 2077 naquilo que sobrou da Terra, com Vika (Andrea Riseborough, transmitindo certa emoção, apesar de sua aparência glacial), tendo de cuidar de robôs de combate, os drones, que ajudam a proteger estações de água, produtoras de energia, e a controlar os alienígenas saqueadores, os quais destruíram a Lua e tentaram exterminar os humanos. Eles precisam cumprir essa missão de vigiar antes de irem para uma das luas de Saturno, para onde foram os humanos que restaram. Supervisionados diariamente por Sally (Melissa Leo), eles vivem numa espécie de purgatório em meio a nuvens, sobre a terra devastada por terremotos e tsunamis (um bom momento é quando Kosinski focaliza as ruínas de uma arquibancada de estádio em em meio às lembranças de Harper) e a única ligação estabelecida é aquela que envolve o conceito de equipe e, se há algum jogador prestes a desistir do time, pode ser sumariamente cobrado.
No entanto, Harper tem lembranças recorrentes do período pré-apocalíptico, todas com uma mulher (Olga Kurylenko) no alto do Empire State, que imagina se irá encontrar em determinado momento, e é obcecado por livros e pelo poema “The Lays of Ancient Rome”, de Thomas Macaulay. Esta primeira parte tem os momentos mais interessantes de Oblivion, e ele consegue se sustentar com razoável progressão até em torno de 50 minutos, mesmo sendo basicamente centrado na relação entre Jack e Vika. Quando ingressa o personagem de Morgan Freeman, um ator marcante quando tem um papel à altura, o filme, de forma surpreendente, cai de qualidade, e os diálogos, até então presentes mais em conversas de averiguação de área, mantendo certo suspense, tornam-se mais deslocados, sem estabelecer conexão entre as partes. Os novos personagens se estabelecem com dificuldade, devido à pouca sutileza do diretor, e começa a existir um salto de cena para cena, como se a cada momento iniciasse um novo filme, e, se o anterior já não satisfazia, o incômodo passa a ser presente. Nem mesmo o tom esperançoso e ecológico em algumas partes anima a trama.
Há uma compilação estranha de referências, e sabe-se que é difícil obter originalidade no cinema contemporâneo. Mas um filme como Oblivion, que mistura um excesso de filmes, partindo, inclusive, de imagens oferecidas por eles, desde O vingador do futuro e O exterminador do futuro, passando por Matrix e Eu sou a lenda, até Independence day e 2001 (procurando colocar robôs com luzes idênticas ao HAL 9000 e um gráfico final cuja pretensão equivale à do roteiro), parece indicar uma dificuldade ostensiva em dizer algo minimamente novo. Com poucas cenas de ação, a limitação fica mais evidente. Tom Cruise também anda de moto, evocando Top Gun, finge estar num estádio de beisebol com um boné, menção a Questão de honra, e procura resquícios de plantas (como uma espécie de Wall-E). Você vai encontrar muitos outros filmes aqui, e os spoilers irão proliferar dentro do próprio filme, antes da próxima sequência. É interessante, nesse sentido, que o roteiro tenha a colaboração de Michael Arndt (autor do divertido Pequena miss Sunshine), a quem coube a corajosa versão final.

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Em Encontro explosivo, sabíamos que Tom Cruise satirizava a si mesmo como Ethan Hunt; em Oblivion, a sátira não é evidente e a pretensão parece sintetizar a ficção científica dos últimos 40 anos, com uma homenagem ininterrupta durante suas duas horas, a última especialmente cansativa. Na parte final, quando o roteiro poderia apontar questões inusitadas e mesmo metafísicas para explicar as longas exposições do filme, parece se perder. É aí que apontam as principais falhas de Kosinski: ele não chega a ser um cineasta formado. É como se ele tentasse ainda esboçar ideias, mas elas só conseguissem alguma sustentação com orçamentos milionários, dedicado mais a compor histórias em que a humanidade é, particularmente, um detalhe, ou um acidente de percurso. A questão é que Oblivion persegue o sucesso e a aceitação a qualquer custo, sem sair por um segundo sequer do programa. Como filme, pode ser assistível; como cinema, é difícil saber o que acrescenta.

Oblivion, EUA, 2013 Diretor: Joseph Kosinski Elenco: Tom Cruise, Morgan Freeman, Nikolaj Coster-Waldau, Olga Kurylenko, Nikolaj Coster-Waldau, Zoe Bell, Melissa Leo, Andrea Riseborough, James Rawlings Produção: Joseph Kosinski, David Fincher, Peter Chernin, Ryan Kavanaugh, Dylan Clark, Barry Levine Roteiro: Joseph Kosinski, William Monahan, Michael Arndt, Karl Gajdusek Fotografia: Claudio Miranda Trilha Sonora: M83 Duração: 124 min. Distribuidora: Paramount Pictures Brasil Estúdio: Chernin Entertainment / Universal Pictures / Radical Pictures / Ironhead Studios

2  estrelas

O voo (2012)

Por André Dick

O voo.Filme.Imagem

Demasiada carga leva o diretor Robert Zemeckis, depois de receber o Oscar de melhor filme e diretor por Forrest Gump em vez de Tarantino e seu Pulp Fiction. Zemeckis é, antes de tudo, um artesão descoberto por Steven Spielberg sobretudo depois de sua joia Febre da juventude, em homenagem aos Beatles, e que nos anos 80 voltou a capturar parte da juventude e da infância na trilogia De volta para o futuro e Uma cilada para Roger Rabbit, projetos de ponta. Se depois de Forrest Gump, o diretor só voltaria a acertar novamente em Contato e Náufrago, dedicando-se por um tempo a animações um tanto desajeitadas (como O expresso polar e Beowulf), desta vez ele retoma a agilidade da ação exibida em seus melhores momentos nos anos 80 e 90 em O voo, o filme que também marca a maior atuação de Denzel Washington desde Dia de treinamento, pelo qual recebeu o Oscar de melhor ator.
Ele interpreta Whip Whitaker, um piloto de avião movido a drogas, cocaína e álcool, principalmente (daqui em diante, possíveis spoilers). Inicia-se o filme com ele dividindo a cama com uma aeromoça, Katerina Márquez (Nadina Velazquez), colega de trabalho, num hotel perto de um aeroporto. Com voo marcado para a manhã, Whitaker não parece tão alterado como deveria, apesar do copiloto, Ken (Brian Geraghty), e de outra aeromoça, Margaret (Tamara Tunie), perceberem algo estranho. Depois de enfrentar uma tempestade na decolagem, o percurso fica mais tranquilo, até o surgimento de um problema técnico. Zemeckis filma esta sequência com perícia, colocando o espectador no meio de uma manobra arriscada para Whitaker tentar salvar sua tripulação. Com o feito realizado, ele acorda numa cama de hospital, sendo logo cercado por policiais e por Charlie (Bruce Greenwood), amigo que trabalha no Sindicato. No hospital, além de receber a visita do amigo traficante Harling Mays (John Goodman, divertido), ele conhece Nicole (Kelly Reilly), cuja ação na primeira parte divide as atenções com as manobras de Whitaker. É esse encontro entre os personagens que Zemeckis pretende filmar e o que o personagem precisa perder para que haja um reencontro com a sua fazenda de infância. Diante do seu estado físico e emocional, ele precisará explicar, com a ajuda do advogado Hugh Lang (Don Cheadle), como conseguiu pilotar se estava sob efeito de drogas. E, aos poucos, como o personagem de Tom Hanks, em Náufrago (com o qual O voo, não só pelo diretor, tem semelhanças, também por seu início), ele irá valorizar determinadas coisas para as quais não dava importância.

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A princípio, O voo está situado num limiar entre a investigação de um acidente e a procura de provas, de ambos os lados, do sindicato e da National Transportation Safety Board (NTSB), que investiga a ação dos pilotos, para se provar ou negar determinadas situações examinadas, e a compreensão de que o personagem de Washington tem problemas alcóolicos que o imobilizam tanto diante de uma nova relação quanto com sua família, que não deseja vê-lo. Parece ser apenas uma recorrência a velhos clichês, mas Zemeckis não verte isso de maneira fácil e o personagem sendo um piloto de avião não se apresenta de maneira tão óbvia. O diálogo entre Whitaker, Nicole e um jovem acometido pelo câncer na escadaria do hospital é especialmente bem construída, com suas peças sendo jogadas aos poucos, até que se convença o espectador sobre cada personagem. No meio de toda sua situação pessoal trágica, encontra-se a crença ou não em Deus e na religiosidade.
Whitaker tenta convencer a todos que só ele poderia realizar a manobra feita e que dependeu apenas de si mesmo, sem nenhuma ajuda divina. Os laudos técnicos lhe dão razão. Mas como Whitaker pode entrar numa reunião de alcóolicos anônimos se ele, na verdade, se considera um herói inatingível, capaz de superar tudo o que pode ser crença pessoal, mesmo independente da religião? É esta medida que o roteiro de John Gatins, indicado ao Oscar, faz de maneira sensível. Neste sentido, O voo não está centrado apenas numa cena jurídica, que pode inocentar ou culpabilizar o personagem central, e sim numa cena de dilemas, ética e crença naquilo que não pode ser rapidamente entendido e no vício que não pode ser enfrentado sem o enfrentamento pessoal e do que ele mesmo próprio acredita (lamenta-se que, nesta etapa, a participação de Kelly Reilly diminua).

O voo.Filme

Washington atua de modo excepcional como Whitaker, revelando minúcias e relutâncias de um verdadeiro personagem, pois O voo é um estudo sobre seus movimentos e sobre sua percepção da realidade. Ele é um ator completo num momento especialmente talentoso: seu trabalho com o olhar, demonstrando sua insegurança e angústia, e, ao mesmo tempo, sua raiva contida, é apenas para grandes performances. Num ano com Day-Lewis e Phoenix em grande forma, Washington mostra que não fica nada a dever, construindo um personagem enigmático. Não se trata exatamente de um personagem exatamente confiável, mas com falhas, com problemas na relação com o filho e a ex-mulher e na sua dificuldade de lidar com o que deve ser revisto na sua passagem pelo avião antes do acidente, o que faz com que o espectador se aproxime dele – e em momentos cruciais passe a querer que ele de fato consiga se estabelecer de forma mais equilibrada, sem que isso soe afetado. Sua tentativa de se inserir no meio político para tentar fugir de suas responsabilidades e suas relações atribuladas com o advogado que tenta representá-lo do melhor modo, e no entanto é ignorado quase sempre em cena, são algumas das características que se inserem no trabalho de Zemeckis para demonstrar que na verdade estamos diante de um personagem absolutamente solitário, mas por seu próprio desinteresse em se modificar diante de seu passado.
Lamenta-se apenas que O voo não desenvolva alguns relacionamentos e personagens da melhor forma e insista, ao final, com uma espécie de mensagem para tudo o que aconteceu, menosprezando um pouco a compreensão do espectador e sua liberdade de imaginar que o personagem de Whitaker não é um molde feito para indicar determinados caminhos ou não. Este final é apontado, de fato, como seu grande problema. No entanto, não apaga o que vem antes: O voo é um filme dramático, com ótimo elenco, capaz de prender a atenção e mesmo apresentar uma discussão interessante por trás de sua narrativa.

Flight, EUA, 2012 Diretor: Robert Zemeckis Elenco: Denzel Washington, James Badge Dale, Don Cheadle, John Goodman, Kelly Reilly, Bruce Greenwood, Melissa Leo, Nadine Velázquez, Tamara Tunie Produção: Laurie MacDonald, Walter F. Parkes, Jack Rapke, Steve Starkey, Robert Zemeckis Roteiro: John Gatins Fotografia: Don Burgess Trilha Sonora: Alan Silvestri Duração: 138 min. Distribuidora: Paramount Pictures Brasil Estúdio: Paramount Pictures / Parkes/MacDonald Productions

Cotação 3 estrelas e meia